domingo, 12 de dezembro de 2010

Um Homem de Bem é Difícil de Achar

Robert Aldrich, Kiss Me Deadly [A Morte num Beijo], 1955


Revirando um conto de O'Connor


I. Contextura


Há um correspondente em outras linguagens artísticas para uma determinada expressão. Para um estilo – essa palavra que hoje tornou-se quase palavrão. E soa tanto redutor que se jogue sobre o fazer literário de Flannery O'Connor o rótulo de “gótico sulista”. Ao modo como se põe no mesmo saco autores tão distintos – e tão estigmatizados por um rótulo – como os ditos “regionalistas de 30”, no Brasil.
Escritores que, de resto, tiveram um impacto tremendo na lusofonia. A ponto de serem tomados como modelo pelos “claridosos” – a geração de escritores que inaugura o modernismo em Cabo Verde e sente nos escritores brasileiros uma espécie de empatia e desenredamento da cor local raramente plasmado pelo que lhes chegava de uma Lisboa um tanto sufocada pelo inauguro do salazarismo.
Na verdade, “regionalistas de 30” só existem na mente pouco fértil de pseudo-escritores (ou pseudo-críticos) como Diogo Mainardi – que, à parte sua midiática presença em programas como Manhattan Connection ou algo semelhante, caso de Edney Silvestre – jamais emendou duas setenças que sequer pudessem lamber as botas do que segue proposto por Graciliano Ramos em Infância ou Memórias do Cárcere. Ou por Lins do Rego em Fogo Morto ou Pedra Bonita.
Assim, os autores sulistas dos Estados Unidos são entrevistos com a mesma reserva, pelo patriciado de Nova York, de New England, com que autores do Nordeste do Brasil são entrevistos no Eixo Rio-São Paulo, e mais a Sul. As latitudes apenas invertem-se e, no caso do Brasil, mesmo em seu eixo mais "central" (ou seja, onde o país é mais província, como em São Paulo, a cidade) não chegam a atingir o clima europeu – prerrogativa de Buenos Aires, Montevidéu, Santiago do Chile, na América do Sul.
Mas voltemos a O'Connor e a correspondência com outras linguagens. Está claro que se há um equivalente para a literatura de O'Connor, isso se dá com certo cinema no qual, de uma ou de outra forma, se pode vislumbrar um jogo de afecções pessoais mais bem tramado. Um cinema confeccionado na década de 50, fotografado em preto e branco e retratando os últimos estertores do American Dream.
Mas talvez seja melhor, em vez de pôr um rótulo nesse cinema, apenas falar mais sobre ele.
A solução mais fácil seguiria, então, por aproximar a quota de humor negro de O'Connor do filme noir. Mas se deve desconfiar das soluções fáceis. E, no caso, escritores como Raymond Chandler e Dashiell Hammett estão obviamente mais próximos do filme noir. Seus protagonistas são, em geral, detetives profissionais, aparentemente misóginos; mas, em verdade, frágeis anti-heróis, em especial quando confrontados a fortes figuras femininas.
O fato de o humor negro de O'Connor aproximar-se de algum cinema – a granel, tido equivocamente como mais “psicológico” – dos anos 50 não nos deve enganar. Não nos deve enganar até mesmo o fato de um autor como Cormac McCarthy haver fornecido cinco décadas depois material semelhante ao de O'Connor para ser adaptado à tela pelos hábeis irmãos Cohen, em No Country for Old Men. O romance é de 2005; o filme, de dois anos depois. E ambos são extremamente legíveis e assistíveis.
Essa assistibilidade, aliás, é um aspecto a se destacar em O'Connor. A visualidade de seus relatos é limítrofe. O modo como a paisagem – em geral da Georgia, do Sul – assoma tão intensa e suplementada por diálogos estilizadamente idiomáticos, que o leitor “vê” o que era para estar apenas sugerido na escrita.
Assim, parece um tanto manifesto que se possa vislumbrar algo análogo à narratividade de O'Connor em alguns dos filmes de Howard Hawks, de John Huston, de Anthony Mann, de Billy Wilder, de Robert Aldrich, de Nicholas Ray, de Samuel Fuller, de Sidney Lumet, de Don Siegel. Até mesmo de Sam Peckinpah. Ou de forma mais distante, por conta do excesso de maneirismos, de Hitchcock.
E, no entanto, não de realizadores que, aparentemente, estariam mais próximas dela ou por raízes irlandesas, caso de John Ford; ou pela densidade das personagens, caso de Chaplin – em especial, em seus filmes falados; ou mesmo pela origem sulista, caso de Robert Altman. E, em todos esses casos, o que ocorre é uma pulsão para o épico que inexiste em O'Connor. Embora, paradoxalmente, ela toque em questões mais épicas que qualquer um desses realizadores.
De resto, Huston chegou a adaptar Wise Blood, o romance mais ressonante de O'Connor, para a tela, numa produção modesta, em 1979. E é um filme enxuto, simples, estimável. Onde se pode destacar, em especial dois aspectos: a captação de certo colorido, de certa ambiência sulista; e a esplêndida performance de Harry Dean Stanton.
Feito este arrodeio, podemos passar uma vista sobre “A Good Man is Hard to Find” [“Um Homem de Bem é Difícil de Achar”].


