sábado, 13 de novembro de 2010

O que retorna em gratidão

Gabriel Orosco, 2000


Onde estão os outros nove?

-                                                                              A Maria Novais


a língua está
presa como as mãos
de um falsário. Mas
a palavra persiste
digna de fé:
suor, os lábios do
silêncio, grãos de
trigo. Teus metacarpos

onde o livro repousa
como uma partitura
na estante e à altura
do improvável milagre

Se morrermos com
Ele, com Ele
devemos viver
com Ele
devemos reinar

Ou esforçar-se para ser

o que retorna
em gratidão


* * *

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pêssegos se desmantelam

[s/i/c]



ao que cala

o elevador sobe. sobe sobre o panorama do shopping. há uma cárie na cidade, e dentro dela todos os gramas de medo. há um mamute no mercado, no ventre dele o teu filho. há uma forma de ter rei: outorgar a carta ou o nada. taças e jarras tremem na cristaleira à passagem do mamute. é quando equilibra-se a lágrima na ponta do queixo. e ela te nina, tão brandamente. e, se o acaso ao caso fosse, viria o sono, viria a sina, finos como o cristal. vítreos como o rio. rio depois das chuvas. algo em que se fiar. e dentro do sonho haveria um menino pedindo para sair. um menino que ainda não aprendeu a mentir direito. e está preso no ventre do mamute. no poço da cárie de teu medo. na barriga dos que têm um rei. na carta não outorgada. no leito do rio depois das chuvas. em abril de dois mil. de dois mil e nada. subindo pelo elevador panorâmico. na contraluz do néon. na cristaleira do oco. na cristaleira do sonho. na cristaleira da veia. e mesmo nessa redoma, ele jamais verá a luz. ele apenas demora. um pouco. e era só para dormir. mas quem está aí? andares. e logo tudo se desfecha. os ferrolhos do corpo destravam. pêssegos se desmantelam. o peixe no olho ao ar livre.

e foi quando ele e o sangue se tornaram um só.


* * *

Acima de nossas mútuas consentidas metástases: Celan

Joan González, Couple dans le sous-bois,1901



Largo


Gleichsinnige du, heidegängerisch Nahe:

über-
sterbens-
groß liegen
wir beieinander, die Zeit-
lose wimmelt
dir unter den atmenden Lidern,

das Amselpaar hängt
neben uns, unter
unsern gemeinsam droben mit-
ziehenden weißen

Meta-
stasen.

Paul Celan



Largo

Converges na ideia tu, a andar por perto ao charco:

além-
morte-
ajustados jazemos
juntos, o intem-
poral enxameia-se
sob tua recendente pálpebra

o par de melros pende
lado a lado de nós, acima
de nossas mútuas con-
sentidas

metás-
tases



* * *

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um senhor meio: Oz

Vincent van Gogh, Paisagem com Neve, 1888


Amos Oz
Conhecer uma Mulher [Conoscere una donna, trad. de Alessandro Guetta, Feltrinelli, Milano, 2000]


