quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma aspiração imponderável

Canoa ao largo da barra, em Camocim



 A Canoa



A canoa de quilha é um vestígio da antiga perícia da construção náutica portuguesa. Esse vestígio foi largado nas costas do Brasil há muito tempo. E tudo indica que, com o passar dos anos, ele modificou-se muito pouco: cavernas, carlinga, cambitos, cruzetas, dormentes, falcas e fateixas são termos do antigo jargão do homem do mar português. E mesmo talvez provenham de um tempo em que sua intrepidez era tamanha que mesmo os arrogantes ingleses não hesitaram em batizar a caravela ( ou ‘água-viva’) de Portuguese-man-of-war [Guerreiro Português].
No Ceará, a canoa é um antigo emblema da costa oeste. Está próxima de um tipo cada vez mais raro: o filho de agricultor empobrecido de extração portuguesa que, pela sucessiva partição e amesquinhamento das terras, foi obrigado a voltar-se para o mar.
Esses homens levarão consigo uma aspiração, algo, fidalga e imponderável, diante da qual, os trabalhos do mar nunca contaram muito. Para eles, trabalhar a terra (“trabalhar no seco”) e, especialmente, possuí-las, traz muito mais honra. Gostam de frisar suas raízes familiares e seu catolicismo. Nutrem uma ambígua animosidade contra mestiços e índios (“a cabocada”) com os quais, de resto, acabaram se caldeando. Não raro, trata-se de pessoas de hábitos extraordinariamente regulares e comedidos e, não obstante a idade avançada, extremamente laboriosos.
Nas Vilas Volantes desempenham um tipo de autoridade que é aparentada à de um sábio. Algo venerável, mas ao mesmo tempo despótica e patriarcal. Porém sua aura de venerabilidade torna-se, hoje, mais e mais débil, especialmente para os mais jovens, escolados na sociedade de consumo. Em Camocim, por exemplo, dois dentre os pescadores mais idosos da colônia, Gabriel de Barros e Domingos Molhado, jamais usaram bermudas, um dia que fosse:
Porque é indecente.
À beira-mar, o primeiro brinquedo do menino das Vilas Volantes é uma canoa. Esta canoa tão-só pode sugerir uma verdadeira, como no caso da casca ou capemba de coco, como pode ser uma pequena obra de arte, armada com lenta precisão, seguindo rigidamente as mesmas etapas do fabrico de uma canoa em escala real.
Mas se o miniaturista faz alegria das crianças – e, cada vez mais a conveniência do turista – a figura do fabricante de canoas é bastante reverenciada. Há que se confiar num homem assim, que desenha a exígua superfície em que os pescadores se equilibram em cima por cerca de dois quintos de suas vidas. Na Tatajuba, Mané Pedro, tido como um dos mais hábeis construtores de canoas da região que vai do Camocim ao Acaraú, é motivo de orgulho para os habitantes do pequeno distrito. Ele encarna um dos poucos índices capazes de demarcar a singularidade da Tatajuba frente às outras Vilas Volantes. E compraz à comunidade entrever a chegada de pescadores de Camocim, do Guriú, das Imburanas, da Barra dos Remédios, de Jericoacoara, de Praia Nova ou do Maceió, que optaram por deslocar-se até a Barra do Lago Grande, devidamente acompanhados das partidas de madeira necessárias para o fabrico de suas embarcações.
No imaginário das Vilas Volantes, a canoa é um ser essencialmente feminino. Mas talvez haja uma antedata para isso, pois a própria etimologia de uma de suas peças fundamentais, a carlinga, disso dá prova. A carlinga, bloco de madeira fixado ao cavernamento, imediatamente abaixo do banco da vela, e que contém o orifício que a abriga a mecha do mastro, é um termo que provém do escandinavo ‘kerling’ (ou mulher). Somente em Camocim, elas são mais de trezentas. E, ao contrário dos botes, bastardos e barcos lagosteiros, a canoa é entendida como uma entidade essencialmente feminina e, quase invariavelmente, assim é nomeada. Com nomes de mulher: “Cleide”, “Flávia”, “Adriana”, "Lia", “Ana Cláudia”, “Joana”; de rosas: “Branca”, “Dália”, “do Porto”, “dos Ventos”; de estrelas: “d’Alva”, “do Norte”, “do Mar, “da Primavera”; de aves: “Gaivota”, “Graúna”, “Jandaia”, “Sabiá”; de peixes: “Piraúna”, “Sardinha”, “Tuninha”; de empréstimos da mídia: “Joelma”, “Flipper”, Rita Ly” [sic]; de insultos: “Cunhã”, “Rapariga”; de virtudes: “Boa”, “Carinhosa”, “Delicada”, “Sumária”; de termos estrangeiros: “Air”, “Chic”; de estabelecimentos comerciais: “Casa Vaulino”; de expressões ou gírias: “Vamucara”, “Vai e Vem”; “Minha e dela”; de Santas: “Inês”, “Luzia”, “Maria”, Joana d’Arc”; de Deusas: “Vênus”; “Diana”; de abstrações: “Delícia”; “Esperança” (curiosamente uma das menores), “Fé”, “Torpor”.
Nomes que expressam muito das volições, frustrações, influências, enfim, da utopia de toda uma comunidade, cujo destino comum está assentado na pesca artesanal.
[...]






[extrato de As Vilas Volantes, o texto, 1991]

* * *

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

No Desolamento do Feriado

Marcel Duchamp, Couple of Laundress' Aprons, 1959


L'Inquietude


Ao subir a serra já noite feita, ele percebera aquela grande carreta no ziguezague das curvas, desde uns quinhentos metros. Suas luzes difusas, assomando e murchando, ao sabor das espirais, na estrada. E de uma tênue neblina.

