segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Agregar importância, Suicídio, Palhaço, Eleições - quatro fatias vadias

[s/i/c]




Four Quick Draws and Three Ones to Listen With Care


A surpreendente votação de Marina Silva é o dado mais interessante – e estimulante – deste primeiro tempo. Assim como, aqui pelo Ceará, a demolidora derrota de Tasso Jereissati. Este revés parece indicar para certo ostracismo político. E o de um cacique que vem dando cartas, por aqui, ao menos desde 1987 - e cuja principal virtude não é propriamente a simpatia. O temperamento de Tasso o indispôs com quase todos os seus ex-aliados. A ponto de apoiar o mais despreparado dos candidatos ao governo do estado: Marcos Cals. E, no entanto, Jereissati tem muito do que cuidar. Especialmente no Ceará e em São Paulo, onde os Shoppings Iguatemi são apenas a face mais visível de seu conglomerado econômico.

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Falar em shoppings: qual a relação entre espaços e morte? Que cinco suicídios tenham se dado no Shopping Aldeota nos últimos anos não será mera coincidência. 
A questão do suicídio. 
Está no centro do pensamento de Camus. Bresson, que era católico praticante, parece, a certa altura, pensar o suicídio como um meio legítimo de pôr fim à vida diante de um mundo excessivamente caótico. Uma espécie de mundo poluído literalmente e literalmente. Quer dizer, pela depredação ambiental e pela inflação de informações - sobretudo via letra + imagem. Essa sorte de reflexão surge mais intensamente em filmes como MouchetteUne femme douce e Le diable probablement. De resto, como soam infames essas piadinhas que se lê por aí. Do tipo: “Shopping Aldeota, venha dar um pulinho aqui!”. Notem que o simples fato de o assunto haver virado um trending topic no Twitter parece  a ele haver agregado uma significação, uma importância e uma magnitude próprias. Uma espécie de "deu no New York Times". Isto só aponta para o quanto o mundo virtual interfere, de forma rascante, sobre "a vida real". Ou o quanto o Twitter é essa máquina de moer carne, semelhante àquelas que eram usadas até uns anos atrás, atarrachadas à mesa da cozinha, com uma manivela. O pio do Twitter, por trás de tantos gracejos e micro-diários, também masca um travo de morte. 

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Enquanto isso, um palhaço é eleito para o congresso nacional com a maior votação do país. Não admira. Em geral, quando se lê quase qualquer coisa na net, as pessoas desejam soar engraçadas e espirituosas. Quase sempre não são. Mas cada qual é o palhaço que merece. 

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Ontem, um filme e algumas cervejas depois, jogando conversa no mato, entre amigos, à certa altura, meio ao acaso, relembramos velhas canções, via Youtube. Destaque para dois temas, que foram unanimidade:

Esta visceral performance ao vivo de "Menino" (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos) pelo multinstrumentista argentino Pedro Aznar ("Quien calla sobre tu cuerpo/ es cómplice de tu muerte"):


e

"Long Distance Runaround”, faixa do disco Fragile, do Yes ("I still remember the dream there/ I still remember the time you said goodbye/ Did we really tell lies?"):


Aliás, não sou dos mais ardorosos fãs de rock-progressivo. Ou do próprio Yes. Porém ouvi bastante o Fragile – disco que figura briosamente entre os vinis que ainda restam na estante. O suficiente, de outro modo, para me lembrar da melodia exata de alguns dos habilíssimos licks do Rickenbacker - algo agudo e distorcido, soando quase sempre em contraponto, como uma viola da gamba - de Squire; dos teclados de Wakeman evocando Brahms ou Bach; das piruetas rítmicas de Bill Bruford; do falsete tiple de Jon Anderson. O suficiente para também destacar esta gema do guitarrista Steve Howe, não ouvida ontem e que faz o tempo escorrer entre os dedos com pitadas de flamenco e Idade Média. Ou pode ditar o ânimo de um dia:


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domingo, 3 de outubro de 2010

Em algum momento entre às 8hs e às 17hs

[s/i/c]


A Democracia do Voto Obrigatório


Uma das maiores aberrações em uma democracia é a obrigatoriedade do voto. O contrasenso é evidente: se é democracia, deveria facultar àqueles que não querem votar este direito. E falam em dever de cidadão. Dever de cidadão é optar entre ir pescar, filosofar no botequim, assistir o Faustão, ir ao estádio ou - se de fato quiser - seguir até uma seção eleitoral. E votar. 

