quinta-feira, 5 de maio de 2011

Uma coisa 'agora', no instante: Kenko

[s/i/c]


Não porque suas mãos são desjeitosas


Mesmo que sua caligrafia seja ruim, é bom escrever suas cartas sem embaraço. Vê-las escritas por outros, porque suas mãos são desjeitosas, é um estorvo.

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Aquilo que ansiamos desfrutar com demasiado gosto é certo acabar em decepção.

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Coisas desagradáveis são:

Demasiados móveis numa sala
Demasiadas penas num tinteiro
Demasiadas imagens num santuário.
Demasiadas pedras, ervas e árvores num jardim.
Demasiadas crianças numa casa.
Demasiadas palavras quando homens se encontram.
Demasiados votos numa prece.

*

O que as pessoas implicam quando reclamam da solidão? Boa coisa é estar sozinho, sem perturbações.

*

Por que é tão difícil fazer uma coisa agora, no instante em que se pensa nela? [esse modo de pensar, a despeito de ser universal, parece ser mais apreciado no Brasil.]

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Um anseio por coisas exóticas, um apreço por raciocínios entusiasmados e passageiros são  características típicas de pessoas de pouco discernimento.

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Das coisas as quais o homem deve dar precedência no que tange a sua própria pessoa, primeiro vem a comida; segundo, a vestimenta; terceiro, a moradia.

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Quando tinha oito anos perguntei a meu pai: “O que é um Buda?” E meu pai respondeu: “Buda é aquilo que um homem se torna” [ou “Buda é aquilo no que se converte um homem”].






NOTA -- Acima seguem excertos dos Ensaios sobre a Preguiça, que também podem ser traduzidos como Ensaios sobre a Indolência ou Ensaios sobre a Inação, um clássico da literatura zen-budista japonesa, escrito por Yoshida Kȇnko, em meados do séc. XIV.] 




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Quem pode ter um rumo?

Lyonel Fininger, Ye Learned Apothecary, 1901

O Forasteiro

.                                                                                                                                 [depois de Kafka]

Eu não conhecia bem a cidade e tinha de chegar à Rodoviária. Talvez porque sentisse certo atraso, caminhava apressado, com uma mala de rodinhas. O guincho das rodinhas abatia-se sobre a rua como uma campainha. A hora começava a ermar. A caminho, algo não batia com o mapa virtual, no celular. Então notei, próximo, dois guardas:
Por favor, qual é o rumo da rodoviária?
O senhor quer saber o rumo? – um deles disse com uma expressão séria.
É a intenção.
E ao cotovelar o outro:
Este senhor quer saber o rumo, Garcia. Este senhor quer saber o rumo.
Tanto riram juntos que um deles teve de tossir para desenredar o fôlego. E então, semi-recomposto, o que não era o Garcia disse:
Meu Senhor, desista. Quem pode ter um rumo numa noite dessas?



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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Faz outono na noite: três de Bashō, quatro de Issa

[s/i/c]


Sete Gotas no Rosário e o Budismo-Chan


o pavão guincha
tão logo vê
a montanha

*

dois bonifrates ridentes
a um canto, também
são homem e mulher

*

quanto mais velhos
mais choro fácil
pelo caminho

*

não é um negócio
da China, o ópio
e eu estarmos vivos

[Issa Kobayashi]


algas verdes
no fundo das pedras
quem lembra da maré?

*

o mar escurece
o grito dos gansos
ficam brancos

*

faz outono na noite
e ninguém vem
pela estrada


[Matsuo Bashō]


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Escutar a paisagem

[s/i/c]


Lend me your ears

Soube que Afetivagem -- especialmente os poemas traduzidos -- será lido e discutido coletivamente por um grupo de cegos. 

Registro o fato. Porque acho isso maravilhoso. Uma nova modalidade de tradução pela qual passarão os poemas traduzidos. E uma dura prova.

Ao serem entornados em ouvidos de uma percepção elevadíssima. 


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A História da Lágrima no Ocidente

[s/i/c]



So many tears I was wasting

Em arte, aquilo que rompe o dique das lágrimas não pode provir senão da contemplação das formas. Afinal, aqui não se trata de chorar por tristeza – ou mesmo alegria – mas puro êxtase. Algo que sai de uma compreensão generosa. É por isso paciente. Fora de tempo. Retarda. Antecipa. Reveza. Convida à discrição. Compara. Germina em pensamentos posteriores. Às vezes, faz tudo isso simultaneamente. Tudo se ilumina. Cria um sentimento análogo ao do entendimento de um teorema sem geometria ao redor. Aquilo é compreendido na mesma medida que sentido. Faz caminhar sobre a corda bamba, sem corda e sem se ser bamba.
Tudo mais sai de olhos de crocodilo. Ou seja, são lágrimas choradas em causa própria. Como na maioria dos casos.
Quando blockbusters e comerciais começarem a lhe arrancar cachoeiras de Paulo Afonso, desconfie: há algo errado. A Apple, a Coca-Cola acham ducá, mas estão se lixando se esse chororô não é convertido em dólares. Há tabelas para calcular quanto valem os soluços ao redor do mundo. Um molhar de olhos na Holanda vale mais que um vale de lágrimas em Madagascar. Porque os choradores são mais humanos tão-só à medida que podem comprar do chorado.
Só há uma disposição mais elevada de pranto do que o vertido na percepção das formas, que educam os sentidos (e, em certo sentido, são genuinamente gratuitas).
Sobre essa, contudo, é vedado falar.