Difícil aferir os méritos de um escritor quando ele não é lido no original.
Menos mal se a tradução é italiana. Os italianos, historicamente, desenvolveram a melhor escola de tradução da Europa. Uma que vem colhendo frutos desde a Renascença e, entre outros, é responsável pelo lema mais célebre nos domínios da tradução: “Traduttore, traditore!”
O certo é que Amos Oz escreve em hebraico. E nem todo mundo sabe hebraico. O hebraico é lido da direita para a esquerda e possui uma estrutura oriental e um alfabeto próprio onde não há vogais, ao menos no hebraico clássico. No hebraico moderno convencionou-se uma combinção de pontos e traços para designá-las, chamada niqqud. Além disso é a linguagem da maior parte da Bíblia. E da parte da Bíblia que é a mais essencial para a religião judaica, os cinco primeiros livros, a Torah
E isso de ser a linguagem da Bíblia pode ser algo intricado de manejar. Um dilema. Pois há, por exemplo aquela elevadíssima poesia que se pode encontrar em Isaías ou Jeremias; ou nos Salmos. E então há que estar vigilante para que uma volta no quarteirão até a banca de revistas e limpar o olho com a visão de uma bela mulher não reverbere esses ecos monumentais. Que um “oi, tudo bem?”, o comezinho e o cotidiano não ecoem como dentro da nave vazia de uma majestosa catedral gótica.
Além disso, o hebraico passou séculos como língua morta – a exemplo do latim ou do grego arcaico. E só foi reavivado no sec. XIX e, em quase sequência, incentivado pelo movimento sionista.
Amos Oz é um escritor bastante prolífico. Mas ao se pronunciar o nome de Oz, de imediato vem a mente Meu Miguel ou Meu Michael, o seu romance de 1967 que é lido como uma metáfora política. E é também a obra mais ressonante de Oz. Isso, a despeito de certa contrariedade do autor. Para quem a trama apenas narra a história de um amor malogrado a partir de um ponto de vista feminino.
Aliás, até os nomes próprios portam esse eco bíblico. Sendo El um dos nomes de Deus em hebraico, Miguel quer dizer “Quem como Deus?”
Mas não é sobre Meu Miguel que versaremos, senão sobre Conhecer uma Mulher, que é de 1989. O protagonista de Conhecer uma Mulher é um agente do serviço secreto Israelense. E o livro é um tanto quanto seu trabalho de luto pela perda da esposa. Uma cantiga de viúvo. E uma cantiga de viúvo tão bonita quanto o poema de Drummond – de resto musicado por Villa-Lobos:

CANTIGA DE VIÚVO

A noite caiu na minh'alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.
Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada...
acabou.

