sexta-feira, 27 de maio de 2011

E não por escolha ou capricho

Jules Bastien-Lepage, The Blind Beggar, 1882

O Engenheiro

No geral, encontravam-se quando a mulher do outro seguia para o mesmo carteado que a dele, pois as duas haviam sido colegas de turma no Colégio Santa Cecília ao final dos 80; e as crianças estavam para a colônia de férias.
Ele tomou um gole, embora aquele vinho chileno sulfuroso, devastasse seu estômago na quase imediatez da gastrite. Podiam passar meses sem se ver. Quando se encontravam, no entanto e em geral, no apartamento do outro, ouviam música. Falavam sobre cinema e a cidade e música e automobilismo. E a música para cinema, que, do prisma deles, era, no geral, aceita com apreço mais que vanguardices eletroacústicas.
Quando à cidade, embora nem sempre se dessem conta, era tomada de um ângulo comparativo. Uma espécie de urbanismo comparado. Em que se comparava o aqui e o já com a breguice desbragada dos anos 80, o "tempo deles". 
Versavam sobre Fórmula-1 e alguns poucos conhecidos ainda em comum de que tinham notícia. Sobre televisão e a fealdade de hábitos da elite local, recém-endinheirada e de verniz sem volume. Reminiscenciavam viagens de quando mais jovens. Tentativas de morar fora e outras formas de morar que, quase sempre, redundaram em roteiros de torna-viagem. Nem sempre confortáveis ou exitosos. Presepadas e farras pré-nupciais. E os inevitáveis tiques dos amigos. Eventualmente assistiam alguma coisa na internet. 
O outro, cujo pai era um diretor de cinema já na vehice -- a "melhor idade", como se diz nas metáforas atuais, que só pioram a coisa -- e desfrutando de alguma notoriedade, tocava sempre nessas questões delicadas, orbitando em torno de paternidade, afeição, carreira. Um dos trunfos desse veterano realizador, aliás e na intimidade, era o de haver comido uma beldade convertida em atriz de novela das oito -- o que, a despeito de não haver sido privilégio propriamente raro, de algum modo causava espécie. No mínimo soava a privilégio num país assim desmesurado, continental. Mas tudo isso parecia longo meandro. Suplemento. Rota ao largo, digressiva e longa, alameda, até se chegar ao ponto: mulheres, afetos.
O outro, vestido um pouco mais para informalidade de quem está em casa, restava de pé, sandálias descalçadas, atrás do balcão. Dali podia alcançar os copos nos armários, as garrafas no refrigerador, às suas costas. E só em noites de maior excitação, sentava-se em um banco alto, por um pouco, do lado oposto ao dele. Às vezes dedilhava o violão. Ou tirava algumas notas no piano de armário. E mordiscava com mais frequência os potes com amêndoas – castanhas de caju, amendoins – dispostos no granito escuro do balcão da pequena cozinha que antecipava a sala-de-estar.
Ele postava-se do lado da sala. Sempre sentado em um banco alto, escorado à parede. Bebia com mais vagar. Ás vezes, alternando com água mineral. E, ao discorrer sobre um assunto com algum realce, apeava do banco alto e dava uns poucos passos sempre até o mesmo ponto, como tivesse medido a distância pelo percorrer dos ladrilhos ao modo de uma rayuela mental; a falar feito se reportasse a uma circunstância numerosa. A tentar expor a essa audiência mais ampla o seu sistema. 
Em sua reserva particular de apreço, o pé-direito baixo e o vazamento da cozinha mínima para a pequena varanda, através da sala, garantiam ao apartamento, junto com as luzes – de hidrargírio, é verdade – mas contidas por quebra-luzes de vidro denso, uma atmosfera aconchegante e até certo ponto arejada. Levemente atravancada, no entanto, pela profusão de computadores, samplers e instrumentos musicais que se concentravam numa bancada aplicada à parede em linha com a porta de entrada.
Quando a longa divagação, que frequente murchava aos poucos, em lento fade, um diminuendo – que, de uso, ia desbastando a porção das palavras nas frases e mesmo o maço das frases, em proporção inversa aos cigarros apagados nos cinzeiros e as taças de vinho tomadas – perdia momento para pausas um pouco mais estiradas, era como se estivessem no ponto. O de enfrentar fantasmas.
O anfitrião três vezes contou de como a havia perdido, ainda muito jovem, e, então, por um formidável golpe de acaso, a reconquistado. E casado com ela, como estavam há já mais de década. Mas para tanto lançou mão de três versões. E, embora as três grudassem alguma parecença, espaçavam até alguns pontos nodais.
A primeira delas, no entanto, fisgava em melhor isca a atenção. Não era a mais longa. Tampouco a mais plena de possibilidades, repercussões. Muito menos tinha mais capa e espada. Não chegava a ser mesmo a mais confiável. Ou, sob outra pele, a mais ficcionável. A que vendesse melhor num livro redigido para ser um sucesso de crítica, de público. Não tendia à auto-ajuda. Não seria a que juntas de psicanalistas iriam consagrar. Enxamear-se em torno dela, como formigas em torno de uma nódoa de vinho à toalha, junto com professores de redação criativa ou curadores de eventos literários. E isso tudo no soporífero daquelas mesas de colóquio que, em geral, conduzem a algures sem nenhum vinco de graça. E cada um interpreta uma realidade tão viva, volátil, vibrante, viscosa – feito uma moreia, recém-pescada, debatendo-se com sua traiçoeira mordida na ponta do corpo oblongo – à luz de uma teoriazinha pessoal e intransferível. Tão rasa quanto os olhos sem piedade. Encurralada para todos os efeitos. Pouco adequada a aclimatar-se ou prosear com a vivacidade salpicada de nexos outros do assunto-moreia. Dos ruídos dos dias. Do emerso escuro, lá fora.
Coisas mortas e vivas quase sempre não se entendem lá muito bem, quando não se deixam imiscuir. E, então, colóquios do gênero terminam num mar-oceano de belas palavras sobre belas letras ou belas formas e nenhum esboço, mesmo que tênue, de algo um pouco mais afirmativo. Algo que conforme uma, mesmo que embaraçada, mesmo que embaçada conclusão -- essa verdadeira palavra-alergia. Porém toda a plateia e os debatedores mais jovens voltam para a casa certos de haver contribuído com algo ou testemunhado um evento que fez do mundo uma casa melhor, mais acolhedora. Algo que, por igual, mudou suas vidas. Ao menos pelas próximas quarenta e oito horas. E depois tudo é esquecido. Pelo menos até que venha o novo ciclo de palestras. E assim sucessivamente. Gira-girando. Um carrossel. E a gente comece a se interessar mais pelo sumplemento de Derrida do que pela iôga de Krishnamurti ou a noosfera de Teilhard de Chardin ou os aparelhos ideológicos de Allthusser ou o cinema expandido de Youngblood. Tudo que um dia seguiu em moda. E depois feneceu, queijosuicizando-se em mil orifícios, que os que escrevem tese fazem pouco, para depois as teorias em que se amparam voltem à tona, devidamente mofadas, como deve ser, pela geração seguinte, com vigor e esterótipos, em papéis que ninguém lê.
Porém, nas palavras do outro, essa primeira versão do reencontro com a mulher era de partir o coração. E podia não ser a mais coerente, entanto fosse a única a pedir releitura, pelo carga de tranco que recheava.
O outro a perdia de vista depois de um breve affair ainda bastante adolescente. E após aqueles meses de desnotícia e secretiva ansiedade, acabava sabendo que ela se envolvera com um engenheiro. Tinham ficado noivos. Moravam em Maceió. Ela dava aulas no Departamento de Psicologia. O tipo a passar parte do mês embarcado em uma plataforma de prospecção de petróleo, ao largo da costa de Sergipe. Depois voltava para o apartamento, em Pajuçara. Daí, sobrevieram outros calendários: nenhuma novidade. Nenhuma. 
E, então, algumas folhinhas após, nem tão por acaso e por um conhecido comum, durante uma partida de bilhar, soubera que o sujeito tinha ficado cego. Uma explosão de pequeno porte, que não chegara ao cabeçalho dos telejornais, dera-se no compartimento anexo à cabine em que dormia, na plataforma. O engenheiro havia sido aposentado. Invalidez. E o casamento, que iria se dar dentro de poucas semanas, fora cancelado, porque ela simplesmente não suportava vê-lo sem ser vista por ele. E não se sabe até que ponto vigia um vice-versa. 
Ela, de fato, não o viu mais o engenheiro. Voltou de Maceió para Fortaleza e fora justo quando o anfitrião e ela se haviam reencontrado de novo, por acaso, certa tarde puída e cheia de chuvas, no pátio da universidade, sob castanholeiras. Buscavam fôlego para discutir com os alunos no segundo horário e lancharam juntos. E aí tudo recomeçara. De início, doucement. Como nesses casos de reencontro. Até se casarem, um tanto pilototautomaticamente.
Ela jamais falava do engenheiro. Eles jamais falavam do engenheiro. Ela não permitia. Cultivava aquela zona de silêncio, como uma zona erógena não permitida. Tabu. Durante muito tempo, o outro esteve a par que ela e o engenheiro nunca trocaram qualquer tipo de correspondência. Erraram-se, como se diz.
Até que, muitos anos depois, já ao tempo dos filhos quase adolescentes, dos amigos virtuais, das redes sociais e có-seguidores em micro-bloggings, houve alguma correspondência. Algo elusivo, distante. Protocolar. Votos de feliz Natal.
O outro contava essa história com particular veemência. Um pouco como se ele próprio e estranhamente estivesse, de alguma forma, na condição do engenheiro. E não por escolha, capricho. E ele, então, quando voltava guiando para casa, no desapego da madrugada, podia sentir a escuridão e a cadeira de rodas do engenheiro, na varanda do condomínio, em Maceió, fixando no oco o Atlântico quebrando sobre as finas areias; e o futuro quebrado pela explosão na plataforma.


