quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um senhor meio: Oz

Vincent van Gogh, Paisagem com Neve, 1888


Amos Oz
Conhecer uma Mulher [Conoscere una donna, trad. de Alessandro Guetta, Feltrinelli, Milano, 2000]


Difícil aferir os méritos de um escritor quando ele não é lido no original.
Menos mal se a tradução é italiana. Os italianos, historicamente, desenvolveram a melhor escola de tradução da Europa. Uma que vem colhendo frutos desde a Renascença e, entre outros, é responsável pelo lema mais célebre nos domínios da tradução: “Traduttore, traditore!”
O certo é que Amos Oz escreve em hebraico. E nem todo mundo sabe hebraico. O hebraico é lido da direita para a esquerda e possui uma estrutura oriental e um alfabeto próprio onde não há vogais, ao menos no hebraico clássico. No hebraico moderno convencionou-se uma combinção de pontos e traços para designá-las, chamada niqqud. Além disso é a linguagem da maior parte da Bíblia. E da parte da Bíblia que é a mais essencial para a religião judaica, os cinco primeiros livros, a Torah
E isso de ser a linguagem da Bíblia pode ser algo intricado de manejar. Um dilema. Pois há, por exemplo aquela elevadíssima poesia que se pode encontrar em Isaías ou Jeremias; ou nos Salmos. E então há que estar vigilante para que uma volta no quarteirão até a banca de revistas e limpar o olho com a visão de uma bela mulher não reverbere esses ecos monumentais. Que um “oi, tudo bem?”, o comezinho e o cotidiano não ecoem como dentro da nave vazia de uma majestosa catedral gótica.
Além disso, o hebraico passou séculos como língua morta – a exemplo do latim ou do grego arcaico. E só foi reavivado no sec. XIX e, em quase sequência, incentivado pelo movimento sionista.
Amos Oz é um escritor bastante prolífico. Mas ao se pronunciar o nome de Oz, de imediato vem a mente Meu Miguel ou Meu Michael, o seu romance de 1967 que é lido como uma metáfora política. E é também a obra mais ressonante de Oz. Isso, a despeito de certa contrariedade do autor. Para quem a trama apenas narra a história de um amor malogrado a partir de um ponto de vista feminino.
Aliás, até os nomes próprios portam esse eco bíblico. Sendo El um dos nomes de Deus em hebraico, Miguel quer dizer “Quem como Deus?”
Mas não é sobre Meu Miguel que versaremos, senão sobre Conhecer uma Mulher, que é de 1989. O protagonista de Conhecer uma Mulher é um agente do serviço secreto Israelense. E o livro é um tanto quanto seu trabalho de luto pela perda da esposa. Uma cantiga de viúvo. E uma cantiga de viúvo tão bonita quanto o poema de Drummond – de resto musicado por Villa-Lobos:

CANTIGA DE VIÚVO

A noite caiu na minh'alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.
Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada...
acabou.