É este o motivo do Conhecer uma Mulher, de Oz. Yoel, o agente secreto, é de um temperamento irritantemente lógico e metódico. Furtivo, lacônico, esquivo. De medir cada sílaba, cultivar grande silêncio. Deixar esse canteiro de silêncio germinar. E cada uma dessas flores de silêncio, em geral, desabrochar em pétalas de ruminação. Ou seja, de como teria reagido a esposa morta numa situação xis de um aqui e de um agora onde ela não é mais. Ou de reminiscências dela: gestos, gostos, posturas, objetos, roupas, fotos...
Reiteradas vezes Oz tem dito que um de seus assuntos favoritos é a família. A família como uma instituição que não fez água, e está aí há milênios. Isso, por igual, tem a ver com uma visada mais judia que cristã, se vista a partir de um determinado ângulo. E esse ângulo referenda certa crença de Oz. Pois Para Oz o “o próximo” é algo abstrato e lato demais para ser, de fato, amado. E o que amamos está dentro do círculo de giz dos afetos e das amizades. Com o destaque de que o vero centro desse círculo de giz traçado no cimento irregular da calçada é a própria família. A que não se escolheu pertencer. E a que se optou por formar. Mas de cuja medula, se não se consegue equacionar certos fluidos, nada pode caminhar a contento para devir.
Mesmo que isso do próximo, de algum modo seja desmentido, ao menos em parte, nos relatos de Oz, esse absenteísmo diante do próximo é algo que Oz faz questão de sublinhar. E, no entanto, também contraditar no fio de sua própria narrativa pois, apesar de ser um tanto irônico e, por vezes deliberadamente bem humorado em relação a seus personagens, ele quase sempre os trata com grande senso de compassividade.
De resto, com uma formação em Filosofia, seu pensador predileto é, significativamente, Espinosa. Oz conta entre os adeptos de Espinosa que não creem que o autor da Ética se haja convertido ao cristianismo.Quando é certo que em trechos de seus escritos, Espinosa reconhece a divindade de Jesus. E paga até um alto preço por isso, uma vez que sofre uma espécie de “excomunhão” da própria comunidade judia de Amsterdam. Um herem. [O sentido da palavra em hebraico é o de banimento].
Também "excomungado" ou "banido" – quer dizer, separado do restante da humanidade pela perda da mulher – é como parece se encontrar Yoel, o personagem central de Conhecer uma Mulher. E, como se não bastasse, toda misteriosa circunstância da morte de Ivria, a esposa, a quem ele amava ardentemente, aponta para um adultério. E assim, o fato de Yoel aposentar-se precocemente e mudar de Jerusalém, a cidade em que o casal vivia antes da morte dela, para uma ampla casa nos subúrbios de Tel-Aviv, junto com a filha, a mãe e a sogra diz muito dessa obsessão de Oz pela família.
A relação entre pai e filha é, quase sempre, apenas protocolar. Mas cabe um universo de cuidado e delicados meandros nesse quase e nesse sempre. A filha sofre de uma espécie branda de epilepsia. E isso parece torná-la, aparentemente, presa fácil de uma auto-imagem pouco lisonjeira. E uma personalidade, de algum modo, vulnerável. Mas, aqui, entram muitos outros componentes, pois, sem hesitação, Oz herdou todas as indizíveis habilidades e magias dos grandes narradores judaicos. De Singer a Salinger. E, de muito antes destes, da própria Bíblia, onde relatos como os da Gênese ou do Êxodo, além dos livros sapienciais ao modo dos midrash, como Tobias ou Ruth, para não mencionar Jonas – este pequeno conto tão deslocado quanto cintilante inserido poesia dos profetas a meio – conformam a própria razão de ser do povo judeu. Daí que eles também sejam chamados – e com toda justiça: “o povo do livro”. Pois nenhum outro povo, nem mesmo os gregos com Heródoto et alli, possui um faro tão forte para narração a partir de uma narração previamente consolidada e aludida como fonte viva de unidade no seguir dos dias. E essa narração é, naturalmente, a Bíblia.
Ou ainda, se há uma característica marcante em Oz é a imensa habilidade em fisgar a atenção do leitor. Em seduzi-lo desde o princípio. Palavra a palavra. Frase a frase. Sentença a sentença. Parágrafo a parágrafo. Capítulo a Capítulo. E, assim, Conhecer uma Mulher, assoma vívido, por traçar com tanto vigor e energia sinestésica essa cantiga de viúvo. Esse cotidiano assombrado pela falta de uma e a relação de Yoel com as três outras mulheres sobreviventes: a filha, a mãe e a sogra da defunta. Assim como também sua ligação a mais alguns poucos amigos.
E aqui, sim, há tanta presentificação. Tanta localía. Tantos odores, sensualidades, texturas, climas, atmosferas, objetos, gestos, sabores que o leitor parece testemunhar esse cotidiano. Degustando a comida, assistindo a TV, podando a grama, lavando a roupa, fazendo pequenos trabalhos domésticos, entrando noites adentro, assombradas por uma ausência, acontemplando o mar à noite, visitando um velho senhor num Kibbutz – na que surte ser uma das mais bem-humoradas cenas do romance.
Mas romances acabam. E pelo que há nos primeiros quatro quintos de Conhecer uma Mulher o leitor aspira por um final digno desses quatro quintos. E é precisamente o que não ocorre. O livro tem cinquenta capítulos relativamente curtos. Mas quando se chega ao capítulo quarenta ele como que se acelera. E num mau sentido. Quase ao modo de um folhetim eletrônico, de uma telenovela. E então o desfecho já se pode pressentir bem menos misterioso ou sinestésico ou poético do que os capítulos que o precedem prometiam. Esses últimos capítulos parecem desprovidos dos tempos mortos, redundâncias, divagações, engenhosas associações presentificadas nos anteriores. É como se o fim não honrasse a dignidade do meio.
Agora, convenhamos é um senhor começo.
E um senhor meio.