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terça-feira, 3 de maio de 2011

Apenas a décima, e em queda livre

[s/i/c]



A Expansão da Enciclopédia Livre em Português Perde Ritmo  


Que é isso! Se vai à Wikipedia e a versão em português é apenas a décima língua em número de verbetes. Por ordem, a sexta língua mais falada no mundo, o português, está atrás respectivamente do 1. Inglês; 2. Alemão; 3. Francês; 4. Polonês; 5. Italiano; 6. Espanhol; 7. Japonês; 8. Russo; e 9. Holandês.
A Polônia, com 38 milhões, tem menos habitantes do que o estado de São Paulo. A Holanda, com dezesseis milhões, tem uma população equivalente à do estado do Rio de Janeiro.
Ou poloneses e holandeses estão trabalhando muito bem, ou a gente muito mal. Melhor crer em ambas as alternativas. Há menos de três anos, a versão em português tinha mais verbetes que sua correspondente em espanhol. O que aconteceu de lá pra cá? O número de verbetes em português aumentou. Porém numa razão muito menor que aumentaram as contribuições em espanhol ou russo, que estavam abaixo do português.
Sabe-se que Portugal tem tantos habitantes quanto o Rio Grande do Sul, uns 10 milhões. Com quem está a maior responsabilidade de alargar uma excelente fonte de consulta gratuita? Muitos doam sangue. Por que não pensar em doar também um tempinho para ajudar com a Wikipédia. A tarefa é cívica -- no melhor sentido. E qualquer um pode participar. Participar da Wikipédia é um trabalho voluntário. Basta cadastrar-se e sugerir temas de verbete às comissões que organizam e monitoram o site. Assim como revisões, correções, atualizações, conformidade com a nova norma ortográfica, ampliação e clara citação das fontes, padronização dos verbetes de acordo com as normas internas da Wikipedia, bom uso de iconografia e de arquivos multimídia baseado nas licenças Creative Commons, etc.
A garotada agradece.


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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Assim como se escolhe a árvore do ninho

[s/i/c]