Soa mais razoável.


Parece, aliás, com a aquela célebre passagem da Ideologia Alemã em que o pensamento de Marx mais deliciosamente se aproxima do anarquismo e da utopia, quando ele nos fala de uma sociedade em que o indivíduo "pode aperfeiçoar-se na esfera que lhe aprouver, não tendo por isso um ciclo de actividade exclusiva, pois é a sociedade que regula a produção geral e me permite fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois do jantar, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico".

É claro que essa compulsoriedade do voto - aliás muito pouco contestada, seja por qual matiz ou partido político, ou pela grande imprensa - embute uma série de práticas nefastas herdadas do passado. Se todos são obrigados a votar, é mais fácil manipular - seja por compra, seja por qualquer tipo de favor ilícito - o voto daquele que se encontra mais vulnerável ou em situação precária ou em débito de um "favor" qualquer. 

Evidente que, se do contrário, o voto fosse facultativo, o custo da "compra" seria, digamos, mais caro. Porém como essa obrigatoriedade do voto parece ir bem com Rorizes, esposas de Rorizes e congêneres!

Outra incongruência: analfabetos são obrigados a votar. Mas, do contrário, são inelegíveis. Ora, se eles podem escolher seus candidatos, se se julga que podem discernir quais dentre eles conformam o melhor para a coletividade: por que lhes é vedado ser um deles? 

Lula só fez até a quarta série do primeiro grau. E isto não o impediu de ser o habilíssimo animal político que é - referende-se ou não a gestão de um presidente que está a alguns poucos meses de deixar o mandato com mais de 80% de aprovação popular. Uma verdadeira aclamação, quando se sabe dos desgastes sofridos pelos executivos; em especial, nos segundos mandatos.  E, para os padrões pós-doutores dos diascorrentes, convenhamos, Lula é quase um analfabeto funcional.

Tudo isso de votos compulsórios e a celeuma em torno de analfabetos chega a arrancar risos em diversos pontos do planeta. Como, aliás, NESTA saborosa crônica de Ivan Lessa. 





Viver numa democracia em que se é obrigado a votar é como namorar uma bela mulher e ser obrigado a casar com ela todo dia, em algum momento, entre às 8hs e às 17hs – pela pressão da família, do juiz, do coronel, do dirigente da ONG, do bicheiro, do traficante de drogas, do laudo médico, do vigário, do

do it yourself. And far better, without Nike.



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sábado, 2 de outubro de 2010

Algo com uma telenovealidade?

Lee Friedlander, 1962





Mover ou Comover?
-algumas considerações leigas sobre a televisão em geral & sobre a televisação da imprensa escrita


Entre mover e comover, é preferível mover. Mover mostra. Comover tenta obter uma forçada empatia. Comprovar uma tese. Angariar uma sanção. Um convencimento. Baseia-se em uma raison d'être que é eminentemente maniqueísta.

É um tanto por isto que chega a ser difícil encontrar em nossa imprensa escrita – seja virtual ou não – um texto verdadeiramente instigante. Embora, via internet, o volume desses textos seja incomensuravelmente mais profuso e eles praticamente empreendam uma cobertura em tempo real dos acontecimentos. É claro que os manuais de redação – com os da Folha e o do Estadão bem à testada – tem muito a ver com o sensabor de tudo isso. Mas a coisa vai além.

Notem o quanto, mais e mais, gente da imprensa escrita se vem rendendo às câmeras. E isso parece ser quase uma tendência sem volta. Desde que é tão fácil pôr imagens nos portais noticiosos da internet.

Porém, tornando ao mover e comover, pode-se ir um pouco mais longe no argumento.

Vivemos num país excessivamente comovido, via televisão. E não só pelo cacho diário de telenovelas, pois a linguagem destas “é” a linguagem da televisão brasileira, com alguns empréstimos blockbusters. E há décadas.

