quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nenhum veredicto no espelho

Robert Smitson, Corner Mirror With Coral, 1968

Tu in ea et ego pro ea

Existem bicicletas de seis selins e pessoas como a Duquesa de Alba que, ao ver-se na imagem, não demandam do espelho nenhum veredicto, tão certas estão de algo. E se aparentemente qualquer homem parece demasiado jovem para María del Rosario Cayetana Fitz-James Stuart y Silva, isso não é mais que uma ilusão ótica. Seria difícil tão-só pôr seu nome completo num twitter. Acima segue apenas uma desprezível abreviação.
E o que seu nome carrega? Os mortos das guerras de Holanda? As úmidas tardes de Escócia?
Ela resolveu casar-se por mero gosto pela circunstância?
Sabia que as más linguas nas redes sociais iam trilar, ao alcance de seu olhos curiosos, azeitonados:
"E ao final da boda de Caetana de Alba o cura disse: 'Pode beijar a múmia!'".
Há grosseiros ao alcance de todos, Duquesa. Portugueses rudes a evocar certo passo d'Os Lusíadas. Filhos ingratos. Reis dispostos a lhe aconselhar seguir viúva. 
Bicicletas de seis selins equilibrando-se entre relógios. Bicicletas de seis selins são, digamos, como aqueles dias em que nada acontece. Ou se acontece, é lacunar. Jamais preenchem todos os seis assentos. Ou os ocupantes se põem a pedalar com o mesmo empenho. A vida de quase todo mundo transcorre um pouco assim. Oxidada, depois de algum tempo. Do contrário, com os seis lugares plenos e bem pedalados segue a vida de Cayetana Fitz-James Stuart y Silva. Há nela algo de monja?
Em verdade, quem sabe o que vai de selvagem alegria nessa mulher? Ela tem 85 anos, mas caminha com invulgar desembaraço após as bodas em meio à comoção popular: artistas, toureiros, apresentadores de TV. O clique posto-ali dos obturadores. O espocar dos flashes. Não esperem que seu vestido tenha mais dobras e babados que a pele. Não esperem uma pele de arminho. Ainda é começo do outono.
“Tu nela, e eu por ela”. E a duquesa espanhola por todas nós, pensou uma mulher sobre o mundo, numa terra estrangeira, vagarosa, ao revisar as fotos: "ela já está morta e deambula". E a duquesa – cujos lábios parecem pregas, hérnias, bordas de chagas sobre os olhos achinesados pelas plásticas – assomou bem mais à vontade que seu recém-marido, plebeu e um quarto de século mais moço.
Sim, uma espécime em franca extinção, a Duquesa de Alba com seus cabelos crespos. É o ser vivente com mais títulos nobiliárquicos na face do planeta.[¹] Sanguinolentos tiranos na linhagem. Poder. Chuvas e frios ingleses. Maquiavélicos conchavos em família. Crises de consciência. Autos-de-fé. Iâmbicos pentâmetros. Parques de caça privados. Chás. Águas termais. Patisseries. Saraus. Museus. Fundações. Festivais. Verões baleares. Cannes. Tédios. E o peso de tudo isso na aba de seu nome[²]. O peso de tudo isso, enfim, dividido em pacotes de 200g de alpiste dado aos dias, como pequenas misérias a um biógrafo. E, no entanto, após a boda, nos jardins do Palácio de Dueñas, descalça sobre as pedras,  e ao contrário das tartarugas marinhas, dos peixes-boi, das chinchilas ou dos tamanduás – que têm compungidos ambientalistas a lhes antecipar rascunho e obituário – Cayetana Fitz-James Stuart y Silva dança uma violenta sevillana.




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[¹]O titular da Casa de Alba conta com prerrogativas especiais como Grande de Espanha. Não precisa, por exemplo, ajoelhar-se diante do Papa. Ou pode entrar montado a cavalo na Catedral de Sevilha.

[²] Foi, de resto, com o pensar em um antepassado dela, também titular do ducado, que Virgilio Piñera escreveu um poema que traduzimos AQUI, em 2008.


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No enviesador de questões

Claes Oldenburg, Giant Soft Fan, 1967



Sobre aquilo que não se pode


A melhor forma de abordar certas polêmicas: não mencioná-las. Ou mencioná-las enviesadas. Sem  nomear bois. 

Recentemente houve a celeuma em torno do humorista, sua piada mal mapeada: uma gestante, um feto.[¹] E então, as pessoas, desconhecendo o aposto, [²] candidamente emprestaram ainda mais influência ao nome dele, ao decliná-lo, em recriminação, um milhão de vezes pela rede afora.

Não seria melhor, em casos assim, pôr tudo no enviesador de questões?[³]



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[¹] Hoje em dia parece cada vez mais difícil colocar-se no lugar de alguém.

[²] Ninguém mais usa apostos em mensagens digitais.

[³] Ressalve-se que a amplitude que a polêmica ganhou - e a perda de emprego do "humorista" - deriva apenas da grosseria de ter sido praticada contra pessoas famosas, celebridades. Isso vale para ambas as partes de uma justiça longe de cega. Passa o recibo de nossas "celebridades".


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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O lábaro que ostentas

[s/i/c]



Agora eu se consagro!

