domingo, 28 de novembro de 2010

Let's write something, let's sing

[s/i/c]




Três Truísmos

I.

É simples. Quer escrever ficção? Leia ficção. Quer escrever poesia? Leia poesia, escute música. Quer escrever ensaios, crítica? Leia poesia, ficção, história, um pouco de filosofia, estética, etnologia... Quer traduzir? 

Leia um pouco de tudo. Leia até fotonovelas, se elas ainda existirem.

Mas antes.

Antes, é preciso viver.

É preciso viver com intensidade. E saber que a vida tem um fim. Não há qualquer possibilidade de se viver intensamente sem pensar na morte.

II.

Se há sensações que são inalcançáveis pelas palavras? A vasta maioria delas. Porém a palavra, com todas suas limitações, é a porta no muro por onde se pode partilhar sensações. E arte se faz desse partilhamento – o que passa longe de dizer comunicação. A música, mesmo composta de sons inarticulados em sílabas, sugere frases: uma sintaxe. Pode-se adivinhar palavras por trás de sons, timbres, tons, dinâmicas, contrapontos, crescendos... Quase o mesmo se pode dizer da pintura.

III.

No Ocidente, grosso modo, os músicos e os filósofos falam alemão; os pintores são flamengos; os escritores (e a música pop), britânica; Cervantes e o sentimento do trágico, espanhol; o espírito do romance, provençal e italiano; a raiz do ensaio, com Montaigne, francês; o sentimento do épico e o excedente de perda (via sebastianismo), paradoxalmente, português. E quanto às Américas? As Américas são o liquidificador que processa tudo isso com extrema versatilidade. É o local em que, não por mitos de bons selvagens, mas pela proximidade de uma natureza menos domada pelo homem – assim como por uma maior mestiçagem – a literatura canta ao invés de soletrar. A América aponta para a concretude. O mundo existe mais por aqui. É menos uma solipsia. Uma invenção da mente. Uma metafísica.

* * * 

sábado, 27 de novembro de 2010

Mar é um afrodisíaco para perdões imediatos

John Singer Sargent, The Derelict, c. 1876



um conto
Ensaio Sobre as Águas


Quem os levou foi Leandro. Como piloto da canoa, o filho de Ivan, revelou-se afoito. O inverso do pai, que as fazia; e era de medir palavras. Talvez, ademais, por certa tartamudez não infrequente entre os pescadores de Bitupitá. Mas a leviandade de Leandro andava bem à medida de seus dezessete. Tirou finas em mourões, para exibir o quanto detinha o manejo da embarcação. Porém, ao arriscar uma manobra mais ousada, abalroou a proa contra a tela de um curral. O proprietário, que se encontrava próximo, em outra canoa, bem mais robusta que a guiada por Leandro, esbravejou feio. Mas logo a contrariedade dissipou-se.

E, então, todos foram convocados por ele, aos gritos, largos gestos, para peixe grelhado e cerveja. Logo estavam na água, dando braçadas que suprissem os sessenta ou setenta metros entre as duas embarcações. Joel foi o primeiro a chegar. E soergueu-se sozinho. Flávia veio em seguida. Joel ajudou-a a subir. Milena e Álvaro chegaram na sequência. E, por último, pois haviam mergulhado um tanto depois de seus passageiros, Leandro e outro garoto, que lhe ajudava ao cabo, na condução do barco. Função a que eles chamam de “cabeiro”, e que envolve, entre outras fainas, a de aspergir a vela com água do mar, colhida em uma cabaça.

Todo o time de despesca do curral usava um uniforme laranja, de mangas compridas, chapéus de palha à cabeça, presos ao queixo por cordames de tucum. O proprietário, Antônio José, sentado à popa, era auditor fiscal, e revelou-se bom anfitrião. Sem chapéu, cofiava vasto bigode grisalho; e brincou mais de uma vez com a desastrada manobra de Leandro, a quem se referia como “Ivanzinho”:

O Ivanzinho ainda não mediu os costados da barca? Se o Ivan soubesse das estrepolias desse menino… sei não…

À certa altura, Leandro sentiu os brios, amuou-se um tanto. Mas logo estavam todos comendo um serra fresquinho, recém retirado do mar e bebendo cerveja. Milena preferiu soda. Também provaram de uma zambaia, que impressionava mais pela extensão esguia do corpo, alvíssima carne, quase azulada, que pelo sabor. Em dado momento, as postas de peixe, depois de fritas, eram largadas sobre as tábuas do banco de popa. E Seu Antônio José não perdia vez:

Podem comer sem susto. Isso aqui é mais limpo do que os pratos da Toinha!