II. A coisa em si quase em si

uma paráfrase da trama [se você deseja ler o conto sem saber o final da história (um dado importante), é mais razoável que veja esta sinopse depois da leitura], o conto pode ser encontrado online, aqui – e sua extensão em livro, na edição que manuseio, é de apenas 17 páginas:




A protagonista de “A Good Man is Hard to Find” é chamada simplesmente de “a Avó”. A Avó é viúva e mora com filho Bailey; com a esposa deste, que é sempre chamada tão-só de “a mãe das crianças” [“the children's mother”]; e as crianças: John Wesley, June Star, cerca de dez e oito anos, respectivamente, e uma menininha de colo, que é referida apenas como “o bebê”.
Há muita coisa entrelinhada sobre “a Avó”. Ela é expansiva, comunicativa, exuberante. Ela é também protestante, mas isso não está expresso. Ela é vaidosa, o que está muito bem expresso. Ela é voluntariosa; o que conforma o próprio enredo do conto. É dominadora, uma vez que quase sempre logra estabelecer sua vontade acima das do filho e da nora.
Junto com a neta, June Star, a Avó forma a dupla de estrelas da companhia, em família. Já que o filho, Bailey, e sua mulher, “a mãe das crianças”, são tipos grises, aparentemente sem qualquer appeal, embora se mostrem bem mais coerentes, cuidadosos e responsáveis pelos demais.
A família sai em viagem de férias e, de pronto, a Avó sugere que não se deve ir à Flórida – para onde já se havia ido em outras temporadas – porém ao Tenessee, onde havia parentes e conhecidos não visitados a tempos por ela. A proposta é, de imediato, descartada pelo filho Bailey, assim como pelas crianças.
As crianças são bastante distintas. Especialmente quanto ao humor. E isso parece ser importante para O'Connor – como uma sorte toda particular de livre-arbítrio. Livre-arbítrio até para rir ou não de certas situações ou observações. O tema do riso ou do siso, recorre também, da mesma forma, em outro conto da autora, “Greenleaf”, onde a reação de também dois irmãos diante de certa declaração da mãe é inteiramente diversa.
Em “Um Homem de Bem...”, o garoto, John Wesley – que certamente não porta este nome em vão, pois nada aparece assim tão gratuitamente nos relatos de O'Connor – apesar de responder à Avó com certa crueza de modos em algum momento, é, no íntimo, um espírito pouco tenaz ou obstinado. É um fraco. Como, aliás, costumam ser os personagens masculinos de O'Connor. Ou o próprio pai de John Wesley, que é filho único de mãe tão opressora. E, de resto, John Wesley é quase uma piada diante do terrível gênio da irmã, June Star.
Logo ao início da viagem, ao ouvir a Avó contar um episódio da juventude, onde, de resto, há um ranço racista extremamente forte a reação dos irmãos é oposta. O garoto ri à bandeiras despregadas. A garota, não. Porém a reação da garota não se dá pelo racismo contido na anedota, senão pelo fato de um o pretendente da Avó, quando jovem, sempre lhe presentear com melancias. E aqui se propõe um conflito recorrente nos contos de O'Connor: entre o rural e o urbano.
A avó rebate o argumento da neta, ao dizer que o tal pretendente, falecido há poucos anos, tornou-se um homem muito rico. E foi mesmo um dos primeiros a comerciar a Coca-Cola na Geórgia. Mas há outros sinais de que os tempos estão de muda.
As crianças leem revistas em quadrinhos o tempo inteiro. A Avó, na hora do lanche, come um reforçado sanduíche de manteiga de amendoim com carne de vitelo recheada de cebolas e ervas aromáticas. Porta seu gato num cesto. E veste-se com uma exuberância e uma vaidade que não se elastece à nora. Ou seja, os sulistas brancos começam a entrar na ciranda de desenfreado consumo do Norte; dos yankees, seus vencedores na sangrenta Guerra Civil. A guerra que se estendeu por cinco anos e opôs o industrializado Norte, ao Sul agrário e mitológico – a lendária Dixieland (ou Dixie) dos confederados, conduzidos pelo General Robert E. Lee, brilhante estrategista de campo, que venceu várias vezes exércitos do norte que somavam quase o dobro de seu contingente.
Guerra cujas cicatrizes jamais foram completamente apagadas. Que destruiu material e moralmente o Sul do país.
Há também dois outros personagens importantes em “Um Homem de Bem é Difícil de Achar”: Red Sam, o dono de uma espécie de misto de posto de gasolina, churrascaria, dancing e cine-poeira de beira-de-estrada; além de um serial killer fugido recente de um presídio de alta-segurança e que se autodenomina “o Desajustado” [“the Misfit”].
A fuga do bandido tem mesmo uma ampla repercussão midiática. Tanto que já na véspera da viagem, a Avó teme que se possa cruzar na estrada com um tipo assim, já que os jornais alertam: ele se fora em direção à Flórida: “I wouldn't take my children in any direction with a criminal like that loose in it” [“Eu não levaria meus filhos nessa direção se soubesse que tem um criminoso como esse solto por lá”] . Mal sabe ela que será ela própria quem conduzirá a família até o serial killer.
Já Red Sam, o proprietário da churrascaria, é importante no conto por duas razões. A primeira, por ser uma espécie de, digamos, equivalente masculino da Avó. Pragmático, expansivo, conversador. Mas também repressor da mulher. Assim como a Avó é do filho e da nora.
À altura que a família atinge a churrascaria de Red Sam – cuja publicidade ataca todos os costados da rodovia, à certa altura – é hora do almoço. E, quase de imediato, diante do deslustre de Bailey, o filho, e “da mãe das crianças”, quem realmente “conversa” são a Avó e Red Sam.