Lá abaixo, as luzes da cidade que tinham acabado de atravessar. A mais próxima ao sopé da serra.

Por fim aproximaram-se. E ficaram rentes a traseira do vasto caminhão por um bom quarto de hora. Era uma noite de lua nova. E a neblina, apesar de não espessa, colava-se na delicada pele do rosto dela e embaciava o para-brisas. A estrada era estreita. E mesmo que não houvesse chovido, a umidade do ar retirava um rumor mais acentuado e monótono dos pneus do carro. Como se não bastasse, o motorista do caminhão pouco parecia disposto a sinalizar. Sobre o repasse fugaz dos faróis as silhuetas das árvores assomavam, altas, volta e meia, para tornar a mergulhar no escuro.

Os carros que vinham na mão contrária, apesar de baixarem os faróis, sempre ofuscavam em demasia os olhos dele, dado que desapareciam, atrás do extenso vulto do caminhão, para desembargarem-se de súbito.

Ela contava sobre o trabalho na faculdade. Estava se passando algo de errado com o novo supervisor geral. Aparentemente era um sujeito sanguíneo. Assumira o cargo há pouco e já se indispusera com toda uma leva de professores. Seu tom de voz era cavo. E canalizava com alguma dramaticidade a situação, antes de desmanchar-se num riso cheio de staccati e resfôlegos:

Mas ele ainda vai ver o que é bom pra tosse!

Dissera aquilo com o punho cerrado batendo sobre o livro fechado, ao colo. Escandindo lentamente as palavras, quase de forma artificial. E havia uma gota de saliva sobre seu lábio.

Ele passava as marchas, puxando o cigarro. As curvas eram fechadas. E ele tracionava as marchas a golpes, empurrando-as a leve socos, nunca envolvendo o pomo da alavanca com a mão. Pelos vidros abertos, a frialdade aumentava. E ela vestiu um pulôver laranja claro, de gola. A gola ao modo de fôrma e gesso demarcando seus traços delicados, o cabelo curto:

Por que que quando você quer não escuta nada do que a gente diz?

Ele prosseguiu em silêncio, fumando.

O motorista, enfim sinalizou. Ultrapassaram-no. A corrente de ar aumentou e ela soergueu o vidro da porta:

O frio tá começando a pegar.

Ele pensava em como encontrara uma ex-colega do fórum na livraria um pouco antes do almoço. Uma bela morena clara: alta, esguia:

Joel? Oi, tudo bem? – e no colarem os rostos ao se saudarem, o rosto dela estava levemente arrefecido e, sem suor, retransmitia uma sensação de viço, que ele quase podia repressentir na face, junto com a neblina.

Podia rever as roupas dela. As formas dela, sob a saia bege. O lenço ao pescoço, longo, ressaltando da blusa púrpura de gola. Podia refazer o quanto era adelgaçada, bem-apessoada, os dentes ligeiramente proeminentes, o belo sorriso. Ou de como movia-se com altivez apesar de parecer apressada. Mas também do modo que, ao avesso da antiga expansividade, lhe saudara com algum protocolo.

Vim comprar uns livros pr'os meninos! – disse de passagem, na direção dos caixas.

Ela pensava no jovem doutor que chegara de Santa Catarina. E, desavisado de que ela era casada, lhe havia convidado a jantar. Em como era alto e parecia seguro e agudo por trás dos olhos esverdeados. Em como uma réplica dele, dita em calma, com a voz grave, que não modulava nunca, calara o supervisor geral. Lembrava de suas mandíbulas bem constituídas. Da forma como sua simples presença elidia toda a arrogância do homenzinho calvo, de voz irritantemente tiple. Pensava nos cabelos castanho claros dele, quase loiros. Nos olhos verdes-zinco sob os óculos de aros finos. No bem torneado de seus bíceps. No modo como a única ênfase que punha na voz era quando pronunciava o nome dela:

Flávia, é preciso preencher a caderneta logo depois da aula? Como é que faz aqui?

Porém ela não cessava de falar. Porque, ao contrário dele, possuía grande capacidade para dedicar-se a um assunto no pensamento, a outro na fala.

Meia-hora depois, após registrarem-se no hotel, alternaram-se no banho quente, enquanto cada um à vez, desfazia parcialmente as malas. Escolheram um amplo quarto, no primeiro piso, de camas separadas, debruçado sobre uma íngreme vertente. Este vale só era pressentido por uma pálida lâmpada de mercúrio debruçada sobre o chasmo e volteada por uma pequena nuvem de vespas. Grilos cantavam. E, em avulso, um coaxar de sapo.

Depois de trocarem-se, desceram ao restaurante.

Jantaram quase em silêncio, não fosse por ela. Contou algo que uma sua tia, também professora, mas na Faculdade de Economia, certa feita fizera, ainda na juventude: durante uma aula, num dia de grande calor: retirar o sutiã, contorcendo-o, blusa abaixo, à frente dos alunos. Os alunos pasmos diante da cena.

Ele sorriu:

Sempre achei que ela tinha um parafuso a menos – comentou, depois de entornar o vinho. Um tinto argentino, seco.

Depois da sobremesa, foram à portaria, e o recepcionista lhes refez o percurso a pé até a pequena cidade, cravada num vale não tão extenso:

Mamãe detestaria fazer essa caminhada.

A mãe dela, apesar de médica; apesar de prescrever caminhadas para todos seus pacientes, detestava andar:

Parece que se vai sempre a lugar nenhum, mesmo quando se vai a um – era o que dizia.

Ele abriu um meio-sorriso. Bem podia imaginar a sogra dizendo isso. A voz esganiçada, com uma não forçada desfaçatez em tudo que dizia.

