terça-feira, 2 de novembro de 2010

Eu pensei que...

Jannis Kounnelis, Bells, 1993




Um pouco mais de miolo

Rua Raul Pompéia. Pompéia. Zona Oeste. São Paulo. Terceiro andar.
No Dia de Finados de 2001, fui dormir de madrugada. O sono foi intenso, mas curto. Acordei pouco antes da manhã. Uma sexta. Talvez com um fiapo do que andara lendo ainda a espiralar no sonho. Tratava-se dos Comentários de São João da Cruz à Noite Escura da Alma. Pela janela entreaberta, filtrava-se a frialdade. E uma perna de bairro - mais desolado e belo - fazia-se ao claro-escuro. Escrevi um poema e tomei um pouco de leite. Enviei o poema, por imeio, para alguns amigos.
E fiquei meio lendo, meio cochilando até quase o meio-dia.
Então desci à pequena padaria do supermercado 24 horas. O dia estava encoberto e ameno. Uma leve friagem percorria as ladeiras íngremes. Sentei-me a uma mesa de onde podia divisar a rua pela vidraça e corri os olhos pelas manchetes da Folha. Pedi um café com leite e um pão com manteiga, passado na chapa; salada de frutas; suco de acerola; algumas fatias de queijo; apresuntado de peru; geléia de goiaba.
A balconista era certamente novata. Havia algo de estranhamente desajustado em seus gestos. Em menos de meia-hora e um quarto, tomei meu café e li um pouco mais do jornal, tomando algumas notas em um minúsculo caderno. E também notei que o pão viera sem o miolo. Um desses garotos descabelados e rotos me pediu algo em voz baixa. Minha resposta, em voz baixa, o dissuadiu de insistir por algo.
Após pagar no caixa, acenei para balconista novata, e disse-lhe em reserva — ela, surpresa, debruçando-se além da conta debaixo do avental sobre o balcão:
Achei interessante que o pão tenha vindo sem o miolo. Às vezes, eu até gosto assim. Mas, talvez, nem todos os clientes vão achar simpático.
Ela me interrompeu com um sorriso constrangido, onde havia um mau dente incisivo:
É que o pão tava quentinho, eu pensei que…
Sabia um tanto do que ela havia pensado. Ou o adivinhava, de algum modo. Ou pensava que adivinhava: o quanto no Nordeste há esse hábito de pelar o pão. E se deixar brincando, dedos involuntários, a modelar formas com o miolo. Formas que, por vezes, algo sugerem. Nem que apenas nuvens mais carregadas em um dia límpido, sem qualquer migalha delas.
Ao sair do supermercado, com o feriado estendido, desacelerando horas, me ocorreu ir até um café, e passar o resto da tarde lendo por lá. E tomar alguma cerveja para abrir o apetite. O feriado, desde o sol-posto da véspera, despovoara um tanto as ruas. Os paulistanos haviam descido para as praias. Estava agradável caminhar. Notei cordões bem finos enroscados, como delicados cipós, ao longo dos fios de telefone, e que isso me agradava. Passei por um homem, com sacolas de supermercado. E ele, soerguendo uma das sacolas, não sem alguma dificuldade, lambia algo que parecia ser um selo. E, porém, sobressaltou-se quando notou que era notado. Uma jovem, bela como um anjo, passeava seu advento. Sem timidez. Nem expansão. Mas um certo, espontâneo, aloofness. Uma mulher loura, madura e branca, excessivamente contida, em formas densas, sob um jeans, prendeu meu olhar por um lapso, próximo a um ponto de ônibus. E lembrei de um poema. De Pessoa: “Dá a surpresa de ser/ É alta, de um louro escuro/ Faz bem só pensar em ver/ Seu corpo meio maduro”. Chegando ao café, dei com todas as mesas à calçada, vazias. Dispostas de certo jeito que gosto. Um tanto obliquamente em relação à travessa. Mas um impulso me disse para não sentar ali.
Segui até o fim do quarteirão. E desatei um passeio pelas ruas em volta. Um tanto à deriva. E de novo me veio a visão e o sabor daquele casca de pão, a manteiga liqüefeita, por cima, como se da terra. E de novo me veio o sorriso da balconista. Seu mau dente. Minha fria formalidade.
Pensei em direitos do consumidor. Está na moda. Como o politicamente correto. Certa compulsiva ênfase para se falar em discriminação. Meio à norte-americana. A bobagem de todos se mostrarem infinitamente complacentes e expeditos com os aidéticos. Ou com os homossexuais à frente de câmeras e de microfones abertos. Para depois nutrirem as mesmas posturas de sempre, em piadas torpes, por botecos e botecos, pelo país afora. E, em meio a toda essa massa sem fermento, os tais direitos do consumidor. Mas que argumento de pão mais sem miolo! O que, no fim de tudo são os direitos do consumidor?
Por exemplo, o que são os direitos do consumidor diante do que se deve ao próximo? Nada são, em certas circunstâncias. Quando muito, a ratificação mais extrema da insanidade. E ainda mais diante daquele constrangimento da balconista. De seu mau dente. De seu primeiro dia de trabalho. De seu acanhado, belo sotaque nordestino com aqueles “t’s” tão liguadentais. Tão dignos. Talvez pernambucanos. Ou caririenses. De sua perene divindade. De ela apontar que, de fato, Deus é – porque falta tanto para tantos. Do fato de estar ali desde manhã, e de haver tomado um ônibus para ali estar, desde antes de manhã; enquanto se pode escrever poemas, passar imeios para amigos em cidades distintas, em países outros, deambular pelo bairro tranquilo. Entrever comportamentos estranhos. Belas mulheres. Finos cordões enroscados na fiação telefônica. Relembrar-se de um poema de Pessoa. Ler São João da Cruz – e guardar tão pouco! Do fato de ela mal saber ler, enquanto se pode fazer pós-graduações insípidas, tão sem sentido, tão inúteis diante do essencial, do fato matinal que é um café com leite com pão e manteiga postos à mesa.
Mesmo sem miolo.
E pus os óculos escuros, para disfarçar que a uma certa tristeza corresponde água salgada nos olhos.
Então, voltei para casa, porque a vida que se faz entre livros é, por igual, faina que parece não ter fim. E pão repassado na chapa. E, por vezes, exige um sangue frio, que não pode ceder a essas sentimentalidades. Mesmo de um exilado. Ou à essa talha de uma comoção mais forte na manhã de um feriado. E é um tanto palha, no fim de tudo. Lucerneira. Um entristecer da carne – se não a ela se põem limites. Como o de caminhar por ruas semi-desertas quando um dobre de finados, nos sinos da Igreja de Nossa Senhora da Pompeia, anuncia tempos idos. Uma época em que, quem sabe, se não descia às praias para desfrutar do feriado que, então, se chamava "Dia Santo".
Ao dobrar o jornal sob a axila, para abrir o portão do pequeno edifício, sentia-me refeito. Feliz, por lesado em meus direitos de consumidor. E, eventualmente, com um pouco mais de miolo.
[Inícios do Verão, 2001]