* * *

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Nunca berro boas-sortes a quem quer que seja: Salinger

[s/i/c]



J. D. Salinger

The Catcher in the Rye [O Apanhador no Campo de Centeio], para o grande público, talvez seja apenas o livro que Mark David Chapman portava consigo quando assassinou Lennon, em dezembro de 1980.
Posso lembrar disso. Da circunstância. Eu tirava um cochilo, quando meu irmão Ney me acordou. Um tanto a contragosto. Foram raríssimas as vezes em que lembro de ele haver me acordado para o que fosse, no tempo em que dividíamos o quarto e um par de violões. E então ele reportou o assassinato. E detalhou-o um pouco. E nos postamos diante da TV. Eu tinha dezessete, ele quinze. Depois fomos a uma vigília organizada no estúdio de uma estação de Rádio na Volta da Jurema. Havia as fotos dos quatro fora da cabine. Eram as fotos do interior do Álbum Branco. E a de Paul McCartney estava de cabeça para baixo.
Porém tudo isso é desvio. Voltemos ao apanhador, ao campo e ao centeio. Trata-se do primeiro livro, antes mesmo do On the Road, de Kerouac; de James Dean e Natalie Wood; ou dos filmes de Nicholas Ray; a diagnosticar que havia algo de errado com os mais jovens nos Estados Unidos da metade do século passado. Ou com a sociedade norte-americana em geral, que iria conhecer nos anos 50 o fim definitivo do propalado American dream.
O romance, originalmente publicado em 1949, é preciso. Há uma aura quase budista circundando-o. Mas, desde a primeira leitura, o sarcasmo de Holden - uma sorte de loner - o protagonista, que esconde um profundo amor por verdades humanas, nos colhe de roldão. O estilo é límpido. Frases curtas. E passa longe do exibicionismo vulgar, tardio e um tanto passadiço de, digamos, um Bukowski.
Em parte porque a prosa é fluida e posta quase em tom de conversa. 
E, muito em especial, quando Salinger evoca certas paisagens urbanas. E um senso de divagar por elas. Nem que em devaneio. Nem que em daydreams. Como quando Holden é expulso do colégio secundário, aos dezesseis anos, e seu professor de história, um velho senhor, derrotado e decadente fisicamente, o convoca para uma conversa daquele tipo. Quer dizer, do tipo que transpira certa estereotipada condescendência do mais velho em relação ao mais jovem. E em que Spencer, o velho professor, quase se justifica por haver reprovado Holden. Há aquele tom complacente, professoral. Tomemos este trecho. E, em seguida um outro. O elo entre ambos é o quanto são compelentes – senão eloquentes – no sentido de dar conta desse chasmo, desse abismo, entre gerações que iria explodir em todo seu som e fúria nos conturbados anos 60, assim como a boa fotografia de cenas urbanas, uma “fotoletria” da urbe moderna, tão presente no livro:

2.

[…]
“What you have done in my place?”, he said, “Tell the truth boy”.
Well, you could see he felt pretty lousy about flunking me. So I shot the bull for a while. I told him I was a real moron, and all that stuff. I told him how I would've done exactly the same thing if I'd been in his place, and how most people didn't appreciate how tough it is being a teacher. That kind of stuff. The old bull.
The funny thing is, though, I was sort of thinking of something else while I shot the bull. I live in New York, and I was thinking about the lagoon in Central Park, down near Central Park South. I was wondering if it would be frozen over when I got home, and if it was, where did the ducks go. I was wondering where the ducks went when the lagoon got all icy and frozen over. I wondered if some guy came in a truck and took them away to a zoo or something. Or if they just flew away.
I'm lucky, though, I mean I could shoot the old bull to old Spencer and think about those ducks at the same time. It's funny. You don't have to think too hard when you talk to a teacher. All of a sudden, though, he interrupted me while I was shooting the bull. He was always interrupting you.
“How do you feel about all this, boy? I'd be very interested to know. Very interested.”
“You mean about my flunking out of Pencey and all?” I said. I sort of wished he'd cover up his bumpy chest. It wasn't such a beautiful view.
[…]
Then we shook hands. And all that crap. It made me feel sad as hell, though.
“I'll drop you a line, sir. Take care of your grippe, now.”
“Good-by, boy”.
After I shut the door and stared back to the living room, he yelled something at me, but I couldn't exactly hear him. I'm pretty sure he yelled “Good luck!” I hope not. I hope to hell not. I never yell “Good luck!” at anybody. It sounds terrible when you think about it.

