sábado, 19 de novembro de 2011

a gente pensa, a gente passa, a gente escreve uma novela

Paul Klee, O Vento Sul no Jardim de Marc, 1915


Paul Klee, Flores ao Vento [Blumen im Wind], 1922



Canção

no dia de sol
manhã e trópico
um vai e vem de ondas
ló, o vento passa em revista

a gente pensa, a gente passa
a gente escreve uma novela
de agente, belisca isca
toma cachaça

sente de onde vem 
o vento, para poder
brigar com ele
se ele espalha insecticida

abre a revista, abre a revolta
bate a raquete
joga de volta para bem longe
sem deixar pista

e, se todos os poemas
fossem de amor
a poesia não seria mais
que uma doutrina
fascista


* * *

Rompendo com a paisagem da pasmaceira

[s/i/c]

De Fronteiras e Tarefas

O escritor mais lúcido confere à sua escrita uma liminaridade. Ele caminha entre dois desertos: de um lado, os escritores encerrados apenas nas referências da província – perfeitamente incapazes de enganchá-las a nada mais, de relacioná-las a outras ideias mais amplas; do outro, os que pensam que é possível safar-se da origem pela esgrima de um cosmético cosmopolitismo de meia-tigela – inábeis também para coser, mas em movimento reverso aos primeiros.¹ Nesse cenário de estéril imobilismo. Nessa paisagem da pasmaceira, se move o escritor-exceção, que nem quer abdicar do saber local, tampouco achar que esse saber esgota TUDO. Ele move-se por um ouvido, um coração e sua própria capacidade de fabular. È difícil mover-se nessa liminaridade. Mas há os que sabem tramá-la a contento. E escolher no local as locações universais de seu cinema.

E quando se volta o olhar para os lados, é um prazer perceber que há um senso de companhia quando se lê Virna Teixeira (inclusive a lufada de ar que são suas traduções), Carlos Augusto Lima (que é também um editor discreto), Diego Vinhas (não menos por sua preocupação de arejado antologismo), Rodrigo Marques (que recentemente lançou O Livro de Marta) e Eduardo Jorge Oliveira (o que mais se aplica à sondagem das possibilidades de  fissura  e superposição de linguagens, suportes) entre outros. Há neles esse senso de partir da mesma sesmaria do coração para recompartir, lá, mais adiante, diferentes formas, somas e andamentos. 

Uma companhia hábil.


_________________
¹E nessa alameda, os dois tipos se merecem em suas respectivas cegueiras. Embora o "cosmético de botequim" seja ainda mais torpe que o "escritor da terra" ou pequeno cronista --- porque ao mesmo tempo mais fátuo, vazio. O pequeno cronista ao menos toma para si uma tarefa que outros não farão de fora para dentro, a não ser lastrados em clichês hediondos.