–Mas não é que ele não errou “o lábaro que ostentas” - diz Flávio Gomes.
A menção a trecho do Hino que todos cantamos desde a infância – e alguns desconhecem pela vida inteira o significado de muitos termos – é perspicaz. E uma colheita de boas ideias sobre futebol e vida passa na ESPN Brasil. E em termos puramente nacionais, a concorrência, no que diz respeito à cobertura do futebol é desleal: eles não detêm os direitos de transmissão sequer da Série C. Ainda assim, há tanta metatransmissão, saudável ironia e códigos pessoais atravessando a tela que os eventos por lá são glosados com grande vivacidade, pluralidade, ainda que num programa bastante limitado quanto à mostragem da imagem e suas possibilidades de manipulação técnica, como o Bate Bola. E eles conseguem transformar essa escassez de meios em atratividade. Algo derivado do rádio, mas sendo outra coisa em suplemento e no fim de tudo. E mesmo algumas das melhores coisas do canal concorrente, a Sportv, muito devem à ESPN Brasil, como a agilidade mental de Paulo César Vasconcellos ou o coloquialismo narrativo de Milton Leite, que por lá passaram antes de chegar ao canal subsidiário da Globo.
É fácil perceber que os méritos de Paulo Vinícius Coelho são bem mais abrangentes que memória, enciclopédia ou prodigiosa capacidade de preparar-se para os temas diários, pois são, sobretudo, esteados por insights e improvisos. Junte-se à lógica, à aparente frieza de PVC os arroubos, lúcidos delírios, de João Carlos Albuquerque, o “Canalha”; ou a postura hipercrítica – mas não de toda desprovida de humor – de Mauro Cesar Pereira. Ou mesmo certo tom conciliatório, embora pontilhado de ironias ou emblemáticas lembranças geracionais, de Flávio Gomes. Talvez, então, o que há de sectário, conservador e tacanho moralismo na Globo conheça na ESPN Brasil seu correspondente (na pele de zelo esquerdista datado) em alguns dos jornalistas mais veteranos. E ainda assim com um humor acima da média.
É prazerosa a assistência da ESPN Brasil, e não é de hoje. Ela foi uma das primeiras emissoras a incluir em seu cast uma comentarista feminina de futebol, de fato, com certa respeitabilidade e ressonância nacionais, além de conhecimento de causa para tanto: Soninha Francine. E podemos ver a ESPN Brasil como uma derivação da TV Cultura – que até os anos 90, esteada em um orçamento menos minguado, foi a melhor televisão de sinal aberto do país em relação à grana que a movia desde os bastidores. A Globo, por exemplo, apegada aos clichés mais estéreis, como as cracas ao casco das embarcações, jamais se deu à tarefa de propor uma comentarista mulher, embora tanto martele, em suas telenovelas, a civilidade de se não descriminar. É isso. E em casa de ferreiro.
O que ressalta na Espn Brasil é um espaço maior para uma humanidade fundamental do jornalista – algo que a maioria dos veículos televisivos perdeu para certo marketing vitriólico. Isso, claro, não é seu monopólio. O Redação Sportv, por exemplo, também concede esse espaço. E para bons nomes: Lédio Carmona, André Rizek, Lito Cavalcanti, Tim Vickery, Sérgio Xavier. Mas é quase um programa avulso se posto em parelha com a fórmula deplorável de um Bem, Amigos, onde o clichê e a falsa cordialidade, a do “homem cordial” rematado, buarqueano, se efetiva em estátua de sal.
De outra forma, no Bate-Bola de hoje, Flávio Gomes diz a propósito do Rock in Rio, cujos shows serão retomados logo mais à noite, que tem uma piada pronta a contar, mas não sabe se será de bom tom. O que ele teme: excessiva tutela do politicamente correto. Mas, vá lá, Gomes acaba dizendo:
Eu tenho um amigo que gosta tanto de Stevie Wonder que vai  pro show dele hoje levando uma faixa em braile.
Há muitas casas onde abrigar um jornalismo que não necessita retroceder várias casas diante do clichê.


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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Na República do Essencial

[s/i/c]


A Revolução Tranquila [¹]