Nota — Texto originalmente publicado na já extinta revista (especializada em crônicas) Nariz de Cera, em 2004.

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

É Canudos revertendo-se sobre a voragem inescrupulosa

Jean (Hans) Arp, Enak's Tears, 1917



Que a lágrima não se verta em vão


O momento é para celebrar. Mas que a lágrima, mesmo a de alegria, não se verta em vão.

O Brasil dividiu-se literalmente no mapa dessas eleições. Basta debruçar-se sobre os índices de vitória em cada estado para perceber que o Brasil expressamente – e, por vezes, inescrupulosamente – taxado de arcaico, atrasado, pobre, miserável, analfabeto, venceu o pseudo-Brasil-moderno, pseudo-europeizado, pseudo-cosmopolita, pseudo-desenvolvido, pseudo-sofisticado.

O mesmo que tratava seu corpo mais ao norte como uma sorte de colônia. Que o parasitava a todo custo. Que, pela força da grana, engolia seus filhos nas indústrias paulistas. Que os importava, como gado, para fazer os serviços mais rasteiros – justamente os mais essenciais. Serviços em que eles próprios não desejavam sujar as mãos: limpar a casa, da sala à privada; tomar conta dos filhos, enquanto as mulheres e homens saíam para ganhar a vida, "liberados", como se diz. Que abocanhava esses seres humanos para serem humilhados em portarias de prédios, balcões de padarias, bocas de fogão, flanelas de engraxar, volantes de táxis, estivas, carregar de malas; mutilados pela força mecânica e automática das máquinas nas indústrias. Que transformavam seus corpos esquálidos em utensílios, como um liquidificador. Como uma betoneira. Como um guindaste. Uma trituradora. Uma ceifadeira. Para passarem o dia inteiro, na faina sem fim, de cortar cana nos canaviais das grandes produtoras de etanol, no interior de São Paulo, do Paraná. Transportados em ônibus ensardinhados, em trens de subúrbio caindo aos pedaços, nas grandes metrópoles. Exilados de sua terra e de seus afetos. Sem poder comprar o mínimo essencial de nutrição para pôr à mesa, sem perspectiva de educação para os filhos. Sem férias na Argentina, que fosse. 

Sem esperança.

Essa vitória é também a vitória de Canudos. É Canudos revertendo-se sobre a voragem inescrupulosa e o egoísmo dos que sempre se recusaram a perder a migalha que fosse em partilha com seus próprios concidadãos.

Por outra via, é mais ou menos óbvio que há muitas incógnitas pairando no ar. Com três mandatos consecutivos, pode o PT tornar-se um partido tão espúrio quanto o PSDB? A que nível de autoritarismo pode chegar um partido permanecendo tantos anos no poder? Terá Dilma voo próprio como executiva? Ou será uma espécie de marionete de Lula? Poderá ela, de fato, governar para todos os brasileiros, como apregoa? Ou reforçará ainda mais uma tendência: uma espécie de petetização do poder, de cargos administrativos que requerem bons administradores, ao invés de afilhados (ou afiliados) políticos? Será que Rousseff aproximar-se-á perigosamente de regimes autoritários, como o de Chávez? Irá flertar com uma censura velada? Sair-se-á tão bem no embate com a conjuntura externa como seu habilidoso predecessor?

Isso tudo o país terá de conferir nos próximos anos. De olhos atentos.

Porém, de momento, a hora é de comemorar. De celebrar o grande feito de uma mulher chegar pela primeira vez à presidência. E não pelo voto do Sul Maravilha. Porém pelo dos descamisados, dos mais frágeis, dos mais vulneráveis. Dos que têm de despender mais suor para pôr menos pão à mesa.

P.S. – E nisso tudo, louve-se o desempenho de outra mulher: Marina Silva. É de se esperar e torcer para que ela não saia da vida pública. A expressiva votação que conquistou – inclusive no Nordeste – faz prometer o nascimento de uma terceira via. De um partido ainda não tão maculado por alianças espúrias com siglas de aluguel para permitir o mínimo de governabilidade. Mas também a votação em Marina Silva nos indica outra dádiva: uma preocupação maior do povo brasileiro com uma questão chave: a ambiental. É algo, enfim, a conferir. Uma perspectiva.