* * *

Uma cadeia de alívios

Jeff Wall, Flooded Grave, 2006


Lembre-se de Morrer

Quando ela perdeu o favor dele fazia novembro. O sol começava a escaldar no chapisco dos muros. Cair em placa fervente. Tão avassalador e indiferente que, se um tênis fabricado em zonas pouco mais temperadas fosse posto para secar ao sol, viraria pudim. Debaixo do oitizeiro, o vendedor de chegadinho retirava o suor do rosto com a ponta da camisa. Depois retirava a camisa, e olhava com desaprovação os circunstantes imaginários. As chuvas do caju já se tinham ido. E o calor mormacento de fim de ano cercava a cidade com fúrias de cavalaria cossaca. E a convertia em terra de ninguém e febre. O comércio animava-se com as antecipações de décimo terceiro. E os campeonatos nacionais conheciam rodadas periclitantes nas duas pontas da tabela – os times locais a lutar, salvo exceção, para não cair uma divisão a mais – não importa qual. E, embora o estado deles não aderisse ao horário de verão, na prática, o horário de verão se estabelecia a eles, pois a programação da principal rede de TV antecipava-se em uma hora afetando a rotina de milhões.
Tinham combinado, por mensagens de celular, de se encontrar às nove próximo a um terminal de ônibus, no médio subúrbio, perto de uma lagoa. Ela não havia checado ao certo o mapa virtual. Mas não seria tão difícil assim furar um caminho para eles através da cidade.
Para começar, ela havia sugerido que fossem no mesmo carro. Ele declinou polidamente, alegando um compromisso na sequência. Pretextando a agilidade de seguir no mundo, ao invés de tornar à casa para tomar o carro, etc. Ela insistiu um pouco. Mesmo que nada. Ele podia ser voluntarioso como uma mula. Até a margem da rispidez. E assim, na hora acordada, viram-se um diante do outro pelos respectivos vidros foscos. Ou antes disso, pelos retrovisores. E depois disso pelos óculos escuros. Ela desceu e caminhou até o carro dele, estacionado à margem do tráfego que serpeava por uma avenida estreita e repleta.
Nenhum dos dois conhecia bem por onde as rodas de seus carros estavam a girar. Mas ela, auto-indulgente – como de hábito – apenas disse:
Deixe comigo, a gente encontra fácil.
Quase duas horas desse deixe comigo e de idas e vindas e até uma parada para uma água de coco e um café e cigarros depois, chegaram ao cemitério a tempo de ele dizer com bagatelas de mágoa na voz:
Você devia ter me situado melhor. Passo em frente a esse cemitério quase todo dia quando vou deixar minha filha na escola.
Em passos lentos e um silêncio por pouco, seguiram até os escritórios.
O administrador do cemitério se encontrava em Brasília, numa viagem de negócios. Mas sua secretária os recebeu e lhes foi inteirando do necessário a trazer para que o campo santo, um empreendimento privado, pudesse abrir suas portas para as câmeras deles no papel de cobiçada locação:
O filme é para TV, não é assim? – perguntou a secretária.
É sim, respondeu ele. Vocês vão ter bastante visibilidade.
Qual o canal?
O quinze.
Ah, pensei que fosse o 10 – a secretária deixou escapar, em ponta de estoque, o saldo de sua decepção, ao constatar que o filme não seria exibido na retransmissora da Globo.
Mas o horário, dez e meia da noite é uma maravilha, público adulto, anunciantes quentes, a firma de vocês vai sentir o resultado depois dessa janela – ele completou.
A secretária limitou-se a olhá-los com um ar de: “Deus te ouça, estamos precisados mesmo dessa publicidade, porque os negócios não vão bem; e se tem morrido menos no estio deste ano, com crediários ao gosto do freguês e bolsas família para todos lados”. O problema, aqui, é que tanta força pôs em disfarçar a situação que esse olhar “deusteouçado” assomou ainda mais revelador.
Ela, usualmente expansiva na intimidade, contemplava o medonho arranjo floral nos cabelos da secretária, junto com o inevitável excesso de maquiagem, e não dizia nada. Também por receio de interrompê-lo. Ou, por uma gafe – não de todo inpremeditada pelo inconsciente – botar tudo a perder ao torpedear os próprios argumentos dele. Afinal, era ele quem produzia o filme e editava. Ela era apenas a assistente de direção.
Polvilhada de burocracias sem fim de inúteis seguia o meio de campo entre a produção do filme e a administração do cemitério. Prazos exauriam-se. Eram descumpridas rotinas. Maus tratos à equipe de gravação por parte dos seguranças do campo santo foram as cerejas no bolo. Ânimos exaltavam-se a ponto de cada partido chamar o outro grupo de “eles”. Ou entrevê-los com bile e sedes de fígado.
Nesse meio-ínterim, ela morreu. De repente, mas, como sucede ser, não menos definitivamente: o que desfechou não só o affair tenso e sinuoso com ele, como também o impasse entre o pessoal do filme e o pessoal do cemitério, propondo uma trégua que só um evento assim.
Não é proveitoso estender-se a propósito da aventura que tiveram. Não foi nem mais nem menos arrebatadora e mórbida que outras aventuras do gênero, em que diferença de idade e interesses investidos por variados e intercambiáveis jogos de poder recombinam-se com a doce clandestinidade do adultério para fazerem-se ainda mais protagonistas.
Para o modus operandi deles, isso se refletia, acima de tudo, numa troca de e-mails por meio da qual cada um fazia a vida do outro um pouco mais miserável. E, em especial, ele fodia com a dela. Pois era ela a mais velha, estabelecida, respeitável, o elo vulnerável, enfim.
No dia do enterro dela, por sinal, ele não sentiu senão uma cadeia de alívios. Algo incontrolável. Em nome da autocompostura, tentou atenuá-los lembrando de como haviam se conhecido, na academia de tênis, certa tarde. Mas logo algo nele não se conteve: “ela era tão ruim que se jogasse sozinha empatava”. E como mesmo aquele idílio inicial fora consumido pelo azedume posterior das inevitáveis conflagrações, dela lhe ocorreu em resumo uma frase avulsa e distinta, posta por crista de galo em uma das rinhas deles pelos meandros da rede:
Lembre-se de morrer!