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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quando passar, eu aviso

Aspecto da Lagoa da Jijoca

Diálogo geracional


 –Falta muito pra chegar em Jijoca?

Quando a viagem passar, eu aviso.


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Ao longo da Avenida Antônio Sales do Coração

Sherman  L. Kelly, Concha de sorvete, 1935


Conto da casa de gelados


No fim, havia apenas uma criança amedrontada tomando um sorvete diante da espessa noite. Nenhuma agudeza, travestimento de espírito. Pausa que indicasse caminho. Palavras álgidas, guiadas ao longo da Avenida Antônio Sales do coração. E só a gustação do sorvete, sabor puberdade tardia com calda de pavor por riba, indicava o que, um dia, se julgou ser sabedoria e coragem.



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Que discrição se pode obter num mundo devassado

Edward Ruscha, Eye (litografia), 1968

Possibilidades e impossibilidades do ver


Além de se exporem, de se darem a ver o tanto quanto bem desejam, quando e do modo como querem – à contagotas, em pequenos tragos, doses cavalares ou suicidas overdoses – as pessoas deveriam ter a noção de que isso não é recíproco. De que há pessoas que não desejam nem ser vistas tão amiúde, nem tampouco ver tão amiúde. E não ser vistas ao menos por aquelas outras (poucas) pessoas, no círculo de intimidade de qualquer vivente, que o bom-senso indica: uma maior distância seria prudente, saudável. É o mínimo de discrição que se pode obter num mundo devassado por câmeras e redes sociais e servidores de imeios e telefones móveis por todos os poros. Ao ponto de se sonhar em chegar às terras nas quais implicitamente ainda haveria o aviso: “sorria, você não está sendo filmado”. Essa discrição mínima não seria jamais uma lei, um artigo do estatuto dos direitos de imagem, mas uma espécie de compaixão visual de foro íntimo, para com o próximo. Mesmo nesses tempos virtuais, em que se pode saber da vida das pessoas a qualquer momento, com um simples clique. Retaliar. Quer dizer, deixar bem claro que há algum desassossego quando a gente se sente monitorado diariamente no mundo virtual. E esse mundo virtual está longe de ser o mundo dos sonhos ou do faz-de-conta ou da bela-adormecida ou da gastronomia francesa ou de uma visita à Alhambra. Porventura, porque, no fundo, a vida real (longe de tudo isso) comporta uma pletora de riscos. E, logo, retaliar é apenas uma forma de dizer a certas pessoas: “porque você não vai passear em outros campos do Senhor; ver se eu estou ali na esquina; ou cuidar do próprio nariz; ao invés de estar sempre por aqui ou pensar tão unilateralmente – após haver lido um artigo de um escritor norte-americano de vanguarda (e entendido tão pouco) – e, desse modo, deduzir que todos podem ficar auto-secando-se o dia inteiro, nas telas de cristal líquido? Que todos tem o direito de ver, de ler qualquer pessoa toda vez que lhes der no juízo?” Quem não começa a cansar de ter zilhões de imagens na retina dia após dia deve ser um zumbi, ter o corpo fechado, à prova de imagens, sons, texturas. Pois até o banal extremo e a obtusidade ganharam centenas de canais de TV na economia imagética do espírito. A que não corre riscos.



