sábado, 28 de maio de 2011

Que só se guarda para quem de direito

 Aspecto da Praça Tiradentes em Ouro Preto [Eduardo Tropia]


Vila Rica


A chuva transia a serra de uma friagem agradável. A. pôs a tiracolo a pequena sacola jeans, com sua câmera fotográfica. E desceu do ônibus, sob o pulôver vermelho e preto, o short cáqui. Troquei os tíquetes de bagagem. Apanhei as mochilas de náilon. E com um aceno dispensei o auxílio do carregador.
O táxi desceu a colina, tomou à direita, pela Padre Rolim, os faróis roçando as muretas de pedra, onde numa espécie de nicho, está a pequena Igreja das Mercês de Cima. Cartão de visita inicial que parece te dizer: “ei, amigo, um tal de Aleijadinho andou esculpindo formas e riscando umas plantas por aqui. Veja se você acha alguma graça nelas”.
Eu seguia fumando no banco da frente, tentando mediar entre o diálogo com o motorista e o impacto do contato inicial com a cidade. Ela prosseguia calada. Discutíramos forte, aos sussurros – por sermos de discreta temperança – durante o quarto final da viagem. Motivos: aparentemente trívias; mas que deviam envolver uma polpa bem mais densa do que, então, nos era dado supor.
Cruzamos a Praça Tiradentes, onde, em torno do monumento, ao centro, cachos de pessoas conversavam sob guardas-chuvas. Abaixo dos beirais de cachorro e das rótulas das janelas, pendia uma infinidade de placas. E passantes metidos em capas chapinhavam sobre as poças d’água em busca das estreitas calçadas.
Na pousada, tomamos banho, jantamos, assistimos telejornal. Depois descemos para um passeio rápido sob a chuva rala. Um negro alto, robusto, meia-idade, envergando um boné de feltro, apregoava confeitos e recitava redondilhas:
Ouro Preto é o berço
Desta nação brasileira...”
O rosto dela crispado. Quando retornamos ao hotel:
Amanhã”, ela disse, quando a procurei. Quando a toquei mais íntimo, com toda a devoção daquele toque que só se guarda para quem é de direito quando se tem vinte e poucos anos. E, então, ela deslizou irritada e hesitante para as cobertas: “Tenho minhas razões.”
O quarto era pequeno, um pouco improvisado, despido. No primeiro andar de um velho sobrado em que alguém deve ter conspirado a independência do Brasil. Mal cabia a cama de casal, e abria-se por meio de uma sacada para a praça. Havia uma luminária em forma de rosa no forro de madeira. Mesmo os lugares mais charmosos pagam seu tributo ao kitsch. E é quando o kitsch acrescenta um contraponto agradável.
Desci uma segunda vez. Contrariado.
Tomei ladeira abaixo a Conselheiro Quintiliano como quem vai para a outra cidade, ao alcance do trem – aquela que, apesar de menor, é a sede do bispado. Coração batendo forte. Sentindo o latejamento das têmporas em fluxos de sonhos não digeridos. Tudo em volta era cartão-postal: Ouro Preto lá embaixo, luzindo vinte ou mais igrejas que nem vi direito. Andei pra mais de dois quilômetros.
Depois rezei. Fumei. Calmei.
Qual razão dessa paranoia descomunal que nos cerca à altura dos vinte. Dói muito mais do que se traduz, rapaz. E é muito mais prazerosa que o dizível. Ainda que nos fosse dado descrever em um in-fólio de incontáveis volumes passíveis de renovação ano após ano. E especialmente naquele tempo, em que uma caminhada dessas – cheia de drama e desejo – jamais, jamais poderia ser alterada por um toque de telemóvel.
Àquela hora, ponderei: ela devia estar dormindo. E eu ainda não havia esquecido o quanto ela estava bela ao entrar no táxi. Sua pele úmida, gelada, que beijei. As faces brancas, quase rubras devido à friagem serrana. entreabrindo a porta do táxi e acomodando-se no banco, sem nunca perder nesse ínterim a peculiar elegância de sua figura longilínea. Havia tanta intimidade que se estava cerca de prever quando o outro ia piscar os olhos. Essas intensidades inaugurais que a gente finge reencontrar depois. Mas, no íntimo bem sabe: não é a mesma coisa. Não é mesmo a mesma coisa.
De volta, a temperatura caíra. E minhas mãos tremiam ao revolver a chave na porta do quarto. Despi-me como num acesso de malária, e colei-me ao corpo dela. Abraçando suave suas costas. Beijando-lhe o dorso do pescoço, os ombros. Toda a sacrossanta nudez de seus dezenove anos.
Um murmúrio de falsos protestos empestou o quarto. Pelas venezianas réstias de luz drapejavam as paredes. A dialética do estar junto nunca mais seria a mesma, depois daquela viagem a Minas. Fora um rito. Uma viragem. E certas intrigas, mesmo quando aparentemente contornadas, tornam-se algo mais que acidentes de percurso.
Na manhã seguinte, quando abri a janela, Tiradentes permanecia impassível no alto da coluna. E a chuva que se fora, levara junto o lundu da gente. Após o café, quando fomos à feira, as faxineiras do pequeno hotel, que por acaso também se encontravam por lá, quase nos seguiam. E nos entrolhavam com indisfarçada inveja, sussurros, reprimidos risinhos.
Uma jardineira azul cruzou a praça.
Tudo seria diferente.