Ele realmente tirara aquele fim de manhã para ironizar um tanto com o atabalhoado jovem timoneiro. A mãe de Leandro, Toinha, era proprietária de uma pequena barraca na praia, onde preparava algum quitute. Mas, então, ao banco de popa, havia também uma travessa com farofa. E, após fritas, quem o desejasse podia polvilhar as postas na farofa antes de degustá-las. É provável que Joel e os outros jamais houvessem provado peixe mais aprilino.

Joel restou à popa, com Flávia, em alguma conversa com Seu Antônio José. Álvaro e Milena seguiram mais à proa, retrocederam; e, por fim, acabaram de pé, equilibrando-se sobre o banco de vela, agarrando-se de um flanco e de outro, ao mastro bem fincado sobre a carlinga. Foi quando, de fato, começou a “despesca-grande” do curral – como eles chamam – após findarem meticulosa limpeza da extensa rede.

E então a rede, com sua trama de fios azuis, foi sendo alçada à canoa ao empuxo concentrado de quase todo grupo, enquanto três deles faziam lastro, escorados no flanco oposto. Seus pés coincidindo com os ressaltos no cavernamento. E o ritmo do arrasto da rede era ditado por comandos de voz, e roçavam um canto. Dezenas de peixes eram tão pequenos que coavam-se pelo náilon das malhas, e as escamas soltas na água emprestavam-lhes um efeito fosforescente à medida que a pressão sobre os outros peixes, maiores, crescia; e a rede entumescida roçava o verdume da canoa.

E logo que a rede subiu mais à tona, Joel pode divisar que ali vinha um peixe de dimensões excepcionais. Pois, então, toda a rede vibrava em espasmos de uma formidável violência. Verdadeiros trancos. Algo grande debatia-se ali pela própria vida.

Joel não estava errado. Tratava-se de um enorme cação-lixa de cerca de dois metros e um quarto. Seu Antônio José lhe dissera que, inicialmente, supusera uma aruanã.

Os pequenos peixes prateados continuavam a vazar pelas malhas. E o rastro fosforescente das escamas luzia mais intensamente sobre o verde das águas. Flávia, que estava bem à frente de Joel, este encostado ao banco de popa, escorou-se nele. E ele sentiu um vaga de calor subindo pela coluna. E fortemente excitado pelo volume das formas dela, deslizou a mão pela cintura da mulher. Por ser alvejado, de leve, nas faces, pelos cabelos dela, molhados por aquela água salífera, restos de maresia na alva pele dela, afagada por sua mão, sentiu um imediato, ardente desejo de possuí-la. Ali. Naquele instante. O short branco úmido, colado e translúcido revelando-lhe a minúscula parte de baixo do biquine, o bem torneado das pernas:

Será que a canoa pode com o peso desse bicho? – ela perguntou – com travo excitado na voz. Não por receio, mas em admiração, porque nunca havia visto peixe maior que aquele, vivo, debatendo-se, bem diante de si.

Fique tranquila – Joel disse – eles sabem o que fazem.

No meio do cardume, do amontoado de espécimes diversas, o grande tubarão debatia-se com vigor. Foi dificultoso subir com a rede para dentro. A borda da canoa a inclinar-se tão próxima à face da água que eles viam a hora de, em caso de uma onda mais robusta, um jato borrifar-se para o cavername da embarcação. Mas isso não aconteceu. Ainda assim Flávia inclinara-se inteira para o lado contrário, em lastro. E Joel acariciou-lhe o pescoço e os ombros.

O faz por instinto, pensou. Coragem não lhe falta. Nem o dizer a verdade. E nem beleza. Simples exercícios matinais, alguma natação ajudavam a manter o corpo dela em plena forma.