Uma pequena história do possível

O relato vem de antes da TV a Cabo e da Internet. Mas só um pouco. E a rua era como não há mais. Um sossego à noite quebrado apenas pelo uníssono dos televisores e o futebol das crianças sob os jambeiros. Casualmente, o choro de bebês e o tesourar estacado e mítico das narcejas. Por vezes abafados por um avião desavindo, em procedimento de pouso mais lá, para oeste, após a rodovia e a antiga torre de controle do aeroporto.
Havia uma sensação de inauguro nos olhos de ambos. À época, o bairro parecia longe de tudo. Dos outros parentes. Dos amigos. Do trabalho. Quão longe estava o centro da cidade. O mar. As linhas de ônibus, escassas. Mas os ônibus quase nunca trafegavam lotados. E se algum percalço assaltava a manhã, era sempre possível cobrir de carro, com pouco trânsito, a distância até o Centro. Tanto pela rodovia de um lado quanto pela avenida do outro. E, assim, o quem casa quer casa encontrou no casal, naquela rua, à sombra dos jambeiros, uma sua insígnia.
E era como se a rua se estivesse inaugurando com todas aquelas casas novas, cheias de crianças. E até mesmo a velha venda, que parecia engasgá-la em certo trecho, desalinhando-a, por contraste demarcava a novidade que a rua representava. Pilhas de tijolos, sacos de cimento, montes de areia, de pedrinhas, cal defronte as que ainda estavam sendo erguidas. E a delícia que a profusão dessas matérias causava na meninada. Mas a casa deles, já comprada pronta. E um longo financiamento a perder de vista. Era sólida e bonita. Nem grande nem pequena. À medida de um jovem casal que sonha no meio do mundo. E, no princípio, o meio é bom. E o mundo bonito.
Eram funcionários públicos, e erguiam uma vida assalariada e laboriosa. Tinham, à sua vez, um casal de filhos. O mais velho, pletórico e rueiro. Jogava futebol às tardes, depois da escola. Às vezes à noite, antes da novela. Em meio aquele alarido de meninos na rua, que mais parecia um pátio de escola.
A mais nova, menos estuante. A exigir mais antibiótico e cuidados. Uma compleição frágil também forjou na menininha, legado talvez do imobilismo de seguidas doenças, uma inexcedível presença de espírito. Ela, com mais frequência que o irmão ou que qualquer outra criança na família grande, propunha aquelas frases plenas de um viço que transcende a mera, gratuita fascinação que os pais nutrem diante dos filhos pequenos:
--Minha boca vai voar -- disse ela, em certa ocasião, ao descerem de buggy, uma imensa duna no Cumbuco. 
Vamos dizer, por acaso, em algum clichê, que se complementavam. Ao menos aos olhos dos pais. O menino se chamava João Marcos. E a menina, Maria Cecília.
De início, João Marcos, alijado do monopólio dos carinhos, acossava Maria Cecília. Volta e meia com tanto vigor que, certa tarde de brincadeiras, em que os três anos que os separavam se fizeram mais efetivos, João Marcos deslocou o bracinho dela.
Porém ficou tão compungido, que essa fratura de braço fumou entre os irmãos um cachimbo da paz. Assim que descontados inevitáveis delitos menores, praticados de parte a parte – e que tão parte fazem da vida entre irmãos pequenos, junto com outras tantas teimas e lundus – nada de mais agudo tornou a ocorrer.
No fim de semana, a família seguia junta ao clube e ao mar. O menino preferia a piscina. A menina, brincar nas poças da baixa-mar. As “lagoinhas”. Ou então, no mar aberto que era quando podia-se ver a dádiva do inédito em seus olhos ao sentir os pés afundando na areia quando a onda retraía forte, sulcando de volta pequenas conchas, vieiras, camadas de terra.
E, no entanto, as colheres de antibiótico, os muitos desvelos e mimos da mãe não bastavam para que a saúde de Maria Cecília vicejasse. As compressas, o escalda-pés, o aerosol. A menininha minguava. E em proporção inversa ao fascínio que seu encanto despertava: na creche, na vizinhança, entre a família grande. Os olhinhos azuis, amendoados, cheios de um vivo bulício sob a franjinha, e aquele carisma que não se pode alugar como se aluga um vestido:
Essa menina nasceu sabendo mais o que quer da vida do que uma avenida com nós todas juntas – dizia uma tia.
Mas vieram exames, diagnósticos, raios-x. Problemas nos brônquios, asma, rinite ficando agudos. Debilitando-a. Não raras vezes levavam-na ao posto de saúde. Ao hospital. Sessões e sessões sob máscaras de aerosol. Faltava-lhe fôlego. E, no entanto, tão bela era sua compleição, que nenhum peito de pombo formou-se no tórax.
Retiraram-na da creche. E de manhã, se não estava deitada na rede, à varanda, vendo figurinhas, um armador de rede inscrito nas nuvens ou a brincar com sua pequena tartaruga no jardim, ela soltava os periquitos no quarto fechado. Que farra era aquilo! Copiara o procedimento do pai. Mas o afinara à perfeição.
De início, os bichinhos eram só medo. Depois se foram rendendo tão incondicionalmente aos mimos da menina, que, por fim, adotaram seu pequeno corpo assim como se escolhe a árvore do ninho. Acostumando-se a ele. Colonizando-o. Fazendo parte dele. E a menina vivia com passarinhos da cabeça aos pés. E eles, naquele tácito acordo de bichos, entendiam que ela não podia mover-se em excesso. E, logo, possuía algo da perfeição imóvel dos vegetais. Se ela os segurava nas mãos, parecia já ter a noção precisa do ponto onde o carinho termina para começar o castigo. E ela sabia o quanto um carinho quase sempre faz bem.
E foi então que eles a ensinaram a voar. Não por muito. Porque sabiam que aquilo de voar podia deixá-la extenuada. Eram apenas pequenos sobrevoos à volta do quarto. Da janela para cima da cama, passando sobre a rede. De perto da porta até o tampo da velha penteadeira de espelho tripartido, que fora da bisavó de Maria Cecília. Sempre quando não havia ninguém por perto, que era para não despertar suspeitas. Censuras. Pois ela e eles se entendiam. Sabiam que os humanos adultos, ainda quando boa gente, são torpes e descrentes.
Ela também não contava a ninguém. Nem a João Marcos. Cedo entendeu que aquilo era incontável. No seu rol de coisas incontáveis, no entanto, não entrava conversar com a chuva. Já a propósito de voar, mais que a sensação de flutuar em si – pode-se ter uma ideia disso nos balanços, carrosséis; nos braços do pai – fascinante era poder imprimir uma direção àquele impulso; e, sobretudo, enxergar o mundo de ângulos assim insuspeitados, e em movimento. Como só no cinema a câmera faz por nós. Com menção honrosa aos desenhos animados.
Porém descobriu-se que algo nas penas dos periquitos causava alergia em Maria Cecília. E, desde então, ela só passou a brincar com eles por meio de um toque. Um toque de olhar, cintilante e vivaz. À distância. Enquanto eles se atropelavam de dentro do viveiro, para se aproximar do aceno dos dedos dela. E longas eram as manhãs como a sucessão de listras pontilhadas no centro da Belém-Brasília.
Por essa época, a febre insistiu em não se afastar mais dela. Grudou nela. Foram dias a fio. E quilos a menos. Ela voltou debilitada do hospital para casa. O fôlego curto. A resistência abalada. Até mesmo as correrias, estrepolias dos poucos anos, findavam em tosses e extremados cansaços. A cabeça a erguer-se, com se assim pudesse morder mais ar.
Já não parecia a menina que, só uns meses antes, forcejava pelas águas das pequenas poças que a baixa-mar deixa para trás em benefício de crianças e namorados, na Praia do Futuro. Já não usava descer os batentes para a rua, onde recebia os jambos, que os meninos colhiam depois de escalarem o Everest. Não tinha mais forças para o jardim. Nem para a tartaruga.
Maria Cecília morreu num domingo, ao fim da tarde, que é a hora em que por pouco a alegria diz à tristeza para seguir adiante. E recolher os pássaros – mesmo os avulsos, nos fios da rede elétrica. Sumir com eles. E compilar os restos da semana. E passar uma chave na caixa-registradora. A chamada da missa. A semana extinta no domingo, com suas dores e riscos. E, logo, o laivo de uma lembrança de não se sabe o quê mexe com a gente e se vai rápido. Mas seus vestígios. O quanto o marcador avançou nas páginas do livro. Ou as cartas do tarô, os búzios, o mapa dos astros previram destinos. Quantas milhas os aviões voaram em torno da terra naquela semana? Não se sabe bem o que ela teria sido: comissária de bordo, advogada, psiquiatra, corretora de imóveis, jornalista? Que amores estavam inscritos nas linhas de sua mão? E, então, no que uma vizinha tratava de vesti-la para a ocasião, a rua regurgitava de futebol, vôlei, bambolês e correrias. Uma alegria tão densa como raspa de brigadeiro no fundo da panela. No viveiro, os periquitos imóveis. Havia grande vibração na cidade. Fogos estouravam bairros afora. A celebrar um tricampeonato.


