terça-feira, 19 de outubro de 2010

No imperfeito pretérito

Anna Blume e Bernhard Blume, Kitchen Frenzy, 1986





Queria
- uma re-flexão senso-comum sobre a imensa sedução da TV sob o signo da telenovela



As telenovelas. Queria ter mais tempo e poder assisti-las. Ao menos uma. Coisa que não faço há uns dez anos. Elas aproximam as pessoas. São o combustível de muitas conversas.

O custo de tentar educar o olhar para outros sistemas de seccionar a imagem, de relacioná-la com outras imagens e com o som; de lhe dar uma sintaxe própria; de tratá-la com a singularidade que o assunto demanda; de, enfim, ritmar a imagem, evitando a assistência das telenovelas, é alto.

Sinto saudade delas. Assim como sinto dos blockbusters, porque não se pode viver só de filmes de cinemateca. O perigo é ir confeccionando as galochas do chato. E, logo, há que se buscar outras formas de apreensão de imagens. Que podem ou não passar pela novela e pelo blockbuster.

Há, no entanto filmes que seguem no limiar, a meio-termo entre algo mais palatável para uma audiência um tanto mais ampla e uma forma digna de tratar o conteúdo. Exemplos? Wise Blood, de John Huston; Waterland, de Stephen Gyllenhaal; My Life as a Dog, de Lasse Hallström; Between the Devil and the Deep Blue Sea, de Marion Hänsel; Cinemas, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; quase todos os filmes de Nicholas Ray; e por aí se vai. 

Falar a verdade, entre assistir e não assistir novela, ainda acho melhor ler um livro. Dedilhar um violão. Ou um piano. Ouvir música com fones de ouvido, porque perturba menos. E posso ser um ouvinte compulsivo. De ouvir a mesma canção dezoito, vinte vezes seguidas. Ou tentar escrever algo. Qualquer coisa. Quase sempre ciente depois do primeiro parágrafo se daquilo sai alguma lebre ou não. Ou ir ao boteco encontrar os amigos, jogar fora alguma conversa regada a fermentados, a algum futebol, a automobilismo, àquele inescapável assunto. A música. A cidade.

Isso de só beber fermentados vem de um fígado fraco para a contundência quase mineral dos scotchs, bourbons, gins, vodcas, schnapps, steinhaegers, runs, conhaques, tequilas, piscos e, claro, cachaças. Tenho amigos que são cachaceiros finos. Que sabem o ponto cardeal de onde veio a prenda. Se da Serra de Guaramiranga, se de Minas ou do Piauí. Ou se vêm da Ypióca, a ampla e próspera indústria que as exporta até ao Japão, com bela sede, a caminho do Eusébio e do Porto das Dunas.

O importante é que no fim haja sempre aquele café amargo e aromático. Tão brasileiro como um dia deve ter sido, talvez ao tempo de Pessoa, A Brasileira do Chiado.

Pode-se fazer muitas coisas. Uma caminhada pelas redondezas. Fumar um havana depois de se degustar algo mais exótico no pub australiano, que fica duas quadras adiante.

E, no entanto, nenhuma dessas atividades te aproxima de uma incondicionalidade de assunto, que é como que ubíqua. Na sala de espera do médico, anteontem, senti-me um marciano com todos discutindo animadamente os sucessos de Passione. E eu totalmente por fora. Completamente idiotizado. Porta. Alienado. Poste.

Isso não é bom. Um dia espero voltar a ver novelas. Nunca da mesma forma de antes, contudo.

Gertrudo Stein já alertava sobre os riscos de se perder o “senso-comum”. Ela reafirmaria isso justamente por contraposição às telenovelas, já que a frase toda é: “todos recebem tanta informação o dia inteiro que acabam perdendo seu senso comum”. Mas no caso das telenovelas, elas formam quase um estoque de conversa. um Barbarismo disseminado no México e aperfeiçoado no Brasil. Um barbarismo que, apesar de reconfirmar esse excesso de informação, desperta, no mínimo, contato entre as pessoas. E, logo, uma modalidade, ainda que um tanto suspeita, de "senso-comum". E isso é relevante.

Acho que não vejo mais televisão porque o veículo é tentador demais. Convida a passar o dia inteiro fazendo só aquilo. E comento porcaria. Parece banal e bom. Algo que se faz sem qualquer preocupação, quando se está entediado, porque o mundo não parece bastante.

E, no entanto. No entanto, é teu corpo que o tubo suga para dentro de si. Junto com as tuas angústias - as legítimas. O alquebrado rosto do teu medo. Teus olhos que se vedam para a paisagem de tua casa e de teu quarto. A migalha cega de tua vontade, involuntária, de desolhar as coisas e os rostos dos que estão à volta. Sem necessariamente remultiplicá-los em outras imagens: fotos, vídeos, etc.

