domingo, 17 de outubro de 2010

Cheiramos flores de medo

Paul Klee, Mask of Fear, 1932




Medo & a Deformação de Sentido da Palavra Caridade


É quase impossível a um escritor não espalhar coisas más quando ele próprio não está bem. Pois é muito mais fácil atingir as pessoas pelo que nelas há de mesquinho. Como mesquinhos são os espelhos se excessivamente fixados. Ou todo aquele que é incapaz de sacar-se da própria adolescência no rumo de uma apaziguada – ainda que irrequieta – maturidade.

Vivemos num mundo com medo. Temos medo. Ou como diz Drummond: “E fomos educados para o medo./ Cheiramos flores de medo./ Vestimos panos de medo./ De medo, vermelhos rios vadeamos”. Quanto mais civilização há, mais medo de perder. De perder trivias: objetos, pequenos confortos. Embora o homem primitivo deva ter vivido num mundo de extremo terror, ele ao menos dava vazão a esse medo com muito menos compostura e bem mais sinceridade do que nós. Afora o fato de sua imaginação e paixão serem imensas.


Como "explicar" o raio e o trovão? As pestes e as doenças? A ferocidade das bestas selvagens? A magia do fogo? O encantamento dos sonhos? E, no entanto, eles criaram uma linguagem para dar conta de tudo isso que, em frequência, é muito mais sábia e robustamente poética que o nosso "mito" por excelência: a moderna ciência, positiva - cartesiana e/ou pós-cartesiana. A mesma que nos levou à penicilina e à bomba de nêutrons.

Essa é a diferença abissal entre nós e eles. O escritor moderno frequentemente se debruça sobre assuntos que não têm nada a ver com certas prioridades – e isso não quer dizer que tomar banalidades, o prosaico, o comezinho não seja o ponto de partida para adentrar em temas instigantes. No íntimo, ele esqueceu muita coisa. Muitas dessas coisas passam por um défice de sinestesia. Por uma progressiva incapacidade de sentir ou fruir a realidade física à volta. Mas também por conceitos. Algo mais abstrato. Como o peso que recai sobre certas palavras.

Entre essas palavras mais enxovalhadas desde o princípio da modernidade está a palavra caridade. A palavra caridade, que é sinônima de amor. E de abertura ao próximo.

Em verdade, entre os antigos, a caridade era a forma mais elevada de amor, porque estendida àqueles que nem mesmo se conhecia. Que acreditavam em outras coisas, adotavam outros valores, cultuavam outros deuses. E, portanto, algo que era dado, muitas vezes sabendo-se que ia fazer falta. Porém essa falta passava longe de ser um empecilho para o ato da entrega.

Tanto assim, que o sentido da palavra caridade entortou para a esmola que se pode dar, sabendo que aquilo que é dado não vai fazer a menor falta. Coisa de velhas matronas casadas com ricos executivos. Campanhas, onde o marketing vale mais que o ato. Ou então, algo que pode ser banalizado até a profundidade das minas de cobre chilenas na mídia nossa de cada dia. E alavancar a popularidade de políticos ou aumentar índices de audiência nos meios de comunicação. No frigir, a caridade – a ideia mas elevada de amor, no Medievo – converteu-se em algo bolorento, tramado em velhas sacristias por beatas enrugadas, que entoam velhos hinos ao padroeiro.

É certo, o excesso de auto-consciência, de uma lógica insana, que não deixa o corpo agir com o mínimo de espontaneidade transforma em artificial, frio e distanciado qualquer contato humano. Mesmo o mais espontâneo deles: a amizade. O sentido de estarmos juntos. Porém do contrário, o excesso de medo diante dos dilemas morais de cada um não nos pode levar a uma vida só de prazeres. Em que o mínimo sentido da palavra sacrifício parece haver sido erradicado de tudo o que vemos na TV, lemos na internet, nas revistas, nos livros, escutamos em mp3.

Ser feliz não é algo padronizável. É um advento. Uma aventura não mediada pelos modernos veículos de comunicação de massas.

É mais primordialmente algo a ser descoberto, com paciência e coragem, pela rica individualidade de cada ser humano. E, sem nenhuma dúvida, por mais assustador que já possa parecer a uma vasta maioria, tem a ver com conhecer-se melhor.


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A noção de número reiterada em epifania: Celan

Paul Kleee, 1920





Highgate

Es geht ein Engel durch die Stube—:
du, dem unaufgeschlagenen Buch nah,
sprichst mich
wiederum los.

Zweimal findet das Heidekraut Nahrung.
Zweimal erblaβts.

Paul Celan


Highgate

Um anjo atravessa a sala—:
tu, rente ao livro não aberto,
absolves-me
de novo.

Duas vezes a urze encontra seiva.
Duas vezes fenece.