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domingo, 1 de maio de 2011

Batucando numa escultura para amortecer o frio do inverno

Richard Deacon, Let's not be stupid, 1991


A Obra de Arte na Era de sua Funcionalidade Técnica

Let's not be stupid é a escultura que fica bem diante do Centro de Artes da Universidade de Warwick. Sugere duas formas proto-biológicas ligadas por uma "escada", por filamentos de DNA. Ou algo que o valha.

Certa noite – e muito frio fazia a noite – com uns tantos pints a mais de cerveja e ale no sangue pulamos um bocado sobre a tubulação de Let's not be stupid. Um congraçamento espontâneo selvagem universal  – e desse grupo saiu até uma atual professora da instituição. Éramos em maioria estudantes de literatura comparada e estudos de tradução. E a estrutura do troço é em aço repintado. Oca. Dá uma percussão e tanto. Em menos de dez minutos dois guardas intimidantes, altos e robustos, chegaram ao local tiracolando um par de nutridos pastores alemães. Já comia um samba louco, desenfreado, embora não houvesse mais que um brasileiro. 

Quase fomos em cana.


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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Não vai mudar

[s/i/c]


Sobre disputas juvenis, Noel Rosa, Chico Buarque & Elevadores


Certa feita, aí pela adoidescência, uma namorada passou quase uma semana sem falar comigo, porque caí na besteira de dizer que Noel Rosa havia sido muito mais importante para a música brasileira que Chico Buarque. Pensando bem, com os olhos de hoje, a pausa de uma semana até que não foi de toda má -- mal sabe ela. E, além do mal, estimulou-me a ouvir e gostar ainda mais da música de Noel.

Meu argumento era simples: músicas como "Três Apitos" [posso ouvir essa com Maria Bethânia uma tarde inteira; de novo e de novo], "Último Desejo", "Pra que Mentir" -- ah, a versão e o violão de Paulinho da Viola -- , "João Ninguém", "Com que Roupa?", "Filosofia", "Feitiço da Vila", "Gago Apaixonado", "Palpite Infeliz", "As Pastorinhas", "Feitio de Oração" & trocentas outras têm o condão de me desarmar por completo. De me levar às lágrimas -- quem chora em público, não chora!-- de me fazer rir à bandeiras despregadas. E nelas, tudo é espontâneo. Talento bruto. O ritmo das palavras, maravilhoso, casando perfeitamente com as melodias. É a fala do povo do Brasil posta em música. E foram compostas, algumas, há mais de oitenta anos. 

O argumento contrário, o dela, era o de que Noel não tinha feito uma música política. E eu pergunto indignado: como não? Noel é o maior compositor de canções do Brasil, justamente porque é o mais político de todos os compositores. Todo o poliédrico cotidiano de viver neste país, ao tempo dele -- e, em certo sentido até hoje -- está presente em suas letras e músicas. Em suas parcerias, em que se encarrega predominantemente das letras. Para mim, em vez de Educação Artística, deveria ao menos durante um ano, haver uma disciplina na escola chamada Noel Rosa. Mesmo que ele diga, com razão, que "batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio".

Mas aí quando se dissesse: "Você passou em Noel Rosa? Passei"! A gente ficaria com a convicção de que a meninada teria, de fato, agregado um tanto mais de humanidade.

Agora, voltando à adoidescência, o argumento dela, já apelando, era o de uma vez, em São Paulo, ter subido no mesmo elevador de Chico Buarque. Pois muito bem. Que tenha feito bom proveito. Fique com o elevador e com Chico. Gosto da música de Chico Buarque também. Só que para mim não tem comparação. E até o momento, nunca senti vontade de subir num mesmo elevador com Chico Buarque. Pode ser que mude ideia. A vida dá muitas voltas. E, de outro modo, não se deve recusar nada por princípio, como diz o Divino Marquês. 

