sexta-feira, 25 de maio de 2012

Matemática e semiótica


John Chamberlain, 1961

será que se as múmias fossem craques em solucionar teoremas, os números seriam múmeros?

Que não sabem o que é redundância



Nos lugares certos

uma vez sentiu que ela queria pular no seu colo à primeira margem aberta. Mas não seria boa ideia. Ela que era tão distinta. Só que não podia ser assim, é claro, naqueles casos. A carne de sol e a macaxeira, não estavam nada más. O pequeno restaurante era limpo, deserto, na Zona Oeste. Parecia um sonho? Ou uma transparência naquele verão com friagens? Chegava-se e saia-se dele por táxi e com aquela sensação de nunca mais, insuperabilidade. Mas o fato de ela estar toda trincada não era nada bom para a caixinha de música. E melhor não misturar consolo com prêmio de consolação. E ainda havia amiga, inabilidades, uma longa língua. Ter de lidar com isso quando voltassem à província 

as distintas não perguntam certas coisas. Coisas com coisas. O fio da elegância não lhes dá criar vogais entre consoantes. Ou pãos, pãos, queijos, queijos. Jamais dizem perempitório. Dizem peremptório, e olham em volta apenas duas vezes para não descentrar conversa ou parecer aquelas atrizes que dizem assim “é aquela coisa do”, ou “sabe” ou “gente, eu amo”. E é de particular delícia quando descem à vulgaridade, e se conhece a mulher. Nem profissionais fazem tão bem. E quando os anos passam - ah, por quê? por quê? - por mais arredondas e matronas que se tornem, não perdem nunca essa destreza invulgar de haverem sido as mulheres bonitas nos lugares certos nos lugares certos

as que não sabem o que é redundar

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Erotomania

Malgorzata Buczek

-ou Devaneios Eróticos na Era do Virtual

vá pensando. o virtual como luva nas mãos daqueles que fantasiam. 
porque ela ou ele ouviu tal música, assinalou a leitura de tal livro, viu tal filme. 
ou seja, por causa dessa cláusula secreta, que mesmo os dois que presumidamente a compartem nunca a declararam, love is in the air. 
(is it really?)
*
é como não olhar para além do espelho diante do qual se faz caras e bocas aos dezessete. e há ainda os que vão adiante, e não cabendo em si ao descobrir que ela ouviu “r.i.p” com rita ora ou anda lendo d. h. lawrence, postam textinhos para informe do mundo: olha, gente, estão apaixonados! não é original? e são certamente correspondidos. nem que seja só no fundo de suas cacholas. ou no fundo sem fundo dos devaneios erotômanos.
lambisgoias e lambisgoios gastam tempo e energias nisso. sirigaitas e sirigaitos fazem a glória da indústria de cosméticos e da indústria esotérica e das fábricas de reflexos e dos centros de fisicultura. para não falar dos terapeutas e nutricionistas. reais e virtuais. abra uma janela chamada espelho. e a chame de 'mon amour'. não importa o navegador. Espelho era uma das poucas janelas virtuais que você podia chamar de sua antes da chegada do digital e seus brinquedinhos amorosos
muitos amores imagináveis depois (e, claro, muita punheta e siririca escorrendo, digamos, um tanto pelo ladrão - pois está na regra, arnaldo), os caras imaginam até o piercing no umbigo, o tema musical, a decoração da capela, o garbo dos padrinhos, o gosto dos salgadinhos e aquela respiração entrecortada, no suposto futuro cônjuge (ou amante de 'ersatz').
então, no estalar dos dedos enchem blogs e mais blogs de flores, versinhos & presumidas bondades, como se tivessem dezessete ou o mundo fosse nutrir-se dessa extrabundância de salgadinhos imaginários e virtudes não menos. esquecem que esses salgadinhos não se exportam à china. que essa generosidade virtual não muda a vida de ninguém em calcutá. e será que existe alguém, em si e de fato, com uma vida interessante o bastante para ser acompanhada em tempo real? todomundo é suficientemente artista para ser seu próprio personagem e ter seus dias publicados assim nas revistas como personalidades em roupas de baixo?
motivos e valores positivos, adiante de seu tempo. e todos maneiros, heróis de si. nas suas próprias postagens ao menos. e, assim, derramar-se em posts e mais posts ao modo de diário. ah, querido diário. mesmo que não tenham mais como volver a los diciesete. como se ao menos na escrita o sensabor dos dias pudesse ser convertido em algo menos acachapante. caramelizado para algo menos doentio. como se valesse tudo y más alguna cosa. en la virtualidad, muy bien, se puede carajo. a por la virtualidad.
alguns, feito certa atriz – tinha que ser atriz ou ator, faz parte - tentam tirar uma lasquinha, otários que não são e acabam por ser mais. pois a emenda termina pior que o soneto. o soneto, no caso, supostamente surrupiado. quem terá a pachorra de parar e olhar as fotos de uma sirigaita nua, quando há bilhões de sirigaitas nuas, mais ou menos jovens e muito mais curvilíneas, insinuantes, estimulantes e, melhor, até interativas ao redor do planeta? e essa moda não foi antes lançada por scarlett johansson - que convenhamos até possui, digamos assim, mais argumentos - antes de chegar nestes trópicos quase sempre por demais tristes e reincidentes? e agora, para fechar o ciclo da mimese vertiginosa só falta uma personalidade "local", "da terra" ter suas fotos íntimas afanadas... e aí o ciclo fecha seu logro: de nova york para o rio, do rio para fortaleza. é sair de johansson para a atriz carioca, e desta para quem? para uma das tigresas de joão inácio jr.?
tá certo, ninguém vive sem migalhas de fantasia. o diacho é quando não se consegue mais nadar de volta, na ressaca braba de fevereiro, e tomar pé da realidade. maré para casco nenhum botar defeito: o braço dos nadadores fraquejando o crawl. e não mais se obtém viver com uma migalha de realidade. ainda que virtual.

 será que ontem ela ouviu sixpence none the richer?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Fragmento sobre Literatura e Fotografia




Ao contrário de um ponto, não existe uma foto final. Mesmo que a foto seja composta de pequenos pontos, cada vez mais imperceptíveis. Ou por isso mesmo.
*
[Alguns dias depois, e a proposição talvez devesse ser refeita]:
Ao contrário de um ponto final em um texto, não existe um ponto final em uma foto. mesmo que a foto seja composta de pequenos pontos, cada vez mais imperceptíveis. Ou por isso mesmo. 

[Há um tempo interior na foto que é como que reciclável. Ou seja, o tempo na foto não tem fim ao contrário do tempo no texto].

terça-feira, 22 de maio de 2012

Sigmállysson Nobody, o Seu Lunga urbano



era domingo àquela hora em que o sol escalda mais forte, e ∑llysson Nobody voltava do supermercado com as compras. ∑llysson seguia, volta e meia, trocando os sacos de uma para outra mão no intento de acomodar melhor o peso. ia catando com os olhos as ilhazinhas de sombra. sonhava chegar em casa a tempo de ver o começo do primeiro tempo. e com os lábios rogava pragas a quem inventou a matéria plástica, o sol, o fuso horário e a tv por assinatura:
-ei, moço, sabe onde fica a antônio augusto? - disse o sujeito grisalho da janela do carro, articulando pés de galinha e abrindo um pouco de olhos entre bolsas de gordura.
llysson depôs as compras na calçada, coçou a cabeça. A expressão incrédula oscilava entre a infinita doçura e um “é cilada, bino”:
-1242 da antônio augusto, moço. sab'onde é? - reincidiu o sujeito de vastas olheiras sem por favores ou obséquios, como de praxe em Fortaleza.
llysson pegou um pouco de ar ainda sem crer que acontecera com ele. o suor descendo pelas frontes, pelos lóbulos cheios de pelos, pelo pescoço tatuado:
-em primeiro lugar, ancião, moço eu não sou, como dá pra ver. em segundo, autarquia, você deve estar me achando com cara de gps. terceiramente, que nome de rua mais ridículo é esse, minha joia: antônio augusto? esse miserável não tem sobrenome, não?
o sujeito engatou logo foi uma segunda. e se foi na cantoria dos pneus joão cordeiro abaixo.

