sexta-feira, 13 de maio de 2011

Quinta, e ela tinha uns trinta

[s/i/c]



A Semana da Rima Imperfeita

domingo do pé de cachimbo
segunda da freira corcunda
terça da viúva travessa
quarta da bunda mais farta
quinta, e ela tinha uns trinta
sexta, deixa de ser besta
sábado, e já tá tudo acábado



NOTA – não pense que é fácil arrumar uma rima perfeita para sábado. Podia ser “cágado”. Mas cágado tem uma sonoridade, assim, tão próxima da digestão. E, em tempo, o que se pode dizer dos cágados, além do fato desses reles quelônios ficarem alternando entre estar vivo ou morto em terra ou na água, e deverem seu nome à cor escura de suas fezes? Jamais daria à mulher que amo um cágado de presente. Não seria de bom tom. Por outro lado, minhas filhas -- a quem não amo menos, mas de uma outra forma -- talvez gostassem um bocado de serem presenteadas com um cágado. As mulheres, quando crianças, tem uma queda terrível por toda a ordem dos Testudinata. E os tratam como bebês, meio como se aqueles bichos pré-históricos de carapaça e tudo mais pudessem ser algo como bonecas. Chuste! Minha irmã teve um quando criança e uma amiga cria um cágado (ou seria uma tartaruga, macho inclusive) com um nome até bacana. Sugiram-me outras rimas perfeitas para sábado. Rimas toantes para tanto há aos montes, no entanto. Na verdade, eu estou aqui, em um hotel, estudando coisas seríssimas para uma palestra, numa cidade amena e inédita, diante de uma praia paradisíaca, que eu não posso nem olhar sob pena de estragar metade da palestra. Mas são tão chatas essas coisas sérias, que é preciso a gente fazer besteira nos intervalos.


Esta é apenas uma delas.

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Ouros e azuis a reluzir intimidades

[s/i/c]



Divagação e Fogo


Será que há algo mais bonito do que um casal sozinho, perto do que está sendo preparado ao fogão. A chama com aqueles ouros e azuis reluzindo intimidade? Traduz mais votos de estar juntos do que anéis de pedras e cerimônias. Acho que para sempre minha imagem, não para o amor -- esse contentamento descontente -- mas para algo ainda maior, ainda melhor, ainda mais impossivelmente possível -- um contentamento, afinal, contente -- será a de um casal -- e, aqui, minha camarada, meu camarada, que diferença faz sexo, idade, crisma, crença, matrimônio -- junto desse fogo amarelo e azul, que parece dizer, no seu consumir-se: tudo vale, só por querer bem. "Só por fazer convosco eterna liga", como dizia, no fim, o único poeta da língua.
Antigamente, quando havia outras sabedorias, recenseava-se as casas por fogos:
Há trezentos fogos na Vila de Aquiraz”.
Morro de saudade de Fortaleza quando estou distante. Inevitável. Por mais intratável e inóspita que a cidade se tenha tornado. Há uma doçura, uma cota de brisa à noite, se não está para chover, difícil de achar em qualquer outro lugar deste azulado planeta. 
Por causa de você, Fortaleza. E, em Fortaleza, você.


Tudo o mais esfinge-se. 


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terça-feira, 10 de maio de 2011

Elas vão entender esse velho capitão muito tempo depois

[s/i/c]


Oh, Captain, my Captain!

Acho que não seria de todo uma indiscrição transcrever o trecho de uma correspondência recente. Eu falava da fixação de minhas filhas, principalmente de Isabela, a mais nova, quatro anos recém-completos, pela figura do Capitão Gancho. Do outro lado do servidor de imeios, estava Odorico Leal, que em janeiro passado, no seu blogue, havia escrito sobre J. M. Barrie e seus personagens, Pan e Gancho incluídos. Odorico é um cara do tipo faz-tudo -- toca guitarra, compõe, traduz, canta super bem e escreve do jeito que lhe dá na telha. Gosta de poetas que ninguém gosta. Lê coisas que ninguém mais lê. Lê traduções da Ilíada acompanhado de um metrônomo. Tem até aquele clássico arrependimento que todo escritor, um pouco mais honesto, talentoso, tem ao menos uma vez na vida: não haver feito letras clássicas. E devora livros em vagões lotadíssimos do metrô, enquanto vai bem ali em São Paulo dar aulas de inglês --sabe-se que quase todo ir bem ali em São Paulo demanda pelo menos umas sete estações de metrô em duas diferentes linhas. O trecho é o seguinte e muito saboroso para todos que tem um certo fraco por anti-heróis:


Gosto muito da estória do Peter Pan, o J. M. Barrie escreve bem. Eu estive por escrever alguma coisa sobre o livro, mas nunca tive tempo ou coração. O Hook é um miserável genial, e infinitamente melancólico. Inveja no Peter a naturalidade que o torna invencível. A consciência do tempo e da morte pelo relógio e o crocodilo lhe encheu de conflitos morais, lhe roubou a espontaneidade aristocrática: está sempre refletindo sobre 'good form' e 'bad form', que são conceitos not perfectly easy to grasp. Não dizem respeito apenas à conduta moral, de fazer o bem ou o mal, mas ao grau de auto-questionamento em cada gesto: diz respeito a uma espécie de ingenuidade que lhe permite ser auto-confiante sem sabê-lo: mesmo Smee, o ajudante meio Sancho Pança do Hook, tem 'good form' - os lost boys gostam dele, embora seja pirata. O melhor modo de ter 'good form' é 'not knowing anything about it'. 'Good form' faz o mundo se mover. Há algo de Hamlet no Hook, porque ele sente-se fora dessa esfera da boa forma, sabe-se um elemento negro dentro da Neverland, uma forma deformada, um personagem carcomido por reflexões, inveja, ciúme e tristeza, tocado de humanidade, wearing the rags of his mortal pride. Acho bonito, in a sort of painful way, que num clássico infantil haja essa figura triste, atormentada por auto-consciência, julgando-se a si próprio obsessivamente em relação à ideal disposição, eternamente jovem, de Pan. They will figure out that old captain many years later in their lives.
 