Essa linguagem, aliás, estende-se aos anúncios. Aos reality shows. E até mesmo ao jornalismo televisivo – não descartando-se aqui sequer o esportivo ou o político – que está impregnado dessa narratividade barroca e telemelodramática. Em especial, o seu mais poderoso bastião: o Jornal Nacional. Será mera coicidência que vem ensanduichado entre duas telenovelas? Será mero acaso que seja apresentado por um casal? E o que dizer das lágrimas de William Bonner quando da morte de Roberto Marinho? E de toda contrafação emocional que ronda o teor dos assunto tocados? Os semblantes dos apresentadores ou âncoras raramente são neutros. Mais isentos, compostos. Porém ou compungidos ou risonhos. Ou então, abertamente cínicos, como nos casos de Diogo Mainardi ou Lucas Mendes. O adestramento dos, em geral, maus atores de telenovela vazou para jornalistas, que sequer são capazes de uma tarefa simples: “ler” as notícias num teleponto com um tom de voz minimamente neutro ou composto. Comentar essas notícias com um mínimo grau de dignidade e verdadeiro senso de humor, quando o caso for. Um humor, aliás, que quase como todo humor no Brasil – vá-se de Casseta & Planeta à Revista Aerolândia – cansa muito ligeiro, pelo esgotamento da fórmula.

Muito aos poucos a audiência de televisão no Brasil acorda para alguns desses aspectos. Especialmente onde eles são mais caricatos. Daí toda a celeuma em torno de Galvão Bueno, alguns meses atrás. Galvão é uma espécie de síntese de tudo isto. Uma ponta mais notável de um iceberg que ainda vai demorar muito a degelar. Embora, notem, a presença de Galvão se dá muito mais pela voz do que pela figura. O que se está rejeitando, aqui, ainda é menos o sistema de imagens e mais algo ligado a aspectos radiofônicos. Mas, no caso de Galvão, tantos anos postando-se de torcedor-sócio-proprietário da seleção brasileira começou a incomodar. E até a despertar piadas de dentro da própria televisão, não é de hoje.

Pode-se alegar a hipérbole de Paulo Francis, alguns anos para trás. Mas Francis era, no mínimo, suficientemente lúcido para, em sua máscara televisiva, agregar uma paródia de si, prenhe de auto-humor. Seu cinismo, ao contrário, digamos, do de um Mainardi, possuía um lastro de verdadeiro humour e, sem dúvida, uma pitada de inteligência que passava longe de bílis ou de uma atitude blasée, porque embora emitido desde fora, fundamente calcado na realidade brasileira e pontuado por analogias, de fato, inusitadas.

Há anos que só é possível assistir programas como o Jornal Nacional, Fantástico, Globo Repórter ou Manhattan Connection, ou ler jornais como a Folha ou as notícias de quase todos os portais online dos grandes conglomerados de comunicação no Brasil mais ou menos do modo como se lê má ficção.

Ou se vê telenovelas.

Pode-se concordar com o ponto de vista de David Foster Wallace ao analisar a questão do imenso poderio da televisão nos Estados Unidos: assomam um tanto insanas essas análises acadêmicas que tentam demonizá-la no atacado. Ou atacar os espectadores como um bando de voyeurs passivos e basbaques.

Por outra via, é preciso enxergá-la também desde uma certa distância. E talvez até para perceber que, não é de hoje, o sistema de imagens veiculado pela TV no Brasil, em sua própria forma – e inclusive pela ausência de uma política mais efetiva e eficaz de federalização e desmonopolização da produção, o que implicaria uma fissura em relação ao eixo São Paulo-Rio – vem merecendo uma visceral revisão.

Até para que a forma de apresentação da notícia seja renovada. E não tutelada, em uma das margens pelo infantilismo incongruente da MTV; ou por outra – e em razão muito mais forte – pelo tal padrão da Rede Globo. Ambas são fórmulas cansadas, macaqueadas ad infinitum na televisão dos demais estados. Não há uma maneira de nos assistirmos, sem nos assistirmos como meras cópias de um original proposto de forma tão monopolista? Pois até mesmo quem vê pouco televisão sabe quem o jornalista local está tomando como modelo. Tentando imitar.

