quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Se não descartáveis, perdem metade da graça

[s/i/c]



O Objeto
-miúça sobre afetos ao tempo do rato

Um objeto pode cristalizar o modo como hoje se estabelecem os afetos. Eles vêm. Vão. Apressadamente. Fazem-se, desfazem-se. Refazem-se em alvoroço, vertigem. Condicionais. Simultaneidades. Se não forem descartáveis, perdem metade da graça. Pois boa parte dessa “graça” está no número. Na maleabilidade. Ou seja, no modo como pôr fim a algo parece ser sempre provisório. Ou reversível.

Este objeto é o mouse. O clique do mouse determina o ritmo dos afetos. Eles podem ou não ser tecidos na vertigem 144 caracteres do Twitter. Não importa. O que se deve tomar em consideração é pequeno demais, mas ainda existe: essas relações conformam algo bárbaro. Acelerado. Que parece dizer a todos os que não “se mouseam”: “Iau, meu cumpade, você perdeu o bonde da história”.


* * *

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

É uma merda ter de tomar café numa birosca dessas

[s/i/c]


Modos, Disposições & uma Manhã em Dezembro

–Você que tá atendendo a cafeteria? – como um amestrador conduzindo um tigre selvagem, disse o sujeito alto e corpulento ao sujeito franzino, envergando um avental branco e uma touca do outro lado do balcão – faz quase dez minutos, velho, que a gente espera lá...
–É. Mas eu tenho de despachar primeiro os clientes dos frios, regras da casa – respondeu o sujeito franzino com um sorriso um tanto enfastiado, triquetraz, onde sobressaía um canino adunco, a noite de plantão; e, virando-se resolutamente para o cliente que precedia o sujeito no balcão dos frios disse – são quantas gramas de mortadela, mesmo, Senhor?
Guy era o cliente em questão. E percebeu o fastio do atendente de avental branco diante do sujeito corpulento. Mas logo reconheceu este. E este, lhe disse:
–Ah, rapaz, Guy, tudo bem?
–Opa, tudo bem, Haroldo – respondeu Guy – a noite rendeu?
–Assim, assim, cara. Deu um povo! – e com o braço em perpendicular ao antebraço soltou os dedos da palma da mão, em vassoura acima. E consultou seu iPhone que tocava.
Guy sabia que Haroldo, o sujeito alto e corpulento, era um dos DJ's mais requisitados da cidade. E que comandava, na terceira sexta de cada mês, um evento que reunia toda a galera mais jovem e descolada em um clube, um tanto improvisado, como costumam ser esses clubes de ocasião, nas cercanias do Dragão do Mar. E que o evento, que levava o pomposo nome de Diorama Rave, havia se dado justo na noite anterior, e que Haroldo, pelo amassado do rosto, devia haver recém-chegado de lá.
Guy achava Haroldo uma figura afável. Um tanto distinta de certa rudeza de modos tão peculiarmente de Fortaleza. A última vez, aliás, em que se haviam encontrado, num boteco, para os lados da redação de O Povo, Haroldo havia mesmo feito um convite para Guy comparecer à próxima Diorama Rave. Mas Guy, após tecer alguma sondagem e, mesmo ao constatar que alguns conhecidos, de sua idade, ainda frequentavam esse tipo de festa, um tanto juvenil, comandada por Haroldo e outros DJ's, sentira-se com a certeza de que não iria ao evento. E por uma razão simples: detestava perceber que estava cercado de gente – especialmente mulheres – que tinha idade de ser seus filhos.
Trocaram um aperto de mão protocolar. Guy vinha de uma noite de sono, em que acordara muito cedo, lera alguns capítulos do livro de contos que andava às voltas com; escrevera um pouco; passara uma vista nos jornais; e saíra às compras no supermercado 24 horas.
Por seu turno, Haroldo, acompanhado de um jovem casal, parecia extenuado, após a faina sonora de dar de ouvir a jovens ávidos por dança e grupos exóticos o que queriam ouvir. E, depois de se despedirem, Haroldo retornou às mesas do pequeno café e reengrenou o papo com o jovem casal.
Envergando jeanst-shirts All-Starseles conformavam um grupo distinto dos clientes que madrugavam; enquanto a garota trajava uma saia plissada de padrão xadrez, que lhe descia à altura do joelho e uma blusa de gola alta. O jovem casal era particularmente bem apessoado. E o humor dos três indicava para algum alterado estado de percepeção. De se ver brilhar mais as cores do que elas de fato chispam numa opaca antemanhã de sábado.
Terminado com a compra dos frios, Guy prosseguiu à cata do que precisava: pão, iogurte, suco de laranja, café em pó, chá, chocolate, biscoitos, amêndoas, vinho e cigarros.