-obrigado, viu! – ainda ouviu, lá muito atrás, no engatar da terceira, o grito de ∑lisson a reenganchar a alça dos sacos nos dedos das mãos com a sacrossanta expressão de um resignado monge budista que acabara de declinar um mantra essencial para o bem-estar da humanidade.

Nos Circuitos da Naturalidade e dos Mascotes



Torço para quatro times: um na Inglaterra, um na Alemanha e dois no Brasil. Nenhum deles está ganhando. Mas eu tenho uma cachorra. E pelo fato de ela ser de raça inglesa, ter nascido no Rio, e o ex-dono ser alemão, finjo que a bichinha torce Chelsea, Fluminense e Borussia Dortmund. Faço ela ver todos os jogos. 
Minha pupuquinha está ganhando tudo. E não deve ser pecado torcer um pouquinho pelos times de quem nos faz feliz.

É? Ah, não sei. Assim de cabeça, não sei. Mas Mamãe diz que sou competitiva.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ao redor do mundo e pelo menos

Prédio atingido por terremoto este fim-de-semana no Norte da Itália

O Chelsea, com seu futebol de ferrolho, sagrou-se campeão da Champions League numa final que sabia à anti-clímax antes mesmo do apito inicial, na tarde do sábado; e novo fôlego foi dado ao futebol de resultados. A morte do ex-Bee Gee Robin Gibbs. François Hollande assume como novo presidente da França. Um terremoto na Emilia-Romagna, norte da Itália, causou danos intensos a prédios históricos. Morre no Reino Unido o último líbio acusado de terrorismo no caso Lockerbie. Eduardo Saverin, um dos sócios do Facebook, nascido no Brasil de pais judeus (e atualmente residindo na Indonésia), renunciou à cidadania americana para pagar menos impostos. Os primeiros dias do Festival de Cannes geram especulações sobre os filmes que podem alçar-se a algum prestígio de público e/ou crítica (o festival, que começou dia 16, termina dia 27 próximo). O futuro da democracia no Egito equilibra-se na corda bamba. O México parece haver herdado os sérios problemas com traficantes de drogas que já foi negro privilégio da Colômbia: um massacre tirou a vida de dezenas de pessoas. Especialistas indicam que a saída da Grécia da União Europeia está por um fio e alguns dias. Estudos apontam que os cavalos foram domesticados há seis mil anos entre a Ucrânia e o Cazaquistão.  Por aqui, foi necessária a intervenção do governo para que os preços de hospedagem durante a Rio+20 sofressem algum abatimento; e o Brasileirão larga tão pouco inspirado quanto oportuno. Estes foram alguns dos assuntos comentados ao redor do mundo, semana passada. E pelo menos não se falou de nenhuma atriz que teve as fotos íntimas afanadas de seu HD. 

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: I. Magia ou O Incorrespondível Desejo


Francis Bacon

As pessoas tem um desejo enorme que um punhado de letras traduza uma complexidade, barafunda de sentimentos, sensações, condições, estados de espírito que são elas próprias. Que essas letras, coitadas, sintetizem isso tudo. Como se fosse possível uma correspondência. Ou, mais adiante, uma coincidência. 

domingo, 20 de maio de 2012

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: II. O Que Coincide Não Tem Olhos Para Fora De Si


Francis Bacon

Mas o que corresponde tem três dimensões e é, no mínimo, do reino animal: cachorro, golfinho ou saguim. E o que coincide não tem olhos para fora de si. E jamais poderia ver a coincidência mesma, ficando para sempre aprisionado nela, e de nascença. Pois coincidências e prisões cercam do mesmo jeito. Têm o mesmo termo em latim no nome científico. E nenhuma janela para fora. Só um terceiro excluído pode vê-las. 

sábado, 19 de maio de 2012

"Mágico, mundo, alguém-eu", novela em 3 atos: III. Violenta Necessidade de Espelhos


Francis Bacon

Mas então há uma necessidade tão violenta de espelhos, que letras despertam lágrimas. E não por serem parecidas com pessoas. Mas por despertarem nelas o desejo de se acharem parecidas tout court. De se acharem parecidas com paus e pedras. Marés e rios. Sextas-feiras e o alfabeto cirílico.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Pianista


