terça-feira, 18 de maio de 2010

Radicam, antes, dentro de seu próprio espírito


Akihiko Tsukamoto, Man Kiss + Lady Kisses= Love, 1982



All Things Must Pass


Caminhar juntos. A conversa. Limpa. Tersa. Gentil.

Eis a única via. Há um regozijo da mente. Uma manhã de sol no coração, mesmo na noite mais cerrrada. Em geral, as pessoas constróem mal-estares e os superestimam, sempre atribuindo ao outro a razão deles. Elas nunca suspeitam a fração de o quanto esses mal-estares radicam, antes, em parte e também, dentro de seu próprio espírito. No pulsar de seus próprios corações.

O verdadeiro encontro entre dois seres humanos não os comporta. Ou melhor, até os comporta, temporariamente, desde que haja predisposição e desejo de que mal-estares sejam superados. Ora, eles só o podem ser quando se reconhece que nada é unilateral. Ou seja, que um mal-estar raramente é causado por um só dos assentos na gangorra.

No mais. No mais. Hoje fez um dia lindo.

E tudo passa debaixo do sol.


* * *

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Velar como rastreamento de uma experiência futura


Patio de Los Leones, na Alhambra, Granada, meados do sec. XIV



Minuta Sobre A Insônia


Então não se dorme.‭ ‬Então não se perde a consciência.‭ ‬Logo não se desperta.‭ ‬Como no sonho que enforma o Finnegan's Wake.

Há uma certa insônia que se dá por amor‭? ‬Ou melhor:‭ ‬por solidariedade‭? ‬-‭ ‬já que a palavra‭ '‬charitas‭' ‬que equivale mais ou menos ao‭ '‬ágape‭' ‬grego,‭ ‬que pode ser uma equivalente da palavra‭ "‬amor‭" ‬significa hoje algo tão medíocre como o sentido que se dá à palavra caridade‭? ‬Existe algo mais arcaico que dizer de alguém que essa pessoa é caridosa‭? ‬Ou,‭ ‬por outra,‭ ‬o que dá mais status hoje:‭ "‬fazer amor‭" ‬ou‭ "‬fazer caridade‭"? ‬E,‭ ‬de mais,‭ ‬a palavra amor tem sido tão enxovalhada‭ ‬nos blockbusters,‭ ‬na TV,‭ ‬como crer nela‭? ‬Vale a pena mencioná-la‭? ‬Falar nela‭? ‬Em nome dela, sem tentar tirar a asfixia que a involucra e faz com que em tudo vejamos motivos de tirar algum proveito sobre‭?

A insônia.‭ ‬Ela come teu descanso.‭ ‬Aumenta tua exaustão.‭ ‬Resiliencia teu desassossego. Tua insatisfação. Mas notem que ela é quase sempre vista como um valor negativo.‭ ‬A insônia, por exemplo, nunca é vista, na modernidade, como uma forma de velar.

Velar é um verbo antigo,‭ ‬que se relaciona também com a necessidade de vigiar,‭ ‬de passar a noite junto ao defunto para que nada ou ninguém o perturbe justo no início de seu sono sem volta.

Talvez a insônia,‭ ‬então,‭ ‬não seja apenas uma incapacidade psíquica de repouso.‭ ‬Mas uma deliberada busca do não repouso em solidariedade não só aos vivos que sofrem,‭ ‬mas também aos que já repousam para sempre.‭ ‬Essa é a capacidade de velar que foi inteiramente perdida na modernidade.‭ ‬Algo semelhante ao que diz Simone Weil sobre nossa total incapacidade para o sacrifício.

Pois uma das primeiras coisas que Cervantes faz é troçar de D.‭ ‬Quixote ao fazê-lo velar suas armas antes de ser armado cavaleiro.‭ ‬Na imaginação atabalhoada do fidalgo em desassossego,‭ ‬assombrado pelas velhas novelas de cavalaria,‭ ‬duas putas e um taverneiro são duas damas nobres e um castelão.

