quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vai ficar tudo bem, agora

[s/i/c]




Sehr gut, danke!


Wie gehts? – disse ele.
Sehr gut, danke! Und du?– ela retrucou; e abriu uma daquelas gargalhadas, em soluço, onde algo um tanto debochado, uma cifra, parecia vazar mais alto que água vertendo-se pelo sumidouro da caixa d'água em torre, aos fundos do Departamento de Letras Germânicas.
Abraçaram-se. Beijaram-se na face.
Uma coca na cantina? – insinuou.
Por que não? – ela disse.
Adiante de um bosque de mangueiras, a cantina da Casa de Cultura Alemã era povoada por garotas e garotos um tanto andróginos, já àquela altura. Mas eles não se sentiam deslocados ali. Era um recanto agradável, um pouco acanhado talvez. E, ainda assim, tinha seu charme. Uma pequena ilha de sossego de manhã mais cedo, que seguia ganhando gente até a volta do meio-dia. O mesmo acontecia à tarde. Vazia ao começo, mais atropelada à rasura da noite.
Ela tinha algo de traços índios no nariz, e todo o resto era europeu. O cabelo castanho escuro. A compleição frágil. Os olhos castanhos onde nadavam tenras algas de cinza em um vinco de verde. As extremidades quase sempre adoravelmente plissadas, muito de tênue, por um sorriso que também lhe abria na bochecha uma pequena cova. 
Joel sentiu nela uma certa palidez inusual. E seu corpo emitiu um ligeiro tremor quando se abraçaram. Não era comum se encontrarem, porque estudavam em diferentes horários. E ela tão-só viera mais cedo, na manhã, para uma prova de segunda chamada.
Ao passarem pela varanda, defronte a pequena biblioteca, extremamente limpa e bem ordenada, lhe veio a mente a única vez em que, um tanto fortuitamente a beijara. Demoradamente, aquosamente; várias, vezes várias. E restaram para a noite. Como namorados. À margem do riacho sob a meia-lua. Tão jovens e puros. Tão desatadamente em paz. Ela soergueu os cabelos com ambas as mãos. Ele desabotoou com vagar a blusa dela.  E, então, ele desfez o fecho do corpete. E veio o mais.
Depois, ele deslizara o dorso dos dedos pelas maçãs do rosto dela onde a covinha se abria desde o infrequente sorriso. E, com deliberado vagar, escorreu todo o torso dela com a ponta dos dedos. E a viu dormir. E à distância de bem menos de um grito, ouvia-se a água arrebentando-se em respingos sobre pedras limosas. E havia bromélias à volta.
Jovens são inconsequentes. Beijam-se um bocado. Tocam-se muito. Por qualquer dá cá a palha. Talvez por ainda não saberem se vida é para amar ou para tocar. Ou para se gastar.
Que dizer? Para se gastar no toque? Para se desgastar?
Um amigo comum a ambos compusera uma canção cuja letra continha essa indagação, em alguns versos até bem bem medidos; com outra arrumação na sintaxe, que ele não conseguia lembrar. Mas que insinuava a analogia da epiderme, digamos, com a superfície de uma estátua, fosse gesso, cobre, argila, gelo. Qualquer matéria, qualquer tecido que se desgasta ao toque. E, no entanto, a indagação até parecia precoce. Pois se tem muita pressa aos vinte. Muita cegueira aos vinte. Muitos afãs. Muitos morcegos. Muitos modos de radar. Muitos amores cegos. Muita nódoa no sangue. Muita sede. Muito medo. Muita angústia. Muitos muitos. É quando pote é medida pouca para conter o de beber no prazo de um dia. E haja Angst.
Sentaram-se na pequena cantina, semi-deserta, cercada por uma alameda de crótons.
Você foi a Jeri na Semana Santa? – indagou ele.
Que Jeri que nada – disse ela – tive uns compromissos em família: o batizado de minha sobrinha, tão fofa!
Ah, essas coisas de família me deixam meio alérgico – ele disse, mordiscando a empada de azeitonas e carne moída.
Joel, você é um desajustado – ela ripostou – se não está nos barzinhos meio às quedas, vive trancado em casa, lendo. Lá isso é vida!
Ele fixou todos os tons de verdes e grises nos olhos dela, seu nariz comprido e ligeiramente oblongo ao centro, afilando-se na extremidade, o que lhe emprestava a aparência de uma jovem estudante francesa em uma tomada Nouvelle Vague qualquer, e tascou:
Ora, ora, quem fala em desajuste, Flávia Jaguaribe Telles!
Fez isso a depor um acento proposital no Jaguaribe, escandindo-o em sílabas frouxas, porque sabia o quanto esses sobrenomes tomados de empréstimo aos indígenas por enfatuados patriotas no final do sec. XIX soavam tão expressamente kitsch. E ele queria feri-la um pouco. Em ironia.
Talvez por uma certa, avulsa, noite. Noite não continuada em outras noites, no ano anterior, em uma cidadezinha qualquer do interior, onde um bando de amigos mochileiros se atacara atrás de uma queda d'água. Os violões. A roda. O pequeno acampamento. Alguém cantando: “Feira moderna/ O convite sensual/ Ah, telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal...”. E os outros em coro, imitando em voz grave e um pouco desentoada o belo rife do contrabaixo, enquanto o fogo crepitava sobre a lenha espanado por um vento que avermelhava os feixes já encarvoados...
De repente, um estrondo se fez ouvir para as bandas do pátio das Letras Vernáculas. E, em impulso, ele desviou o olhar às costas.
E então, em seguida ao estampido, que lhe prendera os olhos, ouviu outro: o de soluços altos, fundos. De se perderem em resfôlegos. Chorava tão compulsivamente que ele, até então sentado à sua frente, tomou a cadeira do lado e a abraçou.
Ela reclinou sua cabeça sobre seu ombro, depois sobre seu peito. Ergueu os pés e pôs a ponta dos calcanhares à beira do assento, quase em posição fetal. E assim se foi um lastro de minutos. Até ela recompor-se.
E já refeita, sobre o silêncio dele, disse:
Lembra aquela noite?
Eu nunca esqueci aquela noite.
Senti como se você estivesse dentro. Aqui dentro. Inteiro. Não apenas, você sabe... Você inteiro, dentro de mim. Era forte demais. E eu precisava viver. Mais leve.
Ora, vamos, Flávia, eu sei. Foi só uma noite – ele disse, em sussurro, por contraposição ao tom dela. E também em oblíqua indicação. Pois ouvira a proprietária da cantina retornando aos resmungos:
Outra vez esse problema com o transformador da rede elétrica. Eles nunca que consertam essa porra direito. Tá faltando energia. Por que isso só tem de acontecer aqui na Letras! Minha Nossa Senhora! – e parecia tão contrariada que sequer notou a comoção de Flávia. E Flávia prosseguiu:
E agora você fica de piada com meu nome – disse ainda de lábios franzidos e umidade nos olhos. Você não sabe de nada. Não sabe o qu'eu tenho passado.
Tenha calma, Flávia. Passou. Vai ficar tudo bem, agora.
Não, Joel, não está nada bem. Não vai ficar nada bem. Você não sabe porque eu não fui a Jeri. Não foi por nenhum compromisso de família. Houve um batizado, sim. Mas foi até antes da Quaresma.
O vento passou pela fieira de crótons. Gotas esparsas de água caiam do sumidouro, na pequena torre da caixa d'água. Ele acendeu um cigarro, que depois passou a ela. E depois de alguns minutos, medindo palavras, disse:
Repare, você não precisa se justificar. Saiba...
Eu fiz um aborto – ela disse.
Ele abraçou-a mais forte e rente. E quedaram assim por um não sei quanto tempo. Até ela repôr os pés ao chão. E, depois, de afastar-se lentamente dele jogar o cabelo longo, solto para trás e, após, para um dos lados do pescoço:
O pai era o Cláudio.
Sei, o Cláudio Jorge Garcia. Vocês estavam juntos faz uns meses, não?
É. Mas acabou.
Os dedos dela se contraíram sobre a ardósia do piso. Ela toda parecia crispada. Enrolada sobre si. Como um passarinho após uma borrasca. Como alguém que havia passado três dias no ventre do Leviatã. Ao menos tão contraída e tensa quanto seus dedos próximos ao par das sandálias descalçadas. Seu corpo todo contraído no empuxo daquela crispação de dedos do pé. Ele encheu o copo de soda. Ela apenas encostou os lábios à borda em gole raso.
E então levou a mão em punho cerrado à boca. Pigarreou. E comprimiu os olhos num último esforço para reaprumar-se de vez. Houve um fundo suspiro.
Porra. Nunca, nunca que dão um jeito nessa merda. Só quando privatizar – resmungou a dona da cantina enquanto esfregava um trapo úmido sobre o pequeno balcão simples, de azulejos.
As gotas d'água prosseguiam resvalando pelo limoso sumidouro na torre da caixa d'água, que semelhava um pombal. E onde da argamassa, á direita de uma janelinha em arco, sob o beiral, havia aflorado um pequeno mamoneiro.

