terça-feira, 12 de outubro de 2010

Beleza só se tem quando se acende a lamparina

[s/i/c]




Derivando duas assertivas de J.M.G. Le Clézio


J’ai toujours pensé que la littérature devait servir non pas à décrire mais à comprendre ce qu’on voyait, à entrer en soi ce qu’on voyait. Un peu comme on entre aujourd’hui des informations dans un ordinateur en les scannant. L’oeil permet de faire entrer cette information, et le dessin était pour moi un des moyens me permettant de comprendre ce que je voyais, c’est-à-dire de séparer ce que je jugeais essentiel de ce qui ne l’était pas. Dans un visage, dans une scène de rue, pour un plan de ville, un plan de rue, un plan de maison, ou bien simplement le déroulement d’une action, afin de la mettre sur le papier, afin de la voir évoluer.

[J. M. G. Le Clézio, entrevista à Le Magazine Littéraire. Para a entrevista na íntegra (em francês) AQUI]

Sempre pensei que a literatura devia servir não para descrever mas para compreender o que vemos, para adentrar propriamente no que vemos. Um pouco como adentramos nas informações em um computador hoje em dia escaneando-as. O olho propicia o adentramento nessa informação, e o desenho é para mim um dos meios que me permite compreender o que vejo; quer dizer, separar o que julgo essencial daquilo que não o é. Em um relance, em uma cena de rua, através do plano de uma cidade, o plano de uma rua, o plano de uma casa, ou mais simplesmente o desdobramento de uma ação, a fim de pô-la sobre o papel, a fim de vê-la evoluir.


Outro extrato interessante de Le Clézio – mas que não se encontra na sobrecitada entrevista – passa por aqui, quando ele nos fala das culturas ditas “primitivas”, com as quais conviveu, sobretudo entre indígenas mexicanos e nativos da Oceania:

Souvent très archaïques, à beaucoup d'égards, ces sociétés sont en même temps extrêmement juvéniles. Et possédant, en tout cas, une qualité que seule la jeunesse peut offrir: une certaine insouciance face aux aléas de la vie quotidienne. Manquer d'un peu de nourriture ou perdre quelque chose, un objet par exemple, n'est pas vécu comme un événement dramatique. Ce que je trouve terrifiant, c'est que la société moderne dans laquelle nous vivons en Occident s'enferre dans cette idée que perdre quelque chose est toujours tragique, que le tragique est incontournable, qu'on ne peut y échapper. Il faudrait aborder les aléas de la vie quotidienne avec plus d'insouciance, et accorder une attention plus grande, faire une place plus large a des préoccupations relevant de la beauté et de l'harmonie.
[in J.M.G. Le Clézio, biografia escrita por Gérard de Cortanze, p.79]

Frequentemente bastante arcaicas, em muitos aspectos, essas sociedades são ao mesmo tempo extremamente juvenis. E possuem, em todo caso, uma qualidade que só a juventude pode ofertar: uma certa despreocupação face aos riscos da vida quotidiana. Carecer de um pouco de nutrição ou perder algo, um objeto por exemplo, não é vivido como um evento dramático. É o que acho terrível, o fato de a sociedade moderna na qual vivemos no Ocidente se aferrar a esta ideia de que a perda de qualquer coisa é sempre trágica, que o trágico é incontornável, algo inescapável. Seria necessário abordar os riscos da vida quotidiana com mais despreocupação, e despertar uma maior atenção, abrir mais espaço às inquietações relevantes à beleza e à harmonia.

Sem dúvida, um ponto interessante na, digamos, estética de Le Clézio – e ele possui uma – é uma espécie de "elogio da escassez". Este aspecto é de suma importância para uma região que está se transfigurando de forma avassaladora. Sofrendo a mutação de uma sociedade artesanal, pré-industrial para uma sociedade de consumo, como o Nordeste do Brasil. Tem muito a ver com o que falamos, por exemplo, a respeito do shopping center por contraposição ao alpendre, como metáforas. E, aqui, sem saudosismos, nostalgias ou armorialismos. Mas sim com a necessidade de manter a chama viva das boas promessas históricas, que, de resto, meandram toda a sociedade e, portanto, sua arquitetura ou o uso e a forma de seus utensílios. Ou o utensílio e a forma de seus usos – parodiando Cabral.

