quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Uma tag do Twitter

Alberto Giacometti, Femme debout, 1947


Álisson, o centrifugador

Ah,tá, isso é coisa do Álisson.¹
O Álisson era um garoto proparoxítono, que tirava fotos e lia fatos no Twitter:
Bom dia, Álisson!
Bom dia, Narrador, você viu a Soraya?
Rapaz, vi não.
E os dois prosseguiram caminhando em opostas mãos pela calçada estreita, um pouco arrebentada. O Narrador entrou na venda:
Ei, Terceiro Excluído, 'cê sabe por onde é que anda a Soraya?
Meu camarada, é preciso descobrir antes que o Álisson dê com o paradeiro dela – disse em gatilho mais rápido o Jogador de Damas.
É, faz dois dias que ele brinca de Giuliano Gemma, pra cima e pra baixo com aquele berro carregado, o vira-lata abanando o rabo, depois de centrifugar metade do brilho da comunidade – disse o Terceiro Excluído.
Assim, nem o delegado do 23º limpa a barra dele.
E então, meio-dia para tarde, quando o Terceiro Excluído e o Jogador de Damas finalmente deram com a Soraya, Álisson ponderava se levava ou não a sério a seguinte tag do Twitter: “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena#GrandesPoetas" – enquanto babava diante de uma foto mais ousada de Patrícia Poeta.


¹Segundo estatísticas, cerca de 7% dos brasileiros tem o primeiro nome terminado em “son” (“filho”). Talvez pela vontade dos pais de que os meninos portem algo de anglo-saxão. Nem que seja no nome. É dessa volição que vêm os Wilson's, Émerson's, Álisson's, Edilson's, Edmilson's Edson's, Nilson's...


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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Mesmo que ele não pertença a ninguém: W. S. Merwin

[s/i/c]


Convenience

We were not made in its image
but from the beginning we believed in it
not for the pure appeasement of hunger
but for its availability
it could command our devotion
beyond question and without our consent
and by whatever name we have called it
in its name love has been set aside
unmeasured time has been devoted to it
forests have been erased and rivers poisoned
and truth has been relegated for it
we believe that we have a right to it
even though it belongs to no one
we carry a way back to it everywhere
we are sure that it is saving something
we consider it our personal savior
all we have to pay for it is ourselves

W. S. Merwin


Conveniência

Não fomos feitos à imagem dele
mas do princípio cremos nisto
não pelo mero saciar da fome
mas por sua predisposição
ele podia comandar nossa devoção
fora de dúvida e sem nosso aquiescer
e seja por que nome a gente o chame
por seu nome o amor foi posto de lado
tempos sem conta foram-lhe dedicados
florestas riscadas, rios  envenenados
e a verdade foi por ele relegada
críamos ter direito a ele
mesmo que ele não pertença a ninguém
voltamos a ele por toda parte
certos de que está salvando algo
o consideramos nosso salvador
tudo que lhe devemos somos nós


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Lula's Brazil

[s/i/c]

Os Anos Lula

Cabem não poucas ressalvas, emendas, mas conforma um painel abrangente dos anos de Lula no poder, seu legado, seu alcance, seus contratempos, um ensaio de Perry Anderson no London Review of Books.
Há alguns acertos. Por exemplo, citar o historiador da literatura Antonio Candido como "uma pedra de toque intelecto-moral da esquerda". Mas não é exagero dizer que Roberto Schwarz, a despeito de um bom ensaísta e crítico literário, seja "the finest dialectical critic anywhere in the world since Adorno"? Ou que o Cidade de Deus, livro de Paulo Lins, haja sido espoliado pelo comercialismo do filme homônimo de Fernando Meirelles, quando se sabe que provavelmente não há uma maior defasagem de um para outro? Ou ainda não há uma sorte de superdimensionamento da Revista Piauí? Ou, de resto, pouca investigação ou aprofundamento do tremendo impacto das novas mídias no processo de transformação do país - algo que, sem embargo, é levado em conta por um historiador como Hobsbawm, ao analisar revoltas da classe-média em diversas metrópoles ao redor do globo?
Relativizando, ressalvando, discordando ou não do que está proposto por Perry Anderson, seu ensaio constitui possivelmente um dos mais agudos textos sobre o Brasil publicados no exterior este ano.


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Mar de rosas?

[s/i/c]


Na imprensa, por aqui

Ontem, o grande alarde dado ao fato de o Brasil haver suplantado o Reino Unido em termos de PIB global, passando à sexta economia do planeta. Só produzimos menos riqueza que Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Há o que comemorar? Há, claro. Mas há mais ainda que se trabalhar para que nosso PIB per capita, que é pouco mais de um terço de seu equivalente no Reino Unido, recorte distâncias nos próximos anos. E com tantos recursos à mão, não podemos ficar atrás de países como França e Alemanha. Os sucessos econômicos são tão estrondosos quanto voláteis. E há que trabalhar, acima de tudo, para que o padrão de vida médio no Brasil atinja níveis minimamente respeitáveis em uns dez ou quinze anos. E aprofundar a distribuição da renda. É possível. Embora paire uma desconfiança de o que será deste país se houver um resfriado na China. Se a crise europeia persistir ou se aprofundar. Se as quinquilharias chinesas e um real demasiado forte prosseguirem minando nossa base industrial. Ou se o atual modelo de excessiva oferta de crédito interno engatilhar - por conta desses juros altíssimos -  uma onda de inadimplência, e entrar em colapso. 