* * * 

Estar atrasado às primeiras horas da noite

Brice Marden, 1988




Triângulos, Retângulos, Trapézios (Amorosos?)

Essa incapacidade de entender quem se mete em triângulos amorosos.

Essa estranha certeza – não tomada de um moralismo tacanho – mas de uma intuição simples, de uma sorte de convicção interior, que é humanamente impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo.

Que pode haver atração, sexo até, vá lá: isso é perfeitamente concebível. Porém sexo é tão-só uma fração de amor. E, em dadas circunstâncias, sequer a mais importante. E em outras dadas circunstâncias, nem de longe a mais importante – o que não lhe diminui, ao contrário. Daí que existam duas palavras que os designam. E nem sempre uma da outra sinônima seja.

Para além, o fato de amor ser incondicional, não quer dizer que seja plano, unilateral. Chato. Porque para ser unilateral, como dizia o filósofo, é preciso ter ao menos um lado. Porém o amor é o único algo, que possuindo um só lado, ainda assim passa longe de ser unilateral. Porque busca outro lado. Talvez não o atinja jamais. Pois qual homem  pode dizer que conhece, de fato, uma mulher? Ou qual mulher pode dizer que não há qualquer segredo em um homem? Ou qual pessoa pode decretar total desvelamento do par? Poro a poro; reflexo a reflexo; reação a reação; palavra a palavra; migalha a migalha de pensamento?

A vida dos afetos se tem visto afetada por um excesso de complicações interposta pelas pessoas. Converteu-se numa semiose, cujos signos devem ser levados ao divã – sem por um segundo se pôr em xeque, que quem te ouve ao divã pode ser um rematado imbecil.