Piano de cauda redesenhado e fabricado pela Audi

- ou Nem Toda Ternura Para Quem Inventou a Vigília

Com uma apruma-se o chapéu. Com a outra - de outra pessoa, aliás - recolhe-se a moeda caída sob o jasmineiro em flor. Simultaneamente. Para ser tocado, o piano demanda uma estranha independência entre as duas metades do cérebro; e, de uma para outra mão, um esquecer do que se faz. O piano é o instrumento mais completo. Seu universalismo pouco gera cepticismo e, assim, aproxima-se do sonho. E logo, sonhar tocando piano, como ela certa vez sonhou, é sonhar à segunda potência. 
*
E se o piano segue no sonho, é por onde ela podia ouvir e refazer não só a toada da orquestra inteira, mas também os cantores. Ou os dedos da mão esquerda assoviando no braço das guitarras. E se duvidar, até os passos do solista para os bastidores. Os aplausos. Ou o eco desses passos no assoalho do corredor, de volta, refeito no pé cravando o pedal. E espichando sons. Ou glissandos executados com mais desenvoltura do que se escorre o dedo no visor do iPhone. Tudo isso no sonho ela dominava com rematada perícia. Na certa havia anos de estudo do instrumento por trás. Mas no sonho ela ficava só com o bem-bom: tocar maravilhosamente bem.
Pelos ouvidos dela os sons penetravam como uma quente e dilatada glande nas suas fendas. E o que vinha depois. Depois da cabeça. E aquele seu sonho estava completo: tocava piano como quem conversa no salão de beleza. E expressar o que não se pode com as limitadas palavras. Exprimia algumas notas na suavidade de sedas. E grunhia como uma porquinha em desenho de Disney. Lipatti e Gould, rá, eram fichinha. Nada de excepcional. Pressionava as teclas certas no tempo certo, e o instrumento tocava-se.
Ressuscitava amigos. Amava todos, todos de direito no filme de sua vida. De direito e de torto. Alternadamente e de uma vez só. Uma suruba violenta e piedosa. Não foram poucos. Ia ter com eles. Com todos. Com um. Com os que a tinham desprezado, guardava um sopro de fôlego para, mais adiante, gastar com aqueles que a tinham refeito de novo e para a vida; mas, diacho, sem menos - como usa ser, como ousa ser - por aquela soma de acasos, erraram-se; e nenhuma pista em Facebooks, nenhuma busca nos Googles da esquina iriam remediar, repor, reparar certas coisas ditas, não ditas. Ineditismos. Fantasia. Falências. E umas poucas de arapucas virtuais.
Em sonhos, é tão bom ter tudo de volta à volta. Até o irrevoltável. Aquele dia em que subiram na caixa d'água e, bem ao amanhecer, atiraram a garrafa de chianti vazia lá de cima. 
Ou a natural plástica de quando se tem dezenove. E é reacomodar as coisas na sua primitiva forma de grandeza. Cheia de devaneios e fibras. Arranhados pelo cimento craquento da caixa d'água. Ou no aconchego do quarto de solteira. E com uma direção de arte tão precisa que é feito seguir por noites de dezenove de novo. E reencontrar aquela briba, branquinha, que ficava ali na parede, atônita, olhando para eles, através dos únicos pontos pretos do corpo, enquanto eles brincavam. Era a Antônia. 
Só que agora, Antônia ficara para trás. E ela já sabia brincar com uma agilidade a mais acumulada no corpo, feito um dínamo. Já podia lançar-se ao impromptu, como no jazz. E com certa, não se diga sabedoria, mas passagens por cascas e alhos dentro da cabeça (em si já mais próxima de uma cabeça de alho, embora não menos oca. Mas isso só por dentro ou alegoricamente). Por fora do papel celofane do sonho, claro, tudo selvageria e dezonove aninhos. Grisalho algum. E aqueles dedos tirando sons lindos como linhas da vida inscritas na mão suada de quem muito se quer.
À certa altura, ela puxava C. pelo braço, e ambos caíam no sofá refestelado e macio do sonho, cheio de penumbras e sons. Como nos anúncios. E sentia os volumes do corpo dele e de novo, atrás do jeans. Arestas e ângulos. Mas logo o jeans, junto com a camisa de manga longa e os All-Stars, estavam largados pelo chão. E uma barba malfeita arranhava de leve no rosto dela. E, ao mesmo tempo o piano incessante, a desfolhar estranhas regras de tempo e pingares de líquido na escala. E ele tinha quantos braços? Só dois? Mentira. E, de repente, que coleção de elásticos faziam sua cintura ter mais ginga que a da professora de pilates? 
Agora estava claro. E ficou claro. Ainda mais. Bem claro, Carol. Cristalino. Como numa cantata de Bach. E os contornos do bairro começaram a surgir, de novo, para além da janela. Como o dedo dela obturando fotos em branco e preto na contra-luz de um dia chuvoso. Ou o dedo dele apertando a campainha. E ela a ferver éfes nos lábios. Ou ele de novo enfiando-se, por detrás, nas algas dela. E mais poses. E fotos em que, depois, devidamente photoshopados – e nem precisava - ela assomava radiante, sentada à mesa do café, manhã seguinte. Sorriso de um lado ao outro do hemisfério. Nos sonhos coisas reluzem com brilhos de anúncio de margarina ou sedã.
Mas nada ou ninguém lhe devolvia prazer maior que tocar piano com aquela fluência de virtuose e contornos de gala. E seguir descascando tampos na laranja e tempo nas teclas. Ou comendo-as com a ponta dos dedos. Ou sentindo-se perfurar por mais de uma entrada. E aquele arrepio subindo-lhe ao olho. Ou então, os dedos devidamente esquecidos, permanentemente aquecidos. Fluidos. Como cavalos passando obstáculos. Ou pequenos ginastas de buriti saltando por cima de barras, a transcreverem-se por notas dissonadas, sem prévia adivinhação. Pois finalmente, finalmente, ela tocava piano como quem joga conversa fora no salão de beleza ou a fia no boteco. Ou ainda possui aquele descascar laranjas no piloto automático. Por que demorara tanto para chegar àquele estágio? E até onde a torpe necessidade de fingir não ia vogar mais, se isso não era bom?
E aí, sem perder compasso, desembaraçadamente, o metrônomo marcando nos camarins do cérebro, acocorava, para catar com a mão esquerda a ponta do cigarro que, antes, acomodada na borda do instrumento, caíra no chão. E, então acordava: poçinha de cuspe junto aos lábios, dedilhando teclas invisíveis sobre a colcha de índigo. E num compassar que ainda provinha do último fiapo imaginado antes do plano geral sobre o qual se aplicara o The End do sonho: o indicador a pressionar sucessivamente a dominante, em pedal e ralentamento. Lá fora uma betoneira troava, e bulldozers terraplanavam a rua.
*
Miseravelmente só e ainda um pouco tonta.

E pior, era domingo. Birrenta, uma mosca insistia em voltar ao mesmo ponto na maçã de seu rosto. A dor de cabeça no mundo e súbita lembrança: o disk-água do bairro estava fechado. Será que ainda tinha absorventes no armário? Um cheiro de pizza, cigarro e cerveja ambiente. E maldizendo quem inventou a vigília. O cachorro, um pouco desconsolado, cheirava as pontas de seu sutiã no assoalho gasto.

E para a puta que o pariu essa necessidade cruel de se mudar a programação da TV no domingo. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Fórmula Bachiana

Pere Portabella, The Silence Before Bach

Nada de excepcional. Pressiona-se as teclas certas no tempo certo, e o instrumento toca-se.
                                                                                                                                                       [J.S. Bach]


Em música devia ser: “Glória a Bach nas alturas. E paz na Terra aos homens que não cessam de ouvi-lo”. 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