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Guimarães Rosa e a graphia da história

[s/i/c]


No fim, tudo é história com H, até o Prêmio Nobel da Paciência


Guimarães Rosa errou pouco e morou longe. Talvez um de seus erros mais espessos: ter cindido a palavra história entre história e estória. Uma importação do inglês que teríamos passado melhor sem. É muito mais estimulante a ambiguidade que a palavra história – valendo igualmente para ficção e não-ficção, para Napoleão e para a anedota de botequim – concentrava em português. No meu léxico pessoal, não há estória. Para muitos puristas também. Em Portugal, parece, se emprega pouco. Ou não se emprega. Mas minha razão não passa pelo purismo da língua, senão pelos ecos semânticos da palavra. E que palavra! Lembro que, instintivamente, foi uma das primeiras coisas que fiquei remoendo depois de o professor de português da sétima série haver mencionado o fato. No caso, com regozijo, como se celebrasse mais uma proeza do engenho de Rosa. Mas já àquela época eu sentia que havia algo errado, que faltava Xerazade naquilo. Que, ao contrário do que o professor tentava nos sugerir: a história começa hoje, e continua amanhã. Nela, tênue o limiar entre realidade e ficção.


NOTA - se isto fosse dito em um artigo acadêmico, encheria catorze laudas, com um abstract em inglês, dezessete notas e vinte e duas citações. E o leitor medianamente sadio, que aguentasse ler até o fim receberia o Premio Nobel da Paciência. Tipo passar a noite inteira com aquela gota caindo da torneira e torrando o sossego do teu sono. 


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Soprando o apito sobre a geada e o vale

[s/i/c]


O Pastor

Para que não te sintas sozinha, toco meu apito. E ele estride sobre a aldeia com lavareda fugaz de relâmpago. Na noite sobre o vale, da vara provem grunhidos. Desirmanados. Há deuses nas estrelas, onde todos procuram duas coisas: enxergar os mesmos desenhos – Andrômeda, Cassiopeia, Perseu –; e um espelho – como se elas, na distância de anos-luz, ainda tivessem alguma coisa a ver com os homens.
Faz frio. O Bafo de Bóreas abate-se sobre o bosque. Abaixo do relevo negro das árvores sob estrelas, os cobertores de lã, um fio tênue, como os de um teleférico, me liga a ti. O fio do apito furando a noite. Quantas braçadas no mar de placenta tenho de arriscar para me livrar dele.
Tanto empenho ponho nisso, que é como se, safo e veloz, manejasse à perfeição um abridor de latas à pia da cozinha, e nenhuma nódoa de molho ou erupção de ervilhas espalhasse sobre o pano de pratos. E, assim, nos sem fins da noite, sopro com ganas de apaixonado. Mesmo sabendo que provavelmente não serei ouvido. Ou por isso mesmo. Porque ainda que se ouvisse o apito, seria de raspão. Assim como, imerso em outra porta da mente, se ouve o jingle do caminhão de gás ou do vendedor de pamonhas, sem propriamente ouvir. É só por isso, sei, e libro notas tão nítidas, como Miles Davies em “Bye Bye Blackbird”. E, noite após noite, faço reviver o sem jeito que fomos nessa lembrança, soprando o apito sobre a geada e o vale. Meio como se o apito pudesse remendar os puídos do fio, os nexos das poucas conversas que tivemos, quando, mais jovens, descíamos juntos a acrópole na direção do mercado e eu tinha de reclinar a cabeça para ouvir tua voz onde havia mais silêncio que palavra. E, logo, pelo empenho de apitar tão bem, muitas transumâncias depois, pudesse eu obter, por uma estupenda graça, o primeiro prêmio da loteria, e a suprema dádiva de comprar o bilhete. Descer pelo teleférico, maciamente, das escarpas e vales para as sebes, anfiteatros e avant-premières da cidade. Não grisalho e maltrapilho. Mas com a esportividade e a pletora muscular de alguém que acaba de vencer o Big Brother ou o campeonato mundial de kite surf.
Inútil buzina, bem sei. Porém o que resta a alguém que tange porcos na serra, durante os duros invernos, desterrado dos cenáculos e da porcelana da cidade? Aquele mesmo que, esfalfado a vida inteira, sujando sandálias em poças, nos excrementos dos porcos, pintando o rosto com inclemência mineral de sol e estio, aprenderia jamais a comportar-se num banquete, e tecer argumento com astúcias de Ulisses.
Não, nesses pastores poetas, que se vê por aí – no pseudo-Teócrito, em Bíon e Osco – esse verniz urbano em almas que não transitam entre dactílicos e anapestos, nada mais é que mera convenção literária, enquanto a chuva castiga a campina, e os porcos trotam sobre o capim, equilibrando-se nos cambitos como vereadores pançudos. Às vezes guincham e retorcem as orelhinhas de um modo tão engraçado que não passa longe de uma pirueta retórica. E, no fim de tudo, são apenas porcos. E, de mais a mais, depois de uma noite em que te lancei três apitos, faz grande silêncio.