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Escrever é triste, mas ler é alegre como quê

Rita Roquette de Vasconcellos


Este cartoon -- clique na imagem para vê-lo em melhor resolução -- e mais uma mancheia de boas coisas seguem sendo publicados no Escrever É Triste. E o que há? Há um grupo de autores a animar um espectro de ideias que vai da literatura ao cinema passando por variedades, gostos pessoais, música, arquitetura, design, ficção, comentários sobre notícias e publicações, resenhas, etc. E há dois emissários extra-muros das mui antigas, nobres, invictas, leais e, sobretudo, queridas cidades de Lisboa e do Porto. Um na Itália, outro no Brasil. O do Brasil, por acaso, é este locutor que vos fala. Quando cair na folga, caia um pouquinho também na leitura do Escrever. Vai encontrar com textos instigantes de Eugénia de Vasconcellos, Teresa Conceição, Rita Roquette de Vasconcellos, Manuel S. Fonseca, António Eça de Queiroz, Pedro Norton, Pedro Bidarra, Bernardo Vaz Pinto, Vasco Grilo, Diogo Leote e Pedro Marta Santos. 

Está feito o convite.


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sábado, 24 de dezembro de 2011

Pasta e devaneio

 [s/i/c]


Paixão e Macarrão

Cegaram à conclusão que casamento é sem apelo algo sério. Ou no mínimo tão relevante quanto a inauguração do museu do macarrão instantâneo. E, nessa trilha, muitos miojos depois, os cônjuges podem, se a vida for bela, tornar-se acionistas da Nissim. E fabricar seu próprio macarrão. Ainda que dentro do maracujá, fruta da paixão, nunca tenha havido “macarrõezinhos”. Como nos devaneios bisonhos – ainda que inarredavelmente mágicos – da infância: lembram do jingle do Macarrão Fortaleza?


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O outro mestre das seis

Juan Gris, Guitar and Glasses, 1914


Laurindo

Da guitarra brasileira, indisputável que o "messianato" é dele: Roberto Baden Powell de Aquino. E, no entanto, o São João Batista chama-se Laurindo. Laurindo Almeida. Nada de Laurindo soa improvisado. Longe disso. Há uma elegância jazzística. Do músico superlativo que foi. Em seus últimos anos, ele já falava português com o carregado sotaque de quem mudou-se para os Estados Unidos à época de Carmem Miranda. Acompanhando-a. Naquela época era virtualmente impossível ser apenas um violonista, viver disso no Brasil. Mesmo para esses caras geniais. Alguns anos depois, o próprio Baden também teve de exilar-se para poder viver de sua música. E talvez por pilhéria - o que não era seu fraco - fixou-se na cidade de Baden-Baden.

Há muitos anos atrás, ainda na década de 70, lembro de uma matéria no Fantástico. Era sobre um casal de crianças da favela que havia sido adotado por suecos ainda na primeira infância. O menino seguira de meses, e já não lembrava de nada. Sua mente escandinavizara-se por completo. A menina, então já uma mocinha, referia-se ao Brasil com algum vestígio de saudade. Como uma terra remota e sonhada. Com olhos onde havia uma evidente vontade de volta. Nem que para refazer de um lugar de novo um local. E complementava essa vontade de regresso cantando.

A canção era... “Manhã de Carnaval”. Ela cantava com imensa dificuldade e carregado sotaque, mas com visível vontade de fazê-lo. De expressar-se. Foi um momento raro na televisão. Tocante mesmo. E um vero atestado da força da música como um dos mais fortes índices de cultura.

Voltando à limpidez emblemática do violão de Laurindo Almeida, segue ele aqui acompanhando a mezzo soprano Salli Terri numa versão do primeiro movimento (Aria) da Bachiana Brasileira N.5, esse outro documento da raça, a exemplo de "Manhã de Carnaval". Villa-Lobos compôs a quinta das Bachianas para um ensemble de violoncelos mais soprano. E no entanto a fluidez desta versão logrou-lhe, asseguram alguns, ser a favorita do autor:


Um Bom Natal pra Você!


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ho ho ho








Feliz Natal e um Dois Mil e Doze de Antologia!



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Onze Cinemas

Lech Majewski, The Mill and The Cross, 2011

Mike Cahill, Another Earth, 2011

Alguns Colírios

Bons filmes este ano. Dos que vi, Shame (até que enfim um filme adulto sobre sexo, fazia tempo), The Tree of Life (as formas artesanais de filmar e editar via digital aclimatando-se a grandes produções) e Straw Dogs (uma refilmagem à altura de Peckinpah). Mas também Another Earth (sci-fi de baixo orçamento realizado por uma equipe jovem com luvas de pelica e imaginação), além de War Horse (para a coletânea dos melhores momentos de Spielberg, embora o todo não seja), Hugo (a despeito de uma excessiva pirotecnia), Guy and Mandeline on a Park Bench,¹ Le Quattro Volte, The Mill and The Cross (fotografia e direção de arte para não esquecer, provindas de quadros de Brueghel), Poetry (uma produção coreana), Brighton Rock (noir ambientado na Inglaterra) e Meek's Cutoff (que mantém o Western em chama viva, e o humaniza por tempos mortos).

