sexta-feira, 20 de maio de 2011

Moving Staircase

[s/i/c]


Anedota de Português

O Manuel viajou para o Brasil. Era sua primeira viagem, cercada de expectativas.
Depois de duas semanas, seu amigo Joaquim foi buscá-lo no aeroporto:
E então, Manuel, como se foi de Brasil?
Ah, pois nem te conto, Joaquim: o Brasil é lindo! Trouxe-te até um berimbau e fitinhas do Bonfim.
Mas diga-me cá uma coisinha: o que mais gostaste?
Ora, de não pouco: as praias, a música, as mulheres... O Brasil é uma maravilha!
E o que menos gostaste, Manuel?
Das escadas rolantes?
De facto? 
Imaginas que estava a subir por uma delas, houve um blackout e lá fico eu, quase duas horas, acolá, de pé; a esperar o retorno da energia.
Arre, mas tu és mesmo burro, Manuel: por que não te sentaste?

* * *

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Be sure it doesn't break in your hand

Joseph H. Lewis, The Big Combo, 1955


Uma paródia de história de suspense com um nome falso de autor de livros de suspense
Só se é vivo uma vez

Seu sócio precisava morrer. Que outro modo de salvar o negócio? Juros escorchavam. O Alemão, credor majoritário, apertava o cerco. Era preciso fazer algo. E havia uma apólice de cláusulas claras na seguradora. Ele não conhecia os gângsters de soeiras. Quando muito, uma fotografia de Al Capone. E não se lembrava mais com quem o achara parecido: Mussolini, Berlusconi, seu avô?
Tresvario. O primeiro era só tão calvo quanto. O segundo, apenas uma rima. E seu avôzinho um poço de bondade. Estava tão absorto nisso a caminho do escritório que teve, na hora H, de pular uma poça na calçada, pois chovera. Uma adolescente na plena flor da provocação lhe inflou a meia-idade do ego:
Ei, gato, pular assim vai virar tendência.
Ele sorriu, mas logo reentrou no saloon obscuro da mente.
Sem falar que o sócio era um homem cordial. Amigos desde o segundo ano do secundário. Apadrinharam filhos. Associaram-se a clubes. Mulheres a percorrer um previsível circuito de compras. Horas moldando o corpo na academia de fisicultura. As amantes em condomínios quase vizinhos. As crianças banhando-se na piscina da mesma colônia de férias. Em seu último aniversário, dele recebera um ipad de presente. Como adivinhara?
Mas, então, o dono de uma cadeia de farmácias, dado a tais métodos, indicou-lhe o homem. De confiança. Bastante requisitado. E o homem estudou a circunstância. Um profissional e sua meticulosidade. Mapas, horários, calibres, álibis, ângulos. Os olhos compassivos, pacientes. Não longe de bondosos. A voz pausada, monocórdia, a declinar minúcias. O traje discreto e um fragrância cítrica na loção após barba. Depois de uma semana ele perguntou ao homem: quando? O profissional disse que não tardava. Porém precipitações podiam ser fatais. E que lembrasse: não era de fazer coisas pela metade.
Nesse ínterim, o Alemão ameaçava agir. E todos no ramo sabiam: com o Alemão não se brincava. Enquanto rugisse, tudo bem. O perigo morava em seu silêncio.
Ainda assim, temeu pela segurança das crianças. Reforçou a blindagem dos carros.
Uma semanas depois encontrou o homem. Foi no reservado de um restaurante. Impressionou-o, ainda mais, seu rigor ao expor o plano. Havia decidido que, por motivos de álibi, o local seria certa livraria.
Não despertaria suspeitas. Tanto ele quanto o sócio eram senão assíduos, visitadores mais que esporádicos. E, em ele estando presente, tudo ficaria mais fácil com o inquérito. Além disso havia apenas um segurança desarmado e inepto à entrada. E quatro possibilidades de evasão: escada rolante direto para a rua; elevador; escada convencional; e um balcão, do lado oposto às demais, debruçado sobre a avenida. Não havia tanto movimento na quinta à noite. Mas, no mínimo, garçonetes e balconistas, além dos caixas. Alguns poucos frequentadores. Crucial contar com testemunhas. As ruas, à exceção dos carros estariam vazias na afluência do bairro.
O plano era simples. Ele marcaria com o amigo no café da livraria. Mas chegaria um pouco antes. Sentaria. Pediria um curto. Leria, sem pressa, as duas páginas iniciais de Killer in the Rain. Depois diria à garçonete:
Veja, estou esperando um amigo. É um tipo distraído, percebe? Deve chegar em no máximo uns quinze minutos. Um homem alto, mais ou menos da minha idade, cabelos castanho escuros, levemente grisalhos, com um portfólio na mão. Indique-lhe a mesa. Diga-lhe que já estou de volta.
Dito isso, que ele se afastasse até a prateleira mais distante, a de livros de suspense. Ficasse a folhear alguns exemplares de Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Ross MacDonald, Isidro Parodi.
Deixasse a coisa por conta. E imediatamente após os disparos, corresse ao café.
Só uma pergunta.
Diga.
Você lê livros de detetive? – ele perguntou.
Alguns. – respondeu o pistoleiro com um raro lampejo no olhar.
Que lhe parece?
Há um excesso de ficção neles. Essas coisas são mais simples na vida real.
Passaram, então, aos honorários: metade antes, metade depois. Praxe.
A quinta-feira acordada, era uma noite morna. O tráfego escorria mais desafogado. Uma lua cheia suspensa sobre avenidas. Estacionou o carro a meio quarteirão, defronte à locadora de filmes. Com um pouco de esforço – e alguma lembrança da iôga – seus joelhos não mais tremiam. E, ao subir pela escada rolante, uma leve onda de excitação vibrava-lhe o corpo. O terral moveu de leve seus cabelos.
Passou pelo segurança, um negro alto, afogado em um terno preto, peça de estatuário. E, com o exemplar do livro à mão, logo estava no café. Escolheu uma mesa ao fundo. Pediu um curto. E ao saborear o café amargo, aromático, leu o trecho sugerido que acabava nas palavras:
'I got lots of sugar' – he said.
'So, I see. What do I do for that, if I get it?'
Depois acenou para a garçonete:
Veja, estou esperando um amigo. É um tipo distraído, percebe? Deve chegar em no máximo uns quinze minutos. Um homem alto, mais ou menos da minha idade, cabelos castanho escuros, levemente grisalhos, com um portfólio na mão. Indique-lhe a mesa. Diga-lhe que já estou de volta.
À vontade, Senhor.
Afastou-se até para lá da porta de entrada, que ficava fora do alcance de vista do café, e enfiou-se na prateleira de livros de suspense.
Lá ficou, folheando The Long Goodbye. Dez minutos se passaram. De onde estava não era possível ver o café. Mas, certo momento, uma fragrância cítrica esticou-se no ambiente.
Vários tipos e estilos de passos fizeram-se ouvir sobre o granito polido. Uma bela garota subiu ao mezzanino. Um homem calvo, jeans rotos, dentuço, cara de pouco sexo, era o único a testemunhar-lhe a presença. Porém parecia mais entretido em folhear uma edição de bolso de The Glass Key.
Cada segundo no relógio era como estar prestes a fazer votos monásticos. Quinze minutos, nada. Podia voltar atrás? Chegar no balcão do café e dizer ao matador:
Veja bem, tudo não passou de um chiste. Poupe as balas. Volte para casa. Hoje tem futebol na TV: Ceará X Flamengo, pela Copa do Brasil.
E não. Queria levar a ópera à apoteose. Aos bis. Algo o atava ao prognosticado no libretto. Ainda que este o tenha custado algumas noites insones e um polpudo cheque.
Quase um quarto de hora depois, contrafeito, suando um pouco sob o ar condicionado, dirigiu-se ao café:
Que desfeita, garoto. A última vez que atrasaste assim foi quando íamos jogar contra aqueles malandros do Colégio Batista. Liguei para teu celular. Estava fora de área.
Abraçaram-se.
Na prateleira de livros de suspense, o homem calvo leu as seguintes linhas:
'I'm going to society. He's practically given me the key to his house'.
'Yeah, a glass key. Be sure it doesn't break in your hand'.
E, logo após, houve os disparos. Uma algazarra. Que nem nos filmes de gângster. Estrepolias. Gritos. As têmporas do homem calvo latejavam coladas ao solo. Mas após breve comenos, ergueu-se, achegou-se ao vértice da estante. Depois ao café. E vislumbrou, no lustroso piso de granito encerado, os dois corpos. Eram parecidos, fato.