Não seria isso, essa onipotência onívara do ver, a própria definição pós-contemporânea para espelho? E, então, empenhadamente nas folgas do trabalho consulta-se por anônimos pc's aqueles espaços da desconfiança, que antes, por Mac, de casa eram acessados. E a medida de auto-iludir-se, sabe-se, é muito maior que essa hiperdiarreia de imagens vertendo-se sobre o rosto dos dias. Cuidado, tantas imagens assim furtivamente visadas podem piorar enxaquecas.


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Bodas de Caná às avessas?

[s/i/c]

Frustração Suprema


Você passa o dia de amanhã escrevendo. E sai do quarto em piloto automático para pegar um copo de suco de maracujá no refrigerador. Mas quando abre a porta, e aquele hálito frio invade a cozinha, não é mais maracujá o que vai na jarra; senão genipapo. O que aconteceu? Um milagre de Bodas de Caná ao avesso? O que houve com aquela jarra quase transbordante de maracujá que até hoje à noite esteve por lá?




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Teu passado é todo coberto de glórias

[s/i/c]

Da catenática cultura  do futebol alencarino



Teu passado é todo coberto de glórias,/ Dia a dia tu conquistas mais vitórias,/ Tua bandeira alvinegra desfraldada,/ Teu time em campo tem vitória assegurada”, assim bate o centro o hino do Ceará Sporting. Os hinos dos clubes – com a exceção dos realmente grandões – guardam uma constrangedora e vistosa ironia, míope apenas aos olhos dos apaixonados torcedores.

O Ceará Sporting perdeu ontem merecidamente para o Coritiba [1]. Semifinal da Copa do Brasil. Como quase qualquer time cearense, a equipe do Ceará de ontem à noite praticou aquele catenaccio, aquele anti-futebol de deslavada retranca. Com exceção de algumas formações de Ceará, Fortaleza e Ferroviário dos anos 70 e, bem mais raramente 80, foi sempre assim. O futebol cearense é horrível de ver. Vive de contra-ataques, vitórias magras, retrancas, ceras e alguns heróicos e abnegados goleiros. Alimenta-se amplamente da ilusão, da paixão de seus obstinados – no melhor sentido – torcedores.

Ou de coisas bem piores, como essas torcidas organizadas, do tipo TUF ou Cearamor, que amealham mais dinheiro que os próprios clubes em si – e, portanto, os espoliam e parasitam – além de escolarem seus afiliados nas políticas da truculência, da não tolerância, do sectarismo estúpido. De seus dirigentes, melhor saltar esse degrau, com honrosos e raros patamares de exceção, que até nos fazem pensar se elas existem mesmo.

Torce-se pelo Ceará Sporting, como por qualquer outro clube cearense em competições mais amplas, porque o Ceará está mais perto de casa. Porangabuçu é bem ali. O Núcleo de Saúde da UFC, caindo aos pedaços, coitado, fica em Porangabuçu. E isso de estar mais perto, de ter uma história longa e comum, parece motivo suficiente e bom para torcer. Motivo, em todas suas ressonâncias, ainda não dimensionado por um bocado de gente.

Agora, se fosse tão-só pelo futebol, pelo futebol em si, aquela abstração astuciosamente bem filosofada por Pelés e Ademires da Guias; a que versa sobre tempo, movimento, espaço: you could count me out, Baby. 

[1] De um modo interessante e quase avulso o Coritiba, clube de futebol, mantém a graphia arcaica da cidade, que, posteriormente mudou para Curitiba, com"u". Saudades do Birigüi.

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Anyone for tennis?

 
Martin Elliott, 1976


Alguns segundos de tênis e outros duelos entre os que urinam contra a parede


Há as partidas de duplas, e as de duplas mistas. Quem liga para elas? O tênis é um esporte sozinho, mas naquele estar só a dois de que nos fala Beckett. E provavelmente um das modalidades em que o caráter dos jogadores sobrevem à flor da pele. Ele é uma conversa. É claro que ele não é sozinho ao modo do golfe, onde há um homem, um taco e buracos. Ou, em outra sala, na arqueria: um alvo, arcos, maçãs, Guilhemes Tells e flechas.