E enquanto o time de despesca desdobrava-se na faina de passar para dentro da canoa a rede com o enorme cação, Joel deu de lembrar de como haviam feito amor, na noite anterior. Ela, então, preferira um modo gentil, lento. Fixando-o nos olhos. Ele adivinhando, podendo ler o prazer dela sobretudo na contração de seus lábios. Tremiam. Repuxavam-se. Convulsionavam-se. Retesavam-se ou distendiam. Como molduras do que sentia. Desenhavam estranhas formas. Mapas. E quando chegavam próximos a mascar uma goma inexistente, enchiam-se de saliva. Era o sinal. Ela iria gozar. Como quase sempre, sem espalhafato ou grandes urros. Mas por um gemido apertado, doce de ouvir.

Porém, então, o sol caía em placa sobre eles. E ele, às costas dela, podia entrever-lhe o perfil iluminado por sucessivos e diferentes matizes de reflexos do sol no lombo das ondas.

Uma vez lançado sobre as cavernas, o enorme cação bufava feito um touro. Emitindo esse estanho ruído pelas brânquias que vibravam intensamente. Até que um dos tripulantes enfiou o dedo em seu minúsculo olho lateral e, com um cacete, encheu-lhe de pauladas na parte de cima da cabeça. E o matou. Nessa hora, Flávia e Milena desviaram o olhar. Álvaro fixava a cena fascinado, desde o banco da vela, do qual Milena havia descido:

Ah uma máquina! – haviam trazido uma câmera. Uma Cannon de boa resolução. Mas a câmera havia ficado na outra canoa. Teria sido impossível trazê-la a nado.

Morto o bicho, nenhum fio de sangue saía de seu enorme corpo, para onde convergiam todos os olhares. Até um polvo de dimensões razoáveis, ao lado de pequenos cardumes de sardinhas e dos samburás dos pescadores, não parecia mais que um coadjuvante perto daquele Leviatã.

Vocês me deram sorte – disse seu Antônio José – esse bicho é dos maiores que já caiu na rede nos últimos tempos – tomou um gole de cerveja, ao modo de brinde, em aberta comemoração.

Depois, Flávia fez questão de tocar a pele áspera do cação. E foi hora de Joel pensar:

Ah, uma máquina!

Mas quando Flávia brincou de arremessar uma pequena sardinha para dentro da boca do bicho, quase pondo os dedos ao alcance da mandíbula do tubarão, um pescador a advertiu que nisso algum risco havia:

Pruquê pode inda tê um ‘restim’, um fiapo de vida nele, né, dona? A ‘rente’ nunca sabe…

Num gesto brusco e automático Flávia afastou a mão. O sol do meio-dia lacerava. E não é preciso dizer com que destreza eles voltaram nadando para a outra canoa, após despedirem-se. A imaginar imensos cações-lixa como aquele, nadando sob seus corpos. Porém Joel e Flávia nadavam em reguladas, bem ritmadas braçadas. E, quando o amigo de Leandro tratava de soerguer Álvaro, desta feita o último a chegar, utilizando-se do cabo de vela, ainda teve tempo de gracejar:

Mas que merozinho mais pesado! – em referência ao porte físico um tanto rotundo do outro.

Na volta, Leandro ainda cometeu segunda imprudência. Ao tentar costear de fininho a amurada de um curral, acabou involuntariamente fisgando, com o leme, o cabo de âncora de uma outra canoa e rebocando-a a toda velocidade. Seu amigo, arriscadamente, pulou n’água para desenredar o cabo do timão, no que a proa da outra canoa achegava-se perigosamente, não só pela tração da canoa em que eles estavam, como também movida aos insultos de seu ocupante, que, até então, pescava tranquilamente, de linha, acompanhado de uma filha pequena.

Desfeito o bizarro enleio, o outro falou com Leandro como se nada houvesse acontecido. E até lhe perguntou se certa partida de madeira já havia chegado ao barracão de Ivan. O mar é um afrodisíaco para perdões imediatos.

Logo estavam na praia. Sentados em rústicas cadeiras de armar, na barraca de Toinha, tomando água de côco:

Ah, ainda bem que eles vão trazer o cação para praia – disse Milena, que estava ansiosa pelas fotos.


