quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Eles esmolam ainda, Francisco: Celan

Rodolfo Abularach, 1966





Assisi

Umbrische Nacht.
Umbrische Nacht mit dem Silber von Glocke und Ölblatt.
Umbrische Nacht mit dem Stein, den du hertrugst.
Umbrische Nacht mit dem Stein.

Stumm, was ins Leben stieg, stumm.
Füll die Krüge um.

Irdener Krug.
Irdener Krug, dran die Töpferhand festwuchs.
Irdener Krug, den die Hand eines Schattens für immer verschloss.
Irdener Krug mit dem Siegel des Schattens.

Stein, wo du hinsiehst, Stein.
Lass das Grautier ein.

Trottendes Tier.
Trottendes Tier im Schnee, den die nackteste Hand streut.
Trottendes Tier vor dem Wort, das ins Schloss fiel.
Trottendes Tier, das den Schlaf aus der Hand frisst.

Glanz, der nicht trösten will, Glanz.
Die Toten - sie betteln noch, Franz.

Paul Celan


Assisi

Umbra noite.
Umbra noite com prata de sino de igreja e ramo de oliva.
Umbra noite com a pedra, que aqui carregaste.
Umbra noite com a pedra.

Tosco, o que aflora até vida, tosco.
Reenche os cântaros, vem.

De argila o cântaro.
De argila o cântaro em que as mãos do oleiro sobrefixaram-se.
De argila o cântaro em que mãos uma sombra para sempre encerram.
De argila o cântaro com o selo da sombra.

Pedra, para onde quer que olhes, pedra.
Deixa o asno entrar.

Trotante besta.
Trotante besta na neve, que a mão mais nua espalha.
Trotante besta antes da palavra, que a tranca veda.
Trotante besta, que cai no sono da mão que lhe dá de comer.

Corisco, não confortarás à sombra, corisco.
Os mortos—eles ainda esmolam, Francisco.


* * *

Quase não ouvidos: McCrae

Ann Craven, A Small Poppy, 2000








'In Flanders fields'

In Flanders fields the poppies grow
Between the crosses, row on row,
That mark our place, and in the sky,
The larks, still bravely singing, fly,
Scarce heard amid the guns below.
We are the dead; short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders fields.
Take up our quarrel with the foe!
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high!
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

John McCrae



'Nos campos de Flandres'

Nos campos de Flandres a papoula oscila
Entre as cruzes e cruzes em fila
Que marcam nossos lugares e na amplidão
Tordos, ainda em canto, voam,
Quase não ouvidos entre as armas em ação.
Nós somos os mortos; na semana anterior
Vivíamos a manhã, víamos o sol se por
Amávamos, eramos amados, e agora deitados
Nos campos de Flandres.
Assuma nossa rixa com o inimigo!
Às tuas trêmulas mãos passamos
a tocha; que a ergas bem acima dos ramos!
Se por acaso traíres a nós, já no além
Não dormiremos bem, mas papoulas crescem
Nos campos de Flandres.




Nota 1
Este rondeau [Bandeira grafaria rondó] do canadense John McCrae faz referência á profusão de soldados ingleses & aliados e seus inimigos alemães mortos na Bélgica ainda na Primeira Guerra Mundial. Em particular na Batalha de Ypres. Aliás, pode-se ter a impressão que Bandeira traduziria este poema. McCrae era médico. E um exemplo típico daqueles poetas que ficam conhecidos apenas por um poema. No caso, precisamente este. E a tradição da poesia em um idioma também precisa de poetas assim.







NOTA 2
In 1855 Lord Macaulay, writing about the site of the Battle of Landen (in modern Belgium, not far from Ypres) in 1693, wrote "The next summer the soil, fertilised by twenty thousand corpses, broke forth into millions of poppies. The traveller who, on the road from Saint Tron to Tirlemont, saw that vast sheet of rich scarlet spreading from Landen to Neerwinden, could hardly help fancying that the figurative prediction of the Hebrew prophet was literally accomplished, that the earth was disclosing her blood, and refusing to cover the slain."

Em 1855, Lord Macaulay, escrevendo sobre o cenário da Batalha de Landen (na moderna Bélgica, não tão distante de Ypres, [o campo flamengo descrito por McCrae no poema – e, aliás, onde o próprio poeta está sepultado]) travada em 1693, disse: “No verão seguinte o solo, fertilizado por vinte mil cadáveres, aflorou em milhões de papoulas. O viajante que, seguindo de Saint Tron a Tirlemont, visse esse vasto lençol de rico escarlate estendendo-se de Landen a Neerwinden, dificilmente poderia imaginar que a predição da imagem do profeta hebreu fora literalmente cumprida, que a terra estava revelando seu sangue, e recusando-se a cobrir o morticínio”.
[Trecho do verbete sobre John McCrae na Wikipédia (versão em inglês)]


* * *

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

753.457

Herbert Bayer, Capa do Nº4 da revista Bauhaus, 1929




Duas Mitologias Acidentais em Torno de Números
-do Tuíter, da prega que se pode pôr na vida a fim de ganhar tempo e do Dr. Gladwell


I.