É este o motivo do Conhecer uma Mulher, de Oz. Yoel, o agente secreto, é de um temperamento irritantemente lógico e metódico. Furtivo, lacônico, esquivo. De medir cada sílaba, cultivar grande silêncio. Deixar esse canteiro de silêncio germinar. E cada uma dessas flores de silêncio, em geral, desabrochar em pétalas de ruminação. Ou seja, de como teria reagido a esposa morta numa situação xis de um aqui e de um agora onde ela não é mais. Ou de reminiscências dela: gestos, gostos, posturas, objetos, roupas, fotos...
Reiteradas vezes Oz tem dito que um de seus assuntos favoritos é a família. A família como uma instituição que não fez água, e está aí há milênios. Isso, por igual, tem a ver com uma visada mais judia que cristã, se vista a partir de um determinado ângulo. E esse ângulo referenda certa crença de Oz. Pois Para Oz o “o próximo” é algo abstrato e lato demais para ser, de fato, amado. E o que amamos está dentro do círculo de giz dos afetos e das amizades. Com o destaque de que o vero centro desse círculo de giz traçado no cimento irregular da calçada é a própria família. A que não se escolheu pertencer. E a que se optou por formar. Mas de cuja medula, se não se consegue equacionar certos fluidos, nada pode caminhar a contento para devir.
Mesmo que isso do próximo, de algum modo seja desmentido, ao menos em parte, nos relatos de Oz, esse absenteísmo diante do próximo é algo que Oz faz questão de sublinhar. E, no entanto, também contraditar no fio de sua própria narrativa pois, apesar de ser um tanto irônico e, por vezes deliberadamente bem humorado em relação a seus personagens, ele quase sempre os trata com grande senso de compassividade.
De resto, com uma formação em Filosofia, seu pensador predileto é, significativamente, Espinosa. Oz conta entre os adeptos de Espinosa que não creem que o autor da Ética se haja convertido ao cristianismo.Quando é certo que em trechos de seus escritos, Espinosa reconhece a divindade de Jesus. E paga até um alto preço por isso, uma vez que sofre uma espécie de “excomunhão” da própria comunidade judia de Amsterdam. Um herem. [O sentido da palavra em hebraico é o de banimento].
Também "excomungado" ou "banido" – quer dizer, separado do restante da humanidade pela perda da mulher – é como parece se encontrar Yoel, o personagem central de Conhecer uma Mulher. E, como se não bastasse, toda misteriosa circunstância da morte de Ivria, a esposa, a quem ele amava ardentemente, aponta para um adultério. E assim, o fato de Yoel aposentar-se precocemente e mudar de Jerusalém, a cidade em que o casal vivia antes da morte dela, para uma ampla casa nos subúrbios de Tel-Aviv, junto com a filha, a mãe e a sogra diz muito dessa obsessão de Oz pela família.
A relação entre pai e filha é, quase sempre, apenas protocolar. Mas cabe um universo de cuidado e delicados meandros nesse quase e nesse sempre. A filha sofre de uma espécie branda de epilepsia. E isso parece torná-la, aparentemente, presa fácil de uma auto-imagem pouco lisonjeira. E uma personalidade, de algum modo, vulnerável. Mas, aqui, entram muitos outros componentes, pois, sem hesitação, Oz herdou todas as indizíveis habilidades e magias dos grandes narradores judaicos. De Singer a Salinger. E, de muito antes destes, da própria Bíblia, onde relatos como os da Gênese ou do Êxodo, além dos livros sapienciais ao modo dos midrash, como Tobias ou Ruth, para não mencionar Jonas – este pequeno conto tão deslocado quanto cintilante inserido poesia dos profetas a meio – conformam a própria razão de ser do povo judeu. Daí que eles também sejam chamados – e com toda justiça: “o povo do livro”. Pois nenhum outro povo, nem mesmo os gregos com Heródoto et alli, possui um faro tão forte para narração a partir de uma narração previamente consolidada e aludida como fonte viva de unidade no seguir dos dias. E essa narração é, naturalmente, a Bíblia.
Ou ainda, se há uma característica marcante em Oz é a imensa habilidade em fisgar a atenção do leitor. Em seduzi-lo desde o princípio. Palavra a palavra. Frase a frase. Sentença a sentença. Parágrafo a parágrafo. Capítulo a Capítulo. E, assim, Conhecer uma Mulher, assoma vívido, por traçar com tanto vigor e energia sinestésica essa cantiga de viúvo. Esse cotidiano assombrado pela falta de uma e a relação de Yoel com as três outras mulheres sobreviventes: a filha, a mãe e a sogra da defunta. Assim como também sua ligação a mais alguns poucos amigos.
E aqui, sim, há tanta presentificação. Tanta localía. Tantos odores, sensualidades, texturas, climas, atmosferas, objetos, gestos, sabores que o leitor parece testemunhar esse cotidiano. Degustando a comida, assistindo a TV, podando a grama, lavando a roupa, fazendo pequenos trabalhos domésticos, entrando noites adentro, assombradas por uma ausência, acontemplando o mar à noite, visitando um velho senhor num Kibbutz – na que surte ser uma das mais bem-humoradas cenas do romance.
Mas romances acabam. E pelo que há nos primeiros quatro quintos de Conhecer uma Mulher o leitor aspira por um final digno desses quatro quintos. E é precisamente o que não ocorre. O livro tem cinquenta capítulos relativamente curtos. Mas quando se chega ao capítulo quarenta ele como que se acelera. E num mau sentido. Quase ao modo de um folhetim eletrônico, de uma telenovela. E então o desfecho já se pode pressentir bem menos misterioso ou sinestésico ou poético do que os capítulos que o precedem prometiam. Esses últimos capítulos parecem desprovidos dos tempos mortos, redundâncias, divagações, engenhosas associações presentificadas nos anteriores. É como se o fim não honrasse a dignidade do meio.
Agora, convenhamos é um senhor começo.
E um senhor meio.

* * *

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Nunca berro boas-sortes a quem quer que seja: Salinger

[s/i/c]