Incomoda que a televisão brasileira - ou a imprensa escrita, seu reflexo - não se predisponha a uma renovação. Ou mesmo que essa renovação, que toca em tantos interesses estratégicos, tanta grana e tanto poder, seja tão pouco posta na berlinda. Mesmo nesses tempos, em que o advento da internet buliu com um bocado de coisas. Embora a própria internet já dê sinais de estar sendo "disciplinarizada" por essa espécie de imanência.



P.S. – Uma admirável exceção a esse estado de coisas, a essa telenovelização do jornalismo é o portal da BBC Brasil – que, de resto, sempre indica, saudavelmente, para o que saiu reportado sobre o país nos grandes jornais europeus ou norte-americanos. Que busca uma análise mais conjuntural, consequente. Longoprazeada. Ou pode se dar ao luxo de ter um cronista da verve de um Ivan Lessa.


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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Uma visão de transparência: Williams

[s/i/c]





Nantucket


Flowers through the window
lavender and yellow

changed by white curtains—
Smell of cleanliness—

Sunshine of late afternoon—
On the glass tray

a glass pitcher, the tumbler
turned down, by which

a key is lying—And the
immaculate white bed


William Carlos Williams




Nantucket


Flores pela janela
lavandas e flavas

alteradas pelas cortinas brancas—
Aroma de limpeza—

Réstias de fim de tarde—
Na bandeja de vidro

a jarra de vidro, o copo
emborcado, no qual

jaz uma chave—E a imaculada
cama branca



Nota – Quase não poderia haver escolha mais óbvia: um dos mais traduzidos poemas de Dr. Williams. Mas onde achar uma peça em que as palavras conformam tamanha sensação de transparência? É certo que palavras não podem se inteiramente transparentes. Elas resguardam algo de opaco. Mas aqui, no entanto, elas quase translúcidas, cristalinas. Sem se ver só em parte. Nantucket é uma tradicional estação de veraneio, situada em um ilha, no estado de Massachusetts. Foi em tempos idos uma vila de baleeiros. E é hoje famosa por sua arquitetura antiga e pela prática de esportes náuticos – em especial a vela. É quase uma senha, um patrimônio para os americanos, mais ou menos como para nós é Paraty.



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Alguns perdidos e uma noite

Estátua de Plínio, o Jovem, em Como


De Plínios, Paralelas & O Retrato de Dom Pedro


Ao que aponta a evidência, um dos poucos Plínios que, de fato, fez bem ao Brasil foi o Marcos. Quanto ao Salgado e ao Arruda Sampaio nada indica que iriam governar com qualquer senso de democracia. Embora, com toda certeza, o integralista escrevesse melhor que o atual candidato do PSOL. E tivesse mais estofo intelectual.

Dos Plínios romanos, o velho foi o um reputadíssimo naturalista. E o jovem, que era seu sobrinho, um orador e político sagaz o suficiente para manter sua cabeça junto ao tronco ao longo de uma sucessão de imperadores que destilavam sangue, como Trajano.

Plínio Arruda Sampaio foi aplaudido por uma pequena claque de exaltados no deabate de ontem para hoje. É, no entanto, bom saber que o Brasil não o elegerá. E impressiona o jargão militar empregado pela extrema esquerda: "batalha", "luta", "guerra". Parece tomado de empréstimo dos que mais os perseguiram nos anos de chumbo: militares linha dura.

Em tempo, não creio que seja à toa que um conhecido que sempre simpatizou com candidatos da extrema direita tenha declarado uma certa queda por Plínio Arruda Sampaio. Não se cruzam as paralelas no infinito?

Desconfiar de qualquer excesso de ideologização nos diascorrentes. O que é necessário? Bons administradores. E respeito pelo estado de direito.

À luz da história, é provável que Dom Pedro II haja sido o maior dos homens públicos brasileiros. Ao menos assim o entendia Machado de Assis. É uma opinião de peso. Machado, inclusive, num pequeno ato de bravura pessoal, impediu, com empenho próprio, que o retrato de nosso segundo imperador fosse removido de seu gabinete, no Ministério da Agricultura, pelos republicanos golpistas. 