A trilha até o povoado era relativamente ampla para a passagem de dois veículos. Eles caminhavam à direita, na contramão de um possível veículo que os colhesse vindo de adiante. Mas nenhum carro veio pela esguia estrada carroçável. Eles não se davam as mãos. Embora seguissem tão rentes que seus ombros se tocavam, por vezes.

Uma espécie de apito soou de dentro de um pequena casa, avulsa e alpendrada. Um desses apitos de criança. A neblina dissipara. E pela iluminação da pequena cidade, podia-se ver uma igreja, no ponto mais alto da colina, ladeada por um renque de palmeiras imperiais.

O apito ressonou de novo. Já mais ao longe:

Acho que esqueci de trazer meu creme de rosto – disse ela – essa umidade da serra é de lascar.

Lá embaixo, as casas pequenas, amontoadas umas sobre as outras, pareciam estar com frio. Ele aprumou a gola estreita do casaco:

Amanhã, o sol deve abrir. É sempre assim, depois dessas noites úmidas.

Voltearam por ruas estreitas e sinuosas. E pararam para um chocolate num pequeno café. Uma mendiga acercou-se da mesa deles:

Ei, Seu Zé, me dê uma ajuda pelos olhos de Nossa Senhora Aparecida.

A dona do café a afastou. E a mendiga, com um trapo à cabeça, ficou sentada à coxia, as mãos prendendo os joelhos e a barra da saia:

Voltamos na terça de manhã, então? – disse ele.

É. Quero aproveitar o resto do feriado para corrigir umas provas.

Ele olhou para cima e percebeu na decoração um tanto profusa do simpático café uma fateixa. Sempre lhe enternecia qualquer referência ao mar. E imaginou o quanto aquele objeto estava apartado das mãos que o fizeram àquela altura da serra.

E também o quanto faltava uma âncora para eles. De momento.

Ela, que tinha um leve problema crônico de cegueira noturna, fixava detidamente o açucareiro, nele adivinhando dois grãos de chocolate solúvel, que retirou, com a colherinha, enquanto um pequeno bocado de açúcar trasfegou-se para o tampo da mesa. E pensou que teria sido bom haver aceito o convite para jantar com o catarinense.

De volta ao hotel, em que eram praticamente os únicos hóspedes, assistiram o telejornal no saguão e, enfastiados com o filme que se seguiu, subiram para o quarto. Pelo corredor estreito e sombrio ele a guiava. Mas as chaves do quarto estavam com ela.

Ao fazerem amor, sob a pálida luminária à cabeceira, com uma extática lentidão, seguiam adivinhando todos os procedimentos, todas as posturas. Tudo o que mais um ao outro agradava. Houve um pouco mais de fervor àquela noite. Apagaram a luminária.

Ele pensando nos olhos negros da colega do fórum que não se refletiam nos olhos azuis dela. Ela pensando nos olhos verdes do jovem professor catarinense que pouco tinham a ver com os olhos castanhos claros dele. Ela gemeu mais forte e doce. Ele sentiu calafrios há muito não pressentidos.

Lá fora os sapos coaxavam. E, pela janela levemente entreaberta, um fio de luz varava o aposento envolto pelo rocio das árvores serranas a esmaltar o parapeito, no desolamento do feriado.



* * *

Croqui de uma cidade sem cidade

Wilhelm Wagenfeld, Egg Cups, 1938


Um Ovo sem Sal Faz mais Bem que Mal?
-A cidade de N. S. da Assunção dos diascorrentes, rápido esboço


Fortaleza é um ovo.

Pela desigualdade social, que cai sobre ela como uma lepra, praticamente todos que formam opinião se conhecem. Formar opinião está ligado umbilicalmente com ter poder. Ter poder equivale a dizer: ter um mínimo de grana. Um mínimo de grana que, ao menos, possa ter viabilizado uma educação formal acima da média.

Isso tudo é um evidente truísmo. E acontece em qualquer parte do mundo. E está dito apenas para ressaltar que isso de ter olhos em terra de cegos é, por aqui, muito mais ressaltado.

Mas ter poder é também ter acesso aos espaços de modernidade em Fortaleza. Que são guetos: shopping centers; restaurantes e cafés mais sofisticados; casas de veraneio ou os modernos condomínios horizontais, que proliferam mais a leste – e são as atuais meninas dos olhos da especulação imobiliária. Ter poder resguarda o condão de manter, enfim, um mínimo de acesso a bens culturais: o cinema, a livraria, o jornal, o café, a pós-graduação.

Notem que espaços de urbanidade, como os cafés – que se proliferaram com certa rapidez na última década – nada têm de equívocos em si. São espaços para a convivialidade e a troca de ideias. O que há de errado, no entanto, é que o acesso a eles seja facultado a tão poucos.

E, nesse universo de rebanho escasso em curral pequeno, essa demarcação de poder encontra manifestações diversas de mostrar o nariz. E, quase sempre, bastante ostensivas. Melhor seria dizer ostentatórias. De um modo mais tosco, essa ostentação se dá por aportes de consumo: lustrosas camionetas, roupas de grifes, a frequentação de certos espaços, que, para todos os efeitos, são elitizados, a reforma quase semestral da casa ou do apartamento como demarcação do nível de prosperidade da família.

Isto último, de reformas, é quase o oposto do que se vê, por exemplo, nos países europeus. Onde as características das residências – em especial nos bairros mais afluentes – são preservadas com um zelo canino. Nas áreas ricas de Londres: Mayfair, Highgate, Chelsea – há posturas municipais tão rígidas, quanto a isto, que qualquer modificação que descaracterize o padrão arquitetônico/histórico do imóvel ou o faça destoar dos demais é severamente monitorada.