J. D. Salinger

The Catcher in the Rye [O Apanhador no Campo de Centeio], para o grande público, talvez seja apenas o livro que Mark David Chapman portava consigo quando assassinou Lennon, em dezembro de 1980.
Posso lembrar disso. Da circunstância. Eu tirava um cochilo, quando meu irmão Ney me acordou. Um tanto a contragosto. Foram raríssimas as vezes em que lembro de ele haver me acordado para o que fosse, no tempo em que dividíamos o quarto e um par de violões. E então ele reportou o assassinato. E detalhou-o um pouco. E nos postamos diante da TV. Eu tinha dezessete, ele quinze. Depois fomos a uma vigília organizada no estúdio de uma estação de Rádio na Volta da Jurema. Havia as fotos dos quatro fora da cabine. Eram as fotos do interior do Álbum Branco. E a de Paul McCartney estava de cabeça para baixo.
Porém tudo isso é desvio. Voltemos ao apanhador, ao campo e ao centeio. Trata-se do primeiro livro, antes mesmo do On the Road, de Kerouac; de James Dean e Natalie Wood; ou dos filmes de Nicholas Ray; a diagnosticar que havia algo de errado com os mais jovens nos Estados Unidos da metade do século passado. Ou com a sociedade norte-americana em geral, que iria conhecer nos anos 50 o fim definitivo do propalado American dream.
O romance, originalmente publicado em 1949, é preciso. Há uma aura quase budista circundando-o. Mas, desde a primeira leitura, o sarcasmo de Holden - uma sorte de loner - o protagonista, que esconde um profundo amor por verdades humanas, nos colhe de roldão. O estilo é límpido. Frases curtas. E passa longe do exibicionismo vulgar, tardio e um tanto passadiço de, digamos, um Bukowski.
Em parte porque a prosa é fluida e posta quase em tom de conversa. 
E, muito em especial, quando Salinger evoca certas paisagens urbanas. E um senso de divagar por elas. Nem que em devaneio. Nem que em daydreams. Como quando Holden é expulso do colégio secundário, aos dezesseis anos, e seu professor de história, um velho senhor, derrotado e decadente fisicamente, o convoca para uma conversa daquele tipo. Quer dizer, do tipo que transpira certa estereotipada condescendência do mais velho em relação ao mais jovem. E em que Spencer, o velho professor, quase se justifica por haver reprovado Holden. Há aquele tom complacente, professoral. Tomemos este trecho. E, em seguida um outro. O elo entre ambos é o quanto são compelentes – senão eloquentes – no sentido de dar conta desse chasmo, desse abismo, entre gerações que iria explodir em todo seu som e fúria nos conturbados anos 60, assim como a boa fotografia de cenas urbanas, uma “fotoletria” da urbe moderna, tão presente no livro:

2.

[…]
“What you have done in my place?”, he said, “Tell the truth boy”.
Well, you could see he felt pretty lousy about flunking me. So I shot the bull for a while. I told him I was a real moron, and all that stuff. I told him how I would've done exactly the same thing if I'd been in his place, and how most people didn't appreciate how tough it is being a teacher. That kind of stuff. The old bull.
The funny thing is, though, I was sort of thinking of something else while I shot the bull. I live in New York, and I was thinking about the lagoon in Central Park, down near Central Park South. I was wondering if it would be frozen over when I got home, and if it was, where did the ducks go. I was wondering where the ducks went when the lagoon got all icy and frozen over. I wondered if some guy came in a truck and took them away to a zoo or something. Or if they just flew away.
I'm lucky, though, I mean I could shoot the old bull to old Spencer and think about those ducks at the same time. It's funny. You don't have to think too hard when you talk to a teacher. All of a sudden, though, he interrupted me while I was shooting the bull. He was always interrupting you.
“How do you feel about all this, boy? I'd be very interested to know. Very interested.”
“You mean about my flunking out of Pencey and all?” I said. I sort of wished he'd cover up his bumpy chest. It wasn't such a beautiful view.
[…]
Then we shook hands. And all that crap. It made me feel sad as hell, though.
“I'll drop you a line, sir. Take care of your grippe, now.”
“Good-by, boy”.
After I shut the door and stared back to the living room, he yelled something at me, but I couldn't exactly hear him. I'm pretty sure he yelled “Good luck!” I hope not. I hope to hell not. I never yell “Good luck!” at anybody. It sounds terrible when you think about it.

3.

I'M THE MOST TERRIFIC liar you ever saw in your life. It's awful. If I'm on my way to the store to buy a magazine, even, and somebody asks me where I'm going, I'm liable to say I'm going to the opera. It's terrible.

Excerto dois:

8.

[...]
Usually I like hiding on trains, especially at night, with the lights on and the windows so black, and one of those guys coming up the aisle selling coffee and sandwiches and magazines. I usually buy a ham sandwich and about four magazines. If I'm on a train at night, I could usually even read one of those dumb stories in a magazine without pucking. You know. One of those stories with a lot of phony, lean-jawed guys named David in it, and a lot of phony girls named Linda or Marcia that are always lightning all the goddam David's pipes for them. I can even read one of those lousy stories on a train at night, usually. But this time, it was different. I just didn't feel like it. I just sort of sat and did anything. All I did was take off my hunting hat and put it in my pocket.

[J.D. Salinger, The Catcher in the Rye, copyright, J. D. Salinger State, 1949]

2.

