sábado, 21 de janeiro de 2012

Sem chamadas, sem chance

Paul Chan, 6th Light, 2007

A Qualidade de Vida

o filho morrera ainda criança. a mulher chispara com um juiz. as veleidades musicais, represadas num álbum lançado ao tempo da graduação. roía-se o cotidiano por crises. longe da zoada dos botecos. os longos percursos não tornavam ao ponto. restou-lhe a amante. 
a espera dela é que era leitmotiv. e por onde iam os filtros. o teste de sua paciência. fosse permitido recall no campo dos sentimentos, aplicaria para a reposição da paciência. e, quem sabe, com um novo kit – pouco importa a  marca – pudesse fazer frente uma vez mais ao mundo.
e não como alguém que se permitiu em vida haver-se passado ao passado. porém como um executivo. ou ao menos um supervisor de trainees. e logo, num desses dias de espera por ela, sem chamadas, sem chance, tramado em sua furiosa oficina de lembranças, seguia trabalhando. inútil o afã de prosseguir o recadastramento. não eram poucos os imóveis que a firma geria no leste da cidade. por que parecia tão sem sentido fazer aquilo? e olha que era algo em demanda antes já das festas.
e assim, nos intervalos, levantava-se, ia até a porta. fumava. entrolhava pelas venezianas: a nesga de rua, carros passando na avenida, galhos de acácia morrendo de calor, calmaria nos vagares do verão. dias a reincidir uma semana vítrea. lisa. sem reentrâncias onde cravar pinos, na escalada para a inexorabilidade de um body-jumping libertador.
retrocedia. sentava diante do monitor. abria planilhas. fechava. nada se resolvia por meio delas. 
no começo da noite, da calçada uma voz escamou a posta de trívias que encrostava o escritório. estremeceu. não era a voz dela. rogou que esperasse. vestiu uma camisa limpa. foi ao banheiro. penteou-se. pôs um pouco de loção após barba. acendeu a luz do vestíbulo que às vezes lhe servia de quarto.
eram duas mulheres na mesma penumbra.
enquanto a que estava diante dele falava, a outra era só mutismo e copas. conversaram breve. a que falava era jovem e bonita:
-então o senhor é corretor?
-sou, mas, vocês me desculpem, é que eu estou no meio de um trabalho, ocupado.
ela, ato contínuo, virou-se sobre a bolsa a tiracolo. de uma espécie de mostruário, sacou um folheto com certo embaraço. repassou a ele. e ele pode notar como os rostos crisparam-se no intervalar da conversa. delas, escoladas, experts nesse afazer de porta em porta, pensou. e voltou à escrivaninha. esfregou os olhos com força. desdobrou o folheto:

o último livro da bíblia indica a qualidade de vida que você terá no paraíso”.

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A alma de muitos negócios

Hans Arp

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uma vez, criei um slogan para a feira da música. 'xá, ver. como era mesmo?

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

No único ponto em que você daria tudo para segui-lo — Benjamin sobre Chaplin

Charles Chaplin, The Circus, 1928


Suas roupas são impermeáveis aos golpes do destino


Há um inesperado registro de Benjamin em que ele esboça uma breve resenha de The Circus (Charles Chaplin, 1928). Achado entre seus papéis de circunstância, a intersecção entre esses dois emblemas do séc. XX, o clown e o crítico, foi incorporada às Obras Completas (Gesammelte Schriften, VI, p. 137-138) do autor de Rua de Mão Única. A pequena resenha, inédita em português, salvo engano, é como segue: 


Chaplin

Depois de uma exibição de O Circo.
Chaplin nunca concede o sorriso aos espectadores enquanto estes o assistem. A audiência tem de duplicar-se: ou gargalhar ou ficar muito triste.
Chaplin saúda as pessoas erguendo a cartola, e parece a tampa da chaleira decolando quando água ferve.
Suas roupas são impermeáveis a cada golpe do destino. Ele bem parece que não as retira faz um mês. As camas e ele não se entendem; quando deita-se, deita-se em cima de um carrinho-de-mão ou de uma gangorra. Todo encardido, suado, metido em roupas demasiado curtas, Chaplin é a encarnação viva do aperçu de Goethe: o homem não seria a mais nobre criatura sobre a Terra se não fosse nobre o bastante.
Esse filme é o primeiro da maturidade de Chaplin. Ele envelheceu desde o filme anterior, mas também atua como um velho. E a coisa mais tocante desse novo filme é a sensação de que agora ele possui uma clara perspectiva das possibilidades abertas diante de si, e resolveu trabalhar exclusivamente dentro de certos limites a fim de alcançar os propósitos.
Ponto a ponto a variação dos grandes temas de Chaplin é revelada em toda a sua glória. A perseguição se dá num dédalo; sua aparição inesperada assombraria um mágico; a máscara de alheamento o transforma em marionete de feira. A parte mais maravilhosa, entretanto, vem do modo como se organiza o fim do filme. Ele joga confete no jovem e feliz casal, e a gente pensa: pronto, é o fim. E então lá se tem ele, de pé, quando o cortejo do circo toma seu caminho; ele fecha a porta à rabeira de todos e a gente pensa: pronto, é o fim. E então o surpreendemos enfronhado no aro do círculo previamente esboçado pela pobreza, e se pensa: pronto, agora é o fim. E logo surge um close-up de sua figura completamente desconjuntada, sentada sobre uma pedra no picadeiro. E então se pensa: agora o fim é inevitável. Mas daí ele ergue-se e é possível vê-lo de costas, caminhando para mais e mais distante naquele passo característico de Charlie Chaplin, que é sua própria marca registrada ambulante, feito a marca registrada da companhia que a gente vê em outros filmes. E então, no único ponto em que não há cortes e você daria tudo para segui-lo com o olhar para sempre—o filme acaba.