E, aqui. Bem aqui, lembro de Denise Levertov dizer num poema: “Alguns […] /recebem terras,/ seu próprio chão sob os pés,/ e ainda tomam estradas”.

Ver TV nada tem de errado, a não ser tudo. Porque é a forma de evasão que temos de escapar à própria percepção do mundo à volta. Evidentemente, precisamos, em maior ou menor grau dessa evasão - porque não suportaríamos um excesso de apercepção, fruição do mundo exterior, dado que ele é muito vasto. Isso simplesmente nos aniquilaria.

O problema da TV, não é este. Mas o de ser tão efetiva e, sobretudo, perene ao regular nossa percepção do mundo. Ao destreinar nossos sentidos para um corpo a corpo com percepção mesma. Suas vastíssimas realidades materiais. E as associações que secretamente encerram por detrás da realidade - apesar de antes de mais nada constituírem, em essência o mundo visível. Sua miríade de coisas concretas: superfícies, sombras, luzes, formas, brilhos, curvas, ângulos, contornos, sons, micro-espaços...

E, em assim sendo: congé, telenovelas! Foi bom enquanto durou.



Nota – para o poema completo de Levertov, clique, AQUI.


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domingo, 17 de outubro de 2010

Uma Semana Ganha

Gabriel Andrade, still de Uma Encruzilhada Aprazível, 2006




Sobre vidas polietilenizadas, livrarias, imagens, cidades

Recentemente, coisa de três semanas, ministrei um curso que teve por tema “Imagem e Cidade” para alunos da Escola de Audiovisual da Vila das Artes. O tema, como todo tema que realmente se preza era tão só um pretexto. Um desvio. Porque sei o quanto sou refratário à realidade das grandes cidades. E, portanto, nunca deixei de ser, ao menos essencialmente, alguém que passou a infância em uma cidade pequena: Camocim. E que esse quadrante da infância segue comigo de um modo quase involuntário ou intacto.
Ressalvo que o pequeno porto de Camocim, ao meu tempo de criança, era totalmente diverso do que é a cidade hoje. E muito menos por fatores humanos e mais pelo desenho e a plasticidade em si da paisagem. Uma paisagem exuberante, onde a cidade estava na margem oeste; e, na leste, havia imensas dunas mais próximas da barra e um denso  manguezal recobrindo tudo que seguia mais a sul.
Sendo uma foz de rio, um estuário, limiar entre rio e mar, de água salobre, intensamente verde nos meses de estio, transparente quando havia um excesso de chuvas, essa paisagem me atingia de um modo intraduzível. Vertiginosamente intenso.
Eram quilômetros de praia nesse limiar entre mar e rio, o solo repleto de pequenos seixos, conchas, búzios, de formas límpidas e como que ainda muito pouco afetadas por qualquer tipo mais enfático de expansão urbana: poluição ou depredação de uma ambiência que ali estava praticamente intocada desde séculos. Desde a própria ocupação da região pelos portugueses, que esboçou-se a partir do sec. XVII.
Por isso, hoje bem entendo, que o mais raro para mim era, sem dúvida, a própria paisagem em si e seus ciclos: o regime das marés, a maresia, o modo como a cor das águas de entre rio e foz variavam dos meses de estio para a estação de chuvas, as cracas e ostras que se agarravam aos pilares dos ancoradouros e aos cascos dos barcos lagosteiros. Um imenso contato com forças naturais que, enfim, despertavam em mim um vínculo permanente. E, de um modo ao mesmo tempo inconsciente e profundamente arraigado, tornava-me parte – uma ínfima fração, é verdade – de tudo aquilo.
Talvez isso tudo se tenha cristalizado, de modo mais emblemático na canoa de pesca. A canoa enquanto forma. Porque, apesar de haver tido uma infância já entre livros, desde muito cedo, o maior poema para mim, era, quando seguíamos – em geral a pé – até a Praia das Barreiras, que já é mar aberto.
Nessa caminhada, prosseguíamos lendo os nomes das canoas, ancoradas à beira da praia. E eram nomes femininos. Daí que a canoa sempre tenha sido, para mim, uma metáfora de mulher – isso está bem exposto em certa passagem de As Vilas Volantes, o texto.
É evidente que discutimos a questão de imagem e de cidade, durante o curso na Vila das Artes. Porém esta, embora um dado importante, não era a questão essencial. Ao menos para mim. Daí o quanto mesmo tendo acesso a textos e referências à cidade de Fortaleza e à grande metrópole moderna em geral, sinto certa má vontade em escrever sobre o assunto. Porque essas cidades se tornaram tão desmesuradas e desagradáveis. Fortaleza, por exemplo, por trás do cosmopolitismo e da assepsia de alguns poucos bairros está entre as vintes metrópoles de maior desigualdade social do planeta. Assim que o assunto, ao fim do rosário, pouco me desperta simpatia.