Aquelas frases Belém-Brasília sendo postas nos contagoteados 140 caracteres

Quando ainda no Tuíter, uma escritora aqui de Fortaleza me perguntou por DM o que se deve fazer para escrever bem. Isso no Tuíter, com 140 caracteres para responder. É claro que acabei mudando o rumo da prosa. Até porque gosto do que ela publica.

É por essas e outras que saí das redes sociais. Embora nada tenha contra quem acha um bom negócio. O ser humano é capaz de ser criativo em qualquer ambiente. Mesmo no inferno megamétrico dessas redes. E, como diz Aldous Huxley, “sequer por um momento acreditei que criatividade tem qualquer coisa a ver com neurose”.

Reparem como é bonita a afirmação de Huxley. É uma “afirmação”. Algo que busca nos deixar mais seguros, firmes ao pisar o mundo. Sentir que há um solo para ser pisado. Tomemos Bach, por exemplo. Ele não parece ter sido assim tão neurótico.

Um dia ainda penso em escrever um livro. Em parte estética. Em Parte auto-ajuda. Em parte para ser posto no Tuíter. (Vocês já imaginaram, por exemplo, Proust publicando a Recherche no Tuíter? Ou Kerouac publicando Big Sur? Aquelas frases Belém-Brasília estendendo-se por tuítos e tuítos. Seria uma maravilha).

Ah, mas ia esquecendo o título do meu livro: Como escrever bem em 753.457 lições.

II.

Según los cálculos del sociólogo Malcolm Gladwell

Há coisas copiosamente engraçadas que as pessoas dizem com grande seriedade. Essas são as que realmente tiram riso. Muito mais do que as revistas de humor. Por exemplo, há esta frase no Babelia, suplemento literário de El País, esta semana:

Como cualquier proyecto de altos vuelos, la creación artística requiere dedicación absoluta. En términos cuantitativos, un mínimo de 10.000 horas de prácticas, según los cálculos del sociólogo Malcolm Gladwell (Fueras de serie, Taurus).


Isto é (involuntariamente) tão bom em termos de humor - sendo a comédia em essência algo que põe abaixo, que demole - que até parece tirado de uma página de Borges.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

A moda, esse universo estranho, fascinante, grotesco

Jacques-Henri Latigue, L'Avenue des Acacias, 1911





*   *   *

Sobre eles, dentre eles, como se não houvesse ninguém

[s/i/c]




'Eles surgiram como se de um sonho'
-extrato do romance Désert [Deserto], de J.M.G. Le Clézio


Saguiet el Hamra, hiver 1909 – 1910

Ils sont apparus, comme dans un rêve, au sommet de la dune, à demi cachés par la brume de sable que leurs pieds soulevaient. Lentement ils sont descendus dans la vallée, en suivant la piste presque invisible. En tête de la caravane, il y avait les hommes, enveloppés dans leurs manteaux de laine, leurs visages masqués par le voile bleu. Avec eux marchaient deux ou trois dromadaires, puis les chèvres et les moutons harcelés par les jeunes garçons. Les femmes fermaient la marche. C’étaient des silhouettes alourdies, encombrées par les lourds manteaux, et la peau de leurs bras et de leurs fronts semblait encore plus sombre dans les voiles d’indigo.

Ils marchaient sans bruit dans le sable, lentement, sans regarder où ils allaient. Le vent soufflait continûment, le vent du désert, chaud le jour, froid la nuit. Le sable fuyait autour d’eux, entre les pattes des chameaux, fouettait le visage des femmes qui rabattaient la toile bleue sur leurs yeux. Les jeunes enfants couraient, les bébés pleuraient, enroulés dans la toile bleue sur le dos de leur mère. Les chameaux grommelaient, éternuaient. Personne ne savait où on allait.

Le soleil était encore haut dans le ciel nu, le vent emportait les bruits et les odeurs. La sueur coulait lentement sur le visage des voyageurs, et leur peau sombre avait pris le reflet de l’indigo, sur leurs joues, sur leurs bras, le long de leurs jambes. Les tatouages bleus sur le front des femmes brillaient comme des scarabées. Les yeux noirs, pareils à des gouttes de métal, regardaient à peine l’étendue de sable, cherchaient la trace de la piste entre les vagues des dunes.

Il n’y avait rien d’autre sur la terre, rien, ni personne. Ils étaient nés du désert, aucun autre chemin ne pouvait les conduire. Ils ne disaient rien. Ils ne voulaient rien. Le vent passait sur eux, à travers eux, comme s’il n’y avait personne sur les dunes. Ils marchaient depuis la première aube, sans s’arrêter, la fatigue et la soif les enveloppaient comme une gangue. La sécheresse avait durci leurs lèvres et leur langue. La faim les rongeait. Ils n’auraient pas pu parler. Ils étaient devenus, depuis si longtemps, muets comme le désert, pleins de lumière quand le soleil brûle au centre du ciel vide, et glacés de la nuit aux étoiles figées.