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domingo, 31 de outubro de 2010

A prevenir os viajantes da presença: Salter

Frank Auerbach, Nude, 1953-54



James Salter

Conheci a prosa de James Salter num período de grande ebulição. Morando em São Paulo, certo professor da PUC indicou-me para traduzir seu livro de memórias: Burning the Days [1997] – título que verti como Oxidando os Dias. Era uma época estranha em que eu queria assumir-me como escritor, mas ao mesmo tempo percebia que o que tinha vivido não me fornecia lastro suficiente para sê-lo. Mas isso é uma outra prosa, e não vale a pena entrar agora por esse desvão.
Lembro que, logo em seguida, com minha ex-mulher, meu irmão, minha cunhada, e um casal de amigos, viemos em férias para Fortaleza. E não era infrequente eles seguirem para praias, lagoas, falésias, serras. E nem sempre eu podia seguir com eles, porque tinha de restar em casa, às voltas com a tradução do livro. Tradução que conhecia uma estável média de três ou quatro páginas por dia. O livro é admiravelmente bem redigido. Frases curtas. De uma elegância hemingwayana. E alguma demão de Henry Miller pairando por cima do todo.
O que eu não contava, adiante, é que a editora para qual eu estava contratado iria entrar em processo de solvência. Que meu trabalho, de horas e horas, teria de ser interrompido. Que, algum tempo depois, passaria para outras mãos. E, claro, meu nome jamais apareceria nos créditos da tradução – algo, na produção linha de série e instável, que é o mercado editorial, não tão incomum. E pensar na pilha de livros que traduzi, que eram tão ruins, que uma das condições para traduzi-los, era a de que meu nome, por pedido próprio, não constasse nos créditos...
Porém nem mesmo esses contratempos diminuíram meu apreço pela escritura de Salter. Tanto que quase simultaneamente à tradução de Burning the Days, ao retornar a São Paulo, lancei-me à leitura de um seu romance que é, de fato, um um achado: A Sport and a Pastime [Um Esporte e um Passatempo, 1967], chegando mesmo a traduzir, por puro prazer, certos excertos, depois perdidos em velhos disquetes – pois a medida que os suportes de memória se tornam cada vez mais robustos e aparentemente confiáveis, tornam-se também mais e mais descartáveis.
Lembro que a indicação, aliás, veio de uma vendedora da Livraria Cultura, que era minha principal fonte em matéria de ficção norte-americana. Em dez anos, como as coisas mudam! Busque-se alguém assim no supermercado de livros em que se converteu a Cultura, e se não vai encontrar. Nem sequer em São Paulo.
Salter, tendo sido piloto de caça na Guerra da Coréia, nos oferta em Burning the Days, memoráveis páginas sobre essa profissão fascinante. Onde o risco é algo que segue colado à casca de cada segundo. Mas, sem dúvida, mais magnético é A Sport and a Pastime, que trata do mais universal de todos os temas: aquele.
Nele um expatriado norte-americano vive um tórrido romance com uma lojista francesa numa pequena cidade da província. O detalhe é que tudo não é mais do que ficcionado – com grande verve de imaginação e sensualidade, no entanto – por um solitário compatriota também expatriado.

Abaixo segue um extrato:

16.

Past and haunting images of France, reflected over and over again like the facets of an inexhaustible stone. I walk through the silent house, the tall rooms chilled with winter light, the furnishings crossed by it, the windows. The quality of stillness is everywhere. There is no single detail that provides it. It exists like a veiled face.
Images of the towns. Sens. The famous cathedral which is reflected in the splendor of Canterbury itself rises over the icy river, over the still streets. One sees it in the distance, St. Etienne: the centuries have bleached its stone like powder and the heads are all missing from the statues of the blessed, but still it appears from far off to warn travelers of the presence of God. Built as one of the first of a great, Gothic family that rose throughout France, it endures like a white myth. The little shops have grown close around it, cinemas, restaurants. Still it cannot be touched. Beneath the noon sun the roof, which is typically Burgundian, gleams in the strange design of snakeskin, banded into diamonds, black and green, ocher, red. The sun splashes it like water. The brilliance seems to spread.
Sens. They have fallen sleep. Dean wakes first, in the early afternoon. He unfastens her stockings and slowly rolls them off. Her skirt is next and then her underpants. She opens her eyes. The garter belt he leaves on, to confirm her nakedness. He rests his head there. After a while, finding a more comfortable position, he lies between her legs, her pelvis for a pillow, her knees within his grasp. He listens to the traffic. He turns his head a little to see if she is asleep. She is looking down at him calmly. Beneath his ear it is wet.

[James Salter, A Sport and a Pastime, © James Salter, 1967]

16.

Passadas e assombrosas imagens da França, refletidas de novo e de novo como as facetas de uma gema inexaurível. Eu caminhava para a casa silenciosa, os compartimentos altos arejados pela luz do inverno, os móveis entrecruzando-a, as janelas. A qualidade da quietude está em toda parte. Não há um único detalhe que a proveja. Ela existe como um rosto velado.
Imagens das cidades. Sens. A famosa catedral que é decalcada do esplendor da própria Caterbury ergue-se sobre o rio enregelado, sobre as ruas quietas. É possível entrevê-la à distância, S. Etienne: os séculos caiaram suas pedras como talco, e as cabeças das estátuas dos abençoados se foram, mas ela ainda assoma desde longe a prevenir os viajantes da presença de Deus. Erguida como uma das primeiras de muitas, da linhagem gótica que aflorou na França, ela perdura como um mito branco. As pequenas lojas amontoaram-se rente a ela, cinemas, restaurantes. Ainda assim, ela não pode ser tocada. Sob o sol da tarde, o teto, que é tipicamente borgonhês, reluz na estranha estampa de pele de cobra, listrada de diamantes, negros e verdes, ocres e encarnados. O sol sobre ela respinga como sobre água. O brilho parece alastrar-se.
Sens. Eles haviam caído no sono. Dean desperta antes, no abrir da tarde. Afrouxa as meias dela e lentamente as enrola. Depois vem a saia e então a calcinha. Ela abre os olhos. A liga, ele não remove, para confirmar a nudez dela. Repousa ali sua cabeça. Depois de um lapso, ao encontrar uma melhor postura, ele jaz entre as pernas dela, a pelve dela por travesseiro, os joelhos a seu alcance. Ouve o tráfego. Revolve a cabeça um pouco, para ver se ela dorme. Ela o entreolha calmamente abaixo. Há umidade sob a orelha dele.


