segunda-feira, 16 de maio de 2011

Verbete para Twitter

[s/i/c]

O Recado do Passarinho Taxista

Twitter é um confessionário telecompartido pela tecnologia digital em que se diz o extremamente dispensável e, vez por outra, o excessivamente íntimo, em 140 caracteres. Como foi inventado para taxistas norte-americanos, o português – a exemplo de qualquer outro idioma – é um tanto maltratado, por consequência (as formas curtas são difíceis de domar). Seu poeta, por excelência, chama-se Fabrício Carpinejar. Ele descobriu uma fórmula de frase que funciona bem. O problema é que essa mesma fórmula repete-se, de novo e de novo, ad nauesam, mudando apenas o descartável – ou seja, no caso, o conteúdo.


* * *

Outra alegria mais clara: Fausto Nilo

[s/i/c]


Da versatilidade frásica de Fausto Nilo, poeta


Há um trovador provençal. Seu estilo era hermético. E seu nome, Peire Raimon de Tolosa. Seus versos mais famosos são:

Atressi cum la candela
que si meteissa destrui
per far clartat ad autrui,
chant, on plus trac gren martire,
per plazer de l'autra gen.

Que podem palidamente ser traduzidos como:

assim como a candeia
a si própria consome
para esclarecer gente alheia
canto fundo meu tormento
para o prazer de outra aldeia