Antes, muito antes de se falar em reciclagem, ou de os europeus desenharem o símbolo da reciclagem com três flechas em triângulo, já se fazia reciclagem em larga escala no Nordeste. Porque a escassez, a pobreza nos ensinou assim. Basta lembrar a beleza que eram as lamparinas feitas de latas de óleo de cozinha ou reaproveitando frascos de vidros de remédios. O que, de resto, resultava em objetos extremamente plásticos, úteis, funcionais. Hoje em dia quase não há mais nem uma coisa, nem outra, em termos puramente físicos – os recipientes de óleo de cozinha são de plástico, os remédios raramente vêm em grandes frascos de vidro e quase mais ninguém usa lamparinas a querosene.

Porém o desastre maior é que não as haja em termos de mentalidade real. Apesar de, paradoxalmente, tanto se falar em reciclagem desde fora.


Da minha parte, gostaria de, na medida do possível, aproximar a escrita ao modo como se confeccionavam essas antigas lamparinas: incorporando e reaproveitando materiais dentro de uma simetria e de uma forma únicas, ao mesmo tempo que coletivas e extremamente funcionais. Provindas de um pensamento autóctone, a partir de uma lição da escassez. Porque estou convencido de que a autonomia e a originalidade que essas formas indicam nada tem a ver com nostalgia ou saudade. Elas apontam para uma expressão. Para uma linguagem no melhor sentido da palavra. A que agrega a destreza, a mestria  autônomas de um povo, que só a memória pode vivificar, indicando novos caminhos a partir.


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Há, por certo, nesta forma de pensar, uma solaridade e uma solidariedade não encontrável na maioria dos intelectuais europeus contemporâneos. Inclusive – e até mesmo – entre antropólogos ou missionários religiosos. Entre os primeiros há quase que um excesso, uma hiperinflação de conceitos sem lastro real. Nos segundos, com frequência, há muita condescendência em relação aos ritos locais. E essa é a generosidade de Le Clézio, uma abertura para outras culturas não ortodoxamente "ocidentais". Porém uma abertura não complacente, uma vez que ele próprio não se cansa de reiterar que essas sociedades ditas "primitivas" também tem lá sua boa carga de problemas. Aqui, não se trata de mitos de bons selvagens, portanto. Ele defende, por exemplo, que um país como o Brasil lance mão de seus recursos naturais para safar-se à pobreza. E não cansa de ridicularizar a faceta mais obtusa  e mesmo autoritária do ecologismo que grassa à reboque do "politicamente correto". Uma anedota resume isto. O contexto é o de ele estar num colóquio ao lado de um escritor de Mali, que então recebia uma premiação:


"Il y a une grande hypocrisie dans l'écologie très autoritaire telle qu'elle est pratiquée aujourd'hui. Après avoir pillé la planète, les pays occidentaux voudraient empêcher les autres pays d'accéder au développement, d'utiliser leurs matières premières. On ne peut pas interdire à un pays comme le Brésil d'avoir recours à tous les moyens pour sortir de la pauvreté. J'étais au côté de l'écrivain malien Amadou Hampâté Bâ,  un jour qu'il recevait un prix littéraire. Une dame est venue vers ce grand gaillard, très africain d'aspect, et lui a demandé : « Qu'est-ce que vous comptez faire pour sauver les éléphants ?». Il lui a répondu : « Madame, les éléphants sont de sales bêtes qui piétinent nos plantations ». La dame a été très choquée..."

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

And she aches just like a woman/ But she breaks just like a little girl

Cindy van den Bremen, Sports Headgear for Muslim Women, 1999



apenas uma mulher


o que é ser apenas como uma mulher? como é possível ser apenas como uma mulher? de que jeito se caminha na rua sendo apenas como uma mulher? e se todas as frases do mundo tivessem por sujeito «apenas como uma mulher»? por que apenas uma mulher pode beijar de um jeito que apenas uma mulher beija? pode gemer de um jeito que apenas uma mulher geme? ou despir-se do modo como apenas uma mulher revela a paisagem? e, por isso, chega a ser sacrílego que um homem queira a outro homem jactar-se da paisagem nua que é apenas uma mulher -- como candaules a giges? por que apenas uma mulher pode reparar na roupa e no estilo do corte dos cabelos da outra apenas uma mulher apenas de um determinado jeito, mesmo mudo, sem qualquer afetação? pode acender os sóis das galáxias todas ao mesmo tempo. e apenas sem mover um dedo. pode apenas fazer tantas coisas ao mesmo tempo, apenas sentada num balcão de um café e era maio. ou num assento de metrô entre as estações clínicas e paraíso durante, durante, ao fim da noite. ou numa ponte sobre um remoto rio - com nome de coisa gasta, puída - nos cafundós de county durham durante o inverno? como é ser apenas uma mulher e parir apenas toda a humanidade? como é apenas esconder-se quando o Todo-Poderoso passeia no Éden, depois de se haver conversado com a serpente e comido do fruto? e quando se é tomada como assunto, equivocamente, em livros como misoginia medieval, o que é apenas ser uma mulher? como é soltar os cabelos só para o marido e o amante quando se era apenas uma mulher? e, mensalmente, como o fluxo de sangue vertendo-se vulva afora como maré de lua sendo-se apenas uma mulher? e, como sendo apenas uma mulher - e tão belamente - não se diminui, murcha ou eclipsa sob um véu? mas que eu andei debaixo da chuva e meio fodido, comendo pouco e contando trocados, apenas não deixe que eles saibam, quando você, por acaso, me apresentar como um amigo.