Toda essa infância camocinense é a base tanto do texto As Vilas Volantes, escrito em 1991, quanto do documentário subsequente, rodado em 2004-2005. E depois dele houve Uma Encruzilhada Aprazível [2006], que tem uma ligação muito mais forte com essas realidades litorâneas do que se pode pressentir numa primeira vista. Porque o pequeno distrito de Aprazível era como que nosso ponto de escala quando viajávamos de férias não por trem, mas pelas precárias rodovias de então.
Aliás, um dos detalhes que mais me tocou, ao longo da semana que convivi com os estudantes do curso de audiovisual, foi quando uma aluna me disse que havia projetado os três documentários feitos praticamente quase pela mesma equipe em meados desta década – As Vilas Volantes, Uma Encruzilhada Aprazível e Sábado à Noite – para a empregada de sua casa, e o que a empregada havia mais apreciado fora justamente Uma Encruzilhada Aprazível.
Isso valeu para mim muito mais que qualquer apreciação crítica mais elaborada, argumentada ou acadêmica. Como de resto se deu – e de um modo bastante positivo – entre críticos ou téoricos que se basearam quase que exclusivamente no filme em si para escrever sobre ele. E, mais, sequer eram daqui, mas de estados do Sul e Sudeste.
E, aqui abro um parêntese. Tendo a ser extremamente auto-crítico em relação às realizações em que me encontro na posição mais central do projeto. Quando terminei de editar o Aprazível, com a colaboração de Veras e Fred Benevides, por ilustração, passei meses sem suportar assisti-lo. Entre outras, por temer não haver investido ali o melhor que eu podia ofertar.
Mas há outras somas. O filme foi, à época de sua conclusão, muito mal recebido pela comunidade de audiovisual aqui em Fortaleza. Lembro de haver ido a uma exibição inicial para amigos, conhecidos, gente da área, logo após a edição. E foi uma sessão dupla. Primeiro se exibiu Sábado à Noite, do Ivo. E, ao final, houve uma verdadeira ovação. Depois, se projetou o Aprazível, e a reação das pessoas foi um bocado fria.
E até mesmo gente ligada à equipe do Aprazível comentou comigo que alguns entendiam a edição do filme como problemática. Alguns dias depois, uma repórter de O Povo me ligou dizendo que queria fazer uma matéria sobre o filme. Enviei-lhe o filme, e uma pequena apreciação por escrito, ao modo de um release. Mas essa matéria jamais foi publicada. Ao que parece, ela não entendeu muita coisa. Então havia esse, como que, mal estar da comunidade audiovisual e formadora de opinião local em relação ao Aprazível.
No íntimo, eu sabia que não era assim. Que o Aprazível guarda uma coerência e, sobretudo, um ritmo muito próprios. Porém ninguém é de ferro e à época relembro ter saído um tanto agastado daquela amostra inicial, que ocorreu no apartamento de Veras. Porque a reação da audiência foi muito fria. Tendo de dissimular minha frustação, em meio ao, como de uso, festivo ambiente dessas ocasiões em que todos se conhecem. E toda apreciação crítica passa menos pelo valor dos filmes em si do que pelas relações de afeto, proximidade ou amizades. E, no entanto, quero deixar claro, passo longe de negar os méritos do Sábado à Noite, de Ivo. Um filme que vejo de modo ambíguo: há momentos que surtem louváveis, no sentido de entendermos melhor nossa complexa relação com uma cidade. Outros, talvez nem tanto.
Digo isso em independência. Porque, embora entenda a importância da sanção dos prêmios, especialmente se outorgados longe, fora daqui, não se pode quedar refém deles. É preciso manter a mente alerta. E não se deixar siderar por eles. Não se pode querer consertar o calçadão da Beira-Mar em função do turista. Mas, em prioridade, em benefício de quem habita a cidade, etc. E, portanto, seguir adiante. Com autonomia. Con brio
E, no entanto, dois paradoxos: não só o Aprazível – junto com o Vilas, claro – foi o filme que despertou a atenção de críticos do sul do país - como, entre outros, Cleber Eduardo, Claudia Mesquita, Consuelo Lins, Cezar Migliorin, Marcelo Ikeda - para o que começou a ser produzido de uma forma diferenciada por aqui; bem como, a exemplo do Vilas, foi o filme selecionado pelos gestores do programa DOC-TV para ser exibido em Brasília, quando da reunião com os realizadores do ano subsequente, como uma sorte de modelo de ousadia formal.
