quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Mesmo sem fala: Celan

[s/i/c]




STEHEN im Schatten
Des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dich
allein.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

Paul Celan



POSTAR-SE à sombra
da cicatriz ao ar livre.

Para-ninguém-e-nada-postar-se.
Desconhecido,
a não ser 
de ti.

Com tudo em que nisto há espaço,
mesmo sem
fala.



*   *   *

Tu foste: Celan

Paul Klee, s/d




DU WARST mein Tod:
dich konnte ich halten,
während mir alles entfiel.

Paul Celan


TU FOSTE minha morte:
a que me amparava,
quando tudo caiu a meu redor.



*   *   *

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ainda Morte & Shopping Center

O Shopping Center Iguatemi, em Fortaleza, [s/i/c]


Shopping Center em Leamington-Spa, Warwickshire, Inglaterra


Shopping-Centers como metáforas de morte
-algumas antenas esparsas para uma visão entre arquitetura e suicídio em Fortaleza


Há uma impressentida relação entre morte e shopping-center. E não é fácil traduzi-la. Mas ensaiar é de graça.


A primeira vez que essa associação me ocorreu, deu-se tão-só na forma de um insigth, uma impressão. Sob, digamos, a tela irrefletida de um déjà-vu. Em verdade, apenas percorria, meio ao acaso, os espaços de um shopping, porque precisava comprar um par de sapatos e um casaco. E por acaso, esse dito shopping era quase idêntico (?!!?) ao Iguatemi [parte nova, a que se situa na junção da parte antiga e se estende em passarela ao atual hall principal de entrada, que está na foto mais acima], só que ficava numa cidade inglesa, chamada Leamington-Spa. Ou seja, há milhares de quilômetros de distância, numa outra latitude, clima totalmente outro... porém dois espaços como que “gêmeos”.


E lembro que isso me passou uma estranha sensação de morte. Porque quando há morte, qualquer novidade cessa. Qualquer movimento. E o imobilismo se apossa de tudo. É uma falta de expressão, como quer Lévinas: "a paragem de movimentos expressivos [...], que se mostram, que fazem mais do que mostrar-se, que se exprimem". Ora, o idêntico não se exprime. Recordo também que era numa época próxima ao Natal e que havia uma deplorável réplica de um pavão mecânico, que movia apenas o bico e o longo pescoço, o que acrescia tons ainda mais funestos ou surreais à coisa toda – porque, de algum modo um pouco cômico, me fazia lembrar do jogo do bicho (e logo não haveria algo mais antitético que a informalidade das banquinhas de Paratodos e a impessoalidade profissional dos espaços públicos ingleses).


A estrutura desse shopping inglês, no entanto, realmente muito se assemelhava ao Iguatemi. E não só por dentro. Por fora, ele também possuía um vasto estacionamento – apenas um pouco mais arborizado, e com aqueles bancos de madeira que se encontram embaixo de quase qualquer arbusto Reino Unido afora, dando ao país uma impressão de parque contínuo. Mas no geral, o edifício era quase neutro, amorfo, como é o Iguatemi. Quer dizer, um conjunto de paredes cegas vazado por algumas portas de entradas envidraçadas – e em geral foscas – dando para um estacionamento.


Essa estrutura, convenhamos é tumular, desde que busca eliminar tudo que está fora pela falta de janelas ou terraços que se debruçam sobre o exterior. O princípio é quase uterino. Fixar o olhar no dentro, na mercadoria. Ou mesmo se é o caso de um grande magazine, orientar as gôndolas ou as prateleiras de um modo labiríntico, de tal forma que não se possa dar dez passos sem ter de desviar-se da mercadoria que te roça as fuças. Sem ter de tropeçar nela, que lá se encontra, sob um determinado ângulo e debaixo de uma iluminação artificial, graduada para torná-la ainda mais atraente sob o conforto refrigerado e o polido piso de granito que teus sapatos pisam quase pedindo desculpas.


