segunda-feira, 16 de maio de 2011

E nisso estavam antecipados o encontro, o risco e outras coisas

Richard Diebenkorn, Reclining Figure #II, 1962

Nome

Por anos chamei teu nome. Por aí. Bem antes. E nisso estavam antecipados o encontro, o risco, e outras coisas; é melhor nem falar. 
Agora, sei, não chamava uma ficção. Em cada uma das sílabas, os quatro pontos cardeais. Uma prece. Um hai-kai. Não chamei em vão. E não havia outros modos de chamá-lo. E, assim, chamei quase todo. O ser que há em você. Até não ser mais preciso. O nome chamava todos os elementos, riscado que fora à fio de faca em proa de canoa.
Seria porque não havia outra palavra, suave demais, para ser teu nome? Uma forma de dizer onde mora o não ter medo? Um dizer uma palavra para aquilo que não cabe?
Agora, tudo somado, Princesa, ele pode voltar ao que sempre foi – uma senha, os bredos e nardos, os seixos, à praia; o mangue, a argila, ondas, alpendre, samambaia; a deusa Clio; o sol da manhã, areia de duna roída por rio; samburá, linha, carlinga, rede; água doce e salobre encerrada na casca verde: segredo guardado à sete chaves, entre quatro marinhas paredes.

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domingo, 15 de maio de 2011

Como naqueles westerns de nomes contundentes

John Ford, The Searchers [Ratros de Ódio], 1956

O Gauche

Às vezes, é preciso. Como naqueles westerns de nomes contundentes: Rastros de ÓdioMeu Ódio Será sua Herança.  Você vê aquele deserto lindo, os cânions e os rios. O Monument Valley. Ou para não falar de Sergio Leone. Os planos fechados. A narrativa lenta. Os objetos: esporas, luvas, coldres. As piruetas musicais de Morricone. Mas às vezes é preciso. Partir apenas. Porque a condição do exílio parece ser uma sina para alguns. E toda manhã já começa com aquele plano aberto e o homem e seu cavalo retirando-se da cidade cenário para as montanhas ao fundo.

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Incapacidade de sair de perto

[s/i/c]

A Derrota

Acompanhar em tempo real o que não é real. Ser derrotado. Onde? Na capacidade de sair de perto do objeto, da coisa – do casco, fibra sintética, fio, circuitos, cristal líquido, molas e plástico – que, de quando em vez, pulsa à tela a tênue indicação de que és, estás viva. Presente no mundo.


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sábado, 14 de maio de 2011

Um atrás do outro, lá eles ---

[s/i/c]


Nove relatos da mesma insônia

Os nove relatos abaixo foram escritos na mesma noite. Neste maio. Sábado passado. Quase que um atrás do outro. A única exceção foi "As Amigas", que já havia sido escrito previamente e partiu de um diálogo fortuito que ouvi em algum lugar (apenas duas frases). E de certa imagem, bem mais antiga, que nada tinha a ver com o diálogo. Mas mesmo "As Amigas" foi sensivelmente modificado nessa mesma noite da escritura dos demais. Juntos com mais outros oito, um pouco mais longos e elaborados, que foram escritos em separado, eles constituem um pequeno livro de contos curtos chamado: 17 relatos começados com pronomes definidos. Pode-se dizer que o livrinho foi escrito em menos de uma semana. Alguns dos outros relatos já foram publicados por aqui, como "O Pastor" e "A Certidão". Ou no blogue português É Tudo Gente Morta, casos de "O Presente" e "O Equilibrista" e uma versão ampliada de "O Forasteiro" --- cuja versão reduzida encontra-se também aqui. 

Quatro ou cinco dos nove abaixo basearam-se em contos de Kafka. Mas se alguns dão a pista de quais contos partiram, em outros será muito mais difícil perceber, porque apenas a atmosfera foi recolhida.