Ils continuaient à descendre lentement la pente vers le fond de la vallée, en zigzaguant quand le sable s’éboulait sous leurs pieds. Les hommes choisissaient sans regarder l’endroit où leurs pieds allaient se poser. C’était comme s’ils cheminaient sur des traces invisibles qui les conduisaient vers l’autre bout de la solitude, vers la nuit. Un seul d’entre eux portait un fusil, une carabine à pierre au long canon de bronze noirci. Il la portait sur sa poitrine, serrée entre ses deux bras, le canon dirigé vers le haut comme la hampe d’un drapeau. Ses frères marchaient à côté de lui, enveloppés dans leurs manteaux, un peu courbés en avant sous le poids de leurs fardeaux. Sous leurs manteaux, leurs habits bleus étaient en lambeaux, déchirés par les épines, usés par le sable. Derrière le troupeau exténué, Nour, le fils de l’homme au fusil, marchait devant sa mère et ses sœurs. Son visage était sombre, noirci par le soleil, mais ses yeux brillaient, et la lumière de son regard était presque surnaturelle.

Ils étaient les hommes et les femmes du sable, du vent, de la lumière, de la nuit. Ils étaient apparus, comme dans un rêve, en haut d’une dune, comme s’ils étaient nés du ciel sans nuages, et qu’ils avaient dans leurs membres la dureté de l’espace. Ils portaient avec eux la faim, la soif qui fait saigner les lèvres, le silence dur où luit le soleil, les nuits froides, les lueurs de la Voie lactée, la lune ; ils avaient avec eux leur ombre géante au coucher du soleil, les vagues de sable vierge que leurs orteils écartés touchaient, l’horizon inaccessible. Ils avaient surtout la lumière de leur regard, qui brillait si clairement dans la sclérotique de leurs yeux.

Jean-Marie Gustave Le Clézio




Saguiet al-Hamra, inverno 1909-1910

Eles surgiram como se de um sonho, no cimo da duna, meio envoltos pela bruma de areia que seus pés soerguiam. Lentamente seguiam descendo para o vale, no rastro da trilha quase invisível. Adiante da caravana havia os homens, envoltos em suas túnicas de lã, os semblantes mascarados pelo véu azul. Junto a si trotavam dois ou três dromedários, depois as cabras e as ovelhas tangidas pelos meninos. As mulheres sobrevinham na retaguarda. Eram silhuetas avultadas, encobertas pelos pesados mantos, e a pele de seus braços e testas assomava ainda mais sombria sob o índigo dos véus.

Caminhavam sem ruído sobre a areia, sem perscrutar para onde seguiam. O vento soprava continuamente, o vento do deserto, quente durante o dia; frio, à noite. A areia redemunhava em torno deles, entre as patas dos camelos, açoitando o rosto das mulheres que aprumavam os véus azuis sobre os olhos. Os garotinhos corriam, os bebês choravam, envoltos em trapos azuis no dorso de suas mães. Os camelos triniam, nitriam. Ninguém sabia para onde eles seguiam.

O sol já ia alto no céu nu, o vento arrastava os ruídos e os odores. O suor grudava-se lentamente sobre o rosto dos viajantes. E suas peles escuras haviam captado o reflexo do índigo, sobre as bochechas, sobre os braços, ao longo das pernas. As tatuagens azuis na testa das mulheres rebrilhavam como escaravelhos. Os olhos negros como fossem gotas de cobre, mal apercebendo a imensidão da areia, buscando o traço da trilha entre as vagas das dunas.

Não havia mais ninguém sobre a terra, ninguém, avulso que fosse. Eles nasceram do deserto, nenhum outro caminho lhes poderia conduzir. Eles nada proferiam. Nada queriam. O vento passava sobre eles, dentre eles, como se não houvesse ninguém sobre as dunas. Eles caminhavam após o romper da aurora, sem se deter, a fadiga e a sede os envolvia como uma redoma. A secura havia enrijecido seus lábios e suas línguas. A fome os roía. Eles não iriam mais falar. Tinham se tornado, depois de tão longo tempo, mudos como o deserto, plenos de luz como quando o sol brilha no centro do céu ermo, enregelados pela noite de estrelas em coágulo.

Eles continuavam a descer lentamente a encosta até a cava do vale, ziguezagueando quando a areia afrouxava-se sob seus pés. Os homens escolhendo sem olhar o solo em que os pés iriam pousar. Era como se caminhassem sobre o traço invisível que os conduziam à outra extremidade da solidão, à noite. Um só dentre eles portava um fuzil, uma carabina de gatilho com um longo barril de cobre enegrecido. Ele a trazia sobre o peito, encerrada entre seus braços, o cano apontado para o alto como o mastro de uma bandeira. Seus irmãos caminhavam a seu lado, envoltos em suas túnicas, um pouco vergados para frente sob o peso dos fardos. Sobre as túnicas o traje azul aos trapos, esfarrapado pelos espinhos, gasto pela areia. Atrás da tropa extenuada, Nour, o filho do homem do fuzil, caminhava à frente de sua mãe e de suas irmãs. Seu rosto estava fosco, enegrecido pelo sol, mas seus olhos brilhavam, e a luz de seu olhar era como que sobrenatural.