Quer dizer, a despeito da frieza dessa recepção local, foi um filme que abriu portas, uma vez que no ano consecutivo, Sábado à Noite, montado numa versão longa-metragem por Ivo, arrebanhou o prêmio de melhor filme no Festival de Tiradentes, cuja figura de maior poder de barganha, no júri, era justamente Cleber Eduardo, da revista Cinética. O mesmo que havia justo destacado o Aprazível, com umas poucas reservas – algumas, dentre as quais, de resto, me parecem pertinentes. Outras nem tanto. E, de resto, em um ponto concordo com ele, entendo ser As Vilas Volantes o filme mais urgente (no sentido de pioneiro) - inclusive num sentido que vaza para além do estético - realizado por aqui nos últimos tempos. Há gente que vai mais além. Ikeda, por exemplo, o considera o melhor filme já feito desde o Ceará.
Mas, aqui, é preciso seguir com calma. Parcimônia. E olhar para frente. Há desafios para diante. 
Hoje, estou plenamente consciente de minha quase alergia em relação a assuntos que tocam, sob primas os mais diversos, a cidade de Fortaleza. E por uma razão simples, suficiente: não me agradam grandes cidades. E mesmo uma metrópole um tanto fora do eixo das maiores metrópoles brasileiras, caso de Fortaleza, produz em mim um mal estar.
Explico. Neste domingo à noite, por exemplo, precisava comprar dois livros e fui à Livraria Cultura. Ainda não havia ido à Cultura, que foi inaugurada há tão só uns poucos meses atrás.
Bem, sou daqueles que, quando visitava ou morava em São Paulo, passava na Livraria Cultura – então uma pequena caixinha de vidro no embrião do Conjunto Nacional, ali no início da Paulista, quase diariamente. Conhecia os vendedores pelos nomes. Adorava aquela atmosfera um tanto, digamos, desalinhada, tão característica das livrarias antigas, em que havia mais livros que espaço livre. Em que os vendedores eram eles próprios ávidos leitores, gente do ramo. Gente que discutia contigo suas predileções literárias, e com bons argumentos. Em que se esgueirava entre as estantes, nas quais os livro pareciam tão mais próximos. Como se no aconchego da biblioteca de alguém que a gente preza.
Por contraste, hoje à noite, além da assepsia shopping center da Livraria Cultura aqui de Fortaleza, travou-se o seguinte diálogo entre o vendedor e eu:
Vocês tem algum título de Lezama Lima?
Como é mesmo o nome?
Soletrei o nome. E acrescentei: só me interessa se houver edições em castelhano.
E ele:
Em castelhano não tem, pode ser que a gente encontre em espanhol.
E após o breve esclarecimento:
É que tem catalão, né? Esses espanhóis são complicados.
Resultado: não tinha. E veio a sugestão da encomenda. Que descartei prontamente, pois já havia achado os outros dois livros que fora comprar. Ao menos isso.
Com a sacola de livros na mão subi ao mezanino para conferir a seção de cinema. Nada excepcional.
E, no entanto, a livraria como um todo era um vasto espaço cosmético, encontrável em qualquer outra parte do mundo. Desde a iluminação graduada até os degraus de madeira pelos quais se ascende ou desce do mezanino, e por onde se pode entrever dezenas de pessoas bebendo um cappuccino, degustando confeitos num amplo café fronteiro às prateleiras. O carpete, os sofás e poltronas, as máquinas de leitura de barras de código. O tanto que muitos daqueles escritores nas prateleiras, se soubessem do destino de seus livros, sentir-se-iam envergonhados de estar ali. Naquele espaço sem rosto. Limpinho, tão a serviço de consumo. O supermercado do livro.
Saí da livraria com a impressão da soma de inércia e morte que há ali. Naquela impecável assepsia. Nos procedimentos. Na arquitetura, grosso modo. Na postura e nos semblantes das pessoas. No segurança negro, sob um sufocante terno, à saída da loja. E senti um alívio, quando a brisa da noite a meio, soprou em meu rosto no que descia as escadas rolantes para a rua. Uma lufada de ar livre me dessufocando. Porque a única comunhão que senti, então, se deu, não com aquele ambiente apático, mas com o céu de estrelas embaciadas pelo excesso das lâmpadas. Com o terral passeando pela copa das árvores e desalinhando meus cabelos ralos.
Livros. Canções. Filmes.
Cada vez mais tendem a ser como esses espaços neutros, vagos, sem cor. Semelhantes aos aeroportos, aos shoppings, às lojas de conveniência encontráveis em qualquer lugar do planeta.
E me veio a mente a caixinha de vidro que frequentara, lá para trás, em São Paulo. E, sobretudo, o contigente de grupamentos humanos que ainda vive imune a essa vida plastificada. Como era o caso dos habitantes das Vilas Volantes, quando por primeiro os visitei, em 1991.
Mas sobretudo a forma única, inimitável, límpida dos seixos e conchas sobrepostos em camadas e camadas, a rodo, sobre as praias camocinenses; lambidos pelas franjas das grandes marés de fevereiro. A unicidade límpida de sua beleza.
A mesma que tento – quase sempre em malogro – tomar de empréstimo para tudo que escrevo, traduzo ou concebo, em termos de criação.