O tênis é um duelo. Ele tem muito mais de contenda, desafio. Um desagravo entre dois seres humanos, que, por vezes, até se olham nos olhos, pois eles não estão velados, como na Fórmula-1. Ou olham na mesma direção, como no tiro ao alvo. E os tenistas permanentemente dão a cara à câmera. E, ao contrário do futebol, a câmera os toma tão de mais perto que cada mínimo gesto é tradução mais esforçada do que vai pela mente. Se contra-atacam em cabal desfaçatez, há um retardo no ocultar a intenção até o golpe da raquete largar o drop shot – a famosa deixadinha – provocando aquele supremo desespero no adversário, que dispara, feito um cachorro atrás do graveto, da linha de base na direção da rede, resvalando pelo saibro, resfolegando, abrindo pequenas clareiras no pó de ladrilho. E isso manifesta, no caso de o golpe bem aplicado – a bola baixa, sem peso, ao modo de uma folha seca – algo análogo ao blefe na milimétrica fleuma do pôquer.
O tênis é um pôquer sem ser em torno de uma mesa, não jogado com cartas de baralho ou por meio apenas de caras, bocas, esgares. Mais importante que essas circunstâncias – pois acentua sua característica de duelo –, a gente o joga contra um só adversário. Nesse último ponto se pode principiar a prospectar seu rubro veio de duelo. E é o que o aproxima daqueles ajustes de contas ao pôr-do-sol nas poeirentas vielas do Velho Oeste que, à sua vez, são uma reatualização das justas e torneios medievais, que à sua vez são uma reatualização de vendetas tribais, que à sua vez.
No campo do esporte, as touradas e o tênis são os mais dignos sucedâneos desses “à sua vez”.
Pode-se contrargumentar: “ah, mas não: há o boxe, o vale-tudo, a esgrima, a capoeira, as artes marciais orientais, a luta greco-romana”. Afinal, aparentemente ao menos, todas essas modalidades seriam também duelos. Dentre elas, no entanto, é o boxe a que mais se aproxima do sangue-frio do duelo, seja pelo conversar por gestos, tendões e músculos, feito no tênis, seja no arriscado enfrentamento entre homem e animal, feito na tourada.
E, no entanto, quão diferente é o boxe em essência. Não se pode bater abaixo da linha da cintura. Há uma série de regras que fazem dos pugilistas verdadeiros gentlemen. Polidos ao excesso, ainda que com os supercílios esfolados, as narinas sangrando ou aqueles inchaços nos olhos. Ou ao redor da boca, que, então, mais se assemelha à de um símio, pela protuberância do protetor dental além dos hematomas. Acima dos narizes amassados --- e por vezes, recheados de chumaços de algodão, onde o sangue embebe e coalha --- há, sobretudo, as mentes limpas de dois cavalheiros. Basta assistir Fat City (Cidade das Ilusões, 1972) de John Huston para se aperceber disso. O quão no boxe o duelo é muito mais consigo próprio que no tênis, na tourada. Há uma espécie de estoicismo que está à base desse negócio de pugilato. E há aquela lendária cena em que após urinar sangue, o veterano lutador mexicano, derrotado, vergado pelo peso dos anos, e no entanto composto, extremamente alinhado, com a solenidade de um cavaleiro andante desce ao saguão do hotel caminhando sua pavorosa solidão -- a dos losers -- e aquela resignação elegante que transcende a sanha do duelista, e é de uma dignidade a toda prova.
Jorge Luis Borges chorava em westerns. E principalmente em filmes onde havia duelos com armas brancas: “ninguém mais sabe dimensionar a beleza disso; o heroísmo disso”, dizia, aos prantos.
Todos os outros embates, afora o boxe – que é, em verdade, o duelo de um só – sequer chegam perto do tênis e da tourada. E assim podem facilmente, facilmente ser descartados enquanto duelos. O vale–tudo semelha uma rinha de galos. Ou mais propriamente uma luta entre colegiais. Em noites de mais desjeito, sugere uma briga entre meninas à hora do recreio, daquelas onde valem unhas, dentadas, caras feias, puxar cabelos e os infames gritinhos, onde surtem insultos histéricos --- do tipo: "bicha feia" --- que fazem a delícia da meninada quando se tem seis anos. E é mesmo uma das maiores demarcações da sensualidade que irá aflorar com todas suas profusas cores na puberdade. Já antecipam algo do Johnny Guitar, de Ray. Mas definitivamente não são duelos.
A esgrima é uma Fórmula-1 com floretes e sem ronco de motores. Como na F-1 não se vê algo essencial: a reação facial dos contendores. O fato de estarem amarrados pelas costas também aproxima os esgrimistas daqueles fantoches que os titereiros comandam ao bel-prazer de seus cordeis e humores.
A capoeira, como sabemos, é muito mais uma dança acrobática. Deriva de rituais de trabalho. Da necessidade de espantar do corpo, primeiro com um espasmo, depois com movimentos de uma coordenação quase encantatória, o tédio de quando as tarefas que o corpo executa aproximam-se de repetições massacrantes.
As lutas orientais são profundas filosofias radicadas em ideogramas, e traduzidas em gestos rápidos. Mas, se olharmos, bem, por vezes, bem mais desgraciosas são que, digamos, essa “capoeira oriental” que é o Tai-Chi. No judô, por exemplo, é um pouco ridícula a importância que se atribui ao quimono. A vestimenta converte-se na base de apoio para o próprio combate. Além do que, os golpes em que o judoca tenta agarrar o outro pelos fundilhos para arremessá-lo como a um saco de batatas sobre o tatame assomam um tanto bisonhos, mesmo quando executados por um grande mestre. Não há muita elegância naquilo, pois tudo se passa numa rapidez mesquinha, quase descartável ao olho. E, porém, como tão se cita de Machado: "ao vencedor..."
Quanto à luta greco-romana é um espetáculo obsceno. Que talvez só perca em falta de plasticidade para o halterofilismo. E olhe lá. Parece que há um empate técnico. Que dela existam aficionados é uma prova viva da diversidade humana.
Restam, assim, de descendentes de duelos para valer, a tourada e o tênis.
O politicamente correto, a sociedade protetora dos animais, os ambientalistas radicais, o instituto de prevenção de riscos no trabalho e no amor, além do urro tribal entre as culturas, mesmo e principalmente as multiculturalistas e pós-modernas, acabará com as touradas – talvez um dos mais nobres esportes jamais surgidos. Hemingway, que escreveu páginas antólogicas sobre a tauromaquia, diz com grande propriedade, sobre esse zelo das pessoas em relação ao presumido sofrimento dos touros e, não menos, à forte cena dos cavalos dos picadores quando chifrados, com as tripas a dissipar-se sobre a areia da arena:

From observation I would say that people may possibly be divided in two general groups; those who to use one of the terms of the jargon of psychology, identify themselves with, that is, place themselves in the position of, animals, an those who identify themselves with human beings. I believe, after experience and observation, that those people who identify themselves with animals, that is, the most professional lovers of dogs, and other beasts, are capable of greater cruelty to human beings with those who do not identify themselves as animals.
[Death in The Afternoon, 1932]

Por observação, eu diria que as pessoas podem ser divididas em dois grupos, grosso modo; aqueles que, para usar um termo do jargão da psicologia, identificam-se, ou seja, se põe na posição dos animais; e aqueles que se identificam com seres humanos. Creio, após exame e experiência, que os que se identificam com animais, quer dizer, os maiores apreciadores, de carteirinha, de cachorros e outros mascotes, são capazes de maiores crueldades contra seres humanos do que os que não se identificam com animais.