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Por apetite se aproxime, se afaste por repugnância: Lezama

Jean Dubuffet, 1962



'Lo que más admiro'

¿Lo que más admiro en un escritor? Que maneje fuerzas que lo arrebaten, que parezcan que van a destruirlo. Que se apodere de ese reto y disuelva la resistencia. Que destruya el lenguaje y que cree el lenguaje. Que durante el día no tenga pasado y por la noche sea milenario. Que le guste la granada, que nunca ha probado, y que le guste la guayaba que prueba todos los días. Que se acerque a las cosas por apetito y que se aleje por repugnancia.

José Lezama Lima


'O que mais admiro'

O que mais admiro em um escritor? Que maneje forças que o arrebatam, que parecem que vão destruí-lo. Que se apodere desse desafio e dissolva a resistência. Que destrua a linguagem e que crie a linguagem. Que durante o dia não tenha passado e à noite seja milenar. Que lhe apeteça a romã, que nunca havia provado, e que lhe apeteça a goiaba que prova todos os dias. Que se acerque das coisas por apetite e que se distancie por repugnância.


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sábado, 16 de outubro de 2010

Uma ferramenta e tanto

Joseph Kosuth, 1965





Verbetes pra que te quero


Não conheço gente que escreve que não adore dicionário. Parece ser um modo de a gente se farejar. Todo escritor que conheço é louco por dicionário. Já leu dicionários. Tem ou teve dicionários de tudo: de etimologia provençal, de rimas, de santos, de humor, de nomes próprios, de acordes cifrados, de árvores, de poetas de língua inglesa do século XX, de mitologia greco-latina, de termos literários, de pássaros, de símbolos, de filmes, de ideias correlatas (ou analógicos) – os thesaurus – etc.

Com o virtual, ficou mais cômodo e fácil dicionarizar-se. Afinal, os não virtuais, de fato, demandam um espaço considerável. São uma espécie de paquiderme no reino dos livros.

E impressiona como o melhor dicionário de português online é... português, e não brasileiro. Somos quase duzentos milhões. Eles são pouco mais de dez. É covardia. Nosso peso futuro dentro dos destinos da língua será o decisivo. E há as telenovelas e o que virá depois delas.

Mas o dicionário em questão é o da Porto Editora. Pode ser encontrado AQUI. A vantagem dele – até mesmo sobre as versões vendidas em software do Aurélio ou do Houaiss – é, apesar da concisão dos verbetes, funcionar também como dicionário de sinônimos.

No fim das contas, uma bela ferramenta.


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Soap Opera?

Piet Zwart, 1928



Comove-me, porque "te quiero"



Quando dissemos da telenovela como base da linguagem do telejornal, falando nos termos de "mover" e "comover", AQUI, até parece que já estávamos prevendo o excesso de melodrama posto na cobertura telejornalística do resgate dos mineiros chilenos. Sem dúvida, a notícia do dramático resgate de vidas humanas correndo permanente risco numa mina de cobre a centenas de metros abaixo da superfície foi alvissareira.

A cobertura do JN, no entanto, foi digna de um dramalhão mexicano.


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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Enquanto a canção é roída

Lee Bontecou, 1958



Tua Nova Ariadne


Há um tubo. E nele se entra. Este tubo conduz a um outro tubo. E dentro deste outro tubo há uma encruzilhada. Depois dessa encruzilhada há muitas possibilidades de tubo. Uma capilaridade estranha. Em que cada passo sobre os tubos encharcados ressoa como o tinir de um caixa registradora bem no vão do juízo. Está um pouco escuro. Os tubos são tantos. As vezes imensas retas. Retas que parecem não terminar. Embora terminem abruptamente, para mais baixo, uma cava. Ou mais acima, aclive. Nada pressentidos. Ou então, a galeria de tubos assoma tão intrincada como o sistema de rotundas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. E é aí que se descobre: mesmo se houvesse uma Ariadne e um fio jamais seria possível sair da tubulação. Daí se saca o celular. Mas é tão grande, tão pleno de curvaturas e camadas sobrepostas o dédalo de tubos que qualquer sinal de celular imediatamente seria barrado pela interferência metálica e indiferente. E, de repente, ao tentar repor o celular no bolso do jeans, percebes que não é celular mas um graveto molhado na água fétida dos tubos. E que não há jeans porém uma superfície cinza e peluda. É teu corpo nu e molhado, com pequenos pelos boiando de leve à tona, feito penugem, na semi-obscuridade que as grelhas dos bueiros – muito altas e vagas, lá, lá acima – ainda garantem. E tu tentas escalar até elas, pois ainda sentes frio, às vezes. Mas os tubos estão cheios de limo. E, de algum modo, mesmo sentido-te mais preênsil por alguma razão, tu não logras galgar pelas laterais côncavas. E então teu corpo, mais e mais felpudo cai, ainda uma vez, dentro do charco, nos tubos. Só tu podes ouvir o baque na água imunda, ecoando, pois é certo, não há mais ninguém na tubulação. E logo tua visão principia a adaptar-se à insuficiência da luz. E instintivamente, com crescente destreza, começas a escolher se é melhor seguir a direita, a esquerda, adiante, para achar o de comer. Cada vez menos pela vista, que te está baça como um pano de pratos encardido, porém por teu faro tremendamente aguçado. E aprendes a viver sem cardealidade ou bússolas. E quase mais não sentes frio. Farejando aquelas superfícies de camadas e camadas de lodo. Palimpsestadas. Até chegar ao ponto em que percebes largar um rastro atrás de ti. Um tênue rastro na água. Um rastro que cresce. Timidamente. Deixado pelo mover de tua cauda na poça perene. A cauda que segue aumentando no correr de um tempo indemarcável. Tornando-se forte e essencial parte de ti, quando tudo estiver formado. Aprendes a torcer o corpo e lambê-la se ela se contunde, sentindo dores ao enroscar-se nos fios de arame vindos de um não sei onde para a tubulação. Ou o prazer que ela te dá, ao flutuar macia, mais facilmente que o resto do corpo na ininterrupta umidade em que vives dentro dos tubos. Ela é tua antena. Teu fio. Tua Ariadne. Com ela segues mais apaziguado com a ideia de que jamais tornarás ao não sei onde de onde vieste. E até, entre os grandes incisivos, ameaças assoviar uma velha bossa-nova, enquanto avanças ao ritmo das patas na água. Tua cauda ao modo de antena, como um segundo faro.