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sábado, 30 de outubro de 2010

Um 'Midrash' realista, cético, fervoroso

Mark Gertler, Jewish Family, 1913




Isaac Bashevis Singer

Quando ainda estudante de graduação em História, dei com o nome de Isaac Bashevis Singer nas prateleiras da biblioteca do Centro de Humanidades. E fui fisgado de imediato pelo seu nome – que jamais ouvira antes. Como é possível? Pude reconhecer que se tratava de um nome judeu. Mas também seu nome me remetia para as máquinas de costura. Máquinas que foram utilizadas por minha avó. E com grande perícia. Máquinas, cujo distribuidor, na pequena cidade em que nasci, era amigo de meu pai.

Após esse encanto para todos os efeitos irracional, tirei o livro de Singer da prateleira. E, aí, sim, percebi estar diante de um grande prosador. Se dispusesse de tempo ou de uma maior facilidade para aprender línguas, teria aprendido o iídiche apenas para desfrutar, de fato, da prosa de Singer no original. Ela parece revestida de uma integridade que a previne contra qualquer modismo ou afetação. 


A tradução, para o inglês naquela edição fora empreendida, no entanto, por ninguém menos que Saul Bellow. E os contos – que prendiam justamente pelo fato de serem excepcionalmente bem contados – pareciam refratar as intenções de Singer, como alguém que, apesar de completamente cético diante da tecnologia e das modernas facilidades de comunicação, tratava a vida com certo joie de vivre. E, em especial, num certo conto longo: Gimpel, The Fool [Gimpel, O Idiota].

Só depois fiquei sabendo da obsessão de Singer com a questão da tradução. Do fato de ele discutir com seus tradutores o teor de cada palavra na esteira da frase.

Nos dias de hoje há tão-só cerca de três milhões de pessoas capazes de ler em iídiche – e, ainda assim, sem fluência, a maioria. O que é escrever para menos de três milhões de pessoas? O que é escrever em uma língua que está desparecendo? O que se sente ao pôr no papel palavras que se sabe, dentro em pouco, farão parte de uma língua morta, serão matéria para linguistas? Que sequer possui termos que designam facilidades modernas como “metrô” ou “via-expressa”? O que escrever num idioma que é já quase arqueologia?

No entanto, a coerência narrativa – e obviamente moral – dos relatos de Singer me fisgaram de imediato. Assim como um pressentido descaso pelo que seguia em moda – em todos os níveis, inclusive o acadêmico. E não menos seu senso de devoção ao local e ao pequeno, ao microscópico, ao frágil: as pequenas aldeias polonesas e guetos de população predominantemente judaica, que ele deixara para trás ao migrar para Nova York - Singer morreu aos 88 anos, em 1991. 

Falar dessas comunidades é falar da Shoah. É falar, um pouco por tabela não periódica, de Primo Levi, de Paul Celan. E, no entanto, os temas de Singer não passam por um certo teor de vitimização que, quando se adentra nesses domínios, é quase impossível fugir dado a barbárie dos acontecimentos.

Os temas de Singer recaem muito mais sobre modos de vida pequenos, segregados, vividos em tempos mortos, já tão passados. Vividos nessas comunidades asquenazes de antes da II Guerra. 

Em Gimpel, por exemplo, temos o idiota da aldeia. Mas também um homem operoso. Que passa de ajudante de padeiro a proprietário da melhor padaria do local. A população, por chacota, o faz casar com uma das mulheres mais promíscuas do lugarejo. Eles geram, então, uma prole numerosa. Sendo que nenhum dos filhos é do próprio Gimpel. Ele é um homem de tão boa-fé, contudo, que, uma vez, chegando em casa, ao surpreender a mulher com outro, na cama, ao invés de tomar medidas de imediato, segue, ao invés, ao rabino em busca de orientação. 

O rabino, salvo engano, ele próprio um dos amantes da mulher de Gimpel, lhe convence que nossos sentidos são falhos. E o que Gimpel vira, não se tratava de uma pessoa, mas da sombras de uma viga sobre as cobertas. E até lhe prescreve uma oração. Apaziguado, o idiota volta para a casa e prossegue com a vida. Uma enfermidade grave, no entanto acomete sua mulher. E esta, em seus estertores, manda chamar-lhe e abre o jogo: a ilegitimidade dos filhos, o compulsivo adultério com aldeia e meia, o modo como todos a ele se referiam às suas costas em tom de deboche. Atordoado com as revelações da mulher, Gimpel pondera insone, madrugada adentro, à espera da hora de fazer o pão. Uma das vinganças que imagina é a de acrescer algumas medidas da própria urina na massa do pão.

Mas então, algo acontece. Extenuado, ele cai num sono profundo. E nesse sono há um sonho em que um conhecido lhe vem do Além para lhe dissuadir de qualquer vingança. Que não fizesse isso, porque sua ficha no Além estava limpíssima. Ao despertar, reconciliado, ele toma algumas decisões. Uma delas é a de passar o rentoso negócio da padaria aos filhos. E também adotar como princípio, certo trecho do Livro da Sabedoria, que diz da possibilidade de tudo. De o que não é ou não pode ser concreto aqui e agora, ser possível de realizar-se sobre outras circunstâncias, em outro tempo, outro local, etc. [e não tome-se isto como utopia política mas como condição existencial]. Assume também a postura do nômade, do errante, que sai de aldeia em aldeia, contando midrashim, pequenas histórias edificantes, sobretudo aos mais jovens e às crianças.