* * *

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Se tudo passa, até uva

Tancredi Parmeggiani, Composition, 1955

Silogismo

se tudo passa, até uva
melhor é partir o pão
nem que fruta
se o passarinho bicou
o figo da figueira
e o dia apertou a fome
na subida da ladeira
se o apressado come cru
a noite é boa conselheira –

se conselho fosse remédio
simpatia, sinecura
genérico, dado de graça
nos postos da prefeitura
pr'aquela dor de corno
que parece não ter cura
se os sábios fossem ricos
e falassem sem frescura
e os ricos deslizassem
pelo olho da que fura
e se, na metamorfose
que a má hora acupuntura
por a mais b for provado
sem baixar de viatura
que kafka e raul bem que
empatam na loucura
então, quem merece
morar na rua da amargura?


* * *

A quinta coisa mais importante da vida

[s/i/c]

Colágeno

Fortaleza, Ceará, Sexta-Feira, 27 de Maio de 1991


Querida A.,

Não julgue que eu precise de suas proteínas para me manter de pé e funcionando ao longo da semana. Mas se me emprestasse algumas, não reclamaria, pois é certo que tenho me sentido cansado. E, às vezes, ao fim do dia, muito antes de dormir, deito-me à cama para ver TV ou datilografar algo na briosa Remington portátil. Coisas que fazia, antes, ou na espreguiçadeira ou na escrivaninha. E se subo rampas com muita pressa, o pulso acelera, doi, e o fôlego encurta, mesmo que tenha deixado de fumar há seis meses. Minha dieta não vai mal. A não ser pelo excesso de chocolates e doces em geral. Há coisas irresistíveis. Como quase todos os derivados de goiaba: da geleia ao sorvete passando pela cascão, as compotas, o recheio dos biscoitos e os dindins.

Um antidepressivo natural, à base de passiflora me tem provocado erupções cutâneas. Coisa que não tive sequer na adolescência.


De resto, tudo vai bem. Voltei a usar algarismos romanos para demarcar os meses na abreviação das datas, quando datilografo meus contos. E tenho experimentado bater com todos os dedos, como mandam os manuais. Passo dias a fio sem tomar banho, trancado em meu quarto. Meu corpo é uma pequena coleção de mugre, remelas, viscosidades, ceroto e sebos em geral. Ainda bem que não cruzo com viv'alma nesse meio tempo, pois devo assemelhar-me, em espírito, ao Duque de Alba, tal como descrito em uma poesia de Virgilio Piñera:


Por mais de vinte anos
um duque de Alba
permaneceu encerrado em sua cama.
Entre o sebo de seus detritos
e a lepra de um amor infeliz,
via o sol sair, se pôr,
via, como uma tumba a mais, a noite.
O ar mefítico que respirava
chegava mesclado à fragrância
das flores-cítricas de sua amada.

A esse duque de Alba, tão feliz,
invejamos nobremente,
nós, em época assolada
pela tecnocracia e a desconfiança.
Esse duque de Alba, tinha um só
pensamento, uma ideia, mas sua.
Lha ia gastando,
e ao mesmo tempo enriquecia.
Mas, nós, em várias camas,
com sebos e milhões de lepras,
entre planos e simulações,
já não sofremos nada.
Nos permitem tomar drágeas,
e calar.

Isso é bonito, mas me remete para algo que não é tanto. Uma viagem a Almofala, feita há uns três anos atrás. A viagem foi excelente. Mas quando eu ia comprar o bilhete de volta para Fortaleza, não havia propriamente agência. As passagens eram vendidas na casa de um velho comerciante aposentado. E, então, você tinha de esperar algum tempo, sentado em um pequeno banco de cimento debaixo de um ficcus até que ele se dignasse a te receber. E havia aquela atmosfera feérica de que tudo em torno estava há vinte anos atrás. 


Pela janela de seu quarto de trabalho, à frente da casa, havia uma cadeira de rodas suspensa, quase à altura do teto. Havia também uma profusão desagradável de coisas inúteis. Não velhas ou obsoletas, A., mas apenas acumuladamente e, de fato, inúteis. E você olhava para o homem, sentado no couro daquela cadeira tosca e podia sentir que há décadas ele não saía daquele quarto. Que anos se passaram e ele não se distanciara mais que dez metros daquele espaço. Dissolvera-se nele. O quarto estava impregnado dele. Um presença tão pétrea, que ele parecia surgir em diversos cantos do aposento simultaneamente. Ou assombrá-lo ainda antes de morrer. 