Te ajudando com o equilíbrio, enquanto a canção é roída.


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Eles esmolam ainda, Francisco: Celan

Rodolfo Abularach, 1966





Assisi

Umbrische Nacht.
Umbrische Nacht mit dem Silber von Glocke und Ölblatt.
Umbrische Nacht mit dem Stein, den du hertrugst.
Umbrische Nacht mit dem Stein.

Stumm, was ins Leben stieg, stumm.
Füll die Krüge um.

Irdener Krug.
Irdener Krug, dran die Töpferhand festwuchs.
Irdener Krug, den die Hand eines Schattens für immer verschloss.
Irdener Krug mit dem Siegel des Schattens.

Stein, wo du hinsiehst, Stein.
Lass das Grautier ein.

Trottendes Tier.
Trottendes Tier im Schnee, den die nackteste Hand streut.
Trottendes Tier vor dem Wort, das ins Schloss fiel.
Trottendes Tier, das den Schlaf aus der Hand frisst.

Glanz, der nicht trösten will, Glanz.
Die Toten - sie betteln noch, Franz.

Paul Celan


Assisi

Umbra noite.
Umbra noite com prata de sino de igreja e ramo de oliva.
Umbra noite com a pedra, que aqui carregaste.
Umbra noite com a pedra.

Tosco, o que aflora até vida, tosco.
Reenche os cântaros, vem.

De argila o cântaro.
De argila o cântaro em que as mãos do oleiro sobrefixaram-se.
De argila o cântaro em que mãos uma sombra para sempre encerram.
De argila o cântaro com o selo da sombra.

Pedra, para onde quer que olhes, pedra.
Deixa o asno entrar.

Trotante besta.
Trotante besta na neve, que a mão mais nua espalha.
Trotante besta antes da palavra, que a tranca veda.
Trotante besta, que cai no sono da mão que lhe dá de comer.

Corisco, não confortarás à sombra, corisco.
Os mortos—eles ainda esmolam, Francisco.


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Quase não ouvidos: McCrae

Ann Craven, A Small Poppy, 2000








'In Flanders fields'

In Flanders fields the poppies grow
Between the crosses, row on row,
That mark our place, and in the sky,
The larks, still bravely singing, fly,
Scarce heard amid the guns below.
We are the dead; short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders fields.
Take up our quarrel with the foe!
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high!
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

John McCrae



'Nos campos de Flandres'

Nos campos de Flandres a papoula oscila
Entre as cruzes e cruzes em fila
Que marcam nossos lugares e na amplidão
Tordos, ainda em canto, voam,
Quase não ouvidos entre as armas em ação.
Nós somos os mortos; na semana anterior
Vivíamos a manhã, víamos o sol se por
Amávamos, eramos amados, e agora deitados
Nos campos de Flandres.
Assuma nossa rixa com o inimigo!
Às tuas trêmulas mãos passamos
a tocha; que a ergas bem acima dos ramos!
Se por acaso traíres a nós, já no além
Não dormiremos bem, mas papoulas crescem
Nos campos de Flandres.




Nota 1
Este rondeau [Bandeira grafaria rondó] do canadense John McCrae faz referência á profusão de soldados ingleses & aliados e seus inimigos alemães mortos na Bélgica ainda na Primeira Guerra Mundial. Em particular na Batalha de Ypres. Aliás, pode-se ter a impressão que Bandeira traduziria este poema. McCrae era médico. E um exemplo típico daqueles poetas que ficam conhecidos apenas por um poema. No caso, precisamente este. E a tradição da poesia em um idioma também precisa de poetas assim.