Enquanto caminhava entre as gôndolas do supermercado, escutando a melopeia previsível das canções cuspidas pelos alto-falantes, podia ouvir as gargalhadas do grupo que tomava o café da manhã: "eles estão levando uma vida", pensou Guy, com um sorriso mental.
Já havia luz lá fora. O sol esboçava. E ao chegar ao único caixa em funcionamento, Haroldo e o casal estavam três clientes adiante de Guy, na fila.
Pequenas guirlandas de luzes piscando melancolicamente, ao dia pré-aceso, pendiam das armações de metal que sustentavam a estrutura do galpão:
–Um instante só, Senhor – disse o caixa a Haroldo e seu grupo – estou sem troco. E apertando um botão no painel do caixa acendeu uma pequena lâmpada e, de imediato, alguém veio com uma bolsa plástica, com zíper, carregada de moedas e cédulas de baixo valor.
–He, he, ele parece tão simpático quanto o rapazim' dos frios – ironizou Haroldo – será que não se pode tomar um café com certa agilidade na porra desse supermercado?
O caixa fechou o cenho. Moreno, franzino, parecia um tipo ainda mais sanguíneo que o atendente dos frios. Ainda assim, contemporizou:
–O mundo não foi feito num só dia, Senhor!
–Iau! Não me chame de Senhor – disse Haroldo – tenho 32 anos. Sou um senhor, amizade? Me chame de você, faz favor.
O caixa parecendo falar para alguém que se encontrava a três ou quatro metros de distância, à direita ou à esquerda de Haroldo, retrucou:
–Infelizmente, a carga de troco que me trouxeram não bate com o que tenho de devolver a vocês – e apertou de novo o botão no painel.
As pessoas na fila prestavam atenção àquele movimentação tensa, em maior ou menor grau. Guy, com um olho no padre outro na missa, fazia de conta que lia as manchetes das revistas, dispostas num mostruário á entrada da linha dos caixas.
O funcionário com o troco demorava-se:
–É uma merda ter de tomar café numa birosca dessa em que ninguém dá atenção ao cliente – resmungou Haroldo.
–Senhor...quer dizer, jovem, o carro-forte ainda não chegou e, às vezes, é complicado passar troco tão baixo sem numerário miúdo nas gavetas...
–Quer saber duma coisa – rezingou Haroldo – se esse cara demorar mais um minuto, você vai me devolver o qu'eu lhe paguei e a gente vai pra casa, dormir, meu camarada. Ninguém merece.
O caixa baixou a cabeça, rubro, visivelmente contendo-se. O cliente tem sempre razão, reza o ditado. Mas nem sempre os ditados expressam verdades. E, de outro modo,  há clientes e clientes. E quem disse que todos estão interessados, de fato, em verdades num mundo como o nosso?
O funcionário, enfim, chegou. O caixa separou destra e meticulosamente as moedas nos escaninhos da gaveta e repassou as cédulas, e, com a ponta dos dedos, as moedas do troco.
Ao receber as moedas na cava da mão, Haroldo cerrou-a e fixou duramente os olhos amendoados, de traços indígenas do caixa de compleição franzina. Então, num gesto brusco, atirou-as com força no rosto do caixa:
–Você é uma piada, seu merdinha. Titica de galinha. Deve ser primo do garotinho dos frios. É a mesma simpatia, seu viado!
Os clientes na fila assistiam o crescendo da altercação com renovado interesse. Certa apreensão, alguns. Outros, com um humor que mal disfarçava o meio-riso.
Mas, já no fio da navalha, no ponto quase de passarem às vias de fato, Haroldo e seu grupo se foram, às gargalhadas. Entraram num Citröen preto e saíram cantando pneus. O caixa engoliu em seco, soltou um fundo suspiro. Retirou os óculos. Passou um lenço de papel sobre o rosto suado, timbrado pela pressão dos níqueis arremessados. Lágrimas de raiva drenavam-se pelos flancos externos dos olhos amendoados. Uma senhora da fila antecipou-se até ele e afagando-lhe o braço disse:
--Isso acontece, meu filho. Tenha calma!
O caixa ergueu-se no empuxo de um suspiro. Caminhou na direção de um balcão, rente às vidraças. Os pés pareciam pesar toneladas.  Ao esmurrar o tampo do balcão, ainda pôde ver o carro entrando na contramão - para evitar o contorno da quadra - a tomar a avenida na direção da Praia de Iracema, do Meireles, vazando pelo semáforo no vermelho, como é praxe em desoras. 
Suspenso, enfim sobre a cidade alva, em meio a um céu de liso azul, sem encalço de nuvem, o sol acendeu de vez o sábado, projetando as sombras da vasta mangueira sobre os pré-moldados do estacionamento. E empalideceu ainda mais o melancólico piscar do cacho de luzes natalinas dependurado nos caibros de metal.