E é esse templo de adoração da mercadoria – cujos avós, as passagens parisienses, já tanto fascinavam a mente prolífica de Walter Benjamin – que sugere um vazio, um nada de história. E esse nada se dá sob a forma de uma assepsia análoga ao esforço que hoje se faz para tratar da questão da morte. Morre-se – como apontaram entre outros o próprio Benjamin e Huizinga, ou depois deles Elias e Foucault – em hospitais, debaixo de dezenas de tubos e aparelhos de precisão. Não mais em casa, cercado pela família, etc.


Os shopping-centers estão num meridiano oposto a qualquer espaço ao ar livre onde ressoam pregões – este grito de vida: as feiras, que estão na própria origem da maioria das cidades brasileiras. E que surgiram em encruzilhadas de caminhos onde se tangiam boiadas ou passavam tropeiros com suas mulas de carga. Feiras, onde, ao contrário do shopping, há sol, ar livre, mendigos, odores fortes, etc. 


É certo que nos últimos tempos – e felizmente – uma parcela maior da população brasileira passou a ter acesso aos shoppings. Deselitizando-os um tanto. Desglamurizando-os. Mas isto não parece ter afetado sua condição arquitetônica essencialmente tumular.


Foram preciso décadas até que surgisse em Fortaleza um único shopping em que timidamente há terraços de onde se pode sentar e tomar um café contemplando o exterior. O “fora”. Como no caso do Via-Sul – entre os de grande porte, talvez o mais recente e o único que faculta essa possibilidade.


Os outros fecham-se sobre si mesmos. Não importa se se encontram em bairros mais abastados como o Aldeota ou o Del Passeo. Ou menos, como o Benfica e o North Shopping.


Essa estrutura do shopping entra em atrito direto com um dos espaços mais belos e simbólicos de nossa arquitetura: o alpendre. 


O alpendre é o limiar da casa rural e praticamente desconstrói, saborosamente, essa dicotomia entre o fora e o dentro. É o mesmo que foi legado à casa de veraneio sob a forma de varandas. Ou seja, espaços que estão tão a meio-termo entre o dentro e o fora que, numa chuva com vento, é impossível neles sequer tirar uma sesta.













Soa um tanto unilateral que Bruno Zeni, em Saber Ver a Arquitetura, nos diga que “a definição mais precisa que se pode dar atualmente da arquitetura é a que leva em conta o espaço interior. A bela arquitetura será a arquitetura que tem um espaço interior que nos atrai” [ZENI, 24, grifos nossos]. Isso se dá, porque por mais que o espaço interior seja um importantíssimo fator a levar em conta, o limiar entre o espaço de dentro e seu entorno assoma ao menos tão importante quanto. Ou seja, o modo como se dá a interação entre espaço interior e exterior. E parece óbvio que esse entorno, que deve manter uma relação harmônica com o interior, está em geral, nas grandes cidades, salpicado de referências sócio-históricas ou comprometido com relações de impacto ambiental e paisagístico de alta relevância. Embora seja possível concordar com Zeni quando ele afirma que “existe, pois, um outro elemento além das três dimensões tradicionais [altura, largura, profundidade], e é precisamente o deslocamento sucessivo do ângulo visual” [22], tal qual suspeitaram, em antecipação da montagem cinematográfica, os pintores cubistas ainda no início do século passado. 


Reaterrisando no local, no entanto, desconheço relatos de pessoas que se tenham suicidado em feiras. Mas é intrigante que suicidas busquem a mureta dos andares superiores que miram o centro do shopping, seu mall, depois de ascenderem contemplando-os pelos elevadores – aliás ditos, ironicamente, "panorâmicos", quando o "panorama", ao invés da avenida ou da praça "lá fora", são esses espaços endemicamente desalpendrizados, claustrofóbicos. E, no entanto, "centrais" para a lógica de espacialidade das novas gerações.


Parece que há algo da ausência de história, do pregão, da feira, da encruzilhada, do consórcio entre o dentro e fora, do princípio do alpendre, que segue em conformidade com a imensa angústia dessas pessoas que se suicidam nos shoppings. Eles assomam como o espaço de purgação final porque é onde a sociabilidade, ao menos para as gerações mais novas, encerrou-se por excelência. E, no caso do Shopping-Aldeota, ainda com o agravante de estar tão próximo da verdadeira ilha de reunião "tribal", que é a Praça Portugal e no próprio coração de uma das áreas mais prósperas da cidade. Além do fato de ser provavelmente o shopping mais vertical de Fortaleza, por contraposição, por exemplo, ao Iguatemi, onde essa verticalidade é mais percebível apenas em um prédio anexo, de estacionamento por andares.


