sexta-feira, 20 de maio de 2011

Subo as mulheres aos degraus. Seus pedregulhos: Helder




'Há cidades cor de pérola onde as mulheres'

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um des-
espero .fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

Herberto Helder


NOTA - não há erros de pontuação. Helder é Helder. É assim mesmo. A gente estica a memória e tenta pensar num poeta brasileiro contemporâneo tão forte quanto Helder. E não encontra um só.

*   *   *

La Belle au bois dormant

[s/i/c]


A Bela Adormecida

On ne trouve plus de femelle/ Qui dormît si tranquillement”.
. [Charles Perrault]


Ela agora só podia espiá-lo – entre um e outro control-vcontrol-c – do trabalho. Essa banalização da cópia que converteu o ofício do jornalista em compilações e sinopses. Isso até que rimava com a sordidez geral da coisa. E havia retirado suas micropostagens do ar tão-logo ele assinalou, do seu lado de lá do servidor – das coisas, da vida, da cidade – após meses a fio sem rastro, numa sorte de exílio digital, que estava de novo ciente da presença dela, na rede. E, inclusive, a monitorá-lo em recorrência. E ela então – previsível – retirou fotos, referências, músicas, vídeos, linques. O diabo. Qualquer agitar, pulsar mínimo, que pudesse dar bandeira. Tinha de ser a boa moça, como sempre. Ao menos tão boa que o recém-namorado, a quem cozinhara anos a fio até perceber que ele era um bom sujeito e podia ser de alguma serventia, lhe ajudasse a obter, então, por meio de uma amiga dele, um emprego de redatora auxiliar no maior conglomerado de comunicação do estado. Justo onde fazia essas triagens e pequenas adaptações do que chegava cornucopiosamente pelas agências de notícias ou pelos repórteres de além-redação.
O que ela não queria era ser esquecida. Porque seu maior vexame: sentir-se desimportante. Não só para “x” ou “y”. Mas para o Planeta Terra. Agora, isso não implicava em que operasse algo que redundasse num esforço continuado a merecer reconhecimento. E um dia, quem sabe, um Prêmio Nobel da Adolescência. Ela julgava que o mundo iria curvar-se, um dia. Pelos seus belos olhos. E, assim, ela apenas teria de mostrar-se bela – como se não houvesse trocentos caminhões cheios de beldades japonesas ou não de estonteante beleza congestionando uma reta tão longa quanto a Belém-Brasília. Mas nem tão rodoviariamente comprometida assim ela era. Fora uma única vez ao Tocantins. Sua geografia ainda não era tão longa. E muito menos escrava do passado se percebia. Sentia-se boa simplesmente. Ponto. Sabendo sopesar exatamente a conveniência que lhe proporcionava cada pequena mentira nos modorrentos plantões de suas noites, enquanto a chuva caía lá fora e em sua cabeça latejavam enxaquecas. Sem jamais pensar que mentiras desse gênero, tão ao largo da realidade, encapsulam-se em botões, que lá, mais adiante, vão causar dor a alguém. Ela apenas seguia com as mentiras de praxe, dizendo para si mesma: elas não entram no cômputo, desde que não afetem o modus operandi. No caso, por modus operandi, ela entendia ocupar-se com essas coisas do coração e, quem sabe, um tanto vagamente, com o sentimentos dos outros – se alguma sensibilidade mais madura resguardasse para tanto. E era essa a matriz de seu catolicismo e o modo como esperava que Nossa Senhora de Fátima, de Aparecida, de Guadalupe ou de Lurdes a abençoasse para sempre e de novo, de modo que ela não andasse permanentemente necessitada de um perpétuo socorro. E, logo, pudesse continuar ela mesma. Ter aquele estilo que ninguém mais tinha. E sua auto-estima, em alta, galgasse a muralha da China, apesar das insônias, enxaquecas, Buscopans.
E havia aquela necessidade de não propriamente ser querida – isso seria demais – mas pelo menos lembrada pelo maior número possível de pessoas. (Lembram da teoria da importância?) E, quando possível, desejada. Isso até que não destoava de certos signos femininos, eram apenas superposições enfáticas do seu caráter. Como se essa lembrança desejante, que os outros dela tivessem, fosse, sob o ponto de vista dela, uma modalidade de preocupar-se com eles. De cuidar deles. Lhes fazer companhia. Um tanto assim como se pensa que, no Twitter, Luciano Huck seria mais ou menos uma espécie de santo padroeiro que, à hora de dormir, baixasse numa nuvem, espiritualmente, a cada um se seus seguidores, a trazer um pouco de leite morno, conforto, um bom livro para ler ou algumas palavras de incentivo.
No fim, o importante, avaliou, era prosseguir a mesma boa moça de sempre. De família – embora uma vez tenha achado tentadora a carreira de acompanhante, ofertada, muito em discreto e raro tino profissional, por um colega da faculdade. Boa filha. Boa amiga. Boa irmã. Boa amante. Boa namorada. Boa nadadora dos duzentos metros borboleta. Futura boa mãe. Jovem. Bonita. Ainda a mesma fedelha, morena, esbelta, que corria para se olhar ao primeiro espelho, ao primeiro toalete, e daí aproveitava para conferir se havia alguma mensagem, em desoras, no celular. Em caso afirmativo, após uma mentira menos volumosa aos circunstantes, disparava ao apartamento do fotógrafo que mal pingava na cidade de suas viagens em torno da Terra, e ela o encontrava esporadicamente e nem tanto em segredo quanto pensava. Ou então, para o condomínio do namorado, se é que algum coelho – em termos de carreira, migalha ou dividendo – podia sair mesmo da cartola do namorado àquelas alturas do campeonato. Por essa época, a coisa ainda seguia em suposições. Só depois veio esse empreguinho reles. Mas, de qualquer forma, garantindo os trocos.