O assunto é o de o quanto os velhos tempos eram melhores, etc. e etc. Tempos em que se podia dormir com a porta apenas encostada, como evoca Red Sam, para em seguida lamentar – aliás, com o título do conto – que, no presente, “um homem de bem é difícil de achar”.
Só um pouco antes disso, a Avó passa recibo dessa mesma 'ética protestante' ao afirmar que “it isn't a soul in this green world of God's that you can trust” [“Não há uma só alma nesse viçoso mundo de Deus em que se possa confiar”]. Aparentemente, a sensatez nos contos de O'Connor dificilmente está nessas pessoas extracomunicativas como a Avó, como Red Sam, porém em quem se desdobra em cuidados com os outros a despeito de uma rotina um tanto cinza, como “a mãe das crianças”. Ou Bailey, o pai. Personagens deslustradas de charme.
De novo na estrada, a Avó, que praticamente faz a narração da viagem, segue apontando para o pitoresco, para o belo, para a exclamação, começa a evocar a visita que fez, ainda jovem, à certa casa de fazenda, antiga, faustosa. A Avó lembra-se da casa, porque haviam justo passado pelo cruzamento da estrada que conduzia até ela.
A evocação é tão vívida que a Avó sente vontade de revisitar a casa. E, de pronto, inventa uma mentira sedutora: uma vasta quantidade de prata da afluente família que a habitava  estaria supostamente escondida em algum lugar da casa, num compartimento secreto. Isso inflama as crianças. E a Avó as incentiva. O pai diz que não. Não irá se desviar da rota. Porém o protesto das crianças é veemente. Ele acaba cedendo.
Aqui a vitória é a da volubilidade, do capricho da avó. De seu egoísmo. De seu apetite por satisfazer um desejo pessoal, que em nada beneficiaria os demais. Mesmo que ela lance mão de subterfúgios para justificar a visita, como o fato de ser educativo para as crianças visitar uma antiga casa de fazenda. É óbvio que o que ela pensa, em primeiro plano, é nela. É em matar a saudade de um recanto bonito de sua juventude. Retornam, então, cerca de uma milha na rodovia e tomam a estrada carroçável que conduz à tal casa. A estrada é tão acidentada e estreita que o pai pensa em desistir. Mas a Avó diz que eles já estão quase lá. Logo ao dizer isso lhe vem uma certeza inesperada: a tal casa ficava no Tenessee, não na Georgia, onde eles ainda se encontram, quase na fronteira sul do estado. Ou seja, sua memória lhe pregara uma peça. E, no entanto, tarde para retroceder. Remendar o soneto. Ela mete a família numa íngreme e perigosa estradinha vicinal por um capricho pessoal. Depois descobre que essa via estreita e íngreme não vai dar em nenhum antigo casarão de fazenda. E, no entanto, é incapaz de revelar a verdade.  E imediatamente em seguida se dá o inusitado: o carro capota e tomba da estrada, restando equilibrado em um dos flancos no fosso de um dique. Ninguém sai ferido com gravidade, porém a situação é vexaminosa. E há ferimentos leves, reparos a se fazer no carro. 
Alguns minutos depois a família vislumbra um automóvel provindo lentamente através das mesmas íngremes colinas que eles haviam cruzado. A Avó acena vivamente para o automóvel, que tem um aspecto de carro de funerária. O carro desaparece nas curvas abruptas e reaparece diante das árvores até estacionar diante dos acidentados. Dele saem três tipos mal-vestidos e armados. Um deles é reconhecido, quase de imediato, pela Avó em histeria, como sendo o serial killer recém-escapado da penitenciária e que chama a si próprio de The Misfit [O Desajustado].
O facínora sente-se lisonjeado pela extensão da própria fama, embora admita que "but it would have been better for all of you, lady, if you hadn't of reckernized me." [“havera de ter sido mior pra vocês tudo, dona, se você num tivesse me rerconhecido”].
Nesse instante, Bailey diz algo tão duro para a mãe que as crianças sentem-se chocadas. E o próprio bandido enrubesce. Este seu desaforo, que provavelmente concentra muito, uma vida inteira, é das poucas coisas que não são reproduzidas literalmente no conto e leva ao bandido dizer:
"Lady, don't you get upset. Sometimes a man says things he don't mean. I don't reckon he meant to talk to you thataway." [“Dona, não se apoquente. Às vezes um homem diz coisas que num tenciona. Num levo em conta ele ter falado com você des'jeito”].
O que se segue é um banho de sangue. Começando por pai e filho, a família é levada para o matagal das redondezas pelos comparsas do Desajustado e só se escutam os tiros. Estabelece-se então um diálogo inesperado entre a Avó e o serial killer. Este conta sua vida atribulada. E ela, consciente de haver sido responsável pela tragédia da família, apela para a religiosidade, e pede que ele reze. Estabelece-se então uma espécie de involuntária discussão em torno da questão da graça divina.
Ao final, em desespero, diz a Avó ao bandido que pode lhe passar uma boa soma em dinheiro. E este lhe responde de modo direto: “Lady, there never was a body that give the undertaker a tip.” [“Dona, nunca houve um corpo que desse gorjeta ao agente funerário”].
Mas, em seguida, ao discutir a figura de Jesus, o bandido aparentemente se comove. A Avó declara, então, que ele é, na verdade, um de seus filhos e o toca no ombro. Ao sentir-se tocado “The Misfit sprang back as if a snake had bitten him and shot her three times through the chest.” [“o Desajustado cambou para trás como se uma víbora o tivesse mordido e atirou nela três vezes à altura do tórax”].
Um dos comparsas voltava de haver eliminado “a mãe das crianças”, o bebê e June Star, no matagal. E ao se deparar com o cadáver da Avó:

"She was a talker, wasn't she?" Bobby Lee said, sliding down the ditch with a yodel.
"She would of been a good woman," The Misfit said, "if it had been somebody there to shoot her every minute of her life."
"Some fun!" Bobby Lee said.
"Shut up, Bobby Lee," The Misfit said. "It's no real pleasure in life."

[“Era conversadora, héin?” Bobby Lee disse, deslizando pelo flanco do dique com um dengue na voz.
Ela havera de ter sido uma boa muié”, disse o Desajustado, “se tivesse quem atirasse nela a cada minuto da vida dela”.
“Isso é engraçado!” disse Bobby Lee.
Cala a boca, Bobby Lee”, o Desajustado disse. “Num tem mesmo prazer nessa vida.”]




 III. Interpretações

Há várias. Carradas, camadas delas. Nenhuma vale a leitura do conto.

* * *

sábado, 11 de dezembro de 2010

To stand still

[s/i/c]


Quem fica?


Segundo declaração recente e aparentemente pouco hábil de nossa atual prefeita, Luizianne Lins, nosso próximo prefeito pode ficar parado. Ela diz que consegue elegê-lo, mesmo assim.

Mas será que o reflexo de um poste banha-se nas águas do mesmo rio? E, bem, ao menos num poste se pode afixar coisas interessantes. Menos estopantes que política partidária, quem sabe. Do tipo: "Baby, I am so sorry. I love you".

Isso de eleger até um poste deve ter sido tão-só uma metáfora mais forte de nossa prefeita. Não devemos esquecer que Luizianne tem aspirações artísticas. Chegou, aliás, a dirigir um curta de ficção, que ela própria escreveu aí pelo começo dos 90. Chama-se: Beija-me com os Beijos da tua Boca. Baseia-se supostamente no Cântico dos Cânticos. Não foi exatamente um sucesso de público. Tampouco de crítica, embora haja ganhado uma premiação no Cine Ceará, em 1993, o que não quer dizer muito. 

Deve andar nas gavetas. Faz tempo. 

Como se diz por aí: como prefeita, Luizianne é ótima cineasta. Ou será contrário?

Lá sei. Quem fica parado é poste. 



*  *  *

Com um sorriso não acompanhado pelo corpo

[s/i/c]

Um Conto Forçosamente Curto

Trabalhando na garagem. Cortando pequenas placas retangulares de folha de flandres. E apondo-as um furo perto de uma das extremidades. Lhe pergunta:
O que é isso?
Responde baixo, enquanto a furadeira ressoa. Pergunta de novo.
Um negócio que eu quero fazer – diz, com um sorriso não acompanhado pelo corpo.

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Quase sempre em duplo

Ken Price, Red Neck, 2002


Em Fiança de Flannery O'Connor

A delicadeza de Flannery O'Connor em relação à sua escritura só empata com a crueldade ao final de seus contos. São tão excepcionalmente bem escritos que dá vontade de desistir, porque não há contista que crie ao mesmo tempo diálogos que se fazem um com uma atmosfera admiravelmente bem urdida.
Um dos aspectos mais sobresaltantes neles – para não mencionar seus romances, como Wise Blood [Sangue Sábio] – é a relação entre os protagonistas, pois quase sempre os temos em duplo. O duplo mais comum é o mãe(viúva)/filho. Mas há também avô/neta, proprietária de fazenda/capataz; namorada/namorado; senhoria/inquilino. E por aí vamos.
Outro assunto recorrente é a relação entre o rural e o urbano, numa região onde isso já foi tão tenso como o Sul dos Estados Unidos em meados do século passado. Uma época, por lá, aliás, bastante semelhante - guardadas as distâncias e processos históricos dissimilares - à que vive de momento o Nordeste do Brasil: crescente onda de industrialização e urbanização.
Não há uma escritora brasileira – nem mesmo Lispector – que domine com tanta precisão a arte de escrever contos. Mas também se comenta que O'Connor era tão obsessiva com seu fazer que, poucos dias antes de morrer, com tão-só 39 anos – da mesma doença congênita que vitimara seu pai, o lúpus – debaixo de tubos e mais tubos, num hospital em Baldwin County, Georgia, ela se entregava com afinco à revisão de seus originais.
Não há irregularidades, mas precisão. E, assim, difícil escolher. A escolha vai mais por idiossincrasia. Seu conto mais famoso leva o título de “A Good Man is Hard to Find” [“Um Homem de Bem é Difícil de Achar”].
Ainda assim, arrisco. Dois contos são mesmo de tirar o fôlego de tão bem escritos: “Greenleaf” e “A View of the Woods” [“Uma Vista da Mata”].
No primeiro, ela trata do ressentimento que uma proprietária de fazenda nutre diante da prosperidade dos filhos de seu capataz. Em especial, se comparada com o que chegaram a realizar seus próprios filhos. O desprezo que ela dedica aos Greenleaf, uma família que, em casa, ela e os filhos chegam a esboçar uma imitação do modo tacanho, caipira [red neck] como falam – uma espécie de “greenlenfês” – é extrema. Mas mais extremo ainda é o que a espera ao final.
Em “Uma Vista da Mata”, O'Connor se ocupa de um velho latifundiário que possui um arrojado projeto de loteamento. E sonha com uma cidade a dimanar desse loteamento portando seu nome de família: Fortune. O velho, todavia, vê com desdém extremo a própria família. Quer dizer, para adiante dele: as filhas e com quem elas se misturaram. O fruto dessa mistura, os netos. E, de um modo ainda mais sardônico, um dos genros: Pitts. A única exceção é uma neta de oito anos, filha de Pitts, mas muito parecida fisicamente com ele próprio, e a quem ele considera a símplice portadora real do nome de sua estirpe, os Fortune. A ela o velho devota um carinho singular, avulso. Avô e neta seguem colados o dia inteiro, apesar de ela ter apenas oito anos e o velho setenta e nove. Há uma empatia intensa entre ambos. E, no entanto, a garota, para além da semelhança física, também herdou muito de seu temperamento. Inclusive certo grau de cumulado, mesquinho ressentimento diante da vida. Como se acaba constatando. Porém, aqui, o final é também inusitado. E, portanto, incontável em tão curta nota.