As motocicletas estão chegando. Primeiro aos poucos. Depois, nem tanto. O sol ainda não saiu. A república do essencial conversa a observar a nova cidade que está sendo erguida. Ela é feita pelas mãos de alguns dos motociclistas. O que produzimos é secundário diante dessa essencialidade que é morar. Ter uma gruta. Toldo mais bem fechado a zíper de tijolos, que deixa de fora chuvas e ventos.
Você ouve os barulhos da cidade. E eles, de momento, são de marretas, maçaricos, bombas, betoneiras.
Um dia futuro dirão que vivemos os tempos da inocência digital. Da segunda ilustração. Da segunda Renascença. Tempo de partilhas e delicadezas. De enciclopédias livres, arquivos de música e imagem à disposição do usuário da Sibéria à Patagônia. E duas décadas em que a disciplina capitalista penou para pôr preços nisso tudo e segmentar melhor uma mercadoria ainda mais abstrata. Em que a ilustração esteve mais à mão de todos, justo porque o mercado deu com uma mercadoria ainda mais dobrada sobre si. Colhido de surpresa diante do inesperado. Do imponderável. Do impossível de se tocar com a ponta dos dedos. E, despreparado, assistiu a derrocada de impérios da música. E pop-stars serem atropelados pelo dinheiro dos jogadores de futebol.
E foi nesse ínterim que o Brasil viveu sua revolução.
Ainda ontem, caminhando supermarcado pelo sol da manhã, do supermercado para casa, ao passar em frente a uma de todas as construções que se erguem por um bairro que mais se assemelha a um canteiro de obras, aquele enxame de motocicletas. Bem podia ser uma convenção de motociclistas. Mas não. Eram as motocicletas dos peões da obra, Hells Angels vindos da Jurema, de Maracanaú. Eles agora podem comprá-las, revendê-las. Passear nelas nas horas de folga. E a cidade segue entupindo-se de veículos até o gargalo do gargalo.
A classe-média, nova ou velha, reluz seus lustrosos zeros quilômetros ao sol. Ostenta seus iphones. E muito se tem falado dos malefícios dessa verdadeira explosão automobilística, total falta de infra-estrutura dos transportes públicos ou da ubíqua superfluidade da informação. No Dia Mundial Sem Carro, vereadores seguiram de bicicleta para a Câmara. Como são abnegados! Eles fazem isso uma vez por ano. Embora ninguém noticie como eles chegam até a Praça da Imprensa para, então, devidamente sob as câmeras dos canais de TV, tomar seu legislativo rumo. 
Logo, efetivamente, quase nada se tem feito. Tanto no plano pessoal – pois mesmo os que reclamam do automóvel ou da informação supranumerária são seus usu(r)ários mais recorrentes (e até que ponto é possível deixar de sê-lo?) – quanto, o que é bem pior, no plano coletivo.
Os sistemas de metrô são irrisórios. Os já implantados, tímidos, mesquinhos diante da monstruosa escala das megacidades, como em São Paulo. Do Rio, nem falar: ainda uma incipiência. Ou, quando em construção, eles estão mais para poços de pré-sal da corrupção e procrastinação, que beiram certo sado-masoquismo masturbatório tão a gosto de nossa ilustrada elite, como em Brasília ou Fortaleza.
Não há ciclovias. Ou vontade política de tomá-las a sério. Tanto por parte da população, como do poder público. E haveria categoria profissional mais acomodada, pouco criativa e preguiçosa que a dos estudantes universitários? Eles morrem para ir às aulas de carro: por que reclamariam ciclovias ou boicotariam automóveis? Por que seriam criativos entre si e consignariam uma extensa rede de caronas solidárias ao mesmo tempo que formariam comissões para pressionar rotundos deputados e vereadores nas respectivas Assembleias e Câmaras? Por que pressionariam por metrôs, tramways, vlts, corredores de ônibus articulados? E há tempo para isso, se todos posam de personalidade no Twitter, a revelar ao mundo a que horas voaram para Recife ou foram passar o feriado no Porto das Dunas? Ou o que ganharam na promoção da Peugeot? [²] Quanto tempo até considerarem que as coisas realmente relevantes feitas na vida de cada ser humano não podem ser postas num CV? Ou qual o mérito de tantos encontros e colóquios país afora se a vida fica do lado de fora dessas conversas?
No plano da informação, tome-se um portal como O Uol e verifique-se o quanto ele amoldou-se ao gosto mais amplo e plano da recém-classe média. Ou o quanto há de supérfluo e tabela de consumo no leque de informação que ostenta na sua folha de rosto: “Teste para cheerleaders corintianas tem fanatismo, tombos e código para boas meninas”; “Estimular cérebro com eletricidade acelera aprendizado, diz estudo”, “Análise mostra as semelhanças entre iPad 2 e Galaxy Tab”; “Casados, Paulo Vilhena e Thaila vivem em casas separadas”; “Gigantes, girafas se abaixam para comer nas mãos do tratador”; “Em Fina Estampa, Antenor rouba beijo de Patrícia” “Falta de vacinação de adultos impulsiona surto de coqueluche”; “Rihanna vai até a sacada de hotel no Rio usando pijamas”.
Poderia ser diferente?
Outrossim, todos sabemos que enquanto cérebros são estimulados pela eletricidade; parlamentares de siglas obscuras preenchem sua cota de segundo escalão com afilhados sem preparo profissional; girafas se abaixam para comer; Antenor rouba um beijo de Patrícia; posseiros são mortos como piolhos no sul do Pará; e Riahanna e seu pijama deslocam-se até a sacada do hotel carioca; uma revolução silenciosa se processa país afora. Uma revolução que atravessa todo o dia o país. Aparentemente de pijama. Mas paramos muito pouco para nos dar conta dela. Ainda que, por sua conta, dentro em breve, categorias profissionais inteiras, como a das empregadas domésticas, sigam desaparecendo.
Uma das luzes cultivadas nas brenhas dos anos de chumbo foi o cuidado que os militares – os mais esclarecidos dentre eles, é verdade, como Golbery & Cia – tiveram com a infra-estrutura. Rasgaram estradas. Construíram hidrelétricas. Modernizaram portos. Ergueram e ampliaram aeroportos. Deram deciso impulso à nossa indústria aeronáutica - que é, hoje, uma das mais sofisticadas e competitivas do planeta. Fomentaram projetos estratégicos que possibilitaram ao Nordeste e ao Norte uma industrialização e um crescimento que segue, de momento, acima da média do país – casos de Pernambuco e do Ceará, que cresceram mais de 8%, em 2010. Então, parece óbvio: o principal gargalo a entravar um crescimento mais amplo e equitativo da república brasileira é, de momento, a morosidade, os entraves, a corrupção e a degradação ambiental em torno dos projetos de infra-estrutura, que simplesmente andam a passo de tartaruga. E é essa incapacidade de infraestuturar-se que impede um crescimento e uma expansão ainda mais dinâmica da economia brasileira.
O império do kitsch, o denuncismo profuso como herança de uma esquerda que já não tem uma ditadura para culpar (embora não haja dado conta disso), o crédito pequeno e fácil, o portentoso enriquecimento de poucos, o suor de muitos. O carreirismo desenfreado, o pseudointelectualismo na academia, a rigidez dos títulos, a complacência da teoria. A teoria a serviço de si mesma. A inadequação de teorias e categorias importadas acriticamente. De todo um mundo incapaz de seguir para além dos muros do campus – ainda que esses sejam acossados pelos medonhos condomínios verticais, que sobre eles debruçam seus estacionamentos alpendrados e indigentes áreas de lazer para uma infância cada vez mais sequestrada ao rio, à flora, à fauna, ao futebol de várzea, ao quintal, ao açude, ao curral, à serra, ou à lenta comunidade das farinhadas e despescas.
Quanto mais houver espaço para a suavização das desigualdades regionais e sociais, todos sairão ganhando. Ainda sob a égide da perda de delicadas formas regionais de fala, escuta e convivências. Se o modo de se atingir isso passa por certas degradações temporárias – tanto estruturais quanto culturais –, elas não devem, no entanto, passar incólumes, sem escrutínio. E nesse entreato, é necessário que Shakira e Luan Santana, Claudia Leitte e Restart, Michel Teló e Nx Zero comandem a folia, e toquem até os dígitos se confundirem e emergir um terceiro excluído: uma classe média que, devidamente educada, inclusive musicalmente, resolva destruir seus antigos ídolos de barro e parca coreografia. 
A classe C, motor dessa revolução silenciosa, ao atingir ser consumidora, também sofisticará, progressiva e penosamente, seus gostos. Pacotes turísticos para os Estados Unidos, Iquitos, Bariloche, Aruba. O sabor da uvaia, do mirtilo, dos bombons de cupuaçu, do alfajor. O estilo de mise-en-scène das telenovelas. As posturas do Pilates. A conjugação de certos verbos irregulares em francês. Mais além, fará pressão por melhores escolas, hospitais, transporte. Porque efetivamente precisará – por vezes desesperadamente – disso. De forma concreta. 
Uma das fontes de esperança do país está investida nessa necessidade. Nessas mulheres que, graças a seu próprio suor, são cada vez menos faxineiras, cozinheiras. São independentes e guerreiras. Nesses homens que fazem cada vez menos biscate e passeiam certa auto-suficiência sobre motocicletas. Até que a curva do consumo estabilize uma classe. E conquistas se convertam em rematada acomodação nova-rica. Como no Québec, na Espanha, em Portugal.
O problema não é bem esse, no entanto. Desde que nossa criatividade vem de, com alguma sorte e algum improviso (às vezes involuntário), não sermos “cópias”, “traduções” ou "decalques" dessas velhas sociedades europeias, mas um derivativo de luz bem mais própria e com possibilidades muito mais amplas de descontinuá-las.[³]


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[¹] É por tudo isso que a expressão Revolução Tranquila [Révolution tranquile ou Quiet Revolution], utilizada para designar os movimentos modernizadores -- ou pós-modernizadores, se o gosto do freguês vem por Lyotard -- do Québec na década de 60, rompendo com anos de imobilismo oligárquico comandada pelo personalismo de Maurice DuPlessis e pela ala mais reacionária da Igreja Católica, cai como uma luva para designar dois momentos recentes, imbrincados, que experienciamos na carne e no espírito, atônitos: a própria revolução digital e a revolução brasileira, as quais abriram as perspectivas de consumo (inclusive cultural) e interação a milhões de pessoas. Isso não implica, no entanto, que ambas (e muito especialmente a segunda) tenham sido oceanos pacíficos nos sete mares da política convivência. Mas de os efeitos alcançados -- a despeito de enormes, grotescas imperfeições -- não comportarem, em seu processo, os grandes gestos palinódicos e sectários ou a sangrenta violência dos processos revolucionários do século passado. A violência, claro, está lá. Mas com outros rostos. E, com um pouco de sorte, sem o personalismo fascisto-comunistóide dos ridículos ditadores, grandes timoneiros. A revolução brasileira, a despeito das bases econômicas lançadas por PSDB's e PT's será, sempre e acima de tudo, uma conquista das classes indigentes, que passaram a consumidoras muito mais por esforço próprio e ao largo do assistencialismo das políticas públicas. Elas revelam, de outro modo, o imenso, subestimado potencial empreendedor da feirante que vende confecções, da sacoleira, do pequeno empresário, do comerciante do subúrbio, do mototaxista, etc.