[Walter Benjamin]

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Paula Ney e o Espírito da Sátira

A Confeitaria Colombo, emblema do Rio Belle-Époque

Quando Morre a Divindade

Francisco de Paula Ney era figura carimbada nos círculos boêmios cariocas ao tempo de João do Rio, Emílio de Menezes, Olavo Bilac, do grande Lima Barreto. Sua presença de espírito era assunto de antologia. Jornalista, também escreveu versos. Mas ninguém lembra dele por isso. Ou talvez, mas sem querer. Indiretamente. É que um vestígio perto de imperceptível de soneto vive muito ao lado da gente. Paula Ney é o autor do mais célebre – e improvável – aposto à Fortaleza: “a loira desposada do sol”. 

Em 2012, Paula Ney acerca a inexistência. Tirante o professor Sânzio de Azevedo, um ou outro erudito por dever de ofício, ninguém mais o lê. Mas há a expressão – que todo mundo adora, e está nos lábios dos fortalezenses. De resto, é tudo que sabemos – quando sabemos – de Paula Ney. E também mal podia antecipar Paula Ney que um século depois de haver escrito mais um soneto aparnasianado, uma prefeita loura – mas não propriamente desposada do sol – iria usar e abusar da expressão em eventos públicos. 

Difícil explicar o porquê dessa loura desposada - e logo de quem - fazer tanto sucesso. Talvez por estar disponível, vá saber. Casar com o sol não requer juiz de paz. Não é casar com o próximo, bem entendido. Ou quem sabe, disponível, mas também bronzeada como manda o figurino. Embora se estivesse casada com o Pedro, o Nogueira, o Luís ou o juiz de paz, não estaria menos. Bronzeada, fique claro. E há por igual o fato de a metáfora para uma cerveja gelada ser uma loura, e vivermos debaixo de um sol de rachar. E não é uma tremenda, deselegante injustiça associar as louras àquele maldoso clichê que envolve testes de QI?


Por outro lado é de admirar que o politicamente correto ainda não haja reivindicado a cabeça do aposto em nome das ruivas, das morenas, das afro-brasileiras, das judias, das teuto-sulamericanas, das ítalo-brasileiras, das albinas, das sírio-libanesas, das descendentes dos povos indígenas, das polacas, das nisseis, das que assoviam mascando chicletes, das que que trazem aquele meio centímetro de queixinho dividido, das que implantaram botox, das que guiam cabriolés... Manuel Bandeira foi mais direto ao ponto quando disse que as "mulheres são lindas, inútil pensar que é do vestido".

Mas, então, contam de Paula Ney que a sua - que não se sabe ao certo se era loura - saiu-lhe ao encalço e antecipando em meio-século a canção de Vanzolini. É Sexta-Feira da Paixão e estamos naquele Rio de Janeiro Belle-Époque. Pode-se ver o filme. A trama é universal, claro. E, aqui, todo homem tem a Penélope que merece. A de Paula Ney, por fim, encontra-o no boteco - que bem podia se chamar Bar da Circe - entre amigos, amigas pandeiros, tangos, fandangos.
Resignado, ele então ergue-se, um pouco trôpego. E ela:
Chico, até no dia em que o Senhor morreu!
E ele:
Querida, veja, quando morre a Divindade, a humanidade cambaleia.

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APPENDIX


O que o fortalezense preza, por vezes sem dar conta, em tipos como Paula Ney é a presença de espírito. Certa saudável molecagem que satiristas como ele e Quintino Cunha abriram por marteladas de humor. Foram eles que cavaram os veios de onde se entrever em certo caráter cearense - aqui, é saudável fintar a palavra identidade - a afinada sintonia com a estação FM do humor e da sátira, depois confirmada na televisão. Logo, não são os arabescos e literatices do texto o que ficou. De um modo misterioso essa presença de espírito, de boêmio profissional, infiltrou-se, deixou algum travo no sensabor desses versos excessivamente estilizados - ou bilaqueanos de um jeito mau. De qualquer modo, segue abaixo o soneto ufanista de onde se extraiu a expressão. O melhor dele, além do consagrado aposto, vem pelo travo incongruente dessas "ondas azuis dos verdes mares" ou desses "matagais" onde paira certo espírito de porco e sátira. O resto está repleto de hóstias de luz, verbenas, pipilos e dormitares, como era praxe à época. Pode-se, de outro modo, ouvir ecos dele em diferentes tempos e letras de música, como na "Praia de Iracema", de Luís Assumpção:



Fortaleza

Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loira desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins pousada
Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho,
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais...

É minha terra! a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais! 



[Estação de Chuvas, 2012]

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Arrumar o cabelo e seguir vinte e cinco anos depois

 Julio Gonzalez, Mulher Penteando o Cabelo, 1936

Vai, passa a mão

Você tem saudade daquele garoto magro, de cabelos longos, caindo nos olhos, que vivia lendo no ônibus? A caminho do campus, todo um enxame de meninas acotovelava-se em torno. E como passavam as mãos nos cabelos. E o garoto, de tão avoado, pensava, ato contínuo, que era porque os cabelos dele estavam desgrenhados. 
Pelo menos até o dia em que uma mais afoita – que nunca é a que gente quis ardentemente – desvelou a razão com a complacência de um hímen.
E agora você sabe, segue pelas ruas de manhã cedo. Comprar pão, azeitar um pouco as juntas. E avulsa, uma menina longilínea, bem aquinhoada, saída de um sonho colateral, surge na esquina. E no tumulto do  coração você grita em pensamento:
Vai, passa a mão no cabelo”!

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

No momento em que o acesso ao conhecimento é ameaçado pelo dinheiro

/sic/

Estava Escrito

o congresso americano ameaça a Wikipedia e muito da melhor fronteira livre e grátis da rede. Esteja contra. Posicione-se. Faça-se ouvir. Passe adiante. 


era só uma questão de tempo. Estava escrito que estes dias viriam. Para um artigo sobre a disciplinarização da internet em Afetivagem, favor clicar aqui.