Mas uma coisa, é certa, e não vai mudar: o tanto que se é mais feliz  -- pela educação dos sentidos -- na audiência das canções de Noel. 


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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Alguns humores e uma mesma lua

[s/i/c]


Três Passagens


Ao passar por Pedra Rasa, reviu o seu naufrágio. Era como abrir uma janela para o ermo. E de novo se ver na rua, a segurar-lhe a mão. As juras secretas. As flores nas janelas da pequena capela rústica. Aroma de incensos. O quarto de lua crescendo. E depois a vida que não foram eles.
Ao passar por Pedra Rasa, naufragou-se em revistas. Era como ermitar sem janelas. Ou do sobrado flagrá-los de novo: o modo como se davam as mãos. Era ela mesmo? Um pesadelo. As flores nas janelas da pequena capela rústica. Um odor entre sacro e detestável. O quarto de lua frio, desolador. A vida que até então tinha sido eles.
Ao passar por Pedra Rasa, foi como ser revisitada por dois náufragos. Uma maçada. E os dois uniam suas frustrações para descarregar sobre ela. Precisava? Aquele perfume de dez reais. Mosquitos. Ninguém merece. Flores chinfrins e uma horrenda capela. Um caco de lua. Ah, não! Nada como mudar de vida!


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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Com frases, o vento leve: Leminski

[s/i/c]



 o bicho alfabeto
 tem vinte e três patas
    ou quase

    por onde ele passa
 nascem palavras
    e frases

    com frases
 se fazem asas
    palavras
 o vento leve

    o bicho alfabeto
 passa
    fica o que não se escreve



.                                                               [Paulo Leminski]


*   *   *

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Rapadura fields forever...

A barragem de Três Gargantas [Three Gorges], China



Belo Monte, xarope de maple, pudim de Yorkshire e uma fieira de rapaduras

Uma grande hidrelétrica chinesa foi finalizada em 2008, Três Gargantas. Desalojou 3 milhões de chineses. Além disso, submergiu uma área consideravelmente maior que a prevista para ser imersa pela represa de Belo Monte. Em realidade, mais de o dobro da área. A água do reservatório de Belo Monte prevê alagar apenas o que é, hoje, desmatado da Floresta Amazônica a cada 26 dias. E esse cálculo vem de um ambientalista contrário à construção da usina...[1]

Devia ser menos, é certo. Pois a Amazônia é uma prioridade. Ingênuo, de outro modo, pensar que um projeto dessa magnitude não tenha impactos ambientais. E, sinceramente, não parece assim tão extensa a área do reservatório quando se leva em conta que a usina irá beneficiar 27 milhões de residências - para não falar em fábricas, máquinas, linhas de produção, e os empregos que vêm à reboque disso - e realocar menos de 10 mil moradores locais. [2] Em sua maioria indígenas semi-nômades, os caiapós, que terão asseguradas reservas em terras contíguas -- provavelmente para desmatá-las e exportar a madeira, como é costumes entre esses indígenas que usam ipads, notebooks, celulares, câmeras de vídeo, firmam contratos com empresas estrangeiras para a exportação de mogno, mas são considerados como parte de uma cultura diferente da brasileira -- mesmo falando português e assistindo futebol em TV's de alta definição, porque, claro, alguns antropólogos e não poucas ONG's sobrevivem e lucram (e não pouco) na defesa desses povos indígenas. E eles geram uma boa porção de manchetes por este mundo afora.


Algumas personalidades internacionais, como Sting e James Cameron tentam tomar carona nesse bondinho da alegria, pseudo-ecológico, lastrado na "proteção", na "tutela" do "indígena", oligopólio das ONG's pseudo-ambientalistas (com raras e louváveis exceções). E extrair alguma boa imagem disso, como bons seringueiros do marketing. Naturalmente ambos aparecem na foto próximos do indígena mais apropriado para ser exótico, clichê. Mais ao ponto do clique da câmera. Mais para inglês ver, como se diz. Como age o cacique Raoni, que se deixou fotografar com o Príncipe Charles tocando, fascinado, o grande bloco de madeira que lhe estica o lábio.


Mas quantas dessas organizações não governamentais são, de fato, sérias? Se fossem sérias, ao menos uma considerável parte dessas ONG's reconheceria publicamente que dentre os cerca de 50 milhões de brasileiros beneficiários da energia de Belo Monte, aí por baixo, uns 60 a 70 por cento descendem de indígenas, para não falar dos que descendem de africanos... Ou seja, contam entre os expropriados históricos dentro do contexto da civilização brasileira. E, logo, são portadores do direito a um tratamento especial, prioritário. Ao menos tanto quanto os cerca de dez mil caiapós em cujas terras, supostamente sagradas, a represa de Belo Monte não pode ser erguida, segundo os empedernidos ambientalistas, ainda que para benefíciar uma população que, além de incluir muitos mais indígenas que os assentados na região, é nada menos que 5.000 vezes maior que o contingente caiapó... 