Mas, claro, tudo isso é apenas conjectura. Há já toda uma geração que cresceu dentro de shoppings e deve tê-los humanizado, de alguma forma. Criado laços de memória afetiva por esses espaços, no fim das contas, privados. Ainda que seus olhares possam se ter mesmerizado excessivamente para dentro. Para dentro do shopping em detrimento da vida e da história, que se encontram muito mais na cidade, lá fora. Onde obviamente e, em especial, em seu Centro, a pulsação de vida assenta-se sobre um esteio histórico bem mais concreto e de longa duração. Embora desconhecido da maioria desses jovens. Enxovalhado pela especulação imobiliária, que entortou toda a prosperidade de Fortaleza para os novos bairros a leste, no entorno da Avenida Washington Soares e seguindo rumo ao Eusébio e o Porto das Dunas.

Aliás, há cerca de três meses, gravando um documentário que recem-editei, e que versa essencialmente sobre a relação entre memória, espaço e literatura, não obtive a autorização para gravar em dois desses shoppings: o Iguatemi e o Via-Sul. Ou melhor expressando: os entraves colocados foram enormes. Delongas. Burocracias. Aquelas desculpas do tipo: os responsáveis estão viajando, mas chegam dia tal; etc.


Até parece que eles estavam adivinhando algo. Pois meu desejo era o de mesclar imagens de shoppings vazios com os de um cemitério moderno contiguadas a um labiríntico depósito de material sucateado.


Das três locações, gravei apenas no depósito. Mas lancei mão de sons captados em shoppings. Quer dizer esse labirinto de descontexto que conforma um depósito dessa sorte “legendado sonoramente” pela atmosfera dos ruídos de um shopping em determinados momentos de pico, em termos de frequentação.


Haveria ainda outros aspectos a agregar, pois uma sociedade minimamente sadia iria tomar mais este caso de suicídio no Shopping Aldeota como algo a se refletir seriamente. Porém, do contrário, há um quase total silêncio da imprensa local em relação a casos do tipo. Será que por transcorrerem em espaços de potenciais anunciantes? Será pelo poderio econômico dos proprietários desses espaços que concentram um comércio de alto padrão na cidade?




Um outro fator a se ter em conta é o apelo que os shoppings exercem entre algumas das pessoas mais solitárias que conheço. E sobretudo o de um shopping estar repleto de pequenos nichos voyeurs. Em que, quase sem se ser visto se entrevê o comportamento dos outros, dos passantes, etc. Mas isso iria estender o assunto para outras feiras, além desta terça. 




P.S. - Há vários textos que tocam nesta questão, nem que por tangência aqui em Afetivagem. Porém para dois breves artigos discutindo o tema dos shoppings e da memória, clique  em:




O problema com tantos shoppings é justo o de não ter um Centro





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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Agregar importância, Suicídio, Palhaço, Eleições - quatro fatias vadias

[s/i/c]




Four Quick Draws and Three Ones to Listen With Care


A surpreendente votação de Marina Silva é o dado mais interessante – e estimulante – deste primeiro tempo. Assim como, aqui pelo Ceará, a demolidora derrota de Tasso Jereissati. Este revés parece indicar para certo ostracismo político. E o de um cacique que vem dando cartas, por aqui, ao menos desde 1987 - e cuja principal virtude não é propriamente a simpatia. O temperamento de Tasso o indispôs com quase todos os seus ex-aliados. A ponto de apoiar o mais despreparado dos candidatos ao governo do estado: Marcos Cals. E, no entanto, Jereissati tem muito do que cuidar. Especialmente no Ceará e em São Paulo, onde os Shoppings Iguatemi são apenas a face mais visível de seu conglomerado econômico.