Foi talvez o homem mais imóvel que vi na vida. Uma presença ubíqua, concomitante. Um calafrio me percorreu os ossos. Mas não havia nada que eu pudesse fazer. Tudo que a gente teme com demasiado rigor, com aquela seriedade quase indecente, é justo aquilo que se tem mais probabilidade de a gente virar. Não esqueça disso, querida A. E por favor, diga a I. que preciso falar com ela, a respeito de supostas insinuações racistas que eu haveria escrito veladamente e que conjecturalmente se dirigiam à pessoa dela. E isso é infame. Uma calúnia.

No mais, nada de tão negro. Bebo um pouco de água de passarinho, de vez em quando. E me vem a ideia aprazível de caminhar, aquele remoto exercício de pôr um pé após o outro pelas esquinas do equinócio, e que tanto me divertia só até um tempo atrás. Vejo-me mesmo fazendo isso. Em sonhos.

Em sonhos perfaço todas as peregrinações deste mundo: de Compostela a Fátima; de Lourdes a Canterbury; de Aparecida a Canindé. Não vou ao Juazeiro, porque não tenho devoção ao Padre Cícero. E o Cariri é quente como o diabo – embora o Crato, ali do lado do Horto, até seja uma terra agradável de se passar feriado. E isso de não poder caminhar, A., não é tudo na vida. Tenho cultivado um bigode à Groucho Marx, que aparo diariamente, e abandonei definitivamente a leitura do primeiro volume do Capital. Entendo que, apesar de seus méritos, há mais sanidade no Dom Quixote.

Amanhã tem a tal Marcha da Maconha, na Praça da Bandeira, não é? Estou em dúvida entre ir ou não, pois haverá uma ala de cadeirantes. Agora, parece-me mais irritantes nessas manifestações são três aspectos. O primeiro, é que só existem se antes existirem no Rio ou em São Paulo: há uma total falta de imaginação do resto do país – Fortaleza incluída – para manifestações públicas.

Segundo, é uma espécie de inversão. Os policiais, que lá estão para vigiar a coisa, como esbirros do capiroto, é que semelham ser os verdadeiros subversivos, os maconheiros – é notório que não poucos policiais e gente do exército faz uso da erva. Do contrário, os maconheiros, aqueles seres estúpidos, sujos, mal vestidos e barbeados, que financiam os traficantes que compram rifles mais modernos que os dos policiais que os revistam, prendem e constrangem, assomam tão incivilizados, sujando ruas, gritando refrões esfarrapados e assoando o nariz com o punho da manga da camisa, que dá vontade de desistir. Jogar no time dos homi. E nunca mais fumar um baseado na vida.

O terceiro é uma questão que envolve prioridades. Aquele tal “primeiro as prioridades”, dos velhos ingleses (esqueci como diz em inglês). A saúde pública vai mal das pernas. A educação nesse país é um descalabro. A inflação escorre pelo ladrão. E eleições diretas só ocorreram há dois anos. Mas se faz uma manifestação pública para legalizar a porra da maconha, que é apenas a quinta coisa mais importante dessa vida. Depois do futebol, claro.

É isso.

Seu para sempre,

C.

P.S. – e acho que preciso de um pouco mais de colágeno.