Quando adolescente, eu lia Kafka com arrepios. Frios na medula. Certo terror. Taquicardias.  Uma vez, lendo O Castelo, na rede de tucum da varanda, senti-me tão hipnotizado por aquela atmosfera feérica e estranha, que pensei que fosse ficar louco. Pulei da rede e fiquei fixando a capa do livro, o coração disparado. Ler Kafka, àquela altura, era uma experiência psicossomática. Só muito depois comecei a perceber o quanto de humor havia naqueles contos. O ponto é que eles foram escritos dentro da tradição judaica da parábola. E, por isso, soam tão solenes a um adolescente. Com aquela singular autoridade que remete às Escrituras. Ou a naturalidade com que o absurdo infiltra-se no cotidiano. Ou vice-versa. Às vezes tão-só pelo deslocamento de uma única palavra. Mas, de outro, de modo, a idade nos ajuda a perceber o quanto há de humor nas frinchas daquela solenidade. Daquele tom de parábola.

Foi uma noite estranha. Eu havia passado a tarde com minha filha. Depois fui deixá-la em casa de sua mãe. E, de repente, ao voltar para casa senti muita saudade dela, que fizera  aniversário dois dias antes, no dia cinco: quatro anos. Ela estava muito feliz. E era como se eu precisasse de um pouco mais daquela felicidade. Eu sabia que iria viajar em dois dias. E não iria vê-la.

Uma vez em casa, não sei por qual razão comecei a ler Kafka. Reler, naturalmente. Tentei em alemão, mas é um bocado difícil para mim. E há alguma ferrugem a desoxidar. Em português, não gosto das traduções de Modesto Carone, louvadas por quase todos os especialistas em Kafka no Brasil. Então li uma tradução para o inglês. A do casal Willa e Edwin Muir, que nem é reputada entre as melhores em língua inglesa. Mas eu gosto. Parece, de um modo estranho, haver mais Kafka nelas que nas traduções de Carone. E, às vezes, era só começar a ler um conto, e logo vinha o impulso de escrever um relato. Quando dei por mim, o sol entrava pelas venezianas e a noite fora devidamente vazada. Eu poderia vender no quilo minha olheiras.

Receio que alguns de meus leitores não vão gostar de alguns destes relatos. Especialmente os mais despojados.



P.S. -- Turmalina, você está aí??

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Seus olhos remendavam-se ao vê-la

Thomas Hawk, Late Night Bus, 2004



O Colosso de Rodes

Toda vez, toda vez que voltava para Rodes, um subúrbio obscuro, numa obscura cidade da província, seus olhos remendavam-se ao vê-la. Quieta. Observando através do vidro, estriado pelas chuvas, as luzes difusas dos botecos, pracinhas desmanteladas. Como ela conseguia distinguir-se das demais era mistério.
Fato era o modo como prendia o cabelo e envergava quase as mesmas roupas das outras, mas que nela caíam com charme e dobras indisfarçáveis. Certo torneio do ombro nu. A pressão da alça sobre a tez macia. Quantas vezes não sentou ao lado dela. E enxergou no singelo anel cingindo o dedo mínimo um pretexto qualquer de conversa. E não seguia tão cheia a lua, que não custava dizer boa-noite? Mas não. Ela parecia tão distinta. Na certa era noiva. Meses se passaram. E raras as noites em que não voltavam para Rodes no mesmo ônibus.
Até que um colossal projeto de reurbanização extinguiu a linha, substituída por um metrô de superfície. Pontuais e longas composições. Quase sempre não mais a via, na volta do trabalho – cidades-dormitório são pesadelos que se tem de contornar com um pouco de fantasia (de preferência em vigília) e alguns fumos de glória futebolística.
À última vez que a viu – já se esconde no calendário – ela estava grávida.
E, ao fim de tudo, abriram um gigantesco shopping-center em Rodes.


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Um sonho amparado em cento e vinte e quatro colunas de mármore

[s/i/c]

O Turista

Veja, querida, La Fuente de Los Leones – louvou – é o centro da cidadela. Um sonho amparado em cento e vinte e quatro colunas de mármore. Azulejos. Como os versos dizem da fonte: “Ela não descansa sobre touros,/ porém sobre leões dispostos em círculo/ e eles parecem rugir para suas presas”. Estamos no coração da Alhambra. A síntese de três culturas. Pérola andaluza. Que acha dos leões?
Bonitos.
Mas, ainda com fiapos de seguidas noites de amor mal conseguidas, no invólucro do só pensar, ela descontornou para si e resoluta:
Prefiro os do Disney.