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domingo, 5 de dezembro de 2010

A precisão de sempre: Bach

Art Chantry, 1986


J. S. Bach

Ontem à tarde, estudava um pouco uma das mais conhecidas peças de Bach para violão: a “Bourrée” em Mi Menor. Entre as poucas obras para violão erudito que tocava de cabeça, quando, de fato, tocava um pouco de violão. Faz tempo.


Como boa parte dos gêneros musicais, a bourrée era antes uma dança. E aí vem à mente um verso. De Creeley: "a música é a dança dos que não dançam".

Aliás, Bach compôs a "Bourrée" originalmente para alaúde – uma vez que a guitarra (apenas no Brasil a guitarra se chama “violão”; em Portugal e no resto das línguas ocidentais é “guitarra”) ainda não era um instrumento conhecido. Ou, no mínimo, suficientemente “respeitável”, "conceituado".

A transcrição, para violão, é igualmente em Mi Menor. Como o Mi Menor utiliza as mesmas notas da escala de Sol Maior – sua relativa maior, como se diz – há quem diga haver sido a “Bourrée” a inspiração para o “Blackbird”, de McCartney. Bastante provável.

Mas o que impressiona é, apesar se sua simplicidade, não haver uma única nota a menos. Ou a mais.

A precisão de sempre, do velho mestre de Leipzig. Mesmo numa peça didática, para iniciantes no instrumento. 

Dizem que a música de Bach é a ouvida pelo Altíssimo. Sendo que, quando o Todo Poderoso vai dormir, os anjos se divertem, por um pouco, com os maneirismos de Mozart.




P.S. --- uma boa interpretação, limpa, direta, simples, dessa peça pode ser ouvida aqui:


http://www.youtube.com/watch?v=jKSg8t4zyLg


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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Habitar por um pouco a casa, frequentar espaços desarticulados no tempo