Em geral, isso se dá pelo desmedido egoísmo de cada um de nós. Queremos ser modernos (ou além de modernos) além da conta. Está nos filmes. Nos romances. Como se o número e não a intensidade fosse a qualidade em questão. O advento. A própria mensagem. O próprio meio. A forma e o conteúdo. O envelope e a carta. Algo intraduzível. Quando, sabe-se não passa de avarícia, jogo de poder. Ou uma coleção de medos a se alastrar, feito câncer. Medos que paralisam. E, conversamente, levam a uma ação: oposta à ação de amar. Uma coleção que se pode tratar tão a contento quanto o apaixonado filatelista afixa uma nova estampa no álbum. Ou quando o entomólogo disseca uma nova espécie de inseto e põe à prancha.

Mas amor é a única forma de ser dois em paisagem. E, nos campos do afeto, simplicidade é uma adivinhação difícil, e prosseguir.

Mas tudo que é simples, também raro de achar. Dificultoso, suor, cotidiano. Não em volubilidade. Não um aticismo. Um não capricho.

Essa adivinhação.

Esse prosseguir.

O momento em que certas palavras, mesmo as intraduzíveis - como belated, no sentido de "estar atrasado às primeiras horas da noite" - conhecem seu suplemento. 

Sua adivinhação.

Seu prosseguir.

Mas tudo isso, enfim, é demasiadamente incisivo. Pesa. Demanda uma paciência de Jó. Preferível, então, jogar com eles. Com adivinhação. Com prosseguir. Ao modo de duas esfinges que se entredesafiam em enigma. E aí então se traça toda uma geometria plana: triângulos, retângulos, trapézios, círculos...




* * *

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Eu pensei que...

Jannis Kounnelis, Bells, 1993




Um pouco mais de miolo

Rua Raul Pompéia. Pompéia. Zona Oeste. São Paulo. Terceiro andar.
No Dia de Finados de 2001, fui dormir de madrugada. O sono foi intenso, mas curto. Acordei pouco antes da manhã. Uma sexta. Talvez com um fiapo do que andara lendo ainda a espiralar no sonho. Tratava-se dos Comentários de São João da Cruz à Noite Escura da Alma. Pela janela entreaberta, filtrava-se a frialdade. E uma perna de bairro - mais desolado e belo - fazia-se ao claro-escuro. Escrevi um poema e tomei um pouco de leite. Enviei o poema, por imeio, para alguns amigos.
E fiquei meio lendo, meio cochilando até quase o meio-dia.
Então desci à pequena padaria do supermercado 24 horas. O dia estava encoberto e ameno. Uma leve friagem percorria as ladeiras íngremes. Sentei-me a uma mesa de onde podia divisar a rua pela vidraça e corri os olhos pelas manchetes da Folha. Pedi um café com leite e um pão com manteiga, passado na chapa; salada de frutas; suco de acerola; algumas fatias de queijo; apresuntado de peru; geléia de goiaba.
A balconista era certamente novata. Havia algo de estranhamente desajustado em seus gestos. Em menos de meia-hora e um quarto, tomei meu café e li um pouco mais do jornal, tomando algumas notas em um minúsculo caderno. E também notei que o pão viera sem o miolo. Um desses garotos descabelados e rotos me pediu algo em voz baixa. Minha resposta, em voz baixa, o dissuadiu de insistir por algo.
Após pagar no caixa, acenei para balconista novata, e disse-lhe em reserva — ela, surpresa, debruçando-se além da conta debaixo do avental sobre o balcão:
Achei interessante que o pão tenha vindo sem o miolo. Às vezes, eu até gosto assim. Mas, talvez, nem todos os clientes vão achar simpático.
Ela me interrompeu com um sorriso constrangido, onde havia um mau dente incisivo:
É que o pão tava quentinho, eu pensei que…
Sabia um tanto do que ela havia pensado. Ou o adivinhava, de algum modo. Ou pensava que adivinhava: o quanto no Nordeste há esse hábito de pelar o pão. E se deixar brincando, dedos involuntários, a modelar formas com o miolo. Formas que, por vezes, algo sugerem. Nem que apenas nuvens mais carregadas em um dia límpido, sem qualquer migalha delas.
Ao sair do supermercado, com o feriado estendido, desacelerando horas, me ocorreu ir até um café, e passar o resto da tarde lendo por lá. E tomar alguma cerveja para abrir o apetite. O feriado, desde o sol-posto da véspera, despovoara um tanto as ruas. Os paulistanos haviam descido para as praias. Estava agradável caminhar. Notei cordões bem finos enroscados, como delicados cipós, ao longo dos fios de telefone, e que isso me agradava. Passei por um homem, com sacolas de supermercado. E ele, soerguendo uma das sacolas, não sem alguma dificuldade, lambia algo que parecia ser um selo. E, porém, sobressaltou-se quando notou que era notado. Uma jovem, bela como um anjo, passeava seu advento. Sem timidez. Nem expansão. Mas um certo, espontâneo, aloofness. Uma mulher loura, madura e branca, excessivamente contida, em formas densas, sob um jeans, prendeu meu olhar por um lapso, próximo a um ponto de ônibus. E lembrei de um poema. De Pessoa: “Dá a surpresa de ser/ É alta, de um louro escuro/ Faz bem só pensar em ver/ Seu corpo meio maduro”. Chegando ao café, dei com todas as mesas à calçada, vazias. Dispostas de certo jeito que gosto. Um tanto obliquamente em relação à travessa. Mas um impulso me disse para não sentar ali.
Segui até o fim do quarteirão. E desatei um passeio pelas ruas em volta. Um tanto à deriva. E de novo me veio a visão e o sabor daquele casca de pão, a manteiga liqüefeita, por cima, como se da terra. E de novo me veio o sorriso da balconista. Seu mau dente. Minha fria formalidade.
Pensei em direitos do consumidor. Está na moda. Como o politicamente correto. Certa compulsiva ênfase para se falar em discriminação. Meio à norte-americana. A bobagem de todos se mostrarem infinitamente complacentes e expeditos com os aidéticos. Ou com os homossexuais à frente de câmeras e de microfones abertos. Para depois nutrirem as mesmas posturas de sempre, em piadas torpes, por botecos e botecos, pelo país afora. E, em meio a toda essa massa sem fermento, os tais direitos do consumidor. Mas que argumento de pão mais sem miolo! O que, no fim de tudo são os direitos do consumidor?
Por exemplo, o que são os direitos do consumidor diante do que se deve ao próximo? Nada são, em certas circunstâncias. Quando muito, a ratificação mais extrema da insanidade. E ainda mais diante daquele constrangimento da balconista. De seu mau dente. De seu primeiro dia de trabalho. De seu acanhado, belo sotaque nordestino com aqueles “t’s” tão liguadentais. Tão dignos. Talvez pernambucanos. Ou caririenses. De sua perene divindade. De ela apontar que, de fato, Deus é – porque falta tanto para tantos. Do fato de estar ali desde manhã, e de haver tomado um ônibus para ali estar, desde antes de manhã; enquanto se pode escrever poemas, passar imeios para amigos em cidades distintas, em países outros, deambular pelo bairro tranquilo. Entrever comportamentos estranhos. Belas mulheres. Finos cordões enroscados na fiação telefônica. Relembrar-se de um poema de Pessoa. Ler São João da Cruz – e guardar tão pouco! Do fato de ela mal saber ler, enquanto se pode fazer pós-graduações insípidas, tão sem sentido, tão inúteis diante do essencial, do fato matinal que é um café com leite com pão e manteiga postos à mesa.
Mesmo sem miolo.
E pus os óculos escuros, para disfarçar que a uma certa tristeza corresponde água salgada nos olhos.
Então, voltei para casa, porque a vida que se faz entre livros é, por igual, faina que parece não ter fim. E pão repassado na chapa. E, por vezes, exige um sangue frio, que não pode ceder a essas sentimentalidades. Mesmo de um exilado. Ou à essa talha de uma comoção mais forte na manhã de um feriado. E é um tanto palha, no fim de tudo. Lucerneira. Um entristecer da carne – se não a ela se põem limites. Como o de caminhar por ruas semi-desertas quando um dobre de finados, nos sinos da Igreja de Nossa Senhora da Pompeia, anuncia tempos idos. Uma época em que, quem sabe, se não descia às praias para desfrutar do feriado que, então, se chamava "Dia Santo".
Ao dobrar o jornal sob a axila, para abrir o portão do pequeno edifício, sentia-me refeito. Feliz, por lesado em meus direitos de consumidor. E, eventualmente, com um pouco mais de miolo.
[Inícios do Verão, 2001]