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E o peixe movia-se em câmera lenta

[s/i/c]

As Amigas

Num restaurante à beira-mar, duas amigas.
Eu queria que G.R. fosse uma marca de chocolate de muito sucesso – disse a outra.
Por quê? – disse a uma.
Porque aí não se esgotaria nunca. A gente ia poder desfrutar de algo inédito dele, de sua obra, sempre que desse na telha.
No aquário, entre as bolhas propalando-se no verde-turvo das águas, a lenta revolução das algas imantava a atenção da uma. Os pequenos dutos limosos. E o peixe dourado, de vasta calda movia-se em câmera lenta, enquanto os menores, por espasmos, cruzavam os sete mares com a propulsão de torpedos para então deterem-se, súbitos.
Alguém puxou as persianas da tarde. A luz abrandou. E um matiz de azul-cobalto pairou sobre as ondas com um demão de orquídeas-da-serra.
O bicho-homem é um labirinto – a uma, que foi a segunda a aparecer por aqui, disse, e sorveu o capuccino.
Fato. Depois eles dizem que complicadas somos nós – a outra disse.
Um silêncio de vapores d'água sobre xícaras percorreu o café. E a brisa entortou o oleandro no vaso, sob o toldo. Pagaram a conta. E, depois de a motocicleta ensurdecer a tarde, a primeira – que foi a segunda a aparecer, já disse, mas terá sempre a precedência no coração do autor – depôs, à saída do semáforo:
Mas eu estava falando da gente também.
Ei, olhe p'ronde 'cê tá indo. Acha que é fácil ir na garupa?
A outra abraçou-a contra si. Abraçou-a com ternura. E, completamente rendida, deslizou a mão pelo antebraço até os dedos da uma, que embreavam as marchas. Seus cabelos esvoaçavam sob os capacetes e a brisa da Avenida Beira-Mar semelhava aumentar ainda a mais a velocidade da moto.
Elas eram extraordinariamente jovens e belas.

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Seja intensa

[s/i/c]


Os Amigos

Amigos, amigos, negócios em toda parte. O executivo sabia do interesse do jovem redator pela secretária. Ela tinha cabelos curtos, era ruiva, e as leves sardas que lhe respingavam o rosto. Tinha também aquele fluido sotaque carioca, que parece levar vantagem até quando se desculpa. Não digo, feito o poeta, que vê-la à luz do sol era testemunhar a morte do marxismo; e, no entanto, nela as formas menos que as de um violoncelo não eram curvas. Ainda quando ocultas sob episódicos overalls.
Naturalmente era amante do executivo. E não desgostava. Embora fosse voluntariosa. E, logo, não morresse por isso.
Ela indagou ao chefe o que fazer. E este estava de olho nas contas. E no quanto a habilidade com as palavras do redator, recém-contratado, redundava no aumento de anunciantes, e polpudos depósitos bancários:
Faça-se de difícil. Depois, você sabe. Mas, então, seja intensa. E, uma vez a casa aberta, passe a trava. Daqui uns tempos, vai estar comendo na sua mão – disse ele, girando na poltrona.
A moça seguiu à risca o roteiro.
Cafés. Bistrôs. Cinemas. Motéis, enfim. Depois longos serões de futebol e filmes nos apartamentos respectivos:
Perfeito – assentiu o executivo ao receber o relatório, a cinza do cigarro expurgada pelo polegar à base da piteira de nácar.
Bata mais um pouco nele – disse o executivo num entrebocejo – E aí Aníbal transpõe os Alpes. E ele vai estar comendo na sua mão.
Na sua mão – repetiu ela em piloto automático.
Na sua mão – repetiu ele em piloto automático.
Algo no entanto dera errado.
Bota mais um pouco – ela dizia, manhãs sem data, no apartamento do jovem redator.
Enquanto ele entornava alpiste, tipo fubá, na palma da mão. 