* * *

E não por escolha ou capricho

Jules Bastien-Lepage, The Blind Beggar, 1882

O Engenheiro

No geral, encontravam-se quando a mulher do outro seguia para o mesmo carteado que a dele, pois as duas haviam sido colegas de turma no Colégio Santa Cecília ao final dos 80; e as crianças estavam para a colônia de férias.
Ele tomou um gole, embora aquele vinho chileno sulfuroso, devastasse seu estômago na quase imediatez da gastrite. Podiam passar meses sem se ver. Quando se encontravam, no entanto e em geral, no apartamento do outro, ouviam música. Falavam sobre cinema e a cidade e música e automobilismo. E a música para cinema, que, do prisma deles, era, no geral, aceita com apreço mais que vanguardices eletroacústicas.
Quando à cidade, embora nem sempre se dessem conta, era tomada de um ângulo comparativo. Uma espécie de urbanismo comparado. Em que se comparava o aqui e o já com a breguice desbragada dos anos 80, o "tempo deles". 
Versavam sobre Fórmula-1 e alguns poucos conhecidos ainda em comum de que tinham notícia. Sobre televisão e a fealdade de hábitos da elite local, recém-endinheirada e de verniz sem volume. Reminiscenciavam viagens de quando mais jovens. Tentativas de morar fora e outras formas de morar que, quase sempre, redundaram em roteiros de torna-viagem. Nem sempre confortáveis ou exitosos. Presepadas e farras pré-nupciais. E os inevitáveis tiques dos amigos. Eventualmente assistiam alguma coisa na internet. 
O outro, cujo pai era um diretor de cinema já na vehice -- a "melhor idade", como se diz nas metáforas atuais, que só pioram a coisa -- e desfrutando de alguma notoriedade, tocava sempre nessas questões delicadas, orbitando em torno de paternidade, afeição, carreira. Um dos trunfos desse veterano realizador, aliás e na intimidade, era o de haver comido uma beldade convertida em atriz de novela das oito -- o que, a despeito de não haver sido privilégio propriamente raro, de algum modo causava espécie. No mínimo soava a privilégio num país assim desmesurado, continental. Mas tudo isso parecia longo meandro. Suplemento. Rota ao largo, digressiva e longa, alameda, até se chegar ao ponto: mulheres, afetos.
O outro, vestido um pouco mais para informalidade de quem está em casa, restava de pé, sandálias descalçadas, atrás do balcão. Dali podia alcançar os copos nos armários, as garrafas no refrigerador, às suas costas. E só em noites de maior excitação, sentava-se em um banco alto, por um pouco, do lado oposto ao dele. Às vezes dedilhava o violão. Ou tirava algumas notas no piano de armário. E mordiscava com mais frequência os potes com amêndoas – castanhas de caju, amendoins – dispostos no granito escuro do balcão da pequena cozinha que antecipava a sala-de-estar.
Ele postava-se do lado da sala. Sempre sentado em um banco alto, escorado à parede. Bebia com mais vagar. Ás vezes, alternando com água mineral. E, ao discorrer sobre um assunto com algum realce, apeava do banco alto e dava uns poucos passos sempre até o mesmo ponto, como tivesse medido a distância pelo percorrer dos ladrilhos ao modo de uma rayuela mental; a falar feito se reportasse a uma circunstância numerosa. A tentar expor a essa audiência mais ampla o seu sistema. 
Em sua reserva particular de apreço, o pé-direito baixo e o vazamento da cozinha mínima para a pequena varanda, através da sala, garantiam ao apartamento, junto com as luzes – de hidrargírio, é verdade – mas contidas por quebra-luzes de vidro denso, uma atmosfera aconchegante e até certo ponto arejada. Levemente atravancada, no entanto, pela profusão de computadores, samplers e instrumentos musicais que se concentravam numa bancada aplicada à parede em linha com a porta de entrada.
Quando a longa divagação, que frequente murchava aos poucos, em lento fade, um diminuendo – que, de uso, ia desbastando a porção das palavras nas frases e mesmo o maço das frases, em proporção inversa aos cigarros apagados nos cinzeiros e as taças de vinho tomadas – perdia momento para pausas um pouco mais estiradas, era como se estivessem no ponto. O de enfrentar fantasmas.
O anfitrião três vezes contou de como a havia perdido, ainda muito jovem, e, então, por um formidável golpe de acaso, a reconquistado. E casado com ela, como estavam há já mais de década. Mas para tanto lançou mão de três versões. E, embora as três grudassem alguma parecença, espaçavam até alguns pontos nodais.
