quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SAUDADE

Richard Long, River Avon Mud Drawings, 1989




A Sétima Palavra


De acordo com certo site da BBC, “saudade” é a sétima palavra mais difícil de traduzir. A enorme carga emocional que porta a converte numa dessas palavras míticas, que praticamente definem, sendo elas próprias líricas, o que um idioma tem de épico.

Pode-se conceber saudade como um modo telepático?

Talvez. Há aqueles dias em que se segue tão encharcado dela que bem se suspeita que existe uma sorte de comunicação perene, secreta, inefável entre o que a sente e seu “objeto”.

O verbete da Wikipedia em Inglês sobre “saudade” é um bocado interessante:


Entre outras, o termo é “once described as 'the love that remains' or 'the love that stays' after someone is gone”. [“uma vez descrito como 'o amor que permanece' ou 'o amor que fica' depois de alguém se ir”].

Ou ainda:

“a deep emotional state of nostalgic longing for something or someone that one was fond of and which is lost. It often carries a fatalist tone and a repressed knowledge that the object of longing might really never return”. [um profundo estado emocional de anseio nostálgico por algo ou alguém a quem se era afeiçoado e que foi perdido. Com frequência ela porta um tom fatalista e uma noção reprimida que o objeto de anseio pode de fato jamais retornar”].

Ou ainda ainda:

“It can be described as an emptiness, like someone (e.g., one's children, parents, sibling, grandparents, friends) or something (e.g., places, pets, things one used to do in childhood, or other activities performed in the past) that should be there in a particular moment is missing, and the individual feels this absence. In Portuguese, 'tenho saudades tuas', translated as 'I have saudades of you' means 'I miss you', but carries a much stronger tone. In fact, one can have 'saudades' of someone with which one is, but have some feeling of loss towards the past or the future”. [Pode ser descrita como um vazio, como alguém (p. ex., os filhos, pais, irmãos, avós, amigos) ou algo (p. ex., lugares, mascotes, coisas que se costumava fazer na infância, ou outras atividades empreendidas no passado) que pode não presentificar-se num determinado momento, e o indivíduo sentir sua falta. Em português, 'tenho saudades tuas', traduzido como 'I have saudades of you' significa 'I miss you' [NOTA: lit. “eu te perco”], mas carrega um tom bem mais intenso. De fato, pode-se ter saudades daquele(a) com quem se está, mas nutrir certo sentimento de perda em relação ao passado ou ao futuro”].


* * *

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma forma de

Capa da Edição Nº19 da revista Zunái


Novo Número de Zunái

Já se encontra online, à disposição de leitores mais, digamos, atentos, exigentes, "do ramo" - como gostosamente dizia entre felinos Haroldo de Campos - o novo número da revista Zunái.

Zunái é editada em São Paulo pelo poeta Claudio Daniel com a preciosa colaboração da desenhadora gráfica Ana Peluso. Destaco que neste número há, entre outros regalos, uma pequena antologia de poetas de Fortaleza, organizada e rapidamente prefaciada por Diego Vinhas - que se vem tornando nosso antologista de plantão.

Zunái é também uma forma de generosidade. Em especial ao lançar em suas páginas o trabalho de jovens poetas ainda desconhecidos de um público mais amplo. Tarefa que merece só aplausos. Mas há de um tudo na revista: originais de poetas já estabelecidos, ensaios, traduções, entrevistas, etc.

A revista já segue para seu número 21.

E, da minha parte, sinto-me particularmente lisonjeado por participar duplamente nesta edição: i. com novos poemas na antologia de poetas cearenses organizada por Diego - e que difere ligeiramente, em termos de nomes, de sua escolha editada em livro (Meio-Dia) - bem como ii. da seção de traduções, propondo algumas versões para poemas de Philip Larkin.

Longa vida à Zunái, essa boa-ideia!