Nota — Texto originalmente publicado na já extinta revista (especializada em crônicas) Nariz de Cera, em 2004.

*   *  *

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

É Canudos revertendo-se sobre a voragem inescrupulosa

Jean (Hans) Arp, Enak's Tears, 1917



Que a lágrima não se verta em vão


O momento é para celebrar. Mas que a lágrima, mesmo a de alegria, não se verta em vão.

O Brasil dividiu-se literalmente no mapa dessas eleições. Basta debruçar-se sobre os índices de vitória em cada estado para perceber que o Brasil expressamente – e, por vezes, inescrupulosamente – taxado de arcaico, atrasado, pobre, miserável, analfabeto, venceu o pseudo-Brasil-moderno, pseudo-europeizado, pseudo-cosmopolita, pseudo-desenvolvido, pseudo-sofisticado.

O mesmo que tratava seu corpo mais ao norte como uma sorte de colônia. Que o parasitava a todo custo. Que, pela força da grana, engolia seus filhos nas indústrias paulistas. Que os importava, como gado, para fazer os serviços mais rasteiros – justamente os mais essenciais. Serviços em que eles próprios não desejavam sujar as mãos: limpar a casa, da sala à privada; tomar conta dos filhos, enquanto as mulheres e homens saíam para ganhar a vida, "liberados", como se diz. Que abocanhava esses seres humanos para serem humilhados em portarias de prédios, balcões de padarias, bocas de fogão, flanelas de engraxar, volantes de táxis, estivas, carregar de malas; mutilados pela força mecânica e automática das máquinas nas indústrias. Que transformavam seus corpos esquálidos em utensílios, como um liquidificador. Como uma betoneira. Como um guindaste. Uma trituradora. Uma ceifadeira. Para passarem o dia inteiro, na faina sem fim, de cortar cana nos canaviais das grandes produtoras de etanol, no interior de São Paulo, do Paraná. Transportados em ônibus ensardinhados, em trens de subúrbio caindo aos pedaços, nas grandes metrópoles. Exilados de sua terra e de seus afetos. Sem poder comprar o mínimo essencial de nutrição para pôr à mesa, sem perspectiva de educação para os filhos. Sem férias na Argentina, que fosse. 

Sem esperança.

Essa vitória é também a vitória de Canudos. É Canudos revertendo-se sobre a voragem inescrupulosa e o egoísmo dos que sempre se recusaram a perder a migalha que fosse em partilha com seus próprios concidadãos.