Ela, agora, já não era exatamente a que costumava ser só uns anos atrás. A que ansiava ir em busca de aventuras adolescentes na micareta. E chorava ao ler o Meu Michael, de Oz. Embora a adolescência nunca tenha ficado totalmente de escanteio. A adolescência nela continuou sob duas formas: mofo e metafísica. Por mofo, ela podia apenas ser irritantemente teimosa, mesmo quando sabia que operacionalmente estava errada. E por isso era advertida. E isso era mesmo que nada. Metafísica, porque algo nela ainda não chegava a funcionar no registro da mulher, tendendo sempre à espessa volubilidade da adolescente. Ou da criança e seus mimos. E essa metafísica da micareta – da festa patrocinada, plástica, cosmética, do kit com os brindes, do abadá, do gosto do acidulante na bebida energética – ainda prevalecia junto com a pulsão para gastar sua hora à beira de uma sociabilidade furiosamente virtual, feito uma modalidade de masturbação em que os dedos tem de ser hábeis o suficiente para simultaneamente manejar dois aparatos, em pólos opostos. E é preciso saber regulá-los, com mais firmeza ou suavidade, como quando se toca um velho órgão Moog com a destra e um moderno sintetizador Yamaha com a sestra.
Aliás, dessa metafísica da micareta reflui, em linha reta, seu acentuado gosto por brindes. Tudo que ela tinha a mínima possibilidade de ganhar – nem que fosse um simples kit da Avon ou um par de ingressos para a Noite da Lambada no Mucuripe Clube, sorteados via Twitter – lhe parecia uma dádiva celeste. Ouro, incenso, mirra. Minas de Salomão. Baús da Felicidade. Delíquios megasênicos. Seus olhos densamente negros brilhavam intensos. E esse mesmo espírito de abnegação e brindes era o que lhe comandava toda uma ética. Uma ética, no fundo, católica e carismática, voltada para orações à Virgem. E porque era assim que ela dizia a si:
Se eu ganhar o tônico facial para peles sensíveis, vou ficar tão feliz, que todos à minha volta também vão – era uma sua suposição. Mas não mera. Ela punha fé nisso.
E, logo, ganhar o tônico facial para peles sensíveis convertia-se em algo importante, de fato, para ela; e, sem embargo, segundo ela, ainda mais crucial para o mundo, que ficaria um lugar melhor por conta de sua radiante felicidade. E, portanto, o tônico facial para peles sensíveis, deveria ser ardorosamente reivindicado em suas preces. Em especial, as dirigidas à Virgem que, como mulher, devia entender melhor que a Santíssima Trindade a importância que um creme facial para peles sensíveis tem na vida de uma jovem mulher.
Às vezes, hesitava diante dessa ética da prece, é verdade. Mas logo esquecia as hesitações. Como podia estar errada? E sua volubilidade impunha-se como a fragrância do Chanel Nº5. Era espontânea. "Pensar demais faz mal à cabeça" – despensava, enquanto machucava a banana no garfo, que depois seria polvilhada de leite em pó. Isso, no entanto, não a poupava das terríveis enxaquecas. E, sem dúvida, um entranhado senso de negócios pairava sobre seu espírito, como fosse coisa de família, ainda que ela se considerasse um temperamento artístico. E, logo, longe da ética protestante, embora com algum espírito do capitalismo. 
Como neta preferida da avó, havia, ao seu turno, faturado no espólio um apartamento com vista para o mar. E seguindo costumes locais em relação a imóveis – tão dados à não ecológica prática de sucessivas, vertiginosas, dispensáveis reformas – logo mandara destruir as paredes de um dos quartos contíguos à sala, para aumentá-la, e nela instalar um balanço, onde, noite após noite oscilasse seu capricho, bipolarmente, entre seguir o curso de certos inconfessáveis desejos ou optar pela segurança financeira e masculina que só um marido e uma família poderiam lhe dar – a despeito do pouco verniz e do excesso de contabilidades do principal pretendente.
Era isso. Essas duas opções. Mas era só isso? Isso era tudo na vida? E sempre buscava dizer para si mesma:
Embora não lhe pareça tanto, quem pode ter tudo neste mundo?
Às vezes sentia que o que lhe restava era antes esse morrer de vez e para sempre ainda antes dos trinta. Não fisicamente. Mas num acomodar-se. Anular-se. Deixar de flertar com os devaneios juvenis. Mesmo que ela se defendesse. E aí apelasse para outras vidas. Para vidas exemplares. Para modelos que decalva das novelas. Ou gente bem sucedida, que via na vida real: suas mentoras, por exemplo.
Porém, quando ela própria olhava à lupa as mentoras, um frio lhe percorria a medula. Para cada uma delas – e eram três – havia terríveis impasses. A infelicidade no casamento às custas da conta bancária do marido – a manter certo padrão de vida elevado e alguma futilidade em forma de umas poucas peças a mais na cristaleira ou milhagens ao redor do mundo no cartão de crédito – era o apanágio da que ela mais admirava.
Um duplo divórcio; certo exotismo antropológico na escolha dos parceiros; uma noção vulgar de sexualidade provinda de uma família excessivamente tradicional, rígida por contraposição a amigos tresloucadamente liberais nos anos de faculdade; a insegurança quanto aos próprios dotes de mulher (que, de resto, não tinham sido pequenos embora já se encontrassem um pouco puídos); o total pânico de chegar à meia-idade sozinha; marcavam os dias da segunda das mentoras, que ela à admiração jogava também por sobre uma pitada de calculado humor.
E, por fim, havia a terceira, que era o paroxismo de seus receios. E da qual sentia  verdadeiro pavor. Não da figura em si. Mas sobretudo de um dia, quiçá, tornar-se como ela. E então, esse último caso, ela o temia com todas as forças. Seria uma hecatombe. Largar às traças as páginas de um livro bom, fino leque chinês de bela estampa. Um desastre completo: já estar para lá da capital da meia-idade e a passear, celibatária, pelas ruas dessa pré-velhice com ares de operosa chefe de departamento, a esgrimir poses de gestora rigorosa sob taieullers de uma austeridade militar. Sabe-se que o que mais se teme – ou comisera – é aquilo onde mora perigo de a gente se converter, por uma bizarra analogia.