3.

I'M THE MOST TERRIFIC liar you ever saw in your life. It's awful. If I'm on my way to the store to buy a magazine, even, and somebody asks me where I'm going, I'm liable to say I'm going to the opera. It's terrible.

Excerto dois:

8.

[...]
Usually I like hiding on trains, especially at night, with the lights on and the windows so black, and one of those guys coming up the aisle selling coffee and sandwiches and magazines. I usually buy a ham sandwich and about four magazines. If I'm on a train at night, I could usually even read one of those dumb stories in a magazine without pucking. You know. One of those stories with a lot of phony, lean-jawed guys named David in it, and a lot of phony girls named Linda or Marcia that are always lightning all the goddam David's pipes for them. I can even read one of those lousy stories on a train at night, usually. But this time, it was different. I just didn't feel like it. I just sort of sat and did anything. All I did was take off my hunting hat and put it in my pocket.

[J.D. Salinger, The Catcher in the Rye, copyright, J. D. Salinger State, 1949]

2.

[…]
“O que você teria feito em meu lugar?”, ele disse, “Fale a verdade, garoto”.
Bem, era possível ver que ele sentia-se péssimo por haver me reprovado. Então eu comecei a encher linguiça por um instante. Disse-lhe que eu era de fato um idiota, esse tipo de coisa. Disse-lhe o quanto eu teria feito exatamente a mesma coisa, se estivesse no lugar dele, e o quanto muitos não dimensionam o quão duro é ser um professor. Esse tipo de coisa. A velha linguiça.
O fato engraçado, no entanto, é que eu meio que pensava em outra coisa enquanto buscava algo para encher linguiça. Eu vivo em Nova York, e estava a pensar sobre a lagoa do Central Park, ali perto de Central Park South. Considerava a possibilidade de ela estar congelada quando eu voltasse para casa e, se ela estivesse, qual o paradeiro dos patos. Ponderava comigo para onde os patos seguiam quando a lagoa jazia fria e enregelada. Eu me perguntava se algum sujeito vinha num caminhão e os levava para algum zoo ou algo do gênero. Ou se eles simplesmente revoavam.
Tenho sorte, no entanto, eu podia encher linguiça para o velho Spencer e pensar naqueles patos ao mesmo tempo. É engraçado. Não é necessário pensar a fundo quando se conversa com um professor. Mais que súbito, contudo, ele interrompeu minha encheção de linguiça. Ele estava sempre a interromper.
“Como você se sente diante de tudo isso, garoto? Isso me faz bem curioso. Bem curioso.”
“O senhor quer dizer a respeito de minha reprovação em Pencey e tudo o mais?” Eu disse. E desejava que ele cobrisse seu tórax verruguento. Não era uma visão auspiciosa.
[…]
Então apertamos as mãos. E todos esses salamaleques. O que me entristeceu um bocado, no entanto.
“Vou postar umas linhas ao senhor. Por ora, cuide da gripe”.
“Até logo, garoto”.
Depois que cerrei a porta e perscrutei a sala de estar, ele berrou algo para mim, mas não pude ouvi-lo nitidamente. Estou convicto de que ele berrou um “Boa Sorte!”. Espero que não. Nunca berro “Boas Sortes!” a quem quer que seja. É terrível.

3.

SOU O MAIS TERRÍVEL dos mentirosos que você jamais encontrará em vida. Uma praga. Se estou tão-só a caminho da banca para comprar uma revista, sem mais, e alguém me pergunta para onde vou, é provável que diga que para a ópera.
[…]



Excerto dois:

8.