Por outra via, é mais ou menos óbvio que há muitas incógnitas pairando no ar. Com três mandatos consecutivos, pode o PT tornar-se um partido tão espúrio quanto o PSDB? A que nível de autoritarismo pode chegar um partido permanecendo tantos anos no poder? Terá Dilma voo próprio como executiva? Ou será uma espécie de marionete de Lula? Poderá ela, de fato, governar para todos os brasileiros, como apregoa? Ou reforçará ainda mais uma tendência: uma espécie de petetização do poder, de cargos administrativos que requerem bons administradores, ao invés de afilhados (ou afiliados) políticos? Será que Rousseff aproximar-se-á perigosamente de regimes autoritários, como o de Chávez? Irá flertar com uma censura velada? Sair-se-á tão bem no embate com a conjuntura externa como seu habilidoso predecessor?

Isso tudo o país terá de conferir nos próximos anos. De olhos atentos.

Porém, de momento, a hora é de comemorar. De celebrar o grande feito de uma mulher chegar pela primeira vez à presidência. E não pelo voto do Sul Maravilha. Porém pelo dos descamisados, dos mais frágeis, dos mais vulneráveis. Dos que têm de despender mais suor para pôr menos pão à mesa.

P.S. – E nisso tudo, louve-se o desempenho de outra mulher: Marina Silva. É de se esperar e torcer para que ela não saia da vida pública. A expressiva votação que conquistou – inclusive no Nordeste – faz prometer o nascimento de uma terceira via. De um partido ainda não tão maculado por alianças espúrias com siglas de aluguel para permitir o mínimo de governabilidade. Mas também a votação em Marina Silva nos indica outra dádiva: uma preocupação maior do povo brasileiro com uma questão chave: a ambiental. É algo, enfim, a conferir. Uma perspectiva.


* * *

domingo, 31 de outubro de 2010

A prevenir os viajantes da presença: Salter

Frank Auerbach, Nude, 1953-54



James Salter

Conheci a prosa de James Salter num período de grande ebulição. Morando em São Paulo, certo professor da PUC indicou-me para traduzir seu livro de memórias: Burning the Days [1997] – título que verti como Oxidando os Dias. Era uma época estranha em que eu queria assumir-me como escritor, mas ao mesmo tempo percebia que o que tinha vivido não me fornecia lastro suficiente para sê-lo. Mas isso é uma outra prosa, e não vale a pena entrar agora por esse desvão.
Lembro que, logo em seguida, com minha ex-mulher, meu irmão, minha cunhada, e um casal de amigos, viemos em férias para Fortaleza. E não era infrequente eles seguirem para praias, lagoas, falésias, serras. E nem sempre eu podia seguir com eles, porque tinha de restar em casa, às voltas com a tradução do livro. Tradução que conhecia uma estável média de três ou quatro páginas por dia. O livro é admiravelmente bem redigido. Frases curtas. De uma elegância hemingwayana. E alguma demão de Henry Miller pairando por cima do todo.
O que eu não contava, adiante, é que a editora para qual eu estava contratado iria entrar em processo de solvência. Que meu trabalho, de horas e horas, teria de ser interrompido. Que, algum tempo depois, passaria para outras mãos. E, claro, meu nome jamais apareceria nos créditos da tradução – algo, na produção linha de série e instável, que é o mercado editorial, não tão incomum. E pensar na pilha de livros que traduzi, que eram tão ruins, que uma das condições para traduzi-los, era a de que meu nome, por pedido próprio, não constasse nos créditos...
Porém nem mesmo esses contratempos diminuíram meu apreço pela escritura de Salter. Tanto que quase simultaneamente à tradução de Burning the Days, ao retornar a São Paulo, lancei-me à leitura de um seu romance que é, de fato, um um achado: A Sport and a Pastime [Um Esporte e um Passatempo, 1967], chegando mesmo a traduzir, por puro prazer, certos excertos, depois perdidos em velhos disquetes – pois a medida que os suportes de memória se tornam cada vez mais robustos e aparentemente confiáveis, tornam-se também mais e mais descartáveis.
Lembro que a indicação, aliás, veio de uma vendedora da Livraria Cultura, que era minha principal fonte em matéria de ficção norte-americana. Em dez anos, como as coisas mudam! Busque-se alguém assim no supermercado de livros em que se converteu a Cultura, e se não vai encontrar. Nem sequer em São Paulo.
Salter, tendo sido piloto de caça na Guerra da Coréia, nos oferta em Burning the Days, memoráveis páginas sobre essa profissão fascinante. Onde o risco é algo que segue colado à casca de cada segundo. Mas, sem dúvida, mais magnético é A Sport and a Pastime, que trata do mais universal de todos os temas: aquele.
Nele um expatriado norte-americano vive um tórrido romance com uma lojista francesa numa pequena cidade da província. O detalhe é que tudo não é mais do que ficcionado – com grande verve de imaginação e sensualidade, no entanto – por um solitário compatriota também expatriado.

Abaixo segue um extrato:

16.