[…]
“O que você teria feito em meu lugar?”, ele disse, “Fale a verdade, garoto”.
Bem, era possível ver que ele sentia-se péssimo por haver me reprovado. Então eu comecei a encher linguiça por um instante. Disse-lhe que eu era de fato um idiota, esse tipo de coisa. Disse-lhe o quanto eu teria feito exatamente a mesma coisa, se estivesse no lugar dele, e o quanto muitos não dimensionam o quão duro é ser um professor. Esse tipo de coisa. A velha linguiça.
O fato engraçado, no entanto, é que eu meio que pensava em outra coisa enquanto buscava algo para encher linguiça. Eu vivo em Nova York, e estava a pensar sobre a lagoa do Central Park, ali perto de Central Park South. Considerava a possibilidade de ela estar congelada quando eu voltasse para casa e, se ela estivesse, qual o paradeiro dos patos. Ponderava comigo para onde os patos seguiam quando a lagoa jazia fria e enregelada. Eu me perguntava se algum sujeito vinha num caminhão e os levava para algum zoo ou algo do gênero. Ou se eles simplesmente revoavam.
Tenho sorte, no entanto, eu podia encher linguiça para o velho Spencer e pensar naqueles patos ao mesmo tempo. É engraçado. Não é necessário pensar a fundo quando se conversa com um professor. Mais que súbito, contudo, ele interrompeu minha encheção de linguiça. Ele estava sempre a interromper.
“Como você se sente diante de tudo isso, garoto? Isso me faz bem curioso. Bem curioso.”
“O senhor quer dizer a respeito de minha reprovação em Pencey e tudo o mais?” Eu disse. E desejava que ele cobrisse seu tórax verruguento. Não era uma visão auspiciosa.
[…]
Então apertamos as mãos. E todos esses salamaleques. O que me entristeceu um bocado, no entanto.
“Vou postar umas linhas ao senhor. Por ora, cuide da gripe”.
“Até logo, garoto”.
Depois que cerrei a porta e perscrutei a sala de estar, ele berrou algo para mim, mas não pude ouvi-lo nitidamente. Estou convicto de que ele berrou um “Boa Sorte!”. Espero que não. Nunca berro “Boas Sortes!” a quem quer que seja. É terrível.

3.

SOU O MAIS TERRÍVEL dos mentirosos que você jamais encontrará em vida. Uma praga. Se estou tão-só a caminho da banca para comprar uma revista, sem mais, e alguém me pergunta para onde vou, é provável que diga que para a ópera.
[…]



Excerto dois:

8.

[…]
Em geral gosto de andar de trem, especialmente à noite, com as luzes acesas e as janelas tão negras. E um desses caras vendendo café e sanduíches e revistas. Costumo comprar um sanduíche de presunto e umas quatro revistas. Se estou num trem à noite, posso até ler um desses contos das revistas sem enguiar. Você sabe. Uma desses contos com um monte daqueles improváveis caras chamados David, de esguias mandíbulas, e um monte de improváveis garotas chamadas Linda ou Marcia que estão sempre a acender os malditos cachimbos dos Davids em favor. Posso até chegar a ler um desses abomináveis contos em um trem à noite, em geral. Mas desta feita era diferente. Não me sentia disposto. Eu meio que queria estar ali sentado e não fazer nada. E tudo que fiz foi remover meu chapeu de caça e pus no bolso.

P.S. – Interessante perceber que provavelmente foi um desses obscuros Davids, improváveis e quase anônimos; um personagem mal-concebido em um conto. Sem glória. Meio borrado. Sem senso de caráter. Como, de resto, os presentes nas revistas lidas durante um passeio noturno de trem em O Apanhador no Campo de Centeio, quem matou Lennon.




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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Quando aberturas de contos são melhores que as de xadrez

[s/i/c]



Encontre-me no Hotel Montana


Eu ia dizer de boas aberturas de contos. De como elas se assemelham a boas aberturas no xadrez. Mas depois desgostei da ideia. Pois então me lembrei que não gosto tanto de xadrez. E portanto não gosto tanto de aberturas de xadrez. E o quanto aberturas de xadrez são apenas o prólogo de um passeio mais ou menos mecânico das pedras sobre o tabuleiro. Não se pode divagar com as pedras, em errância. Flanar com elas. Pois, nesse caso, você se deita em maus lençóis. E então aberturas de bons contos são quase sempre menos previsíveis que clássicas aberturas de xadrez. Uma das mais espirituosas aberturas de um conto é esta:


Madrid is full of boys named Paco, which is the diminutive of the name Francisco, and there is a Madrid joke about a father who came to Madrid and inserted an advertisement in the personal columns of El Liberal which said: PACO MEET ME AT HOTEL MONTANA NOON TUESDAY ALL IS FORGIVEN PAPA and how a squadron of Guardia Civil had be called out to disperse the eight hundred young men who answered the advertisement. But this Paco, who waited on table at the pension Luarca, have no father to forgive him, nor anything of the father to forgive.

[Ernst Hemingway, "The Capital of the World", in Winner Takes Nothing, 1939]


Madri está cheia de garotos chamados Paco, que é o diminutivo de Francisco, e há essa anedota de um pai que veio a Madri e inseriu um anúncio nos classificados de El Liberal em que se lia: PACO ENCONTRE-ME NO HOTEL MONTANA TERÇA À TARDE TUDO ESTÁ PERDOADO PAPA, e de como um esquadrão da Guardia Civil teve de ser chamado para dispersar os oitocentos jovens que responderam ao anúncio. Porém esse Paco, que esperava à mesa na Pensão Luarca, não tinha pai para perdoá-lo, nem nada a ser perdoado pelo pai.

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domingo, 7 de novembro de 2010

Não em desnível, desequilíbrio, monstro

[s/i/c]



Cuidado, Lei, Medida, Extensão, Monstro


Para a vida.