Mas a consciência de Cervantes é já moderna.‭ ‬Ele sabe do pragmatismo que é dormir,‭ ‬descansar.‭ ‬E sonhar.‭ ‬E despertar desses sonhos.‭ ‬Repousar e refazer-se.‭ "‬Estar em paz consigo mesmo‭"‬,‭ ‬como se diz.‭ ‬Ele já suspeita da insônia.‭ ‬Como algo inútil,‭ ‬porque não irá restituir ao morto nenhum ganho e assegurar ao vivo nenhum repouso.‭ ‬Porque não irá repassar as armas do cavaleiro nenhuma dignidade ou benção.‭ ‬Porque é já impossível ser cavaleiro.‭ ‬Como Sir Lancelot du Lac.‭ ‬Ou outros piedosos cavaleiros,‭ ‬como Sir Gwain ou o mais pio de todos: Sir Perceval.‭ ‬O único que encontrou o Graal,‭ ‬mas também nunca retornou com a posse dele...

Por isso o sonho de remendar o mundo do magro fidalgo da Mancha assoma ainda mais estéril e patético aos nossos olhos.‭ ‬Mesmo que ao final de tudo haja alguma benevolência de Cervantes em relação ao seu invento.‭ ‬Porque os grandes escritores se dão uma espécie de respiro.‭ ‬Não é o Memorial de Aires um livro menos opressivo que as Memórias Póstumas‭? ‬A resposta é sim.‭ ‬É uma tentativa de reconciliação.‭ ‬A ironia,‭ ‬aqui,‭ ‬é que estas tentativas de reconciliação - como o Segundo Quixote - acabam sempre anãs diante da corrosividade da obra-prima que detém,‭ ‬de fato,‭ ‬uma áspera Misantropia.‭ ‬Talvez para que o choque da Misantropia desperte a insônia em quem dorme bem.‭ ‬Quer dizer em quem dorme bem mal.‭ ‬Talvez porque em seu propósito o próprio escritor tema ser confundido com a crueza de suas observações.‭ ‬Ou seja assombrado pelo fato de que elas não sejam entendidas pelo leitor como fontes de ironia que,‭ ‬justamente,‭ ‬afirmam o contrário do modo como eles querem entrever o mundo.‭ ‬Quer dizer,‭ ‬o temor que o leitor não perceba que aquilo está deliberadamente posto em distopia. Intervalado pela distância entre a crueldade do real e a ternura do ideal. Como quando Brás Cubas percebe que Eugênia, a quem fazia a corte, mancava de uma das pernas. E solta a célebre frase -- que aliás resguarda toda o esquema de dedução lógica cartesiana: "Se manca, por que bela?"

Então,‭ ‬quando a insônia pesa nos olhos não será apenas por uma questão de consciência e peso.‭ ‬Certamente não.‭ ‬Pode ser também por uma extremada forma de companhia.‭ ‬Aos que não tem mais movimento.‭ ‬Aos que não tem mais companhia.‭ ‬Uma modalidade do velar.‭ ‬Uma espécie de estar ao lado do defunto.‭ ‬De fazer-lhe companhia.‭ ‬Não literalmente.‭ ‬Aos defuntos que já são defuntos em vida.‭ Que já são mancos em vida. Ou á memória dos que acabaram de partir,‭ ‬de nos deixar.‭ ‬Ao que foi e não foi dito,‭ ‬ouvido,‭ ‬praticado,‭ ‬visto,‭ ‬escarrado ecuspido por eles.‭ ‬De atribuir um valor a tudo isto.‭ ‬Talvez por conta do que diz Benjamin na sexta de suas Teses Sobre O Conceito de História:

O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer.‭ ‬E esse inimigo não tem cessado de vencer.

Ao que parece,‭ ‬esse historiador almeja velar.‭ ‬Em última instância,‭ ‬é um homem insone.‭ ‬O leitor que virou livro de Stevens,‭ ‬na casa calma,‭ ‬na quieta noite de verão,‭ ‬que era uma perfeição pensada‭? [para ler este poema, clique aqui].