Nota Posterior - cabe mencionar igualmente: Margin Call, La piel que habito, Higher Ground, Rio, The Adventures of Tintin, The Artist, Drive, The Turin Horse, Once Upon a Time in Anatolia, Coriolanus, Le Havre e Tinker Taylor Soldier Spy.

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¹Clique para ver resenha algumas postagens acima.


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Livro do Tempo, (Livre do Tempo?): Lygia Pape e a felicidade mesmo que

Lygia Pape, Em Laranja e Azul, 1956


Lygia em Londres

Lygia Pape ali, aqui, em Londres. 

Há leveza, certa inexplicável alegria, arejamento. Uma solaridade, uma brincadeira. A obra desses neo-concretistas - Oiticica, Clark, Weissman, Amílcar de Castro, Jardim - vaza do formalismo racional, abstrato, europeu, utópico para a sensualidade concreta e cósmica e americana. A proposição da própria utopia na carne da obra. E na carne da obra, a carnadura das ruas. Dos dias. Uma luz e fiança tão pertinentes ao Brasil dos anos 50 e 60. Aquela vontade de ir mas allá, que é instantânea e impulsivamente naïf e um bocado cultivada ao mesmo tempo.[1] E há uma espécie de brincadeira com a bandeira do Brasil, que cada um porta à sua maneira e bel-prazer. De diferentes formas, argumentos, estilos...

Saudades de quando este país possuía artistas tão incisivos quanto Lygia. De sua arquitetura dobrada em origames, das cores básicas, das formas simples, da pouca sisudez diante da pompa do programa concretista.

E essa espessa, estupenda necessidade de alegria, mesmo que.


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[1] O Brasil era, então, a terra desses "aos mesmos tempos", dessas compositividades impossíveis. E elas se encontram no fulcro da utopia brasileira expressa pela geração que começou a ser jovem ai pelo final dos anos 50.


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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Arte e Internet

/sic/


E penar para tornar mais venal o virtual

Em geral, a sociabilidade com gente ligada à arte gera compromisso. Em geral, espúrio. [Seria necessário esclarecer e exceptuar, aqui, mas não é o momento]. Tem havido uma cerrada burocratização de procedimentos na esfera da arte. Daí que termos como "gestor", "consultor", "curador" hajam migrado da esfera burocrática para a artística. Em geral, o mesmo se pode dizer da academia. O simples convívio com práticas artísticas (estabelecidas) ou práticas acadêmicas doma e poda criatividade.

Se isso era já moeda corrente antes do advento da internet e das novas mídias digitais, imaginem depois. Terá sido coincidência que quem melhor pensou a questão esteve à margem? Há, aqui, toda uma linhagem de inadaptáveis, começando por Simmel, passando por Huinzinga, Benjamin, Kracauer, Bazin, Flusser, Elias et alli. E quando houve mais consórcio com a academia: i) ou o pensamento inflou-se de pompa e metalinguagem, esquecendo a actualidade do mundo, como no caso dos franceses pós-estruturalistas; ii) ou a derivação de um pensamento sugerente e subtil hieratizou-se em um formalismo excessivamente sistêmico, incapaz de abrir margens para sugestão e cotidianos, como em Habermas e o "prosseguimento" dado às ideias propostas pela primeira geração dos teóricos de Frankfurt.

A melhor produção tem saído de fora do novelo do “meio artístico”, da “vida acadêmica”. Do consórcio espúrio com as ONG's (que não são mais do que velhas práticas de dominação realocadas e um tanto mais dispersas, pulverizadas. Embora os mais incautos creem que estão "mudando o mundo" por meio delas). E quando se pensa que alguns artistas vendem a alma para estar no centro dessas práticas!

É mais ou menos óbvio que a internet bagunçou por completo o coreto do “artista profissional”. Músicos e escritores, que cobravam fortunas por um cerrado e milimétrico controle de suas “obras”, de repente se ressentem de vê-las tão descaradamente ao alcance de todos. E de graça. É o que se nota no discurso de gente ressentida, inclusive aqui pelo Brasil, com a suposta "morte da obra". Não passa antes esse ressentimento pela queda de um faturamento que já foi mais, digamos, "polpudável" na linha do horizonte?

O advento da internet reaproximou o artista do público de duas formas: α) fisicamente – pois o músico teve de voltar ao palco, o escritor à palestra, etc. (por conta da avassaladora exposição não controlada da obra, a que desde antes da internet já se chamou prontamente de pirataria, e implica numa drástica redução de ganhos) e β) através de um potencializador quase infinito do que é descrito por Walter Benjamin em “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit”. Ou seja, a obra agora conhece desdobramentos reprodutivos – novos plissados e trampolins e cachos e convênios e ganchos de reprodução, de virtualidades, de anamorfoses, suplementos, conexões, hibridismos, fissuras, descontinuidades – inimagináveis antes da década de 90. 