No amor, no amor. Parece que fundamental é cuidar. Não é “possuir”. Pois possuir indica poder. E, em consonância, desnível, desequilíbrio, pender de gangorra para mais um dos lados. Não é encantar-se. Mesmo que haja tanta importância, aqui. O deslumbre, o êxtase, o impulso, o entusiasmo diante da materialidade das coisas. Sua beleza, sensualidade, erotismo. Embora importem, extinguem-se mais rápido que o crepitar de brasas encarvoadas ao vento.

Porém cuidar envolve um longo tempo. Cotidianos. Que se dilatam ou se contraem sem cessar. Como fogo. E, em especial, fogo amarelo e azul em uma boca de fogão, onde uma família prepara o que come. Onde é possível se conhecer. Ou como se dizia antes: “comer juntos um saco de sal”. O próprio verbo “cuidar” já esteve rente ao amarelo e ao azul desse fogo. Quase sinônimo de amar em português. Quer dizer, quando o português e o galego (ou galaico) ainda eram um só.

E então os trovadores do Medievo falavam de “cuidado”, em português, como algo que podiam ofertar a – e receber em troca de – suas “Senhor”. Ou seja, de suas damas, senhoras, velidas. O termo “senhor” era, àquela altura, comum aos dois gêneros.

E mesmo de quando se produziram as mais belas páginas escritas em português, isso no sec. XVI, por Camões, António Ferreira, Sá de Miranda & Cia Ltda., o termo “cuidado”, então ainda em reflexo da Idade Média, era sinônimo de “ocupar-se, ao menos em pensamento com alguém”. Preocupar-se, com alguém, melhor dizendo. Daí os versos – todos aqueles decassílabos de uma elegância irreparável. Em Camões, por ilustração, pode-se deparar, volta e meia com algo desse “cuidado” na esteira dos decassílabos:

“Que nem mudar as causas em cuidado.”

Ou:

“E que os outros cuidados condenais.”

Ou ainda, em um das mais belas aberturas de soneto em qualquer língua:

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que farão? Quem mo diria?
Por ventura estarão em mim cuidando?

Nós, modernos – ou além de modernos – somos educados, desde cedo, para esquecer esse senso de cuidado. Aqui, vivemos sem uma medida diante dele, completamente “descuidados”. Ou, em reverso, “descuidantes”.

Aliás, esse senso de medida era entrevisto também como uma sorte de “lei” de fora para o verso. Ou seja, uma ética que veio de fora e se aninhou na letra. Uma poética que podia abstrair da palavra as duas primeiras letras. Uma das primeiras coisas que um olho educado seguia e segue em poesia era e é, naturalmente, a perspicácia que está posta pelo poeta ao fim de cada verso. Em outras, simples, palavras: como a/o poeta acaba a linha. Como ela ou ele propõe o final de cada linha.

Nos verdadeiros poetas esse senso de concluir a linha (para retomá-la depois, obviamente) segue pleno de verve, espontaneidade, sabedoria. Reforça uma espécie de agudeza sintática. Um senso de medida. Uma “lei”. Esse senso de extensão guarda também um sentido moral. Um cuidado. Daí que se empregue para alguém que cai em desgraça junto a uma comunidade a expressão: “Fulano não tem lei”. Ou, “é um sujeito sem lei”, para designar alguém de caráter questionável ou mesquinho. Alguém que não tem “medida” no sentido de se impor limites pessoais. No sentido de vazar um mal-estar para os demais, para quem está à volta. Aqui, praticamente todas as metáforas raspam algo que tem a ver com espaço e com auto-controle:

“Não tem domínio de si” [não sabe até onde vão os seus domínios territoriais e começam os do próximo. Não sabe até onde acaba seu corpo].

“Perdido” [ou seja, sem orientação espacial].

“Perverso” [virado às avessa; feito em desacordo com as regras e os costumes (ou leis – um monstro, com a pele por dentro e as nervuras por fora)].

“Selvagem” [que vem da Selva, onde não há normas, senão a “lei da selva”, "a lei do mais forte", etc.]

A poesia longe de ser um deslimite da imaginação, é um estado mais próxima da ascese, de um limite – em grego, a palavra “ascese” quer dizer “exercício”. E assim o poeta seja alguém que proponha um limite. Uma medida. Daí que mesmo para o poeta da época do modernismo mais radical, da época da vanguarda e dos “ismos”, a ideia do “verso livre” tenha assomado como problemática ou repelente. Afinal, só se pode cuidar do que tem limites. Do que tem medida. Do que conforma um corpo. Um todo. Como um poema. Como o humano corpo. Desde sempre.

Tome-se qualquer dicionário sério em nosso idioma. Nele se perceberá, entre outras coisas, que “aborto” é sinônimo de “monstro”.



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Sem locais não haveria palavras

[s/i/c]




Um hot dog sobre literatura e locais, onde o leitor decide entre o que pão e salsicha



1. Em

Em Rosa, toda literatura é uma espécie de literaterra.

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2. À minha volta

“Escrever sobre o que estava à minha volta”

[Amos Oz]

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3. Não é apenas um lugar, é uma ideia.