Porém uma das formas em que esse poder de poucos mais se faz notável em Fortaleza é no modo como a sociabilidade se dá, para alguns, ao modo de um esporte. E esse esporte poderia, digamos, se criássemos um neologismo, ser rotulado de "vantagismo". Essa esportividade já recebeu outros nomes. Alpinismo social, por exemplo. E digamos que ela possa ser expressa na seguinte fórmula: “quanto mais agrego gente de poder à volta, mais poder agrego”. E não só pela instância do poder em si – que tem óbvias reverberações no campo da sexualidade e do consumo; instâncias, de resto tão imbricadas em qualquer lugar do mundo – todavia por explorar ao máximo certo “momento de prestígio de alguém”. Por mais ínfimo que seja.

Há uma espécie de corsariedade psitacídea, aqui. A necessidade de sair na foto. De ser o papagaio de corsário da vez. Como na maioria das ocasiões, esse prestígio é efêmero ou tem a ver com trívias passageiras: algum dinheiro a mais, uma suposta adequação à moda, o destaque por alguma ninharia ligada a prêmio ou cargo, o aspecto jovial, a "boa vibe", a aparência (ainda que se esteja caindo aos pedaços para mantê-la), no geral – tudo isso é calcado numa lógica tão efêmera quanto o endêmico selo nouveau-riche que grassa entre nossa desgraçada elite.

É talvez por essa elite que temos – uma das mais nefastas elites urbanas do planeta – que a cidade seja tão desnivelada e repugnante. Que a preocupação com a coisa pública, a começar da escola básica, assome tão amesquinhada: o transporte coletivo de bom nível, os parques, praças, o acesso a bens culturais na forma de bibliotecas públicas, museus, locais de lazer ao ar livre e comunitários, a preocupação com a memória, com a rua, a preservação do patrimônio arquitetônico, etc. e etc.

Os jovens dessa elite, nossa jeunesse dorée – como os jovens de qualquer outro ponto do planeta – possuem todo o direito de buscar dar vazão ao excesso de hormônios que vaza pelos seus poros em qualquer clube noturno no entorno do Dragão do Mar, durante seus momentos de lazer. Ou aspirar passar o final de semana em torno de um deck-bar à borda de uma piscina no Porto das Dunas, degustando uma lagosta ou entornando um bloody mary.

Faz parte.

O que não faz parte é que a coisa esgote aí. E que pela escassa dimensão dessa elite, mesmo as relações pessoais sejam tremendamente assentadas muito mais em clichês do que no convívio tête-à-tête entre as pessoas.


Isso em parte absolve os jovens. O que fazer, numa cidade planejada para o turista e não para si. Onde não há teatros, universidades realmente fortes, museus, uma efervescência cultural sadia - de alguma feição endentada no local? Reunir-se ao fim-de-semana e encher a cara, nos clubes de forró ou nas festinhas em que os DJ's que comandam a pândega seriam incapazes de compreender uma progressão harmônica de três acordes. 


E, ainda assim, há na cidade locais aprazíveis, potencialmente votados ao lazer público, mas que não são valorizados, não recebem um tratamento urbanístico. Ou, aqui e lá, uma paisagem doce aos olhos, apesar de em certos casos sequer se poder vê-la. Pelo excesso de poluição visual.

De outro modo, a ostensiva necessidade de autodemarcar-se dentro do círculo de giz dessa elite rarefeita, incentiva nas pessoas um culto de pseudo-sofisticações que tiraria riso em uma sociedade onde, de fato, se consolidou uma aristocracia de longa data. Distante desse brilhos efêmeros e, sobretudo, dessa compulsiva necessidade de se dissociar das classes mais pobres.

É claro que esse descompromisso com a dura realidade social da cidade, com sua apartação social, com o fato de haver alguns quistos de classe média em meio a uma favelópolis a perder de vista, é compensado de muitas formas. Uma delas passa pela opção de adotar expressões supostamente “regionais”. Usadas pelo "povo". O povão que comuta de ônibus nos terminas desde muito cedo. E realmente pega no pesado. E aí, esses jovens de classe-média adotam como moeda corrente a linguagem desse povão.


Para bons ouvidos, isso soa como uma espécie de 'mea-culpa'. Ou um certo flerte com um pavoroso humor que se convencionou achar de ser uma característica “local”. Como se houvesse algo análogo a um “cearensês” – ou como, de uso, tanto se vê em mensagens escritas na Internet.

E é também evidente que tudo isso refrata-se nessa sociabilidade exageradamente exaltada via o virtual, exibida com uma ostensividade quase agressiva. Não raro através de índices que agregam tantos signos de modernidade e, logo de poder, como uma necessidade compulsiva: demonstrar aos demais que se cultiva gostos muito singulares – especialmente em termos de música ou das artes no atacado. Como se pode constatar no universo virtual. Daí que celulares, tablets, câmeras digitais, pequenos gadgets, a incorporação de um inglês um tanto capenga – mas derivado em parte dessa terminologia da TI – conformem moeda de troca corrente entre essa elite escassa e autocentrada.

Muito pouco vocacionada a olhar, em desespelho, para tudo que ela não é.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

No imperfeito pretérito

Anna Blume e Bernhard Blume, Kitchen Frenzy, 1986





Queria
- uma re-flexão senso-comum sobre a imensa sedução da TV sob o signo da telenovela



As telenovelas. Queria ter mais tempo e poder assisti-las. Ao menos uma. Coisa que não faço há uns dez anos. Elas aproximam as pessoas. São o combustível de muitas conversas.

O custo de tentar educar o olhar para outros sistemas de seccionar a imagem, de relacioná-la com outras imagens e com o som; de lhe dar uma sintaxe própria; de tratá-la com a singularidade que o assunto demanda; de, enfim, ritmar a imagem, evitando a assistência das telenovelas, é alto.