No Centro de um Império Equivocado: a Centralidade do Inglês, Tradução e Astúcia



Deslocamento e dessincronia. A tradução é o campo em que a linguagem é mais provisória nos domínios da literatura. Na tradução, tudo reflecte desconforto, inadaptação, estranhamento, insatisfação, nostalgia, foras de hora e lugar. Ela é um gênero literário de extrema importância, mas quase nunca é olhada assim.
Na verdade, ela sequer é investigada como gênero. Ou tomada como relevante em estudos especializados, salvo raras excepções. E a tradução pode ser tão transparente que vemos através dela sem nos darmos conta desse através. Ou sem lembrarmos que estamos lendo não apenas Dostoiévski, mas também Paulo Bezerra. Ou não só e.e. cummings, mas Augusto de Campos. Não Homero, mas Odorico Mendes. Algo análogo ocorre com a montagem invisível em filmes clássicos. Assim ela é tomada como um naturalismo que não corresponde ao/ ou estranha o/ grau de artificialidade e convenção necessário à tarefa de produzi-la.
Boa parte da importância da tradução reside em prosseguir a ser um corpo a corpo com a linguagem ainda não exaurido pela diarreia das teorias literárias contemporâneas ou pelo exercício oco da criação, por si, de conceitos, apenas para retroalimentação acadêmica. 
A tradução, enquanto gênero, foi uma dos poucos aposentos na vivenda da literatura a não ser ocupado inteiramente, a escapar de ser colonizado ou parasitado pela teoria acadêmica e, assim, posto a serviço de uma ideia. Ideologizada de algum modo. E ideologizada, a mais das vezes, desviando-se do texto. Ou propondo-o a serviço de algo supostamente “mais estratégico”: seja político, seja ambiental ou comportamental. E, assim, mais urgente, em hipótese. Porém, na verdade, atirando o texto a uma servidão sectária, de algum modo. Pois vivemos num tempo em que os estudos literários são precedentes à literatura. A primazia recai sobre eles, não sobre a letra dos textos. E, no caso, por suas especificidades, a tradução permaneceu uma das poucas formas de literatura imunes a essa hiper-ideologização. [1] E, portanto, apontando para o texto em sua letra mais letra.
É preciso entender que tais causas ou temas - feminismo, opções sexuais, imigrantes, populações em meio pré-industrial, desenvolvimento sustentável, potencialidade dos hipertextos, máquinas de traduzir, acessibilidade ao virtual - são sumamente importantes. E não se deve perdê-los de vista. Mas que nem sempre os melhores textos literários são os que necessariamente os reflectem ou passam por eles. Já que eles são conjunturais. E não há nada que nos assegure que serão prioritários daqui a cinquenta anos. Ou que não se prestem a profundas manipulações e inverdades. Isto é, manipulações e inverdades a serviço de "causas políticas" pontuais e um tanto facciosas ou intransigentes, tal como é possível encontrá-las em algumas aparas dos ditos Estudos Culturais.
A tradução, do contrário, é um derradeiro corpo a corpo com a linguagem, onde se refugiaram aqueles para quem o trato com ela ainda está envolto em certo pudor. Em certas reservas e interditos de se estar tratando com algo às raias do sagrado. Um bom combate. Um embate ao modo de Jacob. E não há forma de humor verdadeira que exclua a dimensão do sagrado. Huizinga, em seu Homo Ludens aponta bastante bem para tal: o atrofiamento da dimensão lúdica na modernidade.
De outro modo, em meio a isso tudo, quando se volta para a arquitetura, a ideia de poder sempre esteve nitidamente vinculada a edifícios grandiosos. Que ameaçam arranhar o céu ou desfazer a linha do horizonte. Daí a tradução - mediante o esfacelamento da língua única em várias línguas - ser apresentada como uma espécie de segunda queda ou segunda expulsão do Éden. Ser proposta como resultado do soerguimento de uma torre, que ameaçava o monopólio das alturas e da sabedoria celestial. É a imagem bíblica e recorrente dessa ambição insatisfeita: a torre. Mas o verdadeiro tradutor também pensa por peças de Lego. Ou muito mais por meio delas que pela opressora totalidade da torre.
O que há de fálico, fáustico e arranha-céu em Babel, há também de saudades da terra, do chão, do ctônico, da água, dos canteiros de flores. Do pisar o chão e ser de manhã. Do mergulhar em fluxo e rio. Do encontrar-se exilado das possibilidade de estrada. E das encruzilhadas e outras ciladas da linguagem. Em particular, daquelas que qualquer imigrante experimenta no exílio. Estar no alto da torre é solitário e insosso.
Mas também tudo mais torna-se provisório ou des-urgente diante dessa instância do exílio. A precariedade vaza por todo lado. Traduzir, então, é esse estar o tempo inteiro consciente dos limites - de nenhum modo apenas metafóricos - dos idiomas. Ou seja, é estar o tempo inteiro indo e vindo através das fronteiras deles. Percebendo não só a suplementaridade dos diversos idiomas, mas, sobretudo, o tanto que essa suplementaridade aponta para uma espécie de idioma ideal, que de nenhum modo pode ser expresso. A não ser imperfeitamente, através dos cacos, dos pedaços de Lego, imperfeitos - e nem sempre amoldáveis entre si - dos idiomas concretos. 
Pelas labilidades, virtudes e falências desses idiomas, quando contrapostos a essa língua total, ideal e perfeita - que só pode ser mobilizada nas junções e articulações das línguas particulares - segue o tradutor. É preciso importar e exportar bastante de um para outro idioma, no plano do sentido e no da forma, para consolidar uma tradução estimável.
O contrabando não é pequeno. Pela astúcia, faz lembrar o de uma contrabandista idosa, em certa crônica de Stanislaw Ponte Preta. A obstinada velhinha cruza diariamente, ida e volta, várias vezes, a fronteira do Rio Grande com o Uruguai, montada numa lambreta com um saco à garupa. Não há nada no saco, a não ser areia, que o guarda aduaneiro já mandou para análise mais de uma vez. É terra mesmo, com esterco, minhocas e tudo de direito. Mas então, pergunta ele: o que contrabandeia?
Fácil, numa segunda leitura, perceber que ela contrabandeia lambretas. E o fato de a velhinha importar e exportar o próprio veículo em que se movimenta nos remete para esses veículos supremos, sem fim, que são os idiomas. 
Mas também para outras questões à beira do tráfego do traduzir. Ou seja, à beira da auto-insuficiência. Ou ainda seja, para o malogro e aparente modéstia exemplar dessa tarefa, se ela não consistisse também numa das mais ambiciosas: levar e trazer, re-levar e re-trazer, os grandes textos de um para outro idioma, e não especificamente apenas em função daqueles que não podem lê-los em fluência no idioma em que foram escritos inicialmente. Mas, sobretudo, pela importância intrínseca desses textos. Daí que o número de versões traduzidas seja proporcional à relevância do texto. Ao modo como o texto, por si, clama para ser posto em outras línguas, porque está prenhe de sentidos e belezas. 
Por que uma canção como "Águas de Março" ainda precisaria ser gravada após a versão de Elis e Jobim? Não está tudo lá? E, contudo, a canção é tão misteriosamente plena, que necessário ressoar sua beleza sob outros prismas e concepções de arranjo, atmosfera, timbre, instrumentação. E pois então, qual a necessidade de se traduzir de novo um texto que já se encontra traduzido, a não ser pela sensação de que a tradução deixou algo de fora, ou não ressonou determinados aspectos da forma ou do fundo? Ou segue muito veloz? Ou por demais lenta? Ou não refrata as mudanças de andamento, apresentando-se em insossa uniformidade? E isso se dá porque o resultado final, flagrante da tradução é visivelmente, em sua imediatez, o retrato do provisório e da incompletude. Ou ainda, deve-se recordar da insatisfação gerada pelos resultados imediatos dessa tarefa: quando todos dirigem sua atenção para um detalhe mais lustroso, e a proeza do tradutor propôs outro, muito mais árduo e sutil – mas, diacho, esse outro passa despercebido.
*
Entre muitas outras coisas, Susan Sontag, a ensaísta norte-americana, também foi tradutora. Mais que isso, ela leu bastante, vorazmente em traduções. (E o que é o tradutor, senão um leitor elevado à máxima potência?) E leu abrindo-se a novos autores, que se encontravam bem ao largo de um cânone sedimentado, onde, aliás, Sontag tinha tudo para ter ficado, numa zona de conforto. Pois o aconchego não era dos menores, e o ar refrigerado amenizava os rigores do verão, assim como a calefação central, os do inverno. Em torno todos falavam inglês: a vida já nascera mais ganha que outras, digamos assim. E, no entanto, ela resolveu seguir para outras latitudes. E até demorou-se, com inusual vagar, nos trópicos. Ela, que nasceu e esteve bem ao centro mesmo desse cânone, e, astuciosamente, percebeu o logro dessa centralidade.
Essas leituras de Sontag pela “periferia” do Ocidente, esses seus passeios pelo “lixo Ocidental” - na expressão pop e precisa que Fernando Brant cunhou em anterioridade e na outra face mesma da moeda - a fizeram amar autores que só muito superficialmente são conhecidos no todo-poderoso universo de língua inglesa. Sontag deleitou-se com a leitura de ensaístas, ficcionistas e poetas do Leste Europeu, ainda pouco conhecidos ou divulgados à época em que escreveu sobre eles. E eles parecem conformar a sua última paixão - ela morreu em 2004.
Mora aqui um paradoxo. Nos seus últimos anos, Sontag propunha um estranho diagrama da Europa enquanto ideia. A de que os países “periféricos” no Velho Continente – os mais pobres, os recém-saídos de ferrenhas ditaduras stalinizantes, alargadas por décadas de estúpida satelização em torno da União Soviética - pareciam, contraditoriamente, mais vivos, decentes, únicos e mesmo diversos, culturalmente falando, que os da propalada União Europeia. 