"Nova York não é apenas um lugar, é uma ideia. É essa ideia de uma cidade totalmente receptiva à chegada de imigrantes, onde qualquer um pode ser um nova-iorquino". 
[Paul Auster]



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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um conto, um porto, um ponto de partida

Aspecto de Camocim, em maio de 2008



O Prefácio do Mar


Em algum lugar, que prefiro não buscar com sistema, na obra de Simone Weil, ela nos diz que “a cada forma de ser da alma humana corresponde algo físico. À tristeza corresponde água salgada nos olhos”.

Posso tomar isso como ponto de partida. Como porto de partida para buscar entender minha relação com o mar. Nascido diante de uma água que é quase mar, mas não chega a ser mar, porém um prefácio de mar – porque o estuário, a foz de um rio – minha relação com o mar nunca foi das mais plácidas. E no entanto, algo de uma centralidade e presença absolutas para minha constituição não só como escritor – o que, convenhamos é algo menor – mas como gente.

É algo menor como escritor, porque como nos diz Nicolas Bouvier: “não é o fato de ser escritor que nos propõe as questões, mas o fato de ser”.

Então, uma das coisas que mais aprecio vem do fato de provir de famílias, tanto pelo lado materno, quanto paterno, que, ao mesmo tempo extraordinariamente litorâneas - onde a água, seja salgada, doce ou salobra verte-se por todos os poros - gostam de contar histórias. E onde o senso do passado é quase espontâneo, ininterrupto como o bater das ondas. O regime das marés. É como respirar ou fritar um ovo. Desconhecendo qualquer antagonismo em relação ao presente. Uma sorte de continuidade. Em que os mortos nunca estão totalmente mortos. Do contrário, assomam bastante suplementares em relação ao agora.

Nos únicos dois anos em que meu pai passou, por dever de ofício, em uma cidade longe do mar, longe das marés, da rebentação, ainda solteiro, foram torturantes para ele. Nunca que ele disse isso abertamente. Mas isso de dizer coisas abertamente não é de seu feitio. É preciso pescar esse mal-estar a partir de brechas em anedotas e pequenos fatos, que narra. E nessas anedotas há uma espécie de tempo cristalizado. Mas cristalizado a partir de referências tão concretas – da paisagem ou da atmosfera das cidades de ao final da década de 50 – que para bom entendedor, meia-palavra.

Desse senso de contração do tempo em pequenas anedotas cristalizadas – relacionáveis entre si, notáveis pela sabedoria ou humor latentes – e dessa contação de micro-histórias, em ondas sucessivas, em diferentes épocas, sobre diferentes aspectos mas envolvendo quase sempre esse prefácio de mar, essa mesma paisagem ou algo relacionado ou relacionável à ela – deriva um mar de histórias em família. O mar de histórias que me forneceu a vontade de recontá-las. Porque sentia a necessidade de, ao refletir sobre elas – por senti-las minhas, no fim das contas –, tentasse delas retirar algumas gotas. Algumas gotas de algo que está completamente fora de compasso: uma espécie de moral. Ao modo das fábulas.

Talvez não se deva, aqui, falar de um mar de histórias. Porém mais propriamente de uma foz de histórias. De um estuário de histórias. A evocação desse passado profundamente enganchado numa circunstância ao mesmto tempo local, mas que sempre impele para além, foi o que me abriu um caminho. Para um devir não só abstrato, mas geográfico, extremamente concreto. Pois que não se refere só ao presente ou ao devir, mas sobretudo aos tempos passados, vivificando-os. Mas também – e isto é pedra angular – a algo alcançável pelo olhar, pelos sentidos. Um prolongamento material dessas histórias.

Daí que eu possa perfeitamente pensar o porto de Camocim, onde nasci, sem mim. Ou seja, quando eu ainda não existia. Não era. Até porque na limpidez de suas praias, nos tempos da infância, havia um resto desse “não era” bastante visível; depositado na forma de areais, seixos, conchas, búzios, vieiras, cracas, ostras, recifes, corais que estavam lá, às camadas, há séculos, como nos sambaquis, muito antes de eu nascer.

E havia também uma diferença entre o prefácio de mar, que era o estuário do rio, e o mar aberto, o mar oceano.

As águas da foz do rio, como limiaridade composta – ao mesmo tempo salgada e doce (salobra para todos os efeitos) – eram ao menos tão importantes para mim quanto o vasto mar aberto. Entre outras coisas por me ligarem a uma paisagem exuberante que se encontrava na outra margem, conformando, assim, do contrário, mais algo que me aproximava ao modo de estrada dessa paisagem – de dunas e mangues, de vastas luas cheias erguendo-se a leste sob a bela espessura dos mangues ao prenúncio da noite – do que algo que me separava disso tudo. E tendo a entendê-la como uma paisagem que ensina a sintaxe do local por contraposição ao Atlântico, que se abre para a África e a Europa – e, logo, para um mundo mais vasto, fora do alcance da minha vista. Perceptível, num primeiro momento, apenas pela mediação da foto, do filme, da enciclopédia, do dicionário e, após eu ter cinco anos, claro, da TV.