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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Redes Sanguessugasociais

Lásló Moholy-Nagy, 1923


Gradações


Deixar o MySpace foi uma atitude digna. Discreta, talvez. E honesta. Até porque andava insatisfeito não com as composições em si – letras, progressões harmônicas, dedilhados, arranjos, instrumentação – mas com as deficiências, as limitações técnicas das gravações: mixagem, equalização, etc. Abandonar o Facebook foi um alívio – para minha caixa postal, inclusive. Agora, chispar do Twitter foi uma libertação. Algo análogo à travessia do Mar Vermelho. Como se tem mais tempo pra tudo. Para o mundo: céu, ruas, árvores, um café amargo e aromático, esquinas, livros, bichos, manhãs, gentes. Acho que tem até a ver com o fato de haver voltado a escrever mais; e, por tabela, postar mais por aqui.


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No Atacado

Peter Eisenman and Robert Cole, 1975



De "Doutores" e Números


O que causa alergia nos cursos de pós-graduação não é algo que resguarda um valor em si em relação a esses cursos. Pós-graduar-se, quer dizer, ter a a aspiração, o desejo de aprofundar conhecimentos que sigam mais além do que foi ofertado nas ralas graduações dos diascorrentes, é algo legítimo. 
O que não é legítimo é outra coisa, que independe disto. É uma questão de número: a megametria por detrás da coisa toda. 
Quer dizer, de uns tempos para cá, obter um diploma de doutor, por exemplo, converteu-se tão-só num "degrau de carreira". Mecanicamente. Algo que, na maior parte dos casos, nada tem a ver com legítimas aspirações, inclinações ou interesses pessoais dos doutorandos em elastecer o conhecimento individual ou aprofundar e dimensionar melhor algo que pode ser coletivizado, para um público mais amplo. Divisar melhor certos temas até então obscuros ou pouco tocados. Do contrário, o que há, mais e mais, tem a ver com a necessidade dos cursos de pós-graduação de se referendarem junto aos organismos que os monitoram.  O que equivale a dizer: desovar semestralmente certo número de teses. 
Aqui, o que menos importa é a relevância, a originalidade, a boa escritura, a qualidade, enfim, dessas teses. Afinal, elas constituem, no frigir da omelete, independente do mérito individual de cada uma, apenas unidades em si. Converteram-se em mera estatística para que o curso, por meio de mais esse critério numérico, seja bem avaliado pelos burocratas do CNPq e da Capes. 

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Aeroletras 1

Alfred Stieglitz, Aeroplane, 1910



7 dispersões
– um giro pelos suplementos literários do planeta



1. Abrigar a luz à sombra [http://bit.ly/cPOHKn]
Bom e breve obituário de Bernard Knox. Knox [1914-2010] foi um reputável tradutor, professor e estudioso do grego clássico. Escrevia soberbamente, como atesta o prólogo à tradução da Ilíada por Robert Fagles [Penguin Books]. Fiz questão de citar trechos desse magnífico prólogo num texto chamado Prefácio a Aquiles [encontrável na rede Aqui]. Knox estudou e, posteriormente, ensinou em Cambridge. Lutou na Guerra Civil Espanhola e na II Guerra Mundial, onde foi para-quedista. Portanto, sabia empiricamente do que estava falando ao tratar da violência da Guerra de Troia, e de seu principal protagonista. Knox parece ser da cepa daqueles europeus que estão desaparecendo: os que conheceram as vacas magras, o frio, a fome, a guerra, as bombas, a violência, a incerteza, o terror, o genocídio, a ruína, a privação. Quase foi morto na Espanha, onde lutou ao lado dos Republicanos, e onde foi deixado para trás, com a carótida aberta, desenganado, por seu próprio pelotão. Dele se pode repetir o que o obituarista, seu ex-aluno, declarou, em lucidez, haver sido sua tarefa de professor – por meio de um verso de Ésquilo – : “abrigar a luz à sombra”. No NYR of Books.


2.O Paralelo Dez: a fronteira da cruzada hodierna [http://bit.ly/aiZA2c
Livro de Christopher Caldwell, The Tenth Paralell, trata da verdadeira batalha travada entre cristianismo e islamismo na África contemporânea. Sem dúvida, a África é, de momento, “a fronteira espiritual”. Pelo  calor humano com que aborda a questão, distante de maniqueismos e habituais clichês jornalísticos ou mesmo biográficos, a obra merece leitura mais detida por parte de quem se interessa pelo assunto. O livro não se furta ao relato anedótico e até certa dose de humor. Na Slater.
Extenso perfil, cheio de verve, do orientalista Edward Said: “um homem que gostava da palavra 'estilo'” e cujo primeiro estudo foi sobre Joseph Conrad e a ficção autobiográfica. Difícil dizer se Said manter-se-á como teórico. Teórico, aliás, que traça relações entre o Ocidente e um Oriente, de início ficcionalizado e exotizado [pelo Ocidente] até a raiz dos cabelos. Mas tudo que faz menção a Conrad, nem que na tangência, merece ser sublinhado. O autor do artigo é Michael Wood. No London Review of Books.