E então lhe vinha à mente os impulsos dessa terceira mentora. Dessa matrona sem filhos, de grandes olhos duros, fixos, que parira seu próprio sucesso profissional a qualquer custo. De rosto em forma de maçã e um sorriso semelhante ao daquelas caveiras mexicanas da Fiesta de los Muertos. De demonstrar certo gozo, sincero e perverso, em reprovar quase toda uma turma de graduandos. E não exatamente por méritos, deméritos; porém para compensar-se de frustrações – que ela punha no cômputo das vantagens: ser mulher, liberada, autônoma, sem filhos, livre, a pagar seus próprios impostos. E, no fim de tudo, isso somado dava em quê? Apenas em algumas carapuças. Carapuças e fealdades e futilidades e temores. Os mesmos que se encontra em algumas mulheres por essa vida a meio. Não nas realmente mais libertas, cuidadosas, felizes, abertas à conversa e nem por isso menos autônomas; mas, em especial, naquelas ditas: poderosas. Ou seja, naquelas que, ao modo de homens, fizeram do acúmulo de poder o próprio centro, a periferia e as estações de metrô de suas vidas. Seja por serem belas – e explorarem isso à migalha, objetualizando-se e aos demais em torno –, seja por operarem no mesmo registro do machismo e da mesquinhez daqueles homens, os que querem transformar em coisa tudo que lhes está sob, sujeito, à responsabilidade.
E, porém, todos sabiam o quanto um dos esportes diletos dessa terceira mentora passava por denunciar colegas junto ao colegiado. Para bajular pro-reitores e, em nível puramente teórico mas nem sempre, tentar a reciclagem dos surrados dogmas marxistas, de quando ela era jovem, até bonita, e o desespero pelo acúmulo de poder e um câncer ainda não lhe tinham roído um dos seios.
Sim, especialmente enquanto o corpo fenece ou equilibra-se inseguro, como o funâmbulo na corda bamba, ainda se vê a vida com os olhos apreensivos de quem aspira consertá-la. De alguma forma. Sob algum lance de dados. Se alguma gota de melancolia ainda varre a tepidez dos dias. E como um raio pode explodir a pasmaceira dessa virulenta fome de mando. Depois, quando esse estágio fica para trás, e o frio do risco e das apostas já estão devidamente postos no freezer, como aquelas polpas de fruta que a gente acaba esquecendo, é necessário apenas acumular poder. No fim de tudo, talvez, para acabar com algumas plásticas a mais nas maçãs do rosto, no sorriso de caveira do Dia de los Muertos, e desesperadamente no encalço daquela migalha de celebridade que só a província confere. Tão peculiar formato: tornar-se, diga-se, uma Heloísa Juaçaba, benemérita das artes plásticas. Uma Adísia Sá, decana das jornalistas, embora sem verve ou nenhuma imaginação. Era isso, atingir o patamar de uma Adísia Sá dessas qualquer, no jogo do bicho. Que, antes de morrer, fornece assunto para um TCC ou, no máximo, uma monografiazinha de mestrado meio chinfrim, decalcada de teorias surradas e fora do lugar. Aquelas mesmas que, depois de solenemente defendidas, têm a impressão custeada do próprio bolso do autor, por editoras do Sul, especializadas em publicar monografias e teses que ninguém lê. Edições primeiras e únicas, que mofam nas prateleiras das bibliotecas e depois dos sebos e depois da usina de reciclagem, junto com as rebuscadas dedicatórias que o tempo trata como a flores.
E, então, no meio da noite, a saber que amanhã bem cedo tinha de estar na redação ela pensou vários diferentes rumos para si, que não passavam pelas três mentoras. Pensou que possuía uma distinção: ainda era jovem, o tempo tardaria. Até pensou num famoso quadro dos Trapalhões em que Didi, parodiando Maria Bethânia, cantava uma música de Chico Buarque baseada em uma ciranda de roda que fazia referência aos três amores de Terezinha de Jesus, a tal que deu a queda e foi ao chão. E mais devaneios pensou, refluindo, quase sempre, às três mentoras. Para depois delas afastar-se de novo. E de novo voltar. Como o latejar da dor em sua cabeça. Mas, com um pouco de sorte, o tempo lhe seria lento.
Porém, não. Quão zás o tempo passou e lhe deu a manhã áquela noite. E o tempo sem mão para ninguém, estendia-se em contramão por uma longa e sinuosa estrada, como nos Beatles. E nós vamos colhendo beijos, como diz outra canção. Melhor nem pensar nisso por ora, ponderou. Melhor ralar. Ralar e ralar e ralar. E aí deixar boa parte das coisas simplesmente acontecer. Como se fez na faculdade. Quatro anos de sofrimento. Com aquelas terríveis aulas de Teorias da Comunicação e, contrariedade suprema: Economia Política.
Tudo isso pesado, e a madrugada já apagara-se atrás da curva do dia aceso e pleno, sobre seus quartzos, cristais, areias e águas. Fumegando desde o limiar. O despertador a postos, no criado mudo, à luz da janela, dissolvendo-se em fade.
E, súbito, ela percorria a Alhambra. Saía da esplanada do Palácio de Carlos V na direção da Puerta de la Justicia. Tocando com os olhos as filigranas. Quase com dó de pisar nos mosaicos que inspiraram as artes gráficas de Escher. Banhando-se na piscina de Comares. E, refeita, envolta numa abaya e envergando um hijab, mirando paisagens que muito mais tenras tornavam-se pela moldura das janelas e seus arabescos e entalhes. E, com uma moldura dessas, o vale, lá, abaixo, com sua paisagem ordenada pela mão humana, e as três culturas que quase se fundem para dar paga daquela maravilha assentada sobre o rochedo, ainda assomava mais belo, com suas oliveiras e carvalhos. Sua cabeça errara a almofada, por pouco e repousava diretamente sobre a colcha, com uma pequena poça de cuspe ao lado da mão em concha, pousada sobre a barra do lençol.