O linque é como segue:


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Bruscos lampejos de pureza e calma

[s/i/c]


'La douceur des êtres'

La douceur des êtres est dans ces brusques éclairs de pureté et de calme, qui viennent trouer la nuit de la solitude. La compréhension, même au-delà des mots, même au-delà de l'intelligence, la compréhension qui ne s'exprime pas mais qui se sent, la liberté terrible qui vient à la fois de l'autre et de moi-même. Ce miracle, seule la lucidité peut l'opérer. Enfin je communique, enfin, je partage. Je sais que je suis aidé.
Si l'art a une force, s'il a une vertu, ce n'est pas parce qu'il nous donne à admirer le monde, ou qu'uil nous offre le clés du mystère. Ce n'est pas non plus parce qu'il nous révèle à nous-mêmes. A quoi servirait d'être révélé dans un univers sourd, aveugle et muet? Non, la force de l'art, c'est de nous donner à regarder le mêmes choses ensemble.
Un tableau, un film, un livre, en soi ne sont rien. Ils n'existent que dès l'instant de leur partage. Et la communication qu'ils permettent  est moins une communication du langage (ou des signes) qu'une communions des mouvement de la vie. C'est une orientation, une indication utile. L'artiste est celui qui nous montre du doigt une parcelle du monde. Il nous invite à suivre son regard, à participer à son aventure. Et c'est uniquement lorsque nos yeux se portent vers l'objet que nous sommes soulagés d'une partie de notre nuit. Elle n'est qu'un moyen d'accéder à eux, un moyen parmi tant d'autres.
[…]
L'art est sans doute la seule forme de progrès qui utilise aussi bien les voies de la vérité que celles du mensonge.


J.M.G. Le Clézio [in L'extase materielle, © copyright , Éditions Gallimard, 1967]



'A Brandura dos Seres'

A brandura dos seres embute-se nesses bruscos lampejos de pureza e de calma, que vem a furar a noite da solidão. A compreensão, mesmo para além das palavras, mesmo para além da inteligência, a compreensão que não se exprime mas que se sente, a liberdade terrível que vem à sua vez do outro e de mim mesmo. Esse milagre, tão-só a lucidez pode operar. Enfim eu comunico, enfim partilho. Sei que sou ajudado.
Se a arte possui uma força, se possui uma virtude, não é porque nos faz admirar o mundo, ou nos oferece as chaves de seu mistério. Não é tampouco por nos revelar a nós mesmos. De que serve ser revelado em um universo surdo, cego e mudo? Não, a força da arte é a de nos fazer olhar as mesmas coisas juntamente.
Um quadro, um filme, um livro em si nada são. Eles só existem no momento em que são compartidos. E a comunicação que eles permitem é menos uma comunicação de linguagem (ou de signos) que uma comunhão de movimentos vitais. É uma orientação, uma indicação útil. O artista é aquele que nos aponta com o dedo para uma porção de mundo. Ele nos convida a seguir seu olhar, a participar de sua aventura. É apenas quando nossos olhos se dirigem ao objeto que somos desafogados de uma fração de nossa noite. Jamais a obra de arte será maior que os homens. Ela não é mais que um meio de chegar até eles, um meio dentre tantos outros.
[…]
A arte é sem dúvida a única forma de progresso que lança mão bem melhor das vias da verdade que da mentira.



GLOSA

A observação é precisa. Inclusive na utilização de duas palavas problemáticas quando se trata de arte: “progresso” e “comunicação”. Mas para ambas, como vemos, há ressalvas. Há a busca de uma contextura precisa que enluva-se na queda do argumento. Tarkovski dizia não existir progresso em arte. Porém, aqui, Le Clézio nos propõe um “progresso” mais em relação à verdade. A um sentido de evolução paritária à verdade. Quanto à “comunicação”, Benjamin nos alerta que se um tradutor de poesia se atém a traduzir apenas o sentido, isto é, se ele se detém somente no reino da comunicação, ele acaba por verter algo não essencial, pois que o essencial "é o misterioso, o imperscrutável, o poético". É justamente o que Le Clézio diz com outras palavras: “comunicação” sim; mas diversa, digamos, da comunicação no sentido jornalístico. Do contrário: “comunhão de movimentos vitais”.