«Just Like a Woman», Dylan, performed by Jeff Buckley:

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domingo, 10 de outubro de 2010

Para algum mau humor sem bile -- ou desatando o nó de certas bravatas

Ellsworth Kelly, Diagonal with Curve IX, 1979




Rebarbativo

só creio em escritores no exílio, ainda que vivam a vida toda na mesma cidade. não creio em escritores que passam manifesto fácil. os escritores que não se referem à infância têm chances maiores de mentir – inclusive quando falam de mulheres. o incondicional amor das mães faz com que a relação com a figura do pai seja bem mais tensa. não sei como isso se dá com escritoras. e, no entanto, algumas escrevem magnificamente a respeito. e de um modo que se pode sentir. e traduzir. quanto à importância que certos escritores se auto-dão, talvez possa responder com um poeminha infame:

acho uns chatos
de galocha
os que passam
manifesto
por pouca bosta


dos prosadores contemporâneos aprecio kundera e jean-marie gustave le clézio. há também o norte-americano david foster wallace, que entrete mais nos ensaios que na própria ficção, se é que se pode demarcar, aqui. de momento, sem sombra de dúvida, le clézio – especialmente aquele a partir da década de 70, menos experimentalista, mais «careta», menos alabado por foucaults ou deleuzes – é um escritor bastante instigante de se ler. por sua via, bom para a américa latina que llosa haja ganho o nobel. por três razões estritamente literárias e uma política. porque, num certo sentido e exceção feita a Cortázar, ele é mais urbano, menos «realismo fantástico» e 'tonterías barrocas' que a maioria de seus pares do propalado boom. depois, porque um de seus melhores livros, a guerra do fim do mundo, baseia-se em um escritor muito maior que ele: euclydes da cunha. por trinca, existe o fato de haver escrito uma boa novela de humor, tia julia e o escrevinhador – quando é quase sempre difícil não cansar o leitor com a piada. há uns trinta anos atrás li conversa na catedral com grande entusiasmo. naturalmente ignorante do fato de que aqueles diálogos polifônicos ser técnica antiga, já empregada de há muito. talvez, então, fosse melhor leitor (no sentido sinestésico, que também é um sentido moral) do que llosa é escritor. a razão política – e que, portanto, conta menos: ao contrário de marquez, llosa não priva da amizade de ditadores como castro ou chávez. já é alguma coisa. embora tenha se lançado numa quixotesca candidatura à presidência do peru em 1990,  e sua compreensão da relação entre a cultura ocidental e as culturas dos povos andinos pareça ser equívoca.


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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Escute esta canção ou...

Uma típica paisagem nordestina: a orla de Fortaleza ao crepúsculo


Paisagem típica do Sudeste, boias-frias em Pradópolis, São Paulo


Dia do Nordestino

Uma bobagem sem tamanho que exista um “Dia do Nordestino”. Mas não admira. Hoje em dia se inventou um dia para quase qualquer bobagem.


Aliás, espero que, mais lá adiante, crie-se o "Dia do Sudestino". Por que não?



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Aliás, um risco: Estadão, Kehl, etc.