Sinto saudade delas. Assim como sinto dos blockbusters, porque não se pode viver só de filmes de cinemateca. O perigo é ir confeccionando as galochas do chato. E, logo, há que se buscar outras formas de apreensão de imagens. Que podem ou não passar pela novela e pelo blockbuster.

Há, no entanto filmes que seguem no limiar, a meio-termo entre algo mais palatável para uma audiência um tanto mais ampla e uma forma digna de tratar o conteúdo. Exemplos? Wise Blood, de John Huston; Waterland, de Stephen Gyllenhaal; My Life as a Dog, de Lasse Hallström; Between the Devil and the Deep Blue Sea, de Marion Hänsel; Cinemas, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; quase todos os filmes de Nicholas Ray; e por aí se vai. 

Falar a verdade, entre assistir e não assistir novela, ainda acho melhor ler um livro. Dedilhar um violão. Ou um piano. Ouvir música com fones de ouvido, porque perturba menos. E posso ser um ouvinte compulsivo. De ouvir a mesma canção dezoito, vinte vezes seguidas. Ou tentar escrever algo. Qualquer coisa. Quase sempre ciente depois do primeiro parágrafo se daquilo sai alguma lebre ou não. Ou ir ao boteco encontrar os amigos, jogar fora alguma conversa regada a fermentados, a algum futebol, a automobilismo, àquele inescapável assunto. A música. A cidade.

Isso de só beber fermentados vem de um fígado fraco para a contundência quase mineral dos scotchs, bourbons, gins, vodcas, schnapps, steinhaegers, runs, conhaques, tequilas, piscos e, claro, cachaças. Tenho amigos que são cachaceiros finos. Que sabem o ponto cardeal de onde veio a prenda. Se da Serra de Guaramiranga, se de Minas ou do Piauí. Ou se vêm da Ypióca, a ampla e próspera indústria que as exporta até ao Japão, com bela sede, a caminho do Eusébio e do Porto das Dunas.

O importante é que no fim haja sempre aquele café amargo e aromático. Tão brasileiro como um dia deve ter sido, talvez ao tempo de Pessoa, A Brasileira do Chiado.

Pode-se fazer muitas coisas. Uma caminhada pelas redondezas. Fumar um havana depois de se degustar algo mais exótico no pub australiano, que fica duas quadras adiante.

E, no entanto, nenhuma dessas atividades te aproxima de uma incondicionalidade de assunto, que é como que ubíqua. Na sala de espera do médico, anteontem, senti-me um marciano com todos discutindo animadamente os sucessos de Passione. E eu totalmente por fora. Completamente idiotizado. Porta. Alienado. Poste.

Isso não é bom. Um dia espero voltar a ver novelas. Nunca da mesma forma de antes, contudo.

Gertrudo Stein já alertava sobre os riscos de se perder o “senso-comum”. Ela reafirmaria isso justamente por contraposição às telenovelas, já que a frase toda é: “todos recebem tanta informação o dia inteiro que acabam perdendo seu senso comum”. Mas no caso das telenovelas, elas formam quase um estoque de conversa. um Barbarismo disseminado no México e aperfeiçoado no Brasil. Um barbarismo que, apesar de reconfirmar esse excesso de informação, desperta, no mínimo, contato entre as pessoas. E, logo, uma modalidade, ainda que um tanto suspeita, de "senso-comum". E isso é relevante.

Acho que não vejo mais televisão porque o veículo é tentador demais. Convida a passar o dia inteiro fazendo só aquilo. E comento porcaria. Parece banal e bom. Algo que se faz sem qualquer preocupação, quando se está entediado, porque o mundo não parece bastante.

E, no entanto. No entanto, é teu corpo que o tubo suga para dentro de si. Junto com as tuas angústias - as legítimas. O alquebrado rosto do teu medo. Teus olhos que se vedam para a paisagem de tua casa e de teu quarto. A migalha cega de tua vontade, involuntária, de desolhar as coisas e os rostos dos que estão à volta. Sem necessariamente remultiplicá-los em outras imagens: fotos, vídeos, etc.

E, aqui. Bem aqui, lembro de Denise Levertov dizer num poema: “Alguns […] /recebem terras,/ seu próprio chão sob os pés,/ e ainda tomam estradas”.

Ver TV nada tem de errado, a não ser tudo. Porque é a forma de evasão que temos de escapar à própria percepção do mundo à volta. Evidentemente, precisamos, em maior ou menor grau dessa evasão - porque não suportaríamos um excesso de apercepção, fruição do mundo exterior, dado que ele é muito vasto. Isso simplesmente nos aniquilaria.

O problema da TV, não é este. Mas o de ser tão efetiva e, sobretudo, perene ao regular nossa percepção do mundo. Ao destreinar nossos sentidos para um corpo a corpo com percepção mesma. Suas vastíssimas realidades materiais. E as associações que secretamente encerram por detrás da realidade - apesar de antes de mais nada constituírem, em essência o mundo visível. Sua miríade de coisas concretas: superfícies, sombras, luzes, formas, brilhos, curvas, ângulos, contornos, sons, micro-espaços...

E, em assim sendo: congé, telenovelas! Foi bom enquanto durou.



Nota – para o poema completo de Levertov, clique, AQUI.