Logo, é fora das formas "sub-auráticas" -- que ainda existiam na imprensa, no filme, no disco de vinil -- que ora se dá a reprodução. Isto é, dá panos para as mangas pensar o que é a materialidade do MP3 por contraposição ao suporte material do disco de vinil com lados e faixas a serem sulcadas analogicamente por uma agulha de cristal, facilmente vulnerável a arranhões, com uma estampa de papel ao centro, guardado numa capa, com encartes, etc. Capa e encartes que podiam ser até assinados pelo zeloso dono. À sua vez, o MP3 perecerá muito mais rapidamente que essa agulha, que essas faixas que quando arranhadas como que recobravam uma aura, uma unicidade. Assim como as capas assinadas também estavam bastante vulneráveis a ação do tempo: arranhados, superficie preenchida por decalques, selos, etc. Podiam, dessa forma e ao contrário do MP3, reunicizar-se. Isto é, tornar-se únicas outra vez. Ou ao menos recobrar uma sub-aura, por serem ao mesmo tempo produtos da seriealidade e únicos enquanto objetos, pois eram evidentemente mais materiais que seus sucedâneos digitais. Aqui, o adjetivo virtual cai como uma luva para descrever esses novos entes da era digital. Caso do MP3, dos arquivos de texto em formatos diversos, do e-mail, do post. Com o velho jornal ainda era possível embrulhar um peixe. Com um tweeter, nem isso. Isto é, a rigor esse processo de reprodução é algo tão diverso do analógico que deveria ser renomeado: virtualizacão.

O advento da internet, em suas duas décadas iniciais, representou algo como a reinvenção da imprensa sob o signo de um acesso absurdamente mais universal – porque precedido pelo folhetim, pelo cinema, pela TV, pela cultura pop, etc. Por um breve instante o capitalismo vacilou, penou para pôr preços em uma mercadoria que era muito mais abstrata, escorregadia: é literalmente virtual. Em outras marés, é bem mais amoldável "ao gosto do freguês", manipulável, costumizável, enviável, etc. Mas, entre tantos atributos terminados no sufixo '-ável', nenhum é lembrado com mais pesar pelos executivos da esfera do showbusiness, do entretenimento, das gravadoras, dos estúdios, das editoras, das redes de TV, da indústria cultural e de seu mercado do que: incontrolável. Este os faz acordar para um pesadelo diurno. Eles que haviam se acostumado a controlar milimetricamente as porções de direitos autorais e de cópia com frações generosas para si próprios e seus empreendimentos. E, logo, é todo o conceito de direito autoral e a legislação que o rege que precisam ser revistos. [E estão a ser em toque de caixa. Em abril de 2012, um usuário de internet em Portugal foi preso por copiar e partilhar arquivos de música sob copyright. Mas os indícios do controle que está por vir nos próximos anos ainda são incipientes. Esse controle ainda será férreo; e os conteúdos, domados e postos sob preços, devidamente desdemocratizados.]

A mediocridade, no entanto, contenta-se com essa disciplinarização da internet sob as regras da limitação de seu alcance - fenômeno em franca expansão. Em limitá-la no tempo, no espaço, o que coincide com o projeto capitalista e aos poucos segue retirando, sugando dessa universalidade inicial e absurdamente inesperada. Certos conteúdos, por exemplo, já só são encontráveis em determinadas regiões ou países. Ou para o assinante premium.  E cada vez mais direitos de imagem e copyright os regulam. A Wikipedia, uma glória dos novos tempos digitais, tem sido ameaçada constantemente. E uma área que conhece um quantum perto de inimaginável é a do direito que regula tudo isso. É dessa regulagem medíocre, contra a qual se debatem os hackers - como no passado os bandoleiros sociais (tratados por Hobsbawm e outros autores) - que emergirá uma internet consideravelmente menos universal. Ao menos em refluxo e por tendência. Monopólios como o Google já devolvem em seus motores uma busca "adaptada" ao contexto cultural, linguístico e geográfico em que se empreendeu a pesquisa, etc.

Porém a mediocridade também se encontra no centro mesmo do “meio artístico”, da “vida acadêmica”. Em seus filistinismos. Em sua (má) fé na crença de que a tutela da arte pela burocracia resulta em algo auspicioso. Em seu desejo de apôr à arte o discurso sobre ela. Ou sujeitar a arte a um sectarismo político, ao politicamente correto, ou ao relativismozinho da vez. Não poderia ser diferente. E só a extrema exceção, só o gênio – o Corelli digital, o Händel digital¹ – é capaz de safar-se de ver sua produção amortecida pelas rotinas grises dessa cadeia vazia de colóquios e simpósios resucessedendo-se mundo afora. E se a ilustração – aparte desses meio e vida – encontra-se mais diluída por toda parte, é quase nada por méritos do “meio artístico”, da “vida acadêmica”, porém pela contingência do meio internet enquanto mensagem – como assim, sem conhecê-lo propriamente sonharam Benjamin, Bazin, McLuhan ou o Gene Youngblood de Expanded Cinema (1970). Pois de alguma forma esses autores já falam de internet antes mesmo. À sua vez, a internet em seus primeiros anos foi o suplemento do segundo grau ou a graduação de centenas de milhões que sequer chegaram à universidade. Para não calar sobre a centralidade da rede aos que chegaram ou estão nela dia após dia. E da rede como imagem geral [ou alegoria - esta palavra é importante] de uma biblioteca muito mais vasta, atualizada e dinâmica que a biblioteca [analógica] de qualquer instituição de ponta pelo planeta afora. Não é pouca coisa.

