quarta-feira, 25 de maio de 2011

Quem precisa de poréns?

[s/i/c]

Orfeu e a Conjunção Adversativa

Então compôs um nocturno tempestuoso e selvagem,
Porém, estava meio mouca.
Entrou na dança com a desenvoltura dos potros frísios,
Porém não tinha pernas.
Sentiu o barro descolar de seus pés durante a decolagem,
Porém as asas, de cera.
Tirou licks, bends, slides e harpejos de sua Gibson Les Paul,
Porém ouvia só valsas búlgaras.
Gravou em plano-sequência metade e mais de um conto de Hammett,
Porém o olho picava segundos.
Do azul, tirou um soneto cheio de energia, címbalo e pausas,
Porém só lia prosa.
Quando, enfim o fisgou, o tarpão espasmava no ar, e muito oscilava barco,
Porém, e se os peixes gritassem?
Ao jantar preparou lombo de cerdo à moda de Granada,
Porém era vegetariana.
À mesa pôs um bordeaux Chateau Lafite, 1987,
Porém preferia vinho do padre.
Reclinou a cabeça para ouvir os grãos de silêncio na voz dela,
Porém saraivava todos os palavrões em um só.
Depois de safas esquivas, nocauteou-o com um cruzado no queixo,
Porém pugilismo é selvageria, mesmo em legítima defesa.
Executou um perfeito tercio de varas,
Porém, todos sabem, tauromaquia há só para bárbaros.
Propôs-lhe uma semana a explorar as cabalas e arabescos da Alhambra,
Porém achava mais graça no Empire State Building.
Na corda bamba, lá, acima, duas cambalhotas do mesmo impossível,
Porém riscos, sem rede, são para idiotas.
Da cadeira de armar, no convés, ocaso a meio, requestou duas piñas coladas,
Porém cruzeiros, querido, só do sul e no céu.
No croqui a casa endentava na pedra e a queda d’água a transversava;
Porém quem dorme com o pingar de água por perto?
Pingou uma gota de leite no mug de Earl Grey:
Porém era alérgica a derivados lácteos.
Pintou um imenso tríptico elogiadíssimo pela crítica,
Porém a miopia de longe, a presbiopia de perto. Sinto.
Levou-a para assistir Ordet na Cinemateca,
Porém melhor estimava Bring Me The Head of Alfredo Garcia.
Perdeu a cabeça e apelou para o coração,
Porém, até quem lambe barro sabe, é onde os fracos não tem vez.
Decidiu, enfim, integrar porém a seu vocabulário:
Quem precisa de poréns, quando se tem mas, todavias, contudos, não obstantes?

* * *

terça-feira, 24 de maio de 2011

As ondas aferindo no lábio as extensões de frase




Aspectos do rio, em Camocim, maio de 2008 [Acervo Pessoal]

Camocim – um resumo de nove anos, primeiros


Camocim começa no quintal da Rua Senador Jaguaribe, 289.[¹] Mais precisamente a meio caminho entre o alpendre dos fundos e o pé de cajarana, nas ondulações daquela areia escura que acolhe as cajaranas maduras, antes areia de praia. Das praias do delta do Rio da Cruz, que hoje chamam Camucim ou Coreaú. Arenosas praias, pontuadas volta e meia por uma carnaubeira arrancada ao deserto. Ou, por contraste, praias de mangue. Exuberantes viveiros. Na margem da cidade, repletas de seixos, búzios, vieiras, amêijoas, cracas, ostras. Praias salpicadas de sambaquis. Grifadas por canoas que trazem talhadas na proa nomes de mulheres. E uma água salobre, de foz de rio, batendo em seus cascos. O ciclo das marés impregnado nas pessoas como um relógio. O fluir e refluir das ondas aferindo no lábio as extensões de frases. A medida da conversa. Da prosa – como então se dizia.
Porém tornando à areia escura do quintal, mais adiante há uma cacimba e, do lado direito, um comprido galpão onde o pai do menino cria galinhas. Ao lado do galpão há uma bomba d'água, um pouco para além do pé de cajarana. Depois há algumas ruínas do que devia ter sido dois pequenos depósitos, restos de parede não cobertas; e, então, um muro cheio de limo ressequido, com um portão vazado, para além do qual há um altíssimo coqueiro, urtigas e lianas sobre mamoneiras, como fosse uma selva; e tudo é misterioso e distante. Como o nome Camocim nunca deixou de ser: misterioso, distante. Por mais próximo que estivesse. Por mais que a retina o tocasse, e o corpo imergisse nas águas. O nome contém o essencial. Apenas. Algo que não consta em etimologias (de resto, fictícias), e está mesmo é no olhar: a imagem dos seixos no leito do rio vistos através da água translúcida. Isso é de não. É de não esquecer. Símile mais essencial para quem, desde cedo, desconfia de metáforas.
O nome da primeira cozinheira é Iracema. O da primeira babá, Fátima. Uma é índia; a outra, negra, que o avô materno trouxe ainda pirralha, em uma de suas andanças pelo Outro Lado.
A vizinha da direita chama-se Nair e é casada com um merceeiro. Dona Nair é mais velha. A mãe do menino, mais nova.
Para entrar em casa há dois degraus e um cumprido corredor cheio de sombras. Logo adiante de casa, há a casa cuja sala da frente faz as vezes de uma das duas bancas de revistas da cidade, o que é como ofertar mel a ursos: que trazes pr'a mim?
Do lado esquerdo não mora ninguém. É que o vigoroso inverno de 1965 deu cabo da velha casa vizinha, expondo todo o oitão da casa deles.
O menino é o mais velho. O mais novo leva o nome de Flávio. E a mãe espera um terceiro, que será ainda mais novo, irá nascer em setembro e chamar-se-á Eduardo.
O pai lê até mais tarde. E tarde é entre dez e meia e onze da noite, quando a eletricidade da termelétrica dos irmãos Cela se põe, após um piscar de alerta. Às vezes segue lendo à luz de uma grande lâmpada à querosene: uma Petromax – chamava-se assim. Até, extenuado, dormir sobre o tampo da escrivaninha. No mais, trabalha num banco, e dirige um jipe de quatro portas. A mãe borda, faz croché e cuida da casa e dos pequenos. Conhece receitas de bolos, doces, tortas, compotas. Sabe de dimensões para roupas. Quando ficam doentes, lhes quebra a frieza da água e lhes lê histórias de terras remotas. Às vezes toca bandolim e conta histórias, sem lê-las. Às vezes canta até que durmam, embalando brandamente o punho da rede. Há canções de uma dolência cheia de tenacidade e vida. Como se a voz passasse entre as palmas do coqueiral que oscila esbeltamente onde quer que se esteja na cidade –apesar de que seja melhor visto, em toda sua propagação e sombras, do mar para a terra.
Não infrequente, nos longes da madrugada se ouve o apito do trem. Ou, certas tardes de sábado, em que o pai lhes leva para observarem as manobras, as locomotivas a cambiar de linhas pelo mover das agulhas, resfolegando, a ressoar na gare com estrondo de trovões.
Afora a praia e o lago, o passeio não vai muito além da chácara do avô, que se chama Oriente, entanto não exista placa, e o menino secretamente desaprove essa omissão – embora goste do sítio, do caramanchão à entrada, onde se enroscam fios de fruta-da-paixão.  E dos tios que ainda são solteiros e confeccionam enormes caminhões de madeira com amortecedores de lata de óleo de cozinha. E mais peões, arcos, zarabatanas e baladeiras. Joga-se muito futebol sob as fruteiras a meio-caminho da Rua Humaitá.
As baladeiras são para matar calangos, porque o avô gosta de passarinhos e os quer soltos. É o homem mais alto do mundo. E também muito solene, quando desce, de chapéu sobre a meia-calva, metido em seu impecável terno branco, de linho, a consultar o relógio de bolso, na direção da igreja.
A Igreja do Bom Jesus é o centro da vida – mesmo que as procissões de São Francisco deem mais gente que as do padroeiro. As atribulações são muitas. E a fé parece maior que todas.
No Natal há barquinhos de balançar na Praça do Mercado, um carrossel de cavalinhos de madeira, e um sem-número de tendas que não destoam do cinema. Coisa de árabe. Gravura do Tesouro da Juventude. Muito cedo, e a cidade já era só metade real; porque o resto, de tão formoso, só na ficção podia estar.
Um dia, a costureira de sua mãe, após tomar-lhe as medidas, lhe faz uma camisa de volta-ao-mundo. Um dia, o sapateiro de seu pai, após tomar-lhe as medidas, lhe faz um cinto e um par de alpargatas. Um dia, seu avô materno, João Evangelista Ximenes, lhe põe na garupa do cavalo e segue até sua chácara, que confina com o campo de aviação. Um dia, seu pai lhe presenteia com uma bicicleta que é uma réplica perfeita de uma bicicleta de adulto. Um dia, Tia Jacintha lhe leva para ver o navio, no porto. E o menino segue feliz. Um dia. Mais um dia. Outro dia. Suas medidas não cessam de mudar. As novas palavras soam carregadas de pesos e mistérios: volta-ao-mundo, alpargata, garupa, navio.