Past and haunting images of France, reflected over and over again like the facets of an inexhaustible stone. I walk through the silent house, the tall rooms chilled with winter light, the furnishings crossed by it, the windows. The quality of stillness is everywhere. There is no single detail that provides it. It exists like a veiled face.
Images of the towns. Sens. The famous cathedral which is reflected in the splendor of Canterbury itself rises over the icy river, over the still streets. One sees it in the distance, St. Etienne: the centuries have bleached its stone like powder and the heads are all missing from the statues of the blessed, but still it appears from far off to warn travelers of the presence of God. Built as one of the first of a great, Gothic family that rose throughout France, it endures like a white myth. The little shops have grown close around it, cinemas, restaurants. Still it cannot be touched. Beneath the noon sun the roof, which is typically Burgundian, gleams in the strange design of snakeskin, banded into diamonds, black and green, ocher, red. The sun splashes it like water. The brilliance seems to spread.
Sens. They have fallen sleep. Dean wakes first, in the early afternoon. He unfastens her stockings and slowly rolls them off. Her skirt is next and then her underpants. She opens her eyes. The garter belt he leaves on, to confirm her nakedness. He rests his head there. After a while, finding a more comfortable position, he lies between her legs, her pelvis for a pillow, her knees within his grasp. He listens to the traffic. He turns his head a little to see if she is asleep. She is looking down at him calmly. Beneath his ear it is wet.

[James Salter, A Sport and a Pastime, © James Salter, 1967]

16.

Passadas e assombrosas imagens da França, refletidas de novo e de novo como as facetas de uma gema inexaurível. Eu caminhava para a casa silenciosa, os compartimentos altos arejados pela luz do inverno, os móveis entrecruzando-a, as janelas. A qualidade da quietude está em toda parte. Não há um único detalhe que a proveja. Ela existe como um rosto velado.
Imagens das cidades. Sens. A famosa catedral que é decalcada do esplendor da própria Caterbury ergue-se sobre o rio enregelado, sobre as ruas quietas. É possível entrevê-la à distância, S. Etienne: os séculos caiaram suas pedras como talco, e as cabeças das estátuas dos abençoados se foram, mas ela ainda assoma desde longe a prevenir os viajantes da presença de Deus. Erguida como uma das primeiras de muitas, da linhagem gótica que aflorou na França, ela perdura como um mito branco. As pequenas lojas amontoaram-se rente a ela, cinemas, restaurantes. Ainda assim, ela não pode ser tocada. Sob o sol da tarde, o teto, que é tipicamente borgonhês, reluz na estranha estampa de pele de cobra, listrada de diamantes, negros e verdes, ocres e encarnados. O sol sobre ela respinga como sobre água. O brilho parece alastrar-se.
Sens. Eles haviam caído no sono. Dean desperta antes, no abrir da tarde. Afrouxa as meias dela e lentamente as enrola. Depois vem a saia e então a calcinha. Ela abre os olhos. A liga, ele não remove, para confirmar a nudez dela. Repousa ali sua cabeça. Depois de um lapso, ao encontrar uma melhor postura, ele jaz entre as pernas dela, a pelve dela por travesseiro, os joelhos a seu alcance. Ouve o tráfego. Revolve a cabeça um pouco, para ver se ela dorme. Ela o entreolha calmamente abaixo. Há umidade sob a orelha dele.


* * *  

sábado, 30 de outubro de 2010

Um 'Midrash' realista, cético, fervoroso

Mark Gertler, Jewish Family, 1913




Isaac Bashevis Singer

Quando ainda estudante de graduação em História, dei com o nome de Isaac Bashevis Singer nas prateleiras da biblioteca do Centro de Humanidades. E fui fisgado de imediato pelo seu nome – que jamais ouvira antes. Como é possível? Pude reconhecer que se tratava de um nome judeu. Mas também seu nome me remetia para as máquinas de costura. Máquinas que foram utilizadas por minha avó. E com grande perícia. Máquinas, cujo distribuidor, na pequena cidade em que nasci, era amigo de meu pai.

Após esse encanto para todos os efeitos irracional, tirei o livro de Singer da prateleira. E, aí, sim, percebi estar diante de um grande prosador. Se dispusesse de tempo ou de uma maior facilidade para aprender línguas, teria aprendido o iídiche apenas para desfrutar, de fato, da prosa de Singer no original. Ela parece revestida de uma integridade que a previne contra qualquer modismo ou afetação. 


A tradução, para o inglês naquela edição fora empreendida, no entanto, por ninguém menos que Saul Bellow. E os contos – que prendiam justamente pelo fato de serem excepcionalmente bem contados – pareciam refratar as intenções de Singer, como alguém que, apesar de completamente cético diante da tecnologia e das modernas facilidades de comunicação, tratava a vida com certo joie de vivre. E, em especial, num certo conto longo: Gimpel, The Fool [Gimpel, O Idiota].

Só depois fiquei sabendo da obsessão de Singer com a questão da tradução. Do fato de ele discutir com seus tradutores o teor de cada palavra na esteira da frase.

Nos dias de hoje há tão-só cerca de três milhões de pessoas capazes de ler em iídiche – e, ainda assim, sem fluência, a maioria. O que é escrever para menos de três milhões de pessoas? O que é escrever em uma língua que está desparecendo? O que se sente ao pôr no papel palavras que se sabe, dentro em pouco, farão parte de uma língua morta, serão matéria para linguistas? Que sequer possui termos que designam facilidades modernas como “metrô” ou “via-expressa”? O que escrever num idioma que é já quase arqueologia?

No entanto, a coerência narrativa – e obviamente moral – dos relatos de Singer me fisgaram de imediato. Assim como um pressentido descaso pelo que seguia em moda – em todos os níveis, inclusive o acadêmico. E não menos seu senso de devoção ao local e ao pequeno, ao microscópico, ao frágil: as pequenas aldeias polonesas e guetos de população predominantemente judaica, que ele deixara para trás ao migrar para Nova York - Singer morreu aos 88 anos, em 1991. 