[²] Ao que parece o que os jovens almejam no Twitter e outras rendas sociais são formas de comunicação outras, desesperadamente novas, que buscam codificação e cifra a todo custo, e que ainda não entendemos. E, portanto, tudo que se diz sobre elas parece precipitado, no mínimo. Que há nelas largo coeficiente de escapismo [do tipo "Inocentes do Leblon"] e matéria datada -- prestes a ser convertida em cemitérios e nostalgia -- no entanto, disso ninguém duvida. Pode-se ter essa sensação ao passar por redes sociais que começam a cair em desuso, como o Orkut - um insucesso em quase qualquer lugar à exceção da Índia e do Brasil. Ou então, quando, numa rede social, chega-se ao perfil de alguém que já morreu e, logo, dá-se aquele estranho contraste entre a supérflua imediatez das mensagens e a inexorabilidade da morte. Pois um dos aspectos mais atraentes nas novas mídias é a possibilidade praticamente universalizada de reverter processos e efeitos.

[³]Ou seja, de descontinuá-las para melhor, pois alguns de nossos traços históricos e culturais já nos asseguraram melhores trunfos societários em alguns aspectos. A miscigenação étnica, cultural é algo no qual estamos anos-luz à frente deles. É algo original e nosso, quando se pensa na xenofobia, na má-vontade de aceitar a outridade -- caso entre outros da forma torpe como é conduzida a convivência com os imigrantes, em particular os muçulmanos na França e um pouco por toda parte --, no avanço dos partidos de extrema-direita por todo a Europa. Ou no crescente receio dos Estados Unidos diante dos imigrantes latinos. Ou no recente massacre na Noruega. Quando se pensa que um dos maiores porta-vozes da cultura brasileira, Machado de Assis, é considerado "o maior escritor negro" pelo renomado crítico norte-americano Harold Bloom se colhe a exata noção disso. Não há espaço na mentalidade norte-americana para a categoria mulato -- ao menos como nós a entendemos. Quer dizer, existe a palavra em inglês [mulatto], mas ela reverbera outras coisas. Diferentes das que ecoa para nós. Há um forte receio de miscigenação ao redor da palavra mulato em inglês. Há um desejo de que ela seja sinônima de híbrido -- já que o híbrido não reproduz. Esse receio, como bem ensina Gilberto Freyre, já perdemos há muito tempo. Foi isso, aliás, o que possibilitou, já há cem anos atrás, que o maior expoente de nossa cultura, literariamente falando, seja um mulato. E isso dá testemunho do vigor que ela irradia.  


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sexta-feira, 10 de junho de 2011

And While Lennon Read a Book of Marx

[s/i/c]


Com alguma pressa e espuma no vidro da caneca: a mais longa letra de rock'n'roll do planeta 


Em “American Pie”, canção que nomeia o álbum homônimo de Don Mclean, lançado em 1971, encontra-se a mais longa letra de rock'n'roll do planeta. Ou pelo menos a mais longa letra que “funcionou”: o tema ficou quatro semanas em primeiro lugar nas charts americanas. A canção, girando em torno da morte de Buddy Holly e outros dois músicos, que se deu num desastre de avião, em 1959  o episódio ficou conhecido como "The Day the Music Died"  estende-se por longos oito minutos e trinta e três segundos. Tem 112 versos. Faz referência a mais de trinta artistas, canções de rock ou ícones dos anos 60. Ortodoxamente, seria uma canção folk. Começa e termina em andamento lento, apenas com acordes ao piano, salpicados aqui e lá. E depois o violão puxa o andamento. E então há um bocado de suingue no miolo – mais do que suficiente para se dançar. E há também a colaboração de ases, como o guitarrista David Spinozza, que tocou em discos solos de Lennon e McCartney, não menos. Linhas de baixo no ponto, fazendo as vezes da mão esquerda no piano – um pouquinho opacas, sem eco, o que as torna muito charmosas – e um piano que pulsa como um coração cheio de contentamento selvagem e generosa adolescência. Segue sob o feitiço de Paul Griffin, um experiente músico de estúdio, o mesmo a mover teclas do arranjo para piano de "Rain Drops Keep Falling on My Head". Em nenhum outra época a sonoridade dos pianos era tão agradável, redonda, recheada ao gosto do freguês e dos microfones de estúdio como então. E o fato de "American Pie" provir dessa metade inicial da década de 70, bate bem rente com o tempo em que eu estava começando a afinar o ouvido para esse gênero de música. Eu ainda não tinha dez anos. Há algo de mágico na sonoridade dessa época. Algo que, inclusive, foi perdido nos primeiros CD's, ainda não devidamente remasterizados, no início dos 90. Algo presente em álbuns como os dois primeiros de George Harrison: All Things Must Pass e Living in the Material World – este último possivelmente o melhor álbum solo lançado por um ex-Beatle, cabeça a cabeça com o Plastic Ono Band, de Lennon – é de cinco e meia para seis horas da tarde: azul de melancolia. Mas a sonoridade desses pianos encorpados se ouve em muitos outros ícones de então: Derek and the Dominos; Pink Floyd; Led Zeppelin; Duane Allman; The Band; Joni Mitchell; Emerson, Lake and Palmer; Genesis; Crosby, Stills & Nash; Carpenters; Traffic e tantos outros. De resto, Don Mclean jamais comporia outro tema tão longo. Nem tão interessante. “American Pie” pode ser ouvida aqui: 


E apure sobretudo os ouvidos para os opulentos sons do baixo [Bob Rothstein] e do piano [Paul Griffin]. É um dos timbres de piano mais bonitos registrado em disco. A sonoridade lembra gotas de chuva caindo numa pequena cisterna ou num barril. Ou um trago de cerveja sendo posto com alguma pressa e espuma no vidro da caneca.


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quinta-feira, 9 de junho de 2011

¿O no le salen canas?