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And now we rise, and we are everywhere

Capa do primeiro álbum de Nick Drake, Five Leaves Left, 1969


Acerca de Nick Drake


O mais famoso dos Drakes é o corsário. Um pirata a serviço da coroa inglesa, no sec. XVI: Francis Drake. Tantas aprontou, inclusive apresando preciosas cargas de navios portugueses e espanhóis, que recebeu o título de “Sir” da Rainha Elisabeth I. Morreu de disenteria, ao largo de Porto Rico.

Mas há um outro Drake famoso, afora o bucaneiro: Nick Drake, um músico de arte longa e vida breve, morto aos vinte e seis anos, em 1974. Era detentor de uma forma única de tocar o violão. E tocá-lo com arpejos que exploram todas as cordas do instrumento fazendo-o soar como se mais de um violão estivesse em curso. A voz é de extensão pequena, levemente rouca e extremamente bem empregada – daí que ele fizesse uso de várias afinações alternativas ao violão ou frequentemente lançasse mão do capotasto, para "achar" tons que fossem mais convenientes à voz.

Suas composições são únicas, despojadas, minimalistas. Um tanto quanto retilíneas. Ou seja com um pulsar de violão que segue do começo ao final permitindo-se apenas sutis nuances de dinâmica. Algumas assomam inefavelmente marcadas por uma sorte de nostalgia aparentada com nossa saudade. Mas não. Ainda não é saudade. Porque saudade tem um objeto: um tempo, um afeto, um local, etc. Os alemães possuem um termo mais preciso para o que emana de algumas dessas canções singulares de Drake: Sehnsucht.

Sehnsucht designa uma sorte de "saudade", de nostalgia pelo que ainda não é, ou mesmo não chegou a ser. O termo é preciso e pode ser resilienciado tanto à obra quanto à vida de Drake. Ele morreu de uma overdose de tabletes anti-depressivos pouco depois de, por meio de grande esforço, haver gravado seu último disco. Dizem que num estado físico já deplorável. Tão precário, que ele sequer conseguia tocar e cantar ao mesmo tempo.

Drake era, no entanto, um músico compulsivo. De praticar o instrumento à exaustão. E bem pode-se perceber ecos dessa pesquisa exaustiva, entre as seis cordas, na música de gente como Eliott Smith, por ilustração. Com a ressalva de, em geral, as baladas de Drake soarem impressivamente líricas e , algo, sombrias, como no caso de “Day is Done”, onde há um belo arranjo de cordas que bem lembra a perícia com que George Martin escreveu o arranjo de “Eleanor Rigby”. No caso, o arranjo de “Day is Done” foi escrito por Robert Kirby, amigo e colaborador de Drake. E constitui, em verdade, o primeiro esforço em comum de ambos.

Nick Drake só teve tempo e saúde para gravar 3 álbuns. É difícil decidir qual deles é o melhor. E, apesar de serem respeitados e admirados por seus pares músicos já à época de seu registro, fins dos sessenta a meados dos setenta, os discos venderam tão modestamente que sequer permitiram a Drake viver um pouco mais confortavelmente dos royalties de vendagens. Durante um de seus últimos invernos, por consequência, mal tinha dinheiro para comprar um  par de sapatos novos. 

Sua timidez e estranheza eram folclóricas. Assim como a incapacidade de se comunicar. E uma pródiga dificuldade de se entender com as mulheres. Seu suicídio deu-se poucos dias depois de romper com uma namorada.

A fama foi póstuma. E talvez merecidamente póstuma. Drake era um espírito conturbado. Abusava das drogas. Gostava da solidão. E cultivava hábitos estranhos, como dirigir, sem rumo, horas a fio, até regiões desconhecidas. Bem apessoado, provindo de uma família de alta classe-média do belíssimo condado de Warwickshire, no coração da Inglaterra, era também um ávido leitor de poesia.

