quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A gente faz o que o coração dita















"Mas esse mundo é feito de maldade, ilusão"

Faz lembrar o verso acima, de Caymmi, em "Saudades da Bahia", a cândida ingenuidade dos torcedores do Ceará Sporting: julgar que estavam disputando vaga na Libertadores. 
Os times da Série A de fato acordaram para o Brasileirão depois da Copa. E o Ceará voltou a certo princípio de realidade. De momento segue já em oitavo, com amplas possibilidades de resvalar para mais baixo, uma vez que a rodada encerra só hoje. E já vai pelo quarto treinador - o terceiro recrutado depois da reles campanha pós-Copa. 
E de quem se trata esse treinador? Dimas Filgueiras, o nome menos surpreendente para comandar um alvinegro que deverá nadar bastante contra a corrente, se não quiser chegar às últimas rodadas rondando o rebaixamento. O simples fato de o técnico que havia começado a "gloriosa" campanha haver preterido o Ceará na primeira colocação por um Vasco na zona da degola, durante o interlúdio da Copa, diz tudo. Mas o entusiasmo do fortalezense com futebol não arrefece. Isso tem seu quê de beleza. Aqui, o princípio de realidade é deixado de lado. Em nome da ilusão. E de um pouco de ilusão alimenta-se a vida. 


Mas nem tanto. 



P.S. - por tudo isso, compreende-se a "euforia" da manchete hoje, na capa de O Povo ante um simples empate com o Vitória, em Salvador, num dos jogos mais horrendos de assistir desta temporada: "Empate que valeu à pena" [sic], assim com crase. Quem sabe para reforçar mais a pena valida. 


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Semiótica de Botequim

















[s/i/c]


Si

Se a palavra não fosse importante para a música, o nome de uma música (mesmo instrumental) não seria uma palavra.


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Desagravo à moda antiga












[s/i/c]

Com um Leve Acento & um Coldre


Dias desses, presenciei uma pérola de exercício dos direitos da cidadania. Pagando uma taxa no subsolo de um magazine, no Centro, havia lá aquela moderada, mas morosa, fila. E, em contraponto, certo sujeito que se achegou direto ao balcão, postando-se atrás dos atendidos da vez, sem a mediação da fila. 
Um sujeito mais sanguíneo gritou da fileira - gritar é uma modalidade de falar baixo em Fortaleza, onde tudo são berros: 
-Vai furar a fila, mesmo, rapá?
-Olha, sujeito, faço pagamentos aqui todo mês; e fique aí, fique na sua! 
E uma das caixas, voltando-se para o da fila:
-Ele é cliente preferencial, porque vai pagar com o X-cartão - o cartão de crédito da loja. 
-Desculpe! - disse o da fila meio jururu.
-Cuide da sua vida, cabra! - disse o portador do X-cartão, com um leve acento caririense, enquanto soerguia um pouco a camisa, o suficiente para nos cós das calças entrever-se o coldre do revólver. 
O suficiente para a fila quedar-se em silêncio. E uma quase imobilidade.


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Poder & Prazer

Robert Gober, Untlitled, 1991



Muito Prazer

É claro que sentir prazer é fundamental na vida de qualquer pessoa. O perigo é quando esse prazer confunde-se com a necessidade de cortejar uma forma de poder. Seja ela qual for.

Mais do que nunca vivemos numa época em que poder e prazer comprazem-se. Parecem indissociáveis para a maioria. Uma maioria míope. Pois os verdadeiros prazeres encerram-se em pequenas coisas, quase secretas de tão quotidianas. 


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Adeus, caro Suspense

[s/i/c]



Que não caem todo dia


Mesmo quando não se tem lá grande interesse por política institucional -  afinal há tanta coisa na vida mais interessante com que se ocupar; e coisas até mais políticas, no senso estrito - é fácil perceber a exasperação das editorias de política na grande imprensa quando se pressente que um(a) candidato(a) segue bem adiante dos demais e, muito provavelmente, o segundo turno está fadado ao beleléu. 

Algo do suspense das telenovelas, linguagem, afinal definidora até do que se escreve sobre política, dissipa-se no ar. 

Eis porque escândalos são buscados como gemas escassas num rio cujo cascalho já segue quase exaurido de seus veios diamantíferos. As revistas semanais, Veja, em particular, exemplificam melhor que ninguém essa tendência. 

Para os grandes conglomerados de comunicação, a vitória imediata, no primeiro turno de um(a) candidato(a), lhes retira boa parte do poder de barganha de que dispõem. Minguando-lhes polpudos, potenciais lucros que não caem no cofre-forte todo dia. 




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sábado, 4 de setembro de 2010

Medidas de tempo


[s/i/c]



Para uma antologia de números equívocos


Lê-se muito disparate nas edições de O Povo e do Diário. A pressa da informação embaralha. Na edição de O Povo, deste sábado, em certa coluna usualmente bem escrita, lá está:

"A Troller vende por mês cerca de 1.500 carros por ano".