De novo,‭ ‬o problema é de excesso e de superfície e de meio.‭ ‬O excesso de superfície leva ao excesso de meio.‭ ‬É possível que à experiência direta se sobreponha uma mediatizada.‭ ‬Que em vez de fruirmos,‭ ‬de pormos nossa sensibilidade, nosso corpo, no encalço de perceber, digamos, diretamente um espaço prefiramos interpôr um meio entre nós e esse espaço.‭ [‬o risco que se pode perceber aqui é que se interponha esse meio excessivamente entre nós e nós‭]‬.

Esse meio pode,‭ ‬digamos,‭ ‬ser uma câmera,‭ ‬por exemplo.‭ ‬Ou um notebook.‭ ‬Ou um i-phone.‭ ‬E quem sabe,‭ ‬como sugere Agamben,‭ ‬não é que não existam mais experiências,‭ ‬como as concebe e nos ensina Benjamin.‭ ‬Mas que elas se dão de outra forma.‭ ‬Elas se dão fora do homem,‭ "‬e,‭ ‬curiosamente,‭ ‬o homem olha para elas com alívio.‭ ‬Uma visita a um museu ou a um lugar de peregrinação turística é,‭ ‬desse ponto de vista,‭ ‬particularmente instrutiva.‭ ‬Posta diante das maiores maravilhas da terra‭ (‬digamos,‭ ‬o Patio de los Leones na Alhambra‭)‬,‭ ‬a esmagadora maioria da humanidade recusa-se hoje a experimentá-las:‭ ‬prefere que seja a máquina fotográfica a ter a experiência delas.‭ ‬Não se trata aqui,‭ ‬naturalmente,‭ ‬de deplorar esta realidade mas de constatá-la.‭ ‬Pois talvez se esconda no fundo desta recusa aparentemente disparatada,‭ ‬um grão de sabedoria no qual podemos adivinhar,‭ ‬em hibernação,‭ ‬o germe de uma experiência futura‭"‬.

Esta não renúncia à experiência‭ ‬-‭ ‬naturalmente entrevista de uma outra forma,‭ ‬de um outro ângulo por Agamben‭ ‬-‭ ‬não deixa de ser,‭ neste ponto, o de indicar,‭ ‬o de apontar para uma nova estruturação da experiência,‭ ‬um dos melhores momentos de seu pensar.‭ ‬Porque ele,‭ ‬de certa forma,‭ ‬também indica a inquietude do insone.‭ ‬Daquele que,‭ ‬em devaneio,‭ ‬trata de sondar,‭ ‬busca pressentir as novas formas dessa experiência a qual não renunciamos‭ ‬---‭ ‬mas que se encontra em germe.‭ ‬Mediatizada,‭ ‬talvez.‭ ‬E, ainda assim, muito mais pressentível pelo solitário que às três da madrugada,‭ ‬em silêncio,‭ ‬sonha acordado com a possibilidade de mundo repovoado pela força dessa nova experiência.

Pensar como Bloch [um Bloch contextualizado por Lévinas],‭ ‬que inverte os termos da equação de Heidegger:‭ "‬pensar a morte a partir do tempo‭; ‬e não o tempo a partir da morte‭"‬.

Esta é a ética do insone.‭ ‬Se é que ele tem uma.




‭* * *

Rondando a área adversária como um jaguar


Angela Bulloch, Sculpture for football songs, 1998




Djalminha e outras digressões sobre futebol‭


Houve um talento dos gramados chamado Djalma Feitosa Dias.‭ ‬A ele gostava mais de ver que qualquer futebolista de primeira linha da atual geração‭ – ‬inclua-se aqui o aplicado Kaká.‭ ‬Djalminha desenhava jogadas com os pés com uma precisão cirúrgica e uma perícia que nenhum cirurgião plástico jamais atingirá.‭ ‬Driblava e passava com precisão.‭ ‬Era um canhoto de dotes excepcionais.