Toco nisso, porque lembro do apreço que Fausto Nilo nutre pela poesia dos trovadores. Na verdade, em certo rumo, Fausto se converteu num deles. Lembro de haver, certa feita, escrito um artigo para O Povo, em que defendia a tese de que o canto de cisne, não só de Raimundo Fagner, como de todo o propalado Pessoal do Ceará, havia sido o magnífico – e elegíaco – álbum Beleza, de 1979.
Alguns dias depois recebi um imeio de Fausto. Ele, muito educadamente, como usa ser, contrargumentou que não era bem assim. Que eu estava fechando a questão um tanto sob um ângulo extra-musical. Ou extra-estético. Ou seja, que o fato de a música de Raimundo Fagner se haver tornado mais popularesca, ou mesmo cortejado o número, não impediu que também, eventualmente, fosse calcada em canções de grande voltagem musical e refinamento poético.
Depois do que lembro? De vagamente sair da Desafinado, certo lusco-fusco, conversando com Fausto a lhe indagar – provavelmente pela milésima vez – sobre a confecção do Beleza, ao qual além de contribuir com letras, ele também desenhou a capa. Seguíamos Dom Luiz acima, e, claro, devido ao horário, havia um tráfego medonho na avenida. Lembro que estava do lado exterior da calçada – das exíguas calçadas de Fortaleza – e, volta e meia, pisava a pista, desviando-me dos carros para evitar os transeuntes e o pessoal que esperava nos pontos de ônibus. Os automóveis, no entanto, passavam muito rente de onde meus pés. Eu fazia isso quase inconsciente, levando fé em minha capacidade de driblar obstáculos em caminhadas. Porém, numa das vezes em que estava com os dois pés na pista, senti uma mão puxando meu braço:
Não faça isso – disse Fausto – esse negócio é perigoso. Sei que você é jovem. Mas, repare, eu já vou para sessenta. A gente quando ganha em anos perde um pouco de reflexo. Inevitável ver uma fração a mais de perigo em tudo. Boa garantia é andar nas calçadas. Mesmo que se espere um pouco.
Aquele senso de cuidado, cautela e, sobretudo, de medida, de espaço, só poderia provir da conjunção dos dois ofícios de Fausto, que, de resto, causariam inveja a João Cabral (a despeito de este não gostar de música -- à exceção do frevo e do flamenco): arquiteto e poeta – embora Fausto reitere que não; não é poeta, mas letrista. Isso, contudo, é já outra discussão, longa e inconclusiva. Não para já.
Mas, sim, Fausto tinha razão. Há canções de grande requinte – e não poucas – da fase pós-Beleza. E em parcerias diversas, com Moraes Moreira, por ilustração. Mas, em especial, fico com duas, que me parecem extremamente bem conseguidas: “Pedras Que Cantam” (Dominguinhos/ Fausto Nilo) e “Palavra de Amor” (Manassés/ Fausto Nilo).
Teria muito pano para as mangas para tecer alguma prosa sobre a primeira. Mas seus dotes são tão evidentes que seria perda de tempo. Quanto a segunda, sim; essa segunda, ao mencionar o “romance de amor” – gênero medieval – lança Fausto na intensa direção de sua pesquisa em torno da música francesa. Recordo de uma vez – e passamos de anos sem nos ver – ele me indagar se por acaso eu tinha notícia de algum detalhe sobre uma história em versos, um "rumance" – muito popular no interior do Ceará – , que fazia alusão a um aluno, que havia morto a pedradas um pavão, bicho do afeto maior de seu professor, e, pelo crime, ficara jurado de morte.
Sim, na verdade, tinha ouvido essa história da boca de minha avó. Mas sequer recordava o teor dos versos. Senão uma vaga melodia. O sentido geral da trama. E o número de sílabas ecoando na cabeça. Aquele cavername de ritmo. A medida (forma) ecoava em minha mente mais do que a trama (conteúdo).
Depois consultando em casa, descobri que J. Leite de Vasconcelos, o eminente filólogo português, a tinha recolhido em algumas variâncias e que, de resto, ela também havia  sido muito popular no Norte do Brasil, da Bahia ao Piauí. E provavelmente durante mais tempo do que se imagina, antes de a televisão arrasar essas finas narrativas, plenas de arquétipos.
Fausto Nilo provém delas. É uma espécie de ponta do iceberg. Vem de um tempo em que um garoto de classe média, no interior, podia absorver essas delicadas formas populares apenas por uma forte intuição de o quanto eram importantes. Na verdade, eram provavelmente essas formas que de fato se apossavam de um indivíduo. Mesmo de um jovem indivpiduo, que ainda se emocionou, às raias do pranto mal contido, ao relembrar a partida e sua pequena cidade, resumida à janela do vagão, em uma entrevista, alguns anos atrás.
Palavra de Amor” aponta para algo que o clichê (e a telenovela) ainda não atentou: a afectividade entre sertanejos é contida. Pode ser de uma deliciosa reticência. De um laconismo. Daí a fatura do verso que o calar fala mais que o filosofar. 
E, aqui, é preciso lembrar que Fausto nasceu em Quixeramobim e, por uma dessas conjunções astrais, praticamente na mesma casa que viu vir ao mundo ninguém menos que Antônio Conselheiro. "Palavra de Amor" também aponta, como umas poucas de outras canções, para essa pequena obsessão de Fausto – que, de resto canta como um diseur: a música medieval, e em especial, a francesa. Esse interesse de Fausto estica-se de um trovador antigo, Raimon de Tolosa – que possui o mesmo prenome de Fagner – à modernidade de Leonard Cohen, o judeu-canadense, em cuja tradição de grande letrista Fausto também pode ser inscrito. Aliás, há algo de judeu no temperamento de Fausto Nilo. De algum modo, até mesmo em suas feições. Mas também em certo cosmopolitismo desabusado que o rádio lhe legou desde criança. O poeta norte-americano George Oppen dizia: “em algum lugar a meio caminho entre o fato de ser singular e o fato de ser numeroso está o fato de ser judeu”.

Fausto é alguém que caminha nesse limiar entre o singular, o numeroso. Como arquiteto. Mas também como um homem com uma permanente canção. Sua memória de velhos sambas, de velhos reisados pastoris é prodigiosa. E quem quiser comprovar sua fertilidade com as letras – onde, no caso, além das lais francesas entra uma pitada de García Lorca – escute a canção abaixo. Há a habitual plangência da voz de Fagner e a perícia pop dos músicos do Roupa Nova nessa rendição de “Palavra de Amor” (Manassés/Fausto Nilo) no velho e bom tube, além da íntegra da letra, mais abaixo:



Palavra de Amor


Na divina claridade 
Em que você se iluminou,
O calendário seria 
Um dia de cada cor,
Futuro, ah, como eu queria
Te cobiçar, ventania,
Num romance de amor --
E a lua ainda mais clara
Queria escutar tua fala
Com palavra de amor.

Meu amor quando se cala
Fala mais que um pensador.
Me ensinou que a vida vai
Onde a saudade ficou
E enquanto a vida não pára,
Não pára nunca esse motor.
Outra alegria mais clara
Seria escutar tua fala
Com palavra de amor.