Quando se pensa nos coqueteis de anfetaminas e esteroides que atletas de alto rendimento ingerem dia após dia em “esportes” como o atletismo e o ciclismo nos diascorrentes, pode-se pressentir que, além de bem abalizada, a assertiva de Hemingway foi quase profética.
Já o tênis, coitado, quem sabe o que dele farão os psicanalistas.
Talvez um monótono jogar a bola contra a parede. Só que, ao contrário do squash, não para disputá-la com um adversário, porém para travar um embate contra a própria parede; de tal modo que não haja vencedores nem vencidos entre humanos. Até que se descubra que a parede tem uma simbologia muito rente ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, e se tenha de partir para outra superfície que não a que se mija contra. [1]

Ou, sobretudo, que a psicanálise elimine do tênis, ao modo do que praticamente fez com as touradas, o trauma dos vencidos. Como se de derrotas não se tirassem algumas, não digo lições, mas frações de humana experiência debaixo do sol.



[1]Uma das muitas definições para homem na Bíblia é justamente “aquele que urina contra a parede”.

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

E arrebatado, aceso. Prosseguirá pulsando

Still de Uma Encruzilhada Aprazível, Gabriel Andrade, Junho de 2006

A Glosa (II)

Na peripécia de um devaneio, que faz supor que toda lapa voa, no exílio de uma semente que geme, quem chora ao longe nunca ri à toa. Só assim conhecerás o árduo fardo do banimento. E escolherás entre as novilhas, as boas. E pelos pastos, quem virá, contente vai dizer: todo o dia passará; e arrebatado, aceso. Posseguirá pulsando.

De amor.


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Quem precisa de poréns?

[s/i/c]

Orfeu e a Conjunção Adversativa

Então compôs um nocturno tempestuoso e selvagem,
Porém, estava meio mouca.
Entrou na dança com a desenvoltura dos potros frísios,
Porém não tinha pernas.
Sentiu o barro descolar de seus pés durante a decolagem,
Porém as asas, de cera.
Tirou licks, bends, slides e harpejos de sua Gibson Les Paul,
Porém ouvia só valsas búlgaras.
Gravou em plano-sequência metade e mais de um conto de Hammett,
Porém o olho picava segundos.
Do azul, tirou um soneto cheio de energia, címbalo e pausas,
Porém só lia prosa.
Quando, enfim o fisgou, o tarpão espasmava no ar, e muito oscilava barco,
Porém, e se os peixes gritassem?
Ao jantar preparou lombo de cerdo à moda de Granada,
Porém era vegetariana.
À mesa pôs um bordeaux Chateau Lafite, 1987,
Porém preferia vinho do padre.
Reclinou a cabeça para ouvir os grãos de silêncio na voz dela,
Porém saraivava todos os palavrões em um só.
Depois de safas esquivas, nocauteou-o com um cruzado no queixo,
Porém pugilismo é selvageria, mesmo em legítima defesa.
Executou um perfeito tercio de varas,
Porém, todos sabem, tauromaquia há só para bárbaros.
Propôs-lhe uma semana a explorar as cabalas e arabescos da Alhambra,
Porém achava mais graça no Empire State Building.
Na corda bamba, lá, acima, duas cambalhotas do mesmo impossível,
Porém riscos, sem rede, são para idiotas.
Da cadeira de armar, no convés, ocaso a meio, requestou duas piñas coladas,
Porém cruzeiros, querido, só do sul e no céu.
No croqui a casa endentava na pedra e a queda d’água a transversava;
Porém quem dorme com o pingar de água por perto?
Pingou uma gota de leite no mug de Earl Grey:
Porém era alérgica a derivados lácteos.
Pintou um imenso tríptico elogiadíssimo pela crítica,
Porém a miopia de longe, a presbiopia de perto. Sinto.
Levou-a para assistir Ordet na Cinemateca,
Porém melhor estimava Bring Me The Head of Alfredo Garcia.
Perdeu a cabeça e apelou para o coração,
Porém, até quem lambe barro sabe, é onde os fracos não tem vez.
Decidiu, enfim, integrar porém a seu vocabulário:
Quem precisa de poréns, quando se tem mas, todavias, contudos, não obstantes?

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terça-feira, 24 de maio de 2011

As ondas aferindo no lábio as extensões de frase




Aspectos do rio, em Camocim, maio de 2008 [Acervo Pessoal]