Eram homens e mulheres da areia, do vento, da luz, da noite. Eles tinham aparecido como se de um sonho, no cimo de uma duna, como se tivessem nascido de um céu sem nuvens, e carregassem em seus membros a aspereza do espaço. Eles levavam consigo a fome, a sede que faz sangrar os lábios, o silêncio silexeado de sol, as noites frias, o resplendor da Via Láctea, a lua; traziam consigo a enorme sombra após o sol se pôr, as ondas de areias virgens, que seus artelhos extenuados tocavam, o horizonte inacessível. Eles tinham sobretudo a luz de suas visões que brilhavam tão claramente na esclerótica dos olhos.


* * *

Beleza só se tem quando se acende a lamparina

[s/i/c]




Derivando duas assertivas de J.M.G. Le Clézio


J’ai toujours pensé que la littérature devait servir non pas à décrire mais à comprendre ce qu’on voyait, à entrer en soi ce qu’on voyait. Un peu comme on entre aujourd’hui des informations dans un ordinateur en les scannant. L’oeil permet de faire entrer cette information, et le dessin était pour moi un des moyens me permettant de comprendre ce que je voyais, c’est-à-dire de séparer ce que je jugeais essentiel de ce qui ne l’était pas. Dans un visage, dans une scène de rue, pour un plan de ville, un plan de rue, un plan de maison, ou bien simplement le déroulement d’une action, afin de la mettre sur le papier, afin de la voir évoluer.

[J. M. G. Le Clézio, entrevista à Le Magazine Littéraire. Para a entrevista na íntegra (em francês) AQUI]

Sempre pensei que a literatura devia servir não para descrever mas para compreender o que vemos, para adentrar propriamente no que vemos. Um pouco como adentramos nas informações em um computador hoje em dia escaneando-as. O olho propicia o adentramento nessa informação, e o desenho é para mim um dos meios que me permite compreender o que vejo; quer dizer, separar o que julgo essencial daquilo que não o é. Em um relance, em uma cena de rua, através do plano de uma cidade, o plano de uma rua, o plano de uma casa, ou mais simplesmente o desdobramento de uma ação, a fim de pô-la sobre o papel, a fim de vê-la evoluir.


Outro extrato interessante de Le Clézio – mas que não se encontra na sobrecitada entrevista – passa por aqui, quando ele nos fala das culturas ditas “primitivas”, com as quais conviveu, sobretudo entre indígenas mexicanos e nativos da Oceania:

Souvent très archaïques, à beaucoup d'égards, ces sociétés sont en même temps extrêmement juvéniles. Et possédant, en tout cas, une qualité que seule la jeunesse peut offrir: une certaine insouciance face aux aléas de la vie quotidienne. Manquer d'un peu de nourriture ou perdre quelque chose, un objet par exemple, n'est pas vécu comme un événement dramatique. Ce que je trouve terrifiant, c'est que la société moderne dans laquelle nous vivons en Occident s'enferre dans cette idée que perdre quelque chose est toujours tragique, que le tragique est incontournable, qu'on ne peut y échapper. Il faudrait aborder les aléas de la vie quotidienne avec plus d'insouciance, et accorder une attention plus grande, faire une place plus large a des préoccupations relevant de la beauté et de l'harmonie.
[in J.M.G. Le Clézio, biografia escrita por Gérard de Cortanze, p.79]

Frequentemente bastante arcaicas, em muitos aspectos, essas sociedades são ao mesmo tempo extremamente juvenis. E possuem, em todo caso, uma qualidade que só a juventude pode ofertar: uma certa despreocupação face aos riscos da vida quotidiana. Carecer de um pouco de nutrição ou perder algo, um objeto por exemplo, não é vivido como um evento dramático. É o que acho terrível, o fato de a sociedade moderna na qual vivemos no Ocidente se aferrar a esta ideia de que a perda de qualquer coisa é sempre trágica, que o trágico é incontornável, algo inescapável. Seria necessário abordar os riscos da vida quotidiana com mais despreocupação, e despertar uma maior atenção, abrir mais espaço às inquietações relevantes à beleza e à harmonia.

Sem dúvida, um ponto interessante na, digamos, estética de Le Clézio – e ele possui uma – é uma espécie de "elogio da escassez". Este aspecto é de suma importância para uma região que está se transfigurando de forma avassaladora. Sofrendo a mutação de uma sociedade artesanal, pré-industrial para uma sociedade de consumo, como o Nordeste do Brasil. Tem muito a ver com o que falamos, por exemplo, a respeito do shopping center por contraposição ao alpendre, como metáforas. E, aqui, sem saudosismos, nostalgias ou armorialismos. Mas sim com a necessidade de manter a chama viva das boas promessas históricas, que, de resto, meandram toda a sociedade e, portanto, sua arquitetura ou o uso e a forma de seus utensílios. Ou o utensílio e a forma de seus usos – parodiando Cabral.