[Fausto Nilo]


CODA -  acho lindo o modo como a percepção musical de Fausto aplica o terceto final de redondilhas, cuja sonoridade é ostensivamente aberta e solar ("Outra alegria mais clara/ Seria escutar tua fala/ Com palavra de amor".) e melodicamente o expõe, como se na voz de cantadores sertanejos, à melodia de Manassés. Isso soa como -- lá sei -- um cego de feira. (Posso ouvir lá, ao fundo Cego Oliveira cantando esse terceto com a mesmíssima inflexão). Pode-se ouvir esses cantadores mesmo bem ao fundo da sofisticação pop - especialmente dos teclados - presente no bem apanhado arranjo do Roupa Nova. Louve-se também a interpretação de Fagner, cujo acento equilibra-se entre o sertanês (ou interiorano rural) e o cearense  culto (que são dois dos mais belos sotaques do português). Acho particularmente interessante o modo como ele pronuncia o terceiro verso, "um dia de cada cor". E por duas razões. Primeiro porque trata-se de um das imagens mais bonitas, esses dias coloridos de forma diversa no calendário. Segundo e muito mais importante, porque o canto aproxima-se bastante da fala, do coloquial. E então Fagner pronuncia o verso com todas as aliterações em "d" e a palavra "cor" é dita de forma tão rápida que parece murchar ao fim da frase. Penso que, em geral, os cearenses, piauienses e alguns potiguares falam assim, quase pondo em implícito esse "r" final de "cor", "amor", "pensador", "motor", etc. E, logo, muito diverso de como nos querem fazer falar nas telenovelas.
[de resto, não entendo como esta postagem moveu-se do dia 12 de maio para hoje, depois deste acréscimo ao final. Mistérios da meia-noite informática]

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Negro e um pouco de vermelho sobre branco











Uma Bossa Nova de Capas


Hoje, César Vilella, o responsável pelas prismáticas capas da Elenco, dos anos 50 e 60, faz 81 anos. A elegância de um estilo limpo, minimalista, facilmente vislumbrável. Acima algumas de suas artes, quase sempre elementos negros com pontos vermelhos sobre fundo branco. A própria economia expressiva da bossa nova traduzida em design

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E nisso estavam antecipados o encontro, o risco e outras coisas

Richard Diebenkorn, Reclining Figure #II, 1962

Nome

Por anos chamei teu nome. Por aí. Bem antes. E nisso estavam antecipados o encontro, o risco, e outras coisas; é melhor nem falar. 
Agora, sei, não chamava uma ficção. Em cada uma das sílabas, os quatro pontos cardeais. Uma prece. Um hai-kai. Não chamei em vão. E não havia outros modos de chamá-lo. E, assim, chamei quase todo. O ser que há em você. Até não ser mais preciso. O nome chamava todos os elementos, riscado que fora à fio de faca em proa de canoa.
Seria porque não havia outra palavra, suave demais, para ser teu nome? Uma forma de dizer onde mora o não ter medo? Um dizer uma palavra para aquilo que não cabe?
Agora, tudo somado, Princesa, ele pode voltar ao que sempre foi – uma senha, os bredos e nardos, os seixos, à praia; o mangue, a argila, ondas, alpendre, samambaia; a deusa Clio; o sol da manhã, areia de duna roída por rio; samburá, linha, carlinga, rede; água doce e salobre encerrada na casca verde: segredo guardado à sete chaves, entre quatro marinhas paredes.

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domingo, 15 de maio de 2011

Como naqueles westerns de nomes contundentes

John Ford, The Searchers [Ratros de Ódio], 1956

O Gauche

Às vezes, é preciso. Como naqueles westerns de nomes contundentes: Rastros de ÓdioMeu Ódio Será sua Herança.  Você vê aquele deserto lindo, os cânions e os rios. O Monument Valley. Ou para não falar de Sergio Leone. Os planos fechados. A narrativa lenta. Os objetos: esporas, luvas, coldres. As piruetas musicais de Morricone. Mas às vezes é preciso. Partir apenas. Porque a condição do exílio parece ser uma sina para alguns. E toda manhã já começa com aquele plano aberto e o homem e seu cavalo retirando-se da cidade cenário para as montanhas ao fundo.

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Incapacidade de sair de perto

[s/i/c]

A Derrota

Acompanhar em tempo real o que não é real. Ser derrotado. Onde? Na capacidade de sair de perto do objeto, da coisa – do casco, fibra sintética, fio, circuitos, cristal líquido, molas e plástico – que, de quando em vez, pulsa à tela a tênue indicação de que és, estás viva. Presente no mundo.