Falar dessas comunidades é falar da Shoah. É falar, um pouco por tabela não periódica, de Primo Levi, de Paul Celan. E, no entanto, os temas de Singer não passam por um certo teor de vitimização que, quando se adentra nesses domínios, é quase impossível fugir dado a barbárie dos acontecimentos.

Os temas de Singer recaem muito mais sobre modos de vida pequenos, segregados, vividos em tempos mortos, já tão passados. Vividos nessas comunidades asquenazes de antes da II Guerra. 

Em Gimpel, por exemplo, temos o idiota da aldeia. Mas também um homem operoso. Que passa de ajudante de padeiro a proprietário da melhor padaria do local. A população, por chacota, o faz casar com uma das mulheres mais promíscuas do lugarejo. Eles geram, então, uma prole numerosa. Sendo que nenhum dos filhos é do próprio Gimpel. Ele é um homem de tão boa-fé, contudo, que, uma vez, chegando em casa, ao surpreender a mulher com outro, na cama, ao invés de tomar medidas de imediato, segue, ao invés, ao rabino em busca de orientação. 

O rabino, salvo engano, ele próprio um dos amantes da mulher de Gimpel, lhe convence que nossos sentidos são falhos. E o que Gimpel vira, não se tratava de uma pessoa, mas da sombras de uma viga sobre as cobertas. E até lhe prescreve uma oração. Apaziguado, o idiota volta para a casa e prossegue com a vida. Uma enfermidade grave, no entanto acomete sua mulher. E esta, em seus estertores, manda chamar-lhe e abre o jogo: a ilegitimidade dos filhos, o compulsivo adultério com aldeia e meia, o modo como todos a ele se referiam às suas costas em tom de deboche. Atordoado com as revelações da mulher, Gimpel pondera insone, madrugada adentro, à espera da hora de fazer o pão. Uma das vinganças que imagina é a de acrescer algumas medidas da própria urina na massa do pão.

Mas então, algo acontece. Extenuado, ele cai num sono profundo. E nesse sono há um sonho em que um conhecido lhe vem do Além para lhe dissuadir de qualquer vingança. Que não fizesse isso, porque sua ficha no Além estava limpíssima. Ao despertar, reconciliado, ele toma algumas decisões. Uma delas é a de passar o rentoso negócio da padaria aos filhos. E também adotar como princípio, certo trecho do Livro da Sabedoria, que diz da possibilidade de tudo. De o que não é ou não pode ser concreto aqui e agora, ser possível de realizar-se sobre outras circunstâncias, em outro tempo, outro local, etc. [e não tome-se isto como utopia política mas como condição existencial]. Assume também a postura do nômade, do errante, que sai de aldeia em aldeia, contando midrashim, pequenas histórias edificantes, sobretudo aos mais jovens e às crianças.

Além de admiravelmente bem estruturadas, as narrativas de Singer prendem pelo fato de em qualquer momento abdicarem da moral da história. E talvez nisto resida o seu maior encanto.

Abaixo segue um linque para uma bela entrevista com Singer na Paris Review, em que, além de falar do papel do escritor e sua relação com o jornalismo, o ensino e as modernas facilidades, ele nos diz coisas como:

Well, the Yiddish writer was really not brought up with the idea of heroes. I mean there were very few heroes in the Jewish ghettos—very few knights and counts and people who fought duels and so on. In my own case, I don't think I write in the tradition of the Yiddish writers' “little man,” because their little man is actually a victim—a man who is a victim of anti-Semitism, the economic situation, and so on. My characters, though they are not big men in the sense that they play a big part in the world, still they are not little, because in their own fashion they are men of character, men of thinking, men of great suffering. It is true that Gimpel the Fool is a little man, but he's not the same kind of little man as Sholom Aleichem's Tevye. Tevye is a little man with little desires, and with little prejudice. All he needed was to make a living. If Tevye could have made a living, he wouldn't have been driven out of his village. If he could have married off his daughters, he would have been a happy man. In my case, most of my heroes could not be satisfied with just a few rubles or with the permission to live in Russia or somewhere else. Their tragedies are different. Gimpel was not a little man. He was a fool, but he wasn't little. The tradition of the little man is something which I avoid in my writing.

Bem, o escritor de tradição iídiche não cresceu com a ideia de heróis. Quer dizer, houve poucos heróis nos guetos judaicos—poucos cavaleiros e condes ou gente que duelava, etc. No meu caso, não penso que escreva na tradição do “zé-ninguém” do escritor iídiche, porque esse “zé-ninguém” é de fato uma vítima—um homem vitimizado pelo anti-semitismo, a condição econômica, e por aí vamos. Minhas personagens, embora não sejam grandes homens no sentido de desempenharem uma ação decisiva sobre o mundo, ainda assim não são “zés-ninguéns”, porque a seu modo são homens de caráter, de reflexão, de grande capacidade de sofrimento. É verdade que Gimpel, o Idiota, é um “zé-ninguém”, mas não do mesmo tipo do “zé-ninguém” a exemplo do Tevye, de Sholom Aleichem. Tevye é um “zé-ninguém” de aspirações mesquinhas, e pouca predisposição. Tudo que ele necessitava era ganhar a vida. Se Tevye houvesse logrado ser bem sucedido, não teria sido expulso da aldeia. Se pudesse ter casado suas filhas, teria sido um homem satisfeito. No meu caso, alguns dos meus heróis não se contentariam com alguns rublos ou com a permissão de viver em um lugar qualquer da Rússia ou onde mais fosse. Suas tragédias são diferentes. Gimpel não era um “zé-ninguém”. Ele era um idiota, mas não era mesquinho. A tradição do “zé-ninguém” é algo que evito em meus escritos.