O mar aberto era o livro aberto. O outro lado do rio era o caminho concreto, ao alcance da fala. Esse prefácio de mar era um caminho. Um caminho para aquilo que qualquer camocinense designava como O Outro Lado. Como se, aqui, se tratasse do outro lado do mundo. Ou da própria vida.

E, claro, o modo como se chegava até esse outro lado, esse avesso, esse contrário, onde sequer havia cidade, onde tudo era natureza, uma “não-cidade”, dava-se através das águas. E a forma de chegar até ele, sua mediação, não era o livro – como no caso do mar aberto - mas a canoa. A canoa que porta o nome de uma mulher. E, portanto, guarda todo o mistério do mundo. A despeito de gerá-lo. Ou por isso mesmo. Uma vez que as causas últimas das coisas são indevassáveis.


No fim de tudo, pode-se concordar com Gérard de Cortanze quando ele nos avisa que um "escritor se mobiliza para pisar o país do silêncio: o da reconciliação com suas origens e suas leituras da infância". 


Do anyone need to go further?





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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vai ficar tudo bem, agora

[s/i/c]




Sehr gut, danke!


Wie gehts? – disse ele.
Sehr gut, danke! Und du?– ela retrucou; e abriu uma daquelas gargalhadas, em soluço, onde algo um tanto debochado, uma cifra, parecia vazar mais alto que água vertendo-se pelo sumidouro da caixa d'água em torre, aos fundos do Departamento de Letras Germânicas.
Abraçaram-se. Beijaram-se na face.
Uma coca na cantina? – insinuou.
Por que não? – ela disse.
Adiante de um bosque de mangueiras, a cantina da Casa de Cultura Alemã era povoada por garotas e garotos um tanto andróginos, já àquela altura. Mas eles não se sentiam deslocados ali. Era um recanto agradável, um pouco acanhado talvez. E, ainda assim, tinha seu charme. Uma pequena ilha de sossego de manhã mais cedo, que seguia ganhando gente até a volta do meio-dia. O mesmo acontecia à tarde. Vazia ao começo, mais atropelada à rasura da noite.
Ela tinha algo de traços índios no nariz, e todo o resto era europeu. O cabelo castanho escuro. A compleição frágil. Os olhos castanhos onde nadavam tenras algas de cinza em um vinco de verde. As extremidades quase sempre adoravelmente plissadas, muito de tênue, por um sorriso que também lhe abria na bochecha uma pequena cova. 
Joel sentiu nela uma certa palidez inusual. E seu corpo emitiu um ligeiro tremor quando se abraçaram. Não era comum se encontrarem, porque estudavam em diferentes horários. E ela tão-só viera mais cedo, na manhã, para uma prova de segunda chamada.
Ao passarem pela varanda, defronte a pequena biblioteca, extremamente limpa e bem ordenada, lhe veio a mente a única vez em que, um tanto fortuitamente a beijara. Demoradamente, aquosamente; várias, vezes várias. E restaram para a noite. Como namorados. À margem do riacho sob a meia-lua. Tão jovens e puros. Tão desatadamente em paz. Ela soergueu os cabelos com ambas as mãos. Ele desabotoou com vagar a blusa dela.  E, então, ele desfez o fecho do corpete. E veio o mais.
Depois, ele deslizara o dorso dos dedos pelas maçãs do rosto dela onde a covinha se abria desde o infrequente sorriso. E, com deliberado vagar, escorreu todo o torso dela com a ponta dos dedos. E a viu dormir. E à distância de bem menos de um grito, ouvia-se a água arrebentando-se em respingos sobre pedras limosas. E havia bromélias à volta.
Jovens são inconsequentes. Beijam-se um bocado. Tocam-se muito. Por qualquer dá cá a palha. Talvez por ainda não saberem se vida é para amar ou para tocar. Ou para se gastar.
Que dizer? Para se gastar no toque? Para se desgastar?
Um amigo comum a ambos compusera uma canção cuja letra continha essa indagação, em alguns versos até bem bem medidos; com outra arrumação na sintaxe, que ele não conseguia lembrar. Mas que insinuava a analogia da epiderme, digamos, com a superfície de uma estátua, fosse gesso, cobre, argila, gelo. Qualquer matéria, qualquer tecido que se desgasta ao toque. E, no entanto, a indagação até parecia precoce. Pois se tem muita pressa aos vinte. Muita cegueira aos vinte. Muitos afãs. Muitos morcegos. Muitos modos de radar. Muitos amores cegos. Muita nódoa no sangue. Muita sede. Muito medo. Muita angústia. Muitos muitos. É quando pote é medida pouca para conter o de beber no prazo de um dia. E haja Angst.
Sentaram-se na pequena cantina, semi-deserta, cercada por uma alameda de crótons.
Você foi a Jeri na Semana Santa? – indagou ele.
Que Jeri que nada – disse ela – tive uns compromissos em família: o batizado de minha sobrinha, tão fofa!
Ah, essas coisas de família me deixam meio alérgico – ele disse, mordiscando a empada de azeitonas e carne moída.