Glenn Ligon, still de The Death of Tom, 2008


um conto
Unção

Havia domingos para se afastar do bando e caminhar sozinho. Na baixa-mar, descer do ancoradouro, de degraus roídos pela maresia, até a areia do rio. Driblando as pedras crestadas de ostras e cracas. E então, areia virar aluvião limoso; e, após, lama espessa, onde siris e caranguejos. Um lagosteiro passando no canal, com a popa repleta de manzuás na demanda da barra. A água verde-zinco do rio rebentando rala sobre a porção de espaço que cobrira algumas horas antes com trancos e respingos. E a tornaria a recobrir só umas horas depois. À margem de lá, as altas dunas alvíssimas. O mangue espesso – de folhas duras, crespas – cheio de meandros e sulcos. De réstias de luz sobre a água.
Ou então, tomar a rua lateral à estação e ir até a velha casa dos engenheiros, abandonada já aquela altura. A luz da recém-manhã envelopando as varandas da casa. E um fiapo de terral bulindo nos ramos do ficus. Joel deslizava tão silenciosamente como quando uma sombra desbota na calçada sob as nuvens brancas e grassas encobrindo, de passagem, o sol. Então ele escalava o muro. Seu desejo era habitar por um pouco a casa, que achava a mais bonita do mundo. Com seu porão. Seus telhados angulados. As esguias colunas de madeira sustentando o peso dos telhados nas varandas.
Tufos de silvas, ervas daninhas cresciam em brechas na ardósia do pequeno pátio. Entre elas, a que ao menor toque nos minúsculos ramos era bastante para ela se trancar inteira. Os pequenos ramos contraídos. Mas, antes, sempre se dizia: “Maria, fecha a porta que teu pai vem bebo”.
Os passos de Joel eram tão silenciosos que mesmo sobre o cascalho mal se faziam pressentir. Gostava de andar só. Desde muito cedo sentia essa necessidade de estar só por algum tempo. Só com o mundo. De frequentar esses espaços desarticulados no tempo, de galgar até a varanda da casa dos engenheiros da Estrada, à qual se chegava por uma pequena escadaria. Desaferrolhar o portão, de grades oxidadas; pisar os ladrilhos amarelos, vermelhos, ocres, formando padrões geométricos. E, de lá, contemplar os velhos armazéns repintados pelas chuvas e intempéries. Com riscos de lodo ressequido; e que pareciam provir de um tempo tão apartado, que ele não saberia diminuir. Ou somar.
Foi depois de um desses domingos à deriva, em que se desagregava dos demais para vagar sem rumo, por aí, que, voltando para casa, perguntou pelo pai. Fátima, a empregada, disse-lhe que seu pai estava na casa vizinha. A casa vizinha pertencia a velhas tias-avós. Era um sobrado antigo, com cheiro de mofo e ureia. De coisa velha. Com a impressão de haver uma pátina de pó sobre tudo. Desde a velha mesa na sala de jantar à absurda cômoda de espelhos tripartidos em um dos quartos passando por uma grande arca de tampo pesadíssimo, que se encontrava no sobrado. E tudo com seu tempo medido por um antigo relógio cuco.
Joel seguia pela calçada. A manhã ainda não passara seu meridiano e, agora, uma aragem forte, provinha do rio, encrespando seu cabelo.
A porta estava inusualmente aberta. O corredor era longo, cheio de sombras. À direita, conduzia à sala de jantar e à cozinha. À esquerda, aos quartos e aos altos. Joel tomou a esquerda, porquanto percebeu alguma movimentação em um dos quartos. O que se sucedia à escada que conduzia ao sobrado. À medida que se foi aproximando, seus passos instintivamente desaceleravam. Podia pressentir que algo extremamente pesado corria no ar. Algo ainda mais pesado que o tampo da enorme arca lá acima, no sobrado. Que o mover dos ponteiros no velho relógio cuco. Uma das bandas da porta estava aberta. E Joel, subindo em um degrau da escada e agarrando-se ao caixilho da porta, mirou o interior.
Viu o Monsenhor Inácio com suas meias roxas. O sacristão atrás dele, com uma cruz dourada. Ambos estavam vestidos com cerimônia, pompa. E o monsenhor de pé, ligeiramente vergado sobre a cabeceira da cama, com um tom de voz baixo, murmurava monotonamente algumas palavras diante de sua Tia Estela. Sua Tia Esther chorava. E sua Tia Júlia olhava a cena, um tanto mais afastada, com natural fixidez. Então, o monsenhor ungiu a testa de sua Tia Estela, cuja respiração entrecortava-se, como se um cansaço absoluto, irreversível a tivesse colhido.
O sol da bela manhã de maio adentrava o aposento pelas pequenas vidraças acima das venezianas fechadas. Um vago pregão corria na rua. Depois de alguns poucos minutos, um espesso silêncio caiu sobre o quarto, pontuado por um ou outro resfôlego de sua Tia Esther:
–Está tudo conforme, Monsenhor – disse sua Tia Júlia num tom seguro, assertivo. E dirigiu-se ao relógio cuco à parede, detendo os ponteiros. Depois cerrou os espelhos laterais da penteadeira de forma a vedarem o central. Fez isso com tanta naturalidade, que quase sugeriu um gesto rotineiro: acender o fogo sob o bule de café, lavar as mãos à bacia ou esvaziar um urinol. O sacerdote sacou a estola e num gesto largo, de braços, ensaiou algum conforto diante do pranto, agora convulsivo, de sua Tia Esther.
Mas nem um em cem avos dessa naturalidade de sua Tia Júlia percorria o corpo e o espírito de Joel. Sem nada dizer, ele pressentia que não teria palavras se tivesse de dizer. Aliás, de uma coisa sabia – enquanto seus irmãos brincavam ou jogavam bola – ele testemunhara aquilo, involuntariamente, como um clandestino. Ainda que elas fossem sua família. E o monsenhor aquele que proferia sermões inflamados sábado após sábado, ao fim das tardes.
Ele sabia que não haveria mais sombra para sua Tia Estela. Que a aragem que adentrava de leve o aposento, provinda do rio, através da saleta da frente, e movia-lhe de leve os cabelos grisalhos, sob a tintura aloirada não era mais sentida. Embora fosse o único movimento em seu corpo. Que ela se fechara, como a “Maria-fecha-a-porta”. Mas para não mais se abrir.
E, então, neste momento tudo ficou escuro. Uma mão sobretapou-lhe os olhos e o puxou de encontro a um corpo adulto.
Era seu pai.