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Passando, eia, rente aos olhos

Arte Guarani



O Guarani

Ah, uma só vez ser um guarani. E reclinar-me do cavalo ao ponto de ver – como hoje só uma microcâmera faria – o barro, o capim, as poças passando, eia, rente aos olhos. E o vento frio da alvorada como um dentifrício do rosto. E, de repente, sequer de esporas se faria o acelerar. Não haveria mais rédeas nem ilhargas que detivessem esse impulso. Nem mesmo o pescoço do cavalo – ainda que costumizado. E só os olhos do guarani, a percorrer o terreno, junto às patas, como portentosa lente digital a celebrar na memória, desde um helicóptero, o spot exato, fariam para si uma posteridade.

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Se nesses casos há um quê de faz-de-conta

[s/i/c]


O Lapso


Certa noite em que a lua formosa e redonda, veio dar em cheio na tua varanda, cansado da página, resolveste o passeio. E do alto da colina miraste o bairro. Da forma como, de cima, o mundo parece ordenado. O riacho. O bosque. As ruas. A falésia prefaciando o mar. Mas eis que um vulto veio correndo em tua direção. Passou por ti. E desapareceu nos arbustos. Perplexo ouviste passos. De que fugia ele? O mundo anda bem violento. E logo outro vulto também cruzou teu caminho e desapareceu no bosque, perto de onde o primeiro. Muito te atravessou, em suma. Seria apenas uma brincadeira de namorados? Mas então por que tanta pressa se nesses casos há um quê de faz-de-conta? E se o segundo portasse uma arma? Ah, bom, nos dois casos, de certa forma, havia um porte de arma. E o primeiro levava uma dianteira considerável, além de correr mais rápido. E, quem sabe, o melhor a fazer em casos assim, não sacar o celular: informar a polícia não seria desperdiçar o dinheiro do contribuinte? Afinal, fosse assassinato ou namoro, depois de tanta cisma, tudo já teria se consumado.

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Havia um eclipse nos olhos de meu avô

[s/i/c]



O Eclipse

Meu avô, que não era supersticioso, não gostava de eclipses. No grande eclipse de 73, que se deu próximo ao pôr-do-sol, enquanto todos observavam:
Parece que o Joaquim Veras está fazendo uma queimada no terreno – disse ele.
Pensando melhor, havia um eclipse nos olhos de meu avô. E, se não soubesse desde criança que sua vista era de aos oitenta anos manejar velhos selos sem o auxílio da lupa, diria que ele trazia nos olhos algo da córnea opaca dos cegos.
Mas isso de eclipse era talvez uma das raras coisas que ele não queria ver.
Outros não viam em demasia.


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E a noite afunda no poço

[s/i/c]


O Termo

Perdido em devaneios, uma noite. Tão longa que parece que a gente está sozinho no mundo, não fosse o dicionário. E há um poço, de onde, se bem se recorda, alguém puxava água, há tanto tempo. Esse alguém já se foi. E quase todos os que beberam daquela água. E a noite afunda no poço inevitavelmente. Como quando se tenta achar o termo exato, e ele não vem. E a gente sabe, quando não for mais preciso, num déjà-vu desses qualquer, ele virá, soberbo, dentro de um landau puxado por vistosos cavalos.


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Longe daqui

[s/i/c]


O Veranista


Porque queria ir para longe daqui, disse ao mecânico que me aprontasse o carro para o sábado. Ele, parece, não entendeu. E lá tive eu de ir pessoalmente à oficina. E verificar o que faltava: novas pastilhas de freio, um spoiler mal fixado, o nível do óleo. Sujei as mãos na graxa. E ele me repassou um maço encardido de estopa:
O senhor vai para onde?
Para longe daqui – respondi.
Com um meneio, ele riu complacente, e olhou-me de esguelha:
Mais fácil é um touro parir uma ninhada de angorás.
Depois saí com meu carro. Senti o ronco do motor, seus muitos cilindros. Vai ser uma viagem e peras. Quando, enfim, cheguei em casa, lembrei-me do molinete e da lata com as iscas. E, ao começar a pôr as coisas no bagageiro, disse o vizinho:
Para onde você vai mesmo?
Para longe daqui.
Longe daqui? – ele riu condescendente – é mais fácil um camelo passar pelo fio de uma agulha.