4. Ficção na era do e-book [http://bit.ly/awv0mk]
Entrevista com Paul Theroux. O assunto? Livros digitais! Num determinado momento ele diz, quando questionado sobre a possível inflação de livros em função das excessivas facilidades da publicação digital: “mas não estão as bibliotecas abarrotadas de livros que ninguém lê?”. Convenhamos, é verdade! Na Atlantic Magazine.

5. Ações, subindo,descendo, montanharussamente na Bolsa de Valores Literária [http://www.guardian.co.uk/books/booksblog/2010/sep/24/author-reputation-dostoevsky]
De como a reputação de Dostoiévski foi avassaladoramente arrassada em 1846. Em certo blog do Guardian Books.

6. Richard Yates [http://nyti.ms/9IsLoL]
Romance de um jovem escritor americano, chamado Tao Lin [27 anos]. Leva o nome do outro escritor, mais famoso: Richard Yates. Talvez por tentar reviver a intensividade sinestésica do estilo de Yates. Mas o centro da trama é um amor juvenil que se dá entre Nova York e Nova Jersey. Ele tem 22; ela, 16. No NYT Books.

7. O Mundo que Nunca Houve [http://lat.ms/a0u2ZK]
Um estudo de como os atentados terroristas, as teorias conspiratórias e a difamação de agentes infiltrados, bem mais que os esforços de Marx, desacreditaram quase por completo o anarquismo. The World That Never Was – A True Story of Dreamers, Schemers, Anarchists and Secret Agents, massudo ensaio de quase 500ps. sobre o tema,por Alex Butterworth.  Uma delícia para quem aprecia o tema desde as compilações do velho e bom George Woodcock, ainda lidas, no segundo grau, nas traduções da L&PM. E obviamente perdidas em empréstimos a amigos [tss, tss]. Resenha no LA Times.



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terça-feira, 28 de setembro de 2010

E Unibus Pluram: Foster Wallace


Cindy Sherman, Untitled Film Still #3, 1998



Segue a tradução de trecho de um famoso ensaio de David Foster Wallace escrito em 1993. O artigo dá testemunho da fertilidade da mente de Foster Wallace. E de o quanto ele não se eximia de pensar em bloco a questão do escritor de ficção desde dentro. Concebendo-se a si próprio como parte do bando [bunch]. Não menos é comovente que haja uma visceral busca de verdade no que escreve. Como no trecho de artigo que se segue onde se toca na relação entre ficção e televisão via voyeurismo. Talvez por tudo isso, Foster Wallace seja um dos mais amados escritores americanos dos últimos tempos, e sua morte prematura, aos 46 anos, em setembro de 2008, tenha despertado tanta comoção. O título original do artigo é E Unibus Pluram: Television and Ficction in U.S. e pode ser lido na íntegra, em inglês, aqui: http://jsomers.net/DFW_TV.pdfEncontra-se dividido em duas metades: 1. Act Natural (Aja Natural; ou Seja Natural, se quiserem) e 2. The Finger (O Dedo). O que segue abaixo é a tradução de um considerável excerto da primeira parte:








E Unibus Pluram: Televisão e Ficção nos Estados Unidos.