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domingo, 17 de outubro de 2010

Uma Semana Ganha

Gabriel Andrade, still de Uma Encruzilhada Aprazível, 2006




Sobre vidas polietilenizadas, livrarias, imagens, cidades

Recentemente, coisa de três semanas, ministrei um curso que teve por tema “Imagem e Cidade” para alunos da Escola de Audiovisual da Vila das Artes. O tema, como todo tema que realmente se preza era tão só um pretexto. Um desvio. Porque sei o quanto sou refratário à realidade das grandes cidades. E, portanto, nunca deixei de ser, ao menos essencialmente, alguém que passou a infância em uma cidade pequena: Camocim. E que esse quadrante da infância segue comigo de um modo quase involuntário ou intacto.
Ressalvo que o pequeno porto de Camocim, ao meu tempo de criança, era totalmente diverso do que é a cidade hoje. E muito menos por fatores humanos e mais pelo desenho e a plasticidade em si da paisagem. Uma paisagem exuberante, onde a cidade estava na margem oeste; e, na leste, havia imensas dunas mais próximas da barra e um denso  manguezal recobrindo tudo que seguia mais a sul.
Sendo uma foz de rio, um estuário, limiar entre rio e mar, de água salobre, intensamente verde nos meses de estio, transparente quando havia um excesso de chuvas, essa paisagem me atingia de um modo intraduzível. Vertiginosamente intenso.
Eram quilômetros de praia nesse limiar entre mar e rio, o solo repleto de pequenos seixos, conchas, búzios, de formas límpidas e como que ainda muito pouco afetadas por qualquer tipo mais enfático de expansão urbana: poluição ou depredação de uma ambiência que ali estava praticamente intocada desde séculos. Desde a própria ocupação da região pelos portugueses, que esboçou-se a partir do sec. XVII.
Por isso, hoje bem entendo, que o mais raro para mim era, sem dúvida, a própria paisagem em si e seus ciclos: o regime das marés, a maresia, o modo como a cor das águas de entre rio e foz variavam dos meses de estio para a estação de chuvas, as cracas e ostras que se agarravam aos pilares dos ancoradouros e aos cascos dos barcos lagosteiros. Um imenso contato com forças naturais que, enfim, despertavam em mim um vínculo permanente. E, de um modo ao mesmo tempo inconsciente e profundamente arraigado, tornava-me parte – uma ínfima fração, é verdade – de tudo aquilo.
Talvez isso tudo se tenha cristalizado, de modo mais emblemático na canoa de pesca. A canoa enquanto forma. Porque, apesar de haver tido uma infância já entre livros, desde muito cedo, o maior poema para mim, era, quando seguíamos – em geral a pé – até a Praia das Barreiras, que já é mar aberto.
Nessa caminhada, prosseguíamos lendo os nomes das canoas, ancoradas à beira da praia. E eram nomes femininos. Daí que a canoa sempre tenha sido, para mim, uma metáfora de mulher – isso está bem exposto em certa passagem de As Vilas Volantes, o texto.
É evidente que discutimos a questão de imagem e de cidade, durante o curso na Vila das Artes. Porém esta, embora um dado importante, não era a questão essencial. Ao menos para mim. Daí o quanto mesmo tendo acesso a textos e referências à cidade de Fortaleza e à grande metrópole moderna em geral, sinto certa má vontade em escrever sobre o assunto. Porque essas cidades se tornaram tão desmesuradas e desagradáveis. Fortaleza, por exemplo, por trás do cosmopolitismo e da assepsia de alguns poucos bairros está entre as vintes metrópoles de maior desigualdade social do planeta. Assim que o assunto, ao fim do rosário, pouco me desperta simpatia.
Toda essa infância camocinense é a base tanto do texto As Vilas Volantes, escrito em 1991, quanto do documentário subsequente, rodado em 2004-2005. E depois dele houve Uma Encruzilhada Aprazível [2006], que tem uma ligação muito mais forte com essas realidades litorâneas do que se pode pressentir numa primeira vista. Porque o pequeno distrito de Aprazível era como que nosso ponto de escala quando viajávamos de férias não por trem, mas pelas precárias rodovias de então.
Aliás, um dos detalhes que mais me tocou, ao longo da semana que convivi com os estudantes do curso de audiovisual, foi quando uma aluna me disse que havia projetado os três documentários feitos praticamente quase pela mesma equipe em meados desta década – As Vilas Volantes, Uma Encruzilhada Aprazível e Sábado à Noite – para a empregada de sua casa, e o que a empregada havia mais apreciado fora justamente Uma Encruzilhada Aprazível.
Isso valeu para mim muito mais que qualquer apreciação crítica mais elaborada, argumentada ou acadêmica. Como de resto se deu – e de um modo bastante positivo – entre críticos ou téoricos que se basearam quase que exclusivamente no filme em si para escrever sobre ele. E, mais, sequer eram daqui, mas de estados do Sul e Sudeste.
E, aqui abro um parêntese. Tendo a ser extremamente auto-crítico em relação às realizações em que me encontro na posição mais central do projeto. Quando terminei de editar o Aprazível, com a colaboração de Veras e Fred Benevides, por ilustração, passei meses sem suportar assisti-lo. Entre outras, por temer não haver investido ali o melhor que eu podia ofertar.
Mas há outras somas. O filme foi, à época de sua conclusão, muito mal recebido pela comunidade de audiovisual aqui em Fortaleza. Lembro de haver ido a uma exibição inicial para amigos, conhecidos, gente da área, logo após a edição. E foi uma sessão dupla. Primeiro se exibiu Sábado à Noite, do Ivo. E, ao final, houve uma verdadeira ovação. Depois, se projetou o Aprazível, e a reação das pessoas foi um bocado fria.
E até mesmo gente ligada à equipe do Aprazível comentou comigo que alguns entendiam a edição do filme como problemática. Alguns dias depois, uma repórter de O Povo me ligou dizendo que queria fazer uma matéria sobre o filme. Enviei-lhe o filme, e uma pequena apreciação por escrito, ao modo de um release. Mas essa matéria jamais foi publicada. Ao que parece, ela não entendeu muita coisa. Então havia esse, como que, mal estar da comunidade audiovisual e formadora de opinião local em relação ao Aprazível.