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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Quinta, e ela tinha uns trinta

[s/i/c]



A Semana da Rima Imperfeita

domingo do pé de cachimbo
segunda da freira corcunda
terça da viúva travessa
quarta da bunda mais farta
quinta, e ela tinha uns trinta
sexta, deixa de ser besta
sábado, e já tá tudo acábado



NOTA – não pense que é fácil arrumar uma rima perfeita para sábado. Podia ser “cágado”. Mas cágado tem uma sonoridade, assim, tão próxima da digestão. E, em tempo, o que se pode dizer dos cágados, além do fato desses reles quelônios ficarem alternando entre estar vivo ou morto em terra ou na água, e deverem seu nome à cor escura de suas fezes? Jamais daria à mulher que amo um cágado de presente. Não seria de bom tom. Por outro lado, minhas filhas -- a quem não amo menos, mas de uma outra forma -- talvez gostassem um bocado de serem presenteadas com um cágado. As mulheres, quando crianças, tem uma queda terrível por toda a ordem dos Testudinata. E os tratam como bebês, meio como se aqueles bichos pré-históricos de carapaça e tudo mais pudessem ser algo como bonecas. Chuste! Minha irmã teve um quando criança e uma amiga cria um cágado (ou seria uma tartaruga, macho inclusive) com um nome até bacana. Sugiram-me outras rimas perfeitas para sábado. Rimas toantes para tanto há aos montes, no entanto. Na verdade, eu estou aqui, em um hotel, estudando coisas seríssimas para uma palestra, numa cidade amena e inédita, diante de uma praia paradisíaca, que eu não posso nem olhar sob pena de estragar metade da palestra. Mas são tão chatas essas coisas sérias, que é preciso a gente fazer besteira nos intervalos.


Esta é apenas uma delas.

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Ouros e azuis a reluzir intimidades

[s/i/c]



Divagação e Fogo


Será que há algo mais bonito do que um casal sozinho, perto do que está sendo preparado ao fogão. A chama com aqueles ouros e azuis reluzindo intimidade? Traduz mais votos de estar juntos do que anéis de pedras e cerimônias. Acho que para sempre minha imagem, não para o amor -- esse contentamento descontente -- mas para algo ainda maior, ainda melhor, ainda mais impossivelmente possível -- um contentamento, afinal, contente -- será a de um casal -- e, aqui, minha camarada, meu camarada, que diferença faz sexo, idade, crisma, crença, matrimônio -- junto desse fogo amarelo e azul, que parece dizer, no seu consumir-se: tudo vale, só por querer bem. "Só por fazer convosco eterna liga", como dizia, no fim, o único poeta da língua.
Antigamente, quando havia outras sabedorias, recenseava-se as casas por fogos:
Há trezentos fogos na Vila de Aquiraz”.
Morro de saudade de Fortaleza quando estou distante. Inevitável. Por mais intratável e inóspita que a cidade se tenha tornado. Há uma doçura, uma cota de brisa à noite, se não está para chover, difícil de achar em qualquer outro lugar deste azulado planeta. 
Por causa de você, Fortaleza. E, em Fortaleza, você.


Tudo o mais esfinge-se. 


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terça-feira, 10 de maio de 2011

Elas vão entender esse velho capitão muito tempo depois

[s/i/c]


Oh, Captain, my Captain!

Acho que não seria de todo uma indiscrição transcrever o trecho de uma correspondência recente. Eu falava da fixação de minhas filhas, principalmente de Isabela, a mais nova, quatro anos recém-completos, pela figura do Capitão Gancho. Do outro lado do servidor de imeios, estava Odorico Leal, que em janeiro passado, no seu blogue, havia escrito sobre J. M. Barrie e seus personagens, Pan e Gancho incluídos. Odorico é um cara do tipo faz-tudo -- toca guitarra, compõe, traduz, canta super bem e escreve do jeito que lhe dá na telha. Gosta de poetas que ninguém gosta. Lê coisas que ninguém mais lê. Lê traduções da Ilíada acompanhado de um metrônomo. Tem até aquele clássico arrependimento que todo escritor, um pouco mais honesto, talentoso, tem ao menos uma vez na vida: não haver feito letras clássicas. E devora livros em vagões lotadíssimos do metrô, enquanto vai bem ali em São Paulo dar aulas de inglês --sabe-se que quase todo ir bem ali em São Paulo demanda pelo menos umas sete estações de metrô em duas diferentes linhas. O trecho é o seguinte e muito saboroso para todos que tem um certo fraco por anti-heróis:


Gosto muito da estória do Peter Pan, o J. M. Barrie escreve bem. Eu estive por escrever alguma coisa sobre o livro, mas nunca tive tempo ou coração. O Hook é um miserável genial, e infinitamente melancólico. Inveja no Peter a naturalidade que o torna invencível. A consciência do tempo e da morte pelo relógio e o crocodilo lhe encheu de conflitos morais, lhe roubou a espontaneidade aristocrática: está sempre refletindo sobre 'good form' e 'bad form', que são conceitos not perfectly easy to grasp. Não dizem respeito apenas à conduta moral, de fazer o bem ou o mal, mas ao grau de auto-questionamento em cada gesto: diz respeito a uma espécie de ingenuidade que lhe permite ser auto-confiante sem sabê-lo: mesmo Smee, o ajudante meio Sancho Pança do Hook, tem 'good form' - os lost boys gostam dele, embora seja pirata. O melhor modo de ter 'good form' é 'not knowing anything about it'. 'Good form' faz o mundo se mover. Há algo de Hamlet no Hook, porque ele sente-se fora dessa esfera da boa forma, sabe-se um elemento negro dentro da Neverland, uma forma deformada, um personagem carcomido por reflexões, inveja, ciúme e tristeza, tocado de humanidade, wearing the rags of his mortal pride. Acho bonito, in a sort of painful way, que num clássico infantil haja essa figura triste, atormentada por auto-consciência, julgando-se a si próprio obsessivamente em relação à ideal disposição, eternamente jovem, de Pan. They will figure out that old captain many years later in their lives.
 
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Guimarães Rosa e a graphia da história

[s/i/c]


No fim, tudo é história com H, até o Prêmio Nobel da Paciência


Guimarães Rosa errou pouco e morou longe. Talvez um de seus erros mais espessos: ter cindido a palavra história entre história e estória. Uma importação do inglês que teríamos passado melhor sem. É muito mais estimulante a ambiguidade que a palavra história – valendo igualmente para ficção e não-ficção, para Napoleão e para a anedota de botequim – concentrava em português. No meu léxico pessoal, não há estória. Para muitos puristas também. Em Portugal, parece, se emprega pouco. Ou não se emprega. Mas minha razão não passa pelo purismo da língua, senão pelos ecos semânticos da palavra. E que palavra! Lembro que, instintivamente, foi uma das primeiras coisas que fiquei remoendo depois de o professor de português da sétima série haver mencionado o fato. No caso, com regozijo, como se celebrasse mais uma proeza do engenho de Rosa. Mas já àquela época eu sentia que havia algo errado, que faltava Xerazade naquilo. Que, ao contrário do que o professor tentava nos sugerir: a história começa hoje, e continua amanhã. Nela, tênue o limiar entre realidade e ficção.


NOTA - se isto fosse dito em um artigo acadêmico, encheria catorze laudas, com um abstract em inglês, dezessete notas e vinte e duas citações. E o leitor medianamente sadio, que aguentasse ler até o fim receberia o Premio Nobel da Paciência. Tipo passar a noite inteira com aquela gota caindo da torneira e torrando o sossego do teu sono. 