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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vai me encontrar irritado, inquieto, mas não despreparado

Venetia Joubert, Intoxicating Whirlwind Kiss, 2009


Eu não teria uma embriagante satisfação


As entrevistas de Amos Oz, à granel, parecem menos interessantes que as de Le Clézio ou as de Auster. Centram-se muito em política. Recorrem demais sobre o conflito árabe-israelense. E também sobre ele dizer que a família é o que lhe interessa. Falar um pouco de escritores russos (Dostoiévski, Tolstoi, Tchekov – que parece ser seu favorito); os norte-americanos (Melville, Sherwood Anderson, Faulkner); além de ser fascinado pela figura e pelo pensamento de Espinosa. Mas há estas frases interessantes:

Of course I think of death. I wouldn’t have an intoxicated enjoyment of life if I didn’t think of death every day. I think of death, but even more I think of the dead. Thinking of the dead is preparing for one’s own death. Because those dead people exist only in my memory, my longing, my ability to reconstruct a bygone moment, almost a Proustian recapturing of precise gestures, which might have occurred fifty years ago. One day I spent hours quietly reconstructing a ten-minute episode of my childhood: a room with six people in it, and I am the only one still alive. Who was sitting where? Who was saying what? Then I thought, I’m keeping those people alive for as long as I can, in my heart, my head or my writing. If when I die someone will keep me alive in the same way, it will be a fair deal. […] I love life and enjoy it tremendously, but part of that enjoyment is that my life is populated with the dead as well as the living. If death arrived tonight, it would find me angry and unwilling, but not unprepared.

É claro que penso na morte. Eu não teria uma embriagante satisfação pela vida se não pensasse na morte a cada dia. Mais que pensar na morte, penso nos mortos. Pensar nos mortos é preparar-se para a própria morte. Porque os mortos existem apenas na memória, minha recordação, minha destreza em reconstruir um momento ido, quase uma recaptura proustiana dos gestos precisos, que podem ter se passado cinquenta anos atrás. Dia desses, gastei horas reconstruindo um episódio de dez minutos da minha infância: uma sala com seis pessoas nela, e sou o único ainda vivo. Quem estava sentado onde? Quem dizia o quê? Assim, acho que mantenho as pessoas vivas o máximo que posso em meu coração, minha mente, minha escrita. Se quando eu me for alguém me mantiver vivo do mesmo jeito, será uma troca justa. […] Eu adoro viver e desfruto disso tremendamente, mas parte desse prazer vem de que minha vida seja povoada tanto por mortos quanto por vivos. Se a morte chegar à noite, vai me encontrar irritado e inquieto, mas não despreparado.



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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cortando o livro ao meio

[s/i/c]


Para Quebrar de Vez

Para quebrar de uma vez com qualquer glamour que cerque a tarefa do escritor ou do tradutor, proponho o texto abaixo. Para indicar que essa tarefa é uma artesania. Que, além de certa inclinação natural, necessita de prática para nutrir-se. E, no entanto, seu aprendizado é lento, áspero, como em qualquer outra profissão nesta vida. As menos glamurizadas, mais braçais. Aliás, essas atividades, que exigem uma maior perfeição, em que a perícia da mão humana é decisiva – e não de gadgets eletrônicos – sempre me despertaram grande fascínio ou reverência. Mas vamos ao texto de Auster que versa sobre, digamos, o “vexame do tradutor”:



The next two years was an intensely busy time. Between March 1975, when I stopped working for Ex Libris, and June 1977, when my son was born, I came out with two more books of poetry, wrote several one-act plays, published sixteen or twenty critical pieces, and translated half a dozen books with my wife, Lydia Davis. These translations were our primary source of income, and we worked together as a team, earning so many dollars per thousand words and taking whatever jobs we were offered. Except by one book by Sartre (Life/Situations, a collection of essays and interviews), the books the publishers gave us were dull, undistinguished works that ranged in quality from not very good to downright bad. The money was bad as well, and even though our rate kept increasing from book to book, if you broke down what we did on an hourly basis, we were scarcely a penny or two ahead of the minimum wage. The key was to work fast, to crank out the translations as quickly as we could ans never stopped for breath. There are surely more inspired ways to make a living, but Lydia and I tackled these job with great discipline. A publisher would hand us a book, we would split the work in two (literally tearing the book in half if we had only one copy), and set a daily quota for ourselves. Nothing was aloud to interfere with that number. So many pages had to be done every day, and every day, whether we felt in the mood or not, we sat down and did them. Flipping hamburgers would have been just as lucrative, but at least we were free, or at least we thought we were free, and I never felt any regrets about having left my job. For better or worse, that was how I chose to live. Between translating for money and writing for myself, there was rarely a moment during those years when I wasn't sitting at my desk, putting words in a piece of paper.