Mas então, Princesa, o que não é convenção literária nesta vida: chuva, campina, noite, apito?

Tss, tss. Sem jeito, quando se sabe que, num tratado more geometricoaté o silêncio é uma figura no espaço.

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domingo, 8 de maio de 2011

Não é mesmo a que você encontrava


[s/i/c]


A Certidão

Eu já vi. E quem inda não viu, levante a mão. Quem já não teve aquela sensação de ver uma mulher pela primeira vez numa fotografia? Não uma menina. Aquela adolescente exangue, cheia de melindre, jogando charminhos, que você encontrava nas fotos como no mundo tridimensional. A mesma que se desmontava toda ao ouvir uma frase. Não lhe era estranho que varasse a noite diante do espelho – caras, bocas – no afã de conseguir um novo gesto. E ao pensar sempre com pés alheios, ia com as outras Marias. E seu destino era tão-só até onde se tece o pano, enquanto os pretendentes dilapidavam o patrimônio do ardiloso Ulisses. E seguindo o argumento, Princesa, por um naufrágio qualquer, desses que só o capitão sobrevive – por que será que, pronto, abandonou o barco? – torpe e exausto, refugo de vida na praia, ele se deixa cuidar por Nausícaa. Uma Nausícaa que você cansou de ver. E, ao vê-la, pensava e meio, que pensava zero vírgula vinte e cinco, que pensava em dízima, sem se dar conta: não vai mudar. E, de repente: zás! O mundo está de ponta à cabeça. E você diz, com algumas fraturas e equimoses metafísicas a mais: o número da placa, por favor? A altivez, o esplendor incomparável de uma mulher na plena posse de seus argumentos de mulher surge lá, na fotografia, com a leveza das patas de um jaguar. Com aquela gota de sangue na íris, que é já uma só com o faro de anteceder o movimento da presa. De escolhê-la entre a manada. Não após longo escrutínio. Mas num correr de vista. Para a hora, a hora, a onça, a água. E a clarineta sola. Nostalgias do que nem se sabe gotejam em velhíssimas grutas subterrâneas jamais pisadas por espeleólogos. E o chorinho segue conduzindo a harmonia até intervalos insuspeitados. E, no entanto, a melodia é de tal modo distinta como gota de oliva dropejando em água. Beber. E, sem mais nem menos, tantas cartas já estão na manga, pois o peso de mágoas passadas já não aleijam, não se fazem sentir tão inconscientes. Não mais deixam corcundos os ombros da jovem nadadora. As duras chagas do tempo em que em vez de caçadora ela foi asperamente caçada: como ser humano e mulher. Um passado que inclui o neanderthalismo de motéis suburbanos. Ou a troglodícia daqueles clubes de se dançar ao som de sanfonas, zabumbas; à sombra de dançarinas que convocam o olho mais que a música o ouvido. E a exceção súbita está na prontidão zen com que ela seduz sem sequer piscar. E, logo, a fotografia vira um atestado. Algo que está a meio caminho do não metafísico sem necessariamente ser lúbrico. Um estrado, que o maestro galga para de lá divisar melhor os naipes e impor sua tirania. E, pela primeira vez, ela só está lá. E que primeira vez. É como uma estátua equestre ou as estrias de um grande búzio, que traz na translação de seus circuitos, melhor medida que em réguas, o bramido do mar. A cor indizível do sol, da manhã e da água. A fonte dos leões na Alhambra. Os azulejos. O que de esguio, mas cento e vinte e quatro colunas de mármore sustendo um sonho. Ou tão sólida, talvez, quanto a arquitetura de adobe do Sahel. Lama que, no secar ao sol, atravessa séculos na monotonia solene de sua adustez. A imobilidade das salamandras. Algo de recurvo. Buque e canhoneira no bico do gavião. E, então, tudo que estava petrificado em geleiras, onde pinguins-de-magalhães chocavam seus ovos, saltita à calçada com pernas de Cyd Charisse. E traduz estado, condição. Um oásis. A confiança dos ritmos. Ah, como é possível transpor uma vida no exílio sem tornar às costas do Jônico, fixadas na foto, que não irá encardir. A oliveira. A vinha. E ela, enfim, se encontra naquele círculo que Cassavetes dizia possuir demasiado ardil, porque ao contrário de velhos e crianças, desperta um excedente de interesses. De desejo. Uma certidão de mulher. 

É.

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Não é a que você encontrava

Amedeo Modigliani, 1917

A Certidão


Eu já vi. E quem já não viu levante a mão. Quem já não teve aquela sensação de ver uma mulher pela primeira vez numa fotografia? Não uma menina. Aquela adolescente exangue, cheia de melindres, jogando charminhos, que você encontrava nas fotos, no mundo tridimensional. A mesma que se desmontava toda ao ouvir uma frase. E ao pensar sempre com pés alheios, ia com as outras Marias. A que você estava acostumado a ver – e meio que pensava sem se dar conta: não vai mudar. E então: zás! Bufo! A altivez, o esplendor incomparável de uma mulher na plena posse de seus argumentos de mulher surge lá, na foto. E a foto vira um atestado.

Uma certidão de mulher.

É.

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sábado, 7 de maio de 2011

Fratura incurável entre o ser humano e seu lugar natal: Said

Henri Cartier-Bresson, Quai Saint Bernard, Paris, 1932.