Parece, sem embargo, que não há proteção para indígenas assimilados, urbanizados; tão-só para os que moram na selva (como se estes não o fossem, aculturados, em diferentes graus)... Afinal, a selva não é tão pobre quanto uma favela em Altamira ou Imperatriz. Há nela maior biodiversidade, maiores interesses farmacológicos, madeireiros, energéticos, nutricionais, geopolíticos, culturais (pelo suposto exotismo dos ritos), etc. Além disso, a selva está em moda. As vidas dos indígenas, assim, parecem valer mais dependendo do local onde esses indígenas se encontram. Se já se encontram na periferia pobre das cidades da fronteira agrícola, já não valem tanto... Caso se encontrem na selva, mesmo aculturadíssimos -- torcendo pelo Brasil na Copa do Mundo, ou admirando o futebol do Barcelona -- tem um valor bem mais alto que os desafortunados que migraram, ou foram  tangidos para as cidades... E aos da selva é dedicado um maior grau de autonomia, ainda que estejam assimiladíssimos e plenamente cientes das regras do jogo capitalista.

Que usinas hidrelétricas são incomparavelmente menos poluentes que usinas termelétricas, todo mundo sabe. Do que usinas atômicas, então, nem falar. Que o Reino Unido, país de Sting, esteja coalhado de usinas nucleares, é fato. Que o Canadá, país de origem de James Cameron, as possua em bem maior quantidade que o Brasil, também. Que nos Estado Unidos, país onde vive Cameron, haja usinas atômicas a rodo, é também sabido, pois já houve até um grave acidente nuclear por lá, o de Three Miles Island, em 1979. Mas nenhum brasileiro protesta contra esses fatos. Enquanto isso, Sting e Cameron posam de herois do ambientalismo no caso Belo Monte. E os brasileiros acham o máximo. E aplaudem como se fosse uma peça no pré-primário onde seus filhos.

No entanto, quando o Brasil está construindo uma grande usina hidrelétrica, fonte de energia limpa (e segura), que beneficiará um vasto contigente de população; e, na circunstância, com deslocamento expressivamente menor de pessoas do que costuma ser em casos do gênero – tome-se como exemplo os três milhões de chineses citados acima se comparados a menos de dez mil indígenas (que muito provavelmente devem exportar as madeiras de suas reservas com a voracidade de grileiros) –; há uma grita geral. 

Quem está por trás da máquina de propaganda que praticamente forja esse consenso de que Belo Monte é algo diabólico em termos ambientais? De que é preciso embargar a construção da hidrelétrica? Por que tanta indignação diante de tão pouco conhecimento de causa? E ainda uma vez: que interesses são subliminares à campanha anti-Belo Monte? A quem interessa esse ponto de vista onde há tão pouca margem para argumentos? Construtoras rivais? Caciques políticos do Sudeste? ONG's estrangeiras que lucram com o extrativismo de madeiras na região, mercadejando com os próprios morubixabas caiapós? Governos estrangeiros cada vez mais interessados na internacionalização da Amazônia - ainda que tenham destruído muito mais suas próprias florestas e dizimado seus indígenas, como os próprios Estados Unidos? Centrais sindicais interessadas em reaver o espaço de poder que perderam nesses começos de administração Dilma? Governos estaduais mais corruptos, que não conseguiram "tirar o seu"? A OEA, organização eminentemente submissa à política externa norte-americana, que recentemente condenou Belo Monte en bloc? E por que não condena a política energética dos próprios Estados Unidos, toda ela calcada em usinas atômicas e no petróleo para mover excessos e luxos?

Certamente, a intensa unilateralidade dessa campanha fere o bom-senso do observador mais isento, menos maria-vai-com-as-outras. Acostumado a refletir, ponderar. E isso implica conhecer os dois lados da questão. As caras e coroas. Os prós e contras.


E, surpresa, quando se faz isso, está patente que a unilateralidade dessa campanha fere em cheio os interesses econômicos do Nordeste, que precisa urgentemente da energia de Belo Monte para dar sequência à sua tardia industrialização. É injusta com os 50 milhões de brasileiros – predominantemente habitantes do Nordeste, predominantemente descendentes de indígenas – que seriam beneficiados com o aporte da energia gerada por Belo Monte. 


Quantos movimentos ambientalistas foram tão fortemente articulados na imprensa quando, por exemplo,  a barragem de Itaipu varreu do mapa Sete Quedas -- uma maravilha natural na forma de quedas d'água -- para propulsionar as já pujantes indústrias do Sudeste? Quem ao menos se lembra disso num momento como o atual, de discussão? Quem vive lamentando Sete Quedas ou é retroativamente contra a construção de Itaipu? À época Drummond escreveu até poema para o conjunto de quedas d'água que iria desaparecer. E eram tão magníficas que ainda hoje reaparecem um poquinho, se o ano for de seca brutal. 