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sábado, 14 de maio de 2011

Um atrás do outro, lá eles ---

[s/i/c]


Nove relatos da mesma insônia

Os nove relatos abaixo foram escritos na mesma noite. Neste maio. Sábado passado. Quase que um atrás do outro. A única exceção foi "As Amigas", que já havia sido escrito previamente e partiu de um diálogo fortuito que ouvi em algum lugar (apenas duas frases). E de certa imagem, bem mais antiga, que nada tinha a ver com o diálogo. Mas mesmo "As Amigas" foi sensivelmente modificado nessa mesma noite da escritura dos demais. Juntos com mais outros oito, um pouco mais longos e elaborados, que foram escritos em separado, eles constituem um pequeno livro de contos curtos chamado: 17 relatos começados com pronomes definidos. Pode-se dizer que o livrinho foi escrito em menos de uma semana. Alguns dos outros relatos já foram publicados por aqui, como "O Pastor" e "A Certidão". Ou no blogue português É Tudo Gente Morta, casos de "O Presente" e "O Equilibrista" e uma versão ampliada de "O Forasteiro" --- cuja versão reduzida encontra-se também aqui. 

Quatro ou cinco dos nove abaixo basearam-se em contos de Kafka. Mas se alguns dão a pista de quais contos partiram, em outros será muito mais difícil perceber, porque apenas a atmosfera foi recolhida.

Quando adolescente, eu lia Kafka com arrepios. Frios na medula. Certo terror. Taquicardias.  Uma vez, lendo O Castelo, na rede de tucum da varanda, senti-me tão hipnotizado por aquela atmosfera feérica e estranha, que pensei que fosse ficar louco. Pulei da rede e fiquei fixando a capa do livro, o coração disparado. Ler Kafka, àquela altura, era uma experiência psicossomática. Só muito depois comecei a perceber o quanto de humor havia naqueles contos. O ponto é que eles foram escritos dentro da tradição judaica da parábola. E, por isso, soam tão solenes a um adolescente. Com aquela singular autoridade que remete às Escrituras. Ou a naturalidade com que o absurdo infiltra-se no cotidiano. Ou vice-versa. Às vezes tão-só pelo deslocamento de uma única palavra. Mas, de outro, de modo, a idade nos ajuda a perceber o quanto há de humor nas frinchas daquela solenidade. Daquele tom de parábola.

Foi uma noite estranha. Eu havia passado a tarde com minha filha. Depois fui deixá-la em casa de sua mãe. E, de repente, ao voltar para casa senti muita saudade dela, que fizera  aniversário dois dias antes, no dia cinco: quatro anos. Ela estava muito feliz. E era como se eu precisasse de um pouco mais daquela felicidade. Eu sabia que iria viajar em dois dias. E não iria vê-la.

Uma vez em casa, não sei por qual razão comecei a ler Kafka. Reler, naturalmente. Tentei em alemão, mas é um bocado difícil para mim. E há alguma ferrugem a desoxidar. Em português, não gosto das traduções de Modesto Carone, louvadas por quase todos os especialistas em Kafka no Brasil. Então li uma tradução para o inglês. A do casal Willa e Edwin Muir, que nem é reputada entre as melhores em língua inglesa. Mas eu gosto. Parece, de um modo estranho, haver mais Kafka nelas que nas traduções de Carone. E, às vezes, era só começar a ler um conto, e logo vinha o impulso de escrever um relato. Quando dei por mim, o sol entrava pelas venezianas e a noite fora devidamente vazada. Eu poderia vender no quilo minha olheiras.

Receio que alguns de meus leitores não vão gostar de alguns destes relatos. Especialmente os mais despojados.



P.S. -- Turmalina, você está aí??