Ergo, cresce, se cria. Até então, nada de torto. Aprende a nadar, subir nos cajueiros, andar de bicicleta, jogar bola. Aprende a ler. A desafiar os colegas: quem nada para mais longe da praia à meio-caminho das ilhotas de mangue, por pura valentia, numa baixa-mar dessas? Na escola, gosta de História e Português. Com Lavínia, dança o São João. Com o irmão Flávio inicia uma coleção de gibis.

E vê muitos filmes de caubói.






[1] Soube que há coisa de uns cinco anos, para homenagear um político local, vereadores mudaram o nome da rua, que há mais de um século era conhecida como Senador Jaguaribe. Para mim, ela continuará sendo Senador Jaguaribe. Quando saímos desse endereço para morar na Rua Engenheiro Privat, também 289, praticamente à beira-rio, eu tinha 5 anos. Lembro-me mais da Engenheiro Privat, que era conhecida também como Rua da Estação, porque começava flaqueando a bela estação ferroviária da cidade, que data de 1881 e é  uma das mais bonitas do Brasil. Mas esse primeiro endereço, na Senador Jaguaribe, tinha sabor das primeiras coisas.



* * *

Para onde mais uma vez fora, difícil dizer

[s/i/c]

A Sonhadora

No extenso subúrbio para onde a cidade crescia, plano e recente, pleno de shoppings e do novo tipo de vida, ainda mais americana, em torno de uma avenida congestionada, zonas comerciais condensadas, endentadas no meio de condomínios de casas e o tudo resolver de automóvel, ela vivia. E, por vezes, chegava em casa tão cansada que, ao abrir o capítulo de A Língua Absolvida, deitada na rede do quarto, o dicionário ao alcance de seu delicado braço, não mais que página e meia percorria antes que o sono a colhesse para o estranho passeio de um sonho recente.
Era terça-feira no espelho. Era quarta-feira. E nas prateleiras, junto à janela de seu quarto, havia alguns livros. Não com as lombadas à vista, como nas bibliotecas, mas empilhados uns sobre os outros; porém numa feição aparentemente ordenada. Na prateleira inferior, de vidro, havia dois ou três porta-retratos, algumas miniaturas e uma boneca russa, daquelas que porta muitas outras dentro de si, à medida que se a vai descascando --- ao modo de um cacho de personalidades menores embutidas em uma maior. Será que assim também são os bonecos de carne e osso, feitos de barro, e com vida assoprada em suas narinas? Quem o saberá, Princesa.
Ela não me ouve. Tão extenuada chegou do trabalho que só teve tempo de tomar banho e um copo de Coca-Cola com uma nédia fatia de bolo de chocolate, antes de atirar-se à rede para absolver a língua e deixar-se tragar pelo vasto espectro do sono, com o sonho dentro dele, mais ou menos temperado pelos ruídos da TV, ligada em volume baixo, e o invariável ciciar dos grilos, lá fora.
Para onde mais uma vez ela fora nos sonhos, difícil dizer. Para praças, florestas, ruas, piscinas que nunca saberemos. Para o fundo do mar, o tempo marinho e calmo, onde, não raro, fazia seu caminho por entre extensos arrecifes de coral com sapatilhas macias e um pendor por desfrutar amêijoas, vinho branco e lagostins. Quem o saberá. Para serras e vales sem geografia. Para aquelas simultaneidades de lugares e có-fusões de pessoas que só possíveis nos sonhos.
Mas havia um lugar onde sempre ia.
Parece que para a Alhambra.
Nos sonhos, era amiga de uma das preferidas do Emir. E costumavam sentar juntas, à amurada, e trocar alguma confidência, a contemplar a mesma ravina por onde o Darro escorria, na cava do vale. Às vezes passeavam lentamente ao longo das ameias de onde, de quando em vez --- era ao cair da tarde --- os sentinelas alternavam senhas e ordens, em tom áspero, na algaravia de r’s e m’s e l's sobressaltados.
Sua amiga então, lhe falava da tediosa vida no harém dos abencerrage. E de como elas tinham de inventar jogos para suportar a reclusão tamanha. E qual eram o teor desses jogos. E quem se dava melhor com eles. Sua amiga tinha profundos olhos negros, quase tão crueis e tentadores, quanto aquilo que não mais se lhe via do rosto, sonegado pela astúcia do veu. No diáfano podia-se adivinhar-lhe o afilado do nariz, a tez morena contrastada por um luminoso sorriso branco. Mas os olhos, apesar de crueis e belos, eram por igual tristes. Com o globo ocular nadando, suspenso, sobre aquele excesso, um lago branco, sublinhando-o e que, dizem, faz prenunciar as mortes violentas.