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As Fatias Sobre o Prato


Marc Chagall, La pluie, 1911

Rendição

Se houver cidade mais bonita que Fortaleza sob chuva, me rendo. Mudo agora. Mas mesmo assim não posso. Essa falsa loura de Paula Ney me pegou pela raiz dos cabelos. Há uma qualidade no ar e nos sons que são pura chuva. E faz a gente sonhar com geografias grandes. Com poemas épicos e feitos na Índia e em Cipango. E são muito mais saborosas e tenras as fatias de manga rosa que se vai fazendo sobre o prato da manhã. 

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O Mais Esperto Comunista

Susan Rothenberg, 1976


Fuga em dó maior para imprensa e cavaquinho

Sem barganha, chantagem, investimento em reportagem investigativa, custosa, de risco. Uma pauta como pede o figurino. E, ao invés disso, jovens e talentosos jornalistas, como Daniel Piza, é que se vão. E o velhinho ali, firme. O sorriso do velhinho rende-lhe centros culturais nas Astúrias e um bocado de dividendos. Outros de esquerda, que passaram terríveis  apertos não  ousariam sonhar com o glamour de sua vida, entre presidentes, politicos influentes, ditadores, ministros, executivos de transnacionais e uma proverbial abundância de mulheres bonitas. Inspirado numa vida assim há certo filme em que Jean Paul Belmondo faz o papel dele: O Homem do Rio. Há anos os necrológios perseguem Niemeyer como galgos. E farejam-no o corpo franzino por todos os poros, resfriados, internações, vesículas, boletins. Eles já estão meio pra fora das gavetas, dos arquivos feito língua de sogra. Que estão prontos há anos faltando só a causa mortis, todo mundo sabe. Mais que prontos. Já passaram um pouquinho do ponto como um abacaxi roído pelo calor de janeiro. E nada. Em 2009, grande esperança, o decano foi hospitalizado às pressas. Desse mato sai cachorro, apostaram as editorias.  Certo amigo me escreveu de São Paulo solicitando um artigo para ontem. Qual o quê, alarme falso. Mais falso que certos implantes de silicone ou o amplo conhecimento náutico do comandante Francesco Schettino. Era apenas um problema de vesícula. O velhinho, por birra decerto, até casou uns cinco anos atrás. Um século e quatro anos. Oscar Ribeiro de Almeida tinha sete anos ao tempo da Primeira Guerra. Quando veio a Semana de Arte, bem podia tê-la assistido, do alto de sua adolescência. Para a imprensa, ah, como seria providencial que o último modernista, o derradeiro daquela estirpe de intelectuais monopolistas e mercuriais, que praticamente reinventaram o país, morresse nesta calmaria pré-carnavalesca. É todo o assunto que os jornais e os portais desejam: luto, revisão da biografia, imensas fotos, longos vídeos com os palácios de Brasília, a Pampulha, o Copan, o prédio do Ministério da Educação e Saúde, O edifício da Onu, a Sede do Libération; e para adiante, mundo afora, muitos croquis depois. Seria uma pauta e tanto. Pauta merca. Comprada a peso de nada. Sonho dourado dos editores da vez. Fora de dúvida e até nisso de morrer, Niemeyer é o comunista mais esperto que já existiu. Carioca, ele tem uma voz dengosa, de mineiro. E uma matreirice mais que mineira, mineral, que dá de dez na malandragem do Rio. Aos 104 anos, dizem que ainda vai trabalhar. Não é certo se chega a debruçar-se sobre a prancheta e extrair esboços como um recém-formado. Mas os amigos dizem que reserva um tempo ao fim da tarde para tomar seu malte, fumar um puro, e contemplar as meninas nas areias de Copacabana. Vai nisso uma receita?


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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Meigura, ternice e corinho

Isamu Noguchi, 2009

Recentemente, tive de retornar ao estrupício do Facebook por uns tempos e razões impublicáveis. (Estou em vias de me mandar de novo). É um verdadeiro thriller macabro o tanto que todos são espirituosos e/ou afetuosos por lá. Asfixia. Escolher entre ser gênio incompreendido ou distribuir amor, flores, tumblr's e simpatia em doses cavalares. Eis o dilema no Livrorosto. E eu estou fora, definitivamente. E, de cara, a mensagem de mais senso que enxerguei por lá, morrendo de medo daquele turbilhão de obviedades e afetos, é a do poeta e tradutor paulista - também ás da publicidade - Luís Roberto Guedes: “Pessoal que vive florindo a minha página com mensagens de meigura, ternice e corinho: dá um tempo”. 

Faz todo o sentido.

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Uma imagem arranhada

 
Claes Oldenburg e Cossje van Bruggen, 1995


Desde antes do romantismo nutre-se aquela imagem dos comandantes de navio: bravos, cavalheiros, intrépidos lobos do mar. Eles têm um papel decisivo na história do país. Quando pequenos, ao menos por um minuto sonhamos ser capitães de navio. Aí vem esse tal de Francesco Schettino e estraga tudo.

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domingo, 15 de janeiro de 2012