Antes, muito antes de se falar em reciclagem, ou de os europeus desenharem o símbolo da reciclagem com três flechas em triângulo, já se fazia reciclagem em larga escala no Nordeste. Porque a escassez, a pobreza nos ensinou assim. Basta lembrar a beleza que eram as lamparinas feitas de latas de óleo de cozinha ou reaproveitando frascos de vidros de remédios. O que, de resto, resultava em objetos extremamente plásticos, úteis, funcionais. Hoje em dia quase não há mais nem uma coisa, nem outra, em termos puramente físicos – os recipientes de óleo de cozinha são de plástico, os remédios raramente vêm em grandes frascos de vidro e quase mais ninguém usa lamparinas a querosene.

Porém o desastre maior é que não as haja em termos de mentalidade real. Apesar de, paradoxalmente, tanto se falar em reciclagem desde fora.


Da minha parte, gostaria de, na medida do possível, aproximar a escrita ao modo como se confeccionavam essas antigas lamparinas: incorporando e reaproveitando materiais dentro de uma simetria e de uma forma únicas, ao mesmo tempo que coletivas e extremamente funcionais. Provindas de um pensamento autóctone, a partir de uma lição da escassez. Porque estou convencido de que a autonomia e a originalidade que essas formas indicam nada tem a ver com nostalgia ou saudade. Elas apontam para uma expressão. Para uma linguagem no melhor sentido da palavra. A que agrega a destreza, a mestria  autônomas de um povo, que só a memória pode vivificar, indicando novos caminhos a partir.


* * *

Há, por certo, nesta forma de pensar, uma solaridade e uma solidariedade não encontrável na maioria dos intelectuais europeus contemporâneos. Inclusive – e até mesmo – entre antropólogos ou missionários religiosos. Entre os primeiros há quase que um excesso, uma hiperinflação de conceitos sem lastro real. Nos segundos, com frequência, há muita condescendência em relação aos ritos locais. E essa é a generosidade de Le Clézio, uma abertura para outras culturas não ortodoxamente "ocidentais". Porém uma abertura não complacente, uma vez que ele próprio não se cansa de reiterar que essas sociedades ditas "primitivas" também tem lá sua boa carga de problemas. Aqui, não se trata de mitos de bons selvagens, portanto. Ele defende, por exemplo, que um país como o Brasil lance mão de seus recursos naturais para safar-se à pobreza. E não cansa de ridicularizar a faceta mais obtusa  e mesmo autoritária do ecologismo que grassa à reboque do "politicamente correto". Uma anedota resume isto. O contexto é o de ele estar num colóquio ao lado de um escritor de Mali, que então recebia uma premiação:


"Il y a une grande hypocrisie dans l'écologie très autoritaire telle qu'elle est pratiquée aujourd'hui. Après avoir pillé la planète, les pays occidentaux voudraient empêcher les autres pays d'accéder au développement, d'utiliser leurs matières premières. On ne peut pas interdire à un pays comme le Brésil d'avoir recours à tous les moyens pour sortir de la pauvreté. J'étais au côté de l'écrivain malien Amadou Hampâté Bâ,  un jour qu'il recevait un prix littéraire. Une dame est venue vers ce grand gaillard, très africain d'aspect, et lui a demandé : « Qu'est-ce que vous comptez faire pour sauver les éléphants ?». Il lui a répondu : « Madame, les éléphants sont de sales bêtes qui piétinent nos plantations ». La dame a été très choquée..."

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

And she aches just like a woman/ But she breaks just like a little girl

Cindy van den Bremen, Sports Headgear for Muslim Women, 1999



apenas uma mulher


o que é ser apenas como uma mulher? como é possível ser apenas como uma mulher? de que jeito se caminha na rua sendo apenas como uma mulher? e se todas as frases do mundo tivessem por sujeito «apenas como uma mulher»? por que apenas uma mulher pode beijar de um jeito que apenas uma mulher beija? pode gemer de um jeito que apenas uma mulher geme? ou despir-se do modo como apenas uma mulher revela a paisagem? e, por isso, chega a ser sacrílego que um homem queira a outro homem jactar-se da paisagem nua que é apenas uma mulher -- como candaules a giges? por que apenas uma mulher pode reparar na roupa e no estilo do corte dos cabelos da outra apenas uma mulher apenas de um determinado jeito, mesmo mudo, sem qualquer afetação? pode acender os sóis das galáxias todas ao mesmo tempo. e apenas sem mover um dedo. pode apenas fazer tantas coisas ao mesmo tempo, apenas sentada num balcão de um café e era maio. ou num assento de metrô entre as estações clínicas e paraíso durante, durante, ao fim da noite. ou numa ponte sobre um remoto rio - com nome de coisa gasta, puída - nos cafundós de county durham durante o inverno? como é ser apenas uma mulher e parir apenas toda a humanidade? como é apenas esconder-se quando o Todo-Poderoso passeia no Éden, depois de se haver conversado com a serpente e comido do fruto? e quando se é tomada como assunto, equivocamente, em livros como misoginia medieval, o que é apenas ser uma mulher? como é soltar os cabelos só para o marido e o amante quando se era apenas uma mulher? e, mensalmente, como o fluxo de sangue vertendo-se vulva afora como maré de lua sendo-se apenas uma mulher? e, como sendo apenas uma mulher - e tão belamente - não se diminui, murcha ou eclipsa sob um véu? mas que eu andei debaixo da chuva e meio fodido, comendo pouco e contando trocados, apenas não deixe que eles saibam, quando você, por acaso, me apresentar como um amigo.