Talvez fossem irmãos.


* * *

Era assim que dizia de si para si

[s/i/c]


Abnegação e Brindes


Certo espírito de abnegação e brindes era o que lhe presidia toda uma ética. Uma ética, no fundo, carismática e católica, voltada para orações à Virgem. E porque era assim, ela dizia de si para si:
Se eu ganhar o tônico facial para peles sensíveis, vou ficar tão feliz, que todos à minha volta também vão ficar.
Ela cria nisso. Era algo maior que suposição.
E, logo, ganhar o tônico facial para peles sensíveis convertia-se em algo importante, de fato, para ela; e, sem embargo, ainda mais crucial para o mundo, que ficaria um lugar melhor, mais bonito por conta de sua radiante felicidade. E, portanto, o tônico facial para peles sensíveis deveria ser ardorosamente reivindicado em suas preces. Em especial, as dirigidas à Virgem, que, como mulher, devia entender melhor que a Santíssima Trindade a importância de um creme facial para peles sensíveis na vida de uma jovem mulher.


NOTA --- Para esclarecer a uma jovem leitora que me escreveu:
O movimento carismático católico é o que de mais parecido há (inclusive em termos de rito) com o neo-pentecostalismo protestante, muito difundido no Brasil nas últimas 3 décadas. O neo-pentecostalismo, que se distancia do protestantismo histórico (anglicanos, luteranos, presbiterianos, batistas, etc.), fez a fortuna de alguns pastores, como, entre outros, o bispo Edir Macedo, dono da Rede Record. Como os neo-pentecostais, o carismatismo católico é uma "religião de resultados". Ou seja eu "peço" coisas materiais "para ser atendido". A rigor, em termos teoréticos, não práticos (porque há a singularidade, a particularidade de cada indivíduo), um carismático jamais entenderia o sentido profundo de um livro como . Ou esta passagem de Mateus [5:45]: "Porque faz que o sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos". Ou seja, os desígnios divinos são insondáveis, ao fim de tudo. O texto que segue acima, no entanto, é apenas uma grande brincadeira. Quase uma farsa. Há pessoas que crêem que são elas na ficção, quando se toma algumas características delas para ficcionar em cima. É mais fácil essas pessoas que creem que "são elas" se irritarem. Em um texto como "Um Sergipe do Espírito", algumas postagens abaixo, por exemplo, o "eu" que fala, apesar de possuir algumas características minhas (aliás, todas negativas --- ressentimento, ciúme, inveja, temor de estar envelhecendo, etc. ---) está muito longe de ser "eu", assim como as outras pessoas aludidas, por mais que algumas delas sejam pescadas de uma circunstância real e concreta, deste mundo, estão longe de ser elas. Nem há qualquer propósito deliberado em desrespeitá-las. Mesmo a teia de ligações que há entre elas é, muitas vezes, tênue, apenas presumida... e, digamos, reciclada pela imaginação. Para meu ponto de vista, muito mais importante do que a história que está sendo contada --- e sempre se fala das mesmas coisas: uma terra, uma mulher, um ofício, uma época, etc. e a distância que se está desses seres --- é o modo como se conta a história. Quando escrevo prosa, mais do que o conteúdo, me interessa o modo como esse conteúdo está disposto: a ordem das palavras, sua sonoridade, o ponto de vista de emissão da voz, o registro, certa "concentraçao maníaca" decorrente de um excesso de revisões tomado como método, etc. Aliás, a quem interessar possa há vários textos inéditos (todos em prosa) postados no blog português É Tudo Gente Morta, que é uma experiência de blog compartida entre 14 autores.