Digo isso em imparcialidade.‭ ‬Só torço por dois times de futebol. Torço por eles com extrema paixão, muita ilusão e certo golpe de desesperançado realismo:‭ ‬o Ferroviário F.C.‭ ‬de Fortaleza‭; ‬e os Wanderers de Montevidéu.‭ ‬O primeiro por razões de família.‭ ‬Era o time de meu avô paterno‭ – ‬que de resto,‭ ‬foi funcionário da Rede Viação Cearense (RVC, que além de haver sido o nome oficial de nossa Estrada-de-Ferro por décadas, forma também a iniciais de meu nome: Ruy Vasconcelos de Carvalho). O Ferroviário Atlético Clube é também o time de meu pai.‭ ‬Embora ambos‭ – ‬e muito especialmente o segundo‭ – ‬jamais demonstraram grande interesse pelo esporte ou pelo Ferroviário.‭ ‬Minto.‭ ‬Meu avô chegou a jogar bola em seus tempos de solteiro aí pelos idos de‭ ‬20.‭ E fora mais entusiasmado que meu pai. Mas mesmo isso só vi em fotos,‭ ‬porque ele era um homem formal demais para falar dessas coisas.‭ ‬Já meu pai,‭ ‬bem,‭ ‬este sempre deu preferência a esportes mais‭ “‬frios‭”‬,‭ ‬como a natação ou o tênis,‭ ‬apesar de nunca safar-se da febre que assola o país durante os Mundiais.‭ ‬E postar-se liturgicamente diante do monitor da TV para acompanhar a Seleção.

Ainda em família, tenho um irmão que é santista roxo e outro que se um dia, certamente por equívoco, entrar num estádio, irá perguntar: "mas quem é mesmo a bola"? -- como está escrito em Nélson Rodrigues. Minha mãe e, sobretudo, minhas duas irmãs, gostam de vôlei. E só vêem a Copa do Mundo. Ás vezes, uma ou outra partida avulsa do Brasileirão, mais para matar o tempo e conversar um pouco. Torcem pelos jogadores que acham bonitos. E soltam gritinhos se eles levam pontapés. O que desperta certo desejo na gente que eles, de fato, levem umas botinadas a mais. Uma de minhas irmãs, que morou algum tempo na Itália, nutre certa simpatia por aquela seleção pavorosamente defensiva. Fazer o quê?

Já meu outro time, os Wanderers, de Montevidéu, é uma agremiação de tradição boêmia.‭ ‬Algo que não rima muito com futebol.‭ ‬Mas,‭ ‬convenhamos,‭ ‬possuem um nome esplêndido. Muito sugestivo. ‬E de nomes a realidade de cada um se faz.‭ ‬Eles se grudam às coisas e às pessoas.‭ ‬Além disso não disfarço o apreço que tenho por essa cidade e esse pequeno país que é uma espécie de espelho nosso,‭ ‬invertido.‭ ‬Mil vezes perder uma Copa do Mundo em casa para esses aguerridos uruguaios que para uma equipe europeia. Embora melhor seja mesmo ganhar, claro está.

O fato é que estou em maus lençóis.‭ ‬Os Montevideo Wanderers nunca mais conquistaram lá algo de muito importante no Uruguai após a década de 30 - embora estejam na primeira divisão e com um jogador brasileiro este ano.‭ ‬Já o Ferroviário chegou a ser campeão estadual algumas vezes.‭ ‬O que não conta muito,‭ ‬num estado de alguma tradição futebolística,‭ ‬mas de quase nenhum impacto no ludopedismo nacional.‭ ‬Talvez a maior contribuição do Ceará ao futebol brasileiro foi o mítico ponta-esquerda Canhoteiro.‭ ‬Uma espécie de Garrincha da ponta-esquerda e de espírito tão autodestrutivo fora de campo quanto o‭ “‬anjo das pernas tortas‭”‬.‭ ‬Mas Canhoteiro era do Maranhão,‭ ‬embora tenha começado sua carreira num pequeno time de Fortaleza,‭ ‬o América.‭