Além de admiravelmente bem estruturadas, as narrativas de Singer prendem pelo fato de em qualquer momento abdicarem da moral da história. E talvez nisto resida o seu maior encanto.

Abaixo segue um linque para uma bela entrevista com Singer na Paris Review, em que, além de falar do papel do escritor e sua relação com o jornalismo, o ensino e as modernas facilidades, ele nos diz coisas como:

Well, the Yiddish writer was really not brought up with the idea of heroes. I mean there were very few heroes in the Jewish ghettos—very few knights and counts and people who fought duels and so on. In my own case, I don't think I write in the tradition of the Yiddish writers' “little man,” because their little man is actually a victim—a man who is a victim of anti-Semitism, the economic situation, and so on. My characters, though they are not big men in the sense that they play a big part in the world, still they are not little, because in their own fashion they are men of character, men of thinking, men of great suffering. It is true that Gimpel the Fool is a little man, but he's not the same kind of little man as Sholom Aleichem's Tevye. Tevye is a little man with little desires, and with little prejudice. All he needed was to make a living. If Tevye could have made a living, he wouldn't have been driven out of his village. If he could have married off his daughters, he would have been a happy man. In my case, most of my heroes could not be satisfied with just a few rubles or with the permission to live in Russia or somewhere else. Their tragedies are different. Gimpel was not a little man. He was a fool, but he wasn't little. The tradition of the little man is something which I avoid in my writing.

Bem, o escritor de tradição iídiche não cresceu com a ideia de heróis. Quer dizer, houve poucos heróis nos guetos judaicos—poucos cavaleiros e condes ou gente que duelava, etc. No meu caso, não penso que escreva na tradição do “zé-ninguém” do escritor iídiche, porque esse “zé-ninguém” é de fato uma vítima—um homem vitimizado pelo anti-semitismo, a condição econômica, e por aí vamos. Minhas personagens, embora não sejam grandes homens no sentido de desempenharem uma ação decisiva sobre o mundo, ainda assim não são “zés-ninguéns”, porque a seu modo são homens de caráter, de reflexão, de grande capacidade de sofrimento. É verdade que Gimpel, o Idiota, é um “zé-ninguém”, mas não do mesmo tipo do “zé-ninguém” a exemplo do Tevye, de Sholom Aleichem. Tevye é um “zé-ninguém” de aspirações mesquinhas, e pouca predisposição. Tudo que ele necessitava era ganhar a vida. Se Tevye houvesse logrado ser bem sucedido, não teria sido expulso da aldeia. Se pudesse ter casado suas filhas, teria sido um homem satisfeito. No meu caso, alguns dos meus heróis não se contentariam com alguns rublos ou com a permissão de viver em um lugar qualquer da Rússia ou onde mais fosse. Suas tragédias são diferentes. Gimpel não era um “zé-ninguém”. Ele era um idiota, mas não era mesquinho. A tradição do “zé-ninguém” é algo que evito em meus escritos.

Ou ainda:

I think that journalism is a healthier occupation for a writer than teaching, especially if he teaches literature. By teaching literature, the writer gets accustomed to analyzing literature all the time. One man, a critic, said to me, “I could never write anything because the moment I write the first line I am already writing an essay about it. I am already criticizing my own writing.”

Acho que o jornalismo é uma ocupação mais salutar para um escritor que o ensino, especialmente se ele ensinar literatura. Ao ensinar literatura, o escritor acaba acostumando-se a analisar a literatura o tempo todo. Um sujeito, um crítico, me disse: “Eu jamais poderia escrever nada, porque logo à primeira linha já estou escrevendo um ensaio a respeito. Já estou criticando minha própria escrita”.

Para a entrevista na íntegra:



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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Pronunciando cada palavra ao ouvido interior

[s/i/c]