NOTA 2
In 1855 Lord Macaulay, writing about the site of the Battle of Landen (in modern Belgium, not far from Ypres) in 1693, wrote "The next summer the soil, fertilised by twenty thousand corpses, broke forth into millions of poppies. The traveller who, on the road from Saint Tron to Tirlemont, saw that vast sheet of rich scarlet spreading from Landen to Neerwinden, could hardly help fancying that the figurative prediction of the Hebrew prophet was literally accomplished, that the earth was disclosing her blood, and refusing to cover the slain."

Em 1855, Lord Macaulay, escrevendo sobre o cenário da Batalha de Landen (na moderna Bélgica, não tão distante de Ypres, [o campo flamengo descrito por McCrae no poema – e, aliás, onde o próprio poeta está sepultado]) travada em 1693, disse: “No verão seguinte o solo, fertilizado por vinte mil cadáveres, aflorou em milhões de papoulas. O viajante que, seguindo de Saint Tron a Tirlemont, visse esse vasto lençol de rico escarlate estendendo-se de Landen a Neerwinden, dificilmente poderia imaginar que a predição da imagem do profeta hebreu fora literalmente cumprida, que a terra estava revelando seu sangue, e recusando-se a cobrir o morticínio”.
[Trecho do verbete sobre John McCrae na Wikipédia (versão em inglês)]


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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

753.457

Herbert Bayer, Capa do Nº4 da revista Bauhaus, 1929




Duas Mitologias Acidentais em Torno de Números
-do Tuíter, da prega que se pode pôr na vida a fim de ganhar tempo e do Dr. Gladwell


I.

Aquelas frases Belém-Brasília sendo postas nos contagoteados 140 caracteres

Quando ainda no Tuíter, uma escritora aqui de Fortaleza me perguntou por DM o que se deve fazer para escrever bem. Isso no Tuíter, com 140 caracteres para responder. É claro que acabei mudando o rumo da prosa. Até porque gosto do que ela publica.

É por essas e outras que saí das redes sociais. Embora nada tenha contra quem acha um bom negócio. O ser humano é capaz de ser criativo em qualquer ambiente. Mesmo no inferno megamétrico dessas redes. E, como diz Aldous Huxley, “sequer por um momento acreditei que criatividade tem qualquer coisa a ver com neurose”.

Reparem como é bonita a afirmação de Huxley. É uma “afirmação”. Algo que busca nos deixar mais seguros, firmes ao pisar o mundo. Sentir que há um solo para ser pisado. Tomemos Bach, por exemplo. Ele não parece ter sido assim tão neurótico.

Um dia ainda penso em escrever um livro. Em parte estética. Em Parte auto-ajuda. Em parte para ser posto no Tuíter. (Vocês já imaginaram, por exemplo, Proust publicando a Recherche no Tuíter? Ou Kerouac publicando Big Sur? Aquelas frases Belém-Brasília estendendo-se por tuítos e tuítos. Seria uma maravilha).

Ah, mas ia esquecendo o título do meu livro: Como escrever bem em 753.457 lições.

II.

Según los cálculos del sociólogo Malcolm Gladwell

Há coisas copiosamente engraçadas que as pessoas dizem com grande seriedade. Essas são as que realmente tiram riso. Muito mais do que as revistas de humor. Por exemplo, há esta frase no Babelia, suplemento literário de El País, esta semana:

Como cualquier proyecto de altos vuelos, la creación artística requiere dedicación absoluta. En términos cuantitativos, un mínimo de 10.000 horas de prácticas, según los cálculos del sociólogo Malcolm Gladwell (Fueras de serie, Taurus).


Isto é (involuntariamente) tão bom em termos de humor - sendo a comédia em essência algo que põe abaixo, que demole - que até parece tirado de uma página de Borges.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

A moda, esse universo estranho, fascinante, grotesco

Jacques-Henri Latigue, L'Avenue des Acacias, 1911





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Sobre eles, dentre eles, como se não houvesse ninguém

[s/i/c]




'Eles surgiram como se de um sonho'
-extrato do romance Désert [Deserto], de J.M.G. Le Clézio


Saguiet el Hamra, hiver 1909 – 1910

Ils sont apparus, comme dans un rêve, au sommet de la dune, à demi cachés par la brume de sable que leurs pieds soulevaient. Lentement ils sont descendus dans la vallée, en suivant la piste presque invisible. En tête de la caravane, il y avait les hommes, enveloppés dans leurs manteaux de laine, leurs visages masqués par le voile bleu. Avec eux marchaient deux ou trois dromadaires, puis les chèvres et les moutons harcelés par les jeunes garçons. Les femmes fermaient la marche. C’étaient des silhouettes alourdies, encombrées par les lourds manteaux, et la peau de leurs bras et de leurs fronts semblait encore plus sombre dans les voiles d’indigo.