* * *

Custa pouco ser dono do vento: Jozséf

[s/i/c]


Eis aí o Saldo Final


Confiei em mim desde o primeiro momento.
Custa muito pouco ser dono do vento.

E à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

Nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
Com medo, às vezes, mantive-me no posto.

Paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

Se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

Fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

Vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

Não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

Vivi (já eis aí o saldo final):
Muitos outros morreram deste mal.


Attila József

Tradução de João Luís Barreto Guimarães



[fragmento (final) do poema "Consciência"]

[...]


XII.

Moro ao lado dos trilhos. No ir
e vir dos trens vejo e revejo
janelas acesas vazando-se a zunir
no breu pegajoso, por lampejo.
E logo em noite de infinito devir
passam os dias luminosos e eu me vejo
Na luz de cada cabine a prosseguir
em que apoio os cotovelos e bocejo.


Attila József

Tradução nossa [a partir de versões em italiano e inglês]


NOTA - Será que há uma índole, um caráter nacional ainda mais carregado de melancolia que o húngaro?¹ Difícil. Attila József teve duas obsessões: a mãe e os trens. 

¹Até o Hino da Hungria é lindo, solene e devastadoramente grave. Um hino em todos os seus aspectos e no sentido literalmente religioso. E não só por sua estrutura musical, como desvela o primeiro verso da letra: Isten, áldd meg a magyart” (“Ah, meu Deus, abençoai os húngaros”).  É mais bonito e absorvente que o alemão  (que é de Haydn e era também Hino do Império Austro-Húngaro -- pois composto originalmente para a Casa de Habsburgo). Por outra via, "A Magyar Himnusz" parece pinçado de um oratório de Bach. [Para ouvi-lo, por favor, clique AQUI (ou AQUI para a versão só instrumental)]. Com um hino desses, compadre, é mais fácil deixar de ser pacifista, e escrever seja o que for. Tomar parte numa cruzada. Ou morrer pela pátria. Ou compor uma elegia, um épico. Ou combater os otomanos. Só por um hino desses saímos no lucro com a fração do Império. De outro modo, as riquezas da literatura húngara levaram Edmund Wilson a aprender o húngaro já na maturidade, irrequieto que era. E curioso, no melhor sentido. No sentido poundiano. E, para além, lembrar que Sándor Márai escreveu um romance, Veredicto em Canudos (1970) [editado por estas bandas pela Companhia das Letras], baseado em Os Sertões de Euclydes da Cunha. Ou ainda lembrar que Joyce chamava Budapeste de "Judapeste", pelo fato de a cidade -- estamos antes da Shoah -- concentrar uma das maiores comunidades judaicas da Europa. Um dos mais destacados poetas brasileiros da geração pós-concretismo, aliás, Nelson Ascher, é de ascendência judia-húngara. Ascher é também um fino tradutor de poesia.