Mas Joel não a escutava. Apenas fixava o reflexo do sol no lombo das ondas.


O vento tépido vergava as palmas do vasto coqueiral. Todos os trapiches, barracas e o precário casario que  fronteava o mar assemelhava uma pauapiqueira que não tinha mais fim: a linha branca dos currais a seguir até o perder de vista, ao longo do mar. As densas marés que lambiam a praia antecipavam um mar alto revolto, traiçoeiro. Uma costa que desde os tempos da colonização tantos naufrágios acumulara. Especialmente quando se demandavam as enseadas cearenses provindo do Maranhão, do Grão-Pará. E era mais fácil, pelas correntes marinhas ser tranpolinado para o Caribe, ir até a Europa e retornar. Além disso, a cabotagem ao largo da costa maranhense seguia desviando-se de arrecifes. Em um desses naufrágios,  aos 41 anos, morrera Gonçalves Dias. Uma ironia, que um poeta que haja falado em terras e palmeiras, haja morrido no mar. 


Ao fim da tarde, a espessura do enorme tubarão descansava sobre a areia da praia.




* * *

Porém onde eles não tinham sido quebrados

L.S. Lowry, Street Scene, Southport, s/d


Que é mais ou menos como cada um de nós faz

Cheia de nove horas às nove horas, ela estava com dor de cabeça. Sua cabeça de vento parecia ser uma das cadas cabeças que tinham uma sentença. Mas, como não há árvore que o vento não tenha sacudido, era uma sentença longa demais para caber na cada cabeça dela, mesmo que um jarro trincado – como estava sua cada cabeça – alguma coisa recorda. E, então ela procurava os cacos desse jarro. Porém onde eles não tinham sido quebrados, que é mais ou menos como cada um de nós faz sem se dar conta. Pois quem conta com a panela alheia costuma ficar sem ceia. E cheia de nove horas às nove horas e cinco minutos, ela tomou as Aspirinas; a pensar que há um limite, uma medida para vida. E sua cada cabeça pensou na morte.

Mas logo esqueceu. Que é mais ou menos como cada um de nós faz. 


* * *

Long ago

L.S. Lowry, Portrait of Ann, 1957

.                                   
depois de
tirar, quilo a
quilo, todo
ódio das
sacolas
seu coração e
o meu saem
das gaiolas


* * *

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A imagem imóvel da eternidade


Jean Vigo, A propos de Nice, 1930


Fragmento sobre tempo e cinema

E se disséssemos que o cinema “é a imagem imóvel da eternidade”? Isso seria reduzi-lo à fotografia? Seria forçar sua coincidência com a famosa fórmula do tempo em Platão?

Não. O melhor cinema é imóvel. Quer dizer, visa a imobilidade em tendência. Assim como a melhor escritura tende para o silêncio. Assim como as melhores fotos – mesmo as, digamos, de uma natureza morta – dispõem-se para o movimento: indicam-no.


CODA

Pode-se pensar em George Oppen: " eu veria o que a folha da grama veria, se tivesse olhos". Ou J.M.G. Le Clézio: "a realidade da matéria, vista segundo suas mentiras pelos olhos de um mono. Vista pelos olhos de um polvo. Vista pelos olhos das ervas e dos gafanhotos. Pelas anêmonas do mar. Pelos pepinos-do-mar. Pelas baratas. Pelas folhas de gerânio [...] O que é morto, é. O que é vivo, o que é animado ou imóvel, é. E o que não é mais, é ainda". O cinema, como movimento [movie=moverzinho em inglês] tende à imobilidade, ao still. A fotografia, imóvel, tende ao movimento. 


Mas onde está mesmo Zenão?


* * *

Chegam a latir para os impunes pedestres

Dieter Roth, Rörelse I Konsten [detalhe], 1961



À Prova



Fortaleza é uma cidade à prova de civilização.

Daí vêm algumas de suas riquezas. E também o que há de mais nefasto.

O que há de mais nefasto vai e volta em suas ruas sobre quatro e duas rodas. E chega a latir para os pedestres que passam tão impunemente pelas calçadas, quase submersas pelos sucessivos recapeamentos do asfalto.