[Paul Auster, Hand to Mouth – A chronicle of early failure ps. 100-101, Copyright © 1997, Paul Auster // Henry Holt and Company, New York]


Os próximos dois anos foram um tempo intensamente atarefado. Entre março de 1975, quando deixei de trabalhar para a Ex Libris, e junho de 1977, quando nasceu meu filho, finalizei dois livros de poemas, escrevi várias peças de um ato, publiquei dezesseis a vinte textos de crítica, e traduzi meia-dúzia de livros, com a ajuda de minha mulher, Lydia Davis. Estas traduções eram a nossa primeira fonte de renda, e trabalhávamos juntos como uma equipe, ganhando uns tantos dólares por mil palavras e aceitando qualquer tipo de trabalho que nos era oferecido. À exceção de um livro de Sartre (Vida/ Situações, uma coletânea de ensaios e entrevistas), os livros que os editores nos passavam eram maçantes, obras indistintas que variavam entre não tão boas a francamente ruins. O dinheiro também era ruim, e mesmo que nosso estipêndio fosse crescendo livro a livro, se calculássemos em termos do que fazíamos à base de horas diárias, escassamente faturávamos um ou dois centavos a mais que o salário mínimo. O segredo estava em trabalhar ligeiro, engrenar as traduções tão rápido quanto possível e nunca parar para respirar. Há por certo modos mais inspiradores de ganhar a vida, mas Lydia e eu enfrentávamos essas empreitas com grande disciplina. Um editor iria nos repassar um livro, e dividiríamos o livro em dois (literamente, cortando o livro ao meio se dispuséssemos de um só exemplar), e estabelecíamos uma cota diária para ambos. A nada era permitido interferir com essa cota. Assim que tantas páginas tinham de ser vertidas a cada dia, e, a cada dia, não importa o estado de espírito em que estivéssemos, nos sentávamos e as concluíamos. Virar hambúrgueres na chapa seria tão lucrativo quanto, mas ao menos éramos livres, ou pensávamos que éramos, e eu não sentia nenhum arrependimento de haver deixado meu emprego. Para bem ou para mal, era como eu optara por viver. Entre traduzir por dinheiro e escrever para mim mesmo, raro era haver um instante naqueles anos em que eu não estivesse sentado à escrivaninha, pondo palvras num pedaço de papel.



CODA

Posteriormente uma bolsa da Ingram Merrill Foundation veio aliviar a situação de Auster. A concessão da bolsa foi saudada com tamanho desafogo, que ele nos inteira: “the money was so unexpected, so enormous in its ramifications that I felt as if an angel had dropped down from the sky and kissed me on the forehead. [“o dinheiro era tão inesperado, tão generoso em suas ramificações que senti como se um anjo tivesse descido do céu e beijado minha testa”.]

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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Uma 'plantation' e duzentos escravos: O'Connor

Luther King sendo preso em Montgomery, Alabama, 1958 [Image by © Bettmann/CORBIS]



Tudo Que Ascende Deve Convergir


Ainda Prosa.

No pequeno inventário em prosa, de postagens recentes por aqui, entre os quais foram citados (e, por vezes traduzidos, em pequenas amostras) Isaac Bashevis Singer, J. D. Salinger, Richard Yates, James Salter, Amos Oz, Paul Auster, J.M.G. Le Clézio e David Foster Wallace – para não falar em Hemingway e F. Scott Fitzgerald – houve um nome ausente, e que nos é caro: Flannery O'Connor. Para mais sobre essa admirável prosadora do Sul dos Estados Unidos, clique AQUI. Entre as melhores destrezas acháveis em O'Connor: a desenvoltura com que ela ata os diálogos à ambiência. E de um modo tão natural que... só pode ser algo americano, no sentido mais lato. No sentido que um Lezama Lima chama de a “expressão americana”.

Abaixo, segue um pequeno extrato de um de seus contos mais amplamente conhecidos: “Everything That Rises Must Converge” [“Tudo Que Ascende Deve Convergir”, que, de resto, nomeia seu segundo volume de contos]:


CONTEXTO: Um jovem recém-formado, aspirante a escritor, acompanha sua mãe até uma terapia onde senhoras de meia-idade, com sobrepeso, esperam perder alguns quilos. No início do excerto, mãe e filho seguem à parada do ônibus que os conduzirá ao centro da cidade:


'I see we have the bus'