* * *

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eu sei sabendo. E pronto.

[s/i/c]


Homem de palavra

rememoração de uma prosa (por um triz) pré-televisiva

A Do Carmo? essa entre muda, sai calada. Se fala, é pra comê. Dá notícia? só a de precisão. E a de precisão da casa, viu? Dos parente. Alguma moléstia. Tratos de raminho. Mezinha. Afora isso, é um siso. Porta de cemitério. Se trabalha? Mas, rapaz. Aquilo é safa como uma jumenta. Ela faz as coisa. Varre casa. Lava roupa. Engoma. Puxa água. Cuida das cabra. Com peixeira na mão, camurupim é cará. Posta o bicho que num dá tempo nem de criar calo na mão. Ceva porco. Destronca pescoço de galinha que parece que tá é coando café. Varre terreiro. Cata os piolho dos menino. E é piolho. É piolho que se vendesse em feira dava pra trocar era em meia saca de farinha. Aí, com pouco mais, escureceu? Ela bota a janta, na hora, direitim. Um tempero que num tem quem iguale em toda essa Lagoa da Tiaia de Baixo. Chega cheira a donzela de trancelim em tertúlia de forró... Uma coisa muito fina, Seu Menino. A casa é um brinco, viu? De asseada. E eles tem até televisão. É. Pensando o quê? Após novela, né? ela fica de prosa no alpendre, com as vizinha. Formam roda. Botam tamborete na calçada. Umas poucas de vez vai na igreja, mais a Maria do Dozim, tirar Novena. É da Noss'enhora do Preperto. Acende um círio, ficam por ali, naquela ladainha. Naquele budejar, com mais a cantoria das beata. E então-se rezum. E rezum e rezum, que é de rosário rodado pra lá. O terço é só pra bater o centro. Ramo de cabelo-de-moça na jarra. Água benta. Deu noves horas? pois adepoismente é pelo-sinal e rumo de casa. Finis. Pegar fio-de-pedra. Oz'ói no calçamento, que é pro mode num pisá no falso. E já mais fri, ela puxa um corpetizim. Assim. Passou pela praça? num olha nem pro lado, que é pra num dá gosto a quem num deve. Chegou em casa, o Calixto tá assistindo jogo? a bicha passa é direto, pra camarinha. Agora, ela é faceira. É. Mais menino. Aquilo gosta duma água-de-cheiro. Dum mimo. Duma fita no cabelo. Bato e volto. Vrido de loção. Festão de volta-ao-mundo.Vou lá? O Sebastião da Luz diz que ela é moderna, o Bastião. Moderna? Orasmente: sonsa, solerte, enxerida, acordada. Apois mire e veja, ela tem um sinalzim perto do furo do umbigo, eita que é só o pitel. Danou-se. É um despautério, hómi. A pele é como sereno da madrugada. Friinha. Seda é quem lhe chama. Florzinha de imburana. E aquando dá uma gaitada, parece semente de jequeti na fava. Uma preversidade. É de judiá do cristão pelas sete chagas, e vai-de-léguas. Fromosa demais. Como é qu'eu sei, Louro? Ora deixe, pois então. Vexou. Milhos. Eu sei sabendo. E pronto. Agora, espie, sou homem direito. De palavra. De lé com lé. Num 'tou aqui para maldar mulher alheia não, viu? 

É.

* * *

A não ser que a gente seja a outra pessoa

[s/i/c]


Da Grande Sabedoria dos Aforismas

Ninguém merece a responsabilidade de ser o portador da felicidade de outra pessoa.

A não ser que a gente seja a outra pessoa. Como na maioria dos casos. E sem se dar conta. Sem suspeitar minimamente disso. Sem enxergar um palmo, uma palha de vassoura piaçava diante do nariz. E, assim, que todos as Marias Ninguéns e os Zés Ninguéns sejam os portadores da nossa felicidade, enquanto tiramos férias no Caribe a degustar lentamente, na cadeira dobrável, posta ao convés à contraluz do crepúsculo, uma piña colada. Nas mãos há um livro de poemas. Parece que de Drummond. E à página aberta há uma poesia. Chama-se "Quadrilha". Nela nós, a "outra pessoa", infeliz e pós-modernamente só podemos ser duas personagens: Lili ou J. Pinto Fernandes.


* * *

Nem mesmo




Nada neste mundo fará um poeta deixar de escrever, nem mesmo quando ele é judeu e a língua de seus poemas o alemão.

[Paul Celan]

* * *

Oração adverbial de ressalva e preenchimento de linguiça

[s/i/c]