Camocim – um resumo de nove anos, primeiros


Camocim começa no quintal da Rua Senador Jaguaribe, 289.[¹] Mais precisamente a meio caminho entre o alpendre dos fundos e o pé de cajarana, nas ondulações daquela areia escura que acolhe as cajaranas maduras, antes areia de praia. Das praias do delta do Rio da Cruz, que hoje chamam Camucim ou Coreaú. Arenosas praias, pontuadas volta e meia por uma carnaubeira arrancada ao deserto. Ou, por contraste, praias de mangue. Exuberantes viveiros. Na margem da cidade, repletas de seixos, búzios, vieiras, amêijoas, cracas, ostras. Praias salpicadas de sambaquis. Grifadas por canoas que trazem talhadas na proa nomes de mulheres. E uma água salobre, de foz de rio, batendo em seus cascos. O ciclo das marés impregnado nas pessoas como um relógio. O fluir e refluir das ondas aferindo no lábio as extensões de frases. A medida da conversa. Da prosa – como então se dizia.
Porém tornando à areia escura do quintal, mais adiante há uma cacimba e, do lado direito, um comprido galpão onde o pai do menino cria galinhas. Ao lado do galpão há uma bomba d'água, um pouco para além do pé de cajarana. Depois há algumas ruínas do que devia ter sido dois pequenos depósitos, restos de parede não cobertas; e, então, um muro cheio de limo ressequido, com um portão vazado, para além do qual há um altíssimo coqueiro, urtigas e lianas sobre mamoneiras, como fosse uma selva; e tudo é misterioso e distante. Como o nome Camocim nunca deixou de ser: misterioso, distante. Por mais próximo que estivesse. Por mais que a retina o tocasse, e o corpo imergisse nas águas. O nome contém o essencial. Apenas. Algo que não consta em etimologias (de resto, fictícias), e está mesmo é no olhar: a imagem dos seixos no leito do rio vistos através da água translúcida. Isso é de não. É de não esquecer. Símile mais essencial para quem, desde cedo, desconfia de metáforas.
O nome da primeira cozinheira é Iracema. O da primeira babá, Fátima. Uma é índia; a outra, negra, que o avô materno trouxe ainda pirralha, em uma de suas andanças pelo Outro Lado.
A vizinha da direita chama-se Nair e é casada com um merceeiro. Dona Nair é mais velha. A mãe do menino, mais nova.
Para entrar em casa há dois degraus e um cumprido corredor cheio de sombras. Logo adiante de casa, há a casa cuja sala da frente faz as vezes de uma das duas bancas de revistas da cidade, o que é como ofertar mel a ursos: que trazes pr'a mim?
Do lado esquerdo não mora ninguém. É que o vigoroso inverno de 1965 deu cabo da velha casa vizinha, expondo todo o oitão da casa deles.
O menino é o mais velho. O mais novo leva o nome de Flávio. E a mãe espera um terceiro, que será ainda mais novo, irá nascer em setembro e chamar-se-á Eduardo.
O pai lê até mais tarde. E tarde é entre dez e meia e onze da noite, quando a eletricidade da termelétrica dos irmãos Cela se põe, após um piscar de alerta. Às vezes segue lendo à luz de uma grande lâmpada à querosene: uma Petromax – chamava-se assim. Até, extenuado, dormir sobre o tampo da escrivaninha. No mais, trabalha num banco, e dirige um jipe de quatro portas. A mãe borda, faz croché e cuida da casa e dos pequenos. Conhece receitas de bolos, doces, tortas, compotas. Sabe de dimensões para roupas. Quando ficam doentes, lhes quebra a frieza da água e lhes lê histórias de terras remotas. Às vezes toca bandolim e conta histórias, sem lê-las. Às vezes canta até que durmam, embalando brandamente o punho da rede. Há canções de uma dolência cheia de tenacidade e vida. Como se a voz passasse entre as palmas do coqueiral que oscila esbeltamente onde quer que se esteja na cidade –apesar de que seja melhor visto, em toda sua propagação e sombras, do mar para a terra.
Não infrequente, nos longes da madrugada se ouve o apito do trem. Ou, certas tardes de sábado, em que o pai lhes leva para observarem as manobras, as locomotivas a cambiar de linhas pelo mover das agulhas, resfolegando, a ressoar na gare com estrondo de trovões.
Afora a praia e o lago, o passeio não vai muito além da chácara do avô, que se chama Oriente, entanto não exista placa, e o menino secretamente desaprove essa omissão – embora goste do sítio, do caramanchão à entrada, onde se enroscam fios de fruta-da-paixão.  E dos tios que ainda são solteiros e confeccionam enormes caminhões de madeira com amortecedores de lata de óleo de cozinha. E mais peões, arcos, zarabatanas e baladeiras. Joga-se muito futebol sob as fruteiras a meio-caminho da Rua Humaitá.
As baladeiras são para matar calangos, porque o avô gosta de passarinhos e os quer soltos. É o homem mais alto do mundo. E também muito solene, quando desce, de chapéu sobre a meia-calva, metido em seu impecável terno branco, de linho, a consultar o relógio de bolso, na direção da igreja.
A Igreja do Bom Jesus é o centro da vida – mesmo que as procissões de São Francisco deem mais gente que as do padroeiro. As atribulações são muitas. E a fé parece maior que todas.
No Natal há barquinhos de balançar na Praça do Mercado, um carrossel de cavalinhos de madeira, e um sem-número de tendas que não destoam do cinema. Coisa de árabe. Gravura do Tesouro da Juventude. Muito cedo, e a cidade já era só metade real; porque o resto, de tão formoso, só na ficção podia estar.
Um dia, a costureira de sua mãe, após tomar-lhe as medidas, lhe faz uma camisa de volta-ao-mundo. Um dia, o sapateiro de seu pai, após tomar-lhe as medidas, lhe faz um cinto e um par de alpargatas. Um dia, seu avô materno, João Evangelista Ximenes, lhe põe na garupa do cavalo e segue até sua chácara, que confina com o campo de aviação. Um dia, seu pai lhe presenteia com uma bicicleta que é uma réplica perfeita de uma bicicleta de adulto. Um dia, Tia Jacintha lhe leva para ver o navio, no porto. E o menino segue feliz. Um dia. Mais um dia. Outro dia. Suas medidas não cessam de mudar. As novas palavras soam carregadas de pesos e mistérios: volta-ao-mundo, alpargata, garupa, navio.

Ergo, cresce, se cria. Até então, nada de torto. Aprende a nadar, subir nos cajueiros, andar de bicicleta, jogar bola. Aprende a ler. A desafiar os colegas: quem nada para mais longe da praia à meio-caminho das ilhotas de mangue, por pura valentia, numa baixa-mar dessas? Na escola, gosta de História e Português. Com Lavínia, dança o São João. Com o irmão Flávio inicia uma coleção de gibis.

E vê muitos filmes de caubói.






[1] Soube que há coisa de uns cinco anos, para homenagear um político local, vereadores mudaram o nome da rua, que há mais de um século era conhecida como Senador Jaguaribe. Para mim, ela continuará sendo Senador Jaguaribe. Quando saímos desse endereço para morar na Rua Engenheiro Privat, também 289, praticamente à beira-rio, eu tinha 5 anos. Lembro-me mais da Engenheiro Privat, que era conhecida também como Rua da Estação, porque começava flaqueando a bela estação ferroviária da cidade, que data de 1881 e é  uma das mais bonitas do Brasil. Mas esse primeiro endereço, na Senador Jaguaribe, tinha sabor das primeiras coisas.



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Para onde mais uma vez fora, difícil dizer

[s/i/c]