Entre o eu e seu verdadeiro lar


O exílio nos compele, estranhamente, a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal. Entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heroicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre.
Mas, se o verdadeiro exílio é uma condição de perda terminal, por que foi tão facilmente transformado num tema vigoroso – enriquecedor, inclusive – da cultura moderna? Habituamo-nos a considerar o período moderno em si como espiritualmente destituído e alienado, a era da ansiedade e da ausência de vínculos. Nietzsche nos ensinou a sentir-nos em desacordo com a tradição, e Freud a ver na intimidade doméstica a face polida pintada sobre o ódio parricida e incestuoso. A moderna cultura ocidental é, em larga medida, obra de exilados, emigrantes, refugiados. Nos Estado Unidos, o pensamento acadêmico, intelectual e estético é o que é hoje graças aos refugiados do fascismo, do comunismo e de outros regimes dados a oprimir e expulsar os dissidentes. O crítico George Steiner chegou a propor a tese de que todo um gênero da literatura ocidental do séc. XX é “extraterritorial”, uma literatura feita por exilados, símbolo da era do refugiado. E sugeriu:

Parece apropriado que aqueles que criam arte numa situação de quase barbárie, que produziu tanta gente sem lar, sejam eles mesmos poetas sem casa e errantes entre línguas. Excêntricos, arredios, nostálgicos, deliberadamente inoportunos...

Edward Said, Reflexões sobre o exílio e outros ensaios, Companhia das Letras, 2003
[Tradução: Pedro Maia Soares]


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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Wang Wei, Du Fu, Li Bai

[s/i/c]

Poesia Chinesa da Dinastia T’ang



-- Wang Wei --
Ocaso Cai

Ocaso cai sobre o pátio do mosteiro.
Pela janela aberta árvores desbotam no breu.
Lenhadores cantam pelos outeiros.
Monges respondem do vergel.
Pássaros vêm para o rocio das flores.
Lá, entre os bambus, alguém toca pífaro.
Ainda não sou velho,
mas me sinto um eremita.


Riacho-canto-de-ave

Ócio, caem flores de cássia.
Quieta noite, escarpas abaixo.
A lua vem despertar as aves
que, de esparso, cantam sobre o riacho.


*


-- Du Fu --
Chuva de Primavera

Uma boa chuva sabe seu tempo.
Cai no limiar da primavera,
e, da noite, rouba o vento --
quietude molhando a terra.
Breu, nuvens negras como trilhas.
Única lâmpada no barco.
De manhã, feitas de um só charco,
flores vergam suas silhas.



Pensamentos numa Viagem Noturna

Tênue brisa através do capim.
No convés sigo sozinho.

Estrelas debruçam-se sobre o baixio.
Luar, na cheia do grande rio.

Letras não trouxeram fama.
Cargo? Velho demais para a trama.

À deriva, quem mais sou eu?
Gaivota entre terra e céu.




 Ventos Errantes

Os juncos junto à porta
são esguios, elásticos

como os quadris de moças
de quinze estios.

Quem à alba disse
nada de novo ao redor’?

Um vento louco aqui passou
quebrando o maior.


*


-- Li Bai --
Pensamentos na Noite Calma

O piso antes da cama rebrilha,
luar, como geada, o quarto vaza:
ergo a cabeça e vejo a lua,
baixo a cabeça e penso em casa.


Nas Serras: uma Resposta ao Vulgar

Por que moro nos verdes altos?
Rio e calo, o coração calmo.
Brotos de pêssego somem na corrente.
E há outros céus e mundos fora este.


Bebendo tão-só com a lua

Jarra de vinho entre flores.
Bebo só, sem companhia.
Ergo um brinde à lua longa
somos três: ela, eu e minha sombra.

A lua não sabe beber.
Minha sombra imita meu passo.
Mas vou me divertir com ambas,
e a primavera está por um traço.

Eu canto -- a lua vem e vai.
Eu danço -- minha sombra salta, tonta.
Ainda sóbrios, trocamos alegrias.
Ébrios, e cada um por sua conta.

Sejamos amigos na medida do impossível.
E três até onde o horizonte visível.




NOTA – os próprios nomes dos poetas variam de acordo com o tradutor: Li Bai (ou Li Po), Du Fu (ou Tu Fu) e Wang Wei (ou Iuang Ui). Estes nomes são, per se, instituições na China. Até hoje estudados e reverenciados, apesar de sua poesia provir do séc. VIII e IX d.C. As traduções acima como quase todas as de poesia japonesa, chinesa e coreana encontradas por aqui foram feitas no ano de 1999, em São Paulo, e estão reunidas em um volume inédito de traduções – que além de poesia também inclui textos filosóficos, históricos, de ficção em prosa, e da natureza da pintura e do ideograma intitulado: Em Louvor das Sombras13 textos fundantes para compreender a estética Chinesa e Japonesa. Foram feitas a partir de versões para os principais idiomas ocidentais -- especialmente o inglês -- assim como notações fonéticas e alguma noção de como funciona a escritura ideogramática. 

* * *

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Uma coisa 'agora', no instante: Kenko

[s/i/c]


Não porque suas mãos são desjeitosas


Mesmo que sua caligrafia seja ruim, é bom escrever suas cartas sem embaraço. Vê-las escritas por outros, porque suas mãos são desjeitosas, é um estorvo.