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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Blowing through Brazil


Bob Dylan, Bahia, 2009



Dylan, Elis Regina e o Brasil

Alguns podem ainda desconhecer, mas Bob Dylan nutre uma sorte de fascínio pelo Brasil. Em um seu programa de rádio, anos atrás, ele desmancha-se em elogios a Elis Regina. Está no Youtube, bem aqui:


E, mais recentemente, julho passado, convidado a expor seus quadros - ele pinta desde muito jovem - num renomado museu de arte de Copenhague, Dylan optou por um grupo de 13 obras a que denominou: The Brazil Series. Os 13 quadros - alguns dos quais guardam uma marcante semelhança com o estilo de Matisse - podem ser vistos aqui:




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Em uma ou três semanas


Juan Brossa, Vampir, 1989


Jornalismos, Vampirismos, Detetivagens em Dois Palitos de Porrinha



I.

Impressiona o destaque dado à violência nos dois diários locais. Algo que vaza para quase todas as seções ou editorias. É sangue e contrafação em excesso para matar a sede dos leitores. Nenhuma reflexão mais acumulada, consequente. Apenas sangue quente. Jorrando. Tome-se a capa da edição virtual de hoje em ambos, ao romper do dia, 5hs40min:


No O Povo: “Portugueses são presos no aeroporto com cocaína amarrada às pernas”; “Homem é encontrado morto com perfurações à bala em Aquiraz”; “Policial é atingido por tiro acidental disparado por colega do Ronda”; “Condenados por crime hediondo podem cumprir mais tempo na cadeia”; “Ministério Público vai investigar morte de operário em obra do Porto do Pecém”; “Prisão de autoridades deixa Dourados, em Mato Grosso do Sul, sem governo”; “Duas pessoas morreram e 15 ficaram feridas nas últimas 24h nas rodovias do CE”; “IBGE: taxa de homicídios cresce 49,3%”; “Vídeo de menina jogando filhotes no rio causa revolta na internet”.


No Diário do Nordeste: “Caso Cearamor: PM diz sofrer ameaças”; "Patrulha tem pistas de ladrão de carro"; “Bandido morto usava cinto com 2 armas”; “DDF captura jovem acusado de fraudes”; “Homicídios cresceram 32% em 15 anos”; “Receita admite falsificação em procuração”; “PF prende prefeito e vereadores de Dourados”; “Homem faz 3 reféns na TV Discovery”; “Assista ao flagrante policial na Gentilândia!”.


São 9 chamadas em cada capa. O que apenas aponta para uma concisão maior nas manchetes do Diário. E há ainda a mais bizarra delas: a manchete de O Povo com esses vagos "filhotes" jogados no rio. Os especialistas em vendas e marketing, em ambos, no entanto, bem sabem o que, de fato, vende jornal.



II.

Pode-se ir buscar a origem dessa tendência vampiresca nos primeiros jornais da modernidade, publicados em Londres à época da Rainha Vitória, quando a repressão da sexualidade aguçava a sede por essa sorte de notícias. Mas, de lá para cá, de um ou de outro modo, elas sempre estiveram por aí, em destaque ao longo dos anos.

O artista moderno, anônimo, diluído na multidão, surgiu justamente ao tentar achar certos rastos (ou o próprio rosto) como um detetive. O filme 'noir' acrescentou a essa tendência certa dimensão de humor, glamour, desfaçatez, mas também uma calculada e, por vezes, invertida misoginia. Assim como de humor negro estão repletos algumas das melhores realizações de Tarantino, dos irmãos Cohen.

A figura do detetive, à sua vez, está no embrião da modernidade detectada por Benjamin na Paris de meados do Sec. XIX junto com outras figuras emblemáticas: o flâneur; o dândi; o homem sanduíche; o terrorista; o conspirador profissional; o fotógrafo de portraits retocados; o boêmio; o poeta endividado, nômade urbano, consumindo ópio, haxixe, absinto; o grande financista; o escritor melancólico que reconstitui cada mínimo detalhe até o caminho de Swann...


Mas o detetive.


Ele é figura chave. História, em grego [ἱστορία] não quer dizer mais do que "investigação", "inquérito". Não propriamente apenas desses crimes, que as manchetes dos jornais vertem sobre nossas cabeças, dia após outro, como duchas quentes. E que, volta e meia, provocam tanta comoção, tanta indignação.

Totalmente esquecidas uma ou três semanas depois.


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carne e sopro e estamos rentes: O'Hara