Um bocado traiçoeiro
uma divagação imediata sobre o computador enquanto meio

O blogue parece ser o meu limite. Eu não saberia ir além disso. Tentei as redes sociais. E evadi-me delas por pudor. Senti que havia ali algo que não era meu. Por vezes, certo desconforto de adentrar tanto na intimidade de pessoas que mal conheço. Entendo que o fato de acomodar-se nessas redes ou não é de cada um. E que há pessoas que fazem delas um uso compulsivo. Especialmente do Twitter. Um uso que não parece razoável. Outras se impõem limites. Algumas podem achar o ambiente estimulante. E chegam a ser criativas. No entanto, tenho me organizado mais e mais no sentido de impôr determinados e precisos limites, limiares quanto ao uso do computador. Aliás, não tenho afeição pelo computador em si, como objeto. É uma máquina feia, estranha. Mesmo os notebooks parecem objetos sem nenhum senso plástico. Não há nada neles que me agrade, afora o teclado de um notebook, que me remete vagamente para o teclado da última máquina de escrever que possuí, já eletrônica, com uma ridícula memória para os padrões atuais: captava cerca de duas laudas. No entanto, escrevo há já quase duas décadas em editores de texto, o que considero uma grande vantagem, porque nunca fui um bom datilógrafo. E também porque reviso à exaustão o que escrevo. Então, para mim, o computador tem sido essencialmente uma máquina de escrever com algumas vantagens. Também leio jornais e suplementos literários no computador. E tenho alguns dicionários instalados. Num determinado instante, cheguei a ler livros, foi quando senti uma imensa saudade dos livros convencionais. E me senti desconfortável no que estava a fazer – porque leio sempre com lápis. Quer dizer é raro passar uma página sem escrever algo na própria página. Uma observação, um comentário. Destacar um trecho para associá-lo com outra ideia em outro livro. Ou anotar o sentido de uma palavra desconhecida em outro idioma. E entendo que o fluxo de meu pensamento, que é lerdo – gosto de ler sentindo a musicalidade de cada frase, e, portanto, pronunciando cada palavra ao menos para o deleite do ouvido interior – necessita de algo lento, sereno como as páginas de um livro. Até o e-mail tenho buscado usar com comedimento. Há poucas pessoas com quem troco correspondência regular. E, em geral, ou sou muito breve, ou escrevo como quem escreve cartas: longos e-mails. Todos esses procedimentos tendem a desacelerar mais a vida. É claro que tendo interesse em música e na edição de imagem e de som, não posso ficar imune ao que se passa em termos de softwares. Mas, aqui, não sou compulsivo. A máquina tem de estar a meu serviço, como ferramenta. Não o contrário. Não preciso ter a última versão de um editor de imagens para editar imagens. Preciso de algo que funcione, que seja conveniente. Como ferramenta, acessório. Não faço distinções ente PC's ou Mac's. São igualmente máquinas que, em si, não se comparam, em termos estéticos, à última máquina de escrever mecânica que tive: uma Olivetti portátil. Parece mais ou menos óbvio que depois de mais de um século produzindo máquinas de escrever o design de algumas delas é estupendo. Produz-se computadores há somente umas poucas décadas. E ainda não vi um único que me chamasse a atenção por sua beleza enquanto objeto. Alguns, é óbvio, conseguem ser mais feios. Quase todo mundo gaba os Mac's pelo design. E tenho um Mac sobre a minha bancada de trabalho. Utilizo-o muito pouco. Acho que vou me desfazer dele. É uma máquina absurdamente feia. Cheia de inconvenientes, como pilhas embutidas no teclado e no mouse - e isso chega a ser anti-ecológico. Com problemas para detectar a rede sem-fio, a cada vez que é desligada. Mas a publicidade faz dos Mac's como que maravilhas aos olhos das pessoas. E a maioria das pessoas cai no conto. Enfim, sobretudo, luto para que o computador não se torne algo imprescindível. Que se possa confeccionar as coisas, sejam elas quais forem – em verso ou prosa, lançando mão de imagens e/ou de sons – sem qualquer fetiche pelo computador enquanto objeto. Tendo bem em mente que ele é tão-só uma ferramenta. E como toda ferramenta, se não bem empregada, pode ser um bocado traiçoeira.

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Uma vez que não mais os temos, em autonomia

Daniel Spoerri, Poèmes en prose, 1959



Por onde retomar o rumo da prosa?


Temos uma inflação de poetas. E alguma boa poesia sai disso. Uma pequena, ínfima parcela. Mas há algo. Há alguma consistência. Gente já consolidada. Outros despontando.

Porém em prosa não há quase nada. Aqui seria possível citar nomes. Mas citá-los também uma injustiça em relação a outros que não entrariam em uma lista extensa.

Digamos que alguns desses romancistas ou contistas podem fascinar alguns críticos.

E até isso de críticos é incorreto, uma vez que não mais os temos, em autonomia de pensamento e idiossincrasia de escolhas, passando ao largo das universidades. Talvez esses autores despertem o interesse de alguns professores, de alguns alunos de pós-graduação, o que é diferente. O que, convenhamos, segue distante de ser uma boa aferição, uma vez que, por essa via, apenas se toma a obra de quem quer que seja para justificar uma ideia previamente mentada por um teórico qualquer – seja ele Barthes, Blanchot, Lacan ou um de todos dentre essa francesada que faz a cabeça de nossos estudantes de pós-graduação nos cursos de Letras e que escreve, em geral, uma prosa ilegível, além de, em geral, porcamente traduzida; mas que, de resto, é muito mais lida que os próprios prosadores em questão.

A verdade é que enquanto há essa inflação de poetas, há também muito pouca gente escrevendo uma prosa minimamente decente no país.

O fato é que, por aqui, não se pode divisar um autor da ressonância e do refinamento estilístico de um Kundera, de um Auster, de um Lobo Antunes, de um Oz, de um Le Clézio, de um Foster Wallace – para nomear uns poucos, em variância, que assomam bem acima da média. Isso para não mencionar a verve do chileno Roberto Bolaño, para arrematar com algo mais próximo de casa.

E parece óbvio que, sem uma prosa forte, a tendência da poesia é a de definhar. Porque não se pode viver só de um modo de escriturar – por mais que as fronteiras entre gêneros sejam lábeis e, para todos os efeitos, uma convenção.

Mas a vida em sociedade é ela própria uma convenção. E a prosa, ao que indica a evidência, prossegue sendo algo distinto da poesia – ainda que esta agregue muito daquela; e aquela muito desta.

O fato de um romance escrito por um “comunicólogo”; ou por um compositor entediado com seu trabalho de músico, que escreve nas horas vagas por distração pessoal; serem alçados à condição de destaque disso nos dá prova.

Prosadores são, via de regra, grandes anticomunicólogos.[1] E é um tanto dessa anticomunicologia, cujo avesso tanto fascina um público muito mais telespectador e/ou ouvinte, o que estamos carecendo.

E aqui também não se menciona uma figura de proa nessa recepção da prosa: o tradutor. Já tivemos quase que uma escola informal de bons tradutores no Brasil. E essa escola se diluiu pela idade avançada ou foi absorvida ou desestimulada pelo bestsellerismo que envolve as escolhas tradutórias do que segue sendo lançado pelas grandes editoras. Essa mesma escola de bons tradutores que, em seu núcleo mais sólido, contava sobretudo com a relevante contribuição de judeus emigrados do porte de um Rónai, de um Carpeaux, de um Guinsburg, de um Schnaiderman, de um Flusser.