Nota - para mais Flannery O'Connor em Afetivagem:


Pousado sobre a miragem: Ungaretti

Maria Helena Vieira da Silva, Dance, 1992




Agonia

Morire come le allodole assetate
sul miraggio

O come la quaglia
passato il mare
nei primi cespugli
perché di volare
non ha più voglia

Ma non vivere di lamento
come un cardellino accecato


Giuseppe Ungaretti



Agonia

Morrer como o tordo pousado
sobre a miragem

Ou como a gralha
passado o mar
na primeira palha
razão de voar
não há mais talha

mas não viver de lamento
como um pintassilgo achacado


* * *

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Para ser mais só observá-la: Ungaretti

Abolfath Davari, 2008


Tappeto

Ogni colore si espande e si adagia
negli altri colori

Per essere più solo se lo guardi


Giuseppe Ungaretti



Tapete

Cada cor se expande e se abandona
nas outras cores

Para ser mais só observá-la


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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ainda que sejam papéis amassados no vão das ruas

[s/i/c]

5 banalidades sobre os primeiros capítulos do Primeiro Quixote e sobre o Quixote em geral


i.
Cervantes, ele mesmo, devia ser louco por romances de cavalaria, pois sabe tudo do assunto.


ii.
A questão da tradução é posta desde o início, uma vez que supostamente Don Quixote seria, segundo Cervantes, uma tradução de um original árabe: Historia de don Quixote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador arábigo. Esse disfarce da tradução está proposto no início do capítulo 9:

Estando yo un día en el Alcaná de Toledo, llegó un muchacho a vender unos cartapacios y papeles viejos a un sendero; y como yo soy aficionado a leer aunque sean papeles rotos de las calles, llevado de esta mi natural inclinación tomé un cartapacio de los que el muchacho vendía y vile con carácteres que conocí ser arábigos. Y puesto que aunque los conocía no los sabía leer, anduvo mirando si parecía por allí algún morisco aljamiado [1] que los leyese, y no fue muy dificultoso hallar intérprete semejante, pues aunque le buscara de otra mejor y más antigua lengua le hallara. En fin, la suerte me deparó uno, que, diciéndole mi deseo y poniéndole el libro en las manos, le abrió por medio, leyendo un poco en él, se comenzó a reír.

[1] aljamiado = que falasse castelhano.


iii.
A linguagem de Don Quixote transcorre num castelhano muito mais próximo do português que o castelhano moderno. E, mais, do português brasileiro, que, em variados aspectos de sintaxe e vocabulário, é mais arcaico que o português europeu. Daí que o título original do livro seja Don Quixote, com esse “x” tão galaico e português – e assim é conhecido em inglês e em qualquer outra língua – enquanto no próprio castelhano virou Don  Quijote, com “j”. Além disso, Cervantes era bilíngue, e chegou a escrever alguns poemas em português – que, de vir de uma geração de escritores mais notável que em castelhano no século anterior, com Camões & Cia. Ltda., era tido como língua culta mais elevada  até que o próprio castelhano.

iv.
D. Quixote e Sancho frequentemente se expressam por provérbios. Mas enquanto a proverbialidade de Sancho é concreta e coloquial, provem da fala; a de D. Quixote é artificial e livresca, e deriva dos livros de cavalaria.

v.
O epíteto “o cavaleiro da triste figura” é dado por Sancho em certa passagem do Capítulo 19. Neste capítulo, após perder alguns dentes numa escaramuça e ter o rosto desfigurado por pancadas, D. Quixote exibia um aspecto nada atraente. E, no entanto, o que é atribuído por Sancho – o princípio de realidade do livro – como um atributo físico, é entendido por D. Quixote como atributo moral (i.e., triste, melancólico diante das imperfeições deste mundo). E, logo, ele prontamente adota a alcunha, como fórmula completa, comum entre os cavaleiros andantes de antes de seu tempo: D. Quixote de la Mancha, el Caballero de la Triste Figura.


CODA
Até erros de continuidade se pode perceber em Don Quixote. Ou interpolações bucólicas, como a história de Grisóstomo e da pastora Marcela, que interrompem e desviam brusca e artificialmente o fluxo da narrativa. No entanto, seja em prosa, seja em verso, não há obra mais sutil e deliciosamente bem tramada. Nenhuma outra que tenha deitado tamanho impacto sobre nossa mentalidade moderna. Unamuno a resume como o “enlouquecimento da pura maturidade do espírito”. Mas aqui, pode-se inverter a fórmula: “a pura espiritualidade do espírito maduro” – ou seja, do espírito que deixa de fora qualquer instância física, corpórea, porque D. Quixote habita um reino de ideias platônicas. Um mundo ideal. Não um real. E é dessa defasagem, naturalmente, que equilibra-se em funambulismo toda a carga de ternura e de humor deste livro ímpar. 


Para mais Don Quixote em Afetivagem:


Um Possível Resumo de Dom Quixote


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Se não descartáveis, perdem metade da graça

[s/i/c]



O Objeto
-miúça sobre afetos ao tempo do rato

Um objeto pode cristalizar o modo como hoje se estabelecem os afetos. Eles vêm. Vão. Apressadamente. Fazem-se, desfazem-se. Refazem-se em alvoroço, vertigem. Condicionais. Simultaneidades. Se não forem descartáveis, perdem metade da graça. Pois boa parte dessa “graça” está no número. Na maleabilidade. Ou seja, no modo como pôr fim a algo parece ser sempre provisório. Ou reversível.