*   *   *

Mas o grito amassa-se entre

John Chamberlain, Automobile parts and other metal [detail], 1960




À Letra


Um grito vem da rua
como uma lixa, excerto

E passa sobre o tampo
da mesa com o livro aberto

Nenhum grito na página
resvala para o cesto

Mas o grito se amassa
entre a mão e o texto


* * *

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Over Wols

Wols, Ohne Titel,  c. 1945

Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze), Oui, oui, oui, 1947



Een kleine nota

.                                      "Maar zolang er sterren boven je zijn"

O que ressalta no informalismo do pós-guerra é atualidade mutilada do corpo. 
Isso nos Estados Unidos deságua em expressionismo abstrato. Em pintura gestual sob o impulso de jazz. Em Jackson Pollock. 
Na outra banda do Atlântico Norte isso vai dar no tachismo. Em um abstrato lírico, um tanto sortido – mas pouco geométrico, em geral. Uma espécie de anti-cubismo. Que pode, por exemplo sugerir entidades proto-fecundadas que são simultaneamente de dois reinos: vegetal e animal: como em Wols. Como se em Wols, às vezes, houvesse uma mirada pela lente de um microscópio.
Close-ups são rudes”, nos sugere Auden.
Wols, que além de pintor era excelente fotógrafo, sabia disso. E em alguns de seus quadros há tanta proximidade do objeto que parece poro, que parece célula, que parece bactéria. Escama. Bulbo. Ruga. Estria. Gema. Alga. Verruga. Bráctea. Fibra. Limo. Lâmina epidêrmica. 
Wols viveu a guerra na pele: exílio e campo de prisioneiros. Firmou essa paisagem de exílio.  Só que de tão perto, que chega a abismar. Depois de abandonar uma graduação em etnologia e passar pela Bauhaus, por sugestão de Moholy-Nagy,  buscou na França, ainda livre, um alívio, quase autista, em seus desenhos, aquarelas e águas-fortes povoados de micro-talhes, semelhando entes biológicos. Ou enleados de pelos, pentelhos, grandes vaginas sem o plástico amparo das pernas. Ou então ramas. Algas. Ou então amêijoas. Ou cracas. Ou moluscos não classificados por Lineu. Ou.
Wols, como Benjamin, esteve em Ibiza e no sul da França. Tinha múltiplos interesses: fotografia, cinema, pintura e era também músico. Em sua foto mais famosa surge um coelho esfolado.
Descobri Wols por meio de Antônio Bandeira, de quem foi amigo. Pesquisando sobre Bandeira. Todavia, Wols assoma menos geométrico que Bandeira. Morreu, no entanto, ainda mais jovem, aos 37 anos. De infecção alimentar dizem uns. De alcoolismo, segundo outros.
Wols concretiza não o objeto, mas a imagem sonhada que inexistia [desse objeto]. Há qualquer coisa de muito intuitivo. De muito profundo, direto. Simples.
Algo que avessa em sentir a hora de pensar. Que ao mesmo tempo que convoca o olho, convoca a mão. Que ao convidar a mão, convida o nariz. Que ao solicitar o nariz, solicita o ouvido. Que ao chamar o ouvido, chama o sexo. Que.
Faz os sentidos alternarem-se por turnos.
E de algum modo misterioso ele, que era alemão, parece mais perto da tradição dos grandes pintores flamengos.