Daí que alguns críticos aproximem suas letras de poetas tais como William Blake ou John Keats. Mas a analogia parece um tanto forçada. As letras de Drake, embora bem elaboradas, são simples – o que, mais uma vez ressaltamos, não quer dizer “fáceis”. São quase transparentes. Nada mais distante das mirabolantes metáforas do autor de “The Tiger”, por escarmento.

Duas de suas composições, que tendem ao folk, são quase antíteses. Inclusive temporais, pois se encontram em pontos antípodas: ao começo e ao final de sua curta carreira. Em “Day is Done”, do primeiro disco, descreve-se um dia findo, com o sem remendo de suas frustrações e percalços. Com as horas que não podem ser trazidas de volta e retrabalhadas de uma outra forma. Já em “From the Morning”, do último, há a sensação de inauguro matinal que parece estender-se com tamanha amplitude e transparência que soa quase como um hino ressurrecional.

De fato, “And now we rise/ And we are everywhere”, um trecho da letra de "From the Morning", é o que se encontra gravado em epitáfio na pedra tumular de Drake. O túmulo localiza-se na minúscula cidade em que passou a maior parte de sua vida: Tanworth-in-Arden. E, embora ele às vezes proponha como ambiente de suas músicas o cinzento norte da Inglaterra, como em “Northern Sky”, Drake provem desse jardim que é o Warwickshire.

A mesma região, aliás, de um certo bardo que escreveu em sua última peça que "somos o tipo do estofo de que são feitos os sonhos".

* * *

domingo, 14 de novembro de 2010

Eu vivo dentro de estilhaços: Michaux

William Wegman, Crow/Duck, 1970




Mon sang

Le bouillon de mon sang dans lequel je patauge
Est mon chantre, ma laine, mes femmes.
Il est sans croûte. Il s'enchante, il s'épand.
Il m'emplit de vitres, de granits, de tessons.
Il me déchire. Je vis dans les éclats.

Dans la toux, dans l'atroce, dans la transe.
Il construit mes châteaux,
Dans des toiles, dans des trames, dans des taches.
Il les illumine.


Henri Michaux




Meu Sangue

O caldo de meu sangue dentro do qual chafurdo
É meu cantor, minha lã, minhas mulheres.
Ele não tem crosta. Ele se encanta, ele grassa.
Ele me enche de vidraças, de granitos, de cacos.
Ele me retalha. Eu vivo dentro de estilhaços.

Dentro da tosse, dentro do atroz, dentro do transe.
Ele constrói meus castelos,
Dentro da teia, dentro da trama, dentro das nódoas.
Ele as ilumina.


* * *

sábado, 13 de novembro de 2010

Dentro da ilha de enxofre será sua memória: Michaux

David Bomberg, Barges, 1919




Qu'il repose en révolte

Dans le noir, dans le soir sera sa mémoire
dans ce qui souffre, dans ce qui suinte
dans ce qui cherche et ne trouve pas
dans le chaland de débarquement qui crève sur la plage
dans le départ sifflant de la balle traceuse
dans l'île de souffre sera sa mémoire.

Dans celui qui a sa fièvre en soi, à qui n'importent les murs
dans celui qui s'élance et n'a de tête que contre le murs
dans le larron non repentant
dans le faible à jamais récalcitrant
dans le porche éventré sera sa mémoire.

Henri Michaux


O Que Repousa em Revolta

Dentro do breu, dentro da noite será sua memória
dento do que sofre, dentro do que sua
dentro do que busca e nunca que acha
dentro da alvarenga abicando que crava à praia
dentro do zunir de saída da bala tracejante
dentro da ilha de enxofre será sua memória.

Dentro daquilo contendo em si sua febre, não cercado por paredes
dentro daquilo que se lança e só bate cabeça contra paredes
dentro do larápio sem remorso
dentro do frágil nunca ressentido
dentro do pórtico desventrado será sua memória.