A primeira delas, no entanto, fisgava em melhor isca a atenção. Não era a mais longa. Tampouco a mais plena de possibilidades, repercussões. Muito menos tinha mais capa e espada. Não chegava a ser mesmo a mais confiável. Ou, sob outra pele, a mais ficcionável. A que vendesse melhor num livro redigido para ser um sucesso de crítica, de público. Não tendia à auto-ajuda. Não seria a que juntas de psicanalistas iriam consagrar. Enxamear-se em torno dela, como formigas em torno de uma nódoa de vinho à toalha, junto com professores de redação criativa ou curadores de eventos literários. E isso tudo no soporífero daquelas mesas de colóquio que, em geral, conduzem a algures sem nenhum vinco de graça. E cada um interpreta uma realidade tão viva, volátil, vibrante, viscosa – feito uma moreia, recém-pescada, debatendo-se com sua traiçoeira mordida na ponta do corpo oblongo – à luz de uma teoriazinha pessoal e intransferível. Tão rasa quanto os olhos sem piedade. Encurralada para todos os efeitos. Pouco adequada a aclimatar-se ou prosear com a vivacidade salpicada de nexos outros do assunto-moreia. Dos ruídos dos dias. Do emerso escuro, lá fora.
Coisas mortas e vivas quase sempre não se entendem lá muito bem, quando não se deixam imiscuir. E, então, colóquios do gênero terminam num mar-oceano de belas palavras sobre belas letras ou belas formas e nenhum esboço, mesmo que tênue, de algo um pouco mais afirmativo. Algo que conforme uma, mesmo que embaraçada, mesmo que embaçada conclusão -- essa verdadeira palavra-alergia. Porém toda a plateia e os debatedores mais jovens voltam para a casa certos de haver contribuído com algo ou testemunhado um evento que fez do mundo uma casa melhor, mais acolhedora. Algo que, por igual, mudou suas vidas. Ao menos pelas próximas quarenta e oito horas. E depois tudo é esquecido. Pelo menos até que venha o novo ciclo de palestras. E assim sucessivamente. Gira-girando. Um carrossel. E a gente comece a se interessar mais pelo sumplemento de Derrida do que pela iôga de Krishnamurti ou a noosfera de Teilhard de Chardin ou os aparelhos ideológicos de Allthusser ou o cinema expandido de Youngblood. Tudo que um dia seguiu em moda. E depois feneceu, queijosuicizando-se em mil orifícios, que os que escrevem tese fazem pouco, para depois as teorias em que se amparam voltem à tona, devidamente mofadas, como deve ser, pela geração seguinte, com vigor e esterótipos, em papéis que ninguém lê.
Porém, nas palavras do outro, essa primeira versão do reencontro com a mulher era de partir o coração. E podia não ser a mais coerente, entanto fosse a única a pedir releitura, pelo carga de tranco que recheava.
O outro a perdia de vista depois de um breve affair ainda bastante adolescente. E após aqueles meses de desnotícia e secretiva ansiedade, acabava sabendo que ela se envolvera com um engenheiro. Tinham ficado noivos. Moravam em Maceió. Ela dava aulas no Departamento de Psicologia. O tipo a passar parte do mês embarcado em uma plataforma de prospecção de petróleo, ao largo da costa de Sergipe. Depois voltava para o apartamento, em Pajuçara. Daí, sobrevieram outros calendários: nenhuma novidade. Nenhuma. 
E, então, algumas folhinhas após, nem tão por acaso e por um conhecido comum, durante uma partida de bilhar, soubera que o sujeito tinha ficado cego. Uma explosão de pequeno porte, que não chegara ao cabeçalho dos telejornais, dera-se no compartimento anexo à cabine em que dormia, na plataforma. O engenheiro havia sido aposentado. Invalidez. E o casamento, que iria se dar dentro de poucas semanas, fora cancelado, porque ela simplesmente não suportava vê-lo sem ser vista por ele. E não se sabe até que ponto vigia um vice-versa. 
Ela, de fato, não o viu mais o engenheiro. Voltou de Maceió para Fortaleza e fora justo quando o anfitrião e ela se haviam reencontrado de novo, por acaso, certa tarde puída e cheia de chuvas, no pátio da universidade, sob castanholeiras. Buscavam fôlego para discutir com os alunos no segundo horário e lancharam juntos. E aí tudo recomeçara. De início, doucement. Como nesses casos de reencontro. Até se casarem, um tanto pilototautomaticamente.
Ela jamais falava do engenheiro. Eles jamais falavam do engenheiro. Ela não permitia. Cultivava aquela zona de silêncio, como uma zona erógena não permitida. Tabu. Durante muito tempo, o outro esteve a par que ela e o engenheiro nunca trocaram qualquer tipo de correspondência. Erraram-se, como se diz.
Até que, muitos anos depois, já ao tempo dos filhos quase adolescentes, dos amigos virtuais, das redes sociais e có-seguidores em micro-bloggings, houve alguma correspondência. Algo elusivo, distante. Protocolar. Votos de feliz Natal.
O outro contava essa história com particular veemência. Um pouco como se ele próprio e estranhamente estivesse, de alguma forma, na condição do engenheiro. E não por escolha, capricho. E ele, então, quando voltava guiando para casa, no desapego da madrugada, podia sentir a escuridão e a cadeira de rodas do engenheiro, na varanda do condomínio, em Maceió, fixando no oco o Atlântico quebrando sobre as finas areias; e o futuro quebrado pela explosão na plataforma.