* * *

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Que a pedra dispare brotos de pedra: Lepik

[s/i/c]


Praga

Se destruíres nosso povo
Que a chuva vire pedra sobre teus campos.
Que a pedra dispare brotos de pedra.
Que pão de pedra esteja em tua mesa.
Que pétreo seja o chão em que pisas.
Que pétreo seja teu céu acima.
Que o mar vire pedra.
Vire pedra como teu coração é de pedra
Contra nossa terra e nosso povo.

Kalju Lepik

[tradução feita a partir de uma versão para o inglês de Ivar Ivask]


Nota -- Kalju Lepik (1920-1999), poeta da Estônia. Há essa antologia de poetas do Leste Europeu editada por Emery George. A gente lê e fica pasmo com vários nomes. Como Bobrowski. Como Attila József, que é apenas referido por outros poetas no livro. E quando se vai atrás dele, é daquela linhagem de loucos visionários luminescentes: Lorca, Maiakóvski, Pessoa, Dylan Thomas, Hart Crane...


* * *

Uma lista líquida

[s/i/c]


Águas Fortes


Se digo borrasca,

como farelos de cortiça

você passa sobre vinagre.

Se digo intempérie,

você decalca-se da moça do tempo,

diz a máxima, não dá a mínima.

Se digo tempestade,

você veste mais o perfume de Ariel

que o de Miranda,

mas não se  vá em vão.

Se digo tormenta,

você não sai nada bem na foto de família

(mas, quem sai?).

Se digo temporal,

veja você ao certo 

o que é possível fazer,

para que não se acabe fazendo

por linhas tortas.

Se digo dilúvio,

em que arco-íris você vai estar

depois, depois das chuvas?


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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Componentes avariados

Tracey Moffat, Birth Certificate, 1962


O Recall

Atenção! mães que deram à luz no último dia 4 de outubro: a Maternidade São Judas avisa que está promovendo um recall visto que há defeitos de fabricação mínimos – mas com consequências disfuncionais graves no longo prazo –  nos bebês do lote Nº 356WX-C. O hospital arca com todas as despesas de substituição dos componentes avariados e dos respectivos enxovais – em caso de troca (simples ou consuetudinária) de sexo. Ou, caso seja do desejo das pacientes, na troca total de recém-nascidos do lote por bebês novinhos em folha.


*   *   *

Faina de horas ordinariamente extras

Jeny Holzer, Truisms, 1994


4 Truísmos e Uma Ociosidade Não Criativa


Um assalto à mão não tão desarmada assim.

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E o árbitro expulsa todo mundo. Até a torcida que estava assistindo o jogo sentada no sofá da sala.

*   *   *

Uma faina de horas ordinariamente extras.

*   *   *

Ah, como valia o meu verde!


*   *   *

Em terra de rei, quem tem olho cega.
  
*   *   *

Em que ponto começa o longe?

Rivane Neuenschwander, A volta do Zé Carioca Nº4, 2004



Lua, Mangue

Quando vejo uma lua, um mangue
O pensamento segue para longe
A perguntar do ponto onde longe começa
A lembrança de algo que se quer
Para sempre: mãe, pai, filhos, irmãos,
Um amor, os amigos, certas ruas
Que por nós passaram veios de prazo

E é prudente não passar do passado


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Zodíacos difluem o mar de lágrimas

Hans Hofman, Memoria in Aeternum, 1962


Caravançará


Os cães ladram

Faz tempo, eu soube
As mínimas trilhas na areia

A caravana de teu desejo
Espera o deserto passar

O tempo diz por pedras
As sementes da areia

E ainda não sou digno
Se chegarmos ao abrigo

De desatar a correia
A hora não está para peixes

E zodíacos difluem
O mar de lágrimas


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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Setenta por cento de água

Wim Wenders, Pina, 2011


Assim. Por dentro.