A Sonhadora

No extenso subúrbio para onde a cidade crescia, plano e recente, pleno de shoppings e do novo tipo de vida, ainda mais americana, em torno de uma avenida congestionada, zonas comerciais condensadas, endentadas no meio de condomínios de casas e o tudo resolver de automóvel, ela vivia. E, por vezes, chegava em casa tão cansada que, ao abrir o capítulo de A Língua Absolvida, deitada na rede do quarto, o dicionário ao alcance de seu delicado braço, não mais que página e meia percorria antes que o sono a colhesse para o estranho passeio de um sonho recente.
Era terça-feira no espelho. Era quarta-feira. E nas prateleiras, junto à janela de seu quarto, havia alguns livros. Não com as lombadas à vista, como nas bibliotecas, mas empilhados uns sobre os outros; porém numa feição aparentemente ordenada. Na prateleira inferior, de vidro, havia dois ou três porta-retratos, algumas miniaturas e uma boneca russa, daquelas que porta muitas outras dentro de si, à medida que se a vai descascando --- ao modo de um cacho de personalidades menores embutidas em uma maior. Será que assim também são os bonecos de carne e osso, feitos de barro, e com vida assoprada em suas narinas? Quem o saberá, Princesa.
Ela não me ouve. Tão extenuada chegou do trabalho que só teve tempo de tomar banho e um copo de Coca-Cola com uma nédia fatia de bolo de chocolate, antes de atirar-se à rede para absolver a língua e deixar-se tragar pelo vasto espectro do sono, com o sonho dentro dele, mais ou menos temperado pelos ruídos da TV, ligada em volume baixo, e o invariável ciciar dos grilos, lá fora.
Para onde mais uma vez ela fora nos sonhos, difícil dizer. Para praças, florestas, ruas, piscinas que nunca saberemos. Para o fundo do mar, o tempo marinho e calmo, onde, não raro, fazia seu caminho por entre extensos arrecifes de coral com sapatilhas macias e um pendor por desfrutar amêijoas, vinho branco e lagostins. Quem o saberá. Para serras e vales sem geografia. Para aquelas simultaneidades de lugares e có-fusões de pessoas que só possíveis nos sonhos.
Mas havia um lugar onde sempre ia.
Parece que para a Alhambra.
Nos sonhos, era amiga de uma das preferidas do Emir. E costumavam sentar juntas, à amurada, e trocar alguma confidência, a contemplar a mesma ravina por onde o Darro escorria, na cava do vale. Às vezes passeavam lentamente ao longo das ameias de onde, de quando em vez --- era ao cair da tarde --- os sentinelas alternavam senhas e ordens, em tom áspero, na algaravia de r’s e m’s e l's sobressaltados.
Sua amiga então, lhe falava da tediosa vida no harém dos abencerrage. E de como elas tinham de inventar jogos para suportar a reclusão tamanha. E qual eram o teor desses jogos. E quem se dava melhor com eles. Sua amiga tinha profundos olhos negros, quase tão crueis e tentadores, quanto aquilo que não mais se lhe via do rosto, sonegado pela astúcia do veu. No diáfano podia-se adivinhar-lhe o afilado do nariz, a tez morena contrastada por um luminoso sorriso branco. Mas os olhos, apesar de crueis e belos, eram por igual tristes. Com o globo ocular nadando, suspenso, sobre aquele excesso, um lago branco, sublinhando-o e que, dizem, faz prenunciar as mortes violentas.
E então, conversavam aquelas coisas de mulher. Aquelas coisas de mulher que, hoje, por muitas inversões de valores depois, são cada vez remotas, cada vez coisas de homem; pois ao feminismo, apesar de aportar tremendas conquistas, lhe coube um defeito: não cavou um veio próprio, uma solução diferente, um lugar alternante, profundamente original para a mulher --- ao convertê-la, como o homem, em apenas mais um ser alucinado por poder. E nesse certo e definitivo rumo, as mulheres ficaram apenas mais parecidas com homens. E, porém, à hora do sonho, as duas ainda falavam de tecer, de fiar, da textura de certas sedas, de ter filhos, criá-los, das bençãos de Alá, da beleza do Alcorão e, sobretudo, claro, do amor e seu terabytes de ressonância.
Sobretudo, trocavam receitas e versos. Quase de cor. Confeitos de marzipã, ovos à flamenca, salmorejos, vinagres de jerez, a manteca de cerdo, a ternera, o pringá, as pavías. Ou versos de uma poetisa que só viria à luz muitos séculos após, e, mais ao norte, escreveria: 

El namorado está de min... ¡o deño!
i eu namorada del.


Depois de um fundo suspiro, abraçavam-se e se despediam, pois a noite havia galopado pelo vale do Darro e caído sobre as muralhas; e o toque de recolher vibrava já, pela terceira vez, por toda a fortaleza. E, logo, ao despedir-se da amiga, ela afastava-se pelo alfazar entre as oliveiras. Deixando para trás a profusão de entalhes, arabescos. Os ladrilhos e os azulejos. A sobreposição dos arcos e a prodigalidade das cores. O jogo de sombras e luzes ainda a velar ao ocaso. A densa simetria dos pátios. As piscinas e os chafarizes. As bicas e aquedutos. O último que ouvia, pelo alfazar afora, era o murmurinho das fontes. E depois um estranho silêncio a poupava, para tornar a fazê-la ouvir o murmurinho sob outra clave, e naquele breve instante, mágico, em que se está na encruzilhada, no limiar entre sonho e consciência. Modulando o ouvido para passar, após pequena vertigem, do interior ao exterior por meio do labirinto. 
De volta ao quarto, no subúrbio recente, quantas vezes não acordava à madrugada em curso e, em vez, do murmurinho das fontes, a chuva era que caía, sem aviso prévio, lá fora. À prazo. Num fim de maio. Temporã.
E, então, ela depositava A Língua Absolvida - que dormira sobre seu corpo - no tampo da escrivaninha, ao lado do Macbook, e, depois de despir-se em jubilante desordem, e saltar a janela do quarto, para o pequeno quintal, lavava a alma sob a maciez fria da chuva. As gotas a reanudarem em seus cabelos, suas feições, uma linhagem e um semblante que só se reconheceria na graça das mulheres merínidas.

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Talvez não devessem olhar para trás

[s/i/c]


Condomínios & Noivas

Por toda parte em Fortaleza, constroem-se condomínios residenciais verticalizados. Os prédios ficam cada vez mais altos. Isso naturalmente implica que as pessoas são vistas mais e mais enformigadas desde lá de cima. E isso deve comprazer ao espírito de alguns. As pessoas parecem gostar da ideia de que o mundo fica mais ordenado se visto de cima. De muito de cima. Ou que, de manhã bem cedo, quando o sol é mais saudável, sua luz será menos desfrutada pelas centenas de crianças que moram à sombra dos grandes condomínios em flor. Ou ainda de que é muito mais fácil pôr fim a tudo quando se tem uma janela no décimo sétimo andar. 