Toda uma História

Não contente em cadastrar a vida no Centro Cultural do Infortúnio, ela seguiu em frente. E passou a discutir o caso com a primeira recém-amiga que encontrou no MSN. Como sempre, queixou-se de tudo. Mais um pouco. E mais três poucos --- se fora pouco os outros dois primeiros poucos. E levou a derrama à terceira margem do rio. O pouco maior, vejamos, era a tremenda indiscrição dele. E dizia isso um tanto como se ela fosse uma celebridade e, em consequência, no dia seguinte, a casa de seus pais amanhecesse alvejada pelos flashes dos paparazzi. Fazia parte de uma sua certa ética da infelicidade cultivar para si essas pequenas flores de tensão, e reenviá-las devidamente plissadas, ao modo de origames, aos outros, para joguinhos de bem-me-quer-mal-me-quer.
Primeiro, queixou-se de todas as razões que só havia dentro de seu esguio esqueleto. E isso ela ainda não tinha assimilado. Isso de limites, razões, crânios. Esse dilema hamletiano, quase bipolar. A limitação de seu arrazoado somada a um terrível dom: a total incapacidade de expressar algum sentimento verdadeiro que empatava com a falta de sentir até onde terminava seu corpo e começava o mundo. Aquele terrível, amedrontador mundo dos outros. Era como se ela houvesse nascido e prosseguisse a viver num aquário, sem nunca, por um segundo, haver dado conta da água. Afinal, o ar lá fora não parecia muito mais diáfano. Descobrir a água, seria como descobrir a pólvora. E, contudo, mesmo com toda pirotecnia dos fogos de artifício, nas noites de Ano Novo, quão poucas são as pessoas que, à hora em que eles rebentam --- como uma bolsa no útero --- pensam de onde vem a pólvora, e retraçam seu caminho, por estepes sem fim, até o Império do Meio.
Porém, longe disso e enfim, ela chegara a porto. Podia passear, livre, leve, solta – como se diz – em Carceirópolis. Naquela Carceirópolis virtual que suavizava o sem sentido de copiar e colar informações o dia inteiro com o automatismo de uma atendente de telemarketing. Podia, no corroer da insônia, soltar sob forma de verbo o que a enxaqueca represava:
–Agora, puxa, tinha toda uma história por trás – disse a tal recém-amiga, recrutada às pressas, como confidente, na madrugada não analógica, a expressar-se por uma fórmula um pouco cansada. Sim, esse célebre “tinha toda uma história”. Será que esse conspícuo “tinha toda uma história” referia-se à historiografia francesa dos Annales? A inaugurada por Bloch e Febvre na década de 20? Ah, sim? Não. Até podia ser, se não soasse parte integrante de entrevista de ator ou atriz da Rede Globo. Aquela parte integrante de entrevista que já é quase um termo paliativo da oração. Uma espécie de oração adverbial de ressalva e preenchimento de linguiça. Daquele tipo usado para encher um vácuo entre finíssimas películas, que, uma vez devidamente recheias, se leva às labaredas do churrasco, no próximo final de semana, entre o riso inconsequente, qualquer revisão dos dias, o involuntário salpicar da cerveja – que seja para o santo, então – e a marca de batom que fica sobre o sal cristalizado à superfície da carne crestada, perto do furo do espeto:
Se bem que, algo tão intimo exposto, é estranho – ponderou a recém-amiga, mesmo que também no rumo dos quatro pontos cardeais da net e da arte de encher linguiças tenha saído a expressão. E a expressão era, outrossim, um pouco menos torpe, um pouco menos trivia, que a primeira, posto que a carga silogística do “se bem que” parecia levemente menos clichê e adolescente que o daquele repugnante “tinha toda uma história” – que recendia a um grande espelho de closet e alguém diante dele, comendo-se fixamente com os olhos, no bater das horas, ao largo da madrugada; ou a uma daquelas grelhas de bueiro entupidas no vértice das sarjetas em dia de temporal, onde tudo redemunha, mas os detritos ficam do lado de fora.
Ora vamos, essas coisas de "tinha toda uma história" a gente vê mesmo é em diálogo de telenovela. Mas principalmente em entrevistas de atores e atrizes, onde os pontos altos do "conteúdo" são caras, bocas. E, ainda assim, não recorrem menos – apesar de especularmente insossas, uma vez ditas sem o cenário, a maquiagem, o figurino, a direção de câmeras, os rebatedores, os spots, as luzes de segundo plano – nos MSN's da vida real: 
Dá pena do rapaz! – concluiu a recém-amiga, com vontade de apear do assunto mas simultaneamente movida pelo fascínio incontido de saber se o rapaz leria ou não sua comiserada interjeição.
Dias depois, e ninguém se lembraria mais daquilo. E aquilo tudo não seria mais que cinzas em um acampamento bérbere deixado para trás ao fundo de um vale, no grande deserto do Saara dos signos. Da incompreensão que eles geram? Nem falar. Se havia dado, mesmo, uma conversa? Ali?
E a resposta seria o vento passando nas palmas das tamareiras. As salamandras ao sol. As pegadas e riscos apagados na superfície das dunas. Sem qualquer possibilidade de undo.
Ou então, a resposta seria: pouco provável. Uma conversa se dá quando duas pessoas – adultas ou não – lançam mão de palavras que, de fato, provem de muito longe, nos circuitos do coração. Anos-luz de uma intenção. O que, convenhamos, não é a maioria dos casos, quando, no supermercado dos signos, saímos a campo colhendo, nas prateleiras, todos os itens postos no carrinho de compras com a roda dianteira esquerda emperrada. Aqueles itens necessários para publicizar – e o que é pior, sem criatividade alguma e para o mundo inteiro – a unilateralidade de um gemido bem dentro do crânio, apenas porque se sente um pouco de dor, lá, nos hemisférios dela, por conta de uma combinação de café, Neosaldina, Coca-Cola, e aquele pavoroso ambiente de trabalho, que previamente era sabido: implicaria nisso.
E, porém, no grande aquário de um dia depois do outro, ao falar da água e dizer que se tem consciência dela, prossegue-se nadando, nadando com se fosse possível ignorar o fato de se estar completamente encharcado. 


Para o resto da vida.

* * * 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Verbete para Twitter

[s/i/c]

O Recado do Passarinho Taxista

Twitter é um confessionário telecompartido pela tecnologia digital em que se diz o extremamente dispensável e, vez por outra, o excessivamente íntimo, em 140 caracteres. Como foi inventado para taxistas norte-americanos, o português – a exemplo de qualquer outro idioma – é um tanto maltratado, por consequência (as formas curtas são difíceis de domar). Seu poeta, por excelência, chama-se Fabrício Carpinejar. Ele descobriu uma fórmula de frase que funciona bem. O problema é que essa mesma fórmula repete-se, de novo e de novo, ad nauesam, mudando apenas o descartável – ou seja, no caso, o conteúdo.


* * *

Outra alegria mais clara: Fausto Nilo

[s/i/c]


Da versatilidade frásica de Fausto Nilo, poeta


Há um trovador provençal. Seu estilo era hermético. E seu nome, Peire Raimon de Tolosa. Seus versos mais famosos são:

Atressi cum la candela
que si meteissa destrui
per far clartat ad autrui,
chant, on plus trac gren martire,
per plazer de l'autra gen.