E então, conversavam aquelas coisas de mulher. Aquelas coisas de mulher que, hoje, por muitas inversões de valores depois, são cada vez remotas, cada vez coisas de homem; pois ao feminismo, apesar de aportar tremendas conquistas, lhe coube um defeito: não cavou um veio próprio, uma solução diferente, um lugar alternante, profundamente original para a mulher --- ao convertê-la, como o homem, em apenas mais um ser alucinado por poder. E nesse certo e definitivo rumo, as mulheres ficaram apenas mais parecidas com homens. E, porém, à hora do sonho, as duas ainda falavam de tecer, de fiar, da textura de certas sedas, de ter filhos, criá-los, das bençãos de Alá, da beleza do Alcorão e, sobretudo, claro, do amor e seu terabytes de ressonância.
Sobretudo, trocavam receitas e versos. Quase de cor. Confeitos de marzipã, ovos à flamenca, salmorejos, vinagres de jerez, a manteca de cerdo, a ternera, o pringá, as pavías. Ou versos de uma poetisa que só viria à luz muitos séculos após, e, mais ao norte, escreveria: 

El namorado está de min... ¡o deño!
i eu namorada del.


Depois de um fundo suspiro, abraçavam-se e se despediam, pois a noite havia galopado pelo vale do Darro e caído sobre as muralhas; e o toque de recolher vibrava já, pela terceira vez, por toda a fortaleza. E, logo, ao despedir-se da amiga, ela afastava-se pelo alfazar entre as oliveiras. Deixando para trás a profusão de entalhes, arabescos. Os ladrilhos e os azulejos. A sobreposição dos arcos e a prodigalidade das cores. O jogo de sombras e luzes ainda a velar ao ocaso. A densa simetria dos pátios. As piscinas e os chafarizes. As bicas e aquedutos. O último que ouvia, pelo alfazar afora, era o murmurinho das fontes. E depois um estranho silêncio a poupava, para tornar a fazê-la ouvir o murmurinho sob outra clave, e naquele breve instante, mágico, em que se está na encruzilhada, no limiar entre sonho e consciência. Modulando o ouvido para passar, após pequena vertigem, do interior ao exterior por meio do labirinto. 
De volta ao quarto, no subúrbio recente, quantas vezes não acordava à madrugada em curso e, em vez, do murmurinho das fontes, a chuva era que caía, sem aviso prévio, lá fora. À prazo. Num fim de maio. Temporã.
E, então, ela depositava A Língua Absolvida - que dormira sobre seu corpo - no tampo da escrivaninha, ao lado do Macbook, e, depois de despir-se em jubilante desordem, e saltar a janela do quarto, para o pequeno quintal, lavava a alma sob a maciez fria da chuva. As gotas a reanudarem em seus cabelos, suas feições, uma linhagem e um semblante que só se reconheceria na graça das mulheres merínidas.

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Talvez não devessem olhar para trás

[s/i/c]


Condomínios & Noivas

Por toda parte em Fortaleza, constroem-se condomínios residenciais verticalizados. Os prédios ficam cada vez mais altos. Isso naturalmente implica que as pessoas são vistas mais e mais enformigadas desde lá de cima. E isso deve comprazer ao espírito de alguns. As pessoas parecem gostar da ideia de que o mundo fica mais ordenado se visto de cima. De muito de cima. Ou que, de manhã bem cedo, quando o sol é mais saudável, sua luz será menos desfrutada pelas centenas de crianças que moram à sombra dos grandes condomínios em flor. Ou ainda de que é muito mais fácil pôr fim a tudo quando se tem uma janela no décimo sétimo andar. 

A fantasmagoria maior assoma naquele estágio da construção em que há imensos véus, para evitar que os passantes, nas calçadas, em geral sem capacetes, caminhando rente às obras, sejam atingidos por detritos ou uma ou outra chave de grifo que caia da mão de um operário. Esses imensos véus flutuando ao vento parecem emprestar aos prédios um quê de noivas. Daquelas noivas histéricas, que estacam no átrio da igreja. E parece que não vão entrar nunca. Feito seus passos estivessem contados e o número esgotara-se justo naquele instante. Meio como se algo do frio de câmaras frigorificas as tivesse petrificado, transmutado em estátuas de sal. Como a mulher de Lot. Talvez como a mulher de Lot, certas noivas não devessem sequer pensar em olhar para trás. Será que é por isso que algumas delas estacam tão firme que os lustrosos  saltos-altos parecem querer afundar no granito? E é como se nada as persuadisse a seguir adiante. Ainda que um meliante ameaçasse roubar o Rolex no braço com que o pai tenta segurar-lhe, de alguma forma, a histeria. 