P.S. – E agradeço à turma com quem, por uma bela semana, trocamos ideias e sugestões na Vila das Artes. E, muito em especial, a aluna que me proporcionou essa prenda: o fato de saber que um filme – aparentemente hermético, quase mudo, sovina em sua utilização de depoimentos, da própria palavra, como o Aprazível – foi apreciado por uma empregada doméstica, semi-analfabeta.

Ah, outra coisa não, mas isto sim! Ganhou minha semana.


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Cheiramos flores de medo

Paul Klee, Mask of Fear, 1932




Medo & a Deformação de Sentido da Palavra Caridade


É quase impossível a um escritor não espalhar coisas más quando ele próprio não está bem. Pois é muito mais fácil atingir as pessoas pelo que nelas há de mesquinho. Como mesquinhos são os espelhos se excessivamente fixados. Ou todo aquele que é incapaz de sacar-se da própria adolescência no rumo de uma apaziguada – ainda que irrequieta – maturidade.

Vivemos num mundo com medo. Temos medo. Ou como diz Drummond: “E fomos educados para o medo./ Cheiramos flores de medo./ Vestimos panos de medo./ De medo, vermelhos rios vadeamos”. Quanto mais civilização há, mais medo de perder. De perder trivias: objetos, pequenos confortos. Embora o homem primitivo deva ter vivido num mundo de extremo terror, ele ao menos dava vazão a esse medo com muito menos compostura e bem mais sinceridade do que nós. Afora o fato de sua imaginação e paixão serem imensas.


Como "explicar" o raio e o trovão? As pestes e as doenças? A ferocidade das bestas selvagens? A magia do fogo? O encantamento dos sonhos? E, no entanto, eles criaram uma linguagem para dar conta de tudo isso que, em frequência, é muito mais sábia e robustamente poética que o nosso "mito" por excelência: a moderna ciência, positiva - cartesiana e/ou pós-cartesiana. A mesma que nos levou à penicilina e à bomba de nêutrons.

Essa é a diferença abissal entre nós e eles. O escritor moderno frequentemente se debruça sobre assuntos que não têm nada a ver com certas prioridades – e isso não quer dizer que tomar banalidades, o prosaico, o comezinho não seja o ponto de partida para adentrar em temas instigantes. No íntimo, ele esqueceu muita coisa. Muitas dessas coisas passam por um défice de sinestesia. Por uma progressiva incapacidade de sentir ou fruir a realidade física à volta. Mas também por conceitos. Algo mais abstrato. Como o peso que recai sobre certas palavras.

Entre essas palavras mais enxovalhadas desde o princípio da modernidade está a palavra caridade. A palavra caridade, que é sinônima de amor. E de abertura ao próximo.

Em verdade, entre os antigos, a caridade era a forma mais elevada de amor, porque estendida àqueles que nem mesmo se conhecia. Que acreditavam em outras coisas, adotavam outros valores, cultuavam outros deuses. E, portanto, algo que era dado, muitas vezes sabendo-se que ia fazer falta. Porém essa falta passava longe de ser um empecilho para o ato da entrega.

Tanto assim, que o sentido da palavra caridade entortou para a esmola que se pode dar, sabendo que aquilo que é dado não vai fazer a menor falta. Coisa de velhas matronas casadas com ricos executivos. Campanhas, onde o marketing vale mais que o ato. Ou então, algo que pode ser banalizado até a profundidade das minas de cobre chilenas na mídia nossa de cada dia. E alavancar a popularidade de políticos ou aumentar índices de audiência nos meios de comunicação. No frigir, a caridade – a ideia mas elevada de amor, no Medievo – converteu-se em algo bolorento, tramado em velhas sacristias por beatas enrugadas, que entoam velhos hinos ao padroeiro.

É certo, o excesso de auto-consciência, de uma lógica insana, que não deixa o corpo agir com o mínimo de espontaneidade transforma em artificial, frio e distanciado qualquer contato humano. Mesmo o mais espontâneo deles: a amizade. O sentido de estarmos juntos. Porém do contrário, o excesso de medo diante dos dilemas morais de cada um não nos pode levar a uma vida só de prazeres. Em que o mínimo sentido da palavra sacrifício parece haver sido erradicado de tudo o que vemos na TV, lemos na internet, nas revistas, nos livros, escutamos em mp3.

Ser feliz não é algo padronizável. É um advento. Uma aventura não mediada pelos modernos veículos de comunicação de massas.

É mais primordialmente algo a ser descoberto, com paciência e coragem, pela rica individualidade de cada ser humano. E, sem nenhuma dúvida, por mais assustador que já possa parecer a uma vasta maioria, tem a ver com conhecer-se melhor.