Sarah Morris, 2005




Um caso c(l)ínico?
-Da querela em torno de O Estado de São Paulo e da psicanalista Maria Rita Kehl


Em fevereiro deste ano, Maria Rita Kehl foi contratada pelo Estado de São Paulo para alternar-se – semana sim, semana não – com o escritor Marcelo Rubens Paiva na redação de uma coluna. A proposta era a de, num caderno essencialmente dirigido a um público jovem, ela tratar de psicanálise. E tratar de uma forma “leve”. Afinal, esses cadernos, verdadeiros catálogos de pré consumo, proliferam jornais afora por este país. E não seria de todo improvável que seus leitores já tivessem ou eventualmente pudessem ter alguma necessidade da terapia psicanalítica, vivendo numa cidadezinha qualquer chamada São Paulo. Num estadozinho qualquer do mesmo nome, onde mesmo no interior o consumo de drogas pesadas faz mais sucesso que os romances de Paulo Coelho, os hits de Lady Gaga, a transmissão de Flamengo X Corinthians e a novela das oito combinados. Acontece que o Estadão é um jornal, além de tradicionalíssimo, com históricas propensões conservadoras – o que não é de todo mau num país em que todos querem ser pós pós modernos, como a Folha. E parece ser quase uma tradição no Ocidente essa de bons jornais: bem escritos, bem diagramados, contando com uma plêiade de excelentes colaboradores, porém um tanto conservadores – como o The Times inglês ou o argentino La Nación. O Estadão, de resto, foi um dos poucos jornais brasileiros – pessoalmente desconheço outro – a se declarar abertamente, em edital, a favor de um dos candidatos: José Serra. É um direito que o jornal, como veículo de opinião, possui. E, aliás, um risco. Inclusivo de marketing, de vendas. Ora, quase todos os jornais apoiam um candidato, ou ao menos tentam barganhar a maior vantagem possível nesse jogo de apoio ou ataque – apenas de forma mais velada. O que o Estadão propôs, em edital, não constitui, portanto, nenhum crime. Embora se possa – e até se deva – eventualmente discordar dele. O resto da história, é já bem conhecida: a professora universitária e psicanalista Maria Rita Kehl escreveu um artigo, às vésperas da eleição, que nada tem a ver com psicanálise; porém com eleição. E, mais, nesse artigo vai de encontro ao candidato apoiado publicamente pelo Estadão. E o Estadão – créu! – demitiu Maria Rita.


Alguém vê qualquer problema maior nisso? Ao que parece, quem mais saiu ganhando com toda celeuma foi a própria Maria Rita Kehl, guindada à condição de celebridade, de assunto dos mais discutidos no país esta semana por conta do caso. Coisa que não havia acontecido nos meses e meses em que ela passou à sombra, tão só falando de psicanálise para seu “público juvenil”. Notem que, se em outro fórum - digamos, numa sala de aula ou numa conferência - Maria Rita Kehl tivesse manifestado suas preferências políticas, estaria no seu direito. Como você no seu ou eu no meu. Mas numa coluna em que passou meses e meses falando de psicanálise...

Recentemente um famoso jornalista da CNN foi dispensado da rede por fazer um comentário supostamente agressivo ao estado de Israel. Ao que parece, ele elogiou a declaração de um líder palestino que lhe pareceu ponderada. Sendo o ponto de vista da CNN, ao olho do bom espectador, intensamente pró Israel, não constitui um caso um tanto semelhante?

Ou, para todos os efeitos, bem pior que o do Estadão?




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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Argumento desalinhado

Pininfarina, Cisitalia 202 GT, 1946




Debaixo de toda vida contemporânea se encontra latente uma injustiça

A gente pode começar da seguinte forma: por que se escuta umas poucas notas de trompete e logo sabe que é Miles Davis? Por que se vê uma reles combinação de linhas sobre um papel e, de imediato, nelas se reconhece Picasso?

Mas também se pode começar de uma outra forma: por que se lê tanto Heidegger e tão pouco Ortega y Gasset?

E aí a gente pode começar a responder pela segunda questão: porque a cultura latina, que um dia já foi a mais rica e poderosa da Europa - com os trovadores da Provença; com a Itália da Renascença; com a compósita Espanha de católicos, mouros e judeus; com o Portugal dos Descobrimentos - depois de ser ultrapassada em poderio econômico pela Holanda, a Inglaterra e a Alemanha, aqueles dantes atrasados bárbaros do norte, jamais recuperou-se desse baque. E até hoje nutre algo parecido com o que Nelson Rodrigues chama, ao tratar do futebol, em suas deliciosas crônicas, de “complexo de vira lata” – assim, sem hífen, porque a nova reforma ortográfica proibiu o hífen, né? [E fico meio em dúvida se o hífen foi proibido apenas para escritores profissionais e, logo, pode ser usado por escritores vira-latas. Na dúvida, melhor usar as duas formas.]