Stephen Antonakos, Incomplete Circle, 1975



Poem


When I am feeling depressed and anxious sullen

all you have to do is take off your clothes

and all is wiped away revealing life’s tenderness

that we are flesh and breathe and are near us

as you are really as you are I become as I

really am alive and knowing vaguely what is

and what is important to me above the intrusions

of incident and accidental relationships

which have nothing to do with my life


when I am in your presence I feel life is strong

and will defeat all its enemies and all of mine

and all of yours and yours in you and mine in me

sick logic and feeble reasoning are cured

by the perfect symmetry of your arms and legs

spread out making an eternal circle together

creating a golden pillar beside the Atlantic

the faint line of hair dividing your torso

gives my mind rest and emotions their release

into the infinite air where since once we are

together we always will be in this life come what may


Frank O’Hara



Poema


Quando me sinto deprimido e ansiosamente sombrio

tudo que você tem a fazer é tirar a roupa

e tudo desvanece a revelar a ternura da vida

pois somos carne e sopro e estamos rentes

e como você é mesmo você eu me torno eu

mesmo vivo e conhecendo vagamente o que há

e o que me é importante acima das intromissões

das relações acidentais ou incidentais

que nada tem a ver com minha vida


quando estou na tua presença sinto que a vida pode

e irá derrotar todos os inimigos dela e os meus

e os teus e você em si e eu em mim

somos curados da doentia lógica e do tênue tirocínio

pela perfeita simetria de teus braços e pernas

distendidos conformando um eterno círculo

criando um pilar áureo ladeando o Atlântico

a escassa linha de pelos dividindo teu torso

dá à minha vida sossego e emoções e alarga

no ar infinito pois uma vez que estamos juntos

juntos estaremos sempre nesta vida venha o que vier



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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"O local não é um lugar, mas..."

Ruy Vasconcelos, Contraplano de Esfinge, 2008


Localia, uma desopressão
-ou Contra a Academia do modo como ela se organiza para entender a questão do local, em especial nos cursos de Humanidades.


A questão do local. O modo como essa questão é crucial. Como se pode abordá-la?
É claro que o local, por um vértice e entre outros, está contido em outra questão, primeira, anterior, mais básica e que pouco tem a ver com o que o termo local sugere no senso mais comum: o assunto. E, logo ao delicado equilíbrio entre o assunto e a forma de conversá-lo. Mesmo que o assunto, em circunstâncias determinadas, possa ser visto como um mero pretexto diante do modo como - seja ele qual for, seja em que parte do mundo se dê - é abordado a partir de uma série de dispositivos e preconcepções.
Ninguém pode abster-se de dispositivos, preconcepções. E eles podem ser resumidos sob a rubrica da mundividência de quem está realizando um projeto de criação ou pesquisa - não há separação entre essas duas instâncias, no fim de tudo. O pesquisador segue em sua pesquisa com o conhecimento que acumulou ao longo de um determinado lapso de tempo. E segue acumulando "em vínculo" com o assunto. Este "em vínculo" é importante porque dele surtem as associações mais inesperadas, que são as que realmente importam, valem a pena. As que portam mais mistério. E se desdobram por exegese. As mais intuitivas. As mais anômalas, vamos dizer.
O problema, aqui, no entanto, é que o estoque de ideias formadas a partir de um local -- isto é de um lugar subjetivado pela sensibilidade do pesquisador em conjunção com as formas coletivas estabelecidas pela memória (o que chamo de "formas da história") -- pode ser muito escasso a depender do grau de projeção e ressonância que esse dito local propicia. Uma cidade que é um centro regional, como Fortaleza, emite muito pouco se comparada com um centro regional em língua inglesa num país historicamente mais ao centro do que usualmente é rotulado de Ocidente. Isso equivale dizer que centros como Atlanta, Birmingham, Melbourne, San Diego ou mesmo Jaipur, Patna ou Durban emitem bem mais ressonância cultural do que Fortaleza. Estão mais presentes em outros cantos e fóruns do planeta.
Mas tornando à questão do local, em épocas passadas esse conhecimento, versátil e aberto às associações inusitadas (uma vez que pouco tutelado pelas normas acadêmicas) era chamado de "erudição". Ele pode ser encontrado, sobretudo, nas páginas de teóricos que assumiram uma postura radicalmente antiacadêmica, no sentido de manter uma "carreira": Simmel, Huizinga, Benjamin, Flusser, et alli.
Nos diascorrentes, ao que parece, "erudição", como termo, soa pretensioso, e guarda um travo, algo, arcaico. Infelizmente. Porém é a erudição quem possibilita essa ponte, ainda não avariada, entre as ideias mais abstratas, gerais e a riqueza de possibilidades contida nos diferentes planos de camadas, discursos e significados, coerências e incoerências, estoque de beleza e graça, ou de tédio, estagnação, fealdade do quotidiano de um determinado local.
Daí que soa sempre gratuito lançar mão das teorias de Benjamin, Barthes, Bazin, Borges, Bakhtin..., se esse lançar mão não mancha a teoria original com o tisnar mais prosaico do quotidiano e das sinestesias que só um profundo mergulho na instância do local pode propiciar. Ou seja, se o pesquisador, enquanto leitor, não conversa com o lido, apenas aceita-o ipsis litteris. E é o que ocorre com a maioria dos professores e orientandos. Essa pior sorte de reverência: subserviente. A reverência não desejada pelos próprios autores. Mas isto ocorre porque professores e orientandos mal são capazes de LÊ-LOS num corpo a corpo, recorrendo, quase sempre, a especialistas e intérpretes - "interpretação", essa palavra espúria que, ora, é mágica via psicanálise e seus transbordamentos. Pode-se defender a palavra exegese mas não a palavra interpretação. Toda a psicanálise assenta-se na idéia de "interpretação" e aqui reside um de seus - não poucos - equívocos, pois como diz George Oppen:










Um analista tem tanto direito quanto qualquer outra pessoa de ser um idiota. O que admira é a aptidão do paciente para aceitar isso [o trabalho de análise], meio como se todos estivéssemos jogando uma partida de xadrez em que tão-só fosse necessário que se observassem as regras do jogo. Da mãe, você tem ciúmes; do pai – ui, rapaz – esse é um perigo; o bispo move-se enviesado. Se não for louco, é certamente o consolador de Jó: “você deve ter pecado”. Acho que é bem insano. Acho que é bem medonho. O que me parece mais medonho é que tal prática tornará impossível que maridos e esposas, pais e filhos conversem entre si sobre coisas aterradoras e sérias, porque eles não podem, obviamente, falar desse jeito. Essas coisas só podem ser levadas a sério num ‘nível profissional’.
[OPPEN, Selected Letters - tradução nossa]

No entanto, na maioria dos casos, digamos, os universitários brasileiros [guiados por seus tutores ou "orientadores"], mesmo alguns daqueles com certa argúcia para a associação, mesmo os dotados do talento necessário para envolver seu assunto em uma heteronomia, no fim de tudo apenas produzem algo serial. E naufragam nos mares da interpretação. Pois negligenciam as associações entre teoria e quotidiano. Especialmente aquelas mais misteriosas, menos teleológicas ou tuteladas por um sistema apriorístico.
Ora, são as livres associações heteronômicas que salpicam o assunto de intuição, mistério, passando ao largo dos emasculados esquemas teóricos explicativos, redundantes, ocos se não enganchados nas realidades locais e específicas. Mas desgraçadamente, em geral, é apenas essa redundância teórica e más paráfrases o que se encontra em monografias, dissertações, teses. O que as converte em mera informação repassada em clichê. Informação fria, sem nenhuma poesia ou verdadeiro calor humano. E em intervalos cada vez mais breves - como na moda. Algo que, se posto à lupa, não expressa a subjetividade do autor da pesquisa conveniada a uma re-flexão sobre as circunstâncias reais e concretas do quotidiano em que o próprio autor/ realizador/ pesquisador insere-se - uma vez que por desconhecimento de causa histórico, antropológico, etnográfico, linguístico, esse quotidiano é mantido, na maioria dos casos, ao largo de sua re-flexão. É este manter ao largo o local - sem tomá-lo com exotismo folclórico ou ridículos espasmos ufanistas, ou a preocupação em achar no mapa algo que referende a sede da esquerda - que azeita a engrenagem gasta, cega, fechada sobre si, da academia. O basilisco que remorde o próprio rabo.
Isso vale para qualquer assunto. Vale para qualquer expressão. Ou para usar um termo mais prezado, hoje em dia: vale para qualquer suporte - som, imagem, formas no espaço, tipos no papel, etc. Os suportes constituem, na verdade, apenas veículos de expressão mas, em vez de fundar confinamentos especialistas, deveriam, do contrário, converter-se numa importante ferramenta para a mente arejada; a que, de fato, cria.
Podemos chamar essas criações de artesanias. E constatar que vivemos num tempo em que as artesanias, que compõem um leque muito vário de expressões com seus respectivos suportes, estão mais do que nunca ao alcance da mente criativa, se ela possui um mínimo domínio dos meios capazes de estruturar uma linguagem.
Aqui, a questão é simultaneamente semiótica e tecnológica.
Nos diascorrentes, é mais fácil ser ao mesmo tempo poeta, tradutor, cineasta, músico, sonoplasta e, vamos dizer, etnógrafo. E justo pela desnecessidade de especificamente pinçar uma dessas expressões como exponencial ou determinante. Porém, do contrário, sabendo de seus limiares, conjugá-las na medida certa de seus condimentos até o ponto em que se gratine o resultado final. Embora a maioria das pessoas teime em compreender a diversidade dessas expressões ao largo de uma instância da heterodoxia, que muitos tomam, erroneamente, tão-só como um sinal de dispersão ou fragmento vazio ou mau ecletismo - uma vez que não respaldam, sancionam ou resilenciam uma teoria integralmente. E uma teoria, em geral, gestada em latitudes muito distantes.
A tutela da conformidade com a teoria embute uma instância política. Uma instância de estagnação política.
O que é necessário: deformar essas teorias - em geral europeias ou norte-americanas - com a força de uma elocução local. Poucos têm tutano para tanto. Certamente não a academia en bloc.
Pois a academia, à sua vez, pouco tem feito para suavizar o grau desse confinamento. Do contrário, porquanto ela dá uma ênfase equívoca à questão da classificação. Com se a classificação dentro de redutores esquemas teóricos fosse a porta de saída. E não apenas uma, entre muitas janelas que se têm adiante. Para espiar o mundo.
O canto de sereia da classificação passa por uma palavra: especialização. "Fulano é um especialista em cinema francês da época da Nouvelle Vague". Ou "a especialidade de Fulano é cinema expandido". Ou ainda "fulano é músico". Mas, reparem, no último caso a coisa ainda segue vaga. E para a academia é importante decretar uma instância classificatória e especializada: "músico interessado em eletroacústica". Ou esticando o ainda: "músico que trabalha com samplers e com as facilidades e potencialidades dos softwares, editores e mixers de som virtuais aplicados à classificação dos ruídos urbanos".
No último caso, reparem ainda melhor, tudo é espoliado se pensarmos em termos de criatividade.
Pois algo que pode transformar qualquer unidade doméstica de PC ou Mac, razoavelmente bem calibrada, a downlodar softwares correlatos para a confecção de uma espécie de estúdio doméstico deixa de ser uma ferramenta da heterododoxia para converter-se num pilar da especialização. E no respaldo cego ou parafrásico da teoria.
Se tomado contra a especialização, esse "estúdio doméstico" - ao alcance de todos - nada mais se propõe a ser que uma ferramente de onde (e por intermeio da qual) se pode testar, experimentar e registrar uma grande variedade de procedimentos. Podemos chamá-lo de "suplemento material do pensamento". De resto, procedimentos e meios cada vez mais efêmeros, mas nem por isso menos importantes.