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A noção de número reiterada em epifania: Celan

Paul Kleee, 1920





Highgate

Es geht ein Engel durch die Stube—:
du, dem unaufgeschlagenen Buch nah,
sprichst mich
wiederum los.

Zweimal findet das Heidekraut Nahrung.
Zweimal erblaβts.

Paul Celan


Highgate

Um anjo atravessa a sala—:
tu, rente ao livro não aberto,
absolves-me
de novo.

Duas vezes a urze encontra seiva.
Duas vezes fenece.


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Por apetite se aproxime, se afaste por repugnância: Lezama

Jean Dubuffet, 1962



'Lo que más admiro'

¿Lo que más admiro en un escritor? Que maneje fuerzas que lo arrebaten, que parezcan que van a destruirlo. Que se apodere de ese reto y disuelva la resistencia. Que destruya el lenguaje y que cree el lenguaje. Que durante el día no tenga pasado y por la noche sea milenario. Que le guste la granada, que nunca ha probado, y que le guste la guayaba que prueba todos los días. Que se acerque a las cosas por apetito y que se aleje por repugnancia.

José Lezama Lima


'O que mais admiro'

O que mais admiro em um escritor? Que maneje forças que o arrebatam, que parecem que vão destruí-lo. Que se apodere desse desafio e dissolva a resistência. Que destrua a linguagem e que crie a linguagem. Que durante o dia não tenha passado e à noite seja milenar. Que lhe apeteça a romã, que nunca havia provado, e que lhe apeteça a goiaba que prova todos os dias. Que se acerque das coisas por apetite e que se distancie por repugnância.


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sábado, 16 de outubro de 2010

Uma ferramenta e tanto

Joseph Kosuth, 1965





Verbetes pra que te quero


Não conheço gente que escreve que não adore dicionário. Parece ser um modo de a gente se farejar. Todo escritor que conheço é louco por dicionário. Já leu dicionários. Tem ou teve dicionários de tudo: de etimologia provençal, de rimas, de santos, de humor, de nomes próprios, de acordes cifrados, de árvores, de poetas de língua inglesa do século XX, de mitologia greco-latina, de termos literários, de pássaros, de símbolos, de filmes, de ideias correlatas (ou analógicos) – os thesaurus – etc.

Com o virtual, ficou mais cômodo e fácil dicionarizar-se. Afinal, os não virtuais, de fato, demandam um espaço considerável. São uma espécie de paquiderme no reino dos livros.

E impressiona como o melhor dicionário de português online é... português, e não brasileiro. Somos quase duzentos milhões. Eles são pouco mais de dez. É covardia. Nosso peso futuro dentro dos destinos da língua será o decisivo. E há as telenovelas e o que virá depois delas.

Mas o dicionário em questão é o da Porto Editora. Pode ser encontrado AQUI. A vantagem dele – até mesmo sobre as versões vendidas em software do Aurélio ou do Houaiss – é, apesar da concisão dos verbetes, funcionar também como dicionário de sinônimos.

No fim das contas, uma bela ferramenta.


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Soap Opera?

Piet Zwart, 1928



Comove-me, porque "te quiero"



Quando dissemos da telenovela como base da linguagem do telejornal, falando nos termos de "mover" e "comover", AQUI, até parece que já estávamos prevendo o excesso de melodrama posto na cobertura telejornalística do resgate dos mineiros chilenos. Sem dúvida, a notícia do dramático resgate de vidas humanas correndo permanente risco numa mina de cobre a centenas de metros abaixo da superfície foi alvissareira.

A cobertura do JN, no entanto, foi digna de um dramalhão mexicano.


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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Enquanto a canção é roída