Mas também por razões políticas se lê – o acertado seria dizer que se fala – mais de Heidegger que de Ortega y Gasset. E por razões equívocas, uma vez que Ortega y Gasset, acusado injustamente de absenteísmo, durante seu exílio argentino, apesar de por vezes flertar com regimes autoritários, ao menos mostrou-se reativo a eles em realidade e durante algum tempo, ao contrário de Heidegger que não só vestiu uniforme nazista para não perder seus privilégios de reitor na Universidade de Freiburg, como jamais retratou-se em público. Isso apesar de, no pós guerra, haver sido amigo do poeta judeu Paul Celan, ironicamente o que talvez melhor traduziu a catástrofe judia e o inferno dos Lager, onde seus próprios pais foram exterminados.

Tudo isso, enfim, apenas comprova o quanto somos mais severos com nossos pensadores e artistas quanto às suas opções ou aos seus equívocos políticos. Sim, porque os americanos perdoaram Pound, que, depois de anos preso num manicômio judiciário (foi a forma que os amigos acharam de evitar que fosse para um presídio comum), desembarcou na Itália fazendo a saudação fascista. Algumas pessoas são irremediavelmente altivas.

Porém, por igual, o quanto certas ênfases nos traem. O principal especialista em Heidegger, no Brasil, Benedito Nunes, é – e com justiça – uma espécie de sumidade acadêmica. Os epígonos de Ortega y Gasset, que talvez tenha um pensamento até mais amoldável às realidades brasileiras por todo uma contiguidade cultural, no entanto, nem tanto.

Mas voltemos à primeira questão, afinal se tem sempre de voltar a alguma coisa: reconhecemos Miles por algumas poucas notas e Picasso por alguns ínfimos traços porque eles são artistas de um excepcional talento. Neles o estilo – ou seja a assinatura de suas vontades – é tão potente que imediatamente os traduz e revela.

Mas o ponto ainda não é este. O ponto é que, via pós estruturalismo francês e outras ficções acadêmicas, criou-se a ilusão de que somos todos artistas. O que não é verdade, embora a internet tenha contribuído um bocado para tanto.

Vamos por partes.

Em parte, os efeitos da internet não são de todo maus. Por exemplo, parece que nunca se escreveu tanto. E a coisa do imeio é algo que abriu a epistolografia a todos. E, ah, essa arte de escrever cartas, como nunca dantes trocadas, etc! É certo que há uma galáxia de lixo nessa epistolografia por imeio, ou no que se publica em blogues, nas redes sociais, no Twitter, enfim, na internet em geral. E que essa galáxia é incomensuravelmente mais vasta que o pequenino grão de areia de sistema solar que vale a pena ser lido no meio e nos imeios de todo esse emaranhadíssimo universo. Mas, em certos casos, do número também sai qualidade. E é bom que haja essas facilidades, como o imeio ou os MSN's & Gtalk's da vida. Ainda com todas suas abreviações, códigos e bonequinhos sorridentes ou não. De óculos escuros ou fazendo caras e bocas. E a invasão de termos em inglês, provindos do jargão TI.

Porém – é sempre bom pôr uma conjunção adversativa num arrazoado – outro problema aqui surgiu. (Bem reconheço que a frase anterior não é das mais elegantes, mas, vá lá, quem a escreveu não é nenhum mestre da elipse, nenhum Baltasar Gracián). Vivemos numa era de sobrevalorização do estético. Em que TUDO que é estético está como que perdoado – como se a arte fosse uma religião e, então, prescindíssemos de padeiros, pedreiros, faxineiros, executivos, gerentes comerciais, torneiros mecânicos ou tratadores de elefantes. Ou seja, como se pudéssemos viver só de curadores, críticos, ensaístas, resenhistas, conferencistas, facilitadores, e professores de redação criativa.

Ah, a arte! A arte é uma beleza. Mas, a rigor, há situações que não podem ser dignamente encaradas por ela. Rá. Isto é lindo. E quem diz isso é um tal de George Oppen, que,depois de ferido, ao voltar todo enlameado do front, numa Alsácia ainda ocupada pelos nazistas, via os parisienses levar uma vida de saraus e até degustar acepipes à base de ersatz. Meio que fazendo de conta: guerra não havia. Meio como por aqui faziam os tais inocentes do Leblon, de quem nos fala Drummond em certo poema.

E, então, guerra não havia, sarau na vida. Agora, o pior é que havia, e a coisa era urgente. O buraco era mais embaixo. A questão, aqui: prioridades.