Este objeto é o mouse. O clique do mouse determina o ritmo dos afetos. Eles podem ou não ser tecidos na vertigem 144 caracteres do Twitter. Não importa. O que se deve tomar em consideração é pequeno demais, mas ainda existe: essas relações conformam algo bárbaro. Acelerado. Que parece dizer a todos os que não “se mouseam”: “Iau, meu cumpade, você perdeu o bonde da história”.


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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

É uma merda ter de tomar café numa birosca dessas

[s/i/c]


Modos, Disposições & uma Manhã em Dezembro

–Você que tá atendendo a cafeteria? – como um amestrador conduzindo um tigre selvagem, disse o sujeito alto e corpulento ao sujeito franzino, envergando um avental branco e uma touca do outro lado do balcão – faz quase dez minutos, velho, que a gente espera lá...
–É. Mas eu tenho de despachar primeiro os clientes dos frios, regras da casa – respondeu o sujeito franzino com um sorriso um tanto enfastiado, triquetraz, onde sobressaía um canino adunco, a noite de plantão; e, virando-se resolutamente para o cliente que precedia o sujeito no balcão dos frios disse – são quantas gramas de mortadela, mesmo, Senhor?
Guy era o cliente em questão. E percebeu o fastio do atendente de avental branco diante do sujeito corpulento. Mas logo reconheceu este. E este, lhe disse:
–Ah, rapaz, Guy, tudo bem?
–Opa, tudo bem, Haroldo – respondeu Guy – a noite rendeu?
–Assim, assim, cara. Deu um povo! – e com o braço em perpendicular ao antebraço soltou os dedos da palma da mão, em vassoura acima. E consultou seu iPhone que tocava.
Guy sabia que Haroldo, o sujeito alto e corpulento, era um dos DJ's mais requisitados da cidade. E que comandava, na terceira sexta de cada mês, um evento que reunia toda a galera mais jovem e descolada em um clube, um tanto improvisado, como costumam ser esses clubes de ocasião, nas cercanias do Dragão do Mar. E que o evento, que levava o pomposo nome de Diorama Rave, havia se dado justo na noite anterior, e que Haroldo, pelo amassado do rosto, devia haver recém-chegado de lá.
Guy achava Haroldo uma figura afável. Um tanto distinta de certa rudeza de modos tão peculiarmente de Fortaleza. A última vez, aliás, em que se haviam encontrado, num boteco, para os lados da redação de O Povo, Haroldo havia mesmo feito um convite para Guy comparecer à próxima Diorama Rave. Mas Guy, após tecer alguma sondagem e, mesmo ao constatar que alguns conhecidos, de sua idade, ainda frequentavam esse tipo de festa, um tanto juvenil, comandada por Haroldo e outros DJ's, sentira-se com a certeza de que não iria ao evento. E por uma razão simples: detestava perceber que estava cercado de gente – especialmente mulheres – que tinha idade de ser seus filhos.
Trocaram um aperto de mão protocolar. Guy vinha de uma noite de sono, em que acordara muito cedo, lera alguns capítulos do livro de contos que andava às voltas com; escrevera um pouco; passara uma vista nos jornais; e saíra às compras no supermercado 24 horas.
Por seu turno, Haroldo, acompanhado de um jovem casal, parecia extenuado, após a faina sonora de dar de ouvir a jovens ávidos por dança e grupos exóticos o que queriam ouvir. E, depois de se despedirem, Haroldo retornou às mesas do pequeno café e reengrenou o papo com o jovem casal.
Envergando jeanst-shirts All-Starseles conformavam um grupo distinto dos clientes que madrugavam; enquanto a garota trajava uma saia plissada de padrão xadrez, que lhe descia à altura do joelho e uma blusa de gola alta. O jovem casal era particularmente bem apessoado. E o humor dos três indicava para algum alterado estado de percepeção. De se ver brilhar mais as cores do que elas de fato chispam numa opaca antemanhã de sábado.
Terminado com a compra dos frios, Guy prosseguiu à cata do que precisava: pão, iogurte, suco de laranja, café em pó, chá, chocolate, biscoitos, amêndoas, vinho e cigarros.
Enquanto caminhava entre as gôndolas do supermercado, escutando a melopeia previsível das canções cuspidas pelos alto-falantes, podia ouvir as gargalhadas do grupo que tomava o café da manhã: "eles estão levando uma vida", pensou Guy, com um sorriso mental.
Já havia luz lá fora. O sol esboçava. E ao chegar ao único caixa em funcionamento, Haroldo e o casal estavam três clientes adiante de Guy, na fila.
Pequenas guirlandas de luzes piscando melancolicamente, ao dia pré-aceso, pendiam das armações de metal que sustentavam a estrutura do galpão:
–Um instante só, Senhor – disse o caixa a Haroldo e seu grupo – estou sem troco. E apertando um botão no painel do caixa acendeu uma pequena lâmpada e, de imediato, alguém veio com uma bolsa plástica, com zíper, carregada de moedas e cédulas de baixo valor.
–He, he, ele parece tão simpático quanto o rapazim' dos frios – ironizou Haroldo – será que não se pode tomar um café com certa agilidade na porra desse supermercado?
O caixa fechou o cenho. Moreno, franzino, parecia um tipo ainda mais sanguíneo que o atendente dos frios. Ainda assim, contemporizou:
–O mundo não foi feito num só dia, Senhor!
–Iau! Não me chame de Senhor – disse Haroldo – tenho 32 anos. Sou um senhor, amizade? Me chame de você, faz favor.
O caixa parecendo falar para alguém que se encontrava a três ou quatro metros de distância, à direita ou à esquerda de Haroldo, retrucou:
–Infelizmente, a carga de troco que me trouxeram não bate com o que tenho de devolver a vocês – e apertou de novo o botão no painel.
As pessoas na fila prestavam atenção àquele movimentação tensa, em maior ou menor grau. Guy, com um olho no padre outro na missa, fazia de conta que lia as manchetes das revistas, dispostas num mostruário á entrada da linha dos caixas.
O funcionário com o troco demorava-se:
–É uma merda ter de tomar café numa birosca dessa em que ninguém dá atenção ao cliente – resmungou Haroldo.
–Senhor...quer dizer, jovem, o carro-forte ainda não chegou e, às vezes, é complicado passar troco tão baixo sem numerário miúdo nas gavetas...
–Quer saber duma coisa – rezingou Haroldo – se esse cara demorar mais um minuto, você vai me devolver o qu'eu lhe paguei e a gente vai pra casa, dormir, meu camarada. Ninguém merece.
O caixa baixou a cabeça, rubro, visivelmente contendo-se. O cliente tem sempre razão, reza o ditado. Mas nem sempre os ditados expressam verdades. E, de outro modo,  há clientes e clientes. E quem disse que todos estão interessados, de fato, em verdades num mundo como o nosso?
O funcionário, enfim, chegou. O caixa separou destra e meticulosamente as moedas nos escaninhos da gaveta e repassou as cédulas, e, com a ponta dos dedos, as moedas do troco.
Ao receber as moedas na cava da mão, Haroldo cerrou-a e fixou duramente os olhos amendoados, de traços indígenas do caixa de compleição franzina. Então, num gesto brusco, atirou-as com força no rosto do caixa:
–Você é uma piada, seu merdinha. Titica de galinha. Deve ser primo do garotinho dos frios. É a mesma simpatia, seu viado!
Os clientes na fila assistiam o crescendo da altercação com renovado interesse. Certa apreensão, alguns. Outros, com um humor que mal disfarçava o meio-riso.
Mas, já no fio da navalha, no ponto quase de passarem às vias de fato, Haroldo e seu grupo se foram, às gargalhadas. Entraram num Citröen preto e saíram cantando pneus. O caixa engoliu em seco, soltou um fundo suspiro. Retirou os óculos. Passou um lenço de papel sobre o rosto suado, timbrado pela pressão dos níqueis arremessados. Lágrimas de raiva drenavam-se pelos flancos externos dos olhos amendoados. Uma senhora da fila antecipou-se até ele e afagando-lhe o braço disse:
--Isso acontece, meu filho. Tenha calma!
O caixa ergueu-se no empuxo de um suspiro. Caminhou na direção de um balcão, rente às vidraças. Os pés pareciam pesar toneladas.  Ao esmurrar o tampo do balcão, ainda pôde ver o carro entrando na contramão - para evitar o contorno da quadra - a tomar a avenida na direção da Praia de Iracema, do Meireles, vazando pelo semáforo no vermelho, como é praxe em desoras. 
Suspenso, enfim sobre a cidade alva, em meio a um céu de liso azul, sem encalço de nuvem, o sol acendeu de vez o sábado, projetando as sombras da vasta mangueira sobre os pré-moldados do estacionamento. E empalideceu ainda mais o melancólico piscar do cacho de luzes natalinas dependurado nos caibros de metal.