Aja Natural

Escritores de ficção, como espécie, tendem a comer com os olhos. Tendem a esconder-se e encarar. No momento em que escritores de ficção cessam de mover-se, começam a esconder-se e encarar. São observadores natos. São espectadores. São aqueles no metrô cuja desinteressada fixidez guarda, de algum modo, algo repugnante. Quase predatório. Isto se dá porque as situações humanas são o repasto dos escritores. Ficcionistas observam outros seres humanos do modo como basbaques diminuem o passo ante batidas de carro: eles cobiçam uma visão de si próprios como testemunhos.
Porém ficcionistas como espécie tendem a ser terrivelmente auto-conscientes. Mesmo para padrões norte-americanos. Dedicando jardas de tempo produtivo ao estudo meticuloso de como as pessoas deles se aproximam, ficcionistas também gastam um horror de tempo produtivo a especular achacosamente como eles se aproximam das outras pessoas. Como aparecem, como parecem, como a borda de suas jaquetas deve flutuar à solta, ou se há marcas de batom em seus dentes, ou se as pessoas que eles estão observando podem eventualmente surpreendê-los como repugnantes espiões e bisbilhoteiros.
O resultado é que a maioria dos escritores de ficção, observadores natos, tendem a não apreciar serem objetos da atenção alheia. Serem observados. As exceções à regra –Mailer, McInerney, Janowitz – criam a especiosa impressão que muitos tipos de beletristas gostam da atenção das pessoas. Não é assim com a maioria. Os poucos que gostam de atenção a obtêm naturalmente em maiores doses. O resto de nós, menos, e comemos com os olhos.
Muitos dos ficcionistas que conheço são americanos com menos de quarenta. Não sei se ficcionistas com menos de quarenta assistem mais televisão do que outras espécies americanas. Os estatísticos reportam que se assiste cerca de seis horas de televisão em um lar americano médio. Eu não conheço um único ficcionista que viva em um lar americano médio. Suspeito que Louise Erdrich talvez viva. Falar a verdade, eu nunca vi um lar americano médio. Exceto na TV.
Assim meio de cara se pode divisar um par de coisas que assomam potencialmente relevantes, quanto aos ficcionistas americanos e sua relação com a televisão nos Estados Unidos. Primeiro, a TV opera um bocado de pesquisa predatória por nós. Como seres humanos, americanos conformam um bando evasivo e proteico, na vida real, dificilmente passíveis de serem tratados univocamente por um território literário que moveu-se de um naturalismo darwinista a uma cibernetismo pós-posmoderno em oitenta anos. Mas a televisão sobrevêm equipada com esse trato sintético. Se desejarmos saber o que é a normalidade americana – o que os americanos aspiram encarar como normal – podemos confiar na televisão. Pois toda raison da televisão é refratar o que as pessoas querem ver. É um espelho. Não um espelho à Stendhal refletindo o azul do céu e a poça enlameada. Está mais para o espelho do armário de banheiro diante do qual o adolescente monitora seu bíceps e determina seu melhor perfil. Essa espécie de janela sobre a tensa auto-percepção norte-americana é de fato inestimável, friccionável em sabedoria. E escritores podem ter fé na televisão. Há um bocado de dinheiro em jogo, afinal; e a televisão contém a melhor amostra que demógrafos dedicados às ciências sociais aplicadas têm a oferecer, e esses pesquisadores podem assim determinar precisamente o que os americanos nos anos 90 são, querem, veem: o modo que nós como audiência desejamos nos entrever. A televisão, da superfície ao fundo, diz respeito a desejo. Falando ficcionalmente, desejo é o açúcar da dieta humana.
A segunda coisa notável é que a televisão parece ser uma absoluta dádiva divina para uma subespécie humana que adora observar as pessoas mas detesta ser observada. Pois a tela da TV propicia um acesso em mão única. Uma válvula física de teste para bolas. NÓS podemos vê-LOS; ELES não podem NOS ver. Podemos relaxar, desapercebidos, enquanto comemos com os olhos. Creio que é por isso que a televisão tem também tanto apelo para solitários. Para enclausuramentos voluntários. Cada ser humano solitário que conheço assiste bem mais que a seis horas médias diárias dos outros americanos. O solitário, como o ficcionista, adora a observação de mão única. Pois as pessoas solitárias são em geral solitárias não por conta de horrendas deformações ou odores ou algo que as torna repulsivas – de fato hoje existem grupos de suporte social para pessoas com essas precisas características. Solitários tendem a ser solitários porque se recusam a enfrentar o custo emocional associado a se estar cercado de outros seres humanos. Eles são alérgicos a pessoas. As pessoas os afetam de modo forte em excesso. Chamemos o americano solitário médio de Joe Briefcase [Nota do tr.: algo como Zé Pasta (de documentos, dessas usadas por executivos. Mas a expressão também pode ser traduzida como "breve caso": Zé Brevecaso.)]