«Just Like a Woman», Dylan, performed by Jeff Buckley:

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domingo, 10 de outubro de 2010

Para algum mau humor sem bile -- ou desatando o nó de certas bravatas

Ellsworth Kelly, Diagonal with Curve IX, 1979




Rebarbativo

só creio em escritores no exílio, ainda que vivam a vida toda na mesma cidade. não creio em escritores que passam manifesto fácil. os escritores que não se referem à infância têm chances maiores de mentir – inclusive quando falam de mulheres. o incondicional amor das mães faz com que a relação com a figura do pai seja bem mais tensa. não sei como isso se dá com escritoras. e, no entanto, algumas escrevem magnificamente a respeito. e de um modo que se pode sentir. e traduzir. quanto à importância que certos escritores se auto-dão, talvez possa responder com um poeminha infame:

acho uns chatos
de galocha
os que passam
manifesto
por pouca bosta


dos prosadores contemporâneos aprecio kundera e jean-marie gustave le clézio. há também o norte-americano david foster wallace, que entrete mais nos ensaios que na própria ficção, se é que se pode demarcar, aqui. de momento, sem sombra de dúvida, le clézio – especialmente aquele a partir da década de 70, menos experimentalista, mais «careta», menos alabado por foucaults ou deleuzes – é um escritor bastante instigante de se ler. por sua via, bom para a américa latina que llosa haja ganho o nobel. por três razões estritamente literárias e uma política. porque, num certo sentido e exceção feita a Cortázar, ele é mais urbano, menos «realismo fantástico» e 'tonterías barrocas' que a maioria de seus pares do propalado boom. depois, porque um de seus melhores livros, a guerra do fim do mundo, baseia-se em um escritor muito maior que ele: euclydes da cunha. por trinca, existe o fato de haver escrito uma boa novela de humor, tia julia e o escrevinhador – quando é quase sempre difícil não cansar o leitor com a piada. há uns trinta anos atrás li conversa na catedral com grande entusiasmo. naturalmente ignorante do fato de que aqueles diálogos polifônicos ser técnica antiga, já empregada de há muito. talvez, então, fosse melhor leitor (no sentido sinestésico, que também é um sentido moral) do que llosa é escritor. a razão política – e que, portanto, conta menos: ao contrário de marquez, llosa não priva da amizade de ditadores como castro ou chávez. já é alguma coisa. embora tenha se lançado numa quixotesca candidatura à presidência do peru em 1990,  e sua compreensão da relação entre a cultura ocidental e as culturas dos povos andinos pareça ser equívoca.


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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Escute esta canção ou...

Uma típica paisagem nordestina: a orla de Fortaleza ao crepúsculo


Paisagem típica do Sudeste, boias-frias em Pradópolis, São Paulo


Dia do Nordestino

Uma bobagem sem tamanho que exista um “Dia do Nordestino”. Mas não admira. Hoje em dia se inventou um dia para quase qualquer bobagem.


Aliás, espero que, mais lá adiante, crie-se o "Dia do Sudestino". Por que não?



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Aliás, um risco: Estadão, Kehl, etc.

Sarah Morris, 2005




Um caso c(l)ínico?
-Da querela em torno de O Estado de São Paulo e da psicanalista Maria Rita Kehl


Em fevereiro deste ano, Maria Rita Kehl foi contratada pelo Estado de São Paulo para alternar-se – semana sim, semana não – com o escritor Marcelo Rubens Paiva na redação de uma coluna. A proposta era a de, num caderno essencialmente dirigido a um público jovem, ela tratar de psicanálise. E tratar de uma forma “leve”. Afinal, esses cadernos, verdadeiros catálogos de pré consumo, proliferam jornais afora por este país. E não seria de todo improvável que seus leitores já tivessem ou eventualmente pudessem ter alguma necessidade da terapia psicanalítica, vivendo numa cidadezinha qualquer chamada São Paulo. Num estadozinho qualquer do mesmo nome, onde mesmo no interior o consumo de drogas pesadas faz mais sucesso que os romances de Paulo Coelho, os hits de Lady Gaga, a transmissão de Flamengo X Corinthians e a novela das oito combinados. Acontece que o Estadão é um jornal, além de tradicionalíssimo, com históricas propensões conservadoras – o que não é de todo mau num país em que todos querem ser pós pós modernos, como a Folha. E parece ser quase uma tradição no Ocidente essa de bons jornais: bem escritos, bem diagramados, contando com uma plêiade de excelentes colaboradores, porém um tanto conservadores – como o The Times inglês ou o argentino La Nación. O Estadão, de resto, foi um dos poucos jornais brasileiros – pessoalmente desconheço outro – a se declarar abertamente, em edital, a favor de um dos candidatos: José Serra. É um direito que o jornal, como veículo de opinião, possui. E, aliás, um risco. Inclusivo de marketing, de vendas. Ora, quase todos os jornais apoiam um candidato, ou ao menos tentam barganhar a maior vantagem possível nesse jogo de apoio ou ataque – apenas de forma mais velada. O que o Estadão propôs, em edital, não constitui, portanto, nenhum crime. Embora se possa – e até se deva – eventualmente discordar dele. O resto da história, é já bem conhecida: a professora universitária e psicanalista Maria Rita Kehl escreveu um artigo, às vésperas da eleição, que nada tem a ver com psicanálise; porém com eleição. E, mais, nesse artigo vai de encontro ao candidato apoiado publicamente pelo Estadão. E o Estadão – créu! – demitiu Maria Rita.