[…]
Em geral gosto de andar de trem, especialmente à noite, com as luzes acesas e as janelas tão negras. E um desses caras vendendo café e sanduíches e revistas. Costumo comprar um sanduíche de presunto e umas quatro revistas. Se estou num trem à noite, posso até ler um desses contos das revistas sem enguiar. Você sabe. Uma desses contos com um monte daqueles improváveis caras chamados David, de esguias mandíbulas, e um monte de improváveis garotas chamadas Linda ou Marcia que estão sempre a acender os malditos cachimbos dos Davids em favor. Posso até chegar a ler um desses abomináveis contos em um trem à noite, em geral. Mas desta feita era diferente. Não me sentia disposto. Eu meio que queria estar ali sentado e não fazer nada. E tudo que fiz foi remover meu chapeu de caça e pus no bolso.

P.S. – Interessante perceber que provavelmente foi um desses obscuros Davids, improváveis e quase anônimos; um personagem mal-concebido em um conto. Sem glória. Meio borrado. Sem senso de caráter. Como, de resto, os presentes nas revistas lidas durante um passeio noturno de trem em O Apanhador no Campo de Centeio, quem matou Lennon.




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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Quando aberturas de contos são melhores que as de xadrez

[s/i/c]



Encontre-me no Hotel Montana


Eu ia dizer de boas aberturas de contos. De como elas se assemelham a boas aberturas no xadrez. Mas depois desgostei da ideia. Pois então me lembrei que não gosto tanto de xadrez. E portanto não gosto tanto de aberturas de xadrez. E o quanto aberturas de xadrez são apenas o prólogo de um passeio mais ou menos mecânico das pedras sobre o tabuleiro. Não se pode divagar com as pedras, em errância. Flanar com elas. Pois, nesse caso, você se deita em maus lençóis. E então aberturas de bons contos são quase sempre menos previsíveis que clássicas aberturas de xadrez. Uma das mais espirituosas aberturas de um conto é esta:


Madrid is full of boys named Paco, which is the diminutive of the name Francisco, and there is a Madrid joke about a father who came to Madrid and inserted an advertisement in the personal columns of El Liberal which said: PACO MEET ME AT HOTEL MONTANA NOON TUESDAY ALL IS FORGIVEN PAPA and how a squadron of Guardia Civil had be called out to disperse the eight hundred young men who answered the advertisement. But this Paco, who waited on table at the pension Luarca, have no father to forgive him, nor anything of the father to forgive.

[Ernst Hemingway, "The Capital of the World", in Winner Takes Nothing, 1939]


Madri está cheia de garotos chamados Paco, que é o diminutivo de Francisco, e há essa anedota de um pai que veio a Madri e inseriu um anúncio nos classificados de El Liberal em que se lia: PACO ENCONTRE-ME NO HOTEL MONTANA TERÇA À TARDE TUDO ESTÁ PERDOADO PAPA, e de como um esquadrão da Guardia Civil teve de ser chamado para dispersar os oitocentos jovens que responderam ao anúncio. Porém esse Paco, que esperava à mesa na Pensão Luarca, não tinha pai para perdoá-lo, nem nada a ser perdoado pelo pai.

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domingo, 7 de novembro de 2010

Não em desnível, desequilíbrio, monstro

[s/i/c]



Cuidado, Lei, Medida, Extensão, Monstro


Para a vida.

No amor, no amor. Parece que fundamental é cuidar. Não é “possuir”. Pois possuir indica poder. E, em consonância, desnível, desequilíbrio, pender de gangorra para mais um dos lados. Não é encantar-se. Mesmo que haja tanta importância, aqui. O deslumbre, o êxtase, o impulso, o entusiasmo diante da materialidade das coisas. Sua beleza, sensualidade, erotismo. Embora importem, extinguem-se mais rápido que o crepitar de brasas encarvoadas ao vento.

Porém cuidar envolve um longo tempo. Cotidianos. Que se dilatam ou se contraem sem cessar. Como fogo. E, em especial, fogo amarelo e azul em uma boca de fogão, onde uma família prepara o que come. Onde é possível se conhecer. Ou como se dizia antes: “comer juntos um saco de sal”. O próprio verbo “cuidar” já esteve rente ao amarelo e ao azul desse fogo. Quase sinônimo de amar em português. Quer dizer, quando o português e o galego (ou galaico) ainda eram um só.