-Mãe, o que é água?
-Água é um líquido, sem cheiro, sem cor, que a gente bebe. Tem muita água dentro da gente. Nosso corpo é formado setenta por cento de água. E o Planeta Terra tem muito mais água do que terra.
-Uhmm! Tá certo. 
O vizinho ligou o carro. O carro de som apregoou o número do deputado. Uma nódoa de luz caiu sobre os ladrilhos do jardim:
-Tsss. Mas é que eu queria saber o que era água mesmo. Assim. Por dentro.


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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Gosma destilada por uma dessas glândulas

Alexander Calder, The Giant Yellow Ant-Eater, 1963



Amor Fede, Enferruja


Pense no amor como algo amarelo,
uma daquelas gemas
que se mistura a fermento e fécula
para a massa de um bolo
num programa de TV.

Pense no amor como uma gosma destilada
por uma dessas glândulas da vida,
que secretam fluidos 
que em geral fedem.

Pense no amor como camadas de cera
de círios, vapores de incenso, mirra de gastas
colônias de leites de flores, e na oxidação
de correntinhas e rosários e terços de falsos
ouros sobre a pele manchada das beatas.

E veja você o modo como sai agora o dia.
Como sai rápido, Cecília; e o corrupião canta
na corrupção da manhã – a manhã, o mais rápido possível,
a se safar de receitas, sequilhos, suores, pus, linfa
e cantos litúrgicos para descanso, carícia e ocupações
 – mais urgentes?

E menos escatológicas.


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Para glória maior de uma só metade da espécie

[s/i/c]

Esforço

Vejam os tendões do pescoço
como pilastras de um templo
sobressaltando-se na carne
da maratonista, para por um triz
sustentar a cabeça, onde a boca
aberta tenta morder ar: pura agonia.
Ela vai chegar em primeiro.
Mas qual o lugar da mulher
no dia em que o dia for dia
e não tão-só essa mala sem alça
onde as horas dos homens
são postas por indiferentes tédios
e pressas para a glória maior
de uma só metade da espécie?


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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tudo que vai na voz da conversa traduz algo muito mais súbtil do que pronomes relativos

Öyvind Fahlström, Sketch for World Map Part 1 (Americas, Pacific), 1972


Uma insuficiente reportagem

Há uma forma de errar que é a certa.¹ Vamos, é só uma questão de escolha. É só mais uma forma de errar. A ciência procede assim, munida de uma catedral de métodos: tenta errar o máximo possível perto da verdade – a que só os místicos, iluminados e visionários se aproximam? A maior parte das vezes, no entanto, sabemos, a ciência sequer chega perto dessa aproximação. Ou desvia-se, com maior frequência, aos barrancos e trancos, para uma distância que não se pode medir a gritos. Uma insuficiente reportagem.

Em certas situações de insuficiente reportagem, tudo está posto, menos o que está posto.² Tudo que vai na voz da conversa traduz algo muito mais subtil do que o que desvela:

Você viu e disse para ela. Ela viu com toda a fome de olhos que a terra há de comer. Aquilo tinha o valor de uma sarça ardente. Extinguiria a disputa. O endereço era como você disse. Aquela barbearia que o pai dela costumava cortar o cabelo ficava, como expresso no mapa virtual, na rua que você pensava mesmo que ficava:
–Viu? – disse você, com ar de vitória, o dedo cravado no mapa.
–Mas, menino, até parece – ela retrucou – já não se fazem mais mapas como antigamente.

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¹Aqui pense também 'errar' no sentido de 'divagar'. Justo como você acabou de fazer ao ler esta nota, desviando-se do fluxo do texto em curso.
²E pode-se pensar se Umberto Eco e o finado Deleuze seriam tão criativos conceitualmente para bolar uma expressão que surtisse melhor efeito do que "insuficiente reportagem" no quadro epistemológico arriba.