Ora, arte implica em estudo. Picasso dizia: “eu não procuro, acho”. Sim, sim, certo Pablo. Mas a essa altura ele já era Picasso. E não um Pablo qualquer. E até um Pablo que dizia isso depois de haver imitado todos os mestres antigos e comprovado, por “b” mais “a”, ser um excelente pintor figurativo. Daí ele podia passar para o “ismo” que bem entendesse, que iria sempre se dar bem. Porque nele o estudo casou com uma palavra pouco lembrada hoje em dia: talento. E isto bem se pode ver até em filme, como em Le Mystére Picasso, de Henri-Georges Clouzot. [Taí um filminho que vale a pena passar os olhos].

Talento parece ser certa inclinação natural para fazer algo. Por exemplo, alguns batem faltas melhor que outros. Por mais que outros treinem mais cobranças de faltas do que uns – que também as treinam um bocado.


Isto segue bem expresso por J.M.G. Le Clézio, quando nos diz que "oui, c'est vrai, j'aurais aimé être peintre. Mais c'est un domaine, tout comme celui de la musique, où le don est essentiel. Si vous ne l'avez pas, vous ne pouvez pas l'inventer" ["sim, é verdade, eu teria adorado ser pintor. Mas este é um domínio, semelhante ao da música, onde o o dom é essencial. Se você não o possui, não pode inventá-lo"].

Ao que parece, levar dança, música ou cinema às comunidades pobres, em si, não é lá grande coisa. Pois depende muito do modo. E, mesmo dependendo do modo, somente uns poucos, os que cobram falta melhor, realmente conseguirão fazer dessa ação social, via arte, um meio de vida. Convenhamos, no fundo, é assistencialismo. Embora sejam, de fato, louváveis algumas dessas experiências. Uma minoria delas. Quer dizer, o que deveria haver mesmo era uma escola básica forte: pública, gratuita de nível. Com professores que ganhassem pelo menos um quinto do que ganha um desembargador. E daí que o talento aflorasse. Viesse ele das comunidades ou dos bairros de classe média.

Afinal, ninguém é melhor do que o outro por ser mais pobre. Ou o outro é pior que ninguém por ser mais rico.

Tss! Tss!

Acho que Ortega y Gasset reprovaria esse estilo de expor o argumento.




P.S. - Ainda das injustiças do mundo: aos 47 anos sei que por mais que ainda trabalhe nesta vida, jamais terei dinheiro para comprar um Cisitalia 202 GT. E pensar que essa maravilha foi desenhada em 1946! #Partiu


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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Mesmo sem fala: Celan

[s/i/c]




STEHEN im Schatten
Des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dich
allein.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

Paul Celan



POSTAR-SE à sombra
da cicatriz ao ar livre.

Para-ninguém-e-nada-postar-se.
Desconhecido,
a não ser 
de ti.

Com tudo em que nisto há espaço,
mesmo sem
fala.



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Tu foste: Celan

Paul Klee, s/d




DU WARST mein Tod:
dich konnte ich halten,
während mir alles entfiel.

Paul Celan


TU FOSTE minha morte:
a que me amparava,
quando tudo caiu a meu redor.



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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ainda Morte & Shopping Center

O Shopping Center Iguatemi, em Fortaleza, [s/i/c]


Shopping Center em Leamington-Spa, Warwickshire, Inglaterra


Shopping-Centers como metáforas de morte
-algumas antenas esparsas para uma visão entre arquitetura e suicídio em Fortaleza


Há uma impressentida relação entre morte e shopping-center. E não é fácil traduzi-la. Mas ensaiar é de graça.


A primeira vez que essa associação me ocorreu, deu-se tão-só na forma de um insigth, uma impressão. Sob, digamos, a tela irrefletida de um déjà-vu. Em verdade, apenas percorria, meio ao acaso, os espaços de um shopping, porque precisava comprar um par de sapatos e um casaco. E por acaso, esse dito shopping era quase idêntico (?!!?) ao Iguatemi [parte nova, a que se situa na junção da parte antiga e se estende em passarela ao atual hall principal de entrada, que está na foto mais acima], só que ficava numa cidade inglesa, chamada Leamington-Spa. Ou seja, há milhares de quilômetros de distância, numa outra latitude, clima totalmente outro... porém dois espaços como que “gêmeos”.


E lembro que isso me passou uma estranha sensação de morte. Porque quando há morte, qualquer novidade cessa. Qualquer movimento. E o imobilismo se apossa de tudo. É uma falta de expressão, como quer Lévinas: "a paragem de movimentos expressivos [...], que se mostram, que fazem mais do que mostrar-se, que se exprimem". Ora, o idêntico não se exprime. Recordo também que era numa época próxima ao Natal e que havia uma deplorável réplica de um pavão mecânico, que movia apenas o bico e o longo pescoço, o que acrescia tons ainda mais funestos ou surreais à coisa toda – porque, de algum modo um pouco cômico, me fazia lembrar do jogo do bicho (e logo não haveria algo mais antitético que a informalidade das banquinhas de Paratodos e a impessoalidade profissional dos espaços públicos ingleses).