Ils marchaient sans bruit dans le sable, lentement, sans regarder où ils allaient. Le vent soufflait continûment, le vent du désert, chaud le jour, froid la nuit. Le sable fuyait autour d’eux, entre les pattes des chameaux, fouettait le visage des femmes qui rabattaient la toile bleue sur leurs yeux. Les jeunes enfants couraient, les bébés pleuraient, enroulés dans la toile bleue sur le dos de leur mère. Les chameaux grommelaient, éternuaient. Personne ne savait où on allait.

Le soleil était encore haut dans le ciel nu, le vent emportait les bruits et les odeurs. La sueur coulait lentement sur le visage des voyageurs, et leur peau sombre avait pris le reflet de l’indigo, sur leurs joues, sur leurs bras, le long de leurs jambes. Les tatouages bleus sur le front des femmes brillaient comme des scarabées. Les yeux noirs, pareils à des gouttes de métal, regardaient à peine l’étendue de sable, cherchaient la trace de la piste entre les vagues des dunes.

Il n’y avait rien d’autre sur la terre, rien, ni personne. Ils étaient nés du désert, aucun autre chemin ne pouvait les conduire. Ils ne disaient rien. Ils ne voulaient rien. Le vent passait sur eux, à travers eux, comme s’il n’y avait personne sur les dunes. Ils marchaient depuis la première aube, sans s’arrêter, la fatigue et la soif les enveloppaient comme une gangue. La sécheresse avait durci leurs lèvres et leur langue. La faim les rongeait. Ils n’auraient pas pu parler. Ils étaient devenus, depuis si longtemps, muets comme le désert, pleins de lumière quand le soleil brûle au centre du ciel vide, et glacés de la nuit aux étoiles figées.

Ils continuaient à descendre lentement la pente vers le fond de la vallée, en zigzaguant quand le sable s’éboulait sous leurs pieds. Les hommes choisissaient sans regarder l’endroit où leurs pieds allaient se poser. C’était comme s’ils cheminaient sur des traces invisibles qui les conduisaient vers l’autre bout de la solitude, vers la nuit. Un seul d’entre eux portait un fusil, une carabine à pierre au long canon de bronze noirci. Il la portait sur sa poitrine, serrée entre ses deux bras, le canon dirigé vers le haut comme la hampe d’un drapeau. Ses frères marchaient à côté de lui, enveloppés dans leurs manteaux, un peu courbés en avant sous le poids de leurs fardeaux. Sous leurs manteaux, leurs habits bleus étaient en lambeaux, déchirés par les épines, usés par le sable. Derrière le troupeau exténué, Nour, le fils de l’homme au fusil, marchait devant sa mère et ses sœurs. Son visage était sombre, noirci par le soleil, mais ses yeux brillaient, et la lumière de son regard était presque surnaturelle.

Ils étaient les hommes et les femmes du sable, du vent, de la lumière, de la nuit. Ils étaient apparus, comme dans un rêve, en haut d’une dune, comme s’ils étaient nés du ciel sans nuages, et qu’ils avaient dans leurs membres la dureté de l’espace. Ils portaient avec eux la faim, la soif qui fait saigner les lèvres, le silence dur où luit le soleil, les nuits froides, les lueurs de la Voie lactée, la lune ; ils avaient avec eux leur ombre géante au coucher du soleil, les vagues de sable vierge que leurs orteils écartés touchaient, l’horizon inaccessible. Ils avaient surtout la lumière de leur regard, qui brillait si clairement dans la sclérotique de leurs yeux.

Jean-Marie Gustave Le Clézio




Saguiet al-Hamra, inverno 1909-1910

Eles surgiram como se de um sonho, no cimo da duna, meio envoltos pela bruma de areia que seus pés soerguiam. Lentamente seguiam descendo para o vale, no rastro da trilha quase invisível. Adiante da caravana havia os homens, envoltos em suas túnicas de lã, os semblantes mascarados pelo véu azul. Junto a si trotavam dois ou três dromedários, depois as cabras e as ovelhas tangidas pelos meninos. As mulheres sobrevinham na retaguarda. Eram silhuetas avultadas, encobertas pelos pesados mantos, e a pele de seus braços e testas assomava ainda mais sombria sob o índigo dos véus.

Caminhavam sem ruído sobre a areia, sem perscrutar para onde seguiam. O vento soprava continuamente, o vento do deserto, quente durante o dia; frio, à noite. A areia redemunhava em torno deles, entre as patas dos camelos, açoitando o rosto das mulheres que aprumavam os véus azuis sobre os olhos. Os garotinhos corriam, os bebês choravam, envoltos em trapos azuis no dorso de suas mães. Os camelos triniam, nitriam. Ninguém sabia para onde eles seguiam.

O sol já ia alto no céu nu, o vento arrastava os ruídos e os odores. O suor grudava-se lentamente sobre o rosto dos viajantes. E suas peles escuras haviam captado o reflexo do índigo, sobre as bochechas, sobre os braços, ao longo das pernas. As tatuagens azuis na testa das mulheres rebrilhavam como escaravelhos. Os olhos negros como fossem gotas de cobre, mal apercebendo a imensidão da areia, buscando o traço da trilha entre as vagas das dunas.