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Seus olhos remendavam-se ao vê-la

Thomas Hawk, Late Night Bus, 2004



O Colosso de Rodes

Toda vez, toda vez que voltava para Rodes, um subúrbio obscuro, numa obscura cidade da província, seus olhos remendavam-se ao vê-la. Quieta. Observando através do vidro, estriado pelas chuvas, as luzes difusas dos botecos, pracinhas desmanteladas. Como ela conseguia distinguir-se das demais era mistério.
Fato era o modo como prendia o cabelo e envergava quase as mesmas roupas das outras, mas que nela caíam com charme e dobras indisfarçáveis. Certo torneio do ombro nu. A pressão da alça sobre a tez macia. Quantas vezes não sentou ao lado dela. E enxergou no singelo anel cingindo o dedo mínimo um pretexto qualquer de conversa. E não seguia tão cheia a lua, que não custava dizer boa-noite? Mas não. Ela parecia tão distinta. Na certa era noiva. Meses se passaram. E raras as noites em que não voltavam para Rodes no mesmo ônibus.
Até que um colossal projeto de reurbanização extinguiu a linha, substituída por um metrô de superfície. Pontuais e longas composições. Quase sempre não mais a via, na volta do trabalho – cidades-dormitório são pesadelos que se tem de contornar com um pouco de fantasia (de preferência em vigília) e alguns fumos de glória futebolística.
À última vez que a viu – já se esconde no calendário – ela estava grávida.
E, ao fim de tudo, abriram um gigantesco shopping-center em Rodes.


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Um sonho amparado em cento e vinte e quatro colunas de mármore

[s/i/c]

O Turista

Veja, querida, La Fuente de Los Leones – louvou – é o centro da cidadela. Um sonho amparado em cento e vinte e quatro colunas de mármore. Azulejos. Como os versos dizem da fonte: “Ela não descansa sobre touros,/ porém sobre leões dispostos em círculo/ e eles parecem rugir para suas presas”. Estamos no coração da Alhambra. A síntese de três culturas. Pérola andaluza. Que acha dos leões?
Bonitos.
Mas, ainda com fiapos de seguidas noites de amor mal conseguidas, no invólucro do só pensar, ela descontornou para si e resoluta:
Prefiro os do Disney.

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E o peixe movia-se em câmera lenta

[s/i/c]

As Amigas

Num restaurante à beira-mar, duas amigas.
Eu queria que G.R. fosse uma marca de chocolate de muito sucesso – disse a outra.
Por quê? – disse a uma.
Porque aí não se esgotaria nunca. A gente ia poder desfrutar de algo inédito dele, de sua obra, sempre que desse na telha.
No aquário, entre as bolhas propalando-se no verde-turvo das águas, a lenta revolução das algas imantava a atenção da uma. Os pequenos dutos limosos. E o peixe dourado, de vasta calda movia-se em câmera lenta, enquanto os menores, por espasmos, cruzavam os sete mares com a propulsão de torpedos para então deterem-se, súbitos.
Alguém puxou as persianas da tarde. A luz abrandou. E um matiz de azul-cobalto pairou sobre as ondas com um demão de orquídeas-da-serra.
O bicho-homem é um labirinto – a uma, que foi a segunda a aparecer por aqui, disse, e sorveu o capuccino.
Fato. Depois eles dizem que complicadas somos nós – a outra disse.
Um silêncio de vapores d'água sobre xícaras percorreu o café. E a brisa entortou o oleandro no vaso, sob o toldo. Pagaram a conta. E, depois de a motocicleta ensurdecer a tarde, a primeira – que foi a segunda a aparecer, já disse, mas terá sempre a precedência no coração do autor – depôs, à saída do semáforo:
Mas eu estava falando da gente também.
Ei, olhe p'ronde 'cê tá indo. Acha que é fácil ir na garupa?
A outra abraçou-a contra si. Abraçou-a com ternura. E, completamente rendida, deslizou a mão pelo antebraço até os dedos da uma, que embreavam as marchas. Seus cabelos esvoaçavam sob os capacetes e a brisa da Avenida Beira-Mar semelhava aumentar ainda a mais a velocidade da moto.
Elas eram extraordinariamente jovens e belas.

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Seja intensa

[s/i/c]