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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quando passar, eu aviso

Aspecto da Lagoa da Jijoca

Diálogo geracional


 –Falta muito pra chegar em Jijoca?

Quando a viagem passar, eu aviso.


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Ao longo da Avenida Antônio Sales do Coração

Sherman  L. Kelly, Concha de sorvete, 1935


Conto da casa de gelados


No fim, havia apenas uma criança amedrontada tomando um sorvete diante da espessa noite. Nenhuma agudeza, travestimento de espírito. Pausa que indicasse caminho. Palavras álgidas, guiadas ao longo da Avenida Antônio Sales do coração. E só a gustação do sorvete, sabor puberdade tardia com calda de pavor por riba, indicava o que, um dia, se julgou ser sabedoria e coragem.



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Que discrição se pode obter num mundo devassado

Edward Ruscha, Eye (litografia), 1968

Possibilidades e impossibilidades do ver


Além de se exporem, de se darem a ver o tanto quanto bem desejam, quando e do modo como querem – à contagotas, em pequenos tragos, doses cavalares ou suicidas overdoses – as pessoas deveriam ter a noção de que isso não é recíproco. De que há pessoas que não desejam nem ser vistas tão amiúde, nem tampouco ver tão amiúde. E não ser vistas ao menos por aquelas outras (poucas) pessoas, no círculo de intimidade de qualquer vivente, que o bom-senso indica: uma maior distância seria prudente, saudável. É o mínimo de discrição que se pode obter num mundo devassado por câmeras e redes sociais e servidores de imeios e telefones móveis por todos os poros. Ao ponto de se sonhar em chegar às terras nas quais implicitamente ainda haveria o aviso: “sorria, você não está sendo filmado”. Essa discrição mínima não seria jamais uma lei, um artigo do estatuto dos direitos de imagem, mas uma espécie de compaixão visual de foro íntimo, para com o próximo. Mesmo nesses tempos virtuais, em que se pode saber da vida das pessoas a qualquer momento, com um simples clique. Retaliar. Quer dizer, deixar bem claro que há algum desassossego quando a gente se sente monitorado diariamente no mundo virtual. E esse mundo virtual está longe de ser o mundo dos sonhos ou do faz-de-conta ou da bela-adormecida ou da gastronomia francesa ou de uma visita à Alhambra. Porventura, porque, no fundo, a vida real (longe de tudo isso) comporta uma pletora de riscos. E, logo, retaliar é apenas uma forma de dizer a certas pessoas: “porque você não vai passear em outros campos do Senhor; ver se eu estou ali na esquina; ou cuidar do próprio nariz; ao invés de estar sempre por aqui ou pensar tão unilateralmente – após haver lido um artigo de um escritor norte-americano de vanguarda (e entendido tão pouco) – e, desse modo, deduzir que todos podem ficar auto-secando-se o dia inteiro, nas telas de cristal líquido? Que todos tem o direito de ver, de ler qualquer pessoa toda vez que lhes der no juízo?” Quem não começa a cansar de ter zilhões de imagens na retina dia após dia deve ser um zumbi, ter o corpo fechado, à prova de imagens, sons, texturas. Pois até o banal extremo e a obtusidade ganharam centenas de canais de TV na economia imagética do espírito. A que não corre riscos.



Não seria isso, essa onipotência onívara do ver, a própria definição pós-contemporânea para espelho? E, então, empenhadamente nas folgas do trabalho consulta-se por anônimos pc's aqueles espaços da desconfiança, que antes, por Mac, de casa eram acessados. E a medida de auto-iludir-se, sabe-se, é muito maior que essa hiperdiarreia de imagens vertendo-se sobre o rosto dos dias. Cuidado, tantas imagens assim furtivamente visadas podem piorar enxaquecas.


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Bodas de Caná às avessas?

[s/i/c]

Frustração Suprema


Você passa o dia de amanhã escrevendo. E sai do quarto em piloto automático para pegar um copo de suco de maracujá no refrigerador. Mas quando abre a porta, e aquele hálito frio invade a cozinha, não é mais maracujá o que vai na jarra; senão genipapo. O que aconteceu? Um milagre de Bodas de Caná ao avesso? O que houve com aquela jarra quase transbordante de maracujá que até hoje à noite esteve por lá?




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Teu passado é todo coberto de glórias

[s/i/c]

Da catenática cultura  do futebol alencarino



Teu passado é todo coberto de glórias,/ Dia a dia tu conquistas mais vitórias,/ Tua bandeira alvinegra desfraldada,/ Teu time em campo tem vitória assegurada”, assim bate o centro o hino do Ceará Sporting. Os hinos dos clubes – com a exceção dos realmente grandões – guardam uma constrangedora e vistosa ironia, míope apenas aos olhos dos apaixonados torcedores.

O Ceará Sporting perdeu ontem merecidamente para o Coritiba [1]. Semifinal da Copa do Brasil. Como quase qualquer time cearense, a equipe do Ceará de ontem à noite praticou aquele catenaccio, aquele anti-futebol de deslavada retranca. Com exceção de algumas formações de Ceará, Fortaleza e Ferroviário dos anos 70 e, bem mais raramente 80, foi sempre assim. O futebol cearense é horrível de ver. Vive de contra-ataques, vitórias magras, retrancas, ceras e alguns heróicos e abnegados goleiros. Alimenta-se amplamente da ilusão, da paixão de seus obstinados – no melhor sentido – torcedores.

Ou de coisas bem piores, como essas torcidas organizadas, do tipo TUF ou Cearamor, que amealham mais dinheiro que os próprios clubes em si – e, portanto, os espoliam e parasitam – além de escolarem seus afiliados nas políticas da truculência, da não tolerância, do sectarismo estúpido. De seus dirigentes, melhor saltar esse degrau, com honrosos e raros patamares de exceção, que até nos fazem pensar se elas existem mesmo.

Torce-se pelo Ceará Sporting, como por qualquer outro clube cearense em competições mais amplas, porque o Ceará está mais perto de casa. Porangabuçu é bem ali. O Núcleo de Saúde da UFC, caindo aos pedaços, coitado, fica em Porangabuçu. E isso de estar mais perto, de ter uma história longa e comum, parece motivo suficiente e bom para torcer. Motivo, em todas suas ressonâncias, ainda não dimensionado por um bocado de gente.

Agora, se fosse tão-só pelo futebol, pelo futebol em si, aquela abstração astuciosamente bem filosofada por Pelés e Ademires da Guias; a que versa sobre tempo, movimento, espaço: you could count me out, Baby. 

[1] De um modo interessante e quase avulso o Coritiba, clube de futebol, mantém a graphia arcaica da cidade, que, posteriormente mudou para Curitiba, com"u". Saudades do Birigüi.