No íntimo, eu sabia que não era assim. Que o Aprazível guarda uma coerência e, sobretudo, um ritmo muito próprios. Porém ninguém é de ferro e à época relembro ter saído um tanto agastado daquela amostra inicial, que ocorreu no apartamento de Veras. Porque a reação da audiência foi muito fria. Tendo de dissimular minha frustação, em meio ao, como de uso, festivo ambiente dessas ocasiões em que todos se conhecem. E toda apreciação crítica passa menos pelo valor dos filmes em si do que pelas relações de afeto, proximidade ou amizades. E, no entanto, quero deixar claro, passo longe de negar os méritos do Sábado à Noite, de Ivo. Um filme que vejo de modo ambíguo: há momentos que surtem louváveis, no sentido de entendermos melhor nossa complexa relação com uma cidade. Outros, talvez nem tanto.
Digo isso em independência. Porque, embora entenda a importância da sanção dos prêmios, especialmente se outorgados longe, fora daqui, não se pode quedar refém deles. É preciso manter a mente alerta. E não se deixar siderar por eles. Não se pode querer consertar o calçadão da Beira-Mar em função do turista. Mas, em prioridade, em benefício de quem habita a cidade, etc. E, portanto, seguir adiante. Com autonomia. Con brio
E, no entanto, dois paradoxos: não só o Aprazível – junto com o Vilas, claro – foi o filme que despertou a atenção de críticos do sul do país - como, entre outros, Cleber Eduardo, Claudia Mesquita, Consuelo Lins, Cezar Migliorin, Marcelo Ikeda - para o que começou a ser produzido de uma forma diferenciada por aqui; bem como, a exemplo do Vilas, foi o filme selecionado pelos gestores do programa DOC-TV para ser exibido em Brasília, quando da reunião com os realizadores do ano subsequente, como uma sorte de modelo de ousadia formal.
Quer dizer, a despeito da frieza dessa recepção local, foi um filme que abriu portas, uma vez que no ano consecutivo, Sábado à Noite, montado numa versão longa-metragem por Ivo, arrebanhou o prêmio de melhor filme no Festival de Tiradentes, cuja figura de maior poder de barganha, no júri, era justamente Cleber Eduardo, da revista Cinética. O mesmo que havia justo destacado o Aprazível, com umas poucas reservas – algumas, dentre as quais, de resto, me parecem pertinentes. Outras nem tanto. E, de resto, em um ponto concordo com ele, entendo ser As Vilas Volantes o filme mais urgente (no sentido de pioneiro) - inclusive num sentido que vaza para além do estético - realizado por aqui nos últimos tempos. Há gente que vai mais além. Ikeda, por exemplo, o considera o melhor filme já feito desde o Ceará.
Mas, aqui, é preciso seguir com calma. Parcimônia. E olhar para frente. Há desafios para diante. 
Hoje, estou plenamente consciente de minha quase alergia em relação a assuntos que tocam, sob primas os mais diversos, a cidade de Fortaleza. E por uma razão simples, suficiente: não me agradam grandes cidades. E mesmo uma metrópole um tanto fora do eixo das maiores metrópoles brasileiras, caso de Fortaleza, produz em mim um mal estar.
Explico. Neste domingo à noite, por exemplo, precisava comprar dois livros e fui à Livraria Cultura. Ainda não havia ido à Cultura, que foi inaugurada há tão só uns poucos meses atrás.
Bem, sou daqueles que, quando visitava ou morava em São Paulo, passava na Livraria Cultura – então uma pequena caixinha de vidro no embrião do Conjunto Nacional, ali no início da Paulista, quase diariamente. Conhecia os vendedores pelos nomes. Adorava aquela atmosfera um tanto, digamos, desalinhada, tão característica das livrarias antigas, em que havia mais livros que espaço livre. Em que os vendedores eram eles próprios ávidos leitores, gente do ramo. Gente que discutia contigo suas predileções literárias, e com bons argumentos. Em que se esgueirava entre as estantes, nas quais os livro pareciam tão mais próximos. Como se no aconchego da biblioteca de alguém que a gente preza.
Por contraste, hoje à noite, além da assepsia shopping center da Livraria Cultura aqui de Fortaleza, travou-se o seguinte diálogo entre o vendedor e eu:
Vocês tem algum título de Lezama Lima?
Como é mesmo o nome?
Soletrei o nome. E acrescentei: só me interessa se houver edições em castelhano.
E ele:
Em castelhano não tem, pode ser que a gente encontre em espanhol.
E após o breve esclarecimento:
É que tem catalão, né? Esses espanhóis são complicados.
Resultado: não tinha. E veio a sugestão da encomenda. Que descartei prontamente, pois já havia achado os outros dois livros que fora comprar. Ao menos isso.
Com a sacola de livros na mão subi ao mezanino para conferir a seção de cinema. Nada excepcional.
E, no entanto, a livraria como um todo era um vasto espaço cosmético, encontrável em qualquer outra parte do mundo. Desde a iluminação graduada até os degraus de madeira pelos quais se ascende ou desce do mezanino, e por onde se pode entrever dezenas de pessoas bebendo um cappuccino, degustando confeitos num amplo café fronteiro às prateleiras. O carpete, os sofás e poltronas, as máquinas de leitura de barras de código. O tanto que muitos daqueles escritores nas prateleiras, se soubessem do destino de seus livros, sentir-se-iam envergonhados de estar ali. Naquele espaço sem rosto. Limpinho, tão a serviço de consumo. O supermercado do livro.
Saí da livraria com a impressão da soma de inércia e morte que há ali. Naquela impecável assepsia. Nos procedimentos. Na arquitetura, grosso modo. Na postura e nos semblantes das pessoas. No segurança negro, sob um sufocante terno, à saída da loja. E senti um alívio, quando a brisa da noite a meio, soprou em meu rosto no que descia as escadas rolantes para a rua. Uma lufada de ar livre me dessufocando. Porque a única comunhão que senti, então, se deu, não com aquele ambiente apático, mas com o céu de estrelas embaciadas pelo excesso das lâmpadas. Com o terral passeando pela copa das árvores e desalinhando meus cabelos ralos.
Livros. Canções. Filmes.
Cada vez mais tendem a ser como esses espaços neutros, vagos, sem cor. Semelhantes aos aeroportos, aos shoppings, às lojas de conveniência encontráveis em qualquer lugar do planeta.
E me veio a mente a caixinha de vidro que frequentara, lá para trás, em São Paulo. E, sobretudo, o contigente de grupamentos humanos que ainda vive imune a essa vida plastificada. Como era o caso dos habitantes das Vilas Volantes, quando por primeiro os visitei, em 1991.
Mas sobretudo a forma única, inimitável, límpida dos seixos e conchas sobrepostos em camadas e camadas, a rodo, sobre as praias camocinenses; lambidos pelas franjas das grandes marés de fevereiro. A unicidade límpida de sua beleza.
A mesma que tento – quase sempre em malogro – tomar de empréstimo para tudo que escrevo, traduzo ou concebo, em termos de criação.