Alguém vê qualquer problema maior nisso? Ao que parece, quem mais saiu ganhando com toda celeuma foi a própria Maria Rita Kehl, guindada à condição de celebridade, de assunto dos mais discutidos no país esta semana por conta do caso. Coisa que não havia acontecido nos meses e meses em que ela passou à sombra, tão só falando de psicanálise para seu “público juvenil”. Notem que, se em outro fórum - digamos, numa sala de aula ou numa conferência - Maria Rita Kehl tivesse manifestado suas preferências políticas, estaria no seu direito. Como você no seu ou eu no meu. Mas numa coluna em que passou meses e meses falando de psicanálise...

Recentemente um famoso jornalista da CNN foi dispensado da rede por fazer um comentário supostamente agressivo ao estado de Israel. Ao que parece, ele elogiou a declaração de um líder palestino que lhe pareceu ponderada. Sendo o ponto de vista da CNN, ao olho do bom espectador, intensamente pró Israel, não constitui um caso um tanto semelhante?

Ou, para todos os efeitos, bem pior que o do Estadão?




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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Argumento desalinhado

Pininfarina, Cisitalia 202 GT, 1946




Debaixo de toda vida contemporânea se encontra latente uma injustiça

A gente pode começar da seguinte forma: por que se escuta umas poucas notas de trompete e logo sabe que é Miles Davis? Por que se vê uma reles combinação de linhas sobre um papel e, de imediato, nelas se reconhece Picasso?

Mas também se pode começar de uma outra forma: por que se lê tanto Heidegger e tão pouco Ortega y Gasset?

E aí a gente pode começar a responder pela segunda questão: porque a cultura latina, que um dia já foi a mais rica e poderosa da Europa - com os trovadores da Provença; com a Itália da Renascença; com a compósita Espanha de católicos, mouros e judeus; com o Portugal dos Descobrimentos - depois de ser ultrapassada em poderio econômico pela Holanda, a Inglaterra e a Alemanha, aqueles dantes atrasados bárbaros do norte, jamais recuperou-se desse baque. E até hoje nutre algo parecido com o que Nelson Rodrigues chama, ao tratar do futebol, em suas deliciosas crônicas, de “complexo de vira lata” – assim, sem hífen, porque a nova reforma ortográfica proibiu o hífen, né? [E fico meio em dúvida se o hífen foi proibido apenas para escritores profissionais e, logo, pode ser usado por escritores vira-latas. Na dúvida, melhor usar as duas formas.]

Mas também por razões políticas se lê – o acertado seria dizer que se fala – mais de Heidegger que de Ortega y Gasset. E por razões equívocas, uma vez que Ortega y Gasset, acusado injustamente de absenteísmo, durante seu exílio argentino, apesar de por vezes flertar com regimes autoritários, ao menos mostrou-se reativo a eles em realidade e durante algum tempo, ao contrário de Heidegger que não só vestiu uniforme nazista para não perder seus privilégios de reitor na Universidade de Freiburg, como jamais retratou-se em público. Isso apesar de, no pós guerra, haver sido amigo do poeta judeu Paul Celan, ironicamente o que talvez melhor traduziu a catástrofe judia e o inferno dos Lager, onde seus próprios pais foram exterminados.

Tudo isso, enfim, apenas comprova o quanto somos mais severos com nossos pensadores e artistas quanto às suas opções ou aos seus equívocos políticos. Sim, porque os americanos perdoaram Pound, que, depois de anos preso num manicômio judiciário (foi a forma que os amigos acharam de evitar que fosse para um presídio comum), desembarcou na Itália fazendo a saudação fascista. Algumas pessoas são irremediavelmente altivas.

Porém, por igual, o quanto certas ênfases nos traem. O principal especialista em Heidegger, no Brasil, Benedito Nunes, é – e com justiça – uma espécie de sumidade acadêmica. Os epígonos de Ortega y Gasset, que talvez tenha um pensamento até mais amoldável às realidades brasileiras por todo uma contiguidade cultural, no entanto, nem tanto.

Mas voltemos à primeira questão, afinal se tem sempre de voltar a alguma coisa: reconhecemos Miles por algumas poucas notas e Picasso por alguns ínfimos traços porque eles são artistas de um excepcional talento. Neles o estilo – ou seja a assinatura de suas vontades – é tão potente que imediatamente os traduz e revela.