. Joe Briefcase tão-só detesta o fluxo de auto-consciência que tão estranhamente surge somente quando outros seres humanos reais estão à volta, fixando, suas antenas-humanas eriçadas. Joe B. teme o modo como ele pode aparecer para observadores. Ele se põe ao largo do estressante jogo americano do pôquer da aparência.
Mas solitários, em casa, sozinhos, ainda anseiam por visões e cenas. Daí a televisão. Joe pode encará-LOS, na tela; ELES permanecem cegos para Joe. É quase como voyeurismo. Conheço pessoas solitárias que enxergam a televisão como uma verdadeira deus ex machina para voyeurs. E boa parte da crítica, da virulenta crítica, menos ponderada e mais salpicada sobre as redes, anúncios comerciais, e os espectadores indistintamente, tem a ver com a acusação de que a televisão nos tornou uma nação de complacentes voyeurs de queixo caído. A acusação constitui uma inverdade, mas por estranhas razões.
O clássico voyeurismo é espiacional: observar pessoas que não sabem que você está lá no que prosseguem com as prosaicas mas eroticamente densas tarefas da vida privada. É interessante a medida de o quanto o clássico voyeurismo envolve instrumentos de janelas emolduradas por vidros, telescópios, etc. Talvez essa moldura vítrea é o que faz a analogia com a TV tão tentadora. Mas a assistência da TV é um animal diferente do peeping tourism. Porque as pessoas que assistimos pelo vidro emoldurado da TV não são realmente ignorantes do fato de que há alguém as assistindo. Em verdade, uma vasta porção de alguéns. Em verdade, as pessoas na televisão sabem que é em virtude dessa enorme massa de alguens comedores com os olhos que se dá a própria razão de elas estarem na tela, ocupadas com gestos largos, de nenhum modo prosaicos. A televisão não propicia o verdadeiro espiacionalismo, porque a televisão é performance, espetáculo, o que por definição requer observadores. Não somos voyeurs, aqui, portanto. Somos meros espectadores. Somos a Audiência, megametricamente numerosa, embora com frequência a assistamos sozinhos. E Unibus Pluram.
Uma das razões pelas quais escritores de ficção parecem repelentes no plano pessoal é o fato de serem realmente voyeurs por vocação. Eles precisam desse direto furto visual de observar alguém sem ter de contrapor uma individualidade especialmente assistível. A única real ilusão no espionalismo é sofrida pelo voyeurizado, que desconhece que está fornecendo imagens e impressões. Um problema para muitos de nós, escritores de ficção com menos de 40, lançando mão da televisão como substituto do verdadeiro espionalismo, no entanto, é o de que o voyeurismo da TV envolve toda uma opulenta orgia de ilusões para o pseudo-espião, quando o assistimos. Ilusões é tudo que voyeurizamos aqui: os voyeurizados do lado de lá da tela estão apenas insinuando uma ignorância de serem vistos. Eles sabem perfeitamente que estamos do lado de cá. E a instância de nos encontrarmos aqui está por igual bem enfronhado nas mentes dos que se postam por detrás da segunda camada de vidros, as lentes e os monitores por intermeio dos quais técnicos e diretores desdobram-se sem nenhuma ingenuidade para lançar a imagem até nós. O que nós vemos está longe de ser roubado. É ofertada – ilusão. E ilusão que assistimos pela moldura envidraçada; não se trata de pessoas em situações reais que agem ou mesmo movem-se sem a consciência da audiência. O que jovens escritores estão vasculhando, os dados de certas realidades a ficcionalizar, já se encontram compostos por personagens em narrativas altamente ritualizadas. E mais, nós não estamos sequer vendo personagens
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A aparição auto-consciente da ausência de auto-consciência é a grande ilusão por detrás da sala de espelhos de ilusões da TV; e para nós, a audiência, é simultaneamente remédio e veneno. […] Pois reparamos nessas pessoas raras, altamente treinadas, aparentemente não assistidas, seis horas por dia. E adoramos esse pessoal. Ao ponto de atribuí-los verdadeiras propriedades sobrenaturais e desejarmos emulá-los, nós como que os veneramos.
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