Para uma dama na ponte-área

Robert Mangold, 1/3 Gray Green Curved Area, 1966

pra já, sua balada sugerida corta a tarde como se passa o fio da faca no limão antes de espremê-lo acima das bordas da caneca. calor. há tanto calor nas bordas da tarde. e esse piano, riscado a lápis, vai a deixar gotas de caixinha de música; e atesta o quanto você pressente bem o que gosta. e há na balada uma atmosfera de inevitabilidade e diminutas de desassossegar coração. e faz a gente olhar pra dentro daquela intermitente despensa, onde se guarda a memória de quem se gostou muito em breve prazo. e eu lembro do que suas mãos são capazes. e por aí a gente segue editando o resto do clip, da epopeia. é. lembro de como você dizia que eu preparava o mate mais gostoso do mundo. tenho me esforçado. já sabia que não era mau. mas agora sei que é especial, porque você é danada de exigente com os outros, mas é principalmente cruel, uma lampiã consigo mesma. e depois desse tempo, fico pensando se ainda segue maquiada pro trabalho. se segue a promover sorteios a partir de blogues. se ainda joga gamão ou tem de vez em quando a vontade louca de que o mundo acabe só para contar depois que presenciou um grande fato histórico, já que você perdeu a queda do muro. e anote, ninguém sussurra “you do something to me” mais bonito. e com certeza, você ainda gasta horas sem conta falando de moda daquele jeito bacana. daquele jeito que até eu, comprador de uma pá de camisas e calças iguais, só pra não ter de pensar muito na hora de calçar meus all-stars, gosto. mas reconheço, desta vez foram eles, os all-stars, que pisaram na bola. e, sei, é tão difícil reconhecer. e a mão segue escrevendo e não digo: “desta vez, pisei na maldita bola". e por outro lado, antes suprimi o pronome. é. você tem toda razão, a gente nunca quer assumir a responsabilidade, ser o sujeito dessas bagaceiras do coração. e o que mais mesmo? espero que você esteja bem. e se o mundo não acabar amanhã, não perca a esperança, algo deu errado. mas saiba, a coisa está por um fio.

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sábado, 14 de janeiro de 2012

De comover o dnocs das redações

Richard Prince, My Way, 2004


Escandalosa Escassez

o naufrágio de um navio de cruzeiro ao largo da costa italiana salvou a vida dos portais brasileiros neste sábado. eles andavam numa seca do 15 de assuntos de comover o dnocs das redações.

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

De uma manhã, ócio e provérbios

René Magritte, L'Empire des Lumières, 1954


tudo como dantes na casa de cervantes

pra gente ir além dos gregórios de matos sem cachorro

com um olho no padre antônio vieira e outro na missa

nada como um gonçalves dias depois do outro

pois com pequenos machados de assis é que se abrem veredas

e de gracilianos ramos aproveita-se bem mais que o domingo

agora, a gente sabe: não há guimarães rosas sem espinhos

e quem bioy-casares a correr, tem toda vida pra se arrepender

então, é julio cortázar o mal pela raiz


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Avoir l’eau à la bouche

Gaetano Zampini, 1753

La tapioca au lait

Hoje, a exemplo de ontem, comprei tapioca do pregoeiro de grito longo e agônico. Ele vende tapioca, pamonha e cuscuz. Espertamente quis me cobrar a mais que ontem. Lembrei-lhe o preço. Num sobressalto, disse que estava cobrando pelo cuscuz. Mas, bem, no início mesmo desta semana, havia dito que os dois, cuscuz e tapioca, eram de mesmo preço.
Ladinices de lado, tenho plena consciência de que estou comprando tapiocas ao passado. A uma ocupação que confina a extinção. O exício mais absoluto. E sigo na inteira contramão da sofisticação dos gostos em Fortaleza.
De momento, degustam-se vinhos apenas razoáveis, cafés sofríveis, cervejas para o gasto em outras latitudes, sorvetes e confeitos um tanto inapropriados ao clima, à carne das frutas, à compleição das pessoas. Ou frutas importadas de terceira. Sabemos que tudo isso sobrevêm inflacionado. É vendido caro e sem aferição. E para consumidores ávidos por um selo de aprovação social.
De minha parte – como aquele francês que não passa sem ir à padaria de manhã e voltar com a bisnaga debaixo do sovaco – aprecio cada vez mais essa tapioca que passa gritando à domicílio, na vanguarda da manhã, pelas ruas da Piedade.


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Fragmento Teológico-Literário

Salvador Dalí

Todo o texto a seguir, mas em especial o primeiro parágrafo, deve ser lido como se lê um programa.

Tenho que tentar dizer o que é necessário de um modo acessível e o mais universal possível. Mas sem perder a dignidade da ideia, que é o que ocorre hoje nos meios de comunicação: a perda da dignidade da EXPRESSÃO. A expressão sacrificada em nome da ampliação de seu alcance.

/Exemplo/
Passando ontem pela Vulgata, saíram estas duas versões, sem muito sistema. E qual, então, o propósito? O propósito é mostrar como alguém que desconhece latim pode “traduzir” do latim apenas pelo sedimento de leituras no português. O sentido específico destes movimentos de tradução é o de lançar o leitor “para dentro” de outras línguas. Neste caso, para dentro do latim, que nem mesmo sei ou domino, (mas sinto), imergindo-o por meio: 1. de uma violenta rigidez sintática; e 2. pelo som, mais do que pelo sentido das palavras. Vejamos como isto é possível:


/Liber Genesis/
/Livro Gênesis/
In principio creavit Deus caelum et terram. Terra autem erat inanis et vacua, et tenebrae super faciem abyssi, et spiritus Dei ferebatur super aquas.
Dixitque Deus: “Fiat lux”. Et facta est lux.
Et vidit Deus lucem quod esset bona et divisit Deus lucem ac tenebras.
Appellavitque Deus lucem Diem et tenebras Noctem. Factumque est vespere et mane, dies unus.

No princípio, criou Deus o céu e a terra. A terra, então, era inane e vã, e a treva sobre a face do abismo, e o espírito de Deus ferrabrava sobre águas.
Disse Deus: "Faça-se luz". E luz foi feita.
E Deus viu a bondade da luz. E dividiu a luz da treva.
Apelou Deus a luz de dia. E a treva, noite. Feitas foram véspera e manhã, dia um.

/Evangelium Secundum Ioannem/
/Evangelho Segundo João/
In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum. Hoc erat in principio apud Deum. Omnia per ipsum facta sunt, et sine ipso factum est nihil, quod factum est; in ipso vita erat, et vita erat lux hominum, et lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non comprehenderunt.

Em princípio era verbo, e verbo era aposto a Deus, e Deus era verbo. Ele era em princípio aposto a Deus, a união por Ele foi feita, e sem Ele nada do que foi feito foi feito. Ele era vida. E vida era a luz humana. E a luz luziu nas trevas. E as trevas não a compreenderam.