Mas o ponto ainda não é este. O ponto é que, via pós estruturalismo francês e outras ficções acadêmicas, criou-se a ilusão de que somos todos artistas. O que não é verdade, embora a internet tenha contribuído um bocado para tanto.

Vamos por partes.

Em parte, os efeitos da internet não são de todo maus. Por exemplo, parece que nunca se escreveu tanto. E a coisa do imeio é algo que abriu a epistolografia a todos. E, ah, essa arte de escrever cartas, como nunca dantes trocadas, etc! É certo que há uma galáxia de lixo nessa epistolografia por imeio, ou no que se publica em blogues, nas redes sociais, no Twitter, enfim, na internet em geral. E que essa galáxia é incomensuravelmente mais vasta que o pequenino grão de areia de sistema solar que vale a pena ser lido no meio e nos imeios de todo esse emaranhadíssimo universo. Mas, em certos casos, do número também sai qualidade. E é bom que haja essas facilidades, como o imeio ou os MSN's & Gtalk's da vida. Ainda com todas suas abreviações, códigos e bonequinhos sorridentes ou não. De óculos escuros ou fazendo caras e bocas. E a invasão de termos em inglês, provindos do jargão TI.

Porém – é sempre bom pôr uma conjunção adversativa num arrazoado – outro problema aqui surgiu. (Bem reconheço que a frase anterior não é das mais elegantes, mas, vá lá, quem a escreveu não é nenhum mestre da elipse, nenhum Baltasar Gracián). Vivemos numa era de sobrevalorização do estético. Em que TUDO que é estético está como que perdoado – como se a arte fosse uma religião e, então, prescindíssemos de padeiros, pedreiros, faxineiros, executivos, gerentes comerciais, torneiros mecânicos ou tratadores de elefantes. Ou seja, como se pudéssemos viver só de curadores, críticos, ensaístas, resenhistas, conferencistas, facilitadores, e professores de redação criativa.

Ah, a arte! A arte é uma beleza. Mas, a rigor, há situações que não podem ser dignamente encaradas por ela. Rá. Isto é lindo. E quem diz isso é um tal de George Oppen, que,depois de ferido, ao voltar todo enlameado do front, numa Alsácia ainda ocupada pelos nazistas, via os parisienses levar uma vida de saraus e até degustar acepipes à base de ersatz. Meio que fazendo de conta: guerra não havia. Meio como por aqui faziam os tais inocentes do Leblon, de quem nos fala Drummond em certo poema.

E, então, guerra não havia, sarau na vida. Agora, o pior é que havia, e a coisa era urgente. O buraco era mais embaixo. A questão, aqui: prioridades.

Ora, arte implica em estudo. Picasso dizia: “eu não procuro, acho”. Sim, sim, certo Pablo. Mas a essa altura ele já era Picasso. E não um Pablo qualquer. E até um Pablo que dizia isso depois de haver imitado todos os mestres antigos e comprovado, por “b” mais “a”, ser um excelente pintor figurativo. Daí ele podia passar para o “ismo” que bem entendesse, que iria sempre se dar bem. Porque nele o estudo casou com uma palavra pouco lembrada hoje em dia: talento. E isto bem se pode ver até em filme, como em Le Mystére Picasso, de Henri-Georges Clouzot. [Taí um filminho que vale a pena passar os olhos].

Talento parece ser certa inclinação natural para fazer algo. Por exemplo, alguns batem faltas melhor que outros. Por mais que outros treinem mais cobranças de faltas do que uns – que também as treinam um bocado.


Isto segue bem expresso por J.M.G. Le Clézio, quando nos diz que "oui, c'est vrai, j'aurais aimé être peintre. Mais c'est un domaine, tout comme celui de la musique, où le don est essentiel. Si vous ne l'avez pas, vous ne pouvez pas l'inventer" ["sim, é verdade, eu teria adorado ser pintor. Mas este é um domínio, semelhante ao da música, onde o o dom é essencial. Se você não o possui, não pode inventá-lo"].

Ao que parece, levar dança, música ou cinema às comunidades pobres, em si, não é lá grande coisa. Pois depende muito do modo. E, mesmo dependendo do modo, somente uns poucos, os que cobram falta melhor, realmente conseguirão fazer dessa ação social, via arte, um meio de vida. Convenhamos, no fundo, é assistencialismo. Embora sejam, de fato, louváveis algumas dessas experiências. Uma minoria delas. Quer dizer, o que deveria haver mesmo era uma escola básica forte: pública, gratuita de nível. Com professores que ganhassem pelo menos um quinto do que ganha um desembargador. E daí que o talento aflorasse. Viesse ele das comunidades ou dos bairros de classe média.

Afinal, ninguém é melhor do que o outro por ser mais pobre. Ou o outro é pior que ninguém por ser mais rico.

Tss! Tss!

Acho que Ortega y Gasset reprovaria esse estilo de expor o argumento.




P.S. - Ainda das injustiças do mundo: aos 47 anos sei que por mais que ainda trabalhe nesta vida, jamais terei dinheiro para comprar um Cisitalia 202 GT. E pensar que essa maravilha foi desenhada em 1946! #Partiu


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