*

Aquilo que ansiamos desfrutar com demasiado gosto é certo acabar em decepção.

*

Coisas desagradáveis são:

Demasiados móveis numa sala
Demasiadas penas num tinteiro
Demasiadas imagens num santuário.
Demasiadas pedras, ervas e árvores num jardim.
Demasiadas crianças numa casa.
Demasiadas palavras quando homens se encontram.
Demasiados votos numa prece.

*

O que as pessoas implicam quando reclamam da solidão? Boa coisa é estar sozinho, sem perturbações.

*

Por que é tão difícil fazer uma coisa agora, no instante em que se pensa nela? [esse modo de pensar, a despeito de ser universal, parece ser mais apreciado no Brasil.]

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Um anseio por coisas exóticas, um apreço por raciocínios entusiasmados e passageiros são  características típicas de pessoas de pouco discernimento.

*

Das coisas as quais o homem deve dar precedência no que tange a sua própria pessoa, primeiro vem a comida; segundo, a vestimenta; terceiro, a moradia.

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Quando tinha oito anos perguntei a meu pai: “O que é um Buda?” E meu pai respondeu: “Buda é aquilo que um homem se torna” [ou “Buda é aquilo no que se converte um homem”].






NOTA -- Acima seguem excertos dos Ensaios sobre a Preguiça, que também podem ser traduzidos como Ensaios sobre a Indolência ou Ensaios sobre a Inação, um clássico da literatura zen-budista japonesa, escrito por Yoshida Kȇnko, em meados do séc. XIV.] 




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Quem pode ter um rumo?

Lyonel Fininger, Ye Learned Apothecary, 1901

O Forasteiro

.                                                                                                                                 [depois de Kafka]

Eu não conhecia bem a cidade e tinha de chegar à Rodoviária. Talvez porque sentisse certo atraso, caminhava apressado, com uma mala de rodinhas. O guincho das rodinhas abatia-se sobre a rua como uma campainha. A hora começava a ermar. A caminho, algo não batia com o mapa virtual, no celular. Então notei, próximo, dois guardas:
Por favor, qual é o rumo da rodoviária?
O senhor quer saber o rumo? – um deles disse com uma expressão séria.
É a intenção.
E ao cotovelar o outro:
Este senhor quer saber o rumo, Garcia. Este senhor quer saber o rumo.
Tanto riram juntos que um deles teve de tossir para desenredar o fôlego. E então, semi-recomposto, o que não era o Garcia disse:
Meu Senhor, desista. Quem pode ter um rumo numa noite dessas?



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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Faz outono na noite: três de Bashō, quatro de Issa

[s/i/c]


Sete Gotas no Rosário e o Budismo-Chan


o pavão guincha
tão logo vê
a montanha

*

dois bonifrates ridentes
a um canto, também
são homem e mulher

*

quanto mais velhos
mais choro fácil
pelo caminho

*

não é um negócio
da China, o ópio
e eu estarmos vivos

[Issa Kobayashi]


algas verdes
no fundo das pedras
quem lembra da maré?

*

o mar escurece
o grito dos gansos
ficam brancos

*

faz outono na noite
e ninguém vem
pela estrada


[Matsuo Bashō]


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Escutar a paisagem

[s/i/c]


Lend me your ears

Soube que Afetivagem -- especialmente os poemas traduzidos -- será lido e discutido coletivamente por um grupo de cegos. 

Registro o fato. Porque acho isso maravilhoso. Uma nova modalidade de tradução pela qual passarão os poemas traduzidos. E uma dura prova.

Ao serem entornados em ouvidos de uma percepção elevadíssima. 


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A História da Lágrima no Ocidente

[s/i/c]



So many tears I was wasting

Em arte, aquilo que rompe o dique das lágrimas não pode provir senão da contemplação das formas. Afinal, aqui não se trata de chorar por tristeza – ou mesmo alegria – mas puro êxtase. Algo que sai de uma compreensão generosa. É por isso paciente. Fora de tempo. Retarda. Antecipa. Reveza. Convida à discrição. Compara. Germina em pensamentos posteriores. Às vezes, faz tudo isso simultaneamente. Tudo se ilumina. Cria um sentimento análogo ao do entendimento de um teorema sem geometria ao redor. Aquilo é compreendido na mesma medida que sentido. Faz caminhar sobre a corda bamba, sem corda e sem se ser bamba.
Tudo mais sai de olhos de crocodilo. Ou seja, são lágrimas choradas em causa própria. Como na maioria dos casos.
Quando blockbusters e comerciais começarem a lhe arrancar cachoeiras de Paulo Afonso, desconfie: há algo errado. A Apple, a Coca-Cola acham ducá, mas estão se lixando se esse chororô não é convertido em dólares. Há tabelas para calcular quanto valem os soluços ao redor do mundo. Um molhar de olhos na Holanda vale mais que um vale de lágrimas em Madagascar. Porque os choradores são mais humanos tão-só à medida que podem comprar do chorado.
Só há uma disposição mais elevada de pranto do que o vertido na percepção das formas, que educam os sentidos (e, em certo sentido, são genuinamente gratuitas).
Sobre essa, contudo, é vedado falar.