E ela, como quase sempre, bela-adormecia de cansaço.


* * *

Moving Staircase

[s/i/c]


Anedota de Português

O Manuel viajou para o Brasil. Era sua primeira viagem, cercada de expectativas.
Depois de duas semanas, seu amigo Joaquim foi buscá-lo no aeroporto:
E então, Manuel, como se foi de Brasil?
Ah, pois nem te conto, Joaquim: o Brasil é lindo! Trouxe-te até um berimbau e fitinhas do Bonfim.
Mas diga-me cá uma coisinha: o que mais gostaste?
Ora, de não pouco: as praias, a música, as mulheres... O Brasil é uma maravilha!
E o que menos gostaste, Manuel?
Das escadas rolantes?
De facto? 
Imaginas que estava a subir por uma delas, houve um blackout e lá fico eu, quase duas horas, acolá, de pé; a esperar o retorno da energia.
Arre, mas tu és mesmo burro, Manuel: por que não te sentaste?

* * *

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Be sure it doesn't break in your hand

Joseph H. Lewis, The Big Combo, 1955


Uma paródia de história de suspense com um nome falso de autor de livros de suspense
Só se é vivo uma vez

Seu sócio precisava morrer. Que outro modo de salvar o negócio? Juros escorchavam. O Alemão, credor majoritário, apertava o cerco. Era preciso fazer algo. E havia uma apólice de cláusulas claras na seguradora. Ele não conhecia os gângsters de soeiras. Quando muito, uma fotografia de Al Capone. E não se lembrava mais com quem o achara parecido: Mussolini, Berlusconi, seu avô?
Tresvario. O primeiro era só tão calvo quanto. O segundo, apenas uma rima. E seu avôzinho um poço de bondade. Estava tão absorto nisso a caminho do escritório que teve, na hora H, de pular uma poça na calçada, pois chovera. Uma adolescente na plena flor da provocação lhe inflou a meia-idade do ego:
Ei, gato, pular assim vai virar tendência.
Ele sorriu, mas logo reentrou no saloon obscuro da mente.
Sem falar que o sócio era um homem cordial. Amigos desde o segundo ano do secundário. Apadrinharam filhos. Associaram-se a clubes. Mulheres a percorrer um previsível circuito de compras. Horas moldando o corpo na academia de fisicultura. As amantes em condomínios quase vizinhos. As crianças banhando-se na piscina da mesma colônia de férias. Em seu último aniversário, dele recebera um ipad de presente. Como adivinhara?
Mas, então, o dono de uma cadeia de farmácias, dado a tais métodos, indicou-lhe o homem. De confiança. Bastante requisitado. E o homem estudou a circunstância. Um profissional e sua meticulosidade. Mapas, horários, calibres, álibis, ângulos. Os olhos compassivos, pacientes. Não longe de bondosos. A voz pausada, monocórdia, a declinar minúcias. O traje discreto e um fragrância cítrica na loção após barba. Depois de uma semana ele perguntou ao homem: quando? O profissional disse que não tardava. Porém precipitações podiam ser fatais. E que lembrasse: não era de fazer coisas pela metade.
Nesse ínterim, o Alemão ameaçava agir. E todos no ramo sabiam: com o Alemão não se brincava. Enquanto rugisse, tudo bem. O perigo morava em seu silêncio.
Ainda assim, temeu pela segurança das crianças. Reforçou a blindagem dos carros.
Uma semanas depois encontrou o homem. Foi no reservado de um restaurante. Impressionou-o, ainda mais, seu rigor ao expor o plano. Havia decidido que, por motivos de álibi, o local seria certa livraria.
Não despertaria suspeitas. Tanto ele quanto o sócio eram senão assíduos, visitadores mais que esporádicos. E, em ele estando presente, tudo ficaria mais fácil com o inquérito. Além disso havia apenas um segurança desarmado e inepto à entrada. E quatro possibilidades de evasão: escada rolante direto para a rua; elevador; escada convencional; e um balcão, do lado oposto às demais, debruçado sobre a avenida. Não havia tanto movimento na quinta à noite. Mas, no mínimo, garçonetes e balconistas, além dos caixas. Alguns poucos frequentadores. Crucial contar com testemunhas. As ruas, à exceção dos carros estariam vazias na afluência do bairro.
O plano era simples. Ele marcaria com o amigo no café da livraria. Mas chegaria um pouco antes. Sentaria. Pediria um curto. Leria, sem pressa, as duas páginas iniciais de Killer in the Rain. Depois diria à garçonete:
Veja, estou esperando um amigo. É um tipo distraído, percebe? Deve chegar em no máximo uns quinze minutos. Um homem alto, mais ou menos da minha idade, cabelos castanho escuros, levemente grisalhos, com um portfólio na mão. Indique-lhe a mesa. Diga-lhe que já estou de volta.
Dito isso, que ele se afastasse até a prateleira mais distante, a de livros de suspense. Ficasse a folhear alguns exemplares de Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Ross MacDonald, Isidro Parodi.
Deixasse a coisa por conta. E imediatamente após os disparos, corresse ao café.
Só uma pergunta.
Diga.
Você lê livros de detetive? – ele perguntou.
Alguns. – respondeu o pistoleiro com um raro lampejo no olhar.
Que lhe parece?
Há um excesso de ficção neles. Essas coisas são mais simples na vida real.
Passaram, então, aos honorários: metade antes, metade depois. Praxe.
A quinta-feira acordada, era uma noite morna. O tráfego escorria mais desafogado. Uma lua cheia suspensa sobre avenidas. Estacionou o carro a meio quarteirão, defronte à locadora de filmes. Com um pouco de esforço – e alguma lembrança da iôga – seus joelhos não mais tremiam. E, ao subir pela escada rolante, uma leve onda de excitação vibrava-lhe o corpo. O terral moveu de leve seus cabelos.
Passou pelo segurança, um negro alto, afogado em um terno preto, peça de estatuário. E, com o exemplar do livro à mão, logo estava no café. Escolheu uma mesa ao fundo. Pediu um curto. E ao saborear o café amargo, aromático, leu o trecho sugerido que acabava nas palavras:
'I got lots of sugar' – he said.
'So, I see. What do I do for that, if I get it?'
Depois acenou para a garçonete:
Veja, estou esperando um amigo. É um tipo distraído, percebe? Deve chegar em no máximo uns quinze minutos. Um homem alto, mais ou menos da minha idade, cabelos castanho escuros, levemente grisalhos, com um portfólio na mão. Indique-lhe a mesa. Diga-lhe que já estou de volta.
À vontade, Senhor.
Afastou-se até para lá da porta de entrada, que ficava fora do alcance de vista do café, e enfiou-se na prateleira de livros de suspense.
Lá ficou, folheando The Long Goodbye. Dez minutos se passaram. De onde estava não era possível ver o café. Mas, certo momento, uma fragrância cítrica esticou-se no ambiente.
Vários tipos e estilos de passos fizeram-se ouvir sobre o granito polido. Uma bela garota subiu ao mezzanino. Um homem calvo, jeans rotos, dentuço, cara de pouco sexo, era o único a testemunhar-lhe a presença. Porém parecia mais entretido em folhear uma edição de bolso de The Glass Key.
Cada segundo no relógio era como estar prestes a fazer votos monásticos. Quinze minutos, nada. Podia voltar atrás? Chegar no balcão do café e dizer ao matador:
Veja bem, tudo não passou de um chiste. Poupe as balas. Volte para casa. Hoje tem futebol na TV: Ceará X Flamengo, pela Copa do Brasil.
E não. Queria levar a ópera à apoteose. Aos bis. Algo o atava ao prognosticado no libretto. Ainda que este o tenha custado algumas noites insones e um polpudo cheque.
Quase um quarto de hora depois, contrafeito, suando um pouco sob o ar condicionado, dirigiu-se ao café:
Que desfeita, garoto. A última vez que atrasaste assim foi quando íamos jogar contra aqueles malandros do Colégio Batista. Liguei para teu celular. Estava fora de área.
Abraçaram-se.
Na prateleira de livros de suspense, o homem calvo leu as seguintes linhas:
'I'm going to society. He's practically given me the key to his house'.
'Yeah, a glass key. Be sure it doesn't break in your hand'.
E, logo após, houve os disparos. Uma algazarra. Que nem nos filmes de gângster. Estrepolias. Gritos. As têmporas do homem calvo latejavam coladas ao solo. Mas após breve comenos, ergueu-se, achegou-se ao vértice da estante. Depois ao café. E vislumbrou, no lustroso piso de granito encerado, os dois corpos. Eram parecidos, fato.

Talvez fossem irmãos.