Isso tudo nos faz ter saudade de um tempo em que a figura pública do escritor, do romancista, do contista, do tradutor se mantinha muito mais por seus próprios livros. Por seu suor. Pelas horas de embate com a própria linfa da linguagem, no debruçar-se sobre léxicos. Na obsessão de pinçar o termo preciso. No desejo de conseguir algum ritmo. Em horas extraordinárias, necessárias para a artesania, para a confecção de uma prosa, de fato, relevante, mesmo quando só refratada em outro idioma. Distante das câmeras. E assegurada não pelo número de entrevistas ou pelo que o prosador podia, então, eventualmente, suplementar, através dessas entrevistas, palestras ou frequência a feiras de livros, como se sua própria obra fosse incapaz de manter-se sobre o alicerce, sólido, concreto, a carnadura das palavras.

Ou seja, a inata – e adquirida, adestrada – capacidade de destruir uma linguagem para, nesse embate, re-criá-la, como tão bem nos sugere esse gigante transamericano que foi José Lezama Lima.

Será que isso guarda alguma afinidade com o fato de o escritor brasileiro, em geral, ser por um lado também não um nômade, no bom sentido da palavra, mas uma espécie de funcionário público, barnabé, domado pelos procedimentos de desova de artigos imposto pela academia?

Em parte, é possível.


[1] Quer dizer, a comunicação não é algo essencial nem ao romancista, tampouco ao poeta ou ao tradutor (que no caso da poesia há que ser também um poeta). A comunicação é, por seu turno, essencial ao jornalista e ao publicitário. O que não quer dizer que escritores devam buscar deliberadamente uma linguagem obscura ou esotérica. Escritores farejam ruídos. Escritores chutam formas ao gol. Ou como diz Williams, escritores buscam "um matiz de som operando de encontro a uma cachoeira de sentido". Um livro como Tutameia não é fácil de ler. Um escritor como Rosa não opera por comunicação. Mas por magia musical, escuta poética, prestidigitação sintática. E nosso modelo bem poderia passar por Rosa, Graciliano, Zé Lins, Clarice Lispector, Lúcio Cardoso... Não há que ser complacente, aqui. Porque há caminhos por onde derivar, descontinuar...

P.S. – De outro modo, chega a ser bizarro que parte da intelligentzia brasileira nutra tão óbvios preconceitos, torça o nariz diante de escritores tão distintos entre si quanto Foster Wallace – ainda praticamente um desconhecido entre nós – e, sobretudo, J.M.G. Le Clézio, a quem entendem como uma espécie de novo propagador de um esoterismo internacionalista, ao modo de um Paulo Coelho. Ou de um pluralismo transcendental. Certamente, não leram a fundo nem a um nem a outro. Não há no Brasil recente um livro em prosa que passe sequer perto de O Êxtase Material (1967), de Le Clézio. Ou mesmo da Trilogia de Nova York (1987), de Auster. Ou dos ensaios e romances de Foster Wallace. São livros diante dos quais até mesmo o incensado A Hora da Estrela (1975), de Clarice Lispector parece empalidecer. Aliás, convenhamos, apesar de ser Lispector, A Hora da Estrela passa longe de estar entre o que de melhor ela produziu. Um exemplo? Os contos do excepcional volume Laços de Família. Quem diz isso não somos nós; a própria Clarice, em entrevistas, reconhece o quanto sua novela de 1975 tem lá as suas inconsistências. Ou, em resumo, o momento é de um rarefação extrema. O modelo de avaliação imposto à universidade brasileira cavou um apartheid entre universidade e realidade extra-acadêmica. Avalia-se por número. O número de artigos publicados por um professor. Ou pela suposta importância das revistas em que publica. Com honrosas exceções, esses livros de compilação são uma fraude, da qual, no fundo, seus próprios "organizadores" estão a par. Embora façam de conta que não. Do contrário, avaliar deveria passar pela qualidade desses artigos. Não seu número. Em sua vida acadêmica Einstein publicou quatro artigos. Pelos critérios da Capes e do CNPq, seria massacrado. Enquanto isso, escrevem-se teses e artigos a granel. E se pode perguntar: qual a consistência da maioria deles? Em que se fundamentam, para além da própria noção de carreirismo desenfreado em que se converteu a vida de um professor universitário no Brasil?


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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Revolutionary Road