/Ressalva e Paráfrase/
Tudo bem. Podem parar de rir. Já sei. Quer dizer, suponho que sei a primeira coisa que alguém vai implicar com. E naturalmente é com esse “ferrabrava”. Não existe o verbo “ferrabrar” em português. Mas o termo foi lapidado para equivaler ao som no latim “ferebatur super aquas” (“movia-se sobre a água”). O termo, de resto, repassa uma ideia de convulsão, de movimento. Algo como um ferreiro forjando seu ferro. Esforço análogo ao do Senhor ao criar o mundo. E por outro lado, o termo não esquece da infância da gente, vizinha de nossa própria criação. Ou seja, do tal gigante Ferrabrás, de quando éramos pequeno.
Feita a ressalva, podemos prosseguir.
Talvez o que mais pasme nos jovens, é que eles são todo intuição. Ora, isso por um lado é excelente: intuição é mais da metade do caminho. É aquilo que se oferece de graça ao espírito sincero e, portanto, ao jovem. E, contudo, o resto do itinerário da escrita é árduo. É feito queimando combustíveis fósseis ou orgânicos. Quer dizer, um duro danado foi dado por sucessivas gerações no passado. E é esta faina incessante, que "ferrabra" ao longo dos séculos, o que mantém a chama acesa e nos dá de comer. É dela que nos nutrimos, quando falamos no palavrão que os jovens mais detestam: forma. E é uma pena que detestem. Pois sem ela é impossível comer beleza ou digeri-la.
Forma nada mais é que o corpo e o sangue dos escritores que vieram antes de nós. É como se para escrever fosse preciso queimar algo na noite, como se queima a cera das velas, o querosene dos miasmas, o azeite das mamonas, o sebo dos círios. Esse combustível orgânico ou fóssil chama-se tradição, chama viva que passa de uma geração a outra sem apagar. E a tradição é pesada. Sobretudo a todo aquele que a desconhece ou a nega, pois para este ela se converte num fardo. Tradição, aqui, não tem a ver com algo conservador em termos políticos ou psíquicos. Bem ao contrário, trata-se da única forma de agir revolucionariamente. É reacendendo certos valores da tradição  que são implicitamente bons, mas que a convenção social em hipocrisia deformou  que se muda para melhor uma sociedade. A rigor seria escamar a tradição do que se entende erroneamente por tradição e não é. Quer dizer, sobretudo saber separá-la de certo moralismo tacanho ou catolicismo de sacristia. A revolução nada mais é, assim, que um des-deformar esses valores. Em arte, como nos explica Ortega y Gasset, o modernismo agiu desse modo. Por oposição. 
Um pintor ao apelar para a deformação do traço, quer reachar o traço, ao apelar para a cor básica e tosca, quer reachar o sentido original da cor, perdidos que foram de tanto esses traços e cores serem empregados em hipocrisia e mimetismos doentios por uma sociedade deformada. O perigo de doutrinas como o politicamente correto mora justamente aqui. Contra o que elas se insurgem é, mais das vezes, pertinente. E, no entanto, ao eliminar o problema, elimina-se junto a solução – que passa pelo filtro da tradição.
Dizer, por exemplo, que vale tudo, que não se deve apelar para uma norma culta no português ou deixar de ensiná-lo, via essa norma culta nas escolas, é algo terrível. Ainda assim, há linguistas que defendem isto. A exemplo de Bagno. Como pode ser? Porque se este ponto de vista for validado, assumido pela sociedade, em umas poucas gerações a língua não só será “esquecida”, como fragmentar-se-á em diversos dialetos e idioletos não comunicáveis entre si. O resultado seria uma confusão medonha. Uma verdadeira babel. Alguém do Acre seria incapaz de se comunicar com uma menina no Espírito Santo. Ou compreender um programa de TV produzido na Paraíba. O que, em última instância “dá liga” para que diferentes regiões, países ou temperamentos culturais – e tão importante quanto, diferentes tempos também – se comuniquem é a obra dos grandes autores do passado.
Por outro lado, a forma de manter a chama acesa é ler, entender, amar os clássicos. Porque neles está sedimentado o combustível fóssil necessário para manter acesa qualquer modalidade de escrita.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Suco de Graviola


Piet Mondrian, Chrysanthemum, 1909

Epifania Matinal

Hoje pela manhã tomei suco de graviola, desses em caixa. E quando meu olho deu com a embalagem, constatei que havia sido envasado em Palmeira dos Índios. Houve um tempo em que até um alfinete, um grampo, uma tamanca de freio de bicicleta eram feitos em São Paulo. O que dizer de alimentos beneficiados.
Saboreei com mais vagar aquele suco.
Depois fui até a estante. E retirei o volume com as obras completas de Graciliano.

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O George Harrison da Poesia Concreta