Lee Bontecou, 1958



Tua Nova Ariadne


Há um tubo. E nele se entra. Este tubo conduz a um outro tubo. E dentro deste outro tubo há uma encruzilhada. Depois dessa encruzilhada há muitas possibilidades de tubo. Uma capilaridade estranha. Em que cada passo sobre os tubos encharcados ressoa como o tinir de um caixa registradora bem no vão do juízo. Está um pouco escuro. Os tubos são tantos. As vezes imensas retas. Retas que parecem não terminar. Embora terminem abruptamente, para mais baixo, uma cava. Ou mais acima, aclive. Nada pressentidos. Ou então, a galeria de tubos assoma tão intrincada como o sistema de rotundas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. E é aí que se descobre: mesmo se houvesse uma Ariadne e um fio jamais seria possível sair da tubulação. Daí se saca o celular. Mas é tão grande, tão pleno de curvaturas e camadas sobrepostas o dédalo de tubos que qualquer sinal de celular imediatamente seria barrado pela interferência metálica e indiferente. E, de repente, ao tentar repor o celular no bolso do jeans, percebes que não é celular mas um graveto molhado na água fétida dos tubos. E que não há jeans porém uma superfície cinza e peluda. É teu corpo nu e molhado, com pequenos pelos boiando de leve à tona, feito penugem, na semi-obscuridade que as grelhas dos bueiros – muito altas e vagas, lá, lá acima – ainda garantem. E tu tentas escalar até elas, pois ainda sentes frio, às vezes. Mas os tubos estão cheios de limo. E, de algum modo, mesmo sentido-te mais preênsil por alguma razão, tu não logras galgar pelas laterais côncavas. E então teu corpo, mais e mais felpudo cai, ainda uma vez, dentro do charco, nos tubos. Só tu podes ouvir o baque na água imunda, ecoando, pois é certo, não há mais ninguém na tubulação. E logo tua visão principia a adaptar-se à insuficiência da luz. E instintivamente, com crescente destreza, começas a escolher se é melhor seguir a direita, a esquerda, adiante, para achar o de comer. Cada vez menos pela vista, que te está baça como um pano de pratos encardido, porém por teu faro tremendamente aguçado. E aprendes a viver sem cardealidade ou bússolas. E quase mais não sentes frio. Farejando aquelas superfícies de camadas e camadas de lodo. Palimpsestadas. Até chegar ao ponto em que percebes largar um rastro atrás de ti. Um tênue rastro na água. Um rastro que cresce. Timidamente. Deixado pelo mover de tua cauda na poça perene. A cauda que segue aumentando no correr de um tempo indemarcável. Tornando-se forte e essencial parte de ti, quando tudo estiver formado. Aprendes a torcer o corpo e lambê-la se ela se contunde, sentindo dores ao enroscar-se nos fios de arame vindos de um não sei onde para a tubulação. Ou o prazer que ela te dá, ao flutuar macia, mais facilmente que o resto do corpo na ininterrupta umidade em que vives dentro dos tubos. Ela é tua antena. Teu fio. Tua Ariadne. Com ela segues mais apaziguado com a ideia de que jamais tornarás ao não sei onde de onde vieste. E até, entre os grandes incisivos, ameaças assoviar uma velha bossa-nova, enquanto avanças ao ritmo das patas na água. Tua cauda ao modo de antena, como um segundo faro.

Te ajudando com o equilíbrio, enquanto a canção é roída.


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Eles esmolam ainda, Francisco: Celan

Rodolfo Abularach, 1966





Assisi

Umbrische Nacht.
Umbrische Nacht mit dem Silber von Glocke und Ölblatt.
Umbrische Nacht mit dem Stein, den du hertrugst.
Umbrische Nacht mit dem Stein.

Stumm, was ins Leben stieg, stumm.
Füll die Krüge um.

Irdener Krug.
Irdener Krug, dran die Töpferhand festwuchs.
Irdener Krug, den die Hand eines Schattens für immer verschloss.
Irdener Krug mit dem Siegel des Schattens.

Stein, wo du hinsiehst, Stein.
Lass das Grautier ein.

Trottendes Tier.
Trottendes Tier im Schnee, den die nackteste Hand streut.
Trottendes Tier vor dem Wort, das ins Schloss fiel.
Trottendes Tier, das den Schlaf aus der Hand frisst.

Glanz, der nicht trösten will, Glanz.
Die Toten - sie betteln noch, Franz.

Paul Celan


Assisi

Umbra noite.
Umbra noite com prata de sino de igreja e ramo de oliva.
Umbra noite com a pedra, que aqui carregaste.
Umbra noite com a pedra.

Tosco, o que aflora até vida, tosco.
Reenche os cântaros, vem.

De argila o cântaro.
De argila o cântaro em que as mãos do oleiro sobrefixaram-se.
De argila o cântaro em que mãos uma sombra para sempre encerram.
De argila o cântaro com o selo da sombra.

Pedra, para onde quer que olhes, pedra.
Deixa o asno entrar.

Trotante besta.
Trotante besta na neve, que a mão mais nua espalha.
Trotante besta antes da palavra, que a tranca veda.
Trotante besta, que cai no sono da mão que lhe dá de comer.

Corisco, não confortarás à sombra, corisco.
Os mortos—eles ainda esmolam, Francisco.


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Quase não ouvidos: McCrae

Ann Craven, A Small Poppy, 2000








'In Flanders fields'

In Flanders fields the poppies grow
Between the crosses, row on row,
That mark our place, and in the sky,
The larks, still bravely singing, fly,
Scarce heard amid the guns below.
We are the dead; short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders fields.
Take up our quarrel with the foe!
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high!
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

John McCrae



'Nos campos de Flandres'

Nos campos de Flandres a papoula oscila
Entre as cruzes e cruzes em fila
Que marcam nossos lugares e na amplidão
Tordos, ainda em canto, voam,
Quase não ouvidos entre as armas em ação.
Nós somos os mortos; na semana anterior
Vivíamos a manhã, víamos o sol se por
Amávamos, eramos amados, e agora deitados
Nos campos de Flandres.
Assuma nossa rixa com o inimigo!
Às tuas trêmulas mãos passamos
a tocha; que a ergas bem acima dos ramos!
Se por acaso traíres a nós, já no além
Não dormiremos bem, mas papoulas crescem
Nos campos de Flandres.