Um autor como Borges gastou sua vida e trabalhos e afetos no empenho de “ser” uma biblioteca. Mas esse empenho, como o de Prometeu, gera grandes ressentimentos. E então, em sua própria ficção Borges sonhou com uma saída mágica, mística: o Aleph. Hoje em dia, é desnecessário “ser” uma biblioteca, porque a internet converteu-se no Aleph sonhado por Borges: o acesso à memória, ao conhecimento; o acesso à redefinição do próprio conceito de acervo. Acesso a uma erudição fora do corpo, arquivada megametricamente em memória artificial. A interseção que contém o universo. 

Pode-se dizer que um dos grandes méritos da internet passa pelo megamétrico (mas, ressalve-se: só em parte). E esse mérito provem de sua capacidade de ampliar desmesuradamente o que era cravado como “quadro epistemológico”. Nos primeiros anos da internet, o especialista extremo e o leigo extremo tiveram diante de si o mesmo “quadro epistemológico”. Só passado o pasmo inicial é que o conhecimento - fator de posse classista (caso em especial do conhecimento jurídico) - na internet passou a ser mais disciplinarizado e regido pela lógica capitalista. Por outro lado, possivelmente mais do que as políticas assistencialistas, foi a internet, pela democratização de conhecimentos especializados e gerais, enciclopédicos, o que possibilitou o surgimento das novas classes médias em países como Turquia, China, Índia, Bangladesh, Chile, Brasil... E isso se dá porque a intuição é o estímulo básico para se mover na internet.

E, porém, a megametria da internet, se funciona no atacado -- no sentido de ampliar formidavelmente a audiência e torná-la mais aplicada à confecção de objetos de arte, assim como esses objetos mais modeláveis e plásticos -- também admite no varejo – isto é, especialmente por parte dos produtores de arte a interferir na mídia digital – as enormes distorções e os filistinismos característicos de épocas palinódicas. É de se sublinhar não menos o quanto a figura do produtor de arte, do autor, no ambiente da rede, é antes de mais nada a de um grande consumidor. E consumidor de imagens e sons técnicos que, cada vez mais, sugam para fora do corpo os momentos decisivos da criação enquanto técnica e forma.  Quer dizer, a internet levou a um paroxismo inimaginável, só há uns poucos anos atrás, a consumização do autor, do produtor de arte. Está claro que este precisa, antes de mais nada, converter para virtual o que já foi elaborado antes ou começar no ambiente virtual o que ainda não foi feito. E, sem essas tarefas, é impossível à vastíssima maioria sobreviver de sua arte: criar apenas por representação analógica, sem virtualizar. 

A misantropia, a hesitação, o receio, a desconfiança são antídotos contra uma recepção demasiado festiva das ONG's junto com formulações acríticas, ralas ou pueris da internet e das novas mídias, e que as tomam apenas como alavancas democratizantes.²

(Aqui, misantropia deve ser tomada como método).


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¹Em outras palavras, aquele que obtêm muito êxito e vive no vero centro da esfera artística, como esses compositores viveram em séculos passados, e, ainda assim, produz uma obra que transcende essa esfera no rumo da intuição e do mistério, embora solidamente lastrada na autoridade de um conhecimento prévio. Este conhecimento, de agora em diante, redundará cada vez mais do consórcio entre os sentidos e aparatos que os potencializam à infinitude, como os smart glasses - conectados à rede e interagindo com bases de dados, serviços GPS, motores de busca, tradutores automáticos, etc. Visão e audição ampliam-se até que limite? Será possível a confecção de biônicos, como no seriado da década de 70? Tudo indica. Mas também  se fortalecerá a tendência a se criar nichos de acesso a internet de acordo com o poderio econômico. E isso progressivamente irá minar a democracia e a universalidade que experimentamos nos primeiros anos do fenômeno.

²Neste sentido, se tomarmos o universo dos supersítios, dos sítios mais acessados, é já notável a diferença entre a Wikipedia e o Youtube no que diz respeito à publicidade. Por outro lado, o conceito de jornal dá voltas na tumba sem decidir ao certo como reaflorar na rede. A vitória definitiva do virtual sobre o impresso se deu, contudo, este ano. Mais precisamente no momento em que se anunciou que a Encyclopaedia Britannica, que há 244 anos é impressa, será a partir deste ano apenas disponibilizada em ambiente digital.  


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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A Prototipia e Dois

Howard Hawks, The Big Sleep, 1946

Nobody is

δRespectivamente
O duplo noir clássico se dá entre The Big Sleep (1946) e The Maltese Falcon (1941). E em ambos, aliás, há o mesmo ator fazendo os papéis respectivamente de Philip Marlowe e Sam Spade, dois dos detetives mais emblemáticos da literatura transpostos para cinema, criações respectivas de Raymond Chandler e Dashiell Hammett.¹ [E fosse para aludir um terceiro excluído, ficaria com The Asphalt Jungle (1950), que é de alguns anos depois e um tanto mais filme B, porém, da mesma forma, fora de série. E, aqui, especialmente por sua sintaxe visual].