A histeria dessas noivas pode fornecer bom paralelo para a vertiginosa verticalização de Fortaleza. Algo já consolidado, a despeito da simbologia dos véus. Algo que não se pode olhar para trás. Da janela de um avião vê-se a espessa barreira de edifícios entre a beira-mar perdendo altura na direção dos bairros mais a sul e oeste. E, mais que tanto, algo reafirmado sempre e de novo, quando se passa por uma região pela qual não se caminhava só há uns poucos meses atrás. 


*   *   *

Em frente, marcha: o resplendor da fogueira

Três telas de Alfredo Volpi (1896-1988)


Mas isto é já Luiz Gonzaga e José Fernandes

Sim, há aquelas pessoas que vão morrer agarradas a si mesmas. Como se elas fossem os últimos troços a flutuar depois do dilúvio. Difícil supor de onde vem tanta obstinação. Aqui, não se trata de pessoas pusilânimes, fracas. E, ainda assim, há uma espécie de marca de Caim em suas testas. Uma maldição bíblica que elas não conseguem ver, quando todo mundo em volta já está cansado de ver. De ver e de aperceber-se daquela estranha marca cinza na testa, mesmo após um baile de carnaval.
Note bem, isso nada tem a ver com mau caráter. Elas, em geral, passam por (e efetivamente são) pessoas boníssimas. São, sobretudo, discretas. Economizam juízos de valor. Mostram-se prestativas, solícitas. Tem até senso - e muito bom - de humor. O tema de suas troças destrói pompa e circunstância. Tem endereço certo e boa medida de corrosividade. E de ternura. Porém é senso de humor que funciona até o limiar. E desse limiar falaremos mais adiante. No rastro, podem, eventualmente, importar-se com os outros. E efetivamente o fazem. São sociáveis, polidas, confiáveis. A dureza não está no trato com os demais. Isso elas resolvem, de um jeito, de outro. Com flexibilidade e jujubas de laranja. E jeitos e jujubas que surtem bem. Elas, aliás, não deixam de ser menos sensíveis por isso. E suas escolhas podem partir corações. Ser sem jeito não é com elas.
Porém, no caso, é mais na incapacidade de auto-perdão que mora o perigo. Especialmente no que refere a afetos. Se uma vez dão com os burros n'água; então, era uma vez. Quer dizer, não há qualquer possibilidade de a carga ser perdida em outro vau, porque qualquer contingência de risco há que ser lixada da ponta das unhas do cotidiano. O risco torna-se um precipício ainda mais fundo. Intransponível. O Grand Canyon no Arizona. E, mesmo que atravessável, o precipício, por lançamento de ponte, jumping ou escalada, entra aí o tal faz-de-conta. Um faz-de-conta que faz esquecer que o precipício pode ser contornado no cavalgar-se um potro recém-domado, como numa dessas clássicas passagens ao largo dos desfiladeiros, nos Westerns, onde se é acossado por índios, ladrões de cavalo, caçadores de recompensa, párias de toda sorte e, por vezes, até se tem a diligência assaltada. Mas, qual o quê! Nem que Gregory Peck, John Wayne e Clint Eastwood viessem à frente de um bando de bravos a coisa teria jeito. Ou que as cores do deserto fossem tão sobressaltadas quanto em Johnny Guitar. E se o precipício ao invés, fosse uma fossa submarina -- mesmo que branda, não uma daquelas fossas abissais, que na sua escuridão e frieza são jamais tocadas pela luz solar e onde vivem estranhos seres cegos que se guiam por sonares, como na mais funda delas, uma fenda com nome de mulher ao largo da costa sudeste do Japão -- sequer as astúcias subaquáticas do Capitão Nemo as demoveria de entrar no mediterrâneo dos riscos, de arriscar o mínimo possível. E por uma espécie de alergia. E é quando o faz-de-conta ganha letra capital.
O Faz-de-conta é o antídoto anti-alérgico que possibilita que a coisa permaneça como está. Paliativa. Anti-distônica. Despó de pir-lim-pim-pim. Lexotânica. Uma emenda. Daquelas bem piores que o soneto. Dos horripilantes: "é possível preservar-se". Eis o motto do Faz-de-Conta. E é o que o Faz-de-Conta sempre repete para a vítima do conto-do-vigário-do faz-de-conta. Quer dizer: preservar-se de sentir, eis a emenda. Sentir forte vira um problema quando o objeto desse sentimento ao invés de voucher, de ipad, de bilhete ida-e-volta a Paris tirado na promoção, de show de rock; ao invés de som para carro, degustação de bordeauxs numa boa casa de vinhos, de filminho decente, sábado à noite, de pós-graduação em Londres é, do contrário, outra pessoa. Aí, elas simplesmente endoidam. Não se permitem esse acinte. Seria como o quê? Como guardar fósforo usado dentro da caixa, de novo, Princesa. 

E aí então chega a prova de fogo. Ou aquele cavaleiro austero a quem desafiamos para uma partida de xadrez na bacia das almas, como no Sétimo Selo, de Bergman. Ou coisa parecida. Porque o fósforo, longe de gasto, ateia aquela colossal fogueira de São João da alma. Uma fogueira do desejo. Com bandeirinhas de Volpi da saudade e tudo mais, a despertar comichões no corpo e insônias na psique. E, aliás, não é ironia, diga, que quem melhor haja captado em arte e minimalismo o espírito do São João não tenha sido esse ítalo-paulistano? E, no entanto, em frente, marcha: o resplendor da fogueira, o encarnado das brasas, os fogos enchendo o céu de riscos. E o céu todo iluminado, pintadinho de balão, como diz Lamartine Babo, faz a gente olhar para cima. E ver como está lindo. Mas isto é já Luiz Gonzaga e José Fernandes.