* * *

Era assim que dizia de si para si

[s/i/c]


Abnegação e Brindes


Certo espírito de abnegação e brindes era o que lhe presidia toda uma ética. Uma ética, no fundo, carismática e católica, voltada para orações à Virgem. E porque era assim, ela dizia de si para si:
Se eu ganhar o tônico facial para peles sensíveis, vou ficar tão feliz, que todos à minha volta também vão ficar.
Ela cria nisso. Era algo maior que suposição.
E, logo, ganhar o tônico facial para peles sensíveis convertia-se em algo importante, de fato, para ela; e, sem embargo, ainda mais crucial para o mundo, que ficaria um lugar melhor, mais bonito por conta de sua radiante felicidade. E, portanto, o tônico facial para peles sensíveis deveria ser ardorosamente reivindicado em suas preces. Em especial, as dirigidas à Virgem, que, como mulher, devia entender melhor que a Santíssima Trindade a importância de um creme facial para peles sensíveis na vida de uma jovem mulher.


NOTA --- Para esclarecer a uma jovem leitora que me escreveu:
O movimento carismático católico é o que de mais parecido há (inclusive em termos de rito) com o neo-pentecostalismo protestante, muito difundido no Brasil nas últimas 3 décadas. O neo-pentecostalismo, que se distancia do protestantismo histórico (anglicanos, luteranos, presbiterianos, batistas, etc.), fez a fortuna de alguns pastores, como, entre outros, o bispo Edir Macedo, dono da Rede Record. Como os neo-pentecostais, o carismatismo católico é uma "religião de resultados". Ou seja eu "peço" coisas materiais "para ser atendido". A rigor, em termos teoréticos, não práticos (porque há a singularidade, a particularidade de cada indivíduo), um carismático jamais entenderia o sentido profundo de um livro como . Ou esta passagem de Mateus [5:45]: "Porque faz que o sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos". Ou seja, os desígnios divinos são insondáveis, ao fim de tudo. O texto que segue acima, no entanto, é apenas uma grande brincadeira. Quase uma farsa. Há pessoas que crêem que são elas na ficção, quando se toma algumas características delas para ficcionar em cima. É mais fácil essas pessoas que creem que "são elas" se irritarem. Em um texto como "Um Sergipe do Espírito", algumas postagens abaixo, por exemplo, o "eu" que fala, apesar de possuir algumas características minhas (aliás, todas negativas --- ressentimento, ciúme, inveja, temor de estar envelhecendo, etc. ---) está muito longe de ser "eu", assim como as outras pessoas aludidas, por mais que algumas delas sejam pescadas de uma circunstância real e concreta, deste mundo, estão longe de ser elas. Nem há qualquer propósito deliberado em desrespeitá-las. Mesmo a teia de ligações que há entre elas é, muitas vezes, tênue, apenas presumida... e, digamos, reciclada pela imaginação. Para meu ponto de vista, muito mais importante do que a história que está sendo contada --- e sempre se fala das mesmas coisas: uma terra, uma mulher, um ofício, uma época, etc. e a distância que se está desses seres --- é o modo como se conta a história. Quando escrevo prosa, mais do que o conteúdo, me interessa o modo como esse conteúdo está disposto: a ordem das palavras, sua sonoridade, o ponto de vista de emissão da voz, o registro, certa "concentraçao maníaca" decorrente de um excesso de revisões tomado como método, etc. Aliás, a quem interessar possa há vários textos inéditos (todos em prosa) postados no blog português É Tudo Gente Morta, que é uma experiência de blog compartida entre 14 autores.


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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eu sei sabendo. E pronto.

[s/i/c]


Homem de palavra

rememoração de uma prosa (por um triz) pré-televisiva

A Do Carmo? essa entre muda, sai calada. Se fala, é pra comê. Dá notícia? só a de precisão. E a de precisão da casa, viu? Dos parente. Alguma moléstia. Tratos de raminho. Mezinha. Afora isso, é um siso. Porta de cemitério. Se trabalha? Mas, rapaz. Aquilo é safa como uma jumenta. Ela faz as coisa. Varre casa. Lava roupa. Engoma. Puxa água. Cuida das cabra. Com peixeira na mão, camurupim é cará. Posta o bicho que num dá tempo nem de criar calo na mão. Ceva porco. Destronca pescoço de galinha que parece que tá é coando café. Varre terreiro. Cata os piolho dos menino. E é piolho. É piolho que se vendesse em feira dava pra trocar era em meia saca de farinha. Aí, com pouco mais, escureceu? Ela bota a janta, na hora, direitim. Um tempero que num tem quem iguale em toda essa Lagoa da Tiaia de Baixo. Chega cheira a donzela de trancelim em tertúlia de forró... Uma coisa muito fina, Seu Menino. A casa é um brinco, viu? De asseada. E eles tem até televisão. É. Pensando o quê? Após novela, né? ela fica de prosa no alpendre, com as vizinha. Formam roda. Botam tamborete na calçada. Umas poucas de vez vai na igreja, mais a Maria do Dozim, tirar Novena. É da Noss'enhora do Preperto. Acende um círio, ficam por ali, naquela ladainha. Naquele budejar, com mais a cantoria das beata. E então-se rezum. E rezum e rezum, que é de rosário rodado pra lá. O terço é só pra bater o centro. Ramo de cabelo-de-moça na jarra. Água benta. Deu noves horas? pois adepoismente é pelo-sinal e rumo de casa. Finis. Pegar fio-de-pedra. Oz'ói no calçamento, que é pro mode num pisá no falso. E já mais fri, ela puxa um corpetizim. Assim. Passou pela praça? num olha nem pro lado, que é pra num dá gosto a quem num deve. Chegou em casa, o Calixto tá assistindo jogo? a bicha passa é direto, pra camarinha. Agora, ela é faceira. É. Mais menino. Aquilo gosta duma água-de-cheiro. Dum mimo. Duma fita no cabelo. Bato e volto. Vrido de loção. Festão de volta-ao-mundo.Vou lá? O Sebastião da Luz diz que ela é moderna, o Bastião. Moderna? Orasmente: sonsa, solerte, enxerida, acordada. Apois mire e veja, ela tem um sinalzim perto do furo do umbigo, eita que é só o pitel. Danou-se. É um despautério, hómi. A pele é como sereno da madrugada. Friinha. Seda é quem lhe chama. Florzinha de imburana. E aquando dá uma gaitada, parece semente de jequeti na fava. Uma preversidade. É de judiá do cristão pelas sete chagas, e vai-de-léguas. Fromosa demais. Como é qu'eu sei, Louro? Ora deixe, pois então. Vexou. Milhos. Eu sei sabendo. E pronto. Agora, espie, sou homem direito. De palavra. De lé com lé. Num 'tou aqui para maldar mulher alheia não, viu? 