ε. Hawks, Coadjuvantes, Bogart & Bacall
Entretanto, The Big Sleep, dirigido por Howard Hawks, desdobra para ainda mais longe o humor, o innuendo das réplicas e o tratamento de certos temas que a aclamada obra-prima de John Huston.² E não propriamente por creditar Faulkner entre os roteiristas.³ Mas pela destra direção; a filigranada fotografia em branco e preto; a direção de arte; a beleza e o charme das atrizes coadjuvantes; e, não menos, por colher algumas das melhores cenas entre Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Aqui, o sonho americano diz: Hello! – e certamente no mesmo tom em que Bogart comemora o fato de certa livreira [Dorothy Malone] aceitar a dose de uísque, fechar a livraria, retirar os óculos e soltar os cabelos. Chove lá fora.

ζ. Exemplos?
Como na cena em que Bacall segue ao encontro de Bogart na agência de detetives, e ele chega atrasado. As linhas são:
(Bogart) Good Morning!
(Bacall) So you do get up! I was beginning to think you worked in bed like Marcel Proust.
(Bogart) Who's he?
(Bacall) You wouldn't know him, a French writer.
(Bogart) Come into my boudoir.
Sempre a chamar as garotas de pal ou angel, Bogart destila tanta assertividade em suas réplicas que – e não por estar no script – Bacall, nessa cena, adentra o escritório num semi-riso de quem não esperava pela corrente magia improvisada. E não é em parte disso que resultam os grandes filmes?
Mas logo em seguida, eles prosseguem a conversa, e ela, suntuosamente sentada sobre a escrivaninha, parece estar incomodada com algo:
Go ahead and scratch! – diz então Bogart de sua cadeira.
Ela rapidamente levanta um pouco a saia e coça-se perto do joelho.
Mas entre essa cena e outras – como com a bela livreira ou uma taxista – Bogart segue em céu de brigadeiro. A exemplo de quando Carmen, a irmã doidivanas da lide, lhe indaga:
Is he as cute as you are?
A resposta de Bogart soaria pretensiosa dita por qualquer outro, e é o sumário perfeito de um ator divertindo-se às raias do impossível:
Nobody is.


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¹Há um filme de Wim Wenders chamado Hammett. A produção, conturbada e polêmica, é de Francis Ford Coppola. Conta possivelmente entre os filmes menos amados e glosados pelos wenderianos. E um projeto que Wenders evita comentar a respeito, talvez por conta de o corte final haver sido feito à sua revelia. Para vender melhor. E não foi o caso. Outrossim, a performance de Bogart em The Maltese Falcon simplesmente estabelece o perfil do detetive – até certo ponto honrado, mas um bocado ganancioso e sem escrúpulos – nos filmes noir.

²Originalmente no roteiro, alusões à pornografia e ao homossexualismo foram limadas pela pesada censura da época. Sem embargo, há vestígios dessas temáticas diluídas na trama. E o que mais comove é constatar o quanto filmes que dão o que pensar, como esses dois, divertem tão amplamente na mesma medida.

³Pouco provável que Faulkner, em meio a um e muitos drinques, tenha contribuído mais do que com umas linhas e a grife do nome para a solução final de roteiro. E roteiros que eram confeccionados em verdadeiras linhas de montagem. E em que é muito difícil separar até onde vai o contributo individual de cada có-roteirista. Ainda assim, uma das virtudes de The Big Sleep é a astúcia vitriólica dos diálogos.


NOTA SOBRE AS NOTAS - certa leitora me perguntou por que minhas notas só vão até ³. A resposta é simples: só sei inserir esses caracteres reduzidos até o algarismo ³. É certo, adoraria pôr mais notas. E, contudo, se vou pelo automático, no editor de textos, os algarismos não saem assim bonitos e reduzidas como devem ser. Não obstante, me agrada que seja o ³. E não o quatro ou o ². ATENÇÃO! A FAPESP, a CAPES, o CNPq gostam que as notas sigam rigorosamente o padrão da ABNT! Em Portugal, no entanto --- que é o país mais bem aqui --- já não há mais ABNT.


NOTA SOBRE AS NOTAS SOBRE AS NOTAS - implicar que o detetive, cínico e longe da família, protagonista do noir, com todo seu anti-heroísmo e dubiedade, gera uma nova forma de cinema. E porque, a exemplo dos desenhos animados e suplementando o cinema mudo, põe a voz ao centro do corpo e do filme de modo mais enfático, uma vez que abre espaço para uma característica chave da voz: sua antinomia. Se isso implica naquilo que Michel Chion chama de 'vococentrismo', são outros quinhentos. Mas que representou um caminho a derivar, quem duvida? Pois é evidente, em ambos as faces do duplo, o modo como a condução da narrativa e traslação da ambiência dimanam da voz de Bogart.


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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Entre a fonte do estrondo e seus olhos