Jake Chapman e Dinos Chapman, Sem-título do Portfólio Exquisite Corpse, 2000


Um abraço para Bolaño

Toma-se um livro de Roberto Bolaño para ler. O livro é horrendo. Tem a capa de um vermelho berrante. E nela cerca de metade é aberta para uma foto. Na foto em preto e branco se vê um velho gaúcho de barbas brancas, o pampa sem fim estendendo-se por trás dele. E próximo a ele, um pouco como se o farejasse, vemos um coelho nitidamente aplicado – a exemplo do velho – sobre a infinita linha de horizonte do pampa, quebrada apenas por uma espécie de cânion. Acima disso há o título do livro, El Gaucho Insufrible, postado em tipos pequenos uns dois centímetros abaixo do nome do autor, que rende três vezes mais. Arrematando tudo, abaixo da foto vem o nome da editora e a série: Anagrama/ Colección Compactos. É isso, trata-se de um livro originalmente publicado em Barcelona, outubro de 2003. E houve quatro reimpressões depois disso. As duas últimas em 2010.
São contos.
O primeiro lê-se com certa desconfiança. Parece deliberadamente vago ou experimental ou inconclusivo. Ou de algum modo sugere certo sabor de que nada acontece. De alguma pasmaceira pós-moderna: no plano da forma e no que segue contado. Parece com o quê? Com um conto escrito por excelência por qualquer conhecido seu em qualquer ponto do planeta que se assumiu de fato como um escritor profissional. E daí atira-se àquela patifaria sem volta de encontros, seminários, feiras-do-livro, etc. O que lhe chega geralmente numa revista, numa antologia, ou mesmo por e-mail. Por que Bolaño dá a precedência do livro a esse conto é difícil supor.
Talvez porque o segundo, que dá título ao livro, é uma granada estilhaçando cem mil lugares-comuns. É o inverso do hermetismo pseudo-sofisticado do primeiro. É um conto que não quer restar como nada “sofisticado”. Longe disso. Há um oximoro aqui, porque esse segundo, "El Gaucho Insufrible", compõe uma devastadora síntese e sátira da América Latina tomada a partir de um ponto de vista da Argentina no início dos 2000¹. E é tão impiedosamente sardônico, caricato, que o retrato esboçado tira risos pelo excesso de Apocalipse. Um advogado bem sucedido, ex-juiz, retrocede à figura do gaúcho. Os pampas seguem infestados por coelhos que aparentemente são a única fonte de alimento durante uma acachapante crise econômica que abate-se sobre a Argentina como uma praga. Depois de algumas peripécias, Pereda, o ex-juiz, muda-se para sua estância.  Para observar que àquele bando de gaúchos – completamente ineptos e de mãos cegas para qualquer ofício – inicialmente, só dois assuntos interessam, e com igual desvelo: crise econômica e futebol.
Depois, passado a erupção da crise, fica apenas o futebol. Eles próprios foram (ou são filhos de) antigos barras bravas, que não hesitavam em abandonar a casa, a mulher, os filhos, para seguir com psicótica devoção o clube do coração pelos rincões mais remotos da Argentina.
E, no entanto, se há uma lista de livros em que você se pega a bolar de rir com o inusitado do humor, a indizível fome de contundência, as observações sardônicas e inteligentes, sob as quais há uma sincera indignação - artigo raro hoje em dia - El Gaucho Insufrible há de estar nela:

La mujer no hablaba mucho pero sin duda trabajaba más que los seis gauchos que para entonces Pereda tenía en nomina, lo cual es un decir, pues a menudo se pasaba meses sin pagarles. De hecho, algunos de los gauchos tenían una noción del tiempo, por llamarla así, distinta de la normal. El mes podía tener cuarenta días sin que eso los causase dolor de cabeza. Los años cuatrocientos cuarenta días. En realidad, ninguno de ellos, incluido Pereda, procuraba pensar en ese tema. Había gauchos que hablaban al calor de la lumbre de electroshocks y otros que hablaban como comentaristas deportivos expertos, sólo que los partidos de fútbol que mentaban habían sucedido mucho tiempo atrás, cuando ellos tenían veinte años o treinta y pertenencían a alguna barra brava. La puta que los parió, pensaba Peneda con ternura, una ternura varonil, eso sí.

E o dente na veia prossegue pelos contos seguintes. Especialmente “Dois Cuentos Católicos”, “Literatura + Enfermedad=Enfermedad” até chegar a uma espécie de inferno definitvo em “Los Mitos de Cthulhu” -- que é um dos dois ensaios breves que que fecham o livro com inusual contundência.
Neste último, num tom exaltadíssimo, Bolaño não poupa ninguém nem abre grande margem para compromissos. Traça um diagrama boschiano da literatura em língua espanhola. E um diagrama interessante, apocalíptico. Perfeitamente maldito. Que não se iria escutar nunca na voz de escritores mais polidos, "políticos", que são verdadeiros establishments ambulantes, como Octavio Paz, Gabriel García Marquez ou Mario Vargas Llosa. E por outro lado, como aponta Bolaño nesses ensaios delirantes, escritores dessa envergadura institucional, gastam tanto tempo construindo a própria respeitabilidade que, no fundo, perdem qualquer possibilidade de contundência. Eis porque, entre outras e ao lado deles, Bolaño soa como nitroglicerina pura. Uma máquina de moer carne literária que faz picadinho de gente como Sánchez Dragó, Ana Rosa Quintana, Isabel Allende. (Em uma de suas últimas entrevistas há um visível mal-estar quando ele lembra que Paulo Coelho está na Academia Brasileira).
As páginas pingam ressentimento, dor, revolta, uma compreensível fúria, aplacados um tanto pela voltagem de humor página após página:

Ana Rosa Quintana, una presentadora de televisión simpatiquísima, es quien escribe el mejor libro sobre la mujer maltratada de nuestros días. Sánchez Dragó es quien escribe los mejores libros de viajes. Me encanta Sánchez Dragó. No se le notan los años. ¿ Se teñirá el pelo con henna o con un tinte común y corriente de peluquería? ¿ O no le salen canas? ¿Y si no le salen canas, por qué no se queda calvo, que es lo que suele pasarles a aquellos que conservan su viejo color de pelo?

Ou então:

Latinoamérica fue el manicomio de Europa así como Estados Unidos fue su fábrica. La fábrica está ahora en poder de los capatazes e locos huidos son su mano de obra. El manicómio, desde hace mas de sesenta años, se está quemando en su propio aceite, en su propia grasa.

É claro que o que mais ressalta nesse diagrama é a aspereza de Bolaño diante da inércia do establishment literário ou acadêmico. Nesse sentido ele é bem-vindo em qualquer tempo. Mesmo numa circunstância em que os Estados Unidos encontram-se em relativa decadência, assim como a situação europeia segue bem menos confortável que a euforia unificacionista de só alguns anos atrás. E em parte por que? Porque o futuro – quando houver, se houver – parece haver revoado para a China e, em menor escala, para outras economias emergentes – e isso inclui países da própria América Latina (este conceito lábil, em que os brasileiros volta e meia se incluem, volta e meia não; volta e meia são incluídos; volta e meia, não). E, no entanto o excesso de carnaval, de barroco, de deformação, de uma alegria violenta (bárbara, quiçá) é tão contagiante neste país, que há uma unanimidade: dentro em breve, seremos uma superpotência real, por méritos próprios, ainda que uns poucos venham questionando mais e mais os métodos de “inclusão” social do governo e, em especial, a habilidade para manipular a máquina de propaganda – sobretudo a partir do segundo mandato Lula. Parece haver no Brasil uma total incapacidade de articulação ou uma progressiva perda de espaço de articulação para uma oposição efetiva e respeitável. Isso é já perigoso – ainda que as regras do jogo político pareçam mais consolidadas que em alguns outros países do subcontinente: Venezuela, Equador, Bolívia, Peru e até mesmo Argentina e Colômbia. Ainda assim, há como que uma reserva de mercado na burocracia estatal, nos quadros acadêmicos que assoma como prerrogativa ou monopólio do PT. E isso tende a crescer. 
Mudando de alhos para bugalhos, o diagnóstico de Bolaño – como entre nós há talvez no passado recente somente o da figura solitária e igualmente auto-disruptiva de Paulo Leminski – compele ao menos a refletir um pouco para fora da assepsia dos padrões. Inclusive televisivos. Ele tem um laivo dessa sacrossanta ira que é também a do norte-americano David Foster Wallace, por ilustração. Um pouco desses cachorros doidos cujo latido é, volta e meia, pleno de premonições ou sugestões que passam muito ao largo de soluções excessivamente instituídas, sedadas, necrosadas, entorpecentes. Como Foster Wallace e Paulo Leminski, há na prosa de Bolaño a verve de uma experiência alternante, que sinaliza para o desvio de práticas constituídas: a bolsa de estudos, a cátedra acadêmica, os artigos soporíferos e inócuos produzidos em série nos departamentos universitários, a academia de letras, a supervalorização das novas mídias e do ambiente televisivo e digital. De suas observações pingam uma sorte de sinceridade da qual é perto de impossível abster-se. A literatura, na prosa de Bolaño, não é algo que fala de fora para dentro da vida. Ou tem aquela horrenda encheção de linguiça, tão à francesa, do intelectual hierático que assina manifestos e pronuncia-se sobre quase qualquer assunto. Bolaño não deixaria pedra sobre pedra, por exemplo, de gente como Bernard-Hénri Lévy. Ou qualquer desses intelectuais arroz-de-festa. A gozação que faz de conceitos como “pensamento débil” ou o sarro que tira em cima de nomes constituídos e apoiando diagnoses infames, é de se tirar o chapéu. Para no fim, ele dizer, parodiando o próprio Borges que:

Si pudiéramos crucificar a Borges, lo crucificaríamos. Somos los asesinos tímidos, los asesinos prudentes. Creemos que nuestro cerebro es un mausoleo de mármol, cuando en realidad es una casa hecha con cartones, una chabola perdida entre un descampado y un crepúsculo interminable. (Quien dice, por otra parte, que no hayamos crucificado a Borges. Lo dice Borges, que murió en Ginebra.) Sigamos pues, los dictados de Gracia Márquez y leamos Alejandro Dumas. Hagámosle caso a Pérez Dragó o a Gracia Conte y leamos Pérez-Reverte. En el folletón está la salvación del lector (y de paso de la industria editorial). Quien nos lo iba decir. Mucho presumir de Proust, mucho estudiar las páginas de Joyce que cuelgan de un alambre, y la respuesta estaba en el folletón. Pero somos malos para la cama y probablemente volveremos a meter la pata. Todo lleva a pensar que esto no tiene salida.

Roberto Bolaño morreu em Barcelona oito anos atrás. O volume de contos El Gaucho Insufrible é seu primeiro livro póstumo publicado. Outros se seguiram desde então. Inclusive o romance 2666.

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¹E vai nisso o agravante de Bolaño ser chileno.


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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Brotar, e logo ser apagado

Louise Bourgeois, Two hands with wishbone in circle, 2000



Às vezes, quando por uma fresta no tempo¹

Às vezes, quando por uma fresta no tempo mirava as anotações dela, percebia o impulso de ir contra a corrente brotar, e logo ser apagado. Como se apaga fogo ou lembrança. Como se apaga fio de água que quer virar rio. E então tudo voltava à fiança, ao banho-maria dos dias em que ela parecia dizer que não dar tanta importância a um ponto-de-vista dependia do acúmulo de aprovação ou não que esse ponto-de-vista angariasse.



'Este tipo de letra, recentemente adotado, chama-se Myriad Web Pro Condensed, estranhamente não registra os acentos para certas letras em caixa-alta. Então considere que há uma crase no A inicial.


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Não comporta perfuração

Eran Riklis, Lemon Tree [Limoeiro], 2008

Para dizer de um filme

Faz sentido quando dizem que um escritor não pode ter mais de um assunto. Em geral, quando falam de Oz, dizem que esse assunto é a traição. Talvez seja mais proveitoso pensar que, do contrário, se trata da lealdade o que está em jogo.
Pelo processo histórico que resultou na formação do Estado de Israel faz todo sentido que seja assim. Há aliás um filme israelense que lembra um tanto a ambiência dos livros de Oz. Porém expressa ainda mais abertura em direção ao mundo dos árabes. Chama-se, em hebraico, [עץ לימון ] - Etz Limon (em inglês,  Lemon Tree, 2008). Dirigido por Eran Riklis, conta no papel principal com uma atriz palestina de meia-idade e uma beleza a toda prova: Hiam Abass. O que essa mulher não cortar com o olhar é porque não comporta perfuração.
O filme trata do embate judicial de uma viúva palestina para manter uma plantação de limões junto a uma zona que ganha prioridade de segurança devido à nomeação de uma alto funcionário que mora na vizinhança para ministro da defesa. Nesse ínterim, a vida da palestina é posta em um estranho paralelo com a da mulher do ministro. 
O filme é de uma extraordinária humanidade.


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terça-feira, 7 de junho de 2011

Que o tempo (não) lhe seja breve


Praia de Não Vou Dizer, 2009

#Partiu

tss, ah, o olho:
o olho só pode cravar
os dentes sem dó nem pena

naquilo que já
saiu de cena



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Tão vasta no mapa que se confunde com ele

[s/i/c]

Serra das Confusões¹: duas opções de olho e uma mesma perda


Mesmo que pareça (note!) um desastre
Elizabeth Bishop

O olho. Há duas opções pare ele no caso. Ou estar a sair da luz que faz em Fortaleza, onze da manhã; e a entrar na treva de um dessas vilas pesqueiras, tipo Praia Nova, perto de Barra dos Remédios, à meia-noite de uma lua nova. (Uma treva furada apenas pelos latidos dos cachorros na esteira da madrugada). Ou o contrário disso.


Não deixa de ser uma imagem para como a gente enxerga em geral. No atacado, no saldão mesmo. Mesmo porque nunca que a gente enxerga no varejo. 


E então há os que alguma vez experimentaram uma grande perda. Vasta como o Jalapão. Tão plena de luz e dunas, espelhos d'água e serras de quartzo, que tudo cega à volta. Serra das Confusões. Tão vasta no mapa que se funde com ele. Converte-se no mapa mesmo. E a rotina da felicidade – a verdadeira, a selvagem, a que mora como um jaguar na menina dos olhos – parece tão amortecida. E não passa mesmo de um pequeno istmo sem nome ou latitude. Onde ninguém vai. Ou para lá há pacotes turísticos nas férias da consciência. Não conta na geografia das semanas. Assim que nem a menor sombra dessa perda nos assombra. Feito sofrêssemos de uma variedade de Alzheimer. E ao passarmos pelos aposentos mais recônditos da alma - os porões, os sótãos - ainda que tropeçássemos nessa perda, dela não daríamos conta. O preço de preservar-se de sofrer fala mais alto. E há a necessidade de manter a qualidade de vida e ansiolíticos para graus diversos. Os usuais paliativos possíveis ao alcance da mão. Sempre dispostos a entregar um pouco de módico prazer. Do tipo necessário à garantia da invisibilidade de qualquer vestígio. Feito aqueles contratos de telefonia móvel, onde há em anexo cláusulas vitais em letras formigais. Impossível ver sinais dessa perda ao redor: no fone de ouvidos sobre a mesa, na casca de banana, na marca d'água dos selos, nas teclas que se pressiona quase em piloto automático, na página do livro deixada para trás com uma anotação de próprio punho onde foi escrito em código, de trás para diante, as fórmulas da lembrança, da superação, da felicidade.