Não havia mais ninguém sobre a terra, ninguém, avulso que fosse. Eles nasceram do deserto, nenhum outro caminho lhes poderia conduzir. Eles nada proferiam. Nada queriam. O vento passava sobre eles, dentre eles, como se não houvesse ninguém sobre as dunas. Eles caminhavam após o romper da aurora, sem se deter, a fadiga e a sede os envolvia como uma redoma. A secura havia enrijecido seus lábios e suas línguas. A fome os roía. Eles não iriam mais falar. Tinham se tornado, depois de tão longo tempo, mudos como o deserto, plenos de luz como quando o sol brilha no centro do céu ermo, enregelados pela noite de estrelas em coágulo.

Eles continuavam a descer lentamente a encosta até a cava do vale, ziguezagueando quando a areia afrouxava-se sob seus pés. Os homens escolhendo sem olhar o solo em que os pés iriam pousar. Era como se caminhassem sobre o traço invisível que os conduziam à outra extremidade da solidão, à noite. Um só dentre eles portava um fuzil, uma carabina de gatilho com um longo barril de cobre enegrecido. Ele a trazia sobre o peito, encerrada entre seus braços, o cano apontado para o alto como o mastro de uma bandeira. Seus irmãos caminhavam a seu lado, envoltos em suas túnicas, um pouco vergados para frente sob o peso dos fardos. Sobre as túnicas o traje azul aos trapos, esfarrapado pelos espinhos, gasto pela areia. Atrás da tropa extenuada, Nour, o filho do homem do fuzil, caminhava à frente de sua mãe e de suas irmãs. Seu rosto estava fosco, enegrecido pelo sol, mas seus olhos brilhavam, e a luz de seu olhar era como que sobrenatural.

Eram homens e mulheres da areia, do vento, da luz, da noite. Eles tinham aparecido como se de um sonho, no cimo de uma duna, como se tivessem nascido de um céu sem nuvens, e carregassem em seus membros a aspereza do espaço. Eles levavam consigo a fome, a sede que faz sangrar os lábios, o silêncio silexeado de sol, as noites frias, o resplendor da Via Láctea, a lua; traziam consigo a enorme sombra após o sol se pôr, as ondas de areias virgens, que seus artelhos extenuados tocavam, o horizonte inacessível. Eles tinham sobretudo a luz de suas visões que brilhavam tão claramente na esclerótica dos olhos.


* * *

Beleza só se tem quando se acende a lamparina

[s/i/c]




Derivando duas assertivas de J.M.G. Le Clézio


J’ai toujours pensé que la littérature devait servir non pas à décrire mais à comprendre ce qu’on voyait, à entrer en soi ce qu’on voyait. Un peu comme on entre aujourd’hui des informations dans un ordinateur en les scannant. L’oeil permet de faire entrer cette information, et le dessin était pour moi un des moyens me permettant de comprendre ce que je voyais, c’est-à-dire de séparer ce que je jugeais essentiel de ce qui ne l’était pas. Dans un visage, dans une scène de rue, pour un plan de ville, un plan de rue, un plan de maison, ou bien simplement le déroulement d’une action, afin de la mettre sur le papier, afin de la voir évoluer.

[J. M. G. Le Clézio, entrevista à Le Magazine Littéraire. Para a entrevista na íntegra (em francês) AQUI]

Sempre pensei que a literatura devia servir não para descrever mas para compreender o que vemos, para adentrar propriamente no que vemos. Um pouco como adentramos nas informações em um computador hoje em dia escaneando-as. O olho propicia o adentramento nessa informação, e o desenho é para mim um dos meios que me permite compreender o que vejo; quer dizer, separar o que julgo essencial daquilo que não o é. Em um relance, em uma cena de rua, através do plano de uma cidade, o plano de uma rua, o plano de uma casa, ou mais simplesmente o desdobramento de uma ação, a fim de pô-la sobre o papel, a fim de vê-la evoluir.


Outro extrato interessante de Le Clézio – mas que não se encontra na sobrecitada entrevista – passa por aqui, quando ele nos fala das culturas ditas “primitivas”, com as quais conviveu, sobretudo entre indígenas mexicanos e nativos da Oceania:

Souvent très archaïques, à beaucoup d'égards, ces sociétés sont en même temps extrêmement juvéniles. Et possédant, en tout cas, une qualité que seule la jeunesse peut offrir: une certaine insouciance face aux aléas de la vie quotidienne. Manquer d'un peu de nourriture ou perdre quelque chose, un objet par exemple, n'est pas vécu comme un événement dramatique. Ce que je trouve terrifiant, c'est que la société moderne dans laquelle nous vivons en Occident s'enferre dans cette idée que perdre quelque chose est toujours tragique, que le tragique est incontournable, qu'on ne peut y échapper. Il faudrait aborder les aléas de la vie quotidienne avec plus d'insouciance, et accorder une attention plus grande, faire une place plus large a des préoccupations relevant de la beauté et de l'harmonie.
[in J.M.G. Le Clézio, biografia escrita por Gérard de Cortanze, p.79]