* * *



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

E suas quantas margens

Wols, circa 1947


Houve

Ouve a ponta do teu suspiro e a respeito do que ele é suspirado. Dança toda a tarde, mesmo parado. Ouve os sons que um dia te trouxeram um pouco de calma. Mesmo fremitando-te o corpo, as tripas. E principalmente por isto. Houve um tempo em que tudo era ritmo. Em que a possibilidade era larga e a idade curta. Houve a ignorância de poder criar sem tanta amarra. Houve um gosto de lua. De luz de sol, quando sol nem havia saído direito, de manhãzinha. Houve uma série de apostas. Uma série de atrativos. Outras tantas propostas. Houve a curiosa dispersão da criança. Houve o rio e suas quantas margens. Houve as dunas, os mangues. O oboé tocado pelos dedos de quem te quis bem. Houve os seixos no leito do rio, quando a água era transluzida por chuvas. E houve o desejo de escrever como um destrinçar semelhante a essa transparência. Houve um excesso de projetos para um mínimo de contundências. Houve uma pletora de horas gastas a pensar em afetos. E não em afetivar. Houve um calendário de inércias. De volta ao fio da palavra, houve uma margem que arrastas-te para dentro – como fosse obrigação dos outros, adivinhar! Houve o desprezo dito em hora de desfastio. Houve o tanto de sofrimento que causaste a ti e aos outros. Houve a nódoa de café na camisa que era tua preferida. Houve a soma de todos os olhares que te visaram. E não entendeste que aqueles eram a fração axial de teu olhar mesmo. Houve os gestos de bondade que amassaste com a mão e jogaste no cesto, sem se dar conta. E a louca folia de comprazer os zelos mais imediatos, com palavras agressivas, atos. Houve uma ourivesaria de estesias que enxergaste em rostos alheios e, como folha de caderno espiral, as foste destacando a cada rodeio, pois teu medo era muito mais recheio. Houve os momentos de seres adulado. Mimado. E de não discernir entre o agasalho do afeto e a dissimulação; suas furtividades, hienas. Houve tuas insônias e dentro dela muito poucos poemas. E, melhor que poemas: recreio, riso. Houve apegos enliços e mal medidos. E desapegos equívocos. Ouve as coisas como se tuas mãos pudessem tocar o sacrário delas. Ouve o mundo. E a fadiga em teus olhos.


* * *

Uma mendacidade na cor da romã

Philip Guston, The Clock, 1957




Há uma demora. Um vagar. Um coágulo de tempo em que nada de muito importante se passa. Há uma inesperada dublagem do nada. Quem tem meios-termos não tem estradas. Há um abraço entre fim e fado. Há entre as pessoas vizinhas apenas vozes. Há o sol filtrando-se pelas persianas como um tapete não persa. Há a luz dos intervalos de sol estriando o assoalho. Há essa tarde a meio. Há uma dama fora dos naipes do baralho. Uma caminhada não feita. Um não ter de ir à oficina para consertar a trava da porta traseira direita. Um procrastinar de ir receber um cheque numa instituição por conta de um curso no mês passado. Certo desejo de não ir ao cinema. Um enxame de coisas a fazer e elas debatem-se entre si para ver qual será a primeira. Há uma chave no bolso, outra na porta. Há uma cartela de tabletes e uma bula repleta de nomes de substâncias terminados em “ina”, “ol” e “ida”. Há um rosto de mulher, seus olhos profundos, úmidos. Há uma contração de membranas e músculos. Há um escrever com o pensar dos outros. Há a certeza de que as melhores coisas não passam pela inteligência; passam pela negação dos falsos fundamentos de nossa vida social. Há uma mendacidade na cor da romã se vista sob determinado ângulo às quatro da tarde. Há o ininterrupto abismo entre o que se quer e o que há. E há os ponteiros dos relógios, que não se detêm por conta disso. Há um incêndio no parque e os perigos do espelho. Há que se testemunhar mais que explicar. Há os cabelos dela sacudindo-se no meante da risada. Há bem-te-vis e sebites cantando para ninguém. Há um ruído de jato passando sobre a cidade. Há que partir. Mas para qual alhures? Quantos bondes foram perdidos ao longo de décadas, cidades, países, gentes, ondes? Há que se comer outras espécies para estar vivo. Há uma consciência que não vem das palavras. Há a certeza de que todos os sistemas possuem mais furos que queijos suíços. E há o mundo, que é muito mais fecundo. Há os óculos escuros flectidos sobre o computador. Há o pequeno estojo laranja farto: uma embalagem com grafites 0.9, dois adaptadores para plugs, três pen-drives, dois cortadores de unhas, duas pilhas palito, quinze palhetas de guitarra, um pequeno bilhete em papel vermelho sob um plástico, uma pequena lupa, seis moedas, um parafuso, uma colmeia de pequenos clipes. Há o impulso do corpo de alguém que varre, lá fora. Há as palhas da vassoura raspando a ardósia. Há uma doçura nos ruídos da tarde. E o rumor do circulador de ar ligado. 