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Falar em shoppings: qual a relação entre espaços e morte? Que cinco suicídios tenham se dado no Shopping Aldeota nos últimos anos não será mera coincidência. 
A questão do suicídio. 
Está no centro do pensamento de Camus. Bresson, que era católico praticante, parece, a certa altura, pensar o suicídio como um meio legítimo de pôr fim à vida diante de um mundo excessivamente caótico. Uma espécie de mundo poluído literalmente e literalmente. Quer dizer, pela depredação ambiental e pela inflação de informações - sobretudo via letra + imagem. Essa sorte de reflexão surge mais intensamente em filmes como MouchetteUne femme douce e Le diable probablement. De resto, como soam infames essas piadinhas que se lê por aí. Do tipo: “Shopping Aldeota, venha dar um pulinho aqui!”. Notem que o simples fato de o assunto haver virado um trending topic no Twitter parece  a ele haver agregado uma significação, uma importância e uma magnitude próprias. Uma espécie de "deu no New York Times". Isto só aponta para o quanto o mundo virtual interfere, de forma rascante, sobre "a vida real". Ou o quanto o Twitter é essa máquina de moer carne, semelhante àquelas que eram usadas até uns anos atrás, atarrachadas à mesa da cozinha, com uma manivela. O pio do Twitter, por trás de tantos gracejos e micro-diários, também masca um travo de morte. 

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Enquanto isso, um palhaço é eleito para o congresso nacional com a maior votação do país. Não admira. Em geral, quando se lê quase qualquer coisa na net, as pessoas desejam soar engraçadas e espirituosas. Quase sempre não são. Mas cada qual é o palhaço que merece. 

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Ontem, um filme e algumas cervejas depois, jogando conversa no mato, entre amigos, à certa altura, meio ao acaso, relembramos velhas canções, via Youtube. Destaque para dois temas, que foram unanimidade:

Esta visceral performance ao vivo de "Menino" (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos) pelo multinstrumentista argentino Pedro Aznar ("Quien calla sobre tu cuerpo/ es cómplice de tu muerte"):


e

"Long Distance Runaround”, faixa do disco Fragile, do Yes ("I still remember the dream there/ I still remember the time you said goodbye/ Did we really tell lies?"):


Aliás, não sou dos mais ardorosos fãs de rock-progressivo. Ou do próprio Yes. Porém ouvi bastante o Fragile – disco que figura briosamente entre os vinis que ainda restam na estante. O suficiente, de outro modo, para me lembrar da melodia exata de alguns dos habilíssimos licks do Rickenbacker - algo agudo e distorcido, soando quase sempre em contraponto, como uma viola da gamba - de Squire; dos teclados de Wakeman evocando Brahms ou Bach; das piruetas rítmicas de Bill Bruford; do falsete tiple de Jon Anderson. O suficiente para também destacar esta gema do guitarrista Steve Howe, não ouvida ontem e que faz o tempo escorrer entre os dedos com pitadas de flamenco e Idade Média. Ou pode ditar o ânimo de um dia:


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domingo, 3 de outubro de 2010

Em algum momento entre às 8hs e às 17hs

[s/i/c]


A Democracia do Voto Obrigatório


Uma das maiores aberrações em uma democracia é a obrigatoriedade do voto. O contrasenso é evidente: se é democracia, deveria facultar àqueles que não querem votar este direito. E falam em dever de cidadão. Dever de cidadão é optar entre ir pescar, filosofar no botequim, assistir o Faustão, ir ao estádio ou - se de fato quiser - seguir até uma seção eleitoral. E votar. 

Soa mais razoável.


Parece, aliás, com a aquela célebre passagem da Ideologia Alemã em que o pensamento de Marx mais deliciosamente se aproxima do anarquismo e da utopia, quando ele nos fala de uma sociedade em que o indivíduo "pode aperfeiçoar-se na esfera que lhe aprouver, não tendo por isso um ciclo de actividade exclusiva, pois é a sociedade que regula a produção geral e me permite fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois do jantar, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico".