É.

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A não ser que a gente seja a outra pessoa

[s/i/c]


Da Grande Sabedoria dos Aforismas

Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa.

A não ser que a gente seja a outra pessoa. Como na maioria dos casos. E sem se dar conta. Sem suspeitar minimamente disso. Sem enxergar um palmo, uma palha de vassoura piaçava diante do nariz. E, assim, que todos as Marias Ninguéns e os Zés Ninguéns sejam os portadores da nossa felicidade, enquanto tiramos férias no Caribe a degustar lentamente, na cadeira dobrável, posta ao convés à contraluz do crepúsculo, uma piña colada. Nas mãos há um livro de poemas. Parece que de Drummond. E à página aberta há uma poesia. Chama-se "Quadrilha". Nela nós, a "outra pessoa", infeliz e pós-modernamente só podemos ser duas personagens: Lili ou J. Pinto Fernandes.


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Nem mesmo




Nada neste mundo fará um poeta deixar de escrever, nem mesmo quando ele é judeu e a língua de seus poemas o alemão.

[Paul Celan]

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Oração adverbial de ressalva e preenchimento de linguiça

[s/i/c]


Toda uma História

Não contente em cadastrar a vida no Centro Cultural do Infortúnio, ela seguiu em frente. E passou a discutir o caso com a primeira recém-amiga que encontrou no MSN. Como sempre, queixou-se de tudo. Mais um pouco. E mais três poucos --- se fora pouco os outros dois primeiros poucos. E levou a derrama à terceira margem do rio. O pouco maior, vejamos, era a tremenda indiscrição dele. E dizia isso um tanto como se ela fosse uma celebridade e, em consequência, no dia seguinte, a casa de seus pais amanhecesse alvejada pelos flashes dos paparazzi. Fazia parte de uma sua certa ética da infelicidade cultivar para si essas pequenas flores de tensão, e reenviá-las devidamente plissadas, ao modo de origames, aos outros, para joguinhos de bem-me-quer-mal-me-quer.
Primeiro, queixou-se de todas as razões que só havia dentro de seu esguio esqueleto. E isso ela ainda não tinha assimilado. Isso de limites, razões, crânios. Esse dilema hamletiano, quase bipolar. A limitação de seu arrazoado somada a um terrível dom: a total incapacidade de expressar algum sentimento verdadeiro que empatava com a falta de sentir até onde terminava seu corpo e começava o mundo. Aquele terrível, amedrontador mundo dos outros. Era como se ela houvesse nascido e prosseguisse a viver num aquário, sem nunca, por um segundo, haver dado conta da água. Afinal, o ar lá fora não parecia muito mais diáfano. Descobrir a água, seria como descobrir a pólvora. E, contudo, mesmo com toda pirotecnia dos fogos de artifício, nas noites de Ano Novo, quão poucas são as pessoas que, à hora em que eles rebentam --- como uma bolsa no útero --- pensam de onde vem a pólvora, e retraçam seu caminho, por estepes sem fim, até o Império do Meio.
Porém, longe disso e enfim, ela chegara a porto. Podia passear, livre, leve, solta – como se diz – em Carceirópolis. Naquela Carceirópolis virtual que suavizava o sem sentido de copiar e colar informações o dia inteiro com o automatismo de uma atendente de telemarketing. Podia, no corroer da insônia, soltar sob forma de verbo o que a enxaqueca represava:
–Agora, puxa, tinha toda uma história por trás – disse a tal recém-amiga, recrutada às pressas, como confidente, na madrugada não analógica, a expressar-se por uma fórmula um pouco cansada. Sim, esse célebre “tinha toda uma história”. Será que esse conspícuo “tinha toda uma história” referia-se à historiografia francesa dos Annales? A inaugurada por Bloch e Febvre na década de 20? Ah, sim? Não. Até podia ser, se não soasse parte integrante de entrevista de ator ou atriz da Rede Globo. Aquela parte integrante de entrevista que já é quase um termo paliativo da oração. Uma espécie de oração adverbial de ressalva e preenchimento de linguiça. Daquele tipo usado para encher um vácuo entre finíssimas películas, que, uma vez devidamente recheias, se leva às labaredas do churrasco, no próximo final de semana, entre o riso inconsequente, qualquer revisão dos dias, o involuntário salpicar da cerveja – que seja para o santo, então – e a marca de batom que fica sobre o sal cristalizado à superfície da carne crestada, perto do furo do espeto:
Se bem que, algo tão intimo exposto, é estranho – ponderou a recém-amiga, mesmo que também no rumo dos quatro pontos cardeais da net e da arte de encher linguiças tenha saído a expressão. E a expressão era, outrossim, um pouco menos torpe, um pouco menos trivia, que a primeira, posto que a carga silogística do “se bem que” parecia levemente menos clichê e adolescente que o daquele repugnante “tinha toda uma história” – que recendia a um grande espelho de closet e alguém diante dele, comendo-se fixamente com os olhos, no bater das horas, ao largo da madrugada; ou a uma daquelas grelhas de bueiro entupidas no vértice das sarjetas em dia de temporal, onde tudo redemunha, mas os detritos ficam do lado de fora.
Ora vamos, essas coisas de "tinha toda uma história" a gente vê mesmo é em diálogo de telenovela. Mas principalmente em entrevistas de atores e atrizes, onde os pontos altos do "conteúdo" são caras, bocas. E, ainda assim, não recorrem menos – apesar de especularmente insossas, uma vez ditas sem o cenário, a maquiagem, o figurino, a direção de câmeras, os rebatedores, os spots, as luzes de segundo plano – nos MSN's da vida real: 
Dá pena do rapaz! – concluiu a recém-amiga, com vontade de apear do assunto mas simultaneamente movida pelo fascínio incontido de saber se o rapaz leria ou não sua comiserada interjeição.
Dias depois, e ninguém se lembraria mais daquilo. E aquilo tudo não seria mais que cinzas em um acampamento bérbere deixado para trás ao fundo de um vale, no grande deserto do Saara dos signos. Da incompreensão que eles geram? Nem falar. Se havia dado, mesmo, uma conversa? Ali?
E a resposta seria o vento passando nas palmas das tamareiras. As salamandras ao sol. As pegadas e riscos apagados na superfície das dunas. Sem qualquer possibilidade de undo.
Ou então, a resposta seria: pouco provável. Uma conversa se dá quando duas pessoas – adultas ou não – lançam mão de palavras que, de fato, provem de muito longe, nos circuitos do coração. Anos-luz de uma intenção. O que, convenhamos, não é a maioria dos casos, quando, no supermercado dos signos, saímos a campo colhendo, nas prateleiras, todos os itens postos no carrinho de compras com a roda dianteira esquerda emperrada. Aqueles itens necessários para publicizar – e o que é pior, sem criatividade alguma e para o mundo inteiro – a unilateralidade de um gemido bem dentro do crânio, apenas porque se sente um pouco de dor, lá, nos hemisférios dela, por conta de uma combinação de café, Neosaldina, Coca-Cola, e aquele pavoroso ambiente de trabalho, que previamente era sabido: implicaria nisso.
E, porém, no grande aquário de um dia depois do outro, ao falar da água e dizer que se tem consciência dela, prossegue-se nadando, nadando com se fosse possível ignorar o fato de se estar completamente encharcado. 