* * *

sábado, 20 de novembro de 2010

O indomável Caim de sua raça

[s/i/c]




Ainda Melville: Baleias-fins, Quakers & o Espírito do Capitalismo


O capítulo Cetologia, o 32, um dos mais longos do Moby-Dick, é de escasso valor informativo, hoje em dia. Quer dizer, vale inteiramente pelo estilo. Pelas volta e meia sápidas sentenças, típicas de Melville. Frequentemente tecendo analogias com a Bíblia, como quando discorre sobre a baleia-fin (também conhecida como rorqual-comum, em português): “this leviathan seems the banished and unconquerable Cain of his race” [este leviatã parecer ser o banido e indomável Caim de sua raça”]. As informações de história natural compiladas por ele estão completamente ultrapassadas. Assim como o plano fato de Melville ainda considerar o cachalote como o maior animal vivo, quando, hoje, se sabe ser a baleia-azul. E, depois dela, a própria baleia-fin. A baleia-azul, maior, embora bem mais ágil que o cachalote, só veio a ser caçada em larga escala de início para meados do séc. XX, ou seja, o interesse por sua caça – a reboque do desenvolvimento dos arpões mecanizados – se deu 50 anos após a escritura de Moby-Dick. Como era difícil mensurar sua extensão na água, julgava-se que o cachalote, mais conhecido, porquanto caçado maciçamente, fosse maior.

É interessante também constatar que o grande cachalote branco do romance de Melville foi inspirada em uma baleia real: Mocha Dick. Essa baleia, incomumente branca – possivelmente albina – tinha fama de feroz. E há registros dela desde 1810. Destruiu barcos e matou baleeiros ao largo da Ilha de Mocha, no Chile. E, no entanto, foi abatida em 1838. A exemplo de Moby-Dick, possuía já muitos arpões fincados no corpo. Alguns deles cravados por arpoeiros de Nuntacket, esse prismático pequeno porto insular, ao largo da costa de Massachusetts; então, quase que exclusivamente habitado por baleeiros e quakers. A descrição da avarícia de alguns desses quakers faz lembrar Max Weber, que muitos anos depois de Melville escreveria A Ética Protestante e O Espírito do Capitalismo [1905].

Aliás, dois aspectos saltam aos olhos em Melville: o elogio da democracia e a total ausência de racismo ou homofobia.


* * *

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Do Gênio Americano - uma breve nota

William Turner, The Whale on Shore, circa 1837


Call me Ishmael 


O estilo de Melville como uma espécie de junção entre a ironia, o humor corrosivo de Machado e a obsessão etnológica de Euclydes da Cunha? De algum modo eles se convocam, conversam. Daí que os três estejam provavelmente entre os maiores prosadores das Américas. Entre os inventores de saídas e bandeiras, na ficção. Entre os desbravadores da limiaridade e das fronteiras da expressão. Da chamada "expressão americana", como a designou Lezama Lima.

Depois de muito, muito tempo. Estou relendo Moby-Dick. Parece ser a primeira vez, de tão bom. O livro é um monstro em si. Uma muralha repleta de termos náuticos ou desconhecidos. Bastante específicos, precisos. Tem 135 capítulos e mais um curto epílogo. São 625 páginas, na excelente edição paperback da Penguin, de 2003, que ora manuseio. E há exemplares desta edição na Cultura, ao interesse mais imediato de quem. 

O livro parece transcorrer com tanta lentidão quando se pensa em veículos como o Twitter, por exemplo. Lentidão deliciosa. Um de seus personagens chaves, Ahab, o obcecado capitão do navio baleeiro, é mencionado pela primeira vez no Capítulo 16. E só aparece, de fato, no 28.

O romance é uma aula de vida. De risco. De ódio. De morte. 


E de limiaridade. De fronteira. De exílio. De limite. De desbravar. De sobreviver.

