
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
A gente faz o que o coração dita

Semiótica de Botequim
[s/i/c]
Si
Se a palavra não fosse importante para a música, o nome de uma música (mesmo instrumental) não seria uma palavra.
* * *
Desagravo à moda antiga
[s/i/c]
Com um Leve Acento & um Coldre
Poder & Prazer
Muito Prazer
* * *
Adeus, caro Suspense
Que não caem todo dia
* * *
sábado, 4 de setembro de 2010
Medidas de tempo
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Blowing through Brazil

Em uma ou três semanas

Jornalismos, Vampirismos, Detetivagens em Dois Palitos de Porrinha
I.
Impressiona o destaque dado à violência nos dois diários locais. Algo que vaza para quase todas as seções ou editorias. É sangue e contrafação em excesso para matar a sede dos leitores. Nenhuma reflexão mais acumulada, consequente. Apenas sangue quente. Jorrando. Tome-se a capa da edição virtual de hoje em ambos, ao romper do dia, 5hs40min:
No O Povo: “Portugueses são presos no aeroporto com cocaína amarrada às pernas”; “Homem é encontrado morto com perfurações à bala em Aquiraz”; “Policial é atingido por tiro acidental disparado por colega do Ronda”; “Condenados por crime hediondo podem cumprir mais tempo na cadeia”; “Ministério Público vai investigar morte de operário em obra do Porto do Pecém”; “Prisão de autoridades deixa Dourados, em Mato Grosso do Sul, sem governo”; “Duas pessoas morreram e 15 ficaram feridas nas últimas 24h nas rodovias do CE”; “IBGE: taxa de homicídios cresce 49,3%”; “Vídeo de menina jogando filhotes no rio causa revolta na internet”.
No Diário do Nordeste: “Caso Cearamor: PM diz sofrer ameaças”; "Patrulha tem pistas de ladrão de carro"; “Bandido morto usava cinto com 2 armas”; “DDF captura jovem acusado de fraudes”; “Homicídios cresceram 32% em 15 anos”; “Receita admite falsificação em procuração”; “PF prende prefeito e vereadores de Dourados”; “Homem faz 3 reféns na TV Discovery”; “Assista ao flagrante policial na Gentilândia!”.
São 9 chamadas em cada capa. O que apenas aponta para uma concisão maior nas manchetes do Diário. E há ainda a mais bizarra delas: a manchete de O Povo com esses vagos "filhotes" jogados no rio. Os especialistas em vendas e marketing, em ambos, no entanto, bem sabem o que, de fato, vende jornal.
II.
Pode-se ir buscar a origem dessa tendência vampiresca nos primeiros jornais da modernidade, publicados em Londres à época da Rainha Vitória, quando a repressão da sexualidade aguçava a sede por essa sorte de notícias. Mas, de lá para cá, de um ou de outro modo, elas sempre estiveram por aí, em destaque ao longo dos anos.
O artista moderno, anônimo, diluído na multidão, surgiu justamente ao tentar achar certos rastos (ou o próprio rosto) como um detetive. O filme 'noir' acrescentou a essa tendência certa dimensão de humor, glamour, desfaçatez, mas também uma calculada e, por vezes, invertida misoginia. Assim como de humor negro estão repletos algumas das melhores realizações de Tarantino, dos irmãos Cohen.
A figura do detetive, à sua vez, está no embrião da modernidade detectada por Benjamin na Paris de meados do Sec. XIX junto com outras figuras emblemáticas: o flâneur; o dândi; o homem sanduíche; o terrorista; o conspirador profissional; o fotógrafo de portraits retocados; o boêmio; o poeta endividado, nômade urbano, consumindo ópio, haxixe, absinto; o grande financista; o escritor melancólico que reconstitui cada mínimo detalhe até o caminho de Swann...
Mas o detetive.
Ele é figura chave. História, em grego [ἱστορία] não quer dizer mais do que "investigação", "inquérito". Não propriamente apenas desses crimes, que as manchetes dos jornais vertem sobre nossas cabeças, dia após outro, como duchas quentes. E que, volta e meia, provocam tanta comoção, tanta indignação.
Totalmente esquecidas uma ou três semanas depois.
* * *
carne e sopro e estamos rentes: O'Hara

When I am feeling depressed and anxious sullen
all you have to do is take off your clothes
and all is wiped away revealing life’s tenderness
that we are flesh and breathe and are near us
as you are really as you are I become as I
really am alive and knowing vaguely what is
and what is important to me above the intrusions
of incident and accidental relationships
which have nothing to do with my life
when I am in your presence I feel life is strong
and will defeat all its enemies and all of mine
and all of yours and yours in you and mine in me
sick logic and feeble reasoning are cured
by the perfect symmetry of your arms and legs
spread out making an eternal circle together
creating a golden pillar beside the Atlantic
the faint line of hair dividing your torso
gives my mind rest and emotions their release
into the infinite air where since once we are
together we always will be in this life come what may
Frank O’Hara
Poema
Quando me sinto deprimido e ansiosamente sombrio
tudo que você tem a fazer é tirar a roupa
e tudo desvanece a revelar a ternura da vida
pois somos carne e sopro e estamos rentes
e como você é mesmo você eu me torno eu
mesmo vivo e conhecendo vagamente o que há
e o que me é importante acima das intromissões
das relações acidentais ou incidentais
que nada tem a ver com minha vida
quando estou na tua presença sinto que a vida pode
e irá derrotar todos os inimigos dela e os meus
e os teus e você em si e eu em mim
somos curados da doentia lógica e do tênue tirocínio
pela perfeita simetria de teus braços e pernas
distendidos conformando um eterno círculo
criando um pilar áureo ladeando o Atlântico
a escassa linha de pelos dividindo teu torso
dá à minha vida sossego e emoções e alarga
no ar infinito pois uma vez que estamos juntos
juntos estaremos sempre nesta vida venha o que vier
* * *
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
"O local não é um lugar, mas..."
O problema, aqui, no entanto, é que o estoque de ideias formadas a partir de um local -- isto é de um lugar subjetivado pela sensibilidade do pesquisador em conjunção com as formas coletivas estabelecidas pela memória (o que chamo de "formas da história") -- pode ser muito escasso a depender do grau de projeção e ressonância que esse dito local propicia. Uma cidade que é um centro regional, como Fortaleza, emite muito pouco se comparada com um centro regional em língua inglesa num país historicamente mais ao centro do que usualmente é rotulado de Ocidente. Isso equivale dizer que centros como Atlanta, Birmingham, Melbourne, San Diego ou mesmo Jaipur, Patna ou Durban emitem bem mais ressonância cultural do que Fortaleza. Estão mais presentes em outros cantos e fóruns do planeta.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Que a tempestade lave os pratos