Estes tinham um quê de novos-ricos, de América má re-transplantada ou regurgitada à Europa. Deleitavam-se em consumir, entregar-se à bandeja dos novos triques e brinquedinhos tecnológicos. Ao mar de consumo: régias consultorias, preguiçosos bem-estares, e aposentadorias que ainda não eram quando Buñuel filmou Las Urdes, na Extremadura espanhola, com europeus morrendo como piolhos de fome e malária, e sequer com um tostão furado para migrar para Luxemburgo, França, Alemanha, Brasil, Canadá ou Austrália. Nesses mesmos tempos, adolescentes transmontanos eram fotografados no estuário do Tejo, sob roupas rotas e semblantes descarnados - embora cheios de esperança - a aguardar a saída do vapor para o Rio ou Durban.
Sontag também manteve um vivo caso de amor com a língua portuguesa, sobretudo via Machado de Assis, a quem ela dedicou um texto, ao final do anos de 1980, e a quem fez questão de nomear em um ensaio tardio e um tanto subestimado: “O Mundo Enquanto Índia – A Conferência São Jerônimo Sobre Tradução Literária” [presente na coletânea publicada três anos após sua morte (Ao Mesmo Tempo: Ensaios e Discursos, p. 167, 2007 - na edição brasileira, Companhia das Letras)].
Nesse sumário de posições sobre a tradução, ou mais especificamente sobre a tradução literária – o que chamamos de “os importados que importam” - Sontag alerta para o que há de nefasto na excessiva centralidade do inglês enquanto idioma da modernidade. Quer dizer, aponta para o que há de injusto no peso desigual das línguas, ainda esteado em pesados preconceitos (aqui, sim, justificáveis serem mencionados como preconceitos, ao contrário de muita coisa no político e no escorreito), que reduzem o cânone e impedem novos alargamentos de fronteiras. E, por que não, da própria inclusão dessas culturas um tanto estigmatizadas, superficializadas, aclichezadas, puerilizadas na categoria de humanidade. Na humanidade densa, para lá de Ocidental.
As preocupações de Sontag são relevantes. O diagrama que traça da modernidade segue esteado em autores imprescindíveis, como Nietzsche, Benjamin, Bazin, Barthes, Ciorán... Mas, como já ressalvado, passando também por escritores do Leste Europeu, obscuros ou relativamente pouco conhecidos. Ou mesmo por ocidentais que não chegaram a um público mais amplo, caso do alemão W. G. Sebald. E, no entanto, tão essenciais quanto os mais famosos. Ou por Machado de Assis, que – para o azar mais deles que nosso - poucos conhecem em Paris.
Ela parece divisar com nitidez um ponto de vista: onde o Ocidente enxergar possibilidades de poder - mínimas que sejam - essa possibilidade será captada e potencializada, de modo a extrair da situação em crivo uma espécie de “vantagem ética”. Coringa a ser mantido na manga e em estratégia. Argumento em proveito próprio. Falácia. E, nítido, é a partir dessa espécie de mais-valia, desse excedente de “ética”, que relatos como os de V. S. Naipaul ou Marjane Satrapi - que não são mencionados por Sontag, mas bem poderiam - prestam-se tanto a serem laureados - sagrados que foram como prepostos da herança do Ocidente em terras outras - pois também calam, miseravelmente, sobre a outra metade da empresa: o grau de barbárie exercido pelo Ocidente para operacionalizar essas outra formas de civilização. 
Quer dizer, autores como Naipaul ou Satrapi são muito eficientes quanto a denunciar a pasmaceira terceiro-mundista - corrupta, ineficiente, retrógrada, autoritária - que grassa nos países ditos “periféricos”. Ou os maus tratos desses países aos recursos naturais, um tanto como se a história nos países ditos “centrais” fosse de todo diferente. Ou ainda o aparente barbarismo que reveste certos hábitos e costumes, mais próximos de uma visada menos laica, ocidentalizante. 
E, no entanto, pontos de vista consagrados como os de Naipaul ou Satrapi, conveniente e rapidamente absorvidos e premiados, são simultaneamente incapazes de vislumbrar que é exatamente esse estado de coisas - esse status quo que os premia - o que sustenta e, em larga medida, legitima o consumismo cínico, deslavado, refrigerado, aquecido e aparentemente auto-suficiente e colarinho-branco dos países ditos pós-industriais. Lá, onde, não é de hoje, o outsoursing empurra aos imigrantes o trabalho de facto. E o trabalho sujo, o de suar e deformar-se, é, por seu turno, cada vez mais transferido para a periferia do mundo, junto com as fábricas e as fazendas. 
Tarefas de se encher de hérnias e acidentes de trabalho na execução das mesmas. A de executar repetições aviltantes à beira da linha de produção, do fone de telemarketing, ou da apuração da informação na internet. O trabalho, enfim, que embrutece. Que lembra o instrumento de tortura que está na raiz latina da palavra. 
Enquanto isso um adolescente em Nova York consome mais os recursos não renováveis do planeta durante um ano que uma família de sete pessoas em Bangladesh durante cinco. E, no entanto, é o adolescente novaiorquino quem está vinculado a uma organização contra o desmatamento da floresta tropical na Indonésia. Ou se indigna e protesta contra isso. 
Será que algo está errado?
A análise de Sontag a respeito de como jovens indianos são educados em call-centers para agirem, portarem-se e até possuírem tiques, emitirem gracejos e dados biográficos de norte-americanos, é impagável. Uma análise muito pouco condescendente, complacente, concessiva, como usam ser investigações do gênero. Ou ainda, muito longe da unilateralidade confortável das soluções de Naipaul ou Satrapi. Nestas, todos os valores “legítimos” e estimáveis são ocidentais. E os “maus” encontram guarida fora deles.
Outrossim, é aqui que Sontag clama para um aspecto pouco evidente: a vontade que todos temos de sermos – o quanto mais possível – de língua inglesa. De uma ou de outra forma. Ou da forma mais disponível. Como no caso desses jovens indianos desdobrando-se em horas extraordinárias nos call-centers e fazendo-se passar por norte-americanos. E não apenas por contexto de trabalho. 
No íntimo, desejando ardentemente um visto de residência e uma vida sob as benesses do idioma inglês, longe de seus cotidianos na Índia. Ou uma biografia menos ficcionada do que as que lhes foram repassadas pelas firmas contratantes, para amenizar, maquiar a terceirização desse trabalho sub-pago desde matrizes no dito Primeiro Mundo. E, então, fazer de conta que os consumidores norte-americanos são, ao fim de tudo, atendidos ao telefone por norte-americanos e não por jovens indianos sub-pagos e treinados às pressas em Mumbai ou Calcutá. E, ainda aqui, o que aguça nos indianos é o real desejo de se converterem em...americanos. Quer dizer, a possibilidade de passar, via língua inglesa, de Bollywood a Hollywood.
De fato, muito pouco restou enquanto pro-jecto a um europeu num país qualquer da União Europeia [à excepção talvez da Alemanha, onde o pro-jecto nitidamente rima com dominação], além de dizer: “pelo menos eu não nasci na Índia”. Atualmente, ser europeu e receber essa chancela, esse prêmio de consolação, já parece ser alguma coisa, junto com haver passado pouco mais de meio-século sem deflagrar guerras de escala continental ou mundial. Por enquanto esse tem sido, aliás, o grande feito da União Europeia enquanto projecto. Vamos até onde vai dar a atual crise com seus componentes crônicos, e é tratar do imponderável.
E há o futuro, sem o qual ninguém vive. E todo ser humano precisa de algum senso de grandeza. E de sentir-se parte da construção dessa grandeza. Uma das poucas casas que um homem tem é a sua geração: o sentir-se um pouco mais ao abrigo entre aqueles que passaram por experiências e eventos mais ou menos comuns. E, se o mundo tem globalizado esses eventos, é de se supor que certo senso de experiências comuns também se tenha internacionalizado. E uma referência a elas pode suscitar empatias e impulsos de companhia.
Ora, o paradoxo, aqui, é que cada vez mais indianos adentram nas classes-médias e perigam, no correr dos anos, levar padrões de vida similares aos europeus em termos de conforto material. E com isso, junto com os chineses e outros emergentes, levar a um paroxismo a exploração dos recursos naturais do planeta. E, convenhamos, eles têm todo o direito de aspirarem um padrão de vida confortável. Quem não o tem?
Muitos – mas ainda uma flagrante minoria -  já vão além: vivem igual ou melhor que a média dos europeus. Mas estes são uma elite de empreendedores, líderes do processo: políticos, empresários de grupos transnacionais, funcionários comissionados, especuladores da bolsa, profissionais liberais bem sucedidos, et alli. Em geral, não são nem mais, nem menos corruptos que seus pares ocidentais. Mas são fortemente taxados como tais. E assim postos na mídia. O homem mais rico do Reino Unido nos diascorrentes é, por sinal, um bilionário indiano. Talvez se comparado à lisura de um Berlusconi ambos não saiam exatamente limpos da revista. E, no entanto, o Ocidente no momento de criticar os desmandos políticos e a corrupção no dito terceiro-mundo, bem que esquece de seus Berlusconis ou de seus banqueiros de Wall Street.
Então, a partir de Sontag, pode-se propor algumas outras questões. E quem sabe a violenta alteridade cultural presente nas instigantes narrativas de V. S. Naipaul deva ser observada como apenas uma das faces da moeda. E que ao calar sobre a hedionda outra face, sobre a coroa dos imperialismos, que trouxe até Trinidad, nas costas da América do Sul, um punhado de indianos para operar melhor, sob gerência britânica, as plantações de cana-de-açúcar, movidas por braços africanos, talvez Naipaul nos indique à imaginação o suplementar as lacunas desses horrores.
Aliás, o trecho em que Sontag menciona Machado de Assis, em “O Mundo Enquanto Índia”, bastante esclarecedor, nos dá mostras da perspicácia, da astúcia de alguém que reconhece-se no especioso centro de um império equivocado:

But, as many have observed, globalization is a process that brings quite uneven benefits to the various peoples that make up the human population, and the globalization of English has not altered the history of prejudices about national identities, one result of which is that some languages – and the literature produced in them – have always been considered more important than others. An example. Surely Machado de Assis’s The Posthumous Memories of Brás Cubas and Dom Casmurro and Aluísio Azevedo’s The Slum, three of the best novels written anywhere in the last part of the nineteenth century, would be as famous as a late-nineteenth-century literary masterpiece can be now had they been written not in Portuguese by Brazilians but in German or French or Russian. Or English. (It is not a question of big versus small languages. Brazil hardly lacks for inhabitants, and Portuguese is the sixth most widely spoken language in the world.) I hasten to add that these wonderful books are translated, excellently, into English. The problem is that they don’t get mentioned. It has not – at least not yet – been deemed necessary for someone cultivated, someone looking for the ecstasy that only fiction can bring, to read them.

[Porém, como muitos observaram, a globalização é um processo que traz resultados um tanto desiguais para os vários povos que compõem a população humana, e a globalização do inglês não alterou a história dos preconceitos sobre identidades nacionais, cujo corolário é o de que algumas línguas – e a literatura produzida nelas – têm sempre sido consideradas mais importantes que outras. Um exemplo. Está claro que Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis, assim como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, três dos melhores romances escritos ao final do sec. XIX, deveriam ser tão famosos quanto qualquer obra-prima desse tempo, não houvessem sido escritos em português por brasileiros, mas em alemão, francês ou russo. Ou inglês. (Aqui, não é uma questão de línguas grandes contra pequenas. O Brasil não tem poucos habitantes, e o português é o sexto idioma mais falado no mundo). Apresso-me a acrescentar que essas obras estão traduzidas, esplendidamente, em inglês. O problema é que elas não são mencionadas. Que elas não foram propostas – pelo menos até o momento – como necessárias para alguém cultivado, alguém em busca do êxtase que só a boa ficção pode ofertar.]

Susan Sontag teve a lucidez e a coragem de nos indicar que quem não domina o inglês em nosso tempo é não só uma sorte de analfabeto, mas também de excluído do mundo digital. E, por outro lado, quem só o domina (ou apenas se obceca por esse domínio) é, possivelmente, um analfabeto ainda mais rematado.

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[1] Entenda-se, aqui, a tradução enquanto tarefa, enquanto prática. O resultado do ato de traduzir. O que lemos, quando tomamos o texto de uma autor escrito inicialmente em outro idioma. Pois é até inferível que o tremendo grau de ideologização movido por uma necessidade de teleologizar tudo em volta como justificação de um sistema de pensamento que não se mantém de pé por mais de uma década, teria que deixar suas marcas também na teoria da tradução como a boca do bebê nos mamilos da mãe.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Didascália, desde um tema de Fito Páez


Felix Hess


Dejarlas Partir


Ouvia vozes. A moeda e a vida de João. Chico Buarque, os óculos, a estátua de sal. O suicida e seu gato irreal. O que foi feito, o que é feito, o que não mais será.

Noite. Verão. Um sótão. Quarto de Solteira.
Aquela foto recorrente. E viver extasiada pela autonomia do detalhe. Separada dos outros por estranheza, pudor. Fisgada por e para dentro. Ilhada na toca de si. Pulverizada em arquipélagos de um mar interior. Chupada. Assungada. Aspirada como um filete de massa untado no pesto, roçando lábios no breve itinerário. Pela incapacidade de funcionar em grupo. Mais de um. Borbulha. Confusão. E ter de nomear um a um os amigos que se foram, no morgue. E ter de tomar aquelas cápsulas estranhas, que a deixavam meio grogue. E ter de tomar decisões irrelevantes a caminho de Roma, quando não se tem mais boca. E quando se tem de tomar decisões irrelevantes sob a ameaça de olhares réprobos a caminho de Roma. E ter de ver rompida de novo a membrana. E roída a roupa. A dela ficara para trás, oscilando, pendurada em algum painel de cortiça e passagem. E vão-se vinte anos. O ornamento, a pressa. Os vidrilhos estilhaçados. O relento e a curva. A chuva escassa. Os andares percorridos sem vagar. O ruído dos pneus numa derrapagem sem fim. E a noite embreando marchas só para arrebentar-se de vez ladeira abaixo.
Nenhuma vergonha. Nenhuma prece.

(Foi? Lembro dela, gentil, esguia, escorada ao balcão, conversando com C. E tudo em volta espargia indescritível luz. Uma luz de beleza e poucos anos. Pareciam entretidos. E, algo, unidos por um vínculo impreciso. Não viam muita coisa ao redor. Ou compartiam de nosso tédio-ambiente. Uma estranha membrana os recobria de gentileza e silêncio. Na conversa deles daria para ouvir dedo passando na borda da taça. Isso? Foi aí por 1990. Naquele tempo de possibilidades.)

Fiz apenas para quebrar. E se pudesse explicar. Se eu pudesse. Fiz só para quebrar. Apenas para quebrar. Só para quebrar-me.

A mim.

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Ouça, se o caso for: http://bit.ly/9GoBVJ
Há quem duvide que o castelhano é belo enquanto pura sonoridade. Pense sobre isso escutando essa canção. Pode-se suspeitar da extrema superficialidade e aleatoriedade das letras de certas canções. Ou o quanto elas foram escritas às pressas em estúdios, foras de hora, estados alterados. E essas letras devem mesmo portar esses selos. Mas isso não as torna menos belas. 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Na comunidade dos infiéis líricos


Gerhard Richter

Desde pixota, como se diz, veio o fascínio por letras sob infedelidade, traição. Verdadeira obsessão. E, assim, ouvia direto canções que fariam muito sucesso nas famílias Iscariotes, Calabar e Silvério dos Reis. De Lou Reed a Patti Smith. De Morrisey a Dylan. Porque buscava deliberadamente os triângulos e poliângulos amorosos como quem busca o pote de ouro no pé do arco-íris. Em especial, depois que levou seu primeiro pé na bunda. Mas só teoreticamente. Ou na reles aparência da prática. E, logo, no fundo, era mais virgem como Santa Teresa d'Ávila do que como Santa Maria Egipcíaca. As letras formavam um ingrediente necessário à felicidade dela tanto quanto um modo de evitar qualquer possibilidade de envolvimento. Os envolvimentos e movimentos do amor. Ou seja, daquele movimento friccional de ir e vir que caracteriza um projetor de movies. Essas letras descreviam toda uma ética. Isso foi no fimzinho da era em que os analistas, que passavam aval de comportamentos como sacerdotes, julgavam que certas sublimações fossem uma forma de benção. E prescreviam comportamentos com ainda mais cinismo que padres, por se escorarem na autoridade lógica da ciência. Isso começou a afetá-la no plano psicossomático, junto com anfetaminas. Desque o grilhão pesava tanto, que ela, no esforço de rebocá-lo, estava ficando um pouco corcunda. Alguns atribuíam a gibosidade à natação. Nada mais injusto. Esqueciam do grilhão. E era assim que seguia, manhã após manhã, para a sala de aula, rebocando o imenso grilhão. Porque podia pendurar o grilhão na altura da carteira vizinha até a aula passar, ficava mais cômodo quando ninguém a ocupava. 