P.S. – E agradeço à turma com quem, por uma bela semana, trocamos ideias e sugestões na Vila das Artes. E, muito em especial, a aluna que me proporcionou essa prenda: o fato de saber que um filme – aparentemente hermético, quase mudo, sovina em sua utilização de depoimentos, da própria palavra, como o Aprazível – foi apreciado por uma empregada doméstica, semi-analfabeta.

Ah, outra coisa não, mas isto sim! Ganhou minha semana.


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Cheiramos flores de medo

Paul Klee, Mask of Fear, 1932




Medo & a Deformação de Sentido da Palavra Caridade


É quase impossível a um escritor não espalhar coisas más quando ele próprio não está bem. Pois é muito mais fácil atingir as pessoas pelo que nelas há de mesquinho. Como mesquinhos são os espelhos se excessivamente fixados. Ou todo aquele que é incapaz de sacar-se da própria adolescência no rumo de uma apaziguada – ainda que irrequieta – maturidade.

Vivemos num mundo com medo. Temos medo. Ou como diz Drummond: “E fomos educados para o medo./ Cheiramos flores de medo./ Vestimos panos de medo./ De medo, vermelhos rios vadeamos”. Quanto mais civilização há, mais medo de perder. De perder trivias: objetos, pequenos confortos. Embora o homem primitivo deva ter vivido num mundo de extremo terror, ele ao menos dava vazão a esse medo com muito menos compostura e bem mais sinceridade do que nós. Afora o fato de sua imaginação e paixão serem imensas.


Como "explicar" o raio e o trovão? As pestes e as doenças? A ferocidade das bestas selvagens? A magia do fogo? O encantamento dos sonhos? E, no entanto, eles criaram uma linguagem para dar conta de tudo isso que, em frequência, é muito mais sábia e robustamente poética que o nosso "mito" por excelência: a moderna ciência, positiva - cartesiana e/ou pós-cartesiana. A mesma que nos levou à penicilina e à bomba de nêutrons.

Essa é a diferença abissal entre nós e eles. O escritor moderno frequentemente se debruça sobre assuntos que não têm nada a ver com certas prioridades – e isso não quer dizer que tomar banalidades, o prosaico, o comezinho não seja o ponto de partida para adentrar em temas instigantes. No íntimo, ele esqueceu muita coisa. Muitas dessas coisas passam por um défice de sinestesia. Por uma progressiva incapacidade de sentir ou fruir a realidade física à volta. Mas também por conceitos. Algo mais abstrato. Como o peso que recai sobre certas palavras.

Entre essas palavras mais enxovalhadas desde o princípio da modernidade está a palavra caridade. A palavra caridade, que é sinônima de amor. E de abertura ao próximo.

Em verdade, entre os antigos, a caridade era a forma mais elevada de amor, porque estendida àqueles que nem mesmo se conhecia. Que acreditavam em outras coisas, adotavam outros valores, cultuavam outros deuses. E, portanto, algo que era dado, muitas vezes sabendo-se que ia fazer falta. Porém essa falta passava longe de ser um empecilho para o ato da entrega.

Tanto assim, que o sentido da palavra caridade entortou para a esmola que se pode dar, sabendo que aquilo que é dado não vai fazer a menor falta. Coisa de velhas matronas casadas com ricos executivos. Campanhas, onde o marketing vale mais que o ato. Ou então, algo que pode ser banalizado até a profundidade das minas de cobre chilenas na mídia nossa de cada dia. E alavancar a popularidade de políticos ou aumentar índices de audiência nos meios de comunicação. No frigir, a caridade – a ideia mas elevada de amor, no Medievo – converteu-se em algo bolorento, tramado em velhas sacristias por beatas enrugadas, que entoam velhos hinos ao padroeiro.

É certo, o excesso de auto-consciência, de uma lógica insana, que não deixa o corpo agir com o mínimo de espontaneidade transforma em artificial, frio e distanciado qualquer contato humano. Mesmo o mais espontâneo deles: a amizade. O sentido de estarmos juntos. Porém do contrário, o excesso de medo diante dos dilemas morais de cada um não nos pode levar a uma vida só de prazeres. Em que o mínimo sentido da palavra sacrifício parece haver sido erradicado de tudo o que vemos na TV, lemos na internet, nas revistas, nos livros, escutamos em mp3.

Ser feliz não é algo padronizável. É um advento. Uma aventura não mediada pelos modernos veículos de comunicação de massas.

É mais primordialmente algo a ser descoberto, com paciência e coragem, pela rica individualidade de cada ser humano. E, sem nenhuma dúvida, por mais assustador que já possa parecer a uma vasta maioria, tem a ver com conhecer-se melhor.


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