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As barbas de molho em pratos limpos

Juan Gris, Compotier et nappe à carreaux, 1917

Botânica

a boca no trombone
o pé na lama
as barbas de molho
em pratos limpos

lenha na fogueira
fogo no circo
viola no saco
o maior boneco

as cartas na mesa
a conversa em dia
a casa abaixo
uma pedra em cima

o dedo na ferida
as mangas de fora
o pé na estrada
o preto no branco

o preto no branco


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sábado, 22 de outubro de 2011

Só para fazer convosco eterna liga

James Casebere, Subdivision With Spotlight, 1982


A Irrevogável Decisão das Parcas

Era preciso um pôr-de-sol. Um pôr-de-sol precioso. Janeiro. Todas as festas de inauguro haviam recém-amaecido, e o ano trilhava ainda ressaqueado a pasmaceira daquele nada acontecer até o Carnaval. Uma calmaria, análoga á que se abateu sobre as naus dos descobridores, arrasta-se por esse primeiro quadrante do ano como uma  praga bem rogada. Ou um filme passado nos trópicos, com um lento ventilar varrendo moscar sobre a mesa de bilhar. Dobrei o jornal decidido: era preciso um pôr-de-sol. Quando mais jovens e a cidade menos turística, íamos à Ponte Metálica, com violões. E ficávamos até que a primeira friagem da noite incomodasse, e a cidade, acesa às nossas costas, convidasse para casa, um banho quente, uma limonada suiça ou água de côco, antes de descer novamente para os bares da Praia de Iracema.
Arrumei a mesa. Pus planilhas em gavetas. Bati no tampo da ampulheta, e os grãos verdes desceram: quarenta e dois segundos. Tempo suficiente para quê? Joguei no cesto o excesso da correspondência: malas diretas; informes, grandes anúncios de imóveis. Dispensei o assistente mais cedo. E saí.
Já no Meireles, quando atingi a ladeira da Barão de Studart, o mar brotou, lá abaixo. Perspectiva extensa que se vai adelgaçando à medida que se desce, a marcha engatada, com a doce luz oblíqua das tardes fortalezenses roçando os telhados vermelhos. Eu sabia. A cidade acabava ali. Mar no limite.
Passei em frente à recepção do Esplanada e tomei à direita: mão-única da Beira-Mar.
Mulheres pareciam mais sensuais sob as malhas pretas do jogging. Mas nenhuma especialmente atraente. A idade faz exigências. E às vezes não oxigenas. Há uma seletividade. E tudo seguia passando, ainda sem a beleza do pôr-de-sol: o charme ordinário das meninas de programa; os semblantes rubros dos turistas alemães; o casal argentino, ambos de cabelos compridos como atacantes do River Plate; reproduções de quadros famosos a rodo; deploráveis talhas com motivos sacros: últimas ceias, madonas, sãos franciscos - e todo o tempo que se gasta em fazê-las; o vendedor com as redes estampadas ao ombro; a regularidade cheia de nuances dos triângulos de chegadinho; anúncios de coca-cola, de cigarros, loteamentos e parques aquáticos; pilhas de coco verde; o cigarreiro ambulante; pregões; garotas estendidas sobre toalhas nos muros dos clubes; hippies temporãos e mendigos.
De repente, do lado direito, ela surgiu. Pisava estranho o asfalto irregular – como se um dos pés falseasse a altura mediana. Era morena clara. Estava bronzeada. Os óculos de aros escuros sobre o nariz afilado. Dentes ligeiramente proeminentes. A brisa revoltando fios avulsos do cabelo preso, que escorriam sobre a face. Usava uma camiseta rosa de gola alta e um short azul-índigo, sumário, encorpado por pernas roliças (mas oblongas), que devolviam um andar terminado num par de dock-siders. Postura espigada, quase selada. E, com a segunda no engate do tráfego lento, e ela atravessando a avenida portando a vasta mochila, nossos olhares se cruzaram por segundo e fração. E logo ela se perdeu sem menção de retrovisor, no veraneio da tarde janeira.