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terça-feira, 3 de maio de 2011

Apenas a décima, e em queda livre

[s/i/c]



A Expansão da Enciclopédia Livre em Português Perde Ritmo  


Que é isso! Se vai à Wikipedia e a versão em português é apenas a décima língua em número de verbetes. Por ordem, a sexta língua mais falada no mundo, o português, está atrás respectivamente do 1. Inglês; 2. Alemão; 3. Francês; 4. Polonês; 5. Italiano; 6. Espanhol; 7. Japonês; 8. Russo; e 9. Holandês.
A Polônia, com 38 milhões, tem menos habitantes do que o estado de São Paulo. A Holanda, com dezesseis milhões, tem uma população equivalente à do estado do Rio de Janeiro.
Ou poloneses e holandeses estão trabalhando muito bem, ou a gente muito mal. Melhor crer em ambas as alternativas. Há menos de três anos, a versão em português tinha mais verbetes que sua correspondente em espanhol. O que aconteceu de lá pra cá? O número de verbetes em português aumentou. Porém numa razão muito menor que aumentaram as contribuições em espanhol ou russo, que estavam abaixo do português.
Sabe-se que Portugal tem tantos habitantes quanto o Rio Grande do Sul, uns 10 milhões. Com quem está a maior responsabilidade de alargar uma excelente fonte de consulta gratuita? Muitos doam sangue. Por que não pensar em doar também um tempinho para ajudar com a Wikipédia. A tarefa é cívica -- no melhor sentido. E qualquer um pode participar. Participar da Wikipédia é um trabalho voluntário. Basta cadastrar-se e sugerir temas de verbete às comissões que organizam e monitoram o site. Assim como revisões, correções, atualizações, conformidade com a nova norma ortográfica, ampliação e clara citação das fontes, padronização dos verbetes de acordo com as normas internas da Wikipedia, bom uso de iconografia e de arquivos multimídia baseado nas licenças Creative Commons, etc.
A garotada agradece.


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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Assim como se escolhe a árvore do ninho

[s/i/c]