“They don't give a damn for your graciousness,” Julian said savagely. “Knowing who you are is good for one generation only. You haven't the foggiest idea where you stand now or who you are.”
She stopped and allowed her eyes to flash at him. “I most certainly do know who I am,” she said, “and if you don't know who you are, I'm ashamed of you.”
“Oh hell,” Julian said.
“Your great-grandfather was a former governor of this state”, she said. “Your grandfather was a prosperous landowner. Your grandmother was a Godhigh.”
“Will you look around you,” he said tensely, “and see where you are now?” and he swept his arm jerkily out to indicate the neighborhood, which the growing darkness at least made less dingy.
“You remain what you are,” she said, “your great-grandfather had a plantation and two hundred slaves.”
“There are no more slaves,” he said irritably.
“They were better off, when they were”, she said.
[…]
They had reached the bus stop. There was no bus in sight and Julian, his hands still jammed in his pockets and his head thrust forward, scowled down the empty street. The presence of his mother was borne in upon him as she gave a pained sight. He looked at her bleakly. She was holding herself very erect under the preposterous hat, wearing it like a banner of her imaginary dignity. There was in him an evil urge to break her spirit. He suddenly unloosened his tie and pulled it off and put it in his pocket.
[…]
The lighted bus appeared on top of the next hill.
[…]
His mother immediately began a general conversation meant to attract anyone who felt like talking. “Can it get any hotter?” she said and removed from her purse a folding fan, black with a Japanese scene on it, which she begins to flutter before her.
“I reckon it might could,” the woman with protruding teeth said, “but I know for a fact my apartment couldn't get no hotter.”
“It must get the afternoon sun,” his mother said. She sat forward and looked up and down the bus. It was half filled. Everybody was white. “I see we have the bus to ourselves,” she said. Julian cringed.
“For a change,” said the woman across the aisle, the owner of the red and white sandals. “I come on one the other day and they were thick as fleas—up front and all through.”
[...]

[Flannery O'Connor, in Everything That Rises Must Converge, Copyright © Farrar Straus and Giroux, New York, s/d]



'Vejo que o ônibus é nosso'

“Eles estão se lixando para sua dignidade”, Julian disse ferozmente. “Saber de si é bom só por uma geração. Não se tem a mais nebulosa ideia de onde se está ou quem se é”.
Ela se deteve e deixou o olhar faiscar sobre ele. “Tenho plena certeza de quem sou”, disse, “e se você não sabe quem é, tenho vergonha de você".
“Ah, inferno”, Julian disse.
“Seu bisavô foi ex-governador deste estado”, ela disse. "Seu avô foi um próspero latifundiário. Sua avó foi uma Godhigh”.
“Olhe em torno de si”, ele disse nervosamente, “será que você sabe onde está agora?” e espanou o ar com uma guinada de braço para indicar o bairro, que a escuridão crescente tornava menos sórdido.
“A gente não deixa de ser o que é”, ela disse. “Seu bisavô tinha uma plantation e duzentos escravos”.
“Não há mais escravos”, disse ele irritado.
“Eles bem que estavam melhores como eram antes”, ela disse.
[…]
Chegaram à parada do ônibus. Não havia ônibus à vista e Julian, com as mãos comprimidas nos bolsos e a cabeça lançada adiante, perscrutava carrancudo a rua vazia. A presença de sua mãe o sobrecarregava no que ela emitia o mínimo sinal. Ele a observava lúrido. Ela se mantinha bem aprumada sob o despropositado chapéu, envergando-o como um estandarte de sua pretensa dignidade. Seguia com ele uma terrível urgência em despedaçar o espírito dela. Súbito, afrouxou a gravata, tirou-a e pôs no bolso.
[…]
O ônibus aceso assomou ao topo da colina.
[…]
Sua mãe imediatamente desandou a falar generalidades destinadas a chamar a atenção de quem quisesse conversar. “Será possível ficar mais quente?” ela disse e retirou de sua bolsa um leque, escuro, com um cenário japonês, que começou a agitar diante de si.
“Tenho pra mim que sim”, disse a mulher dentuça, “mas tenho certeza que meu apartamento mais quente não fica”.
“Deve pegar o sol da tarde”, disse a mãe dele. Ela sentou á borda do banco e observou o ônibus. Estava ocupado à metade. Todos eram brancos. “Vejo que o ônibus é nosso”, ela disse. Julian encolheu-se.
“Uma vez na vida”, disse a mulher do outro lado do corredor, a de sandálias alvi-rubras. “Outro dia eu peguei um em que eles vinham amontoados como pulgas—na dianteira e por todo lado”.
[...]

* * *

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Isso já ocorreu uma vez

Alfredo Camisa, s/d


A Filosofia da Fotografia e a Miopia de Esquerda

A esquerda brasileira causou muito prejuízo à inteligência do país por imbecilidade. Redução, patrulha. Entre os lesados por esse sinistro controle (semelhante ao fascista), de podar modos de viver e pensar em desconforme com a cartilha da esquerda, se encontra Vilém Flusser.

Flusser que, hoje, é muito mais conceituado internacionalmente, como teórico, que, digamos, Haroldo de Campos ou Alfredo Bosi ou Florestan Fernandes. E cuja visão da fotografia e dos processos eletrônicos apenas começa a ser mais debatida e divulgada.

Em sua teoria da fotografia [Towards a philosophy of photography] Flusser, já na abertura, propõe dois divisores de água na cultura humana: a descoberta da escrita linear e a invenção da imagem técnica.