Frequentemente bastante arcaicas, em muitos aspectos, essas sociedades são ao mesmo tempo extremamente juvenis. E possuem, em todo caso, uma qualidade que só a juventude pode ofertar: uma certa despreocupação face aos riscos da vida quotidiana. Carecer de um pouco de nutrição ou perder algo, um objeto por exemplo, não é vivido como um evento dramático. É o que acho terrível, o fato de a sociedade moderna na qual vivemos no Ocidente se aferrar a esta ideia de que a perda de qualquer coisa é sempre trágica, que o trágico é incontornável, algo inescapável. Seria necessário abordar os riscos da vida quotidiana com mais despreocupação, e despertar uma maior atenção, abrir mais espaço às inquietações relevantes à beleza e à harmonia.

Sem dúvida, um ponto interessante na, digamos, estética de Le Clézio – e ele possui uma – é uma espécie de "elogio da escassez". Este aspecto é de suma importância para uma região que está se transfigurando de forma avassaladora. Sofrendo a mutação de uma sociedade artesanal, pré-industrial para uma sociedade de consumo, como o Nordeste do Brasil. Tem muito a ver com o que falamos, por exemplo, a respeito do shopping center por contraposição ao alpendre, como metáforas. E, aqui, sem saudosismos, nostalgias ou armorialismos. Mas sim com a necessidade de manter a chama viva das boas promessas históricas, que, de resto, meandram toda a sociedade e, portanto, sua arquitetura ou o uso e a forma de seus utensílios. Ou o utensílio e a forma de seus usos – parodiando Cabral.

Antes, muito antes de se falar em reciclagem, ou de os europeus desenharem o símbolo da reciclagem com três flechas em triângulo, já se fazia reciclagem em larga escala no Nordeste. Porque a escassez, a pobreza nos ensinou assim. Basta lembrar a beleza que eram as lamparinas feitas de latas de óleo de cozinha ou reaproveitando frascos de vidros de remédios. O que, de resto, resultava em objetos extremamente plásticos, úteis, funcionais. Hoje em dia quase não há mais nem uma coisa, nem outra, em termos puramente físicos – os recipientes de óleo de cozinha são de plástico, os remédios raramente vêm em grandes frascos de vidro e quase mais ninguém usa lamparinas a querosene.

Porém o desastre maior é que não as haja em termos de mentalidade real. Apesar de, paradoxalmente, tanto se falar em reciclagem desde fora.


Da minha parte, gostaria de, na medida do possível, aproximar a escrita ao modo como se confeccionavam essas antigas lamparinas: incorporando e reaproveitando materiais dentro de uma simetria e de uma forma únicas, ao mesmo tempo que coletivas e extremamente funcionais. Provindas de um pensamento autóctone, a partir de uma lição da escassez. Porque estou convencido de que a autonomia e a originalidade que essas formas indicam nada tem a ver com nostalgia ou saudade. Elas apontam para uma expressão. Para uma linguagem no melhor sentido da palavra. A que agrega a destreza, a mestria  autônomas de um povo, que só a memória pode vivificar, indicando novos caminhos a partir.


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Há, por certo, nesta forma de pensar, uma solaridade e uma solidariedade não encontrável na maioria dos intelectuais europeus contemporâneos. Inclusive – e até mesmo – entre antropólogos ou missionários religiosos. Entre os primeiros há quase que um excesso, uma hiperinflação de conceitos sem lastro real. Nos segundos, com frequência, há muita condescendência em relação aos ritos locais. E essa é a generosidade de Le Clézio, uma abertura para outras culturas não ortodoxamente "ocidentais". Porém uma abertura não complacente, uma vez que ele próprio não se cansa de reiterar que essas sociedades ditas "primitivas" também tem lá sua boa carga de problemas. Aqui, não se trata de mitos de bons selvagens, portanto. Ele defende, por exemplo, que um país como o Brasil lance mão de seus recursos naturais para safar-se à pobreza. E não cansa de ridicularizar a faceta mais obtusa  e mesmo autoritária do ecologismo que grassa à reboque do "politicamente correto". Uma anedota resume isto. O contexto é o de ele estar num colóquio ao lado de um escritor de Mali, que então recebia uma premiação:


"Il y a une grande hypocrisie dans l'écologie très autoritaire telle qu'elle est pratiquée aujourd'hui. Après avoir pillé la planète, les pays occidentaux voudraient empêcher les autres pays d'accéder au développement, d'utiliser leurs matières premières. On ne peut pas interdire à un pays comme le Brésil d'avoir recours à tous les moyens pour sortir de la pauvreté. J'étais au côté de l'écrivain malien Amadou Hampâté Bâ,  un jour qu'il recevait un prix littéraire. Une dame est venue vers ce grand gaillard, très africain d'aspect, et lui a demandé : « Qu'est-ce que vous comptez faire pour sauver les éléphants ?». Il lui a répondu : « Madame, les éléphants sont de sales bêtes qui piétinent nos plantations ». La dame a été très choquée..."