O maior feito recente de um clube cearense foi o Ceará Sporting ter conseguido ser vice-campeão da Copa do Brasil em‭ ‬1994.‭ Jogava sempre numa humilhante retranca e perdeu para o Grêmio na final. Algumas vezes este clube e o Fortaleza E.‭ ‬C.‭ ‬ascendem á‭ ‬1ª Divisão.‭ ‬Em geral,‭ ‬para nos fazer passar alguma vergonha, e cair na temporada seguinte.‭ Como deve ser a sina do Ceará Sporting este ano, infelizmente. O‭ “‬tubarão da Barra‭” ‬é como se conhece por aqui o Ferroviário,‭ ‬a terceira força do estado.‭ ‬Mas nos últimos tempos o time, digamos, não está no melhor de sua forma -- como quando goleou o Bahia por 7x2, na série C. Ainda assim, chegamos a ser bi- campeões cearenses, 1994-95.‭ E estamos entre os 100 maiores clubes do Brasil [82ª posição]. E de nossas hostes saíram uns poucos jogadores que depois alcançaram certo renome.‭ ‬Como Jacinto, um meia de talento ou Mário Jardel, centro-avante de força e cabeceio.‭ ‬Porém de momento a equipe não está sequer na 3ª divisão.

Sem embargo,‭ ‬minha política de torcer vai sempre por quem está mais perto de casa.‭ ‬Se joga um time do Nordeste,‭ ‬estou com ele.‭ ‬Mesmo sabendo que,‭ ‬em geral‭ – ‬à exceção de Sport Recife e do Bahia em seus melhores dias‭ – ‬estou do lado mais fraco do cabo-de-guerra.

De times realmente grandes,‭ ‬vaga simpatia pelo Flamengo.‭ ‬Por conta da excepcional equipe do início dos anos‭ ‬80.‭ ‬Vista na adolescência.‭ ‬Um grupo que congregava talentos do gol à ponta esquerda:‭ ‬o volante Adílio‭; ‬o defesa Carpegiani‭; ‬os excepcionais alas Júnior e Leandro [os mesmos da seleção de 82']; ‬o goleiro Cantarelli‭; ‬o impetuoso avançado Nunes,‭ ‬de mais força e explosão que técnica‭; ‬e,‭ comandando toda essa patuscada,‭ ‬o mago Zico.‭ ‬Esta equipe foi campeã brasileira,‭ ‬continental e intercontinental,‭ ‬derrotando o,‭ ‬então,‭ ‬poderoso Liverpool.‭ ‬Talvez seja o time que eu mais lembre a escalação regular,‭ ‬depois da inigualável Seleção Brasileira de‭ ‬82‭'‬.‭ ‬A derrota desta seleção significou para minha geração uma tragédia de dimensões escatológicas. Uma espécie de sebastianismo do futebol.‭ ‬Um divisor de águas inefavelmente trágico.‭ ‬A primeira noção real e concreta que tive de que o mundo é injusto.‭ ‬E de algo que se encontra escrito no‭ ‬Livro de Jó.

E é claro que foi algo mais que uma simples derrota. Foi a vitória definitiva do futebol pragmático e feio sobre o engenho e a arte. E as consequências nefastas disto, desde 82' até hoje.

Entre seleções europeias, fico com Portugal, Espanha e Holanda. E torço deslavadamente contra França, Alemanha, Itália e Inglaterra, nessa ordem.

Há ainda uma mais vaga simpatia pelo São Paulo.‭ ‬Somente em memória do grande time montado por Telê Santana no início dos‭ ‬90.‭ Mas por vezes, especialmente nos últimos anos, em que o estilo Muricy Ramalho, de força e pragmatismo, tanto lembra os times sulistas, como o Grêmio, não arranco fio de cabelo se o São Paulo é goleado. Gostava mesmo era daquela time do Telê. Como alguns outros times do Telê, feito o Atlético Mineiro da passagem dos 70 pros 80: João Leite, o talentoso Toninho Cerezo, Éder, o excepcional Reinaldo, Paulo Isidoro & Cia.