* * *

domingo, 5 de dezembro de 2010

A precisão de sempre: Bach

Art Chantry, 1986


J. S. Bach

Ontem à tarde, estudava um pouco uma das mais conhecidas peças de Bach para violão: a “Bourrée” em Mi Menor. Entre as poucas obras para violão erudito que tocava de cabeça, quando, de fato, tocava um pouco de violão. Faz tempo.


Como boa parte dos gêneros musicais, a bourrée era antes uma dança. E aí vem à mente um verso. De Creeley: "a música é a dança dos que não dançam".

Aliás, Bach compôs a "Bourrée" originalmente para alaúde – uma vez que a guitarra (apenas no Brasil a guitarra se chama “violão”; em Portugal e no resto das línguas ocidentais é “guitarra”) ainda não era um instrumento conhecido. Ou, no mínimo, suficientemente “respeitável”, "conceituado".

A transcrição, para violão, é igualmente em Mi Menor. Como o Mi Menor utiliza as mesmas notas da escala de Sol Maior – sua relativa maior, como se diz – há quem diga haver sido a “Bourrée” a inspiração para o “Blackbird”, de McCartney. Bastante provável.

Mas o que impressiona é, apesar se sua simplicidade, não haver uma única nota a menos. Ou a mais.

A precisão de sempre, do velho mestre de Leipzig. Mesmo numa peça didática, para iniciantes no instrumento. 

Dizem que a música de Bach é a ouvida pelo Altíssimo. Sendo que, quando o Todo Poderoso vai dormir, os anjos se divertem, por um pouco, com os maneirismos de Mozart.




P.S. --- uma boa interpretação, limpa, direta, simples, dessa peça pode ser ouvida aqui:


http://www.youtube.com/watch?v=jKSg8t4zyLg


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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Habitar por um pouco a casa, frequentar espaços desarticulados no tempo