Os Amigos

Amigos, amigos, negócios em toda parte. O executivo sabia do interesse do jovem redator pela secretária. Ela tinha cabelos curtos, era ruiva, e as leves sardas que lhe respingavam o rosto. Tinha também aquele fluido sotaque carioca, que parece levar vantagem até quando se desculpa. Não digo, feito o poeta, que vê-la à luz do sol era testemunhar a morte do marxismo; e, no entanto, nela as formas menos que as de um violoncelo não eram curvas. Ainda quando ocultas sob episódicos overalls.
Naturalmente era amante do executivo. E não desgostava. Embora fosse voluntariosa. E, logo, não morresse por isso.
Ela indagou ao chefe o que fazer. E este estava de olho nas contas. E no quanto a habilidade com as palavras do redator, recém-contratado, redundava no aumento de anunciantes, e polpudos depósitos bancários:
Faça-se de difícil. Depois, você sabe. Mas, então, seja intensa. E, uma vez a casa aberta, passe a trava. Daqui uns tempos, vai estar comendo na sua mão – disse ele, girando na poltrona.
A moça seguiu à risca o roteiro.
Cafés. Bistrôs. Cinemas. Motéis, enfim. Depois longos serões de futebol e filmes nos apartamentos respectivos:
Perfeito – assentiu o executivo ao receber o relatório, a cinza do cigarro expurgada pelo polegar à base da piteira de nácar.
Bata mais um pouco nele – disse o executivo num entrebocejo – E aí Aníbal transpõe os Alpes. E ele vai estar comendo na sua mão.
Na sua mão – repetiu ela em piloto automático.
Na sua mão – repetiu ele em piloto automático.
Algo no entanto dera errado.
Bota mais um pouco – ela dizia, manhãs sem data, no apartamento do jovem redator.
Enquanto ele entornava alpiste, tipo fubá, na palma da mão. 

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Passando, eia, rente aos olhos

Arte Guarani



O Guarani

Ah, uma só vez ser um guarani. E reclinar-me do cavalo ao ponto de ver – como hoje só uma microcâmera faria – o barro, o capim, as poças passando, eia, rente aos olhos. E o vento frio da alvorada como um dentifrício do rosto. E, de repente, sequer de esporas se faria o acelerar. Não haveria mais rédeas nem ilhargas que detivessem esse impulso. Nem mesmo o pescoço do cavalo – ainda que costumizado. E só os olhos do guarani, a percorrer o terreno, junto às patas, como portentosa lente digital a celebrar na memória, desde um helicóptero, o spot exato, fariam para si uma posteridade.

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Se nesses casos há um quê de faz-de-conta

[s/i/c]


O Lapso


Certa noite em que a lua formosa e redonda, veio dar em cheio na tua varanda, cansado da página, resolveste o passeio. E do alto da colina miraste o bairro. Da forma como, de cima, o mundo parece ordenado. O riacho. O bosque. As ruas. A falésia prefaciando o mar. Mas eis que um vulto veio correndo em tua direção. Passou por ti. E desapareceu nos arbustos. Perplexo ouviste passos. De que fugia ele? O mundo anda bem violento. E logo outro vulto também cruzou teu caminho e desapareceu no bosque, perto de onde o primeiro. Muito te atravessou, em suma. Seria apenas uma brincadeira de namorados? Mas então por que tanta pressa se nesses casos há um quê de faz-de-conta? E se o segundo portasse uma arma? Ah, bom, nos dois casos, de certa forma, havia um porte de arma. E o primeiro levava uma dianteira considerável, além de correr mais rápido. E, quem sabe, o melhor a fazer em casos assim, não sacar o celular: informar a polícia não seria desperdiçar o dinheiro do contribuinte? Afinal, fosse assassinato ou namoro, depois de tanta cisma, tudo já teria se consumado.

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Havia um eclipse nos olhos de meu avô

[s/i/c]



O Eclipse

Meu avô, que não era supersticioso, não gostava de eclipses. No grande eclipse de 73, que se deu próximo ao pôr-do-sol, enquanto todos observavam:
Parece que o Joaquim Veras está fazendo uma queimada no terreno – disse ele.
Pensando melhor, havia um eclipse nos olhos de meu avô. E, se não soubesse desde criança que sua vista era de aos oitenta anos manejar velhos selos sem o auxílio da lupa, diria que ele trazia nos olhos algo da córnea opaca dos cegos.
Mas isso de eclipse era talvez uma das raras coisas que ele não queria ver.
Outros não viam em demasia.


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E a noite afunda no poço

[s/i/c]


O Termo

Perdido em devaneios, uma noite. Tão longa que parece que a gente está sozinho no mundo, não fosse o dicionário. E há um poço, de onde, se bem se recorda, alguém puxava água, há tanto tempo. Esse alguém já se foi. E quase todos os que beberam daquela água. E a noite afunda no poço inevitavelmente. Como quando se tenta achar o termo exato, e ele não vem. E a gente sabe, quando não for mais preciso, num déjà-vu desses qualquer, ele virá, soberbo, dentro de um landau puxado por vistosos cavalos.