É claro que essa compulsoriedade do voto - aliás muito pouco contestada, seja por qual matiz ou partido político, ou pela grande imprensa - embute uma série de práticas nefastas herdadas do passado. Se todos são obrigados a votar, é mais fácil manipular - seja por compra, seja por qualquer tipo de favor ilícito - o voto daquele que se encontra mais vulnerável ou em situação precária ou em débito de um "favor" qualquer. 

Evidente que, se do contrário, o voto fosse facultativo, o custo da "compra" seria, digamos, mais caro. Porém como essa obrigatoriedade do voto parece ir bem com Rorizes, esposas de Rorizes e congêneres!

Outra incongruência: analfabetos são obrigados a votar. Mas, do contrário, são inelegíveis. Ora, se eles podem escolher seus candidatos, se se julga que podem discernir quais dentre eles conformam o melhor para a coletividade: por que lhes é vedado ser um deles? 

Lula só fez até a quarta série do primeiro grau. E isto não o impediu de ser o habilíssimo animal político que é - referende-se ou não a gestão de um presidente que está a alguns poucos meses de deixar o mandato com mais de 80% de aprovação popular. Uma verdadeira aclamação, quando se sabe dos desgastes sofridos pelos executivos; em especial, nos segundos mandatos.  E, para os padrões pós-doutores dos diascorrentes, convenhamos, Lula é quase um analfabeto funcional.

Tudo isso de votos compulsórios e a celeuma em torno de analfabetos chega a arrancar risos em diversos pontos do planeta. Como, aliás, NESTA saborosa crônica de Ivan Lessa. 





Viver numa democracia em que se é obrigado a votar é como namorar uma bela mulher e ser obrigado a casar com ela todo dia, em algum momento, entre às 8hs e às 17hs – pela pressão da família, do juiz, do coronel, do dirigente da ONG, do bicheiro, do traficante de drogas, do laudo médico, do vigário, do

do it yourself. And far better, without Nike.



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sábado, 2 de outubro de 2010

Algo com uma telenovealidade?

Lee Friedlander, 1962





Mover ou Comover?
-algumas considerações leigas sobre a televisão em geral & sobre a televisação da imprensa escrita


Entre mover e comover, é preferível mover. Mover mostra. Comover tenta obter uma forçada empatia. Comprovar uma tese. Angariar uma sanção. Um convencimento. Baseia-se em uma raison d'être que é eminentemente maniqueísta.

É um tanto por isto que chega a ser difícil encontrar em nossa imprensa escrita – seja virtual ou não – um texto verdadeiramente instigante. Embora, via internet, o volume desses textos seja incomensuravelmente mais profuso e eles praticamente empreendam uma cobertura em tempo real dos acontecimentos. É claro que os manuais de redação – com os da Folha e o do Estadão bem à testada – tem muito a ver com o sensabor de tudo isso. Mas a coisa vai além.

Notem o quanto, mais e mais, gente da imprensa escrita se vem rendendo às câmeras. E isso parece ser quase uma tendência sem volta. Desde que é tão fácil pôr imagens nos portais noticiosos da internet.

Porém, tornando ao mover e comover, pode-se ir um pouco mais longe no argumento.

Vivemos num país excessivamente comovido, via televisão. E não só pelo cacho diário de telenovelas, pois a linguagem destas “é” a linguagem da televisão brasileira, com alguns empréstimos blockbusters. E há décadas.

Essa linguagem, aliás, estende-se aos anúncios. Aos reality shows. E até mesmo ao jornalismo televisivo – não descartando-se aqui sequer o esportivo ou o político – que está impregnado dessa narratividade barroca e telemelodramática. Em especial, o seu mais poderoso bastião: o Jornal Nacional. Será mera coicidência que vem ensanduichado entre duas telenovelas? Será mero acaso que seja apresentado por um casal? E o que dizer das lágrimas de William Bonner quando da morte de Roberto Marinho? E de toda contrafação emocional que ronda o teor dos assunto tocados? Os semblantes dos apresentadores ou âncoras raramente são neutros. Mais isentos, compostos. Porém ou compungidos ou risonhos. Ou então, abertamente cínicos, como nos casos de Diogo Mainardi ou Lucas Mendes. O adestramento dos, em geral, maus atores de telenovela vazou para jornalistas, que sequer são capazes de uma tarefa simples: “ler” as notícias num teleponto com um tom de voz minimamente neutro ou composto. Comentar essas notícias com um mínimo grau de dignidade e verdadeiro senso de humor, quando o caso for. Um humor, aliás, que quase como todo humor no Brasil – vá-se de Casseta & Planeta à Revista Aerolândia – cansa muito ligeiro, pelo esgotamento da fórmula.