É certo, à época dos governos militares não havia espaço para livre expressão. E, no entanto, de um modo geral as grandes represas hidrelétricas construídas durante os anos 70 e 80 contam  entre as mais louvadas realizações de melhoria infra-estrutural do país até mesmo em livros de analistas de esquerda. O mesmo se pode dizer do Proálcool, que já existia em 1974, quando os Estados Unidos sequer sonhavam em refinar o seu ineficiente etanol, derivado do milho, fortemente subsidiado e muito mais poluente. Com isso se quer dizer que é inevitável: quando um país almeja melhorar sua infra-estrutura para permitir desenvolvimento e uma vida melhor, mais estável, equitativa, isso implica fatalmente em prejuízos ambientais. E, claro, pode-se estimar o tamanho desses prejuízos. E estudar um modo de serem menores. Mas, pontualmente, reparem também como todo mega-projeto longe do Sudeste/Sul assoma, na imprensa, como muito mais nefasto e corrupto do que quando se desenvolve por lá. E por que será?

Enquanto isso lá na terra de James Cameron, o Canadá, que é o maior produtor de urânio do planeta, come-se mais e mais bifes, constroem-se mais usinas nucleares, e tira-se o gosto com maple syrup. E quanto a Sting? Bem, Sting vê TV, acende aquecedor, ouve música, move-se sob as luzes da danceteria, navega na net, assiste clipes e filmes, e até prepara yorkshire puddings, ovos com bacon e ferve água para o chá com energia atômica... Sem energia atômica, a população da Inglaterra não fritaria um ovo. Passaria frio.

Às vezes, se tem a impressão de que brasileiro é um bicho assim meio besta... 




p.s. -- Parece ser mais que precipitado taxar quem é a favor da construção de Belo Monte de ANTI-AMBIENTALISTA. É claro que com o progressivo esgotamento das potencialidades hidrelétricas do Sudeste e do Sul, a grande imprensa brasileira, sediada no Sudeste/Sul, fará de um tudo para que essa excelente fonte de energia não seja explorada nas demais regiões do Brasil. E por quê? Porque essas "demais" regiões -- veja-se a grilagem de terras por gaúchos no Mato Grosso, Maranhão, Piauí, Tocantins, Bahia -- têm sido historicamente colônias suas nos últimos um século e meio[3]. Nesse ínterim, a vasta massa formadora de opinião, no Nordeste, no Norte, posa de ecoboba, defensora do planeta. Não há nada de errado em ser ambientalista. Do contrário. É uma bela tomada de partido. O planeta agradece. Porém para ser idealista, carece, antes, ser astuto. Medir as repercussões ambientais caso a caso. Caso contrário, sem energia e infra-estrutura, a principal indústria manufatureira do Nordeste voltará a ser a de rapaduras.

[1] Para um argumento contrário a Belo Monte, que é quase canônico na imprensa brasileira e internacional:

http://bit.ly/fprGCU

[2] Para o parecer de um físico, professor da Unicamp, em artigo republicado no Jornal da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência [SBPC]:

http://bit.ly/flootB


[3]Este argumento é extremamente bem desenhado pelo brilhante historiador Evaldo Cabral de Mello -- irmão do poeta -- em obra sua chamada O Norte Agrário e o Império, na qual ressalta o quanto a pujança econômica do Centro-Sul do país se deve em boa parte a um esvaziamento sanguessuga das potencialidades econômicas do Norte do Brasil. Daí a quantidade de revoltas que varreram o Nordeste (em sua maioria de teor radical e republicano, como a dos Alfaiates, na Bahia; a Confederação do Equador, em vários estados; ou a Praeira, no Recife.)


* * *

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sem meias vírgulas, uma firula & a fábrica de tecidos

Érica Correia, The Wind Blows My Mind, 2009



Três Apitos


grito para além da praça
mas os passos motores
guizos buzinas percalços
pigarros mas a voz do senhor
que ainda compra jornal
em banca bem-te-vis
e sanhaços gota da chuva
que está para cair taco do
cego batendo ângulos
outro grito de gol a murchar
dolente risco na caderneta
da jornalista pressão hesitante
de teclas abraço entre sarja e
poliéster mosca sobre fruta
sinos um bocejo moça seguindo
célere para o passado sargaços
trago de soda dobre de sola
e dados e dédalos talheres no tampo
da mesa clepsidra os dedos ou só


o eco da última vez em que
chamei teu nome cega a voz


e segues sobre o cascalho.


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domingo, 13 de fevereiro de 2011

se por iminente perda

Barnett Newman, Vir Eroicus Sublimis, 1950-51






a Francisco Carvalho


se por iminente perda se advinha,
pela nuvem se conhece o vento,
por amor dorme-se ao relento
ao lado de bonina e flor azinha;
se o mar, o mar de si fosse fermento
e o ovo viesse antes da galinha,
se o soberano caminhasse em linha
reta, como peão por cumprimento;
se o corpo tornasse à infância, ao oco,
as esfinges se entredevorando
ao tempo do pêssego ao lábio teu,
se estar vivo ou morto é o mesmo dano
e crer, a melhor forma do ateu:
por devaneio se chega a algum foco?



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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ao fim do romance perfeito

©2009-2010 Blue-Fish


A Última Frase do Gatsby



“So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past”.


F. Scott Fitzgerald


[“Assim nos debatemos, barcos contra a corrente, gerados de volta incessantemente no passado”].