É por isso que a academia vem se constituindo no nicho menos interessante de análise das novas realidades - inclusive das virtuais -, em que os dispositivos convertem os artistas não em especialistas avulsos em música ou filme ou poesia ou arquitetura, mas, através deles, em fruidores de uma realidade local e de um circuito quotidiano de experimentos e ações. Na mão oposta, os procedimentos acadêmicos convertem roboticamente esses pesquisadores em operadores de linhas de montagem, em estúpidos manufatores de redundâncias, de más paráfrases. Incapazes de cerzir, coser linguagens várias em uma só, com real eficácia e deleite de expressão. Aquela eficácia, que nada tem a ver com eficiência ou com a recepção do público, e que, paradoxalmente, é hoje muito mais disponibilizada pelas tecnologias da informação. A eficácia que tem mais a ver com o que é 'witty'.
Essas tecnologias, sem embargo, são importantes apenas por intermediarem esse processo tornando-o menos dispendioso. E, no mais, serão, em breve, tão-só sucatas em um ferro velho.
Tomemos no caso um filme. Um filme documentário.
Chegamos num ponto em que se um documentário for apenas um documentário, nos moldes mais convencionais, ele se equivoca. Porque ele deve mais propriamente flertar com uma relação radicalmente rente ao quotidiano. E, como o quotidiano nada tem de "especializado" - o procedimento do pesquisador deveria muito mais cortejar essa 'desespecialização'. E jogar a teoria na fruição do cotidiano sinestesicamente.
Quer dizer, a poesia mais ortodoxa, a impressa nos livros é apenas um tempero a mais, para montar tudo que no filme a ver tem com a palavra. Para emprestar-lhe um selo de medida - poetas são, acima de tudo, grandes especialistas em, além de livres associações, intervalos, precisas unidades de ritmo. E mesmo que essa especialização seja de suma importância, ela assoma como apenas uma modesta parte de toda a tarefa de uma mente arejada.
Adiante, num filme, tão ou mais importante que palavra são sons desarticulados: os ruídos do mundo, que também carecem ser manipulados e orquestrados seguindo uma determinada ordem, um critério, de modo que soem com uma unidade análoga à de um arranjo musical. Eles constituem uma paleta de sons - assim como existe uma paleta de cores ou uma concepção de enquadro para as imagens. E, enfim, há nessas imagens algo que depende de muitos intervenientes, porém sobretudo do conhecimento de causa - em especial histórico - dos diversos modos de organizá-la e editá-la.
Somente a conjunção desses elementos de um modo lúcido - mas também intuitivo e heterônomo - pode conformar a base de um bom documentário. E, logo, esse documentário irá sempre assomar com uma sorte de ensaio antiacadêmico [desnecessário dizer que antitelevisivo]. Pois o modo como se organiza nossa academia fere de morte essa heteronomia: i) ao exigir que haja um extremado especialismo; ii) ao decretar que se deve comprovar a tese de modo explícito - uma visão determinista da relação causa/efeito e bastante herdeira de certo esquerdismo equívoco [enquanto maniqueísta] cultivado no nefasto enquanto da ditadura, cá no Brasil; iii) ao impor que a linguagem em que se dá essa expressão seja tutelada por uma notação burocrática de citação, referência bibliográfica, aposição de epígrafe, etc estritamente normatizadas. Dessas três instâncias, no entanto, de longe, a mais daninha constitui a exigência da confirmação quase cega da tese inicial - que em geral é lida pelo graduando em trabalho de final de curso, ou pelo pós-graduando, em livros traduzidos, nos quais boa parte - e por vezes a melhor parte - da questão da linguagem resta embutida na questão da tradução. Este último fenômeno, para o qual muito poucos estão atentos implica que muito do que é lido é tão-só parcialmente, tangencialmente o pensamento do autor, que está, de fato, proposto, em todas suas reverberâncias, no seu idioma de origem.
Postas estas questões simples e preliminares podemos passar a uma segunda questão, mais sutil, que diz respeito a instância do local. Como vimos, o que sai da academia não deve ser levado a sério - na vasta maioria dos casos - porque não constitui nenhum real compromisso entre o artesão ou autor e as realidades que o cercam para além da academia. Que o cercam em quotidiano, no prosaísmo de todas suas atividades, tanto acadêmicas, como sobretudo não acadêmicas - estas, muito mais numerosas, precedentes e urgentes - que qualquer teoria preconcebida ou tese a comprovar a partir de autores que, na vasta maioria dos casos, nada têm a ver com elas, em larga porção de suas obras.
Tudo isso converge para a questão, de facto, do local num estrato mais complexo. A que decreta, enfim, a crucialidade da coisa toda: por que essa teoria gestada na academia não tem a ver com essas realidades e com esses quotidianos? Resposta: porque não há ligações, interstícios, associações entre a teoria adotada e a realidade experienciada ao longo dos dias.
A universalidade do discurso, sabemos não é de hoje, passa pela modesta atenção que se pode dispensar ao local, em sua particularidade. Uma atenção exercida de espírito e corpo inteiros. De espírito e corpo intensos. Uma modéstia e gentileza de temperamento. Ela se dá sob o modo de sinestesias, associações (convocações de elementos aparentemente distintos, disparatados, distantes, enmonadados). Estas associações podem, a princípio, assomar despretensiosas; mas, se realmente bem sacadas, são, em verdade, as únicas que participam do cortejo majestoso através do qual se pode chegar aos circuitos da universalidade.
A questão do local é tão fascinante quanto negligenciada. Em parte pela falta de memória. Pois só a memória afetiva propicia essa sutil contradança entre teoria e quotidiano. Abre uma brecha para uma forma de elocução que, ao convocar as associações misteriosas e poéticas, os flertes entre o especialismo e o prosaico, criam novas artesanias. Esse, no entanto é um movimento, uma contradança quase sempre evitada pela maioria dos pesquisadores/ artesões/ estudiosos ao tratar de uma determinada questão - seja ela qual for. Pois toda questão encontra no local uma correlação sumarenta, distinta. O selo final de que a aplicação da pesquisa resguarda com o local um vínculo secreto e, por vezes, quase indizível  ou tão-só pressentível, implicitado, em sua pluralidade de fatos, belezas, empirias, bizarrices.
Ou evidentes antimaniqueísmos. O conhecimento do local, pode, por vezes, não ser prazeroso ou solar. É porém um processo pessoal de libertação. De firmar-se no mundo com a sola dos próprios pés.