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Um pouco mais longilínea, como fosse uma bela (e farta) mulher


A do tempo indispensável: Times New Roman

Uma elegância que vem da Renascença: Palatino

Cativante sobriedade: Arial

A revelação, não serifada, que veio da Coreia: Undotum


Meus tipos favoritos

Durante algum tempo usei exclusivamente Linux. E ainda usaria, não fosse as limitações de softwares para edição de sons e imagens. À época em que usei Linux, o editor de textos, no caso o Writer da Office -- também utilizado nas plataformas Windows e Mac – possuía, apenas na versão para Linux, um lindo tipo de letra. 
Passou o tempo. Deixei de usar Linux. Muita água passou debaixo da ponte. E, em geral, nos finais e começos de ano, até por cima dela. 
Um dia bateu uma saudade imensa daquele tipo de letra que tem, em especial, um dos "g's" mais bonitos de todas famílias das fontes gráficas. Uma letra sensualíssima, contando com um pequeno, charmoso repuxo transversal  na borda acima à direita desse invlugar "g". 
Puxando pela memória e com uma pequena ajuda do Google descobri ser a Undotum – ao que parece uma criação oriental: coreana (e eles são bons nisso). Mas infelizmente o editor de texto da Blogger parece não aceitar a Undotum. [1]
Em tempo, minhas fontes favoritas são a velha e boa Times New Roman – especialmente em versões em que ela assoma ligeiramente mais longilínea, como fosse uma bela (e farta) mulher esboçada por Mondigliani. (O editor de textos do Microsoft Works – mas não o Word ou o Writer –  em geral reproduz esse tipo.) A Paladino comum –  mais que a Paladino Linotype – é uma fonte de uma notável elegância. Talvez a mais clássica de todas as fontes. Me agrada ainda, para sair dos traços mais usuais, a Myriad Web Pro Condensed. E, por fim, mais outras duas não serifadas entre as eleitas: a discreta Arial Narrow; e a minha descoberta mais secreta: a Undotum.

Este texto é, em geral, visto em Arial Narrow, embora digitado em Times New Roman, aqui no editor de textos da Blogger. Na informática, há coisas que eu não entendo. Não poucas. E, a vasta maioria, não faço a menor questão de entender.


NOTA - a postagem "A Glosa" [ou "Achei a frase meio Saint-Éxupery..."], duas abaixo desta, está em Palatino.


[1] Em verdade, aceita, sim. Postagens mais acima, por exemplo, desde "Quem Precisa de Poréns" até "Uma Avenida Antônio Sales do Coração, estão todas elas "compostas" em Undotum

NOTA DE BASTANTE DEPOIS [02.04.12]
Descobri posteriormente, na coleção de fontes de acesso aberto do Google [Google Web Fonts], a Molengo. E em sua segunda reforma gráfica, no início mesmo de 2012, Afetivagem adotou a Molengo como fonte padrão. Há muitas fontes open source a escolher no site acima. Tantas quanto sejam as idiossincrasias de cada utente.

*   *   *

E nela, os istmos, onde o sol não vai

Canoas, de estilo camocinense, em Jericoacoara

Que fique bem claro

Estava escuro, um breu, mas foi tão bom. Chovia parco. As palavras que disseste. Foram ditas com tamanha despretensão. Sei que não vou esquecê-las. Pois foram breves e boas. Depois a mecha da lamparina latejando ouro e azul. E uma impressão curva, macia me foi repassada por tua pele e nela os istmos, onde o sol não vai, a luzir na penumbra. Grande sombra semovente à lona. Gravilha e ladrilhos calcários por matriz. Como a estampa que um ex-libris deixa. E porém houve o instante que não tinha mais nome em que não tinhas mais nome. E montantes e refluxos te molhavam na voz. Um sopro moldava vidros. E assim fomos com lagoas, aguapés, samburás e seixos. Ouvíamos a paisagem pulsar. Depois, devagar, o silêncio: rumor do mar tornado incenso. Chovia parco. A mão a separar em ti o que era amêndoa, o que era bago. A medir-te numa prece de cobre. O barro da bilha dando de beber sem lábio. Sutis gradações de branco, de arame. Porcelana em miolo, argila de pote. Uma sílaba. A gota transpirando sobre o mapa. Chovia parco. Sob o beiral, a calha represando as gotas para cisterna a bom caminho de cheia. E a breve intermitência da chuva a deixar estrias na praia. Naquela noite, eu sei, não houve queixas no mundo. Teu corpo chumbado em linfa e quartzos. Chovia parco. E parava. Havia areia e azulejos no dorso de teu pescoço. Era outro tempo. Era o mesmo. O sorvo da saliva fritando no teu lábio a caçarola. E a pedra resvalava quatro ou cinco vezes sobre a face das águas antes de sumir na transparência. O dente sulcando o potássio na fruta do peixe. Chovia parco. Parava. Um branco puxado a ouro acobreado em tua tez. A tessitura dos quadris afora, a dos tornozelos, a lassidão da cintura; tuas pressentidas membranas, os teus pelos, teus espasmos. Chovia parco. O cação perdendo o prumo, à flor d'água: sua compleição esguia. O mangue; e a lavandeira pousada no alto dos líquens e da orquídea. As escamas de tarpão respingando sobre nós, como confetes, à passagem da peixeira. Lá fora, imburanas oscilando ao vento recém-lavado. Chovia parco. Parava. Lembro da chispa negra em teus olhos. E dentro deles havia lagoas e oxalás. Uma felicidade vaga e espontânea, calcada no riso mudo a ferir o escuro. Aquele não ter pressa em erguer acampamento. Chovia parco. Formigas de asas a circundar a candeia. Lembro de beber a chuva por suvenir. De tomar tento. Lembro das dunas à volta, que eram gêmeas das tuas dunas. Do vento, que voltei, depois, para ouvir sozinho, dizer na tua voz, que o fortuito e o encontro, quando lhanos a norte, esclarecem a mais basta noite.