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Anyone for tennis?

 
Martin Elliott, 1976


Alguns segundos de tênis e outros duelos entre os que urinam contra a parede


Há as partidas de duplas, e as de duplas mistas. Quem liga para elas? O tênis é um esporte sozinho, mas naquele estar só a dois de que nos fala Beckett. E provavelmente um das modalidades em que o caráter dos jogadores sobrevem à flor da pele. Ele é uma conversa. É claro que ele não é sozinho ao modo do golfe, onde há um homem, um taco e buracos. Ou, em outra sala, na arqueria: um alvo, arcos, maçãs, Guilhemes Tells e flechas.

O tênis é um duelo. Ele tem muito mais de contenda, desafio. Um desagravo entre dois seres humanos, que, por vezes, até se olham nos olhos, pois eles não estão velados, como na Fórmula-1. Ou olham na mesma direção, como no tiro ao alvo. E os tenistas permanentemente dão a cara à câmera. E, ao contrário do futebol, a câmera os toma tão de mais perto que cada mínimo gesto é tradução mais esforçada do que vai pela mente. Se contra-atacam em cabal desfaçatez, há um retardo no ocultar a intenção até o golpe da raquete largar o drop shot – a famosa deixadinha – provocando aquele supremo desespero no adversário, que dispara, feito um cachorro atrás do graveto, da linha de base na direção da rede, resvalando pelo saibro, resfolegando, abrindo pequenas clareiras no pó de ladrilho. E isso manifesta, no caso de o golpe bem aplicado – a bola baixa, sem peso, ao modo de uma folha seca – algo análogo ao blefe na milimétrica fleuma do pôquer.
O tênis é um pôquer sem ser em torno de uma mesa, não jogado com cartas de baralho ou por meio apenas de caras, bocas, esgares. Mais importante que essas circunstâncias – pois acentua sua característica de duelo –, a gente o joga contra um só adversário. Nesse último ponto se pode principiar a prospectar seu rubro veio de duelo. E é o que o aproxima daqueles ajustes de contas ao pôr-do-sol nas poeirentas vielas do Velho Oeste que, à sua vez, são uma reatualização das justas e torneios medievais, que à sua vez são uma reatualização de vendetas tribais, que à sua vez.
No campo do esporte, as touradas e o tênis são os mais dignos sucedâneos desses “à sua vez”.
Pode-se contrargumentar: “ah, mas não: há o boxe, o vale-tudo, a esgrima, a capoeira, as artes marciais orientais, a luta greco-romana”. Afinal, aparentemente ao menos, todas essas modalidades seriam também duelos. Dentre elas, no entanto, é o boxe a que mais se aproxima do sangue-frio do duelo, seja pelo conversar por gestos, tendões e músculos, feito no tênis, seja no arriscado enfrentamento entre homem e animal, feito na tourada.
E, no entanto, quão diferente é o boxe em essência. Não se pode bater abaixo da linha da cintura. Há uma série de regras que fazem dos pugilistas verdadeiros gentlemen. Polidos ao excesso, ainda que com os supercílios esfolados, as narinas sangrando ou aqueles inchaços nos olhos. Ou ao redor da boca, que, então, mais se assemelha à de um símio, pela protuberância do protetor dental além dos hematomas. Acima dos narizes amassados --- e por vezes, recheados de chumaços de algodão, onde o sangue embebe e coalha --- há, sobretudo, as mentes limpas de dois cavalheiros. Basta assistir Fat City (Cidade das Ilusões, 1972) de John Huston para se aperceber disso. O quão no boxe o duelo é muito mais consigo próprio que no tênis, na tourada. Há uma espécie de estoicismo que está à base desse negócio de pugilato. E há aquela lendária cena em que após urinar sangue, o veterano lutador mexicano, derrotado, vergado pelo peso dos anos, e no entanto composto, extremamente alinhado, com a solenidade de um cavaleiro andante desce ao saguão do hotel caminhando sua pavorosa solidão -- a dos losers -- e aquela resignação elegante que transcende a sanha do duelista, e é de uma dignidade a toda prova.
Jorge Luis Borges chorava em westerns. E principalmente em filmes onde havia duelos com armas brancas: “ninguém mais sabe dimensionar a beleza disso; o heroísmo disso”, dizia, aos prantos.
Todos os outros embates, afora o boxe – que é, em verdade, o duelo de um só – sequer chegam perto do tênis e da tourada. E assim podem facilmente, facilmente ser descartados enquanto duelos. O vale–tudo semelha uma rinha de galos. Ou mais propriamente uma luta entre colegiais. Em noites de mais desjeito, sugere uma briga entre meninas à hora do recreio, daquelas onde valem unhas, dentadas, caras feias, puxar cabelos e os infames gritinhos, onde surtem insultos histéricos --- do tipo: "bicha feia" --- que fazem a delícia da meninada quando se tem seis anos. E é mesmo uma das maiores demarcações da sensualidade que irá aflorar com todas suas profusas cores na puberdade. Já antecipam algo do Johnny Guitar, de Ray. Mas definitivamente não são duelos.
A esgrima é uma Fórmula-1 com floretes e sem ronco de motores. Como na F-1 não se vê algo essencial: a reação facial dos contendores. O fato de estarem amarrados pelas costas também aproxima os esgrimistas daqueles fantoches que os titereiros comandam ao bel-prazer de seus cordeis e humores.
A capoeira, como sabemos, é muito mais uma dança acrobática. Deriva de rituais de trabalho. Da necessidade de espantar do corpo, primeiro com um espasmo, depois com movimentos de uma coordenação quase encantatória, o tédio de quando as tarefas que o corpo executa aproximam-se de repetições massacrantes.
As lutas orientais são profundas filosofias radicadas em ideogramas, e traduzidas em gestos rápidos. Mas, se olharmos, bem, por vezes, bem mais desgraciosas são que, digamos, essa “capoeira oriental” que é o Tai-Chi. No judô, por exemplo, é um pouco ridícula a importância que se atribui ao quimono. A vestimenta converte-se na base de apoio para o próprio combate. Além do que, os golpes em que o judoca tenta agarrar o outro pelos fundilhos para arremessá-lo como a um saco de batatas sobre o tatame assomam um tanto bisonhos, mesmo quando executados por um grande mestre. Não há muita elegância naquilo, pois tudo se passa numa rapidez mesquinha, quase descartável ao olho. E, porém, como tão se cita de Machado: "ao vencedor..."
Quanto à luta greco-romana é um espetáculo obsceno. Que talvez só perca em falta de plasticidade para o halterofilismo. E olhe lá. Parece que há um empate técnico. Que dela existam aficionados é uma prova viva da diversidade humana.
Restam, assim, de descendentes de duelos para valer, a tourada e o tênis.
O politicamente correto, a sociedade protetora dos animais, os ambientalistas radicais, o instituto de prevenção de riscos no trabalho e no amor, além do urro tribal entre as culturas, mesmo e principalmente as multiculturalistas e pós-modernas, acabará com as touradas – talvez um dos mais nobres esportes jamais surgidos. Hemingway, que escreveu páginas antólogicas sobre a tauromaquia, diz com grande propriedade, sobre esse zelo das pessoas em relação ao presumido sofrimento dos touros e, não menos, à forte cena dos cavalos dos picadores quando chifrados, com as tripas a dissipar-se sobre a areia da arena:

From observation I would say that people may possibly be divided in two general groups; those who to use one of the terms of the jargon of psychology, identify themselves with, that is, place themselves in the position of, animals, an those who identify themselves with human beings. I believe, after experience and observation, that those people who identify themselves with animals, that is, the most professional lovers of dogs, and other beasts, are capable of greater cruelty to human beings with those who do not identify themselves as animals.
[Death in The Afternoon, 1932]

Por observação, eu diria que as pessoas podem ser divididas em dois grupos, grosso modo; aqueles que, para usar um termo do jargão da psicologia, identificam-se, ou seja, se põe na posição dos animais; e aqueles que se identificam com seres humanos. Creio, após exame e experiência, que os que se identificam com animais, quer dizer, os maiores apreciadores, de carteirinha, de cachorros e outros mascotes, são capazes de maiores crueldades contra seres humanos do que os que não se identificam com animais.

Quando se pensa nos coqueteis de anfetaminas e esteroides que atletas de alto rendimento ingerem dia após dia em “esportes” como o atletismo e o ciclismo nos diascorrentes, pode-se pressentir que, além de bem abalizada, a assertiva de Hemingway foi quase profética.
Já o tênis, coitado, quem sabe o que dele farão os psicanalistas.
Talvez um monótono jogar a bola contra a parede. Só que, ao contrário do squash, não para disputá-la com um adversário, porém para travar um embate contra a própria parede; de tal modo que não haja vencedores nem vencidos entre humanos. Até que se descubra que a parede tem uma simbologia muito rente ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, e se tenha de partir para outra superfície que não a que se mija contra. [1]

Ou, sobretudo, que a psicanálise elimine do tênis, ao modo do que praticamente fez com as touradas, o trauma dos vencidos. Como se de derrotas não se tirassem algumas, não digo lições, mas frações de humana experiência debaixo do sol.



[1]Uma das muitas definições para homem na Bíblia é justamente “aquele que urina contra a parede”.

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

E arrebatado, aceso. Prosseguirá pulsando

Still de Uma Encruzilhada Aprazível, Gabriel Andrade, Junho de 2006

A Glosa (II)

Na peripécia de um devaneio, que faz supor que toda lapa voa, no exílio de uma semente que geme, quem chora ao longe nunca ri à toa. Só assim conhecerás o árduo fardo do banimento. E escolherás entre as novilhas, as boas. E pelos pastos, quem virá, contente vai dizer: todo o dia passará; e arrebatado, aceso. Posseguirá pulsando.

De amor.


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