Nota 1
Este rondeau [Bandeira grafaria rondó] do canadense John McCrae faz referência á profusão de soldados ingleses & aliados e seus inimigos alemães mortos na Bélgica ainda na Primeira Guerra Mundial. Em particular na Batalha de Ypres. Aliás, pode-se ter a impressão que Bandeira traduziria este poema. McCrae era médico. E um exemplo típico daqueles poetas que ficam conhecidos apenas por um poema. No caso, precisamente este. E a tradição da poesia em um idioma também precisa de poetas assim.







NOTA 2
In 1855 Lord Macaulay, writing about the site of the Battle of Landen (in modern Belgium, not far from Ypres) in 1693, wrote "The next summer the soil, fertilised by twenty thousand corpses, broke forth into millions of poppies. The traveller who, on the road from Saint Tron to Tirlemont, saw that vast sheet of rich scarlet spreading from Landen to Neerwinden, could hardly help fancying that the figurative prediction of the Hebrew prophet was literally accomplished, that the earth was disclosing her blood, and refusing to cover the slain."

Em 1855, Lord Macaulay, escrevendo sobre o cenário da Batalha de Landen (na moderna Bélgica, não tão distante de Ypres, [o campo flamengo descrito por McCrae no poema – e, aliás, onde o próprio poeta está sepultado]) travada em 1693, disse: “No verão seguinte o solo, fertilizado por vinte mil cadáveres, aflorou em milhões de papoulas. O viajante que, seguindo de Saint Tron a Tirlemont, visse esse vasto lençol de rico escarlate estendendo-se de Landen a Neerwinden, dificilmente poderia imaginar que a predição da imagem do profeta hebreu fora literalmente cumprida, que a terra estava revelando seu sangue, e recusando-se a cobrir o morticínio”.
[Trecho do verbete sobre John McCrae na Wikipédia (versão em inglês)]


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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

753.457

Herbert Bayer, Capa do Nº4 da revista Bauhaus, 1929




Duas Mitologias Acidentais em Torno de Números
-do Tuíter, da prega que se pode pôr na vida a fim de ganhar tempo e do Dr. Gladwell


I.

Aquelas frases Belém-Brasília sendo postas nos contagoteados 140 caracteres

Quando ainda no Tuíter, uma escritora aqui de Fortaleza me perguntou por DM o que se deve fazer para escrever bem. Isso no Tuíter, com 140 caracteres para responder. É claro que acabei mudando o rumo da prosa. Até porque gosto do que ela publica.

É por essas e outras que saí das redes sociais. Embora nada tenha contra quem acha um bom negócio. O ser humano é capaz de ser criativo em qualquer ambiente. Mesmo no inferno megamétrico dessas redes. E, como diz Aldous Huxley, “sequer por um momento acreditei que criatividade tem qualquer coisa a ver com neurose”.

Reparem como é bonita a afirmação de Huxley. É uma “afirmação”. Algo que busca nos deixar mais seguros, firmes ao pisar o mundo. Sentir que há um solo para ser pisado. Tomemos Bach, por exemplo. Ele não parece ter sido assim tão neurótico.

Um dia ainda penso em escrever um livro. Em parte estética. Em Parte auto-ajuda. Em parte para ser posto no Tuíter. (Vocês já imaginaram, por exemplo, Proust publicando a Recherche no Tuíter? Ou Kerouac publicando Big Sur? Aquelas frases Belém-Brasília estendendo-se por tuítos e tuítos. Seria uma maravilha).

Ah, mas ia esquecendo o título do meu livro: Como escrever bem em 753.457 lições.

II.

Según los cálculos del sociólogo Malcolm Gladwell

Há coisas copiosamente engraçadas que as pessoas dizem com grande seriedade. Essas são as que realmente tiram riso. Muito mais do que as revistas de humor. Por exemplo, há esta frase no Babelia, suplemento literário de El País, esta semana:

Como cualquier proyecto de altos vuelos, la creación artística requiere dedicación absoluta. En términos cuantitativos, un mínimo de 10.000 horas de prácticas, según los cálculos del sociólogo Malcolm Gladwell (Fueras de serie, Taurus).


Isto é (involuntariamente) tão bom em termos de humor - sendo a comédia em essência algo que põe abaixo, que demole - que até parece tirado de uma página de Borges.

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