Still de Revolutionary Road, 2008, filme baseado em romance de Richard Yates


Richard Yates

Há aqueles escritores que são lidos na tenra juventude e prosseguem sendo referência pela vida afora. Esse fenômeno deve acontecer a qualquer leitor mais atento ou compulsivo. O das releituras.
No meu caso, Ernest Hemingway [por The Sun Also Rises e os contos], assim como F. Scott Fitzgeral [pelo Great Gatsby, sobretudo, mas também Tender is The Night assim como alguns dos contos] foram decisivos.
É uma prosa que simultaneamente encanta pelo apuro formal bem como por nos fazer compreender melhor a perplexidade desse mundo tão próprio que é a sociedade norte-americana. E não menos pelo intenso apelo visual presente nas memoráveis páginas de ambos.
Num certo sentido, eles foram (e prosseguem sendo) mais importantes e mais divertidos de ler do que, digamos, Joyce.
É claro que Joyce é muito mais experimental e ousado. E, no entanto, há uma espécie de lacuna quando o ponto é dotar os assuntos tratados de uma instância física. A percepção dos gestos em Joyce não chega a ser tão aguda. A prosa em Joyce parece estar menos carregada de vida. Dessa fisicalidade enfeitiçante, que vaza das páginas dos dois autores americanos. Desse êxtase material.
E o que ocorre é que em Hemingway e Scott Fitzgerald, essa instância física – não só do corpo das pessoas, mas da singularidade dos objetos – apresenta-se avassaladoramente ali, presentificada. E, melhor, em geral traduzida em poucas e certeiras palavras. Um efeito difícil de obter. Ausente ou mal posto, deslocado na maioria dos prosadores seja em que idioma. E, quem sabe, uma característica mais de escritores americanos – no sentido mais amplo, que abrange também tudo que está a sul do Rio Grande – do que de seus pares europeus, excessivamente siderados por sistemas abstratos ou firulas filosóficas.
Provavelmente Hemingway seja, nesse aspecto, mais completo que Scott Fitzgerald porque se sai melhor tanto em “locações” urbanas quanto rurais. Enquanto o autor de O Grande Gatsby é demasiado urbano. Há também uma simpatia na prosa de Hemingway por gente pobre, excessivamente velha ou por crianças, que a torna irresistível. Além disso Hemingway se abre a culturas outras, que não a americana. Há o seu fascínio pelas touradas, pelo sul da Europa, por Cuba, pela África, etc. Se é possível pressentir um virtuosismo maior em Fitzgerald, há uma maior verdade em Hemingway. É algo análogo ao que se dá na música entre Mozart e Bach. 
A prosa de Scott Fitzgerald nos revela o jogo do poder. A de Hemingway, o poder do jogo. Em uma há cintilância e sofisticação - e o preço de se chegar até elas. Na outra, há o sol, o mar, o pé descalço; a garrafa de vinho deixada para gelar no leito de um rio basco. E não é à toa que o título na Inglaterra para The Sun Also Rises seja simplesmente Fiesta. Ou que o retrato da "geração perdida", vagando de um a outro café parisiense, escrito por Hemingway, quase um duplo de Fiesta, intitule-se A Moveable Feast [Uma Festa Móvel]. Nas duas prosas há a impossibilidade plena do amor. Em uma há o calhorda que esbofeteia a amante quase por cálculo. Na outra há uma gorda prostituta que ri e se reserva o direito de corrigir a mentira. Ou a fatalidade de uma ferida de guerra que impede sua consumação.
Recentemente, li um romancista americano que segue na mesma linha dos citados acima. Sinestesia pura. Que bebe neles de algum modo. Seu nome é Richard Yates [1926-1992]. Talvez ele seja mais prolixo que os outros dois – e, em especial, do que Hemingway, onde a medida da concisão é extraordinária – mas não menos intenso quanto a essa tradução de gestos para palavras. E ao fato de sua prosa estar firmemente calcada na vida.
Seu primeiro romance, Revolutionary Road [1961] é um primor. O tema recai sobre os conflitos de um jovem casal que busca o sucesso em uma comunidade endinheirada e nova-rica, do subúrbio, na próspera Connecticut, durante os glamurosos anos 50.
Ela tem alguma ambição de ser uma atriz de teatro e conforma-se mal ao papel de dona de casa. Ele mantem um emprego rendoso e burocrático, embora nutra aspirações intelectuais; e de uma forma um tanto desajeitada incentive os esforços dela. Isso, embora, em determinado momento, haja uma inversão de valores: seja ela que mova céus e terra para que se mudem para a Europa, onde ele pudesse desenvolver melhor seus dotes. Eles têm filhos pequenos – um casal –, moram numa bela casa: um gramado, uma colina, árvores, vizinhos. Porém uma série de fatores, que têm muito mais a ver com o egoísmo de cada, entram em conjunção para inviabilizar esse projeto europeu. E o final da história passa longe de um happy end.
Embora na terceira pessoa, a trama é claramente narrada a partir do ponto de vista do marido, Frank H. Wheeler. Trinta anos, bem sucedido, bem apessoado, ele é, contudo, assombrado por uma difícil relação com os pais, já mortos. Assim como pelo fato de haver algo em suas mãos que simplesmente não funciona. Uma espécie de inaptidão para trabalhos manuais. Em certa evocação que ele faz dos pais está, aliás, presente esse mal-funcionamento das mãos e uma certa culpabilidade por conta: "de meia-idade à época de seu nascimento, e já cansados de haverem criado dois outros filhos, eles se foram envelhecendo decididamente mais e mais exaustos à medida que ele os foi conhecendo melhor, até que extenuados de vez, morreram com semelhada entrega, em seus sonos, num espaço de seis meses de um para o outro. Mas nunca houvera nada de cansado nas mãos de seu pai, e nenhum amontoar de tempo e esquecimento turvaram a imagem delas à luz de sua mente".
O livro é exuberante. E inclusive foi adaptado para o cinema. Numa versão um tanto blockbuster, no entanto. Ressalto este aspecto para deixar bem claro que assistir um filme baseado numa obra literária nada tem a ver com lê-la – algo tão moeda corrente entre nós.
Na verdade são duas coisas completamente diversas. Inclusive quanto ao ritmo, a concentração, o suporte, a linguagem (em termos semióticos), etc. Ou seja, nenhum filme, por mais acabado que se apresente, quanto a suplementar uma obra literária, exime o espectador de ler essa obra. Não constitui um sucedâneo dela. Não se pode discuti-la, tomando como base o filme. O filme é outra coisa que não ela. [Aqui, talvez a única exceção a confirmar a regra seja justamente o Journal d'un curé de campagne (1951), o filme de Robert Bresson decalcado do romance de Georges Bernanos].
De outro modo, em vida, Yates  jamais teve a ressonância de Hemingway ou Fitzgerald. Seus livros que mais vendiam, não vendiam mais que 12.000 exemplares e estiveram fora de catálogo até o início da década de 90, quando, então, a partir do esforço de um crítico, foram sucessivamente reimpressos. Inclusive seus contos.  De momento, suas ações conhecem estável alta na bolsa de valores literária. E, embora não os reivindique, Yates assoma como alguém que deriva, de um modo bastante próprio, as lições desses dois mestres da prosa.


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