Que podem palidamente ser traduzidos como:

assim como a candeia
a si própria consome
para esclarecer gente alheia
canto fundo meu tormento
para o prazer de outra aldeia

Toco nisso, porque lembro do apreço que Fausto Nilo nutre pela poesia dos trovadores. Na verdade, em certo rumo, Fausto se converteu num deles. Lembro de haver, certa feita, escrito um artigo para O Povo, em que defendia a tese de que o canto de cisne, não só de Raimundo Fagner, como de todo o propalado Pessoal do Ceará, havia sido o magnífico – e elegíaco – álbum Beleza, de 1979.
Alguns dias depois recebi um imeio de Fausto. Ele, muito educadamente, como usa ser, contrargumentou que não era bem assim. Que eu estava fechando a questão um tanto sob um ângulo extra-musical. Ou extra-estético. Ou seja, que o fato de a música de Raimundo Fagner se haver tornado mais popularesca, ou mesmo cortejado o número, não impediu que também, eventualmente, fosse calcada em canções de grande voltagem musical e refinamento poético.
Depois do que lembro? De vagamente sair da Desafinado, certo lusco-fusco, conversando com Fausto a lhe indagar – provavelmente pela milésima vez – sobre a confecção do Beleza, ao qual além de contribuir com letras, ele também desenhou a capa. Seguíamos Dom Luiz acima, e, claro, devido ao horário, havia um tráfego medonho na avenida. Lembro que estava do lado exterior da calçada – das exíguas calçadas de Fortaleza – e, volta e meia, pisava a pista, desviando-me dos carros para evitar os transeuntes e o pessoal que esperava nos pontos de ônibus. Os automóveis, no entanto, passavam muito rente de onde meus pés. Eu fazia isso quase inconsciente, levando fé em minha capacidade de driblar obstáculos em caminhadas. Porém, numa das vezes em que estava com os dois pés na pista, senti uma mão puxando meu braço:
Não faça isso – disse Fausto – esse negócio é perigoso. Sei que você é jovem. Mas, repare, eu já vou para sessenta. A gente quando ganha em anos perde um pouco de reflexo. Inevitável ver uma fração a mais de perigo em tudo. Boa garantia é andar nas calçadas. Mesmo que se espere um pouco.
Aquele senso de cuidado, cautela e, sobretudo, de medida, de espaço, só poderia provir da conjunção dos dois ofícios de Fausto, que, de resto, causariam inveja a João Cabral (a despeito de este não gostar de música -- à exceção do frevo e do flamenco): arquiteto e poeta – embora Fausto reitere que não; não é poeta, mas letrista. Isso, contudo, é já outra discussão, longa e inconclusiva. Não para já.
Mas, sim, Fausto tinha razão. Há canções de grande requinte – e não poucas – da fase pós-Beleza. E em parcerias diversas, com Moraes Moreira, por ilustração. Mas, em especial, fico com duas, que me parecem extremamente bem conseguidas: “Pedras Que Cantam” (Dominguinhos/ Fausto Nilo) e “Palavra de Amor” (Manassés/ Fausto Nilo).
Teria muito pano para as mangas para tecer alguma prosa sobre a primeira. Mas seus dotes são tão evidentes que seria perda de tempo. Quanto a segunda, sim; essa segunda, ao mencionar o “romance de amor” – gênero medieval – lança Fausto na intensa direção de sua pesquisa em torno da música francesa. Recordo de uma vez – e passamos de anos sem nos ver – ele me indagar se por acaso eu tinha notícia de algum detalhe sobre uma história em versos, um "rumance" – muito popular no interior do Ceará – , que fazia alusão a um aluno, que havia morto a pedradas um pavão, bicho do afeto maior de seu professor, e, pelo crime, ficara jurado de morte.
Sim, na verdade, tinha ouvido essa história da boca de minha avó. Mas sequer recordava o teor dos versos. Senão uma vaga melodia. O sentido geral da trama. E o número de sílabas ecoando na cabeça. Aquele cavername de ritmo. A medida (forma) ecoava em minha mente mais do que a trama (conteúdo).
Depois consultando em casa, descobri que J. Leite de Vasconcelos, o eminente filólogo português, a tinha recolhido em algumas variâncias e que, de resto, ela também havia  sido muito popular no Norte do Brasil, da Bahia ao Piauí. E provavelmente durante mais tempo do que se imagina, antes de a televisão arrasar essas finas narrativas, plenas de arquétipos.
Fausto Nilo provém delas. É uma espécie de ponta do iceberg. Vem de um tempo em que um garoto de classe média, no interior, podia absorver essas delicadas formas populares apenas por uma forte intuição de o quanto eram importantes. Na verdade, eram provavelmente essas formas que de fato se apossavam de um indivíduo. Mesmo de um jovem indivpiduo, que ainda se emocionou, às raias do pranto mal contido, ao relembrar a partida e sua pequena cidade, resumida à janela do vagão, em uma entrevista, alguns anos atrás.
Palavra de Amor” aponta para algo que o clichê (e a telenovela) ainda não atentou: a afectividade entre sertanejos é contida. Pode ser de uma deliciosa reticência. De um laconismo. Daí a fatura do verso que o calar fala mais que o filosofar. 
E, aqui, é preciso lembrar que Fausto nasceu em Quixeramobim e, por uma dessas conjunções astrais, praticamente na mesma casa que viu vir ao mundo ninguém menos que Antônio Conselheiro. "Palavra de Amor" também aponta, como umas poucas de outras canções, para essa pequena obsessão de Fausto – que, de resto canta como um diseur: a música medieval, e em especial, a francesa. Esse interesse de Fausto estica-se de um trovador antigo, Raimon de Tolosa – que possui o mesmo prenome de Fagner – à modernidade de Leonard Cohen, o judeu-canadense, em cuja tradição de grande letrista Fausto também pode ser inscrito. Aliás, há algo de judeu no temperamento de Fausto Nilo. De algum modo, até mesmo em suas feições. Mas também em certo cosmopolitismo desabusado que o rádio lhe legou desde criança. O poeta norte-americano George Oppen dizia: “em algum lugar a meio caminho entre o fato de ser singular e o fato de ser numeroso está o fato de ser judeu”.