Afora isso,‭ algumas antipatias quase fortuitas:‭ ‬o Corinthians,‭ ‬mesmo que Sócrates‭ – ‬a quem vi em ação no Castelão,‭ ‬com toda sua distinta classe,‭ ‬ainda pelo Botafogo de Ribeirão Preto‭ – ‬tenha jogado em suas linhas. Acho essa antipatia meio irracional. Não sei explicá-la. Nem busco. Mas torço sempre contra o Corinthians com fervor. E sua derrota me dá certo prazer. Isso também inclui, em menor grau, o Palmeiras,‭ ‬apesar de Ademir da Guia,‭ ‬o divino‭; ‬Leivinha‭; ‬o grande Luís Pereira e toda a academia‭ – ‬que,‭ ‬de resto eu tinha em jogo de botão.‭ ‬Eu admirava o Palmeiras, assim como o Santos. Mas a destruição de um vagão de metrô pela Mancha Verde,‭ ‬que testemunhei em São Paulo,‭ ‬me fez pegar abuso pelo time do Parque Antártica,‭ ‬estádio que ficava a apenas algumas quadras de dois de meus endereços paulistanos.‭ ‬E um abuso ainda maior por esses bandos de criminosos e arruaceiros que formam o núcleo mais central das torcidas organizadas.‭ ‬E um ainda maior abuso pela inépcia das autoridades que são incapazes de extinguirem ou desmontarem essas máfias. Ou porem esses criminosos atrás das grades depois de tantos homicídios, sangue derramado e recorrentes selvagerias.

Mas voltemos a Djalminha.‭ ‬Ele também jogou no Fla.‭ ‬Aliás começou no Fla,‭ ‬apesar de ser paulista e filho de um grande jogador que chegou a‭ ‬defender as alvinegras hostes do mítico Santos F.‭ ‬C.,‭ ‬como defesa.‭ Uma evolução em família.‭ ‬Porque,‭ ‬claro,‭ ‬embora seu pai, Djalma Dias, fosse um respeitável zagueiro,‭ ‬o que nós prezamos mesmo são atacantes,‭ ‬jogadores verticais,‭ ‬que cortejam o gol.‭ ‬E assim era Djalminha.‭ ‬Um meia,‭ ‬sim.‭ ‬Mas aquele meia que está sempre avançando, quase o que se chamava alguns anos atrás de ponta-de-lança - embora ele jogasse um pouco mais recuado que Zico, por exemplo. No frigir, um meia que estava sempre rondando a área adversária como um jaguar.‭

Erra quem pensa que a melhor equipe em que ele jogou foi o Deportivo La Coruña. Na verdade, foi o Palmeiras de 96. Um time onde jogavam juntos ninguém menos que Rivaldo, Cafú, Cleber, Júnior, Velloso e o próprio Djalminha.

Talvez sua principal qualidade fosse a imprevisibilidade,‭ ‬para além do incrível manejo de bola.‭ ‬E era também um grande batedor de faltas e pênaltis.‭ ‬Em seus melhores dias proezava coisas que só Ronaldinho em sua primícia pôde oferecer com ainda maior repertório.‭ ‬E,‭ ‬no entanto,‭ ‬era um desastre fora de campo.‭ ‬Por vezes,‭ ‬também dentro dele,‭ ‬pois,‭ ‬temperamental como revelava-se,‭ ‬frequentemente entrava em provocações e era expulso.‭ ‬Emblemática a cabeçada que deu, durante um simples treino, em um de seus treinadores:‭ ‬Javier Irureta,‭ ‬do La Coruña.‭ ‬Custou-lhe a Copa de 2002 - Felipão, então, para seu lugar, convocou um jovem talento, então despontando no São Paulo. Chamava-se: Kaká.

Disciplina não era termo de seu léxico.‭ ‬E,‭ ‬contudo,‭ ‬sem Djalminha,‭ ‬o La Coruña jamais teria sido campeão espanhol.‭ Ele,‭ ‬com toda sua carga de rompantes indisciplinados,‭ ‬ainda conseguia ser o dínamo daquela equipe.