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

And she aches just like a woman/ But she breaks just like a little girl

Cindy van den Bremen, Sports Headgear for Muslim Women, 1999



apenas uma mulher


o que é ser apenas como uma mulher? como é possível ser apenas como uma mulher? de que jeito se caminha na rua sendo apenas como uma mulher? e se todas as frases do mundo tivessem por sujeito «apenas como uma mulher»? por que apenas uma mulher pode beijar de um jeito que apenas uma mulher beija? pode gemer de um jeito que apenas uma mulher geme? ou despir-se do modo como apenas uma mulher revela a paisagem? e, por isso, chega a ser sacrílego que um homem queira a outro homem jactar-se da paisagem nua que é apenas uma mulher -- como candaules a giges? por que apenas uma mulher pode reparar na roupa e no estilo do corte dos cabelos da outra apenas uma mulher apenas de um determinado jeito, mesmo mudo, sem qualquer afetação? pode acender os sóis das galáxias todas ao mesmo tempo. e apenas sem mover um dedo. pode apenas fazer tantas coisas ao mesmo tempo, apenas sentada num balcão de um café e era maio. ou num assento de metrô entre as estações clínicas e paraíso durante, durante, ao fim da noite. ou numa ponte sobre um remoto rio - com nome de coisa gasta, puída - nos cafundós de county durham durante o inverno? como é ser apenas uma mulher e parir apenas toda a humanidade? como é apenas esconder-se quando o Todo-Poderoso passeia no Éden, depois de se haver conversado com a serpente e comido do fruto? e quando se é tomada como assunto, equivocamente, em livros como misoginia medieval, o que é apenas ser uma mulher? como é soltar os cabelos só para o marido e o amante quando se era apenas uma mulher? e, mensalmente, como o fluxo de sangue vertendo-se vulva afora como maré de lua sendo-se apenas uma mulher? e, como sendo apenas uma mulher - e tão belamente - não se diminui, murcha ou eclipsa sob um véu? mas que eu andei debaixo da chuva e meio fodido, comendo pouco e contando trocados, apenas não deixe que eles saibam, quando você, por acaso, me apresentar como um amigo.



«Just Like a Woman», Dylan, performed by Jeff Buckley:

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domingo, 10 de outubro de 2010

Para algum mau humor sem bile -- ou desatando o nó de certas bravatas

Ellsworth Kelly, Diagonal with Curve IX, 1979




Rebarbativo

só creio em escritores no exílio, ainda que vivam a vida toda na mesma cidade. não creio em escritores que passam manifesto fácil. os escritores que não se referem à infância têm chances maiores de mentir – inclusive quando falam de mulheres. o incondicional amor das mães faz com que a relação com a figura do pai seja bem mais tensa. não sei como isso se dá com escritoras. e, no entanto, algumas escrevem magnificamente a respeito. e de um modo que se pode sentir. e traduzir. quanto à importância que certos escritores se auto-dão, talvez possa responder com um poeminha infame:

acho uns chatos
de galocha
os que passam
manifesto
por pouca bosta


dos prosadores contemporâneos aprecio kundera e jean-marie gustave le clézio. há também o norte-americano david foster wallace, que entrete mais nos ensaios que na própria ficção, se é que se pode demarcar, aqui. de momento, sem sombra de dúvida, le clézio – especialmente aquele a partir da década de 70, menos experimentalista, mais «careta», menos alabado por foucaults ou deleuzes – é um escritor bastante instigante de se ler. por sua via, bom para a américa latina que llosa haja ganho o nobel. por três razões estritamente literárias e uma política. porque, num certo sentido e exceção feita a Cortázar, ele é mais urbano, menos «realismo fantástico» e 'tonterías barrocas' que a maioria de seus pares do propalado boom. depois, porque um de seus melhores livros, a guerra do fim do mundo, baseia-se em um escritor muito maior que ele: euclydes da cunha. por trinca, existe o fato de haver escrito uma boa novela de humor, tia julia e o escrevinhador – quando é quase sempre difícil não cansar o leitor com a piada. há uns trinta anos atrás li conversa na catedral com grande entusiasmo. naturalmente ignorante do fato de que aqueles diálogos polifônicos ser técnica antiga, já empregada de há muito. talvez, então, fosse melhor leitor (no sentido sinestésico, que também é um sentido moral) do que llosa é escritor. a razão política – e que, portanto, conta menos: ao contrário de marquez, llosa não priva da amizade de ditadores como castro ou chávez. já é alguma coisa. embora tenha se lançado numa quixotesca candidatura à presidência do peru em 1990,  e sua compreensão da relação entre a cultura ocidental e as culturas dos povos andinos pareça ser equívoca.


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