E certo lirismo fusco acendia na luz da manhã.

domingo, 13 de maio de 2012

Uma queda de 10% para 10% e a eficiência norueguesa

Roald Kristian, sec. XIX


Na semana passada, de acordo com o Público, o mais atrapalhado de todos os grandes jornais em língua portuguesa, o Banco Central da Noruega, que recentemente desfez-se de toda sua participação nas dívidas portuguesa e irlandesa, também reduziu sua participação de títulos em libra esterlina de 10% para 10%. 
Fantástico, o Público cria um novo conceito: o de que empate é redução.
Depois, alertados pelos próprios comentários dos leitores, as cifras mudaram: “11% para 10%”, queda de 1%. Quem não tivesse visto o surto de surrealismo do empate-redução tomaria essa redução de 1% por um desses fetiches quase eróticos.
O que não escapa à atenção é o fato de os noruegueses ao mesmo tempo que se desfazem de títulos europeus de dívidas podres, investirem massivamente em títulos norte-americanos e dos emergentes: Brasil, México e Índia. A Noruega responde por um dos PIB per capita mais elevados do mundo. E sem produzir muita coisa, além de algum petróleo, gás, certas cifras manipuladas, um vigoroso nivelamento da renda, certo outsourcing, algum tédio e uma angústia existencial do tamanho de atiradores de elite auto-adestrados. Ou do inverno com suas noites sem fim nos fiordes gelados. 
O principal gestor do Banco Central norueguês, por sinal, são fundos de pensão. Isso não se aponta, no entanto, pois vai de encontro aos privatistas de plantão. E seria mais ou menos como indicar que a excelência, a crème de la crème do mundo capitalista, é gerida por fundos de pensão de ex-funcionários públicos, aposentados em estado de social welfare. Mas a pergunta simples, que não quer calar: de onde a Noruega retira, afinal, tanta prosperidade? E não vale dizer que é dos olhos azuis e grises de suas bem nutridas moçoilas. Ou do petróleo e do gás do Mar do Norte. Ou ainda da madeira, que segundo Lennon sequer dá para acender direito, e aquecer um caso extraconjugal. Isso não parece justificar muita coisa.
Mas faz tempo que economia e nonsense parecem habitar a mesma vivenda. Ou serem tão esquizóides quanto os que foram condenados a viver seis meses enfurnados na noite contínua de um desses fiordes nos cafundós do Polo. O excedente de existencialismo nos filmes do vizinho Bergman bem que se justifica. E se vivêssemos em tempos mais sinceros, saudáveis e, portanto, politicamente incorretos, talvez fosse de bom tom aproximar a economia e o samba do criolo doido. 

sábado, 12 de maio de 2012

5 boleirices fuleiras


Ray Rum


Entre botar um rabo no burro com elefantíase e a andorinha que não faz verão
NOTA: este texto foi escrito antes da goleada do Santos (8x0 contra o Bolívar, na última quinta). Precisamente logo após a vitória do Santos sobre o Guarani (3x0), na primeira perna da final do Campeonato Paulista, domingo passado.
i.
Neymar sai cercado pelo mar de microfones dizendo as obviedades de sempre. Alguém tenta roubar-lhe a camisa. Então, diante disso, Neymar diz algo que não parece muito ensaiado. Nem muito polido. E desvaira um pouco. Ninguém vai roubar-lhe a cena. E, daí, lembram de entrevistar Medina, do Guarani. Ninguém dá muita bola para Medina. E ele parece resignado ante o 3x0. O diretor de TV xinga a mãe do miserável que teve a ideia de entrevistar Medina. Ganso está livre: 
-Pega o Ganso. Passa pro Paulo Henrique, porra!
E, logo Ganso é indagado por...Neymar. E diz o que lhe vem de treino: que Neymar dentro do campo é isso e aquilo, e é craque; e fora dele é craque também, porque é um garoto muito família, etc. Neymar, que semana passada disse que jogador de futebol nem sempre vai pra orgia, já desaparecera túnel abaixo. 
Se Neymar é família? Claro. Neymar, aliás, pode comprar as famílias que bem entender.  E assentá-las onde bem quiser, e sem Sem-Terras por perto, de preferência. E pode mandar importar uma babá tailandesa com um bigode à lusitana, para passear de helicóptero com seu filho no colo, quando o menino precisar arrotar.

E botar um rabo no burro com elefantíase de estimação.


ii.
Falando de teatro dos sonhos, um ardoroso fã, cujo clube não foi nada bem em uma primeira perna de final, largou numa dessas fatais caixas de comentário: "o futebol, talvez mais do que qualquer outro esporte, é a arena em que os 'milagres' acontecem". Pode até ser, mas a frase ficaria mais rente à realidade - em especial quando se lembra dos narradores de rádio - assim: "o futebol, talvez mais do que qualquer outro esporte, é a arenga em que os 'milagres' acontecem".


iii.
A puerilidade das comemorações com dancinhas orquestradas é desproporcional aos salários dos jogadores, ao destaque dado a elas e à paciência de quem conhece futebol. Isso estende-se à fertilidade com que factóides - desde gandulas estrelas aos cortes de cabelo dos jogadores, passando pela idiotia fatal das coreografias de comemoração e o interminável telemelodrama da Taça das Bolinhas - ganham espaço nas manchetes. À medida em que nos afastamos do futebol enquanto essência, tal como jogado entre as quatro linhas em verticalidade agressiva e atacante, mais a mediocridade ameaça ganhar de goleada. Alguns clubes vivem de ex-atletas com lampejos, como Fred. O fato de Fred fazer tanto sucesso no Fluminense depõe contra o Fluminense e contra futebol brasileiro. E dizer que o Santos - espreguiçando-se em campo - jogou bem, domingo último contra o Guarani, é um atentado ao futebol. Mas temos vivido desses terrorismos constrangedores. E toda uma ética, uma forma de jogar futebol aparentemente foi suprimida. Isso vem de longe, e passa também pela câmera ressaltar tanto a figura do técnico e seus esgares, à beira do campo. 


E esquecer o jogo.


iv.
Hoje, na América do Sul, La U de Chile, na esfera dos clubes, e o Uruguay, no nível das seleções, representam mais do que fomos no passado do que qualquer time brasileiro, incluída a duplamente confusa Seleção. Duplamente:  1. por não ter ideia de sua vocação; e 2. por não ter evoluído bulhufas na era do "cordato" Mano Menezes. O técnico gaúcho sabe como agradar jornalistas. É polido, e fez curso de marketing comunicacional. Porém como organizador de uma seleção, de um time em campo, está corpos atrás de Carlos Bledorn, vulgo Dunga. O capitão do tetra, a despeito de seu contestável estilo postado em contrataques - e não menos nas entrevistas - ao menos sabia organizar e dar um padrão de jogo a uma equipe. Sabia o que queria. Além de atentar para um facto: a Seleção Brasileira, mesmo em fase de transição, tem um padrão de estatísticas a zelar. E pode-se discordar da filosofia de Dunga. Mas, por outro lado, reconhecer que sua época foi a de entrar nas competições para ganhar. 


O que é filosofia que se vem atrofiando quando se pensa em futebol e Brasil.


v.
Que a figura de Neymar concentre tanto é o de esperar. Vai bem com nossa mentalidade. Que o garoto é tocado pela genialidade, não se discute. O que deve-se discutir é a andorinha, o verão. O tanto que Neymar não resolve sozinho parada alguma. E é necessário, então, um time em torno dele. E, assim, a solução passa por outros nomes: Oscar, Leandro Damião, Lucas, Arouca, o eclipsado e ainda sob suspeita Ganso, e quem mais surgir. Um time e uma geração que, de resto (e para quanto durar a direção de Menezes como selecionador, se tem a impressão) ainda não mostraram a cara, a coroa.