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Longe daqui

[s/i/c]


O Veranista


Porque queria ir para longe daqui, disse ao mecânico que me aprontasse o carro para o sábado. Ele, parece, não entendeu. E lá tive eu de ir pessoalmente à oficina. E verificar o que faltava: novas pastilhas de freio, um spoiler mal fixado, o nível do óleo. Sujei as mãos na graxa. E ele me repassou um maço encardido de estopa:
O senhor vai para onde?
Para longe daqui – respondi.
Com um meneio, ele riu complacente, e olhou-me de esguelha:
Mais fácil é um touro parir uma ninhada de angorás.
Depois saí com meu carro. Senti o ronco do motor, seus muitos cilindros. Vai ser uma viagem e peras. Quando, enfim, cheguei em casa, lembrei-me do molinete e da lata com as iscas. E, ao começar a pôr as coisas no bagageiro, disse o vizinho:
Para onde você vai mesmo?
Para longe daqui.
Longe daqui? – ele riu condescendente – é mais fácil um camelo passar pelo fio de uma agulha.


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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Quinta, e ela tinha uns trinta

[s/i/c]



A Semana da Rima Imperfeita

domingo do pé de cachimbo
segunda da freira corcunda
terça da viúva travessa
quarta da bunda mais farta
quinta, e ela tinha uns trinta
sexta, deixa de ser besta
sábado, e já tá tudo acábado



NOTA – não pense que é fácil arrumar uma rima perfeita para sábado. Podia ser “cágado”. Mas cágado tem uma sonoridade, assim, tão próxima da digestão. E, em tempo, o que se pode dizer dos cágados, além do fato desses reles quelônios ficarem alternando entre estar vivo ou morto em terra ou na água, e deverem seu nome à cor escura de suas fezes? Jamais daria à mulher que amo um cágado de presente. Não seria de bom tom. Por outro lado, minhas filhas -- a quem não amo menos, mas de uma outra forma -- talvez gostassem um bocado de serem presenteadas com um cágado. As mulheres, quando crianças, tem uma queda terrível por toda a ordem dos Testudinata. E os tratam como bebês, meio como se aqueles bichos pré-históricos de carapaça e tudo mais pudessem ser algo como bonecas. Chuste! Minha irmã teve um quando criança e uma amiga cria um cágado (ou seria uma tartaruga, macho inclusive) com um nome até bacana. Sugiram-me outras rimas perfeitas para sábado. Rimas toantes para tanto há aos montes, no entanto. Na verdade, eu estou aqui, em um hotel, estudando coisas seríssimas para uma palestra, numa cidade amena e inédita, diante de uma praia paradisíaca, que eu não posso nem olhar sob pena de estragar metade da palestra. Mas são tão chatas essas coisas sérias, que é preciso a gente fazer besteira nos intervalos.


Esta é apenas uma delas.

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Ouros e azuis a reluzir intimidades

[s/i/c]



Divagação e Fogo


Será que há algo mais bonito do que um casal sozinho, perto do que está sendo preparado ao fogão. A chama com aqueles ouros e azuis reluzindo intimidade? Traduz mais votos de estar juntos do que anéis de pedras e cerimônias. Acho que para sempre minha imagem, não para o amor -- esse contentamento descontente -- mas para algo ainda maior, ainda melhor, ainda mais impossivelmente possível -- um contentamento, afinal, contente -- será a de um casal -- e, aqui, minha camarada, meu camarada, que diferença faz sexo, idade, crisma, crença, matrimônio -- junto desse fogo amarelo e azul, que parece dizer, no seu consumir-se: tudo vale, só por querer bem. "Só por fazer convosco eterna liga", como dizia, no fim, o único poeta da língua.
Antigamente, quando havia outras sabedorias, recenseava-se as casas por fogos:
Há trezentos fogos na Vila de Aquiraz”.
Morro de saudade de Fortaleza quando estou distante. Inevitável. Por mais intratável e inóspita que a cidade se tenha tornado. Há uma doçura, uma cota de brisa à noite, se não está para chover, difícil de achar em qualquer outro lugar deste azulado planeta. 
Por causa de você, Fortaleza. E, em Fortaleza, você.


Tudo o mais esfinge-se. 


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terça-feira, 10 de maio de 2011

Elas vão entender esse velho capitão muito tempo depois

[s/i/c]


Oh, Captain, my Captain!