Fausto é alguém que caminha nesse limiar entre o singular, o numeroso. Como arquiteto. Mas também como um homem com uma permanente canção. Sua memória de velhos sambas, de velhos reisados pastoris é prodigiosa. E quem quiser comprovar sua fertilidade com as letras – onde, no caso, além das lais francesas entra uma pitada de García Lorca – escute a canção abaixo. Há a habitual plangência da voz de Fagner e a perícia pop dos músicos do Roupa Nova nessa rendição de “Palavra de Amor” (Manassés/Fausto Nilo) no velho e bom tube, além da íntegra da letra, mais abaixo:



Palavra de Amor


Na divina claridade 
Em que você se iluminou,
O calendário seria 
Um dia de cada cor,
Futuro, ah, como eu queria
Te cobiçar, ventania,
Num romance de amor --
E a lua ainda mais clara
Queria escutar tua fala
Com palavra de amor.

Meu amor quando se cala
Fala mais que um pensador.
Me ensinou que a vida vai
Onde a saudade ficou
E enquanto a vida não pára,
Não pára nunca esse motor.
Outra alegria mais clara
Seria escutar tua fala
Com palavra de amor.

[Fausto Nilo]


CODA -  acho lindo o modo como a percepção musical de Fausto aplica o terceto final de redondilhas, cuja sonoridade é ostensivamente aberta e solar ("Outra alegria mais clara/ Seria escutar tua fala/ Com palavra de amor".) e melodicamente o expõe, como se na voz de cantadores sertanejos, à melodia de Manassés. Isso soa como -- lá sei -- um cego de feira. (Posso ouvir lá, ao fundo Cego Oliveira cantando esse terceto com a mesmíssima inflexão). Pode-se ouvir esses cantadores mesmo bem ao fundo da sofisticação pop - especialmente dos teclados - presente no bem apanhado arranjo do Roupa Nova. Louve-se também a interpretação de Fagner, cujo acento equilibra-se entre o sertanês (ou interiorano rural) e o cearense  culto (que são dois dos mais belos sotaques do português). Acho particularmente interessante o modo como ele pronuncia o terceiro verso, "um dia de cada cor". E por duas razões. Primeiro porque trata-se de um das imagens mais bonitas, esses dias coloridos de forma diversa no calendário. Segundo e muito mais importante, porque o canto aproxima-se bastante da fala, do coloquial. E então Fagner pronuncia o verso com todas as aliterações em "d" e a palavra "cor" é dita de forma tão rápida que parece murchar ao fim da frase. Penso que, em geral, os cearenses, piauienses e alguns potiguares falam assim, quase pondo em implícito esse "r" final de "cor", "amor", "pensador", "motor", etc. E, logo, muito diverso de como nos querem fazer falar nas telenovelas.
[de resto, não entendo como esta postagem moveu-se do dia 12 de maio para hoje, depois deste acréscimo ao final. Mistérios da meia-noite informática]

* * *

Negro e um pouco de vermelho sobre branco











Uma Bossa Nova de Capas


Hoje, César Vilella, o responsável pelas prismáticas capas da Elenco, dos anos 50 e 60, faz 81 anos. A elegância de um estilo limpo, minimalista, facilmente vislumbrável. Acima algumas de suas artes, quase sempre elementos negros com pontos vermelhos sobre fundo branco. A própria economia expressiva da bossa nova traduzida em design

* * *

E nisso estavam antecipados o encontro, o risco e outras coisas

Richard Diebenkorn, Reclining Figure #II, 1962

Nome

Por anos chamei teu nome. Por aí. Bem antes. E nisso estavam antecipados o encontro, o risco, e outras coisas; é melhor nem falar. 
Agora, sei, não chamava uma ficção. Em cada uma das sílabas, os quatro pontos cardeais. Uma prece. Um hai-kai. Não chamei em vão. E não havia outros modos de chamá-lo. E, assim, chamei quase todo. O ser que há em você. Até não ser mais preciso. O nome chamava todos os elementos, riscado que fora à fio de faca em proa de canoa.
Seria porque não havia outra palavra, suave demais, para ser teu nome? Uma forma de dizer onde mora o não ter medo? Um dizer uma palavra para aquilo que não cabe?
Agora, tudo somado, Princesa, ele pode voltar ao que sempre foi – uma senha, os bredos e nardos, os seixos, à praia; o mangue, a argila, ondas, alpendre, samambaia; a deusa Clio; o sol da manhã, areia de duna roída por rio; samburá, linha, carlinga, rede; água doce e salobre encerrada na casca verde: segredo guardado à sete chaves, entre quatro marinhas paredes.

* * *

domingo, 15 de maio de 2011

Como naqueles westerns de nomes contundentes

John Ford, The Searchers [Ratros de Ódio], 1956

O Gauche

Às vezes, é preciso. Como naqueles westerns de nomes contundentes: Rastros de ÓdioMeu Ódio Será sua Herança.  Você vê aquele deserto lindo, os cânions e os rios. O Monument Valley. Ou para não falar de Sergio Leone. Os planos fechados. A narrativa lenta. Os objetos: esporas, luvas, coldres. As piruetas musicais de Morricone. Mas às vezes é preciso. Partir apenas. Porque a condição do exílio parece ser uma sina para alguns. E toda manhã já começa com aquele plano aberto e o homem e seu cavalo retirando-se da cidade cenário para as montanhas ao fundo.