Juan Miró, Intérieur hollandais, 1925

A Poesia Concreta e a Voltinha no Quarteirão

Augusto de Campos sempre me pareceu o mais ponderado dos concretistas. Discreto e, ao mesmo tempo, profundo. Décio foi meu professor. E um ótimo professor. E há versos seus que já trazia de cor antes de conhecê-lo e ainda trago até hoje (“Gira, girando meu carrossel” ou “Iroquês, iroquês que fizeste?”). Mas sua prosa experimental é um bocado chata. E seus poemas na fronteira da publicidade, apenas fáceis. Haroldo, o mais incensado quando vivo, lembrado até para um possível Nobel – que ele não ganharia, por mais empenho que botassem nisso – tinha aquele olhar de louco. Quer dizer, de louco que passou o dia todo lendo e não saiu de casa nem para dar uma voltinha no quarteirão. Ou limpar a vista com a passagem das meninas. Ou pelo menos deixar o pobre do au-au fazer cocô em paz.¹
Se bem que Haroldo não tinha cachorro, caçava com gato. Quer dizer, caçava referências e citações com gato. Porque nunca que ele deve ter caçado na vida, a não ser o sentido de um verbo anômalo num dialeto inuíte desses qualquer.
A falta dessa voltinha no quarteirão foi o que matou a poesia concreta. E fez com que ela, dissociada do actual e do cotidiano, vivesse e perecesse sem muita glória. Em Leminski, por exemplo, a voltinha no quarteirão está lá, e muito lá. O mesmo se pode dizer de sua geração: Chico Alvim, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Nicholas Behr, Alice Ruiz, Charles et alli.
Todo esse povo que vem sob a hashtag de Mimeógrafo Generation ou poesia marginal² deu boas voltinhas no quarteirão, num quarteirão do tamanho do mundo, ao invés de ficar só lendo e afagando gatos. Aqui a impressão que se tem dos concretistas é que o máximo que eles aprontaram foram meta-travessuras ou, digamos, meta-vexames. Ou seja, pequenos e inocentes escândalos em bienais de arte e salas de concerto.
O resultado disso foi que a minha geração leu um bocado da teoria e das traduções dos concretistas. Mas na hora de ler poesia, a poesia que pulsa, bate viva feito coração, fere e afaga, a que não tem bula nem contra-indicação, a que vai além da citação, do pastiche, dessas literatices, era muito mais divertido – e menos Aranha sem graça – ler Leminski, Torquato, Alvim, Ana Cristina, Cacaso e as letras de Chico e Caetano. (Quem pode negar?) Exatamente os que eles consideram “diluidores”, seguindo, à letra, a sovadíssima classificação de Pound.
Ainda assim, quem desconhece a teoria, as traduções e alguns (poucos) poemas que passaram pelas privilegiadas cacholas desses três senhores, merece mais compaixão que apreço. O Balanço da Bossa, de Augusto, por exemplo, é um livro bastante subestimado. Uma das melhores coisas escritas sobre nossa música popular. É quase tão bom quanto Tinhorão. E vale tanto ler um quanto o outro.
Esta semana, vi Augusto falando numa entrevista. Augusto é uma glória nacional – e não segue aqui um grama de ironia. Visivelmente incomodado por ser interrompido – por essa mania feia que os repórteres têm de cortar a fala do entrevistado quando ele está no melhor, só para confirmar que inspiram e expiram, que “participam”³ – ele falou com enorme propriedade, fluência sobre sua formação e participação no movimento.
E com a calma que faltou a Haroldo. E, às vezes, falta a Décio.
Há duas coisas excelentes no temperamento de Augusto, e que estendem-se obviamente a seu processo de criação. A primeira, é não se tomar tão a sério, embora seja o que mais se manteve fiel à perspectiva concretista – e há muita coerência e idoneidade nisto. É, portanto, o que mais deve a sério ser tomado. A segunda, é revisar épocas e períodos inscrevendo generosamente sua vida num panorama, num circuito bem mais amplo de nomes, ideias e obras.
Além disso ele diz coisas bem urdidas como:

arte longa vida breve
escravo se não escreve
escreve só não descreve
grita grifa grafa grava
uma única palavra
greve greve greve greve


Reparem que isto é bom, não por ser poesia concreta. Ou por estar posto atrás de um papel manteiga e certos tipos gráficos pretensiosos e sem serifa num belo livro chamado Viva a Vaia. Do contrário, é bom porque nos faz lembrar das redondilhas dos finados cantadores do Nordeste. E bom porque possui certo ritmo, certa bossa, certo engenho. Alguma ligação com o mundo exterior para além dos paideumas. Parece até escrito por Leminski!
A falta de sal na poesia concreta não se deve ao seu meio rarefeito. Nem sequer ao programa em si. Ou as características de anti-poesia. A impressão que se tem é a de que eles levaram tanta porrada do status quo, do pessoal de 45 - ainda mais Aranha sem graça que eles - que ficaram muito defensivistas e prescritivos. Há uma rigidez proto-militar na poesia concreta. Um hieratismo intelectual asfixiante, sem porosidade ou transitivos para a vida fora dos livros.
Quando Haroldo, já maduro, tentou algo para fora dos livros, tarde demais. E soou apenas incongruente. Mas Augusto, por uma estranha dialética – e isso foi percebido por João Cabral – ao se manter mais fiel ao programa original, ao plano-piloto, conseguiu também transpor um pouco mais o percurso de ida e volta do livro para a vida.

Por fim mas não menos sublinhável, em provocação, a ilustração é Miró, um surrealista. Mas, de repente, a exemplo de Murilo Mendes, um surrealista bastante admirado por quem os concretistas admiravam: João Cabral. De outro lado, deixamos Mondrian, que eles adorariam ter como ilustração, em postagens mais ou menos próximas por aqui. Alusivas. E, no entanto, apartado deles, como de resto Mondrian – ao menos aquele que se descobriu um amante tardio do bogie-woogie – haveria de se postar, à distância, se soubesse da poesia concreta. Provavelmente, logo intuiria o grau de insípido hieratismo ao qual ela se propôs desde seu bater o centro. De contrariedades, provocações, bons desníveis é também feita a poesia, a crítica. E não só de receitas miméticas, de algo que se viu num livro ou num quadro, de tentar copiar um procedimento apreendido num seminário de pós-graduação ou numa sequência de Antonioni. De citações inócuas, enfim. A boa poesia vem do livro, sem dúvida, mas antes vem do mundo: da infância cheia de temores, incertezas; das intensas cores e falas da cidade; dos sonhos misteriosos, não digeridos pela manhã; dos botecos e cantinas; do receio antes do vestibular; dos pátios de faculdade em meio ao ramerrão da política estudantil; das insônias e outros vícios; do deslumbramento e da paixão; das dores de cotovelo e de corno; das bebedeiras e desesperos de quando se tem vinte anos; dos alugueis atrasados; das viagens com pouco dinheiro; de sentir-se o terceiro excluído; da demissão sem justa causa; das injustiças sofridas e cometidas; do misterioso tempo arrasando formas e criando outras igualmente belas e translúcidas; de concretudes e de abstrações nem tão abstratas assim; e etc. e etc. E, não resta dúvida, até de poesia concreta. Mas não só. E bote não só nisso.