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Soprando o apito sobre a geada e o vale

[s/i/c]


O Pastor

Para que não te sintas sozinha, toco meu apito. E ele estride sobre a aldeia com lavareda fugaz de relâmpago. Na noite sobre o vale, da vara provem grunhidos. Desirmanados. Há deuses nas estrelas, onde todos procuram duas coisas: enxergar os mesmos desenhos – Andrômeda, Cassiopeia, Perseu –; e um espelho – como se elas, na distância de anos-luz, ainda tivessem alguma coisa a ver com os homens.
Faz frio. O Bafo de Bóreas abate-se sobre o bosque. Abaixo do relevo negro das árvores sob estrelas, os cobertores de lã, um fio tênue, como os de um teleférico, me liga a ti. O fio do apito furando a noite. Quantas braçadas no mar de placenta tenho de arriscar para me livrar dele.
Tanto empenho ponho nisso, que é como se, safo e veloz, manejasse à perfeição um abridor de latas à pia da cozinha, e nenhuma nódoa de molho ou erupção de ervilhas espalhasse sobre o pano de pratos. E, assim, nos sem fins da noite, sopro com ganas de apaixonado. Mesmo sabendo que provavelmente não serei ouvido. Ou por isso mesmo. Porque ainda que se ouvisse o apito, seria de raspão. Assim como, imerso em outra porta da mente, se ouve o jingle do caminhão de gás ou do vendedor de pamonhas, sem propriamente ouvir. É só por isso, sei, e libro notas tão nítidas, como Miles Davies em “Bye Bye Blackbird”. E, noite após noite, faço reviver o sem jeito que fomos nessa lembrança, soprando o apito sobre a geada e o vale. Meio como se o apito pudesse remendar os puídos do fio, os nexos das poucas conversas que tivemos, quando, mais jovens, descíamos juntos a acrópole na direção do mercado e eu tinha de reclinar a cabeça para ouvir tua voz onde havia mais silêncio que palavra. E, logo, pelo empenho de apitar tão bem, muitas transumâncias depois, pudesse eu obter, por uma estupenda graça, o primeiro prêmio da loteria, e a suprema dádiva de comprar o bilhete. Descer pelo teleférico, maciamente, das escarpas e vales para as sebes, anfiteatros e avant-premières da cidade. Não grisalho e maltrapilho. Mas com a esportividade e a pletora muscular de alguém que acaba de vencer o Big Brother ou o campeonato mundial de kite surf.
Inútil buzina, bem sei. Porém o que resta a alguém que tange porcos na serra, durante os duros invernos, desterrado dos cenáculos e da porcelana da cidade? Aquele mesmo que, esfalfado a vida inteira, sujando sandálias em poças, nos excrementos dos porcos, pintando o rosto com inclemência mineral de sol e estio, aprenderia jamais a comportar-se num banquete, e tecer argumento com astúcias de Ulisses.
Não, nesses pastores poetas, que se vê por aí – no pseudo-Teócrito, em Bíon e Osco – esse verniz urbano em almas que não transitam entre dactílicos e anapestos, nada mais é que mera convenção literária, enquanto a chuva castiga a campina, e os porcos trotam sobre o capim, equilibrando-se nos cambitos como vereadores pançudos. Às vezes guincham e retorcem as orelhinhas de um modo tão engraçado que não passa longe de uma pirueta retórica. E, no fim de tudo, são apenas porcos. E, de mais a mais, depois de uma noite em que te lancei três apitos, faz grande silêncio.

Mas então, Princesa, o que não é convenção literária nesta vida: chuva, campina, noite, apito?

Tss, tss. Sem jeito, quando se sabe que, num tratado more geometricoaté o silêncio é uma figura no espaço.

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domingo, 8 de maio de 2011

Não é mesmo a que você encontrava


[s/i/c]