* * *

Incapacidade de sair de perto

[s/i/c]

A Derrota

Acompanhar em tempo real o que não é real. Ser derrotado. Onde? Na capacidade de sair de perto do objeto, da coisa – do casco, fibra sintética, fio, circuitos, cristal líquido, molas e plástico – que, de quando em vez, pulsa à tela a tênue indicação de que és, estás viva. Presente no mundo.


* * *

sábado, 14 de maio de 2011

Um atrás do outro, lá eles ---

[s/i/c]


Nove relatos da mesma insônia

Os nove relatos abaixo foram escritos na mesma noite. Neste maio. Sábado passado. Quase que um atrás do outro. A única exceção foi "As Amigas", que já havia sido escrito previamente e partiu de um diálogo fortuito que ouvi em algum lugar (apenas duas frases). E de certa imagem, bem mais antiga, que nada tinha a ver com o diálogo. Mas mesmo "As Amigas" foi sensivelmente modificado nessa mesma noite da escritura dos demais. Juntos com mais outros oito, um pouco mais longos e elaborados, que foram escritos em separado, eles constituem um pequeno livro de contos curtos chamado: 17 relatos começados com pronomes definidos. Pode-se dizer que o livrinho foi escrito em menos de uma semana. Alguns dos outros relatos já foram publicados por aqui, como "O Pastor" e "A Certidão". Ou no blogue português É Tudo Gente Morta, casos de "O Presente" e "O Equilibrista" e uma versão ampliada de "O Forasteiro" --- cuja versão reduzida encontra-se também aqui. 

Quatro ou cinco dos nove abaixo basearam-se em contos de Kafka. Mas se alguns dão a pista de quais contos partiram, em outros será muito mais difícil perceber, porque apenas a atmosfera foi recolhida.

Quando adolescente, eu lia Kafka com arrepios. Frios na medula. Certo terror. Taquicardias.  Uma vez, lendo O Castelo, na rede de tucum da varanda, senti-me tão hipnotizado por aquela atmosfera feérica e estranha, que pensei que fosse ficar louco. Pulei da rede e fiquei fixando a capa do livro, o coração disparado. Ler Kafka, àquela altura, era uma experiência psicossomática. Só muito depois comecei a perceber o quanto de humor havia naqueles contos. O ponto é que eles foram escritos dentro da tradição judaica da parábola. E, por isso, soam tão solenes a um adolescente. Com aquela singular autoridade que remete às Escrituras. Ou a naturalidade com que o absurdo infiltra-se no cotidiano. Ou vice-versa. Às vezes tão-só pelo deslocamento de uma única palavra. Mas, de outro, de modo, a idade nos ajuda a perceber o quanto há de humor nas frinchas daquela solenidade. Daquele tom de parábola.

Foi uma noite estranha. Eu havia passado a tarde com minha filha. Depois fui deixá-la em casa de sua mãe. E, de repente, ao voltar para casa senti muita saudade dela, que fizera  aniversário dois dias antes, no dia cinco: quatro anos. Ela estava muito feliz. E era como se eu precisasse de um pouco mais daquela felicidade. Eu sabia que iria viajar em dois dias. E não iria vê-la.

Uma vez em casa, não sei por qual razão comecei a ler Kafka. Reler, naturalmente. Tentei em alemão, mas é um bocado difícil para mim. E há alguma ferrugem a desoxidar. Em português, não gosto das traduções de Modesto Carone, louvadas por quase todos os especialistas em Kafka no Brasil. Então li uma tradução para o inglês. A do casal Willa e Edwin Muir, que nem é reputada entre as melhores em língua inglesa. Mas eu gosto. Parece, de um modo estranho, haver mais Kafka nelas que nas traduções de Carone. E, às vezes, era só começar a ler um conto, e logo vinha o impulso de escrever um relato. Quando dei por mim, o sol entrava pelas venezianas e a noite fora devidamente vazada. Eu poderia vender no quilo minha olheiras.

Receio que alguns de meus leitores não vão gostar de alguns destes relatos. Especialmente os mais despojados.



P.S. -- Turmalina, você está aí??

*   *   *

Seus olhos remendavam-se ao vê-la

Thomas Hawk, Late Night Bus, 2004



O Colosso de Rodes

Toda vez, toda vez que voltava para Rodes, um subúrbio obscuro, numa obscura cidade da província, seus olhos remendavam-se ao vê-la. Quieta. Observando através do vidro, estriado pelas chuvas, as luzes difusas dos botecos, pracinhas desmanteladas. Como ela conseguia distinguir-se das demais era mistério.
Fato era o modo como prendia o cabelo e envergava quase as mesmas roupas das outras, mas que nela caíam com charme e dobras indisfarçáveis. Certo torneio do ombro nu. A pressão da alça sobre a tez macia. Quantas vezes não sentou ao lado dela. E enxergou no singelo anel cingindo o dedo mínimo um pretexto qualquer de conversa. E não seguia tão cheia a lua, que não custava dizer boa-noite? Mas não. Ela parecia tão distinta. Na certa era noiva. Meses se passaram. E raras as noites em que não voltavam para Rodes no mesmo ônibus.
Até que um colossal projeto de reurbanização extinguiu a linha, substituída por um metrô de superfície. Pontuais e longas composições. Quase sempre não mais a via, na volta do trabalho – cidades-dormitório são pesadelos que se tem de contornar com um pouco de fantasia (de preferência em vigília) e alguns fumos de glória futebolística.
À última vez que a viu – já se esconde no calendário – ela estava grávida.
E, ao fim de tudo, abriram um gigantesco shopping-center em Rodes.


* * *

Um sonho amparado em cento e vinte e quatro colunas de mármore

[s/i/c]

O Turista

Veja, querida, La Fuente de Los Leones – louvou – é o centro da cidadela. Um sonho amparado em cento e vinte e quatro colunas de mármore. Azulejos. Como os versos dizem da fonte: “Ela não descansa sobre touros,/ porém sobre leões dispostos em círculo/ e eles parecem rugir para suas presas”. Estamos no coração da Alhambra. A síntese de três culturas. Pérola andaluza. Que acha dos leões?
Bonitos.
Mas, ainda com fiapos de seguidas noites de amor mal conseguidas, no invólucro do só pensar, ela descontornou para si e resoluta:
Prefiro os do Disney.