Flusser também dispõe a fotografia como uma superfície que contem uma abstração. Algo que não está ali, agora. E, portanto, para ser captada em todas suas dimensões necessita de um olhar que, ao invés de jogar sobre ela um relance, a escaneie. Em seguida Flusser, de um modo quase ingênuo tenta separar os domínios da fotografia dos domínios da história sob o argumento de que na história tudo é irrepetível – como se mesmo uma cópia de uma foto pudesse ser inteiramente igual ou idêntica à outra, ainda que reproduzida eletronicamente.

Já a fotografia estaria nos domínios da magia. Isso porque as imagens, que no princípio eram mediações entre o ser humano e o mundo, mapeando-o para nós, converteram-se, desde que renunciamos à decodificá-las, em mais um elemento opaco, a que ele chama de idolatria. Ou seja, a projeção de imagens ainda “codificadas”. E desde que o homem se sente inepto a decodificá-las, ele tende a idolatrá-las em recalque.

Flusser alerta, no entanto, que isso já ocorreu uma vez na história da humanidade. Essa rebelião contra a imagem. E que foi justamente essa sublevação o que propiciou o surgimento da escrita linear.

As teorias de Flusser por mais excitantes que sejam - e elas o são - devem ser vistas com serenidade. Com sobriedade. Nem exaltadas, nem condenadas em bloco – por exemplo, por usarem termos bastante datados – ou no mínimo discutíveis – como “alienação”.

O certo é que Flusser caiu na voga de momento. Há teses que o comparam ao Radiohead. E os que escrevem melhor sobre ele, esquadrinhando a riqueza de suas sugestões, o fazem ao largo da feira pós-moderna em que se converteu sua teoria para o repasto acadêmico enquanto moda.

Em sua biografia, no entanto, fácil perceber que Flusser foi desligado da USP não pelo regime militar, mas pelos aparelhos de esquerda, que o viam sob suspeita. Pelos intelectuais da Universidade de São Paulo, que cartorialmente exigiram, deste que é um dos maiores teóricos da fotografia, desde Benjamin, uma titulação formal que ele não possuía – como se fosse impossível ministrar aulas em uma instituição de ensino superior por notório saber.


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domingo, 28 de novembro de 2010

Eu acredito no mar

Kurt Schwitters, Drawing A2: Hansi, 1918



Acreditar

Você acredita em duendes? Acredita em celebridades? Acredita em políticos? Acredita em sucesso? Acredita em tecnologia? Acredita em Jean Baudrillard? Você acredita em comunicação? Acredita que sua artesania sairá melhor feita num MaC que num PC? Acredita no BOPE? Acredita em estados alterados de percepção?

Eu acredito no mar. Em tomar um sorvete de tapioca no Juarez, e dar uma volta no quarteirão.

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Let's write something, let's sing

[s/i/c]




Três Truísmos

I.

É simples. Quer escrever ficção? Leia ficção. Quer escrever poesia? Leia poesia, escute música. Quer escrever ensaios, crítica? Leia poesia, ficção, história, um pouco de filosofia, estética, etnologia... Quer traduzir? 

Leia um pouco de tudo. Leia até fotonovelas, se elas ainda existirem.

Mas antes.

Antes, é preciso viver.

É preciso viver com intensidade. E saber que a vida tem um fim. Não há qualquer possibilidade de se viver intensamente sem pensar na morte.

II.

Se há sensações que são inalcançáveis pelas palavras? A vasta maioria delas. Porém a palavra, com todas suas limitações, é a porta no muro por onde se pode partilhar sensações. E arte se faz desse partilhamento – o que passa longe de dizer comunicação. A música, mesmo composta de sons inarticulados em sílabas, sugere frases: uma sintaxe. Pode-se adivinhar palavras por trás de sons, timbres, tons, dinâmicas, contrapontos, crescendos... Quase o mesmo se pode dizer da pintura.

III.

No Ocidente, grosso modo, os músicos e os filósofos falam alemão; os pintores são flamengos; os escritores (e a música pop), britânica; Cervantes e o sentimento do trágico, espanhol; o espírito do romance, provençal e italiano; a raiz do ensaio, com Montaigne, francês; o sentimento do épico e o excedente de perda (via sebastianismo), paradoxalmente, português. E quanto às Américas? As Américas são o liquidificador que processa tudo isso com extrema versatilidade. É o local em que, não por mitos de bons selvagens, mas pela proximidade de uma natureza menos domada pelo homem – assim como por uma maior mestiçagem – a literatura canta ao invés de soletrar. A América aponta para a concretude. O mundo existe mais por aqui. É menos uma solipsia. Uma invenção da mente. Uma metafísica.

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