E, aqui, pode-se pensar em Hawthorne. Na humanidade de Hawthorne. Na compassividade de Hawthorne. Mas Melville tem esse tique do épico que é como Euclydes da Cunha. O assunto absorve tudo. A paisagem e o homem assomam inquebrantavelmente atados. Confundem-se. E não só o navio e o mar. Mas os pequenos portos baleeiros: New Bedford, Martha's Vineyard, Nantucket – que formam o cenário ideal para um prólogo que se estende por mais de cem páginas. Num dado momento, Ishmael o marujo protagonista e seu amigo Queequeg – um nativo dos mares do sul, todo tatuado e bastante habilidoso com um harpão – saem de uma pequena estalagem, em Nantucket, palitando os dentes. E os palitos são espinhas de halibute, um peixe do Atlântico Norte. O mar está por toda parte até no palitar os dentes.

E há um trecho mesmo em que ele diz pela voz do protagonista: “then here, I prospectively ascribe all the honor and the glory to whaling; for a whale-ship was my Yale College and my Harvard”. [assim aqui prospectivamente atribuo toda honra e toda glória à baleeiria; pois um navio baleeiro foi minha Faculdade de Yale e minha Harvard”.]

Fantástico. Tudo está impregnado de Oceano. De salmoura. De maresia. Salpicado por uma concrção que tem a ver com América. Com trabalho de campo. E com conhecer a fundo uma determinada tarefa. E pô-la a serviço de uma alegoria de vida e de morte.

E há a sombra do grande cachalote branco pairando sobre tudo. A sede de vingança - que tem mão dupla. E a violência de um mito que não se sabe se está mais fora que dentro do espírito conturbado de um velho marinheiro aleijado pela vida.

Em dados momentos, há tanta modernidade em Moby-Dick, ou a Baleia – o título original é este, e com hífen – que assusta pensar que foi publicado em 1851.

Pressinto que vou voltar, com mais lentidão, ao assunto. Mais lá adiante. Mas com o tempo desacelerado. 


Com o tempo que o assunto merece.


* * * 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SAUDADE

Richard Long, River Avon Mud Drawings, 1989




A Sétima Palavra


De acordo com certo site da BBC, “saudade” é a sétima palavra mais difícil de traduzir. A enorme carga emocional que porta a converte numa dessas palavras míticas, que praticamente definem, sendo elas próprias líricas, o que um idioma tem de épico.

Pode-se conceber saudade como um modo telepático?

Talvez. Há aqueles dias em que se segue tão encharcado dela que bem se suspeita que existe uma sorte de comunicação perene, secreta, inefável entre o que a sente e seu “objeto”.

O verbete da Wikipedia em Inglês sobre “saudade” é um bocado interessante:


Entre outras, o termo é “once described as 'the love that remains' or 'the love that stays' after someone is gone”. [“uma vez descrito como 'o amor que permanece' ou 'o amor que fica' depois de alguém se ir”].

Ou ainda:

“a deep emotional state of nostalgic longing for something or someone that one was fond of and which is lost. It often carries a fatalist tone and a repressed knowledge that the object of longing might really never return”. [um profundo estado emocional de anseio nostálgico por algo ou alguém a quem se era afeiçoado e que foi perdido. Com frequência ela porta um tom fatalista e uma noção reprimida que o objeto de anseio pode de fato jamais retornar”].

Ou ainda ainda:

“It can be described as an emptiness, like someone (e.g., one's children, parents, sibling, grandparents, friends) or something (e.g., places, pets, things one used to do in childhood, or other activities performed in the past) that should be there in a particular moment is missing, and the individual feels this absence. In Portuguese, 'tenho saudades tuas', translated as 'I have saudades of you' means 'I miss you', but carries a much stronger tone. In fact, one can have 'saudades' of someone with which one is, but have some feeling of loss towards the past or the future”. [Pode ser descrita como um vazio, como alguém (p. ex., os filhos, pais, irmãos, avós, amigos) ou algo (p. ex., lugares, mascotes, coisas que se costumava fazer na infância, ou outras atividades empreendidas no passado) que pode não presentificar-se num determinado momento, e o indivíduo sentir sua falta. Em português, 'tenho saudades tuas', traduzido como 'I have saudades of you' significa 'I miss you' [NOTA: lit. “eu te perco”], mas carrega um tom bem mais intenso. De fato, pode-se ter saudades daquele(a) com quem se está, mas nutrir certo sentimento de perda em relação ao passado ou ao futuro”].


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