* * *

E o peixe movia-se em câmera lenta

[s/i/c]

As Amigas

Num restaurante à beira-mar, duas amigas.
Eu queria que G.R. fosse uma marca de chocolate de muito sucesso – disse a outra.
Por quê? – disse a uma.
Porque aí não se esgotaria nunca. A gente ia poder desfrutar de algo inédito dele, de sua obra, sempre que desse na telha.
No aquário, entre as bolhas propalando-se no verde-turvo das águas, a lenta revolução das algas imantava a atenção da uma. Os pequenos dutos limosos. E o peixe dourado, de vasta calda movia-se em câmera lenta, enquanto os menores, por espasmos, cruzavam os sete mares com a propulsão de torpedos para então deterem-se, súbitos.
Alguém puxou as persianas da tarde. A luz abrandou. E um matiz de azul-cobalto pairou sobre as ondas com um demão de orquídeas-da-serra.
O bicho-homem é um labirinto – a uma, que foi a segunda a aparecer por aqui, disse, e sorveu o capuccino.
Fato. Depois eles dizem que complicadas somos nós – a outra disse.
Um silêncio de vapores d'água sobre xícaras percorreu o café. E a brisa entortou o oleandro no vaso, sob o toldo. Pagaram a conta. E, depois de a motocicleta ensurdecer a tarde, a primeira – que foi a segunda a aparecer, já disse, mas terá sempre a precedência no coração do autor – depôs, à saída do semáforo:
Mas eu estava falando da gente também.
Ei, olhe p'ronde 'cê tá indo. Acha que é fácil ir na garupa?
A outra abraçou-a contra si. Abraçou-a com ternura. E, completamente rendida, deslizou a mão pelo antebraço até os dedos da uma, que embreavam as marchas. Seus cabelos esvoaçavam sob os capacetes e a brisa da Avenida Beira-Mar semelhava aumentar ainda a mais a velocidade da moto.
Elas eram extraordinariamente jovens e belas.

* * *

Seja intensa

[s/i/c]


Os Amigos

Amigos, amigos, negócios em toda parte. O executivo sabia do interesse do jovem redator pela secretária. Ela tinha cabelos curtos, era ruiva, e as leves sardas que lhe respingavam o rosto. Tinha também aquele fluido sotaque carioca, que parece levar vantagem até quando se desculpa. Não digo, feito o poeta, que vê-la à luz do sol era testemunhar a morte do marxismo; e, no entanto, nela as formas menos que as de um violoncelo não eram curvas. Ainda quando ocultas sob episódicos overalls.
Naturalmente era amante do executivo. E não desgostava. Embora fosse voluntariosa. E, logo, não morresse por isso.
Ela indagou ao chefe o que fazer. E este estava de olho nas contas. E no quanto a habilidade com as palavras do redator, recém-contratado, redundava no aumento de anunciantes, e polpudos depósitos bancários:
Faça-se de difícil. Depois, você sabe. Mas, então, seja intensa. E, uma vez a casa aberta, passe a trava. Daqui uns tempos, vai estar comendo na sua mão – disse ele, girando na poltrona.
A moça seguiu à risca o roteiro.
Cafés. Bistrôs. Cinemas. Motéis, enfim. Depois longos serões de futebol e filmes nos apartamentos respectivos:
Perfeito – assentiu o executivo ao receber o relatório, a cinza do cigarro expurgada pelo polegar à base da piteira de nácar.
Bata mais um pouco nele – disse o executivo num entrebocejo – E aí Aníbal transpõe os Alpes. E ele vai estar comendo na sua mão.
Na sua mão – repetiu ela em piloto automático.
Na sua mão – repetiu ele em piloto automático.
Algo no entanto dera errado.
Bota mais um pouco – ela dizia, manhãs sem data, no apartamento do jovem redator.
Enquanto ele entornava alpiste, tipo fubá, na palma da mão. 

* * *

Passando, eia, rente aos olhos

Arte Guarani



O Guarani

Ah, uma só vez ser um guarani. E reclinar-me do cavalo ao ponto de ver – como hoje só uma microcâmera faria – o barro, o capim, as poças passando, eia, rente aos olhos. E o vento frio da alvorada como um dentifrício do rosto. E, de repente, sequer de esporas se faria o acelerar. Não haveria mais rédeas nem ilhargas que detivessem esse impulso. Nem mesmo o pescoço do cavalo – ainda que costumizado. E só os olhos do guarani, a percorrer o terreno, junto às patas, como portentosa lente digital a celebrar na memória, desde um helicóptero, o spot exato, fariam para si uma posteridade.

* * *

Se nesses casos há um quê de faz-de-conta

[s/i/c]


O Lapso


Certa noite em que a lua formosa e redonda, veio dar em cheio na tua varanda, cansado da página, resolveste o passeio. E do alto da colina miraste o bairro. Da forma como, de cima, o mundo parece ordenado. O riacho. O bosque. As ruas. A falésia prefaciando o mar. Mas eis que um vulto veio correndo em tua direção. Passou por ti. E desapareceu nos arbustos. Perplexo ouviste passos. De que fugia ele? O mundo anda bem violento. E logo outro vulto também cruzou teu caminho e desapareceu no bosque, perto de onde o primeiro. Muito te atravessou, em suma. Seria apenas uma brincadeira de namorados? Mas então por que tanta pressa se nesses casos há um quê de faz-de-conta? E se o segundo portasse uma arma? Ah, bom, nos dois casos, de certa forma, havia um porte de arma. E o primeiro levava uma dianteira considerável, além de correr mais rápido. E, quem sabe, o melhor a fazer em casos assim, não sacar o celular: informar a polícia não seria desperdiçar o dinheiro do contribuinte? Afinal, fosse assassinato ou namoro, depois de tanta cisma, tudo já teria se consumado.

* * *