NOTA - em geral, o "orientador" dota seu "orientando" de "ferramentas de carreira"; o verdadeiro artista, no entanto, aguça a capacidade dos sentidos. A sua própria, a do seu e a de outros povos. A primeira tarefa é burocrática, funcional. A segunda, no entanto, é física (no sentido do corpo: elastecer suas potencialidades perceptivas) e espiritual (no sentido de comprazer, deleitar a mente pela engenhosidade da ideia).


Fortaleza, 01/09/10

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Que a tempestade lave os pratos


[s/i/c]



Hoje, a poesia em luto


Acabo de receber a notícia da morte do poeta escocês Edwin Morgan.

Uma das mais ferteis mentes da poesia britânica do último quadrante, Morgan era também um versátil tradutor. Aberto ao mundo desde sua Glasgow, chegou mesmo a trocar correspondência com os poetas concretistas brasileiros, nos anos 60.

A notícia me foi dada por Virna Teixeira, sua tradutora no Brasil [Na Estação Central, ed. UNB].

Nosso carinho e gratidão a este magnífico poeta e tradutor.

Há algumas versões de Morgan tanto aqui por Afetivagem, quanto, sobretudo, em Papel de Rascunho, o blogue de Virna - que, por esmerada coincidência, publicou uma tradução do vate escocês às vésperas de seu falecimento.


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O que mais aspiram redear


[s/i/c]



Um sobrevôo sobre Twitter


Após uma estadia de uns poucos meses, para sentir a porta nos guizos, saí do Twitter.

Explico. Nada tenho contra quem lança mão dessa ferramenta. Mas a figura adequada para defini-la é uma esponja. O Twitter suga o quotidiano das gentes: diários, lembretes, mementos, pequenos - íntimos - recados, para convertê-los em assunto público.

Por isso mesmo, repassa a sensação de um micro-Big Brother grafado. Um em que as pessoas sentem-se niveladas com o que mais almejam ser: celebridades. Ou com o que mais aspiram redear: a possibilidade de formar opinião.

Porém, se coadas, as micro-mensagens do Twitter, como das redes sociais no atacado, nada trazem de novidade. São tão-só uma ampliação de Narciso. Certa necessidade de se auto-afirmar, de assegurar aos outros que se está inserido dentro de uma teia social que, no mais das vezes, apenas reproduz, em régua milimetrada, a política institucional.

A analogia, aqui, é a da horrenda obrigatoriedade da propaganda eleitoral gratuita. Com a patente diferença de que esta propaga as propostas - quase sempre ralas, vagas e populistas - de um número consideravelmente mais reduzido de pessoas.