Muito aos poucos a audiência de televisão no Brasil acorda para alguns desses aspectos. Especialmente onde eles são mais caricatos. Daí toda a celeuma em torno de Galvão Bueno, alguns meses atrás. Galvão é uma espécie de síntese de tudo isto. Uma ponta mais notável de um iceberg que ainda vai demorar muito a degelar. Embora, notem, a presença de Galvão se dá muito mais pela voz do que pela figura. O que se está rejeitando, aqui, ainda é menos o sistema de imagens e mais algo ligado a aspectos radiofônicos. Mas, no caso de Galvão, tantos anos postando-se de torcedor-sócio-proprietário da seleção brasileira começou a incomodar. E até a despertar piadas de dentro da própria televisão, não é de hoje.

Pode-se alegar a hipérbole de Paulo Francis, alguns anos para trás. Mas Francis era, no mínimo, suficientemente lúcido para, em sua máscara televisiva, agregar uma paródia de si, prenhe de auto-humor. Seu cinismo, ao contrário, digamos, do de um Mainardi, possuía um lastro de verdadeiro humour e, sem dúvida, uma pitada de inteligência que passava longe de bílis ou de uma atitude blasée, porque embora emitido desde fora, fundamente calcado na realidade brasileira e pontuado por analogias, de fato, inusitadas.

Há anos que só é possível assistir programas como o Jornal Nacional, Fantástico, Globo Repórter ou Manhattan Connection, ou ler jornais como a Folha ou as notícias de quase todos os portais online dos grandes conglomerados de comunicação no Brasil mais ou menos do modo como se lê má ficção.

Ou se vê telenovelas.

Pode-se concordar com o ponto de vista de David Foster Wallace ao analisar a questão do imenso poderio da televisão nos Estados Unidos: assomam um tanto insanas essas análises acadêmicas que tentam demonizá-la no atacado. Ou atacar os espectadores como um bando de voyeurs passivos e basbaques.

Por outra via, é preciso enxergá-la também desde uma certa distância. E talvez até para perceber que, não é de hoje, o sistema de imagens veiculado pela TV no Brasil, em sua própria forma – e inclusive pela ausência de uma política mais efetiva e eficaz de federalização e desmonopolização da produção, o que implicaria uma fissura em relação ao eixo São Paulo-Rio – vem merecendo uma visceral revisão.

Até para que a forma de apresentação da notícia seja renovada. E não tutelada, em uma das margens pelo infantilismo incongruente da MTV; ou por outra – e em razão muito mais forte – pelo tal padrão da Rede Globo. Ambas são fórmulas cansadas, macaqueadas ad infinitum na televisão dos demais estados. Não há uma maneira de nos assistirmos, sem nos assistirmos como meras cópias de um original proposto de forma tão monopolista? Pois até mesmo quem vê pouco televisão sabe quem o jornalista local está tomando como modelo. Tentando imitar.

Incomoda que a televisão brasileira - ou a imprensa escrita, seu reflexo - não se predisponha a uma renovação. Ou mesmo que essa renovação, que toca em tantos interesses estratégicos, tanta grana e tanto poder, seja tão pouco posta na berlinda. Mesmo nesses tempos, em que o advento da internet buliu com um bocado de coisas. Embora a própria internet já dê sinais de estar sendo "disciplinarizada" por essa espécie de imanência.



P.S. – Uma admirável exceção a esse estado de coisas, a essa telenovelização do jornalismo é o portal da BBC Brasil – que, de resto, sempre indica, saudavelmente, para o que saiu reportado sobre o país nos grandes jornais europeus ou norte-americanos. Que busca uma análise mais conjuntural, consequente. Longoprazeada. Ou pode se dar ao luxo de ter um cronista da verve de um Ivan Lessa.