E uma vida vai. O olho inda não clica.

¹Fica no Piauí. Fui até lá em abril passado. Na primeira viagem que fiz de motocicleta. E, como sempre, nos últimos tempos não levei uma câmera comigo. Para não manchar a imagem que formaria dela. Depois.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quando enfim as trombetas soaram

Anita Ekberg em cena de La Dolce Vita, Federico Fellini, 1960

 A Cor e a Forma
-ou A Caloura


α – Prólogo sobre "tempo real" nos diascorrentes


Estar presente em “tempo real” na vida virtual te faz sentir ligado ao umbigo do mundo. Te faz sentir mais rente à vida real. E, ao mesmo tempo, mais distante dela, porque ameaça te transformar num ícone. Tipo aqueles que você clica no papel parede de tua área de trabalho. As pessoas gostam de dizer: “vejam: eu estive/vou estar ao vivo na TV”. Parece que elas tornam-se de repente mais “pessoas”. Mais reais. Algo nelas realmente importa. Chispa. E elas crescem uns poucos centímetros. Outros, de ego mais inflado, acrescem-se metros e veem o mundo da altura do Colosso de Rodes. Os navios a passar, miniaturizados, ao largo da baía. E tudo, enfim, ao gosto de a fala e os gestos dessas pessoas -- altamente adestradas para se portarem com uma segunda "naturalidade" diante de uma geringonça com um olho mecânico tão estúpido quanto um olho de boi -- invadirem centenas de milhares de recintos ao mesmo tempo. Um poder formidável. Quem não quer para si esse condão? E é fato: esse condão não se dá a todos. Só aos espertos. Falam de carisma. Mas nisso de carisma entra toda a metafísica que estamos tentando fintar se nosso objeto recai sobre Laura Herzog.
Analogamente – e o melhor não seria evitar este advérbio, já que estamos tratando de algo digital? (Ou ao menos de uma jovem mulher tentando gozar na era digital): que tal começarmos de novo o parágrafo, com advérbio mais adequado?
Frisantemente, uma saída no fim de semana e um porre no Órbita Bar embriagam mais se devidamente comunicados em público. A ida à chácara da família ou ao piquenique dos amigos fica mais fibrosa, cheia de vida. Eu diria que fica mais sensual. Daí o sucesso das redes sociais. Até assistir partidas de Roland Garros comendo pipocas; ou blockbusters; ou o futebol das quartas e do fim de semana tomando cerveja pilsen; quando compartilhados no mundo virtual, nutrem essas ninharias de uma importância que antes elas não tinham. Ou melhor: antes, não tinham assim, tão multidimensionadas. Como fossem um advento. O advento de um admirável mundo de micro BBB's, assim se pode dar o pé enquanto a mão é tomada.
Os anunciantes gostam. Os anunciantes gastam. Os consumidores gastam muito mais. Mas muito mais. E derramam lágrimas para certos anúncios. (Se soubessem o grau de crocodilismo que está por trás desses anúncios, rejuntavam suas lágrimas como confetes equívocos, no bolso). E isso no fim é o que importa; que os nutrientes, as preciosas proteínas desse processo se chamem: publicidades. Assim, no plural.
Há quem apenas preze dizer ao mundo que consome um perfume, um copo de frozen yogurt, um romancista israelense, uma banda estadunidense com o nome da capital do Líbano, um cupcake, um filósofo pós-deleuziano, a escolha de um desses termos em moda que logo apodrecem. Como trolar. Ou bullying. Que tal "resiliente"? E essa soma de "gostos" é meio como você "é": a totalidade que é você "micro-BBBêlizado". É a sua medida. E o mundo virtual é aquele em que você pode passear/ surfar/ navegar/ conectar-se sem sombra, como um vampiro. Porque aquilo que você é não se dá a conhecer apenas pelo que você rói, é certo; mas isso importa pouco para a virtuália. E, logo, nela, cada vez menos há o que se possa constituir em materialidade: uma sombra. 
Como antes, mesmo numa carta havia folhas amarrotadas, um vestígio líquido nas entrelinhas, um borrão. A própria letra de cada um. Daí essa desesperada tentativa de forjar uma assinatura virtual. Para que uns dos outros se distingam. E a vida seja, em disfarce, um pouco menos essa confraria de zumbis.
Assim, sem mais. 