Gentil Barreira, 2010


Todo Sentido


Minha caçula tem olhos de matiz inusual. Sua mãe diz que são olhos de jabuticaba. Mas não são – apesar da sonoridade da palavra reter algo deles. Estão mais para olhos claro-acastanhados que se graduam quando postos à luz. São olhos de mel. Olhos de âmbar.
O que de mais próximo tive da cor de seus olhos, em termos de objeto, foi o breu. Quer dizer, aquela resina cristalizada, semi-transparente, odorífera, que dá vontade de morder, mas que na verdade se passa nas cerdas do arco do violino.
Outro dia levei-a a passear até a Pracinha do Artesanato.
Pressinto que é sua praça preferida, embora a primeira vez que ela mencionou ter ido à Pracinha da Dois Mil, com a Comadre Dinda, foi de mover o coração o modo como pronunciou o nome. E eu não sabia que se chamava assim aquela praça, que, de resto, não fica na Dois Mil – e o que convenhamos é muito mais saudável a uma praça do que, digamos, se chamar General Tibúrcio.
Uma vez na Praça do Artesanato, se faz manhã, ela gosta de correr atrás das lavandeiras, aos gritos de: “Lavandeira, Lavandeira!”. Ou, se é noite, molhar o pé na pequena fonte luminosa. Qualquer seja o relógio, gosta de apostar corrida com o pai para ver quem chega primeiro ao vagão de trem que há por lá, galgando por uma passarela cujas placas de metal vibram inteiras sob nossas passadas, risos e certa narração nem tão fastidiosa quanto as da Fórmula-1 .
Verdade que, no início, deixava descaradamente que ela ganhasse. E pressinto que, hoje, nem tanto.
Burlas minhas à parte, ela sabe criar seu riso. Belisca pipocas, empadinhas. Gosta de cajuína e de água de coco. E de brincar com outras crianças, desde que isso siga uma espécie de rito-piloto-automático. Agora, se um adulto lhe dirige a palavra, ela logo detecta o cara-pálida, refugia-se num amuamento  de  indígena língua-travada.
Dia desses, admirou-se bastante de ver duas crianças idênticas. Mas não da atenção que os pais dos gêmeos lhe dedicaram. 
Brinca nos aparelhos de fisioterapia, desce no escorrega, que é íngreme além da conta, e mede um pouco os cachorros e gatos por Faísca e Valencinha – o dachshund que foi de casa, mas acabou indo parar na casa da cozinheira; e a branca, fellin(i)amente gorda e ronronante gata da avó, que tem os dois olhos de diferentes cores.
Entre nossa casa e a praça há quatro quarteirões que ela já reclamou menos de ter de caminhar, apesar de menor.
Hoje protesta um pouco, se não vamos de carro. E isso apenas indica o quanto, desde a barriga da mãe, acostumamos nossas crianças a só andar de carro para cima e baixo.
Mas, então, àquela manhã e perfazendo o penúltimo quarteirão antes de chegar à praça, fomos colhidos por um grande estrondo à nossa direita. Passávamos bem defronte ao casarão de certa família que deu as cartas por décadas na política de Camocim, mais a oeste e norte, no litoral. Eu podia ver o que acontecia. Ela, não. Um muro e tapumes havia entre a fonte do estrondo e seus olhos.
E o que acontecia era uma retroescavadeira golpeando com fúria as paredes do que costumava ser, aí nos idos dos 70 e 80, o Centro de Fisioterapia . A máquina agia com presteza. E a cada golpe uma vasta porção de parede vinha abaixo: concreto, ferro retorcido, muita poeira.
Ergui minha filha, que pôs seus olhos castanhos claros, fixos e arregalados, acima do muro, na inusitada cena - para ela, então e totalmente inédita.
Na cabine fosca, o vulto do operador da máquina, um ás da demolição. Deixava o bulldozer em só uma das esteiras, apoiando-se no guindaste contra paredes, e depois tombar  sobre os tijolos partidos e  caliça acumulada: a máquina a dançar em suas mãos com desenvoltura. Espécie de Mozart da arte de demolir.
Mas ela não achou muita graça dessas destrezas. Ficou olhando. Sondando a cena. Admirada, de início. Mas depois, amedrontada pela violência, a fealdade da coisa. E exigiu que eu a levasse para longe. E acabou associando a “grande máquina destruidora” – como a chamei – ao Lobo Mau e ao Bicho Papão.
Faz todo sentido.


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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cercada por brutamontes e bugres

Joan Miró, Pintura, 1925


Queria Porque Queria

Dia desses de graduação, ela queria porque queria que Inocência, a do romance de Taunay¹, fosse uma ativista do feminismo em pleno século XIX, nos cafundós do Mato Grosso, cercada por brutamontes e bugres. 
Era querer porque querer demais e em desconhecimento de causa. O que faltou notar: ao seu modo, Inocência foi transgressora. Na estreita margem de transgressão possível a uma mulher naqueles tempo e local: bulir com regras de casamento arranjado, ter um caso com forasteiro.
Só caiu a ficha, quando, alguns anos depois, já curada da adolescite - mas não ainda do fetiche das curadorias - começou a trabalhar no jornal. E viu que o buraco era abissalmente mais embaixo do que supunha sua vã filosofia de menina revoltada. E que, aliás, muito do que ela julgava ser filosofia, na graduação, agora não era mais do que vilosofia.
Uma teoria vã e vil. Escrita por homens. Para homens.

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¹Alfredo d'Escragnolle Taunay, o mesmo que Gilberto Freyre, em seu clássico desbocamento, disse ser “uma moça”, para sublinhar o refinamento de sua educação e a contenção na expressão de seus sentimentos.  E inclusive em Inocência, o romance, reconhecidamente um reflexo de certa viagem de Taunay por um Brasil Central e consideravelmente mais remoto à época.