Para o resto da vida.

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Verbete para Twitter

[s/i/c]

O Recado do Passarinho Taxista

Twitter é um confessionário telecompartido pela tecnologia digital em que se diz o extremamente dispensável e, vez por outra, o excessivamente íntimo, em 140 caracteres. Como foi inventado para taxistas norte-americanos, o português – a exemplo de qualquer outro idioma – é um tanto maltratado, por consequência (as formas curtas são difíceis de domar). Seu poeta, por excelência, chama-se Fabrício Carpinejar. Ele descobriu uma fórmula de frase que funciona bem. O problema é que essa mesma fórmula repete-se, de novo e de novo, ad nauesam, mudando apenas o descartável – ou seja, no caso, o conteúdo.


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Outra alegria mais clara: Fausto Nilo

[s/i/c]


Da versatilidade frásica de Fausto Nilo, poeta


Há um trovador provençal. Seu estilo era hermético. E seu nome, Peire Raimon de Tolosa. Seus versos mais famosos são:

Atressi cum la candela
que si meteissa destrui
per far clartat ad autrui,
chant, on plus trac gren martire,
per plazer de l'autra gen.

Que podem palidamente ser traduzidos como:

assim como a candeia
a si própria consome
para esclarecer gente alheia
canto fundo meu tormento
para o prazer de outra aldeia

Toco nisso, porque lembro do apreço que Fausto Nilo nutre pela poesia dos trovadores. Na verdade, em certo rumo, Fausto se converteu num deles. Lembro de haver, certa feita, escrito um artigo para O Povo, em que defendia a tese de que o canto de cisne, não só de Raimundo Fagner, como de todo o propalado Pessoal do Ceará, havia sido o magnífico – e elegíaco – álbum Beleza, de 1979.
Alguns dias depois recebi um imeio de Fausto. Ele, muito educadamente, como usa ser, contrargumentou que não era bem assim. Que eu estava fechando a questão um tanto sob um ângulo extra-musical. Ou extra-estético. Ou seja, que o fato de a música de Raimundo Fagner se haver tornado mais popularesca, ou mesmo cortejado o número, não impediu que também, eventualmente, fosse calcada em canções de grande voltagem musical e refinamento poético.
Depois do que lembro? De vagamente sair da Desafinado, certo lusco-fusco, conversando com Fausto a lhe indagar – provavelmente pela milésima vez – sobre a confecção do Beleza, ao qual além de contribuir com letras, ele também desenhou a capa. Seguíamos Dom Luiz acima, e, claro, devido ao horário, havia um tráfego medonho na avenida. Lembro que estava do lado exterior da calçada – das exíguas calçadas de Fortaleza – e, volta e meia, pisava a pista, desviando-me dos carros para evitar os transeuntes e o pessoal que esperava nos pontos de ônibus. Os automóveis, no entanto, passavam muito rente de onde meus pés. Eu fazia isso quase inconsciente, levando fé em minha capacidade de driblar obstáculos em caminhadas. Porém, numa das vezes em que estava com os dois pés na pista, senti uma mão puxando meu braço:
Não faça isso – disse Fausto – esse negócio é perigoso. Sei que você é jovem. Mas, repare, eu já vou para sessenta. A gente quando ganha em anos perde um pouco de reflexo. Inevitável ver uma fração a mais de perigo em tudo. Boa garantia é andar nas calçadas. Mesmo que se espere um pouco.
Aquele senso de cuidado, cautela e, sobretudo, de medida, de espaço, só poderia provir da conjunção dos dois ofícios de Fausto, que, de resto, causariam inveja a João Cabral (a despeito de este não gostar de música -- à exceção do frevo e do flamenco): arquiteto e poeta – embora Fausto reitere que não; não é poeta, mas letrista. Isso, contudo, é já outra discussão, longa e inconclusiva. Não para já.
Mas, sim, Fausto tinha razão. Há canções de grande requinte – e não poucas – da fase pós-Beleza. E em parcerias diversas, com Moraes Moreira, por ilustração. Mas, em especial, fico com duas, que me parecem extremamente bem conseguidas: “Pedras Que Cantam” (Dominguinhos/ Fausto Nilo) e “Palavra de Amor” (Manassés/ Fausto Nilo).
Teria muito pano para as mangas para tecer alguma prosa sobre a primeira. Mas seus dotes são tão evidentes que seria perda de tempo. Quanto a segunda, sim; essa segunda, ao mencionar o “romance de amor” – gênero medieval – lança Fausto na intensa direção de sua pesquisa em torno da música francesa. Recordo de uma vez – e passamos de anos sem nos ver – ele me indagar se por acaso eu tinha notícia de algum detalhe sobre uma história em versos, um "rumance" – muito popular no interior do Ceará – , que fazia alusão a um aluno, que havia morto a pedradas um pavão, bicho do afeto maior de seu professor, e, pelo crime, ficara jurado de morte.
Sim, na verdade, tinha ouvido essa história da boca de minha avó. Mas sequer recordava o teor dos versos. Senão uma vaga melodia. O sentido geral da trama. E o número de sílabas ecoando na cabeça. Aquele cavername de ritmo. A medida (forma) ecoava em minha mente mais do que a trama (conteúdo).
Depois consultando em casa, descobri que J. Leite de Vasconcelos, o eminente filólogo português, a tinha recolhido em algumas variâncias e que, de resto, ela também havia  sido muito popular no Norte do Brasil, da Bahia ao Piauí. E provavelmente durante mais tempo do que se imagina, antes de a televisão arrasar essas finas narrativas, plenas de arquétipos.
Fausto Nilo provém delas. É uma espécie de ponta do iceberg. Vem de um tempo em que um garoto de classe média, no interior, podia absorver essas delicadas formas populares apenas por uma forte intuição de o quanto eram importantes. Na verdade, eram provavelmente essas formas que de fato se apossavam de um indivíduo. Mesmo de um jovem indivpiduo, que ainda se emocionou, às raias do pranto mal contido, ao relembrar a partida e sua pequena cidade, resumida à janela do vagão, em uma entrevista, alguns anos atrás.
Palavra de Amor” aponta para algo que o clichê (e a telenovela) ainda não atentou: a afectividade entre sertanejos é contida. Pode ser de uma deliciosa reticência. De um laconismo. Daí a fatura do verso que o calar fala mais que o filosofar. 
E, aqui, é preciso lembrar que Fausto nasceu em Quixeramobim e, por uma dessas conjunções astrais, praticamente na mesma casa que viu vir ao mundo ninguém menos que Antônio Conselheiro. "Palavra de Amor" também aponta, como umas poucas de outras canções, para essa pequena obsessão de Fausto – que, de resto canta como um diseur: a música medieval, e em especial, a francesa. Esse interesse de Fausto estica-se de um trovador antigo, Raimon de Tolosa – que possui o mesmo prenome de Fagner – à modernidade de Leonard Cohen, o judeu-canadense, em cuja tradição de grande letrista Fausto também pode ser inscrito. Aliás, há algo de judeu no temperamento de Fausto Nilo. De algum modo, até mesmo em suas feições. Mas também em certo cosmopolitismo desabusado que o rádio lhe legou desde criança. O poeta norte-americano George Oppen dizia: “em algum lugar a meio caminho entre o fato de ser singular e o fato de ser numeroso está o fato de ser judeu”.