Joel, você é um desajustado – ela ripostou – se não está nos barzinhos meio às quedas, vive trancado em casa, lendo. Lá isso é vida!
Ele fixou todos os tons de verdes e grises nos olhos dela, seu nariz comprido e ligeiramente oblongo ao centro, afilando-se na extremidade, o que lhe emprestava a aparência de uma jovem estudante francesa em uma tomada Nouvelle Vague qualquer, e tascou:
Ora, ora, quem fala em desajuste, Flávia Jaguaribe Telles!
Fez isso a depor um acento proposital no Jaguaribe, escandindo-o em sílabas frouxas, porque sabia o quanto esses sobrenomes tomados de empréstimo aos indígenas por enfatuados patriotas no final do sec. XIX soavam tão expressamente kitsch. E ele queria feri-la um pouco. Em ironia.
Talvez por uma certa, avulsa, noite. Noite não continuada em outras noites, no ano anterior, em uma cidadezinha qualquer do interior, onde um bando de amigos mochileiros se atacara atrás de uma queda d'água. Os violões. A roda. O pequeno acampamento. Alguém cantando: “Feira moderna/ O convite sensual/ Ah, telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal...”. E os outros em coro, imitando em voz grave e um pouco desentoada o belo rife do contrabaixo, enquanto o fogo crepitava sobre a lenha espanado por um vento que avermelhava os feixes já encarvoados...
De repente, um estrondo se fez ouvir para as bandas do pátio das Letras Vernáculas. E, em impulso, ele desviou o olhar às costas.
E então, em seguida ao estampido, que lhe prendera os olhos, ouviu outro: o de soluços altos, fundos. De se perderem em resfôlegos. Chorava tão compulsivamente que ele, até então sentado à sua frente, tomou a cadeira do lado e a abraçou.
Ela reclinou sua cabeça sobre seu ombro, depois sobre seu peito. Ergueu os pés e pôs a ponta dos calcanhares à beira do assento, quase em posição fetal. E assim se foi um lastro de minutos. Até ela recompor-se.
E já refeita, sobre o silêncio dele, disse:
Lembra aquela noite?
Eu nunca esqueci aquela noite.
Senti como se você estivesse dentro. Aqui dentro. Inteiro. Não apenas, você sabe... Você inteiro, dentro de mim. Era forte demais. E eu precisava viver. Mais leve.
Ora, vamos, Flávia, eu sei. Foi só uma noite – ele disse, em sussurro, por contraposição ao tom dela. E também em oblíqua indicação. Pois ouvira a proprietária da cantina retornando aos resmungos:
Outra vez esse problema com o transformador da rede elétrica. Eles nunca que consertam essa porra direito. Tá faltando energia. Por que isso só tem de acontecer aqui na Letras! Minha Nossa Senhora! – e parecia tão contrariada que sequer notou a comoção de Flávia. E Flávia prosseguiu:
E agora você fica de piada com meu nome – disse ainda de lábios franzidos e umidade nos olhos. Você não sabe de nada. Não sabe o qu'eu tenho passado.
Tenha calma, Flávia. Passou. Vai ficar tudo bem, agora.
Não, Joel, não está nada bem. Não vai ficar nada bem. Você não sabe porque eu não fui a Jeri. Não foi por nenhum compromisso de família. Houve um batizado, sim. Mas foi até antes da Quaresma.
O vento passou pela fieira de crótons. Gotas esparsas de água caiam do sumidouro, na pequena torre da caixa d'água. Ele acendeu um cigarro, que depois passou a ela. E depois de alguns minutos, medindo palavras, disse:
Repare, você não precisa se justificar. Saiba...
Eu fiz um aborto – ela disse.
Ele abraçou-a mais forte e rente. E quedaram assim por um não sei quanto tempo. Até ela repôr os pés ao chão. E, depois, de afastar-se lentamente dele jogar o cabelo longo, solto para trás e, após, para um dos lados do pescoço:
O pai era o Cláudio.
Sei, o Cláudio Jorge Garcia. Vocês estavam juntos faz uns meses, não?
É. Mas acabou.
Os dedos dela se contraíram sobre a ardósia do piso. Ela toda parecia crispada. Enrolada sobre si. Como um passarinho após uma borrasca. Como alguém que havia passado três dias no ventre do Leviatã. Ao menos tão contraída e tensa quanto seus dedos próximos ao par das sandálias descalçadas. Seu corpo todo contraído no empuxo daquela crispação de dedos do pé. Ele encheu o copo de soda. Ela apenas encostou os lábios à borda em gole raso.
E então levou a mão em punho cerrado à boca. Pigarreou. E comprimiu os olhos num último esforço para reaprumar-se de vez. Houve um fundo suspiro.
Porra. Nunca, nunca que dão um jeito nessa merda. Só quando privatizar – resmungou a dona da cantina enquanto esfregava um trapo úmido sobre o pequeno balcão simples, de azulejos.
As gotas d'água prosseguiam resvalando pelo limoso sumidouro na torre da caixa d'água, que semelhava um pombal. E onde da argamassa, á direita de uma janelinha em arco, sob o beiral, havia aflorado um pequeno mamoneiro.

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