O que mais aspiram redear

terça-feira, 17 de agosto de 2010
De sermos numerosos

quarta-feira, 19 de maio de 2010
Quanto mais há que fazer

Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1954
Pessoa sobre o tédio
Sobre o tédio diz Pessoa:
"É uma bebida de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem".
Ou ainda:
"Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de sentir que não vale a pena fazer nada. E, sendo assim, quanto mais há que fazer, mais tédio há que sentir".
* * *
Que acabam perdendo seu senso comum: Stein

Pablo Picasso, Retrato de Gertrude Stein, 1906
5 comentários de Gertrude Stein
i.
Out of kindness comes redness and out of rudeness comes rapid same question, out of an eye comes research, out of selection comes painful cattle.
Da bondade vem o enrubescer e da rudeza vem a rápida mesma questão, de um olho vem a pesquisa, da seleção vem atroz rebanho.
ii.
I've been rich and I've been poor. It's better to be rich.
Já fui rica e já fui pobre. É melhor ser rica.
iii.
Everything is so dangerous that nothing is really very frightening.
Tudo é tão perigoso que nada é realmente muito assustador.
iv.
Everybody gets so much information all day long that they lose their common sense.
Todos recebem tanta informação o dia inteiro que acabam perdendo seu senso comum.
v.
Hemingway, remarks are not literature.
Hemingway, comentários não são literatura.
* * *
Linda em todos os particulares: Creeley
Gerhard Richter, Sea Landscape, 1971
MAZATLÁN: MAR
[...]
Bem aqui-
começa
BOBBIE
Louca carinha
de lontra na água---
quadris largos. A alva,
alva pele---uma mulher
de orelhas grandes,
dentes quase brutais---
linda em todos os particulares.
*
De outro modo---os olhos
escuros, no rosto o
ardor de alguma outra
experiência, adensando
no ar.
*
Ah---homem
pensa.
..................................
*
De como o fato de
entrever alguém que você ama longe
de você no tempo
desaparecerá também no tempo.
..................................
*
Todos eles andavam
pela praia
robustos, ou miúdos,
mutilados, na face
da terra.
*
O vento segura
minha perna como
uma mão morna.
*
...........................
*
Ninguém vive na
vida do outro---
ninguém sabe.
No singular
o muito adere,
mas não para sabê-lo.
Aqui, aqui, o corpo
berrando suas ordens
aprende de si.
*
..................................
*
O que você tem
da princesa---
orelhas grandes, pra ouvir
mãos com suaves dedos
Você cavalgará
para a floresta, e lá
a encontrará
E vai reconhecê-la.
Por que não uma outra
não esperada, alguma
linda presença súbito
declarada
Tudo na tua mente
o corpo é, e do
corpo como assim
você a faz.
*
..................................
*
Você vê o sola-
vanco, na rija
compleição, o
garoto---o animal tenso
golpeado, e atrás,
o mar move e
acalma. A ilha assenta
em seu imóvel conforto.
O que, na cabeça, dá errado---
o circuito de repente
carregado de contrários
e só o tempo resta.
*
O sol desce. Os banhistas
assomam negro no vislumbre
prata. A água marulha
e reflui. O ar é suave.
[Fragmento do poema longo "Mazatlán: Sea", de Robert Creeley]
* * *
terça-feira, 18 de maio de 2010
Tê-las querido esconder

"As belas ações escondidas são as mais estimáveis. Quando vejo algumas na História, agradam-me muito. Porém, finalmente, não foram totalmente escondidas, visto que foram sabidas; e, apesar de tudo o que se fez para esconder, esse pouco pelo qual surgiram, estraga tudo; pois é isso o mais belo, tê-las querido esconder.”
[Pascal]
* * *
Quando eu lembrar de novo que você acabou comigo

A escritora curitibana Luci Collin
3 ou Dois Dropes de Luci Collin
Você acredita em escrita feminina?
LC - "Acreditar", nesta pergunta, é um termo impreciso para mim. Se você se refere a alguma ideologia do feminino que eu queira deliberadamente apresentar nos meus livros, a resposta é não. Não vejo necessidade de imposições das idéias "feminino" e "masculino" como contendoras - são existências altamente complementares, são princípios indissociáveis. Quanto ao escritor e sua habilidade, Henry James criou maravilhosos personagens femininos, Hilda Hilst, personagens masculinos muito complexos - assim a sensibilidade do artista parece ser assexuada.
Para quem daria um Nobel de literatura? Por quê?
LC - Ressuscitando-a, para Gertrude Stein; absolutamente genial, séria, inovadora e muito superficialmente conhecida.
Radicam, antes, dentro de seu próprio espírito