Fausto é alguém que caminha nesse limiar entre o singular, o numeroso. Como arquiteto. Mas também como um homem com uma permanente canção. Sua memória de velhos sambas, de velhos reisados pastoris é prodigiosa. E quem quiser comprovar sua fertilidade com as letras – onde, no caso, além das lais francesas entra uma pitada de García Lorca – escute a canção abaixo. Há a habitual plangência da voz de Fagner e a perícia pop dos músicos do Roupa Nova nessa rendição de “Palavra de Amor” (Manassés/Fausto Nilo) no velho e bom tube, além da íntegra da letra, mais abaixo:



Palavra de Amor


Na divina claridade 
Em que você se iluminou,
O calendário seria 
Um dia de cada cor,
Futuro, ah, como eu queria
Te cobiçar, ventania,
Num romance de amor --
E a lua ainda mais clara
Queria escutar tua fala
Com palavra de amor.

Meu amor quando se cala
Fala mais que um pensador.
Me ensinou que a vida vai
Onde a saudade ficou
E enquanto a vida não pára,
Não pára nunca esse motor.
Outra alegria mais clara
Seria escutar tua fala
Com palavra de amor.

[Fausto Nilo]


CODA -  acho lindo o modo como a percepção musical de Fausto aplica o terceto final de redondilhas, cuja sonoridade é ostensivamente aberta e solar ("Outra alegria mais clara/ Seria escutar tua fala/ Com palavra de amor".) e melodicamente o expõe, como se na voz de cantadores sertanejos, à melodia de Manassés. Isso soa como -- lá sei -- um cego de feira. (Posso ouvir lá, ao fundo Cego Oliveira cantando esse terceto com a mesmíssima inflexão). Pode-se ouvir esses cantadores mesmo bem ao fundo da sofisticação pop - especialmente dos teclados - presente no bem apanhado arranjo do Roupa Nova. Louve-se também a interpretação de Fagner, cujo acento equilibra-se entre o sertanês (ou interiorano rural) e o cearense  culto (que são dois dos mais belos sotaques do português). Acho particularmente interessante o modo como ele pronuncia o terceiro verso, "um dia de cada cor". E por duas razões. Primeiro porque trata-se de um das imagens mais bonitas, esses dias coloridos de forma diversa no calendário. Segundo e muito mais importante, porque o canto aproxima-se bastante da fala, do coloquial. E então Fagner pronuncia o verso com todas as aliterações em "d" e a palavra "cor" é dita de forma tão rápida que parece murchar ao fim da frase. Penso que, em geral, os cearenses, piauienses e alguns potiguares falam assim, quase pondo em implícito esse "r" final de "cor", "amor", "pensador", "motor", etc. E, logo, muito diverso de como nos querem fazer falar nas telenovelas.
[de resto, não entendo como esta postagem moveu-se do dia 12 de maio para hoje, depois deste acréscimo ao final. Mistérios da meia-noite informática]

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Negro e um pouco de vermelho sobre branco











Uma Bossa Nova de Capas


Hoje, César Vilella, o responsável pelas prismáticas capas da Elenco, dos anos 50 e 60, faz 81 anos. A elegância de um estilo limpo, minimalista, facilmente vislumbrável. Acima algumas de suas artes, quase sempre elementos negros com pontos vermelhos sobre fundo branco. A própria economia expressiva da bossa nova traduzida em design

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E nisso estavam antecipados o encontro, o risco e outras coisas

Richard Diebenkorn, Reclining Figure #II, 1962

Nome

Por anos chamei teu nome. Por aí. Bem antes. E nisso estavam antecipados o encontro, o risco, e outras coisas; é melhor nem falar. 
Agora, sei, não chamava uma ficção. Em cada uma das sílabas, os quatro pontos cardeais. Uma prece. Um hai-kai. Não chamei em vão. E não havia outros modos de chamá-lo. E, assim, chamei quase todo. O ser que há em você. Até não ser mais preciso. O nome chamava todos os elementos, riscado que fora à fio de faca em proa de canoa.
Seria porque não havia outra palavra, suave demais, para ser teu nome? Uma forma de dizer onde mora o não ter medo? Um dizer uma palavra para aquilo que não cabe?
Agora, tudo somado, Princesa, ele pode voltar ao que sempre foi – uma senha, os bredos e nardos, os seixos, à praia; o mangue, a argila, ondas, alpendre, samambaia; a deusa Clio; o sol da manhã, areia de duna roída por rio; samburá, linha, carlinga, rede; água doce e salobre encerrada na casca verde: segredo guardado à sete chaves, entre quatro marinhas paredes.

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domingo, 15 de maio de 2011

Como naqueles westerns de nomes contundentes

John Ford, The Searchers [Ratros de Ódio], 1956

O Gauche

Às vezes, é preciso. Como naqueles westerns de nomes contundentes: Rastros de ÓdioMeu Ódio Será sua Herança.  Você vê aquele deserto lindo, os cânions e os rios. O Monument Valley. Ou para não falar de Sergio Leone. Os planos fechados. A narrativa lenta. Os objetos: esporas, luvas, coldres. As piruetas musicais de Morricone. Mas às vezes é preciso. Partir apenas. Porque a condição do exílio parece ser uma sina para alguns. E toda manhã já começa com aquele plano aberto e o homem e seu cavalo retirando-se da cidade cenário para as montanhas ao fundo.

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