A fantasmagoria maior assoma naquele estágio da construção em que há imensos véus, para evitar que os passantes, nas calçadas, em geral sem capacetes, caminhando rente às obras, sejam atingidos por detritos ou uma ou outra chave de grifo que caia da mão de um operário. Esses imensos véus flutuando ao vento parecem emprestar aos prédios um quê de noivas. Daquelas noivas histéricas, que estacam no átrio da igreja. E parece que não vão entrar nunca. Feito seus passos estivessem contados e o número esgotara-se justo naquele instante. Meio como se algo do frio de câmaras frigorificas as tivesse petrificado, transmutado em estátuas de sal. Como a mulher de Lot. Talvez como a mulher de Lot, certas noivas não devessem sequer pensar em olhar para trás. Será que é por isso que algumas delas estacam tão firme que os lustrosos  saltos-altos parecem querer afundar no granito? E é como se nada as persuadisse a seguir adiante. Ainda que um meliante ameaçasse roubar o Rolex no braço com que o pai tenta segurar-lhe, de alguma forma, a histeria. 

A histeria dessas noivas pode fornecer bom paralelo para a vertiginosa verticalização de Fortaleza. Algo já consolidado, a despeito da simbologia dos véus. Algo que não se pode olhar para trás. Da janela de um avião vê-se a espessa barreira de edifícios entre a beira-mar perdendo altura na direção dos bairros mais a sul e oeste. E, mais que tanto, algo reafirmado sempre e de novo, quando se passa por uma região pela qual não se caminhava só há uns poucos meses atrás. 


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Em frente, marcha: o resplendor da fogueira

Três telas de Alfredo Volpi (1896-1988)


Mas isto é já Luiz Gonzaga e José Fernandes

Sim, há aquelas pessoas que vão morrer agarradas a si mesmas. Como se elas fossem os últimos troços a flutuar depois do dilúvio. Difícil supor de onde vem tanta obstinação. Aqui, não se trata de pessoas pusilânimes, fracas. E, ainda assim, há uma espécie de marca de Caim em suas testas. Uma maldição bíblica que elas não conseguem ver, quando todo mundo em volta já está cansado de ver. De ver e de aperceber-se daquela estranha marca cinza na testa, mesmo após um baile de carnaval.
Note bem, isso nada tem a ver com mau caráter. Elas, em geral, passam por (e efetivamente são) pessoas boníssimas. São, sobretudo, discretas. Economizam juízos de valor. Mostram-se prestativas, solícitas. Tem até senso - e muito bom - de humor. O tema de suas troças destrói pompa e circunstância. Tem endereço certo e boa medida de corrosividade. E de ternura. Porém é senso de humor que funciona até o limiar. E desse limiar falaremos mais adiante. No rastro, podem, eventualmente, importar-se com os outros. E efetivamente o fazem. São sociáveis, polidas, confiáveis. A dureza não está no trato com os demais. Isso elas resolvem, de um jeito, de outro. Com flexibilidade e jujubas de laranja. E jeitos e jujubas que surtem bem. Elas, aliás, não deixam de ser menos sensíveis por isso. E suas escolhas podem partir corações. Ser sem jeito não é com elas.
Porém, no caso, é mais na incapacidade de auto-perdão que mora o perigo. Especialmente no que refere a afetos. Se uma vez dão com os burros n'água; então, era uma vez. Quer dizer, não há qualquer possibilidade de a carga ser perdida em outro vau, porque qualquer contingência de risco há que ser lixada da ponta das unhas do cotidiano. O risco torna-se um precipício ainda mais fundo. Intransponível. O Grand Canyon no Arizona. E, mesmo que atravessável, o precipício, por lançamento de ponte, jumping ou escalada, entra aí o tal faz-de-conta. Um faz-de-conta que faz esquecer que o precipício pode ser contornado no cavalgar-se um potro recém-domado, como numa dessas clássicas passagens ao largo dos desfiladeiros, nos Westerns, onde se é acossado por índios, ladrões de cavalo, caçadores de recompensa, párias de toda sorte e, por vezes, até se tem a diligência assaltada. Mas, qual o quê! Nem que Gregory Peck, John Wayne e Clint Eastwood viessem à frente de um bando de bravos a coisa teria jeito. Ou que as cores do deserto fossem tão sobressaltadas quanto em Johnny Guitar. E se o precipício ao invés, fosse uma fossa submarina -- mesmo que branda, não uma daquelas fossas abissais, que na sua escuridão e frieza são jamais tocadas pela luz solar e onde vivem estranhos seres cegos que se guiam por sonares, como na mais funda delas, uma fenda com nome de mulher ao largo da costa sudeste do Japão -- sequer as astúcias subaquáticas do Capitão Nemo as demoveria de entrar no mediterrâneo dos riscos, de arriscar o mínimo possível. E por uma espécie de alergia. E é quando o faz-de-conta ganha letra capital.
O Faz-de-conta é o antídoto anti-alérgico que possibilita que a coisa permaneça como está. Paliativa. Anti-distônica. Despó de pir-lim-pim-pim. Lexotânica. Uma emenda. Daquelas bem piores que o soneto. Dos horripilantes: "é possível preservar-se". Eis o motto do Faz-de-Conta. E é o que o Faz-de-Conta sempre repete para a vítima do conto-do-vigário-do faz-de-conta. Quer dizer: preservar-se de sentir, eis a emenda. Sentir forte vira um problema quando o objeto desse sentimento ao invés de voucher, de ipad, de bilhete ida-e-volta a Paris tirado na promoção, de show de rock; ao invés de som para carro, degustação de bordeauxs numa boa casa de vinhos, de filminho decente, sábado à noite, de pós-graduação em Londres é, do contrário, outra pessoa. Aí, elas simplesmente endoidam. Não se permitem esse acinte. Seria como o quê? Como guardar fósforo usado dentro da caixa, de novo, Princesa. 

E aí então chega a prova de fogo. Ou aquele cavaleiro austero a quem desafiamos para uma partida de xadrez na bacia das almas, como no Sétimo Selo, de Bergman. Ou coisa parecida. Porque o fósforo, longe de gasto, ateia aquela colossal fogueira de São João da alma. Uma fogueira do desejo. Com bandeirinhas de Volpi da saudade e tudo mais, a despertar comichões no corpo e insônias na psique. E, aliás, não é ironia, diga, que quem melhor haja captado em arte e minimalismo o espírito do São João não tenha sido esse ítalo-paulistano? E, no entanto, em frente, marcha: o resplendor da fogueira, o encarnado das brasas, os fogos enchendo o céu de riscos. E o céu todo iluminado, pintadinho de balão, como diz Lamartine Babo, faz a gente olhar para cima. E ver como está lindo. Mas isto é já Luiz Gonzaga e José Fernandes.


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