β – Da mulher em busca de orgasmo


Mesmo quando não queria, Laura Herzog, aos dezoito, era um animal devastador: permanentemente predado e predante. Sua presença sugeria, ao balançar dos cabelos loiros sobre a fartura das formas, certa insinuação Anita Ekberg de ser: um continuado coito, que a tudo punha em acessório, segundo plano, desfoque, fora de campo, coadjuvância. E não adiantava nadinha mudar de pato para ganso. Mudar de canal. Mudar o rumo da prosa. Ou seja, de sua estonteante fisicalidade para a negação dela a partir de uma falso pressuposto: apegar-se a outro assunto, mais esotérico, remoto. Apegar-se a um verso de Drummond ou o que a crítica dissera de Roberto Bolaño na New Yorker, semana passada.
Proceder desse modo era um pouco como ater-se à condição de que qualquer um podia resistir às tentações, como Simão no deserto. Ou apenas masturbar-se, de um ou de outro modo. Ou agir como um terrorista contra as aspirações da comunidade. Ou ainda estar mais defunto que blasé. Ou voltar-se para o balcão e fingir desconsiderá-la quando seu perfume afogava em urgências todo o ambiente.
E enquanto isso, ignorando as tentações, Simão, o deserto, Drummond, Bolaño, a New Yorker e o tédio; a noite e o bar da danceteria convergiam para ela. Naturalmente. Desciam a rampa. Rendiam-se sem meios-termos. Eis o ponto.
E ela menos que pseudo-desentendida, ainda não se pusera, de fato, a par de todo seu poder. Não tinha ciência dele. Era apenas uma menina. Vaidosa, verdade. E muito. Mas também tão paradoxal quanto qualquer adolescente em fim de carreira. Ao ponto de sua mãe certa vez lhe censurar:
--Mas filha, você é uma menina tão linda para andar só de preto!
Laura Herzog era assim. Um pouco sóbria demais no vestir. Mas nem por isso menos desalinhada e um bocado bêbada na balada. Gostava de frisar isso de álcool mais do que a vida real desarrolhava, como quase qualquer adolescente. E gastava seu latim com outras missas também. Como mangás e livros de ficção científica. E gostava de palavras: colecioná-las, classificá-las, embaralhá-las, pô-las de ponta à cabeça, recombiná-las. Mais ou menos como os agiotas fazem com cédulas, jogadores com cartas, fumantes com havanas, proxenetas com putas e baristas com grãos antes da moenda.
Mas então, sua beleza já moía muito juízo pela cidade. Mesmo que ela fosse café com leite a respeito.
Até vir a consagração. Até chegar aquela balada numa ponta de junho, próximo ao Dragão do Mar, começo de férias. E, por fim, à meia-noite em ponto, Josué Hercílio subir na banqueta alta, pedir silêncio e dominando por completo certa dormência no tronco da língua, dizer com uma tremenda limpidez, erguendo o copo de uísque onde cubos entrechocavam:
À mais bela garota a nos brindar com sua presença neste domingo de férias! Vê-la assim, de perto, de preto, tão singela, é como desfrutar de uma arte que se está apenas a inaugurar, como um dia foram a fotografia, o cinema – e tomando algum fôlego para percorrer e algum gole para espantar qualquer aspereza nas palavras – e hoje são todas as possibilidades que cada um de nós têm multimidiamente em cima de nossas mesas de trabalho! E, fora isso pouco, Senhoras, Senhores, a despeito de tão fantásticos meios nem um único traço dela poderia ser retocado, digamos, num Photoshop. Salud!
As palmas e os vivas um tanto grogues, plenos de blasonaria, confetearam aquela demonstração ostensiva, quase farsesca – e porém sincera – de que Josué Hercílio estava, de fato, bastante impressionado por Laura Herzog.
E Laura Herzog ouvira tudo. E com ouvido fino apesar dos muitos hi-fis, com o menear louro das mechas, a ponderar, com a fartura de formas, cada trecho por um comenos. E o desfecho por um trecho mais longo, em suspensão. Depois, veio a doçura aconchegante, com que abriu aquele sorriso de farol de milhas, a varar na noite a espessura de neblinas. Era como Anita encontrado o gatinho. Naturalmente, seu corpo inteiro sorria e concordava. Concordava e sorria. Como se Josué Hercílio houvesse ao mesmo tempo proferido a coisa mais simples e, sem embaraço, uma genialidade impossível de ser rivalizada por qualquer sábio. E só então lhe disse:
Que juízos não se ensaboem, Seu Josué Hercilio. It's nice to hear you. Mas a pista está quase vazia. A noite, uma criança. Deixemos de rasgação de seda. E vamos ao que interessa, não é mesmo?
Passaram para a dança. Uma dança frenética. Um rock doido do Foo Fighters. Seu corpo parecia vibrar enxuto à cada síncope. E, no meio das luzes, Josué pensou: “ah teu focinho macio, teu rabo zonzo, os pelinhos loiros, quase imperceptíveis de teu braço”.
Duas horas depois, completamente bêbados, estavam, por fim à porta do carro dele:
If you want to come and search the car go ahead – ele disse, em inglês castiço, mas temendo alguma palavra fora de hora ou roteiro na esteira da frase. E disse para impressioná-la, porque sabia que ela havia recém-chegado de um ano na Irlanda.
Mas ela adorou, meteu-se no carro.
O resto foram abraços, obscuridade, álcool. Amassos acachapantes até o funcionário do estacionamento vir tangê-los. Naturalmente na direção de uma placa luminosa, de certo mal-gosto, há quase meia légua para além, seguindo no rumo da Beira-Mar.
De mal-gosto, talvez. Porém de grande utilidade àquelas alturas da vida e da quase alvacenta madrugada. O que até faz lembrar -- a este narrador que vos fala -- uns versos. De Guido Cavalcanti, é possível:

Fresca rosa novella,
piacente primavera,
per prata e per rivera
gaiamente cantando,
vostro fin presio mando – a la verdura.

Josué Hercílio, não sem antes deduzir nebulosamente o saldo do cartão de crédito, resolveu guaribar, e escolheu a suíte mais cara. Havia uma varanda contemplando a enseada e um balde com champanha. Nacional, é verdade. E os filmes projetados na TV de plasma não eram propriamente da National Geographic. Porém o girar das hélices na usina eólica, os transatlânticos a embandeirar de luzes a crista das ondas na baía, os barcos lagosteiros oscilando gentilmente à luz da antemanhã eram adoráveis.
E ela restava ainda mais adorável, metida no roupão. Com um ombro a sair das amarras, bronzeado e nu.
E de novo ele pensou: “ah teu focinho macio, teu rabo zonzo, os pelinhos loiros, quase imperceptíveis, de teu braço”. E após algum circum-navegar, o astrolábio abriu o hemisfério. Na cama ela quase não gemia. Um terno de vezes transaram. Com aplicação. Certa fúria.
Mas na manhã seguinte, ela voltou para casa sentindo-se ainda mais virgem do que era. Difícil traduzir o que sentia. Laura Herzog não contava isso, esse estado de coisas, a ninguém. Ninguém. Nem mesmo à Tertuliana Maria, sua confidente um ano e, digamos, algumas posições mais experiente, etc. Mesmo que, não raro, descessem fundo nas confidências e mantivessem a mesma pedicure. E dividissem os mesmos palavrões. E mandassem os meninos tomar nos mesmos alhures, lá pelo Facebook. E avançassem na madrugada a assistir UFC, a entender que Anderson Silva era o rei da cocada preta. E fossem juntas ao Geek Day Pride, no 25 de maio. Com suas toalhas. Suas idolatrias por Douglas Adams. E suas fascinações por Darth Vader.
E foi assim pelo fio do ano, navalha afora. Por aquela comemoração sem fim de haver passado no vestibular: Arquitetura. De haver acertado em cheio a libido de todo uma turma mais veterana de garotos, segundos, terceiranistas; e que eram os amigos daquela sua mesma amiga, Tertuliana Maria, algumas posições e um ano mais velha, como já foi dito, e etc. e tal.
E assim muitos Josués Hercílios depois, ela ainda não havia se decidido. E embora muralhas de Jericó pulverizassem, a cada vez, nunca que soavam as trombetas. Os escolhia. Os enlouquecia. Os esquecia. Os punha para dançar mais do que podiam ou se permitiam. Fazia-os dizer algumas frases num inglês, por vezes, bastante trôpego. Fazia-os soar inteligente e beber pints da cremosa Guiness. E, sabendo-os no bolso, os descartava como ministros de segundo escalão que são excessivamente dignos e tecnocratas mas nada políticos. Ou se desfazia deles como bingas já a passar ao filtro.
Até que um dia foi fisgada mortalmente por um garoto da Engenharia Ambiental. Mais jovem que os outros. Mais jovem que ela, inclusive. Discreto, distante. Meio bicho-do-mato. Nada brilhante com as palavras. Longe de subir em bancos altos, longe de discursos, tocava bateria numa banda. Aquela mesma banda, que, volta e meia – para compensar-se da falta de imaginação na composição das próprias canções – fazia covers do Foo Fighters.
Foi quando sua virgindade definitivamente chegou ao gran-finale. E uma vida moderadamente adulta, moderadamente feliz, pôde então começar. Naturalmente sempre ao som do Foo Fighters, de quem acabou trazendo – por anos e quase de cor – todo o repertório.


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