Mas, um giro no quarteirão. Um estacionar o carro. E vinte minutos depois, estávamos sentados na mesma mesa, o mar por diante:
“Então é melhor vir no meio do ano?”, ela disse.
Estudava jornalismo na Cásper Líbero e havia, ano passado, feito uma excursão à Europa. Chamava-se C. F.
Conversamos sobre Londres: a promiscuidade dos vagões do metrô, o acervo da Tate, os museus, a infelicidade auto-suficiente das minorias, os caribenhos que organizavam o carnaval de agosto em Notting Hill, o desolamento mal iluminado das ruas quando a noite abate-se sobre a ex-capital do mundo. Os pubs que são a quintessência de uma sociabilidade, digamos, profissional.
Eu bebia chope. Ela saboreava um vasto sorvete com waffers. Suas malas estavam num hotel próximo. Matava tempo para tomar o ônibus. Canoa Quebrada.
Então falou de São Paulo: andar de bicicleta no Ibirapuera, tomar chope nos botecos de Vila Madalena, degustar um vinho nas cantinas do Bixiga, vadiar de carro na madrugada da Henrique Schaumann. Perder-se na noite, às vezes, um tanto lotérica, sublime, matemática, de Vila Olímpia. Shoppings. Teatros. Cinemas:
“Não se vive sem eles quando não se tem mar, não é mesmo?”
Teria contestado se logo meus olhos não houvessem dado com suas mãos.
Os anéis estavam bem distribuídos nos dedos. Pousava a mão sobre o tampo da mesa com gentileza. E comparando com o tempo que gostaria de entretê-la diante de mim, as horas que faltavam para seu embarque foram se tornando os quarenta e dois segundos da areia verde, na ampulheta, sobre minha mesa de trabalho, caindo em mão-única.
A horas tantas, não era eu quem lhe falava. Mas alguém que desandava a tagarelar muito além do comedimento usual. Cheguei a emendar uma sequência de piadas, um trem de empostadas alegrias. Fiz citações estapafúrdias. Entornei chope sobre a mesa. Histrião em pessoa.
Ela me olhava, por trás das lentes, míope, divertida. Um pouco curiosa. E ria solto. Depois, esforçava e continha-se. À vezes repuxava os lábios num meio sorriso desaprovador, irônico. Havia encanto?
Não logrei de imediato ganhar sua confiança. Teria sido equívoco, hoje sei. Mas a vida é tentar encontrar. É tentar. E o acaso ainda um excelente caminho. Talvez o melhor. O único? Ah, a decisão irrevogável tecida pelas parcas.
Depois passamos num ambulatório de uma farmácia vinte e quatro horas onde ela extraiu um espinho, porque caminhara descalça no Cumbuco. Seu rosto contraído.
Ganhar a confiança de alguém implica uma instância de verdade. Não é rua de mão única:
“Passo na sua casa quando voltar, próxima semana”, ela disse vagamente, aprumando a mochila.
E, do jipe, vagamente a vi perder-se na azáfama entre os guichês da estação rodoviária:
“Só para fazer convosco eterna liga”, pensei.
Tínhamos nós, perfeitos desconhecidos, passados um crepúsculo e sete horas conversando ininterruptamente. E calando. E deixando aos corpos a precedência. E voltando à conversa. Para uma nova supensão. Sim, um soneto de Baudelaire foi do que também me lembrei.
O tal heroísmo da vida moderna. O de o filme se passar à última vista.



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Optou mesmo pelo basilisco

Willem de Kooning, Villa Borghese, 1960


Bichos de Sete Vezes Sete Noves Foras duas Cabeças

Meses a fio hesitou. Ponderou. Flertou. Qual seria o bicho de sua eleição? Depois, ficou em dúvida entre a água-viva e o ouriço. Mas, num rompante, optou mesmo pelo basilisco.


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