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sábado, 26 de novembro de 2011

Quem tem assim o verão dentro de casa: Eugénio de Andrade

Juan Miró

Último Poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade

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Em momentos de vacilação, a atenção do simples



Adilson Andrade, Praça São Francisco, em São Cristóvão, Sergipe


O Senhor Simples

A diferença entre Bach e os outros mestres é, de fato, simples. Enquanto nos outros se encontra momentos de vacilação, dispersão ou mera exibição de destreza, Bach está o tempo inteiro a dizer: “Deus é minha rocha, minha fortaleza, meu argumento”. Até mesmo nos instantes descontraídos, alegres. E mesmo aí há uma espécie de atenção generosa e inclusiva - e no entanto simples, austera. O uso de tercinas como a tradução de alegria é próximo da perfeição: como no Brandeburguês Nº3 ou no trecho final da orquestração para a Cantata "Herz und Mund und Tat und Leben"[ “Coração e Boca e Ação e Vida”] na postagem abaixo (“Jesus bleibet meine Freude”).¹
Só isso já seria o suficiente para descrevê-lo? Mas não basta. 
Ele é a síntese de uma era. 
Está entre o melhor dos outros com ele se assemelhar. E está na constante dele se assemelhar ao melhor dos outros. Ou ir além. Essa simplicidade segue no limiar entre disciplina e encanto, esforço e inspiração. Portar o encanto junto com o ensinamento. E os outros em si, como insígnia de memória. Algo que muitos perdem ao longo da vida, curta como seja.
De outro modo, a gente ouve as raízes da música no Ocidente -- arte tão mais tensa e brilhante que sua correspondente Oriental -- e constata que ela, por igual, é toda construída em cima de uma espiritualidade que, posteriormente, se perdeu. Os mantras orientais são bonitos, pacíficos. Mas como casa às vezes não abrigam o suficiente. E a música de Bach, então, é uma casa feito (c)oração. Abre espaço, abriga. Resume a delícia e o pesar de nascer, ser e estar no Ocidente do Mundo. 
(Ou no Ocidente da Galáxia? Do Universo?)
Não. Mas ainda não é bem assim. Não pode ser assim, superlativa. 
E é como?  
É, na verdade, como atravessar um pátio em São Cristóvão, ao cair da tarde, em meio aqueles cacos irremissíveis de barroco, que chegaram faz tempo do outro lado do mar; e contemplar a esperança por paisagens que não vemos:

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¹Ou para ainda quem não se convenceu que a peça está plena da calma felicidade tão tipicamente bachiana -- que Villa Lobos fez questão de abrasileirar -- aí segue uma inusual versão, que guarda, a despeito de apropriá-la para uma outra linguagem, tanto dessa serenidade original:
http://www.youtube.com/watch?v=GpGTt-tULyo&feature=related



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domingo, 20 de novembro de 2011

Alguma música para o final de Ano e Natal

Andrei Tarkovsky, Andrei Rublev, 1966

Nove Sempre Novidades

Antonio Vivaldi – Concerto em Sol Menor para Flauta, Oboé e Fagote (numa versão cheia de incidentes - e por isso deliciosamente mais próxima da vida):
http://www.youtube.com/watch?v=OQBnqaMpr-0
Essa pequena peça de câmara é definitivamente uma favorita.

Domenico Scarlatti  - Perto de qualquer peça para cravo.
Georg Philipp Telemann – Concerto in D:

Dietrich Buxtehude – Cantata: “Ich habe lust abzusheiden” --  há algo de incessantemente protestante e frio e, ainda assim, universal (ou seja, católico) em Buxtehude:
http://www.youtube.com/watch?v=92ewCbXLS-Q

Johann Pachelbel – Canon in D –  tema dos mais conhecidos do repertório pré-clássico, pré-rococó. E, no entanto, é um congresso de águas. (Ou seja, começa f(r)io, termina rio):
http://www.youtube.com/watch?v=1XO-KXCGplo
Quem não sente que essa veio do coração não o tem. (Mas há também muita matemática e simetria). Uma por uma, as três vozes dos  violinos saem do novelo, tecem pequenas contidas maravilhas sobrepondo-se às oito notas contínuas do baixo. A versão acima, mais "sinfônica", é conduzida por Karajan.

Georg Friedrich Händel – “For unto us a Child is Born” (do Oratório O Messias) – um pouco pomposo demais da conta mas reaviva belamente as palavras de Isaías para os ouvidos de Sua Majestade e nossos:

Arcangelo Corelli – Concerto de Natal – (em especial o começo do 1º movimento (Vivace), os Adágios intercalados ao centro, e a belíssima Pastorale, que são pura doutrina e generosidade cristãs postas em música por esse dândi italiano do seicentos).
Há um bom resumo do concerto (com instrumentos originais aqui):
Mas quem gosta de resumos? Ouça o Concerto todo. É lindo. Eu garanto. 
E então lá vai o começo da íntegra na versão mais lenta e solene que encontrei até agora no 'tube':
http://www.youtube.com/watch?v=enkfWuV51Ds&feature=related

Johann Sebastian Bach – “Jesus bleibet meine Freude” [lit. "Jesus Segue a Ser Meu Júbilo" ou mais conhecida em português como "Jesus, Alegria dos Homens"], BWV 147 (em três versões - a terceira sendo a do grande pianista romeno Dinu Lipatti) – Do Livro 2 de O Cravo Bem Temperado, o Prelúdio 3 em Dó SustenidoBWV 872 (Glenn Gould ao piano):

A coisas cristalinas não se deve obstar comentários.

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