* * *  

Não me negue escala em teu nome

Gabriel Orozco, Pelota en agua, 1994



Ah, não

 -  
Ah, não me deixe a
ver navios, ah não me
insulte; ah, não me olhe
como um abutre; ah não
me negue escala em teu
molhe; ah, não me olhe.



* * *

O que retorna em gratidão

Gabriel Orosco, 2000


Onde estão os outros nove?

-                                                                              A Maria Novais


a língua está
presa como as mãos
de um falsário. Mas
a palavra persiste
digna de fé:
suor, os lábios do
silêncio, grãos de
trigo. Teus metacarpos

onde o livro repousa
como uma partitura
na estante e à altura
do improvável milagre

Se morrermos com
Ele, com Ele
devemos viver
com Ele
devemos reinar

Ou esforçar-se para ser

o que retorna
em gratidão


* * *

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pêssegos se desmantelam

[s/i/c]



ao que cala

o elevador sobe. sobe sobre o panorama do shopping. há uma cárie na cidade, e dentro dela todos os gramas de medo. há um mamute no mercado, no ventre dele o teu filho. há uma forma de ter rei: outorgar a carta ou o nada. taças e jarras tremem na cristaleira à passagem do mamute. é quando equilibra-se a lágrima na ponta do queixo. e ela te nina, tão brandamente. e, se o acaso ao caso fosse, viria o sono, viria a sina, finos como o cristal. vítreos como o rio. rio depois das chuvas. algo em que se fiar. e dentro do sonho haveria um menino pedindo para sair. um menino que ainda não aprendeu a mentir direito. e está preso no ventre do mamute. no poço da cárie de teu medo. na barriga dos que têm um rei. na carta não outorgada. no leito do rio depois das chuvas. em abril de dois mil. de dois mil e nada. subindo pelo elevador panorâmico. na contraluz do néon. na cristaleira do oco. na cristaleira do sonho. na cristaleira da veia. e mesmo nessa redoma, ele jamais verá a luz. ele apenas demora. um pouco. e era só para dormir. mas quem está aí? andares. e logo tudo se desfecha. os ferrolhos do corpo destravam. pêssegos se desmantelam. o peixe no olho ao ar livre.

e foi quando ele e o sangue se tornaram um só.


* * *

Acima de nossas mútuas consentidas metástases: Celan

Joan González, Couple dans le sous-bois,1901



Largo


Gleichsinnige du, heidegängerisch Nahe:

über-
sterbens-
groß liegen
wir beieinander, die Zeit-
lose wimmelt
dir unter den atmenden Lidern,

das Amselpaar hängt
neben uns, unter
unsern gemeinsam droben mit-
ziehenden weißen

Meta-
stasen.

Paul Celan



Largo

Converges na ideia tu, a andar por perto ao charco:

além-
morte-
ajustados jazemos
juntos, o intem-
poral enxameia-se
sob tua recendente pálpebra

o par de melros pende
lado a lado de nós, acima
de nossas mútuas con-
sentidas

metás-
tases



* * *

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um senhor meio: Oz

Vincent van Gogh, Paisagem com Neve, 1888


Amos Oz
Conhecer uma Mulher [Conoscere una donna, trad. de Alessandro Guetta, Feltrinelli, Milano, 2000]