Glenn Ligon, still de The Death of Tom, 2008


um conto
Unção

Havia domingos para se afastar do bando e caminhar sozinho. Na baixa-mar, descer do ancoradouro, de degraus roídos pela maresia, até a areia do rio. Driblando as pedras crestadas de ostras e cracas. E então, areia virar aluvião limoso; e, após, lama espessa, onde siris e caranguejos. Um lagosteiro passando no canal, com a popa repleta de manzuás na demanda da barra. A água verde-zinco do rio rebentando rala sobre a porção de espaço que cobrira algumas horas antes com trancos e respingos. E a tornaria a recobrir só umas horas depois. À margem de lá, as altas dunas alvíssimas. O mangue espesso – de folhas duras, crespas – cheio de meandros e sulcos. De réstias de luz sobre a água.
Ou então, tomar a rua lateral à estação e ir até a velha casa dos engenheiros, abandonada já aquela altura. A luz da recém-manhã envelopando as varandas da casa. E um fiapo de terral bulindo nos ramos do ficus. Joel deslizava tão silenciosamente como quando uma sombra desbota na calçada sob as nuvens brancas e grassas encobrindo, de passagem, o sol. Então ele escalava o muro. Seu desejo era habitar por um pouco a casa, que achava a mais bonita do mundo. Com seu porão. Seus telhados angulados. As esguias colunas de madeira sustentando o peso dos telhados nas varandas.
Tufos de silvas, ervas daninhas cresciam em brechas na ardósia do pequeno pátio. Entre elas, a que ao menor toque nos minúsculos ramos era bastante para ela se trancar inteira. Os pequenos ramos contraídos. Mas, antes, sempre se dizia: “Maria, fecha a porta que teu pai vem bebo”.
Os passos de Joel eram tão silenciosos que mesmo sobre o cascalho mal se faziam pressentir. Gostava de andar só. Desde muito cedo sentia essa necessidade de estar só por algum tempo. Só com o mundo. De frequentar esses espaços desarticulados no tempo, de galgar até a varanda da casa dos engenheiros da Estrada, à qual se chegava por uma pequena escadaria. Desaferrolhar o portão, de grades oxidadas; pisar os ladrilhos amarelos, vermelhos, ocres, formando padrões geométricos. E, de lá, contemplar os velhos armazéns repintados pelas chuvas e intempéries. Com riscos de lodo ressequido; e que pareciam provir de um tempo tão apartado, que ele não saberia diminuir. Ou somar.
Foi depois de um desses domingos à deriva, em que se desagregava dos demais para vagar sem rumo, por aí, que, voltando para casa, perguntou pelo pai. Fátima, a empregada, disse-lhe que seu pai estava na casa vizinha. A casa vizinha pertencia a velhas tias-avós. Era um sobrado antigo, com cheiro de mofo e ureia. De coisa velha. Com a impressão de haver uma pátina de pó sobre tudo. Desde a velha mesa na sala de jantar à absurda cômoda de espelhos tripartidos em um dos quartos passando por uma grande arca de tampo pesadíssimo, que se encontrava no sobrado. E tudo com seu tempo medido por um antigo relógio cuco.
Joel seguia pela calçada. A manhã ainda não passara seu meridiano e, agora, uma aragem forte, provinha do rio, encrespando seu cabelo.
A porta estava inusualmente aberta. O corredor era longo, cheio de sombras. À direita, conduzia à sala de jantar e à cozinha. À esquerda, aos quartos e aos altos. Joel tomou a esquerda, porquanto percebeu alguma movimentação em um dos quartos. O que se sucedia à escada que conduzia ao sobrado. À medida que se foi aproximando, seus passos instintivamente desaceleravam. Podia pressentir que algo extremamente pesado corria no ar. Algo ainda mais pesado que o tampo da enorme arca lá acima, no sobrado. Que o mover dos ponteiros no velho relógio cuco. Uma das bandas da porta estava aberta. E Joel, subindo em um degrau da escada e agarrando-se ao caixilho da porta, mirou o interior.
Viu o Monsenhor Inácio com suas meias roxas. O sacristão atrás dele, com uma cruz dourada. Ambos estavam vestidos com cerimônia, pompa. E o monsenhor de pé, ligeiramente vergado sobre a cabeceira da cama, com um tom de voz baixo, murmurava monotonamente algumas palavras diante de sua Tia Estela. Sua Tia Esther chorava. E sua Tia Júlia olhava a cena, um tanto mais afastada, com natural fixidez. Então, o monsenhor ungiu a testa de sua Tia Estela, cuja respiração entrecortava-se, como se um cansaço absoluto, irreversível a tivesse colhido.
O sol da bela manhã de maio adentrava o aposento pelas pequenas vidraças acima das venezianas fechadas. Um vago pregão corria na rua. Depois de alguns poucos minutos, um espesso silêncio caiu sobre o quarto, pontuado por um ou outro resfôlego de sua Tia Esther:
–Está tudo conforme, Monsenhor – disse sua Tia Júlia num tom seguro, assertivo. E dirigiu-se ao relógio cuco à parede, detendo os ponteiros. Depois cerrou os espelhos laterais da penteadeira de forma a vedarem o central. Fez isso com tanta naturalidade, que quase sugeriu um gesto rotineiro: acender o fogo sob o bule de café, lavar as mãos à bacia ou esvaziar um urinol. O sacerdote sacou a estola e num gesto largo, de braços, ensaiou algum conforto diante do pranto, agora convulsivo, de sua Tia Esther.
Mas nem um em cem avos dessa naturalidade de sua Tia Júlia percorria o corpo e o espírito de Joel. Sem nada dizer, ele pressentia que não teria palavras se tivesse de dizer. Aliás, de uma coisa sabia – enquanto seus irmãos brincavam ou jogavam bola – ele testemunhara aquilo, involuntariamente, como um clandestino. Ainda que elas fossem sua família. E o monsenhor aquele que proferia sermões inflamados sábado após sábado, ao fim das tardes.
Ele sabia que não haveria mais sombra para sua Tia Estela. Que a aragem que adentrava de leve o aposento, provinda do rio, através da saleta da frente, e movia-lhe de leve os cabelos grisalhos, sob a tintura aloirada não era mais sentida. Embora fosse o único movimento em seu corpo. Que ela se fechara, como a “Maria-fecha-a-porta”. Mas para não mais se abrir.
E, então, neste momento tudo ficou escuro. Uma mão sobretapou-lhe os olhos e o puxou de encontro a um corpo adulto.
Era seu pai.


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