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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Estranha a seu tempo e aos Países Baixos: Veermer por Ungaretti

Jan Veermer, A Lady at the Virginals with a Gentleman, 1625

Jan Veermer


La sorte di Veermer è tra le più straordinarie non tanto per la sua tarda comparsa nel campo della fama, quanto pela luce de gloria definitiva che gli è venuta dall'elogio di Marcel Proust. É noto che fino al 1866, fino alla segnalazione fattane sulla “Gazette des Beaux-Arts” alla fine di quell'anno, Théophile Thore chiamato de solito Bürger, pseudonimo con il quale aveva firmato il saggio su Veermer, l'opera de Veermer era passata, anche da vivo, quasi inosservata. Anche come uomo é straordinario ingegnato a non lasciare di sé alle cronache altra traccia salvo quella derivata dal proseguimento con semplicità delle peripezie d'una vita di buon padre di famiglia e di modesto cittadino di Delft. Il fatto più saliente accadutogli fu d'essere stato scelto dai suoi colleghi della Ghilda a esercitare durante un anno le funzioni di decano. Era cattolico e, in quegli anni, poteva in Olanda non essere sempre facile tirare avanti con tranquillità a chi lo fosse: ma non trapela affatto, dalla sua pintura né dalla sua biografia, che gli fosse difficile, e nemmeno che problemi religiosi potessero inquietarlo.
Ma la sua pittura se manifesta come insolita ai suoi tempi e prima, insolita nei Paesi Bassi, i anche altrove. Dei pittori che in Europa lo precedettero o furano suoi contemporanei, solo un dipinto gli si può avvicinare. Si tratta della Madonna col Bambino di Piero della Francesca.
[…]

Giuseppe Ungaretti


[Extrato inicial de um artigo retirado de Per Cognoscere Ungaretti – Antologia delle opere a cura di Leone Piccioni – Mondadori, Milano, 1993]


Jan Veermer


O destino de Veermer está entre os mais extraordinários nem tanto pela sua tardia aparição no campo da fama, quanto pela luz de glória definitiva que lhe advém do elogio de Marcel Proust. É de notar que até 1866, até a menção feita na “Gazette des Beaux-Artes” ao final daquele ano por Théophile Thore, vulgo Bürger, pseudônimo com o qual havia escrito o ensaio sobre Veermer, a obra de Veermer era passado; ainda que viva, quase despercebida. Também como homem é extraordinário engenho o não deixar de si à crônica outro traço salvo a derivação com simplicidade da peripécia de uma vida de bom pai de família e modesto cidadão de Delft. O fato mais notável que lhe ocorreu foi o de haver sido escolhido por seus colegas da Guilda a exercer durante um ano a função de decano. Era católico e, por aqueles anos, poderia na Holanda nem sempre ser fácil sê-lo com tranquilidade: mas não manifesta-se de todo, na sua pintura ou na sua biografia, que lhe fosse difícil sê-lo, ou sequer que problemas religiosos pudessem inquietá-lo.
Porém a sua pintura se apresenta estranha a seu tempo e, antes, estranha aos Países Baixos, e também alhures. Dos pintores que na Europa o precederam ou foram seus contemporâneos, só uma tela pode-se-lhe avizinhar. Trata-se da Virgem com o Menino de Piero della Francesca.
[…]


CODA

De interesse este artigo de Ungaretti sobre Veermer. Aliás, Veermer é um pintor bastante amado por poetas [para um poema de Murilo Mendes sobre Veermer, clique AQUI e veja ao final da postagem]. De outro modo, o autor de Il Porto Sepolto, viveu alguns anos no Brasil e foi professor da USP. Posteriormente, num ciclo de palestras, em São Paulo, em 1966, conheceu e teve uma ligação amorosa – que prolongou-se por carta durante anos – com uma poeta ítalo-paulistana. À época tinha 78 anos; ela, 26. Ungaretti foi também um grande tradutor – inclusive de Homero e dos clássicos. Mas também verteu para o italiano vários poetas brasileiros, como Drummond, Bandeira, Mário de Andrade e Vinícius de Moraes, entre outros. Nutria um particular apreço pela “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, que verteu assim para o italiano:


Canzone dell'esilio

La mia terra ha la palmiera
D'onde canta il sabïà;
Qua anche trillano gli uccelli,
Ma il gorgheggio è un altro là.

Ha più stelle il nostro cielo,
I verzieri hanno più fiori,
C'è più vita ai nostri boschi,
Vita la più trova amori.

Se di notte penso, solo,
Il piacere cerco là,
La mia terra ha la palmiera
D'onde canta il sabïà.

Ha la terra mia splendori,
Non li trovo uguali qua;
Se – di notte, solo – penso,
Il piacere cerco là;
La mia terra ha la palmiera
D'onde canta il sabïà.

Non permetta Iddio ch'io muoia
Si non prima torne là
E rigoda gli splendori
Che qua mai non troverò,
E riveda la palmiera
D'onde canta il sabïà.


Nota – as palavras “palmiera” [palma, palmizio] e “sabiá” não existem no idioma italiano. Ungaretti as manteve com ligeiras variâncias de sílabas ou acentuação e introduziu notas para ambas.

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