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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Uma visão de transparência: Williams

[s/i/c]





Nantucket


Flowers through the window
lavender and yellow

changed by white curtains—
Smell of cleanliness—

Sunshine of late afternoon—
On the glass tray

a glass pitcher, the tumbler
turned down, by which

a key is lying—And the
immaculate white bed


William Carlos Williams




Nantucket


Flores pela janela
lavandas e flavas

alteradas pelas cortinas brancas—
Aroma de limpeza—

Réstias de fim de tarde—
Na bandeja de vidro

a jarra de vidro, o copo
emborcado, no qual

jaz uma chave—E a imaculada
cama branca



Nota – Quase não poderia haver escolha mais óbvia: um dos mais traduzidos poemas de Dr. Williams. Mas onde achar uma peça em que as palavras conformam tamanha sensação de transparência? É certo que palavras não podem se inteiramente transparentes. Elas resguardam algo de opaco. Mas aqui, no entanto, elas quase translúcidas, cristalinas. Sem se ver só em parte. Nantucket é uma tradicional estação de veraneio, situada em um ilha, no estado de Massachusetts. Foi em tempos idos uma vila de baleeiros. E é hoje famosa por sua arquitetura antiga e pela prática de esportes náuticos – em especial a vela. É quase uma senha, um patrimônio para os americanos, mais ou menos como para nós é Paraty.



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Alguns perdidos e uma noite

Estátua de Plínio, o Jovem, em Como


De Plínios, Paralelas & O Retrato de Dom Pedro


Ao que aponta a evidência, um dos poucos Plínios que, de fato, fez bem ao Brasil foi o Marcos. Quanto ao Salgado e ao Arruda Sampaio nada indica que iriam governar com qualquer senso de democracia. Embora, com toda certeza, o integralista escrevesse melhor que o atual candidato do PSOL. E tivesse mais estofo intelectual.

Dos Plínios romanos, o velho foi o um reputadíssimo naturalista. E o jovem, que era seu sobrinho, um orador e político sagaz o suficiente para manter sua cabeça junto ao tronco ao longo de uma sucessão de imperadores que destilavam sangue, como Trajano.

Plínio Arruda Sampaio foi aplaudido por uma pequena claque de exaltados no deabate de ontem para hoje. É, no entanto, bom saber que o Brasil não o elegerá. E impressiona o jargão militar empregado pela extrema esquerda: "batalha", "luta", "guerra". Parece tomado de empréstimo dos que mais os perseguiram nos anos de chumbo: militares linha dura.

Em tempo, não creio que seja à toa que um conhecido que sempre simpatizou com candidatos da extrema direita tenha declarado uma certa queda por Plínio Arruda Sampaio. Não se cruzam as paralelas no infinito?

Desconfiar de qualquer excesso de ideologização nos diascorrentes. O que é necessário? Bons administradores. E respeito pelo estado de direito.

À luz da história, é provável que Dom Pedro II haja sido o maior dos homens públicos brasileiros. Ao menos assim o entendia Machado de Assis. É uma opinião de peso. Machado, inclusive, num pequeno ato de bravura pessoal, impediu, com empenho próprio, que o retrato de nosso segundo imperador fosse removido de seu gabinete, no Ministério da Agricultura, pelos republicanos golpistas. 


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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Redes Sanguessugasociais

Lásló Moholy-Nagy, 1923


Gradações


Deixar o MySpace foi uma atitude digna. Discreta, talvez. E honesta. Até porque andava insatisfeito não com as composições em si – letras, progressões harmônicas, dedilhados, arranjos, instrumentação – mas com as deficiências, as limitações técnicas das gravações: mixagem, equalização, etc. Abandonar o Facebook foi um alívio – para minha caixa postal, inclusive. Agora, chispar do Twitter foi uma libertação. Algo análogo à travessia do Mar Vermelho. Como se tem mais tempo pra tudo. Para o mundo: céu, ruas, árvores, um café amargo e aromático, esquinas, livros, bichos, manhãs, gentes. Acho que tem até a ver com o fato de haver voltado a escrever mais; e, por tabela, postar mais por aqui.


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