E a que vieram. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A Força da TV regional é a do cinema regional multiplicado por mil


Christo

Uma das novidades das novas mídias é a chegada do homem da rua na TV. Hoje ter, comandar, produzir ou participar de um programa de televisão está ao alcance de imensamente mais gente que há só uns poucos anos atrás. Essa vertigem e variedade de programas é um barbarismo. Sua banalização faz com que os próprios produtores dos novos programas olhem para trás, para a época heróica, rarefeita, monopolista da TV, e enxerguem as mulheres e os homens por detrás daqueles programas únicos e irrepetíveis, como titãs ou semi-deuses. Então, essa enxurrada de novos programas, cada vez mais segmentados, traz em seu bojo aspectos grotescos. E, de outra face, outros mais estimulantes.

Por aqui, duas estações de TV emblematizam isso melhor que outras: a TV OPovo e a TV Diário. E não é acaso que ambas sejam desdobramentos dos dois principais jornais impressos. E também agreguem procedimentos de rádio que eram subsidiários à periferia desses diários.

A TV OPovo, que está a menos tempo no ar, busca uma grade de programação e um tom geral que se dirige às classes A e B – mas, de outro modo, sem o vigor financeiro, o dinamismo que sobra e surpreende em sua concorrente. E há ainda défices técnicos evidentes, como uma qualidade de imagem estourada em excesso nas externas, por exemplo. Ou uma necessidade de repaginação geral de cenários junto com uma maior agilidade das câmeras e uma palheta de enquadramentos menos previsível nos programas gravados em estúdio.

A TV Diário, por seu turno, que se dirige expressamente às classes C e D é já uma potência local e, até certo ponto, nacional. Pode-se dizer que, no campo do audiovisual,  em termos de impacto, nenhum veículo provocou maior revolução em Fortaleza, nas últimas décadas que a TV Diário – embora isso demande uma análise que escapa ao tempo curto desta nota. Ela possui uma pujança que chega a assustar. Um insaciável apetite para devorar tudo que se encontra à volta. E uma espécie de excelência técnica absoluta nos domínios do kitsch, que inclusive irradia para suas subsidiárias menos criativas ou endinheiradas dentro do mesmo conglomerado - caso da modorrenta TV Unifor. Ou propõe-se como alternativa até às retransmissoras de redes nacionais, o que assoma como totalmente inesperado e contracorrente.

Além do que, ela contou com a sorte de, na esteira de seu surgimento, beneficiar-se do enorme potencial de expansão do consumo das classes médias baixas, cujo boom se deu durante o segundo mandato de Lula. Sua grade de programação mais popularesca é o que a mantém: os programas de polícia, rasos como são, ainda fortemente decalcados do rádio. Em compensação, as produções mais refinadas, segmentadas - turismo, pesca, revistas de variedades - têm de ser enxotadas para foras de hora. No horário nobre, programas onde os apresentadores posam de justiceiros, ou retêm algo da boçalidade proverbial de vereadores, fazem a festa do povão, junto com as usuais bandas de forró, secundadas por bailarinas quase roliças. E em especial, se contrapostas às esquálidas modelos que só faltam descadeirar-se enquanto desfilam com aparente brio, ar afetadamente entediado e alguma anorexia passarela afora. Como cabides ambulantes.  (Não é assim que as quer certo padrão global que vai mais além da Rede Globo?) Mas, observando melhor, mesmo as modelos locais parecem mais rechonchudas. E especialmente na TV Diário. Talvez porque, para um povo que deixou de passar fome a menos de uma geração, gordura e beleza ainda sejam sinônimos. (E vem daí a compulsividade com que se postam fotos de pratos, sobremesas, sorvetes e drinks nas redes sociais? Isso, de fato, torna "mais real" o que se come ou reitera o fato de se estar bem alimentado?).

Entre o que há de mais bizarro no processo de democratização da imagem: certa falta de apuro técnico e formal, que estava concentrado nas grandes redes do Sudeste, mas que aos poucos vem descomprimindo-se. E até propiciando que profissionais de talento e expertise não necessitem mais sair de seus locais de origem. Um aumento da demanda por editores, câmeras, repórteres, redatores, cenógrafos, iluminadores, sonoplastas, coreógrafos, atores assim como uma melhoria geral nos níveis de salário, têm contribuído para tanto.

Mas também há um aspecto crucial pouco tocado: qual o rosto dessa nova TV, mais democrática e federada? Ora, o rosto, o tipo físico de quem apresenta – na mesma medida que a voz, o acento - foi algo rigorosamente controlado pelas grandes redes, e uma espécie de incógnita para as pequenas – acima de tudo em seus anos e actos iniciais. Uma instância de insegurança. De virgindade mesmo, pode-se dizer do desacostumo que essas estações e redes sentem diante de questões assim. E inda não é uma equação de todo resolvida, embora encaminhe-se para uma solução compósita.

De início, privilegiou-se uma espécie de cópia ipsis-litteris, que, como não poderia deixar de ser, em todo processo de mimese acrítica, gerava apenas clones menores ou sofríveis de verdadeiros deuses do Olimpo midiático, criados no Eixão. E era assim que esses titãs - Cid Moreira, Sérgio Chapelin, Belisa Ribeiro, Leda Nagle, Valéria Monteiro, Ana Maria Bragas, Sandra Annenberg, William Bonner, Lillian Witte Fibe - tinham de achar um clone, muito sofrível e aproximado nas brenhas das redações e estúdios de estados mais à margem. E, então, no plano local, sobrevieram os Nazarenos Albuquerques, Nelsons Faheinas, Ritas Oliveiras, Aderbal Bezerras, Irazeres Gadelhas, Albertos Perdigãos, Joões Inácios Jrs, e quejandos. Mas, ao que parece, quase sempre estávamos em franca desvantagem. E talvez essa defasagem em favor da matriz, no Sudeste, pudesse ser compensada, nem que através do nome (daí a época dos Herman Hesses e Victor Hannovers). E, então, a coisa parece ter andado ainda mais para trás. Ter embrejado de vez a vaca.

Já hoje, sobretudo no campo dos telejornais, há um padrão evolutivo que se faz sentir no desembaraço e até na beleza, em particular de certas repórteres - como Alana Araújo, Luana Borba, Janaína Gouveia ou Larissa Macedo. Seus tipos físicos, em geral, situam-se na fronteira entre uma beleza local e uma outra, reivindicada por um suposto “padrão” nacional. E elas sentem-se à vontade falando num registro mais próximo do fortalezense culto - que, de resto, é um sotaque que jamais havia ido ao ar antes. E é sintomático que entre apresentadoras - que são o rosto mais estável dessa televisão federalizada - ainda não se encontre esse novo rosto, porém apenas ensaios, aproximações. E, em geral, nada bem sucedidos. Com as excepções de praxe, quando se pensa, por exemplo, numa Sandra Chaves, que já está na telinha há algum tempo. Ou, menos estavelmente, em Cíntia Lima.

Ao seu tempo, o cinema produzido na pulverização e na diasporização do Eixão Rio-Sampa não teve - ou  melhor, não consegue ter, como senso de apropriação e barganha - um miléssimo do dinamismo da televisão surgida em pólos regionais, nesse ínterim. É como se a televisão fosse da vida real, ao contrário do cinema. E conseguisse falar com largo desembaraço a mesma língua do telespectador - ponto inicial de onde partir. Pois tivesse tido o cinema (entenda-se os profissionais que o fazem) a sagacidade de parasitar a televisão, se o cinema tivesse exercido maior pressão para uma federalização da produção de programas televisivos - e sobretudo de matriz mais ficcional - e seu próprio sentido de compromisso e engajamento com essas realidades federadas, regionalizadas, teria sido, sobremaneira, tremendamente impactante. E, logo, seu alcance, verdadeiramente notável.