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¹ Em Perdizes, aliás, as calçadas ficavam desoladoramente cagadas na década de 90, porque a moda ainda não era levar também o saco e a pazinha. E, re-aliás, os mais velhos não diziam “em Perdizes”, mas “nas Perdizes”. Era, tri-aliás, como Décio e Haroldo se referiam ao bairro: "nas Perdizes". E era engraçado ver mentes tão universais e ilustradas expressarem-se de um jeito que me lembrava, de alguma forma, o de senhores de idade no interior do Ceará, com esses artigos no plural concordando com o topônimo, e reforçando uma ideia de familiaridade que se perdeu no vão do tempo. Ou na poeira de trilhas e encruzilhadas menos "literáticas" do que se supõe. E eles - ocupados demais com manifestos, bienais, teorias - talvez nem tenham se dado conta. Na verdade, ao flexionarem essas partículas para concordarem com o nome do bairro, eles pareciam Seu Chico Noronha, morador de meu avô, falando das Imburanas. Havia um elo secreto entre Seu Chico Noronha e eles, que apontavam para um Brasil arcaico e pré-industrial, tudo o que eles mais almejavam exorcizar.  Então me ocorreu o quanto o tempo é implacável, mesmo com intelectuais ou artistas de vanguarda. E o quanto o emprego flexionado dessas partículas os punha em paralelo com um arcaico modo de expressão que já não se encontra sequer na capital de um estado do Nordeste, entre os jovens, claro - para não falar de São Paulo. De outro modo, a tarefa civilizadora dos concretistas é de grande fôlego. E não se pode prescindir dela. Embora nela seja necessário, como de resto no mais, separar joio e trigo. Haroldo e Décio foram determinantes para a montagem do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, pioneiro do gênero no país. E uma importante dissidência ao modo mais sociológico – e, claro, bastante substancial também – como a literatura é ensinada até hoje na Usp. Em São Paulo, tanto faz o lado em que você esteja assistindo ou ministrando aulas, é comum se dizer: “do outro lado do Rio Pinheiros, eles diriam que...” A expressão faz referência ao fato de o Rio Pinheiros, que praticamente confina com o Campus da USP, dividir territorialmente os lados. O mais semiótico (PUC) e o mais sociológico (USP). E alguém de mais brio, ao invés de tomar sectariamente o partido, navega no rio, em barquinho de papel.

² Nosso equivalente tardio, e ligeiramente após o grupo de Piva e Willer (mas mais universais, menos restritos a São Paulo que estes), aos beats.

³ Afinal hoje em dia quem não participa de alguma coisa, quem fica apenas em silêncio observando, é visto como um baita de um desgraçado. Um impostor. Um herege. Não é assim? Em arte, todos devem “interagir”, “participar”, receber o santo ou quase isso. Senão vão dizer que você está por fora. Que é um fracassado. Um loser. Um infeliz ao terceiro contato imediato. Alguém que não se comunica.
Como se menospreza silêncio. Ou qualquer modalidade de introspecção para referendar essa sub-arte pseudo-participativa!
Mil vezes, em determinadas circunstâncias contemplar, observa, calar. E há uma forma de calar mesmo com palavras. Mesmo no interior de textos escritos. Mas isto também se está desaprendendo.


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O que não cresce à sombra, não importa: Alver

Piet Mondrian, Stilleven met gemberpot I, 1912

Fragmento

Grandes eventos crescem à sombra.
O que não cresce à sombra, não importa.
A força do vencedor e as pitombas de beira de estrada
repartem o mesmo sabor de pó.

Ideias importantes vão te roubar a paz,
as confusas encrespam-se de prazer;
as mais importantes jamais
acharão forma nas palavras.

Betti Alver


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NOTA
A partir de uma tradução para o inglês de Ivar Vask. Obviamente não há pitombas nas beiras de estrada da Estônia. E sim cerejas, amoras, framboesas, mirtilos ou morangos silvestres – berries em inglês. Frutinhas muito utilizadas em compotas e geleias. O sentido é o de uma frutinha sem muito valor. Em Portugal chamam bagas ou bagos. Aqui, como não chamamos bagas nem temos cerejas, nem framboesas, nem morangos silvestres – embora tenhamos um leque imenso de frutas que eles não têm – vieram essas pitombas de equivalente. Se estiver valendo... Uma das vantagens das pitombas – e não a menor – é toar com “sombra” [versos 1 e 2] e importa [verso 2].

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Tempos verbais e o absurdo

Paula Rego, A Concise Definition of Answers, 1996

Ano que vem, respondo

O mais-que-perfeito é um tempo verbal adorável. Sua desinência é frágil, quebradiça, como um utensílio - fechadura, tábua de carne, cadeira de palhinha - que pelo excesso de uso demarca o transcurso do tempo. E com um nome completamente doido. Ilógico. É um passado anterior ao passado. É feito aquele moedor de carne à manivela que quando éramos pequenos já sabíamos que era passado. Que estivera ali antes da gente nascer, acoplado à mesa da cozinha, e embora ainda fosse eventualmente utilizado, coisas mais práticas estavam por vir. Por estas bandas, ninguém  mais emprega o mais-que-perfeito na versão falada da língua. Só na escrita. Mas, ainda assim, no campo da pura lógica, o mais-que-perfeito empata com o futuro do pretérito, que é também outro monstro sem lógica, porque só o presente pode ter um futuro. O futuro do passado é justamente o presente. O breve presente. O presente que grita que não pode ser longo, como quer o autor das Confissões. Ainda assim, o futuro do pretérito abre-se em possibilidades. É o tempo dos utópicos, dos sonhadores, dos neuróticos e dos santos. E por isso os políticos não gostam dele. Preferem o futuro do presente. Mente-se melhor e mais seguro com o futuro do presente.
Algo mais que perfeito é literalmente um disparate em termos filosóficos. E até teológicos. Um linguista alemão iria dar tratos à bola com um nome assim. Já o futuro do pretérito é pouco empregado em Portugal, onde foi substituído pelo imperfeito. Por que será que caiu nas graças do brasileiro? Eu responderia agora. Mas tenho que sair.