Difícil aferir os méritos de um escritor quando ele não é lido no original.
Menos mal se a tradução é italiana. Os italianos, historicamente, desenvolveram a melhor escola de tradução da Europa. Uma que vem colhendo frutos desde a Renascença e, entre outros, é responsável pelo lema mais célebre nos domínios da tradução: “Traduttore, traditore!”
O certo é que Amos Oz escreve em hebraico. E nem todo mundo sabe hebraico. O hebraico é lido da direita para a esquerda e possui uma estrutura oriental e um alfabeto próprio onde não há vogais, ao menos no hebraico clássico. No hebraico moderno convencionou-se uma combinção de pontos e traços para designá-las, chamada niqqud. Além disso é a linguagem da maior parte da Bíblia. E da parte da Bíblia que é a mais essencial para a religião judaica, os cinco primeiros livros, a Torah
E isso de ser a linguagem da Bíblia pode ser algo intricado de manejar. Um dilema. Pois há, por exemplo aquela elevadíssima poesia que se pode encontrar em Isaías ou Jeremias; ou nos Salmos. E então há que estar vigilante para que uma volta no quarteirão até a banca de revistas e limpar o olho com a visão de uma bela mulher não reverbere esses ecos monumentais. Que um “oi, tudo bem?”, o comezinho e o cotidiano não ecoem como dentro da nave vazia de uma majestosa catedral gótica.
Além disso, o hebraico passou séculos como língua morta – a exemplo do latim ou do grego arcaico. E só foi reavivado no sec. XIX e, em quase sequência, incentivado pelo movimento sionista.
Amos Oz é um escritor bastante prolífico. Mas ao se pronunciar o nome de Oz, de imediato vem a mente Meu Miguel ou Meu Michael, o seu romance de 1967 que é lido como uma metáfora política. E é também a obra mais ressonante de Oz. Isso, a despeito de certa contrariedade do autor. Para quem a trama apenas narra a história de um amor malogrado a partir de um ponto de vista feminino.
Aliás, até os nomes próprios portam esse eco bíblico. Sendo El um dos nomes de Deus em hebraico, Miguel quer dizer “Quem como Deus?”
Mas não é sobre Meu Miguel que versaremos, senão sobre Conhecer uma Mulher, que é de 1989. O protagonista de Conhecer uma Mulher é um agente do serviço secreto Israelense. E o livro é um tanto quanto seu trabalho de luto pela perda da esposa. Uma cantiga de viúvo. E uma cantiga de viúvo tão bonita quanto o poema de Drummond – de resto musicado por Villa-Lobos:

CANTIGA DE VIÚVO

A noite caiu na minh'alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.
Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada...
acabou.