Acho que não seria de todo uma indiscrição transcrever o trecho de uma correspondência recente. Eu falava da fixação de minhas filhas, principalmente de Isabela, a mais nova, quatro anos recém-completos, pela figura do Capitão Gancho. Do outro lado do servidor de imeios, estava Odorico Leal, que em janeiro passado, no seu blogue, havia escrito sobre J. M. Barrie e seus personagens, Pan e Gancho incluídos. Odorico é um cara do tipo faz-tudo -- toca guitarra, compõe, traduz, canta super bem e escreve do jeito que lhe dá na telha. Gosta de poetas que ninguém gosta. Lê coisas que ninguém mais lê. Lê traduções da Ilíada acompanhado de um metrônomo. Tem até aquele clássico arrependimento que todo escritor, um pouco mais honesto, talentoso, tem ao menos uma vez na vida: não haver feito letras clássicas. E devora livros em vagões lotadíssimos do metrô, enquanto vai bem ali em São Paulo dar aulas de inglês --sabe-se que quase todo ir bem ali em São Paulo demanda pelo menos umas sete estações de metrô em duas diferentes linhas. O trecho é o seguinte e muito saboroso para todos que tem um certo fraco por anti-heróis:


Gosto muito da estória do Peter Pan, o J. M. Barrie escreve bem. Eu estive por escrever alguma coisa sobre o livro, mas nunca tive tempo ou coração. O Hook é um miserável genial, e infinitamente melancólico. Inveja no Peter a naturalidade que o torna invencível. A consciência do tempo e da morte pelo relógio e o crocodilo lhe encheu de conflitos morais, lhe roubou a espontaneidade aristocrática: está sempre refletindo sobre 'good form' e 'bad form', que são conceitos not perfectly easy to grasp. Não dizem respeito apenas à conduta moral, de fazer o bem ou o mal, mas ao grau de auto-questionamento em cada gesto: diz respeito a uma espécie de ingenuidade que lhe permite ser auto-confiante sem sabê-lo: mesmo Smee, o ajudante meio Sancho Pança do Hook, tem 'good form' - os lost boys gostam dele, embora seja pirata. O melhor modo de ter 'good form' é 'not knowing anything about it'. 'Good form' faz o mundo se mover. Há algo de Hamlet no Hook, porque ele sente-se fora dessa esfera da boa forma, sabe-se um elemento negro dentro da Neverland, uma forma deformada, um personagem carcomido por reflexões, inveja, ciúme e tristeza, tocado de humanidade, wearing the rags of his mortal pride. Acho bonito, in a sort of painful way, que num clássico infantil haja essa figura triste, atormentada por auto-consciência, julgando-se a si próprio obsessivamente em relação à ideal disposição, eternamente jovem, de Pan. They will figure out that old captain many years later in their lives.
 
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Guimarães Rosa e a graphia da história

[s/i/c]


No fim, tudo é história com H, até o Prêmio Nobel da Paciência


Guimarães Rosa errou pouco e morou longe. Talvez um de seus erros mais espessos: ter cindido a palavra história entre história e estória. Uma importação do inglês que teríamos passado melhor sem. É muito mais estimulante a ambiguidade que a palavra história – valendo igualmente para ficção e não-ficção, para Napoleão e para a anedota de botequim – concentrava em português. No meu léxico pessoal, não há estória. Para muitos puristas também. Em Portugal, parece, se emprega pouco. Ou não se emprega. Mas minha razão não passa pelo purismo da língua, senão pelos ecos semânticos da palavra. E que palavra! Lembro que, instintivamente, foi uma das primeiras coisas que fiquei remoendo depois de o professor de português da sétima série haver mencionado o fato. No caso, com regozijo, como se celebrasse mais uma proeza do engenho de Rosa. Mas já àquela época eu sentia que havia algo errado, que faltava Xerazade naquilo. Que, ao contrário do que o professor tentava nos sugerir: a história começa hoje, e continua amanhã. Nela, tênue o limiar entre realidade e ficção.


NOTA - se isto fosse dito em um artigo acadêmico, encheria catorze laudas, com um abstract em inglês, dezessete notas e vinte e duas citações. E o leitor medianamente sadio, que aguentasse ler até o fim receberia o Premio Nobel da Paciência. Tipo passar a noite inteira com aquela gota caindo da torneira e torrando o sossego do teu sono. 


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