* * *

domingo, 22 de maio de 2011

Eu prefiro um de estepe

[s/i/c]



Sabores

Você prefere de baunilha, de marzipã ou de limão?
Eu prefiro um de estepe, de deserto, de solidão.


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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Subo as mulheres aos degraus. Seus pedregulhos: Helder




'Há cidades cor de pérola onde as mulheres'

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

Herberto Helder


NOTA - não há erros de pontuação. Helder é Helder. É assim mesmo. A gente estica a memória e tenta pensar num poeta brasileiro contemporâneo tão forte quanto Helder. E não encontra um só.

*   *   *

La Belle au bois dormant

[s/i/c]


A Bela Adormecida

On ne trouve plus de femelle/ Qui dormît si tranquillement”.
. [Charles Perrault]


Ela agora só podia espiá-lo – entre um e outro control-vcontrol-c – do trabalho. Essa banalização da cópia que converteu o ofício do jornalista em compilações e sinopses. Isso até que rimava com a sordidez geral da coisa. E havia retirado suas micropostagens do ar tão-logo ele assinalou, do seu lado de lá do servidor – das coisas, da vida, da cidade – após meses a fio sem rastro, numa sorte de exílio digital, que estava de novo ciente da presença dela, na rede. E, inclusive, a monitorá-lo em recorrência. E ela então – previsível – retirou fotos, referências, músicas, vídeos, linques. O diabo. Qualquer agitar, pulsar mínimo, que pudesse dar bandeira. Tinha de ser a boa moça, como sempre. Ao menos tão boa que o recém-namorado, a quem cozinhara anos a fio até perceber que ele era um bom sujeito e podia ser de alguma serventia, lhe ajudasse a obter, então, por meio de uma amiga dele, um emprego de redatora auxiliar no maior conglomerado de comunicação do estado. Justo onde fazia essas triagens e pequenas adaptações do que chegava cornucopiosamente pelas agências de notícias ou pelos repórteres de além-redação.
O que ela não queria era ser esquecida. Porque seu maior vexame: sentir-se desimportante. Não só para “x” ou “y”. Mas para o Planeta Terra. Agora, isso não implicava em que operasse algo que redundasse num esforço continuado a merecer reconhecimento. E um dia, quem sabe, um Prêmio Nobel da Adolescência. Ela julgava que o mundo iria curvar-se, um dia. Pelos seus belos olhos. E, assim, ela apenas teria de mostrar-se bela – como se não houvesse trocentos caminhões cheios de beldades japonesas ou não de estonteante beleza congestionando uma reta tão longa quanto a Belém-Brasília. Mas nem tão rodoviariamente comprometida assim ela era. Fora uma única vez ao Tocantins. Sua geografia ainda não era tão longa. E muito menos escrava do passado se percebia. Sentia-se boa simplesmente. Ponto. Sabendo sopesar exatamente a conveniência que lhe proporcionava cada pequena mentira nos modorrentos plantões de suas noites, enquanto a chuva caía lá fora e em sua cabeça latejavam enxaquecas. Sem jamais pensar que mentiras desse gênero, tão ao largo da realidade, encapsulam-se em botões, que lá, mais adiante, vão causar dor a alguém. Ela apenas seguia com as mentiras de praxe, dizendo para si mesma: elas não entram no cômputo, desde que não afetem o modus operandi. No caso, por modus operandi, ela entendia ocupar-se com essas coisas do coração e, quem sabe, um tanto vagamente, com o sentimentos dos outros – se alguma sensibilidade mais madura resguardasse para tanto. E era essa a matriz de seu catolicismo e o modo como esperava que Nossa Senhora de Fátima, de Aparecida, de Guadalupe ou de Lurdes a abençoasse para sempre e de novo, de modo que ela não andasse permanentemente necessitada de um perpétuo socorro. E, logo, pudesse continuar ela mesma. Ter aquele estilo que ninguém mais tinha. E sua auto-estima, em alta, galgasse a muralha da China, apesar das insônias, enxaquecas, Buscopans.
E havia aquela necessidade de não propriamente ser querida – isso seria demais – mas pelo menos lembrada pelo maior número possível de pessoas. (Lembram da teoria da importância?) E, quando possível, desejada. Isso até que não destoava de certos signos femininos, eram apenas superposições enfáticas do seu caráter. Como se essa lembrança desejante, que os outros dela tivessem, fosse, sob o ponto de vista dela, uma modalidade de preocupar-se com eles. De cuidar deles. Lhes fazer companhia. Um tanto assim como se pensa que, no Twitter, Luciano Huck seria mais ou menos uma espécie de santo padroeiro que, à hora de dormir, baixasse numa nuvem, espiritualmente, a cada um se seus seguidores, a trazer um pouco de leite morno, conforto, um bom livro para ler ou algumas palavras de incentivo.
No fim, o importante, avaliou, era prosseguir a mesma boa moça de sempre. De família – embora uma vez tenha achado tentadora a carreira de acompanhante, ofertada, muito em discreto e raro tino profissional, por um colega da faculdade. Boa filha. Boa amiga. Boa irmã. Boa amante. Boa namorada. Boa nadadora dos duzentos metros borboleta. Futura boa mãe. Jovem. Bonita. Ainda a mesma fedelha, morena, esbelta, que corria para se olhar ao primeiro espelho, ao primeiro toalete, e daí aproveitava para conferir se havia alguma mensagem, em desoras, no celular. Em caso afirmativo, após uma mentira menos volumosa aos circunstantes, disparava ao apartamento do fotógrafo que mal pingava na cidade de suas viagens em torno da Terra, e ela o encontrava esporadicamente e nem tanto em segredo quanto pensava. Ou então, para o condomínio do namorado, se é que algum coelho – em termos de carreira, migalha ou dividendo – podia sair mesmo da cartola do namorado àquelas alturas do campeonato. Por essa época, a coisa ainda seguia em suposições. Só depois veio esse empreguinho reles. Mas, de qualquer forma, garantindo os trocos.