Ano que vem, respondo.

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O que a conversa lamenta é grandeza perdida: Benjamin

Minor White, Two Barns and Shadow, 1955


Dos sobretons epifânicos em Benjamin

Adorno diz que, no caso de Walter Benjamin, seu pensamento configurava-se como se as boas promessas dos contos de fadas e das histórias infantis tivessem de ser resgatadas e não repelidas em nome de uma infame maturidade. É um bom modo de cristalizar uma caracterização. À sua vez, os marxistas ortodoxos do passado, não cessavam de acusar Benjamin de seduzir os jovens com uma linguagem epifânica, plena de ressonâncias poéticas, próxima da linguagem dos profetas nas Escrituras. O que eles não compreendiam, então, é que os jovens eram seduzidos, sim, mas não propriamente por conta de a linguagem assemelhar-se à das Escrituras. Pois, neste caso, estariam todos debruçados diretamente na fonte, e trariam trechos e mais trechos da Bíblia de cor. A sedução provinha mais do grau de verdade que os jovens sentiam nos ensaios do autor de “Der Erzähler”E, logo, a acusação mesma já se constituía num maravilhoso aval e incentivo. Numa sanção que apontava para o quanto a teologia judaico-cristã impregnava o pensamento de Benjamin aliando-se a outros veios, como a estética de Kant e, obviamente, o pensamento de Marx e a nascente psicanálise de Freud e Jung. Ou o quanto havia de riqueza e aberturas em sua concepção do que era conhecimento, pois  nem por um segundo ele abre mão da simultaneidade dessas perspectivas. Se as utiliza de modo alegórico, se elas se combinam para conformar uma outra visão materialista da modernidade; se  são, ao fim de tudo, emasculadas ou drenadas de suas potencialidades, e muitos outros “se's” para adiante; isto são outros quinhentos.
Mas ainda hoje – e mesmo para alguém habituado com a expressividade do autor da "Pequena História da Fotografia" – é encostar o olho em um texto seu ainda não lido e admirar suas qualidades de ensaísta. E, porque há tanta presentificação de sentimentos e sensações, é filosofia mas ao mesmo tempo confissão. E romance. Um prazer que não quer chegar só ao espírito mas igualmente ao corpo. Como no início deste “As Metafísicas da Juventude”, que, salvo engano, ainda é inédito em português. O ensaio, que é de 1914, divide-se em três tópicos: A Conversa, O Diário, O Baile. Abre com uma epígrafe de Hölderlin – que mais tarde, na sua “A Tarefa (Vexame) do Tradutor” Benjamin irá caracterizar como alguém que esteve tão próximo da perfeição ao traduzir (no caso os gregos), que experimentou uma vertiginosa aberração de linguagem e uma espécie de crise ou surto, para logo em seguida cair num mutismo absoluto. O intuito deste "As Metafísicas da Juventude", no entanto, é bem outro. É dimensionar o quanto já na juventude nos nutrimos de coisas passadas. Ou as buscamos vencê-las. Ou somos vencidos por elas. O modo, enfim, como com elas travamos o que há de verdadeiramente épico em nossos embates pessoais:


A Conversa

Porque sois vós, oh, Juventude, quem sempre me desperta
prontamente pela manhã? E onde estais, Luz?
Friedrich Hölderlin –

I.
Diurnamente, lançamos mão de desmedidas energias como quando dormimos. O que fazemos e pensamos é preenchido com o ser de nossos pais e ancestrais. Um simbolismo incompreensível nos escraviza sem cerimônia. Às vezes, ao despertar, lembramos de um sonho. Dessa forma, raros raios de intuição iluminam as ruínas de nossas energias geradas ao longo do tempo. Estávamos acostumados com o espírito [Geist] tanto quanto com a batida do coração que nos permite levantar pesos e digerir a comida.
Cada conversa trata do conhecimento do passado tanto assim como de nossa juventude, e com horror ante a visão das massas espirituais dos campos destroçados. Nunca entrevemos a surda batalha que nossos egos travam com nossos pais. Agora podemos ver o que involuntariamente destruímos e criamos. A conversa lamenta a grandeza perdida.

II
A conversa esforça-se na direção do silêncio, e o ouvinte é de fato a parte silenciosa. O falante recebe dele o significado; o silencioso é a fonte inalienável do sentido. A conversa alça palavras aos seus lábios ao modo de vasos, jarras. O falante imerge na memória de sua fortaleza por palavras e busca formas nas quais o ouvinte possa se revelar. Pois o falante fala a fim de instalar a persuasão. Ele entende o ouvinte a despeito de seu silêncio; ele percebe que está se dirigindo a alguém cujas feições são inexaurivelmente sinceras e boas, enquanto ele, o falante, blasfema contra a linguagem.
[...]


III
O silêncio é a fronteira externa da conversa. A pessoa improdutiva nunca alcança essa fronteira; ela dispõe sua conversa como monólogo. Ela sai da conversa para entrar no diário ou no café.
[...]
A grandeza é o silêncio eterno após a conversa. É ouvir o ritmo das próprias palavras no espaço vazio. 
[...]


O Baile
[...]
Mas uma palavra, dita à noite, nos convoca alguém, caminhamos juntos, não precisamos propriamente da música, mas podemos juntos deitar no escuro, mesmo que nossos olhos cintilem, como uma lâmina entre duas pessoas. Sabemos que as impiedosas realidades que foram exorcizadas ainda pairam ao redor da casa. Os poetas, com seus sorrisos amargos, os santos e os policiais, e os carros de emboscada. De tempos em tempos, a música adentra o mundo exterior e os suprime.

* * *