O Twitter não. Está aberto ao bizarro de qualquer um que disponha de acesso à rede.

Ele é uma poderosíssima ferramenta de propaganda. E uma bastante desporporcional, desde que as celebridades, que já o são fora da virtuália mais estrita, dele lançam mão para ampliar ainda mais, seu poder. E, claro, com mais brevidade. A brevidade do Twitter tem nada a ver com concisão.

Os 140 caracteres é o supra-sumo da 'informação', por contraposição à 'narração' - no senso benjaminiano. Mas na barbárie informativa em que esse dispositivo se tornou não há espaço para uma nova forma de sabedoria, tal qual entrevista por teóricos como, digamos, Agamben.

Há, isto sim, a lógica da exposição e do lucro. O Twitter é uma ferramenta indispensável para muitos, porque, além de afastá-los da auto-reflexão que só uma pequena fração diária de tempo proporcionaria, possui também uma espécie de darwinismo: os que mais são seguidos são os que menos seguem. Ou seja, os mais aptos a devorarem a mente dos outros numa cadeia de formação de opinião, são os menos afetados pelos demais. Os demais são presas. As celebridades, predadores.

O Twitter, desde sua concepção, fere avassaladoramente os princípios judaico-cristãos de compaixão e, mais especificamente, de solidariedade. Daí que, quase de modo infantil, os utilizadores queiram, via de regra, possuir mais seguidores que seguidos.

Ou seja, querem mais que os outros com eles se importem do que o contrário.

Tamanho grau de exposição pública difere radicalmente do texto literário. Este, ainda encontrou nos blogues seu canto de cisne. No Twitter, a pedra de toque passa ao largo da generosa gratuidade da poesia, da imaginação, do livro. E do tempo que é necessário para fruí-los. É por isso que sua especiosa objetividade consiste, de fato, na mais insidiosa forma de má subjetividade jamais alcançada nos circuitos virtuais.

Nele, a bizarra necessidade de afirmação de uma individualidade cosmética e plastificada chega a seu paroxismo. Especialmente num país que vem passando por uma enorme mudança na instância do consumo. A necessidade de se auto-representar como "in", pelo que se consome praticamente decuplicou. E isto eleva-se ao cubo, numa cidade nova-rica, como Fortaleza. As pessoas querem ser tomadas como "especiais" pelos iogurtes, câmeras, música ou pequeno gadgets eletrônicos que consomem. Isso tudo assilhueta o Twitter em algo, por vezes, tão sombrio, que só encontrável em certas páginas de Conrad. Ou, mais propriamente, no Livro do Eclesiastes.

O vôo do pássaro de seu logo rouba qualquer possibilidade de real tédio. Ou imersão pessoal. O tédio salutar. O tédio que aponta para "o estofo de que são feitos os sonhos". O que conduz, posteriormente à criação de artefactos carregados de uma beleza imperecível, feita das experiências de que realmente necessitamos - e são as mais amesquinhadas. Das experiências que conduzem à confecção do belo - tanto no sentido matemático - pois o Twitter é uma desmesura - como no dinâmico - porque sua mixórdia impede uma concatenação de ideias, uma vez que é ainda mais fracionado, disparatado, que a falta de correlação entre as notícias em um jornal. O Twitter é uma espécie de contra-Sublime.

Verdade, isto tudo são apenas reclamos. E a potência de uma ferramenta como esse micro-"Bog" Brother veio para ficar. Quiçá assumindo num breve futuro o aspecto de um Ferrabrás ainda mais desmedido.

O poeta Carlos Augusto Lima definiu-o como um freak show.

Não está longe disso.



* * *

terça-feira, 17 de agosto de 2010

De sermos numerosos



Koloman Moser, Clear Glass, c. 1900



Fora disso


Estamos em toda parte. E em todo tempo. O tempo todo. Todas os espaços. Não há o que desejar fora disso. E é isso o que Fernando Pessoa não entendeu, ao dizer: "Ah, não ser eu toda a gente e toda a parte!".
Aqui ele toca, um tanto involuntariamente - se possível dizer que algo há de involuntário em Pessoa - a questão crucial, retomada tantas vezes pelo poeta norte-americano George Oppen: o sentido de ser muitos. Título, de resto, de um de seus livros: Of Being Numerous [De Sermos Numerosos].


* * *

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Quanto mais há que fazer


Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1954



Pessoa sobre o tédio




Sobre o tédio diz Pessoa:

"É uma bebida de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem".

Ou ainda:

"Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de sentir que não vale a pena fazer nada. E, sendo assim, quanto mais há que fazer, mais tédio há que sentir".


* * *

Que acabam perdendo seu senso comum: Stein


Pablo Picasso, Retrato de Gertrude Stein, 1906



5 comentários de Gertrude Stein


i.
Out of kindness comes redness and out of rudeness comes rapid same question, out of an eye comes research, out of selection comes painful cattle.

Da bondade vem o enrubescer e da rudeza vem a rápida mesma questão, de um olho vem a pesquisa, da seleção vem atroz rebanho.

ii.

I've been rich and I've been poor. It's better to be rich.