A estrutura desse shopping inglês, no entanto, realmente muito se assemelhava ao Iguatemi. E não só por dentro. Por fora, ele também possuía um vasto estacionamento – apenas um pouco mais arborizado, e com aqueles bancos de madeira que se encontram embaixo de quase qualquer arbusto Reino Unido afora, dando ao país uma impressão de parque contínuo. Mas no geral, o edifício era quase neutro, amorfo, como é o Iguatemi. Quer dizer, um conjunto de paredes cegas vazado por algumas portas de entradas envidraçadas – e em geral foscas – dando para um estacionamento.


Essa estrutura, convenhamos é tumular, desde que busca eliminar tudo que está fora pela falta de janelas ou terraços que se debruçam sobre o exterior. O princípio é quase uterino. Fixar o olhar no dentro, na mercadoria. Ou mesmo se é o caso de um grande magazine, orientar as gôndolas ou as prateleiras de um modo labiríntico, de tal forma que não se possa dar dez passos sem ter de desviar-se da mercadoria que te roça as fuças. Sem ter de tropeçar nela, que lá se encontra, sob um determinado ângulo e debaixo de uma iluminação artificial, graduada para torná-la ainda mais atraente sob o conforto refrigerado e o polido piso de granito que teus sapatos pisam quase pedindo desculpas.


E é esse templo de adoração da mercadoria – cujos avós, as passagens parisienses, já tanto fascinavam a mente prolífica de Walter Benjamin – que sugere um vazio, um nada de história. E esse nada se dá sob a forma de uma assepsia análoga ao esforço que hoje se faz para tratar da questão da morte. Morre-se – como apontaram entre outros o próprio Benjamin e Huizinga, ou depois deles Elias e Foucault – em hospitais, debaixo de dezenas de tubos e aparelhos de precisão. Não mais em casa, cercado pela família, etc.


Os shopping-centers estão num meridiano oposto a qualquer espaço ao ar livre onde ressoam pregões – este grito de vida: as feiras, que estão na própria origem da maioria das cidades brasileiras. E que surgiram em encruzilhadas de caminhos onde se tangiam boiadas ou passavam tropeiros com suas mulas de carga. Feiras, onde, ao contrário do shopping, há sol, ar livre, mendigos, odores fortes, etc. 


É certo que nos últimos tempos – e felizmente – uma parcela maior da população brasileira passou a ter acesso aos shoppings. Deselitizando-os um tanto. Desglamurizando-os. Mas isto não parece ter afetado sua condição arquitetônica essencialmente tumular.


Foram preciso décadas até que surgisse em Fortaleza um único shopping em que timidamente há terraços de onde se pode sentar e tomar um café contemplando o exterior. O “fora”. Como no caso do Via-Sul – entre os de grande porte, talvez o mais recente e o único que faculta essa possibilidade.


Os outros fecham-se sobre si mesmos. Não importa se se encontram em bairros mais abastados como o Aldeota ou o Del Passeo. Ou menos, como o Benfica e o North Shopping.


Essa estrutura do shopping entra em atrito direto com um dos espaços mais belos e simbólicos de nossa arquitetura: o alpendre. 


O alpendre é o limiar da casa rural e praticamente desconstrói, saborosamente, essa dicotomia entre o fora e o dentro. É o mesmo que foi legado à casa de veraneio sob a forma de varandas. Ou seja, espaços que estão tão a meio-termo entre o dentro e o fora que, numa chuva com vento, é impossível neles sequer tirar uma sesta.













Soa um tanto unilateral que Bruno Zeni, em Saber Ver a Arquitetura, nos diga que “a definição mais precisa que se pode dar atualmente da arquitetura é a que leva em conta o espaço interior. A bela arquitetura será a arquitetura que tem um espaço interior que nos atrai” [ZENI, 24, grifos nossos]. Isso se dá, porque por mais que o espaço interior seja um importantíssimo fator a levar em conta, o limiar entre o espaço de dentro e seu entorno assoma ao menos tão importante quanto. Ou seja, o modo como se dá a interação entre espaço interior e exterior. E parece óbvio que esse entorno, que deve manter uma relação harmônica com o interior, está em geral, nas grandes cidades, salpicado de referências sócio-históricas ou comprometido com relações de impacto ambiental e paisagístico de alta relevância. Embora seja possível concordar com Zeni quando ele afirma que “existe, pois, um outro elemento além das três dimensões tradicionais [altura, largura, profundidade], e é precisamente o deslocamento sucessivo do ângulo visual” [22], tal qual suspeitaram, em antecipação da montagem cinematográfica, os pintores cubistas ainda no início do século passado. 