Uma pequena história do possível

O relato vem de antes da TV a Cabo e da Internet. Mas só um pouco. E a rua era como não há mais. Um sossego à noite quebrado apenas pelo uníssono dos televisores e o futebol das crianças sob os jambeiros. Casualmente, o choro de bebês e o tesourar estacado e mítico das narcejas. Por vezes abafados por um avião desavindo, em procedimento de pouso mais lá, para oeste, após a rodovia e a antiga torre de controle do aeroporto.
Havia uma sensação de inauguro nos olhos de ambos. À época, o bairro parecia longe de tudo. Dos outros parentes. Dos amigos. Do trabalho. Quão longe estava o centro da cidade. O mar. As linhas de ônibus, escassas. Mas os ônibus quase nunca trafegavam lotados. E se algum percalço assaltava a manhã, era sempre possível cobrir de carro, com pouco trânsito, a distância até o Centro. Tanto pela rodovia de um lado quanto pela avenida do outro. E, assim, o quem casa quer casa encontrou no casal, naquela rua, à sombra dos jambeiros, uma sua insígnia.
E era como se a rua se estivesse inaugurando com todas aquelas casas novas, cheias de crianças. E até mesmo a velha venda, que parecia engasgá-la em certo trecho, desalinhando-a, por contraste demarcava a novidade que a rua representava. Pilhas de tijolos, sacos de cimento, montes de areia, de pedrinhas, cal defronte as que ainda estavam sendo erguidas. E a delícia que a profusão dessas matérias causava na meninada. Mas a casa deles, já comprada pronta. E um longo financiamento a perder de vista. Era sólida e bonita. Nem grande nem pequena. À medida de um jovem casal que sonha no meio do mundo. E, no princípio, o meio é bom. E o mundo bonito.
Eram funcionários públicos, e erguiam uma vida assalariada e laboriosa. Tinham, à sua vez, um casal de filhos. O mais velho, pletórico e rueiro. Jogava futebol às tardes, depois da escola. Às vezes à noite, antes da novela. Em meio aquele alarido de meninos na rua, que mais parecia um pátio de escola.
A mais nova, menos estuante. A exigir mais antibiótico e cuidados. Uma compleição frágil também forjou na menininha, legado talvez do imobilismo de seguidas doenças, uma inexcedível presença de espírito. Ela, com mais frequência que o irmão ou que qualquer outra criança na família grande, propunha aquelas frases plenas de um viço que transcende a mera, gratuita fascinação que os pais nutrem diante dos filhos pequenos:
--Minha boca vai voar -- disse ela, em certa ocasião, ao descerem de buggy, uma imensa duna no Cumbuco. 
Vamos dizer, por acaso, em algum clichê, que se complementavam. Ao menos aos olhos dos pais. O menino se chamava João Marcos. E a menina, Maria Cecília.
De início, João Marcos, alijado do monopólio dos carinhos, acossava Maria Cecília. Volta e meia com tanto vigor que, certa tarde de brincadeiras, em que os três anos que os separavam se fizeram mais efetivos, João Marcos deslocou o bracinho dela.
Porém ficou tão compungido, que essa fratura de braço fumou entre os irmãos um cachimbo da paz. Assim que descontados inevitáveis delitos menores, praticados de parte a parte – e que tão parte fazem da vida entre irmãos pequenos, junto com outras tantas teimas e lundus – nada de mais agudo tornou a ocorrer.
No fim de semana, a família seguia junta ao clube e ao mar. O menino preferia a piscina. A menina, brincar nas poças da baixa-mar. As “lagoinhas”. Ou então, no mar aberto que era quando podia-se ver a dádiva do inédito em seus olhos ao sentir os pés afundando na areia quando a onda retraía forte, sulcando de volta pequenas conchas, vieiras, camadas de terra.
E, no entanto, as colheres de antibiótico, os muitos desvelos e mimos da mãe não bastavam para que a saúde de Maria Cecília vicejasse. As compressas, o escalda-pés, o aerosol. A menininha minguava. E em proporção inversa ao fascínio que seu encanto despertava: na creche, na vizinhança, entre a família grande. Os olhinhos azuis, amendoados, cheios de um vivo bulício sob a franjinha, e aquele carisma que não se pode alugar como se aluga um vestido:
Essa menina nasceu sabendo mais o que quer da vida do que uma avenida com nós todas juntas – dizia uma tia.
Mas vieram exames, diagnósticos, raios-x. Problemas nos brônquios, asma, rinite ficando agudos. Debilitando-a. Não raras vezes levavam-na ao posto de saúde. Ao hospital. Sessões e sessões sob máscaras de aerosol. Faltava-lhe fôlego. E, no entanto, tão bela era sua compleição, que nenhum peito de pombo formou-se no tórax.
Retiraram-na da creche. E de manhã, se não estava deitada na rede, à varanda, vendo figurinhas, um armador de rede inscrito nas nuvens ou a brincar com sua pequena tartaruga no jardim, ela soltava os periquitos no quarto fechado. Que farra era aquilo! Copiara o procedimento do pai. Mas o afinara à perfeição.
De início, os bichinhos eram só medo. Depois se foram rendendo tão incondicionalmente aos mimos da menina, que, por fim, adotaram seu pequeno corpo assim como se escolhe a árvore do ninho. Acostumando-se a ele. Colonizando-o. Fazendo parte dele. E a menina vivia com passarinhos da cabeça aos pés. E eles, naquele tácito acordo de bichos, entendiam que ela não podia mover-se em excesso. E, logo, possuía algo da perfeição imóvel dos vegetais. Se ela os segurava nas mãos, parecia já ter a noção precisa do ponto onde o carinho termina para começar o castigo. E ela sabia o quanto um carinho quase sempre faz bem.
E foi então que eles a ensinaram a voar. Não por muito. Porque sabiam que aquilo de voar podia deixá-la extenuada. Eram apenas pequenos sobrevoos à volta do quarto. Da janela para cima da cama, passando sobre a rede. De perto da porta até o tampo da velha penteadeira de espelho tripartido, que fora da bisavó de Maria Cecília. Sempre quando não havia ninguém por perto, que era para não despertar suspeitas. Censuras. Pois ela e eles se entendiam. Sabiam que os humanos adultos, ainda quando boa gente, são torpes e descrentes.
Ela também não contava a ninguém. Nem a João Marcos. Cedo entendeu que aquilo era incontável. No seu rol de coisas incontáveis, no entanto, não entrava conversar com a chuva. Já a propósito de voar, mais que a sensação de flutuar em si – pode-se ter uma ideia disso nos balanços, carrosséis; nos braços do pai – fascinante era poder imprimir uma direção àquele impulso; e, sobretudo, enxergar o mundo de ângulos assim insuspeitados, e em movimento. Como só no cinema a câmera faz por nós. Com menção honrosa aos desenhos animados.
Porém descobriu-se que algo nas penas dos periquitos causava alergia em Maria Cecília. E, desde então, ela só passou a brincar com eles por meio de um toque. Um toque de olhar, cintilante e vivaz. À distância. Enquanto eles se atropelavam de dentro do viveiro, para se aproximar do aceno dos dedos dela. E longas eram as manhãs como a sucessão de listras pontilhadas no centro da Belém-Brasília.
Por essa época, a febre insistiu em não se afastar mais dela. Grudou nela. Foram dias a fio. E quilos a menos. Ela voltou debilitada do hospital para casa. O fôlego curto. A resistência abalada. Até mesmo as correrias, estrepolias dos poucos anos, findavam em tosses e extremados cansaços. A cabeça a erguer-se, com se assim pudesse morder mais ar.
Já não parecia a menina que, só uns meses antes, forcejava pelas águas das pequenas poças que a baixa-mar deixa para trás em benefício de crianças e namorados, na Praia do Futuro. Já não usava descer os batentes para a rua, onde recebia os jambos, que os meninos colhiam depois de escalarem o Everest. Não tinha mais forças para o jardim. Nem para a tartaruga.
Maria Cecília morreu num domingo, ao fim da tarde, que é a hora em que por pouco a alegria diz à tristeza para seguir adiante. E recolher os pássaros – mesmo os avulsos, nos fios da rede elétrica. Sumir com eles. E compilar os restos da semana. E passar uma chave na caixa-registradora. A chamada da missa. A semana extinta no domingo, com suas dores e riscos. E, logo, o laivo de uma lembrança de não se sabe o quê mexe com a gente e se vai rápido. Mas seus vestígios. O quanto o marcador avançou nas páginas do livro. Ou as cartas do tarô, os búzios, o mapa dos astros previram destinos. Quantas milhas os aviões voaram em torno da terra naquela semana? Não se sabe bem o que ela teria sido: comissária de bordo, advogada, psiquiatra, corretora de imóveis, jornalista? Que amores estavam inscritos nas linhas de sua mão? E, então, no que uma vizinha tratava de vesti-la para a ocasião, a rua regurgitava de futebol, vôlei, bambolês e correrias. Uma alegria tão densa como raspa de brigadeiro no fundo da panela. No viveiro, os periquitos imóveis. Havia grande vibração na cidade. Fogos estouravam bairros afora. A celebrar um tricampeonato.