Ou ainda:

I think that journalism is a healthier occupation for a writer than teaching, especially if he teaches literature. By teaching literature, the writer gets accustomed to analyzing literature all the time. One man, a critic, said to me, “I could never write anything because the moment I write the first line I am already writing an essay about it. I am already criticizing my own writing.”

Acho que o jornalismo é uma ocupação mais salutar para um escritor que o ensino, especialmente se ele ensinar literatura. Ao ensinar literatura, o escritor acaba acostumando-se a analisar a literatura o tempo todo. Um sujeito, um crítico, me disse: “Eu jamais poderia escrever nada, porque logo à primeira linha já estou escrevendo um ensaio a respeito. Já estou criticando minha própria escrita”.

Para a entrevista na íntegra:



* * *

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Pronunciando cada palavra ao ouvido interior

[s/i/c]




Um bocado traiçoeiro
uma divagação imediata sobre o computador enquanto meio

O blogue parece ser o meu limite. Eu não saberia ir além disso. Tentei as redes sociais. E evadi-me delas por pudor. Senti que havia ali algo que não era meu. Por vezes, certo desconforto de adentrar tanto na intimidade de pessoas que mal conheço. Entendo que o fato de acomodar-se nessas redes ou não é de cada um. E que há pessoas que fazem delas um uso compulsivo. Especialmente do Twitter. Um uso que não parece razoável. Outras se impõem limites. Algumas podem achar o ambiente estimulante. E chegam a ser criativas. No entanto, tenho me organizado mais e mais no sentido de impôr determinados e precisos limites, limiares quanto ao uso do computador. Aliás, não tenho afeição pelo computador em si, como objeto. É uma máquina feia, estranha. Mesmo os notebooks parecem objetos sem nenhum senso plástico. Não há nada neles que me agrade, afora o teclado de um notebook, que me remete vagamente para o teclado da última máquina de escrever que possuí, já eletrônica, com uma ridícula memória para os padrões atuais: captava cerca de duas laudas. No entanto, escrevo há já quase duas décadas em editores de texto, o que considero uma grande vantagem, porque nunca fui um bom datilógrafo. E também porque reviso à exaustão o que escrevo. Então, para mim, o computador tem sido essencialmente uma máquina de escrever com algumas vantagens. Também leio jornais e suplementos literários no computador. E tenho alguns dicionários instalados. Num determinado instante, cheguei a ler livros, foi quando senti uma imensa saudade dos livros convencionais. E me senti desconfortável no que estava a fazer – porque leio sempre com lápis. Quer dizer é raro passar uma página sem escrever algo na própria página. Uma observação, um comentário. Destacar um trecho para associá-lo com outra ideia em outro livro. Ou anotar o sentido de uma palavra desconhecida em outro idioma. E entendo que o fluxo de meu pensamento, que é lerdo – gosto de ler sentindo a musicalidade de cada frase, e, portanto, pronunciando cada palavra ao menos para o deleite do ouvido interior – necessita de algo lento, sereno como as páginas de um livro. Até o e-mail tenho buscado usar com comedimento. Há poucas pessoas com quem troco correspondência regular. E, em geral, ou sou muito breve, ou escrevo como quem escreve cartas: longos e-mails. Todos esses procedimentos tendem a desacelerar mais a vida. É claro que tendo interesse em música e na edição de imagem e de som, não posso ficar imune ao que se passa em termos de softwares. Mas, aqui, não sou compulsivo. A máquina tem de estar a meu serviço, como ferramenta. Não o contrário. Não preciso ter a última versão de um editor de imagens para editar imagens. Preciso de algo que funcione, que seja conveniente. Como ferramenta, acessório. Não faço distinções ente PC's ou Mac's. São igualmente máquinas que, em si, não se comparam, em termos estéticos, à última máquina de escrever mecânica que tive: uma Olivetti portátil. Parece mais ou menos óbvio que depois de mais de um século produzindo máquinas de escrever o design de algumas delas é estupendo. Produz-se computadores há somente umas poucas décadas. E ainda não vi um único que me chamasse a atenção por sua beleza enquanto objeto. Alguns, é óbvio, conseguem ser mais feios. Quase todo mundo gaba os Mac's pelo design. E tenho um Mac sobre a minha bancada de trabalho. Utilizo-o muito pouco. Acho que vou me desfazer dele. É uma máquina absurdamente feia. Cheia de inconvenientes, como pilhas embutidas no teclado e no mouse - e isso chega a ser anti-ecológico. Com problemas para detectar a rede sem-fio, a cada vez que é desligada. Mas a publicidade faz dos Mac's como que maravilhas aos olhos das pessoas. E a maioria das pessoas cai no conto. Enfim, sobretudo, luto para que o computador não se torne algo imprescindível. Que se possa confeccionar as coisas, sejam elas quais forem – em verso ou prosa, lançando mão de imagens e/ou de sons – sem qualquer fetiche pelo computador enquanto objeto. Tendo bem em mente que ele é tão-só uma ferramenta. E como toda ferramenta, se não bem empregada, pode ser um bocado traiçoeira.

* * *