Reaterrisando no local, no entanto, desconheço relatos de pessoas que se tenham suicidado em feiras. Mas é intrigante que suicidas busquem a mureta dos andares superiores que miram o centro do shopping, seu mall, depois de ascenderem contemplando-os pelos elevadores – aliás ditos, ironicamente, "panorâmicos", quando o "panorama", ao invés da avenida ou da praça "lá fora", são esses espaços endemicamente desalpendrizados, claustrofóbicos. E, no entanto, "centrais" para a lógica de espacialidade das novas gerações.


Parece que há algo da ausência de história, do pregão, da feira, da encruzilhada, do consórcio entre o dentro e fora, do princípio do alpendre, que segue em conformidade com a imensa angústia dessas pessoas que se suicidam nos shoppings. Eles assomam como o espaço de purgação final porque é onde a sociabilidade, ao menos para as gerações mais novas, encerrou-se por excelência. E, no caso do Shopping-Aldeota, ainda com o agravante de estar tão próximo da verdadeira ilha de reunião "tribal", que é a Praça Portugal e no próprio coração de uma das áreas mais prósperas da cidade. Além do fato de ser provavelmente o shopping mais vertical de Fortaleza, por contraposição, por exemplo, ao Iguatemi, onde essa verticalidade é mais percebível apenas em um prédio anexo, de estacionamento por andares.


Mas, claro, tudo isso é apenas conjectura. Há já toda uma geração que cresceu dentro de shoppings e deve tê-los humanizado, de alguma forma. Criado laços de memória afetiva por esses espaços, no fim das contas, privados. Ainda que seus olhares possam se ter mesmerizado excessivamente para dentro. Para dentro do shopping em detrimento da vida e da história, que se encontram muito mais na cidade, lá fora. Onde obviamente e, em especial, em seu Centro, a pulsação de vida assenta-se sobre um esteio histórico bem mais concreto e de longa duração. Embora desconhecido da maioria desses jovens. Enxovalhado pela especulação imobiliária, que entortou toda a prosperidade de Fortaleza para os novos bairros a leste, no entorno da Avenida Washington Soares e seguindo rumo ao Eusébio e o Porto das Dunas.

Aliás, há cerca de três meses, gravando um documentário que recem-editei, e que versa essencialmente sobre a relação entre memória, espaço e literatura, não obtive a autorização para gravar em dois desses shoppings: o Iguatemi e o Via-Sul. Ou melhor expressando: os entraves colocados foram enormes. Delongas. Burocracias. Aquelas desculpas do tipo: os responsáveis estão viajando, mas chegam dia tal; etc.


Até parece que eles estavam adivinhando algo. Pois meu desejo era o de mesclar imagens de shoppings vazios com os de um cemitério moderno contiguadas a um labiríntico depósito de material sucateado.


Das três locações, gravei apenas no depósito. Mas lancei mão de sons captados em shoppings. Quer dizer esse labirinto de descontexto que conforma um depósito dessa sorte “legendado sonoramente” pela atmosfera dos ruídos de um shopping em determinados momentos de pico, em termos de frequentação.


Haveria ainda outros aspectos a agregar, pois uma sociedade minimamente sadia iria tomar mais este caso de suicídio no Shopping Aldeota como algo a se refletir seriamente. Porém, do contrário, há um quase total silêncio da imprensa local em relação a casos do tipo. Será que por transcorrerem em espaços de potenciais anunciantes? Será pelo poderio econômico dos proprietários desses espaços que concentram um comércio de alto padrão na cidade?




Um outro fator a se ter em conta é o apelo que os shoppings exercem entre algumas das pessoas mais solitárias que conheço. E sobretudo o de um shopping estar repleto de pequenos nichos voyeurs. Em que, quase sem se ser visto se entrevê o comportamento dos outros, dos passantes, etc. Mas isso iria estender o assunto para outras feiras, além desta terça. 




P.S. - Há vários textos que tocam nesta questão, nem que por tangência aqui em Afetivagem. Porém para dois breves artigos discutindo o tema dos shoppings e da memória, clique  em:




O problema com tantos shoppings é justo o de não ter um Centro





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