Ela, agora, já não era exatamente a que costumava ser só uns anos atrás. A que ansiava ir em busca de aventuras adolescentes na micareta. E chorava ao ler o Meu Michael, de Oz. Embora a adolescência nunca tenha ficado totalmente de escanteio. A adolescência nela continuou sob duas formas: mofo e metafísica. Por mofo, ela podia apenas ser irritantemente teimosa, mesmo quando sabia que operacionalmente estava errada. E por isso era advertida. E isso era mesmo que nada. Metafísica, porque algo nela ainda não chegava a funcionar no registro da mulher, tendendo sempre à espessa volubilidade da adolescente. Ou da criança e seus mimos. E essa metafísica da micareta – da festa patrocinada, plástica, cosmética, do kit com os brindes, do abadá, do gosto do acidulante na bebida energética – ainda prevalecia junto com a pulsão para gastar sua hora à beira de uma sociabilidade furiosamente virtual, feito uma modalidade de masturbação em que os dedos tem de ser hábeis o suficiente para simultaneamente manejar dois aparatos, em pólos opostos. E é preciso saber regulá-los, com mais firmeza ou suavidade, como quando se toca um velho órgão Moog com a destra e um moderno sintetizador Yamaha com a sestra.
Aliás, dessa metafísica da micareta reflui, em linha reta, seu acentuado gosto por brindes. Tudo que ela tinha a mínima possibilidade de ganhar – nem que fosse um simples kit da Avon ou um par de ingressos para a Noite da Lambada no Mucuripe Clube, sorteados via Twitter – lhe parecia uma dádiva celeste. Ouro, incenso, mirra. Minas de Salomão. Baús da Felicidade. Delíquios megasênicos. Seus olhos densamente negros brilhavam intensos. E esse mesmo espírito de abnegação e brindes era o que lhe comandava toda uma ética. Uma ética, no fundo, católica e carismática, voltada para orações à Virgem. E porque era assim que ela dizia a si:
Se eu ganhar o tônico facial para peles sensíveis, vou ficar tão feliz, que todos à minha volta também vão – era uma sua suposição. Mas não mera. Ela punha fé nisso.
E, logo, ganhar o tônico facial para peles sensíveis convertia-se em algo importante, de fato, para ela; e, sem embargo, segundo ela, ainda mais crucial para o mundo, que ficaria um lugar melhor por conta de sua radiante felicidade. E, portanto, o tônico facial para peles sensíveis, deveria ser ardorosamente reivindicado em suas preces. Em especial, as dirigidas à Virgem que, como mulher, devia entender melhor que a Santíssima Trindade a importância que um creme facial para peles sensíveis tem na vida de uma jovem mulher.
Às vezes, hesitava diante dessa ética da prece, é verdade. Mas logo esquecia as hesitações. Como podia estar errada? E sua volubilidade impunha-se como a fragrância do Chanel Nº5. Era espontânea. "Pensar demais faz mal à cabeça" – despensava, enquanto machucava a banana no garfo, que depois seria polvilhada de leite em pó. Isso, no entanto, não a poupava das terríveis enxaquecas. E, sem dúvida, um entranhado senso de negócios pairava sobre seu espírito, como fosse coisa de família, ainda que ela se considerasse um temperamento artístico. E, logo, longe da ética protestante, embora com algum espírito do capitalismo. 
Como neta preferida da avó, havia, ao seu turno, faturado no espólio um apartamento com vista para o mar. E seguindo costumes locais em relação a imóveis – tão dados à não ecológica prática de sucessivas, vertiginosas, dispensáveis reformas – logo mandara destruir as paredes de um dos quartos contíguos à sala, para aumentá-la, e nela instalar um balanço, onde, noite após noite oscilasse seu capricho, bipolarmente, entre seguir o curso de certos inconfessáveis desejos ou optar pela segurança financeira e masculina que só um marido e uma família poderiam lhe dar – a despeito do pouco verniz e do excesso de contabilidades do principal pretendente.
Era isso. Essas duas opções. Mas era só isso? Isso era tudo na vida? E sempre buscava dizer para si mesma:
Embora não lhe pareça tanto, quem pode ter tudo neste mundo?
Às vezes sentia que o que lhe restava era antes esse morrer de vez e para sempre ainda antes dos trinta. Não fisicamente. Mas num acomodar-se. Anular-se. Deixar de flertar com os devaneios juvenis. Mesmo que ela se defendesse. E aí apelasse para outras vidas. Para vidas exemplares. Para modelos que decalva das novelas. Ou gente bem sucedida, que via na vida real: suas mentoras, por exemplo.
Porém, quando ela própria olhava à lupa as mentoras, um frio lhe percorria a medula. Para cada uma delas – e eram três – havia terríveis impasses. A infelicidade no casamento às custas da conta bancária do marido – a manter certo padrão de vida elevado e alguma futilidade em forma de umas poucas peças a mais na cristaleira ou milhagens ao redor do mundo no cartão de crédito – era o apanágio da que ela mais admirava.
Um duplo divórcio; certo exotismo antropológico na escolha dos parceiros; uma noção vulgar de sexualidade provinda de uma família excessivamente tradicional, rígida por contraposição a amigos tresloucadamente liberais nos anos de faculdade; a insegurança quanto aos próprios dotes de mulher (que, de resto, não tinham sido pequenos embora já se encontrassem um pouco puídos); o total pânico de chegar à meia-idade sozinha; marcavam os dias da segunda das mentoras, que ela à admiração jogava também por sobre uma pitada de calculado humor.
E, por fim, havia a terceira, que era o paroxismo de seus receios. E da qual sentia  verdadeiro pavor. Não da figura em si. Mas sobretudo de um dia, quiçá, tornar-se como ela. E então, esse último caso, ela o temia com todas as forças. Seria uma hecatombe. Largar às traças as páginas de um livro bom, fino leque chinês de bela estampa. Um desastre completo: já estar para lá da capital da meia-idade e a passear, celibatária, pelas ruas dessa pré-velhice com ares de operosa chefe de departamento, a esgrimir poses de gestora rigorosa sob taieullers de uma austeridade militar. Sabe-se que o que mais se teme – ou comisera – é aquilo onde mora perigo de a gente se converter, por uma bizarra analogia.
