Charles Chaplin, The Circus, 1928
Suas roupas são impermeáveis aos golpes do destino
Há um inesperado registro de Benjamin em que ele esboça uma
breve resenha de The Circus (Charles Chaplin, 1928). Achado
entre seus papéis de circunstância, a intersecção entre esses
dois emblemas do séc. XX, o clown e o crítico, foi incorporada às
Obras Completas (Gesammelte Schriften, VI, p. 137-138) do autor de Rua de Mão Única. A pequena resenha, inédita em
português, salvo engano, é como segue:
Chaplin
Depois
de uma exibição de O Circo.
Chaplin
nunca concede o sorriso aos espectadores enquanto estes o assistem. A
audiência tem de duplicar-se: ou gargalhar ou ficar muito triste.
Chaplin
saúda as pessoas erguendo a cartola, e parece a tampa da chaleira
decolando quando água ferve.
Suas
roupas são impermeáveis a cada golpe do destino. Ele bem parece que
não as retira faz um mês. As camas e ele não se entendem; quando
deita-se, deita-se em cima de um carrinho-de-mão ou de uma gangorra.
Todo encardido, suado, metido em roupas demasiado curtas, Chaplin é
a encarnação viva do aperçu de Goethe: o homem não seria a
mais nobre criatura sobre a Terra se não fosse nobre o bastante.
Esse
filme é o primeiro da maturidade de Chaplin. Ele envelheceu
desde o filme anterior, mas também atua como um velho. E a coisa
mais tocante desse novo filme é a sensação de que agora ele possui
uma clara perspectiva das possibilidades abertas diante de si, e
resolveu trabalhar exclusivamente dentro de certos limites a fim de
alcançar os propósitos.
Ponto
a ponto a variação dos grandes temas de Chaplin é revelada em toda
a sua glória. A perseguição se dá num dédalo; sua aparição
inesperada assombraria um mágico; a máscara de alheamento o
transforma em marionete de feira. A parte mais maravilhosa,
entretanto, vem do modo como se organiza o fim do filme. Ele joga
confete no jovem e feliz casal, e a gente pensa: pronto, é o fim. E
então lá se tem ele, de pé, quando o cortejo do circo toma
seu caminho; ele fecha a porta à rabeira de todos e a gente pensa:
pronto, é o fim. E então o surpreendemos enfronhado no aro do círculo previamente esboçado pela pobreza, e se pensa: pronto, agora é o
fim. E logo surge um close-up de sua figura completamente
desconjuntada, sentada sobre uma pedra no picadeiro. E então se pensa: agora o fim é inevitável. Mas daí ele ergue-se e é
possível vê-lo de costas, caminhando para mais e mais distante
naquele passo característico de Charlie Chaplin, que é sua própria
marca registrada ambulante, feito a marca registrada da companhia que
a gente vê em outros filmes. E então, no único ponto em que não
há cortes e você daria tudo para segui-lo com o olhar para sempre—o
filme acaba.
[Walter Benjamin]
[Walter Benjamin]
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