A Certidão

Eu já vi. E quem inda não viu, levante a mão. Quem já não teve aquela sensação de ver uma mulher pela primeira vez numa fotografia? Não uma menina. Aquela adolescente exangue, cheia de melindre, jogando charminhos, que você encontrava nas fotos como no mundo tridimensional. A mesma que se desmontava toda ao ouvir uma frase. Não lhe era estranho que varasse a noite diante do espelho – caras, bocas – no afã de conseguir um novo gesto. E ao pensar sempre com pés alheios, ia com as outras Marias. E seu destino era tão-só até onde se tece o pano, enquanto os pretendentes dilapidavam o patrimônio do ardiloso Ulisses. E seguindo o argumento, Princesa, por um naufrágio qualquer, desses que só o capitão sobrevive – por que será que, pronto, abandonou o barco? – torpe e exausto, refugo de vida na praia, ele se deixa cuidar por Nausícaa. Uma Nausícaa que você cansou de ver. E, ao vê-la, pensava e meio, que pensava zero vírgula vinte e cinco, que pensava em dízima, sem se dar conta: não vai mudar. E, de repente: zás! O mundo está de ponta à cabeça. E você diz, com algumas fraturas e equimoses metafísicas a mais: o número da placa, por favor? A altivez, o esplendor incomparável de uma mulher na plena posse de seus argumentos de mulher surge lá, na fotografia, com a leveza das patas de um jaguar. Com aquela gota de sangue na íris, que é já uma só com o faro de anteceder o movimento da presa. De escolhê-la entre a manada. Não após longo escrutínio. Mas num correr de vista. Para a hora, a hora, a onça, a água. E a clarineta sola. Nostalgias do que nem se sabe gotejam em velhíssimas grutas subterrâneas jamais pisadas por espeleólogos. E o chorinho segue conduzindo a harmonia até intervalos insuspeitados. E, no entanto, a melodia é de tal modo distinta como gota de oliva dropejando em água. Beber. E, sem mais nem menos, tantas cartas já estão na manga, pois o peso de mágoas passadas já não aleijam, não se fazem sentir tão inconscientes. Não mais deixam corcundos os ombros da jovem nadadora. As duras chagas do tempo em que em vez de caçadora ela foi asperamente caçada: como ser humano e mulher. Um passado que inclui o neanderthalismo de motéis suburbanos. Ou a troglodícia daqueles clubes de se dançar ao som de sanfonas, zabumbas; à sombra de dançarinas que convocam o olho mais que a música o ouvido. E a exceção súbita está na prontidão zen com que ela seduz sem sequer piscar. E, logo, a fotografia vira um atestado. Algo que está a meio caminho do não metafísico sem necessariamente ser lúbrico. Um estrado, que o maestro galga para de lá divisar melhor os naipes e impor sua tirania. E, pela primeira vez, ela só está lá. E que primeira vez. É como uma estátua equestre ou as estrias de um grande búzio, que traz na translação de seus circuitos, melhor medida que em réguas, o bramido do mar. A cor indizível do sol, da manhã e da água. A fonte dos leões na Alhambra. Os azulejos. O que de esguio, mas cento e vinte e quatro colunas de mármore sustendo um sonho. Ou tão sólida, talvez, quanto a arquitetura de adobe do Sahel. Lama que, no secar ao sol, atravessa séculos na monotonia solene de sua adustez. A imobilidade das salamandras. Algo de recurvo. Buque e canhoneira no bico do gavião. E, então, tudo que estava petrificado em geleiras, onde pinguins-de-magalhães chocavam seus ovos, saltita à calçada com pernas de Cyd Charisse. E traduz estado, condição. Um oásis. A confiança dos ritmos. Ah, como é possível transpor uma vida no exílio sem tornar às costas do Jônico, fixadas na foto, que não irá encardir. A oliveira. A vinha. E ela, enfim, se encontra naquele círculo que Cassavetes dizia possuir demasiado ardil, porque ao contrário de velhos e crianças, desperta um excedente de interesses. De desejo. Uma certidão de mulher. 

É.

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Não é a que você encontrava

Amedeo Modigliani, 1917

A Certidão


Eu já vi. E quem já não viu levante a mão. Quem já não teve aquela sensação de ver uma mulher pela primeira vez numa fotografia? Não uma menina. Aquela adolescente exangue, cheia de melindres, jogando charminhos, que você encontrava nas fotos, no mundo tridimensional. A mesma que se desmontava toda ao ouvir uma frase. E ao pensar sempre com pés alheios, ia com as outras Marias. A que você estava acostumado a ver – e meio que pensava sem se dar conta: não vai mudar. E então: zás! Bufo! A altivez, o esplendor incomparável de uma mulher na plena posse de seus argumentos de mulher surge lá, na foto. E a foto vira um atestado.

Uma certidão de mulher.

É.

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