E então lhe vinha à mente os impulsos dessa terceira mentora. Dessa matrona sem filhos, de grandes olhos duros, fixos, que parira seu próprio sucesso profissional a qualquer custo. De rosto em forma de maçã e um sorriso semelhante ao daquelas caveiras mexicanas da Fiesta de los Muertos. De demonstrar certo gozo, sincero e perverso, em reprovar quase toda uma turma de graduandos. E não exatamente por méritos, deméritos; porém para compensar-se de frustrações – que ela punha no cômputo das vantagens: ser mulher, liberada, autônoma, sem filhos, livre, a pagar seus próprios impostos. E, no fim de tudo, isso somado dava em quê? Apenas em algumas carapuças. Carapuças e fealdades e futilidades e temores. Os mesmos que se encontra em algumas mulheres por essa vida a meio. Não nas realmente mais libertas, cuidadosas, felizes, abertas à conversa e nem por isso menos autônomas; mas, em especial, naquelas ditas: poderosas. Ou seja, naquelas que, ao modo de homens, fizeram do acúmulo de poder o próprio centro, a periferia e as estações de metrô de suas vidas. Seja por serem belas – e explorarem isso à migalha, objetualizando-se e aos demais em torno –, seja por operarem no mesmo registro do machismo e da mesquinhez daqueles homens, os que querem transformar em coisa tudo que lhes está sob, sujeito, à responsabilidade.
E, porém, todos sabiam o quanto um dos esportes diletos dessa terceira mentora passava por denunciar colegas junto ao colegiado. Para bajular pro-reitores e, em nível puramente teórico mas nem sempre, tentar a reciclagem dos surrados dogmas marxistas, de quando ela era jovem, até bonita, e o desespero pelo acúmulo de poder e um câncer ainda não lhe tinham roído um dos seios.
Sim, especialmente enquanto o corpo fenece ou equilibra-se inseguro, como o funâmbulo na corda bamba, ainda se vê a vida com os olhos apreensivos de quem aspira consertá-la. De alguma forma. Sob algum lance de dados. Se alguma gota de melancolia ainda varre a tepidez dos dias. E como um raio pode explodir a pasmaceira dessa virulenta fome de mando. Depois, quando esse estágio fica para trás, e o frio do risco e das apostas já estão devidamente postos no freezer, como aquelas polpas de fruta que a gente acaba esquecendo, é necessário apenas acumular poder. No fim de tudo, talvez, para acabar com algumas plásticas a mais nas maçãs do rosto, no sorriso de caveira do Dia de los Muertos, e desesperadamente no encalço daquela migalha de celebridade que só a província confere. Tão peculiar formato: tornar-se, diga-se, uma Heloísa Juaçaba, benemérita das artes plásticas. Uma Adísia Sá, decana das jornalistas, embora sem verve ou nenhuma imaginação. Era isso, atingir o patamar de uma Adísia Sá dessas qualquer, no jogo do bicho. Que, antes de morrer, fornece assunto para um TCC ou, no máximo, uma monografiazinha de mestrado meio chinfrim, decalcada de teorias surradas e fora do lugar. Aquelas mesmas que, depois de solenemente defendidas, têm a impressão custeada do próprio bolso do autor, por editoras do Sul, especializadas em publicar monografias e teses que ninguém lê. Edições primeiras e únicas, que mofam nas prateleiras das bibliotecas e depois dos sebos e depois da usina de reciclagem, junto com as rebuscadas dedicatórias que o tempo trata como a flores.
E, então, no meio da noite, a saber que amanhã bem cedo tinha de estar na redação ela pensou vários diferentes rumos para si, que não passavam pelas três mentoras. Pensou que possuía uma distinção: ainda era jovem, o tempo tardaria. Até pensou num famoso quadro dos Trapalhões em que Didi, parodiando Maria Bethânia, cantava uma música de Chico Buarque baseada em uma ciranda de roda que fazia referência aos três amores de Terezinha de Jesus, a tal que deu a queda e foi ao chão. E mais devaneios pensou, refluindo, quase sempre, às três mentoras. Para depois delas afastar-se de novo. E de novo voltar. Como o latejar da dor em sua cabeça. Mas, com um pouco de sorte, o tempo lhe seria lento.
Porém, não. Quão zás o tempo passou e lhe deu a manhã áquela noite. E o tempo sem mão para ninguém, estendia-se em contramão por uma longa e sinuosa estrada, como nos Beatles. E nós vamos colhendo beijos, como diz outra canção. Melhor nem pensar nisso por ora, ponderou. Melhor ralar. Ralar e ralar e ralar. E aí deixar boa parte das coisas simplesmente acontecer. Como se fez na faculdade. Quatro anos de sofrimento. Com aquelas terríveis aulas de Teorias da Comunicação e, contrariedade suprema: Economia Política.
Tudo isso pesado, e a madrugada já apagara-se atrás da curva do dia aceso e pleno, sobre seus quartzos, cristais, areias e águas. Fumegando desde o limiar. O despertador a postos, no criado mudo, à luz da janela, dissolvendo-se em fade.
E, súbito, ela percorria a Alhambra. Saía da esplanada do Palácio de Carlos V na direção da Puerta de la Justicia. Tocando com os olhos as filigranas. Quase com dó de pisar nos mosaicos que inspiraram as artes gráficas de Escher. Banhando-se na piscina de Comares. E, refeita, envolta numa abaya e envergando um hijab, mirando paisagens que muito mais tenras tornavam-se pela moldura das janelas e seus arabescos e entalhes. E, com uma moldura dessas, o vale, lá, abaixo, com sua paisagem ordenada pela mão humana, e as três culturas que quase se fundem para dar paga daquela maravilha assentada sobre o rochedo, ainda assomava mais belo, com suas oliveiras e carvalhos. Sua cabeça errara a almofada, por pouco e repousava diretamente sobre a colcha, com uma pequena poça de cuspe ao lado da mão em concha, pousada sobre a barra do lençol.

E ela, como quase sempre, bela-adormecia de cansaço.


* * *