Já fui rica e já fui pobre. É melhor ser rica.

iii.

Everything is so dangerous that nothing is really very frightening.

Tudo é tão perigoso que nada é realmente muito assustador.

iv.

Everybody gets so much information all day long that they lose their common sense.

Todos recebem tanta informação o dia inteiro que acabam perdendo seu senso comum.

v.

Hemingway, remarks are not literature.

Hemingway, comentários não são literatura.


* * *

Linda em todos os particulares: Creeley


Gerhard Richter, Sea Landscape, 1971




MAZATLÁN: MAR



[...]


Bem aqui-

começa



BOBBIE



Louca carinha

de lontra na água---

quadris largos. A alva,

alva pele---uma mulher

de orelhas grandes,

dentes quase brutais---

linda em todos os particulares.


*


De outro modo---os olhos

escuros, no rosto o

ardor de alguma outra

experiência, adensando

no ar.


*


Ah---homem

pensa.


..................................


*


De como o fato de

entrever alguém que você ama longe

de você no tempo

desaparecerá também no tempo.



..................................



*


Todos eles andavam

pela praia

robustos, ou miúdos,

mutilados, na face

da terra.


*


O vento segura

minha perna como


uma mão morna.


*


...........................


*


Ninguém vive na

vida do outro---

ninguém sabe.


No singular

o muito adere,

mas não para sabê-lo.


Aqui, aqui, o corpo

berrando suas ordens

aprende de si.


*

..................................



*


O que você tem

da princesa---

orelhas grandes, pra ouvir

mãos com suaves dedos


Você cavalgará

para a floresta, e lá

a encontrará

E vai reconhecê-la.


Por que não uma outra

não esperada, alguma

linda presença súbito

declarada


Tudo na tua mente

o corpo é, e do

corpo como assim

você a faz.


*


..................................



*


Você vê o sola-

vanco, na rija

compleição, o

garoto---o animal tenso



golpeado, e atrás,

o mar move e

acalma. A ilha assenta

em seu imóvel conforto.



O que, na cabeça, dá errado---

o circuito de repente

carregado de contrários

e só o tempo resta.


*


O sol desce. Os banhistas

assomam negro no vislumbre

prata. A água marulha

e reflui. O ar é suave.



[Fragmento do poema longo "Mazatlán: Sea", de Robert Creeley]


* * *


terça-feira, 18 de maio de 2010

Tê-las querido esconder


ideograma chinês para "pequena àgua-bondade"



As mais estimáveis

"As belas ações escondidas são as mais estimáveis. Quando vejo algumas na História, agradam-me muito. Porém, finalmente, não foram totalmente escondidas, visto que foram sabidas; e, apesar de tudo o que se fez para esconder, esse pouco pelo qual surgiram, estraga tudo; pois é isso o mais belo, tê-las querido esconder.”
[Pascal]


* * *

Quando eu lembrar de novo que você acabou comigo

A escritora curitibana Luci Collin


3 ou Dois Dropes de Luci Collin


Você acredita em escrita feminina?

LC - "Acreditar", nesta pergunta, é um termo impreciso para mim. Se você se refere a alguma ideologia do feminino que eu queira deliberadamente apresentar nos meus livros, a resposta é não. Não vejo necessidade de imposições das idéias "feminino" e "masculino" como contendoras - são existências altamente complementares, são princípios indissociáveis. Quanto ao escritor e sua habilidade, Henry James criou maravilhosos personagens femininos, Hilda Hilst, personagens masculinos muito complexos - assim a sensibilidade do artista parece ser assexuada.


Para quem daria um Nobel de literatura? Por quê?

LC - Ressuscitando-a, para Gertrude Stein; absolutamente genial, séria, inovadora e muito superficialmente conhecida.

[em entrevista a Rodrigo de Souza Leão, 2005]


"Quer saber eu perdi aquela lista não acho no meio de tanta coisa perdida aqui na sala e depois a gente fala nisto quando eu lembrar de novo que você acabou comigo."

[Luci Collin fragmento do relato "Perguntas?"]


* * *


Radicam, antes, dentro de seu próprio espírito


Akihiko Tsukamoto, Man Kiss + Lady Kisses= Love, 1982



All Things Must Pass


Caminhar juntos. A conversa. Limpa. Tersa. Gentil.

Eis a única via. Há um regozijo da mente. Uma manhã de sol no coração, mesmo na noite mais cerrrada. Em geral, as pessoas constróem mal-estares e os superestimam, sempre atribuindo ao outro a razão deles. Elas nunca suspeitam a fração de o quanto esses mal-estares radicam, antes, em parte e também, dentro de seu próprio espírito. No pulsar de seus próprios corações.

O verdadeiro encontro entre dois seres humanos não os comporta. Ou melhor, até os comporta, temporariamente, desde que haja predisposição e desejo de que mal-estares sejam superados. Ora, eles só o podem ser quando se reconhece que nada é unilateral. Ou seja, que um mal-estar raramente é causado por um só dos assentos na gangorra.

No mais. No mais. Hoje fez um dia lindo.

E tudo passa debaixo do sol.


* * *