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domingo, 1 de maio de 2011

Batucando numa escultura para amortecer o frio do inverno

Richard Deacon, Let's not be stupid, 1991


A Obra de Arte na Era de sua Funcionalidade Técnica

Let's not be stupid é a escultura que fica bem diante do Centro de Artes da Universidade de Warwick. Sugere duas formas proto-biológicas ligadas por uma "escada", por filamentos de DNA. Ou algo que o valha.

Certa noite – e muito frio fazia a noite – com uns tantos pints a mais de cerveja e ale no sangue pulamos um bocado sobre a tubulação de Let's not be stupid. Um congraçamento espontâneo selvagem universal  – e desse grupo saiu até uma atual professora da instituição. Éramos em maioria estudantes de literatura comparada e estudos de tradução. E a estrutura do troço é em aço repintado. Oca. Dá uma percussão e tanto. Em menos de dez minutos dois guardas intimidantes, altos e robustos, chegaram ao local tiracolando um par de nutridos pastores alemães. Já comia um samba louco, desenfreado, embora não houvesse mais que um brasileiro. 

Quase fomos em cana.


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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Não vai mudar

[s/i/c]


Sobre disputas juvenis, Noel Rosa, Chico Buarque & Elevadores


Certa feita, aí pela adoidescência, uma namorada passou quase uma semana sem falar comigo, porque caí na besteira de dizer que Noel Rosa havia sido muito mais importante para a música brasileira que Chico Buarque. Pensando bem, com os olhos de hoje, a pausa de uma semana até que não foi de toda má -- mal sabe ela. E, além do mal, estimulou-me a ouvir e gostar ainda mais da música de Noel.

Meu argumento era simples: músicas como "Três Apitos" [posso ouvir essa com Maria Bethânia uma tarde inteira; de novo e de novo], "Último Desejo", "Pra que Mentir" -- ah, a versão e o violão de Paulinho da Viola -- , "João Ninguém", "Com que Roupa?", "Filosofia", "Feitiço da Vila", "Gago Apaixonado", "Palpite Infeliz", "As Pastorinhas", "Feitio de Oração" & trocentas outras têm o condão de me desarmar por completo. De me levar às lágrimas -- quem chora em público, não chora!-- de me fazer rir à bandeiras despregadas. E nelas, tudo é espontâneo. Talento bruto. O ritmo das palavras, maravilhoso, casando perfeitamente com as melodias. É a fala do povo do Brasil posta em música. E foram compostas, algumas, há mais de oitenta anos. 

O argumento contrário, o dela, era o de que Noel não tinha feito uma música política. E eu pergunto indignado: como não? Noel é o maior compositor de canções do Brasil, justamente porque é o mais político de todos os compositores. Todo o poliédrico cotidiano de viver neste país, ao tempo dele -- e, em certo sentido até hoje -- está presente em suas letras e músicas. Em suas parcerias, em que se encarrega predominantemente das letras. Para mim, em vez de Educação Artística, deveria ao menos durante um ano, haver uma disciplina na escola chamada Noel Rosa. Mesmo que ele diga, com razão, que "batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio".

Mas aí quando se dissesse: "Você passou em Noel Rosa? Passei"! A gente ficaria com a convicção de que a meninada teria, de fato, agregado um tanto mais de humanidade.

Agora, voltando à adoidescência, o argumento dela, já apelando, era o de uma vez, em São Paulo, ter subido no mesmo elevador de Chico Buarque. Pois muito bem. Que tenha feito bom proveito. Fique com o elevador e com Chico. Gosto da música de Chico Buarque também. Só que para mim não tem comparação. E até o momento, nunca senti vontade de subir num mesmo elevador com Chico Buarque. Pode ser que mude ideia. A vida dá muitas voltas. E, de outro modo, não se deve recusar nada por princípio, como diz o Divino Marquês. 

Mas uma coisa, é certa, e não vai mudar: o tanto que se é mais feliz  -- pela educação dos sentidos -- na audiência das canções de Noel. 


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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Alguns humores e uma mesma lua

[s/i/c]


Três Passagens


Ao passar por Pedra Rasa, reviu o seu naufrágio. Era como abrir uma janela para o ermo. E de novo se ver na rua, a segurar-lhe a mão. As juras secretas. As flores nas janelas da pequena capela rústica. Aroma de incensos. O quarto de lua crescendo. E depois a vida que não foram eles.
Ao passar por Pedra Rasa, naufragou-se em revistas. Era como ermitar sem janelas. Ou do sobrado flagrá-los de novo: o modo como se davam as mãos. Era ela mesmo? Um pesadelo. As flores nas janelas da pequena capela rústica. Um odor entre sacro e detestável. O quarto de lua frio, desolador. A vida que até então tinha sido eles.
Ao passar por Pedra Rasa, foi como ser revisitada por dois náufragos. Uma maçada. E os dois uniam suas frustrações para descarregar sobre ela. Precisava? Aquele perfume de dez reais. Mosquitos. Ninguém merece. Flores chinfrins e uma horrenda capela. Um caco de lua. Ah, não! Nada como mudar de vida!


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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Com frases, o vento leve: Leminski

[s/i/c]



 o bicho alfabeto
 tem vinte e três patas
    ou quase

    por onde ele passa
 nascem palavras
    e frases

    com frases
 se fazem asas
    palavras
 o vento leve

    o bicho alfabeto
 passa
    fica o que não se escreve



.                                                               [Paulo Leminski]


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