E então os trovadores do Medievo falavam de “cuidado”, em português, como algo que podiam ofertar a – e receber em troca de – suas “Senhor”. Ou seja, de suas damas, senhoras, velidas. O termo “senhor” era, àquela altura, comum aos dois gêneros.

E mesmo de quando se produziram as mais belas páginas escritas em português, isso no sec. XVI, por Camões, António Ferreira, Sá de Miranda & Cia Ltda., o termo “cuidado”, então ainda em reflexo da Idade Média, era sinônimo de “ocupar-se, ao menos em pensamento com alguém”. Preocupar-se, com alguém, melhor dizendo. Daí os versos – todos aqueles decassílabos de uma elegância irreparável. Em Camões, por ilustração, pode-se deparar, volta e meia com algo desse “cuidado” na esteira dos decassílabos:

“Que nem mudar as causas em cuidado.”

Ou:

“E que os outros cuidados condenais.”

Ou ainda, em um das mais belas aberturas de soneto em qualquer língua:

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que farão? Quem mo diria?
Por ventura estarão em mim cuidando?

Nós, modernos – ou além de modernos – somos educados, desde cedo, para esquecer esse senso de cuidado. Aqui, vivemos sem uma medida diante dele, completamente “descuidados”. Ou, em reverso, “descuidantes”.

Aliás, esse senso de medida era entrevisto também como uma sorte de “lei” de fora para o verso. Ou seja, uma ética que veio de fora e se aninhou na letra. Uma poética que podia abstrair da palavra as duas primeiras letras. Uma das primeiras coisas que um olho educado seguia e segue em poesia era e é, naturalmente, a perspicácia que está posta pelo poeta ao fim de cada verso. Em outras, simples, palavras: como a/o poeta acaba a linha. Como ela ou ele propõe o final de cada linha.

Nos verdadeiros poetas esse senso de concluir a linha (para retomá-la depois, obviamente) segue pleno de verve, espontaneidade, sabedoria. Reforça uma espécie de agudeza sintática. Um senso de medida. Uma “lei”. Esse senso de extensão guarda também um sentido moral. Um cuidado. Daí que se empregue para alguém que cai em desgraça junto a uma comunidade a expressão: “Fulano não tem lei”. Ou, “é um sujeito sem lei”, para designar alguém de caráter questionável ou mesquinho. Alguém que não tem “medida” no sentido de se impor limites pessoais. No sentido de vazar um mal-estar para os demais, para quem está à volta. Aqui, praticamente todas as metáforas raspam algo que tem a ver com espaço e com auto-controle:

“Não tem domínio de si” [não sabe até onde vão os seus domínios territoriais e começam os do próximo. Não sabe até onde acaba seu corpo].

“Perdido” [ou seja, sem orientação espacial].

“Perverso” [virado às avessa; feito em desacordo com as regras e os costumes (ou leis – um monstro, com a pele por dentro e as nervuras por fora)].

“Selvagem” [que vem da Selva, onde não há normas, senão a “lei da selva”, "a lei do mais forte", etc.]

A poesia longe de ser um deslimite da imaginação, é um estado mais próxima da ascese, de um limite – em grego, a palavra “ascese” quer dizer “exercício”. E assim o poeta seja alguém que proponha um limite. Uma medida. Daí que mesmo para o poeta da época do modernismo mais radical, da época da vanguarda e dos “ismos”, a ideia do “verso livre” tenha assomado como problemática ou repelente. Afinal, só se pode cuidar do que tem limites. Do que tem medida. Do que conforma um corpo. Um todo. Como um poema. Como o humano corpo. Desde sempre.

Tome-se qualquer dicionário sério em nosso idioma. Nele se perceberá, entre outras coisas, que “aborto” é sinônimo de “monstro”.



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