É este o motivo do Conhecer uma Mulher, de Oz. Yoel, o agente secreto, é de um temperamento irritantemente lógico e metódico. Furtivo, lacônico, esquivo. De medir cada sílaba, cultivar grande silêncio. Deixar esse canteiro de silêncio germinar. E cada uma dessas flores de silêncio, em geral, desabrochar em pétalas de ruminação. Ou seja, de como teria reagido a esposa morta numa situação xis de um aqui e de um agora onde ela não é mais. Ou de reminiscências dela: gestos, gostos, posturas, objetos, roupas, fotos...
Reiteradas vezes Oz tem dito que um de seus assuntos favoritos é a família. A família como uma instituição que não fez água, e está aí há milênios. Isso, por igual, tem a ver com uma visada mais judia que cristã, se vista a partir de um determinado ângulo. E esse ângulo referenda certa crença de Oz. Pois Para Oz o “o próximo” é algo abstrato e lato demais para ser, de fato, amado. E o que amamos está dentro do círculo de giz dos afetos e das amizades. Com o destaque de que o vero centro desse círculo de giz traçado no cimento irregular da calçada é a própria família. A que não se escolheu pertencer. E a que se optou por formar. Mas de cuja medula, se não se consegue equacionar certos fluidos, nada pode caminhar a contento para devir.
Mesmo que isso do próximo, de algum modo seja desmentido, ao menos em parte, nos relatos de Oz, esse absenteísmo diante do próximo é algo que Oz faz questão de sublinhar. E, no entanto, também contraditar no fio de sua própria narrativa pois, apesar de ser um tanto irônico e, por vezes deliberadamente bem humorado em relação a seus personagens, ele quase sempre os trata com grande senso de compassividade.
De resto, com uma formação em Filosofia, seu pensador predileto é, significativamente, Espinosa. Oz conta entre os adeptos de Espinosa que não creem que o autor da Ética se haja convertido ao cristianismo.Quando é certo que em trechos de seus escritos, Espinosa reconhece a divindade de Jesus. E paga até um alto preço por isso, uma vez que sofre uma espécie de “excomunhão” da própria comunidade judia de Amsterdam. Um herem. [O sentido da palavra em hebraico é o de banimento].
Também "excomungado" ou "banido" – quer dizer, separado do restante da humanidade pela perda da mulher – é como parece se encontrar Yoel, o personagem central de Conhecer uma Mulher. E, como se não bastasse, toda misteriosa circunstância da morte de Ivria, a esposa, a quem ele amava ardentemente, aponta para um adultério. E assim, o fato de Yoel aposentar-se precocemente e mudar de Jerusalém, a cidade em que o casal vivia antes da morte dela, para uma ampla casa nos subúrbios de Tel-Aviv, junto com a filha, a mãe e a sogra diz muito dessa obsessão de Oz pela família.
A relação entre pai e filha é, quase sempre, apenas protocolar. Mas cabe um universo de cuidado e delicados meandros nesse quase e nesse sempre. A filha sofre de uma espécie branda de epilepsia. E isso parece torná-la, aparentemente, presa fácil de uma auto-imagem pouco lisonjeira. E uma personalidade, de algum modo, vulnerável. Mas, aqui, entram muitos outros componentes, pois, sem hesitação, Oz herdou todas as indizíveis habilidades e magias dos grandes narradores judaicos. De Singer a Salinger. E, de muito antes destes, da própria Bíblia, onde relatos como os da Gênese ou do Êxodo, além dos livros sapienciais ao modo dos midrash, como Tobias ou Ruth, para não mencionar Jonas – este pequeno conto tão deslocado quanto cintilante inserido poesia dos profetas a meio – conformam a própria razão de ser do povo judeu. Daí que eles também sejam chamados – e com toda justiça: “o povo do livro”. Pois nenhum outro povo, nem mesmo os gregos com Heródoto et alli, possui um faro tão forte para narração a partir de uma narração previamente consolidada e aludida como fonte viva de unidade no seguir dos dias. E essa narração é, naturalmente, a Bíblia.
Ou ainda, se há uma característica marcante em Oz é a imensa habilidade em fisgar a atenção do leitor. Em seduzi-lo desde o princípio. Palavra a palavra. Frase a frase. Sentença a sentença. Parágrafo a parágrafo. Capítulo a Capítulo. E, assim, Conhecer uma Mulher, assoma vívido, por traçar com tanto vigor e energia sinestésica essa cantiga de viúvo. Esse cotidiano assombrado pela falta de uma e a relação de Yoel com as três outras mulheres sobreviventes: a filha, a mãe e a sogra da defunta. Assim como também sua ligação a mais alguns poucos amigos.
E aqui, sim, há tanta presentificação. Tanta localía. Tantos odores, sensualidades, texturas, climas, atmosferas, objetos, gestos, sabores que o leitor parece testemunhar esse cotidiano. Degustando a comida, assistindo a TV, podando a grama, lavando a roupa, fazendo pequenos trabalhos domésticos, entrando noites adentro, assombradas por uma ausência, acontemplando o mar à noite, visitando um velho senhor num Kibbutz – na que surte ser uma das mais bem-humoradas cenas do romance.
Mas romances acabam. E pelo que há nos primeiros quatro quintos de Conhecer uma Mulher o leitor aspira por um final digno desses quatro quintos. E é precisamente o que não ocorre. O livro tem cinquenta capítulos relativamente curtos. Mas quando se chega ao capítulo quarenta ele como que se acelera. E num mau sentido. Quase ao modo de um folhetim eletrônico, de uma telenovela. E então o desfecho já se pode pressentir bem menos misterioso ou sinestésico ou poético do que os capítulos que o precedem prometiam. Esses últimos capítulos parecem desprovidos dos tempos mortos, redundâncias, divagações, engenhosas associações presentificadas nos anteriores. É como se o fim não honrasse a dignidade do meio.
Agora, convenhamos é um senhor começo.
E um senhor meio.

* * *