Porém esse seu errático comportamento não lhe facilitou em nada a carreira.‭ ‬Poucas vezes foi convocado para a Seleção.‭ ‬Infelizmente.‭ ‬Em matéria de meias,‭ ‬poucos foram tão talentosos nos últimos quatro lustros quanto Djalma Feitosa Dias.‭ ‬Jogava como se joga nas praias ou na rua.‭ ‬Com a molecagem, o improviso, o tirar o coelho da cartola que tanto nos deleita.‭ ‬

Mas também com a elegância e o talento natural que só se entregam a eleitos.‭



* * *

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Ter recebido não sei de onde aquilo de que sou autor



Eugène Atget, Magasin, avenue des Gobelins, 1922






Sobre um certo‭ “‬eis-me aqui‭”

é tempo, eles sabem.
Tempo da pedra esforçar-se e florar,
tempo do desassossego ter um pulso.
É tempo, que seja tempo.

É tempo.

[Paul Celan]


Cada vez mais e esse convencimento:‭ ‬um relato autobiográfico só vale se nele está contida uma ética do testemunho.‭ ‬E o testemunho não visa uma audiência.‭ ‬Ou busca torná-la mais ampla.‭ ‬Ou popularizar-se.‭ ‬Isto é da informação.‭ ‬Ou do número.‭ ‬De quem busca o impacto e a série.‭ ‬
A ética do testemunho é outra.‭ ‬A ética do testemunho é muito mais exigente.‭ ‬A ética do testemunho é um‭ “‬eis-me aqui‭”‬.‭ ‬Pode-se senti-la nos grandes memorialistas do século passado.‭ ‬Num Elias Canetti,‭ ‬num Primo Levi,‭ ‬num Graciliano Ramos.‭ ‬Num Paul Celan.
O testemunho sempre se propõe rente a um momento indispensável.‭ ‬São a gratuidade de seu relato e a sinceridade de sua impressão que a ele conferem essa tendência à infinitude‭ ‬-embora ele seja profundamente finito e limiarizado. [A sensação de infinitude provem da diversidade de planos, da complexidade - que é, em verdade, algo mais próximo da simplicidade quotidiana].
Eis porque nenhum escritor sincero pode visar a massa quando dá testemunho de si.‭ ‬Ele visa o Outro.‭ ‬Imediatamente o Outro.‭ ‬Cerradamente o Outro.‭ ‬Como se quisesse coincidir com ele.‭ ‬Não com um grupo,‭ ‬mas com o indivíduo.‭ ‬Ele visa,‭ ‬acima de tudo,‭ ‬o Próximo.‭ ‬E é ao Próximo a quem diz este‭ “‬eis-me aqui‭”‬.
E,‭ ‬mais,‭ ‬essa ética do testemunho,‭ ‬este‭ “‬eis-me aqui‭”‬,‭ ‬é uma inspiração.‭ ‬É como diz Lévinas:‭ “‬ter recebido não sei de onde aquilo de que sou autor‭”‬.‭ ‬Daí que o testemunho,‭ ‬como grau de escritura em sinceridade,‭ ‬preceda teses e clichês ideológicos ou estéticos pré-concebidos.‭ ‬O testemunho,‭ ‬esteio da autobiografia é,‭ ‬antes de mais nada,‭ ‬dilaceradamente anti-maniqueísta.‭
O testemunho é uma intuição. No senso bergsoniano. Algo que não segue limitado por qualquer determinismo ou devir histórico. Aqui mora a causa de o testemunho nada ter a ver com o jornal. Ou compromisso com nenhum veículo ou suporte que não o próprio magnetismo de seu dizer. Ele não sabe o que são modas, vanguardas, gêneros, redes sociais, nacionalismos tacanhos, filiações políticas ortodoxas, castradoras. Uma intuição não tem uma intenção. É desprovida de uma tese anterior. Uma intuição fixa os objetos como talvez os objetos nos fitam. George Oppen dizia: "eu vejo o que a folha de grama veria se tivesse olhos".
O testemunho vê do ângulo que vê com olhos descalços. E o ângulo que vê é misteriosamente o mais apropriado para "ex-primir" a substância do testemunhado. Por isso ele se constitui num momento de afeto sem intencionalidade. Uma afetivação sem endereço até o máximo grau em que isso é possível: sair da casca do eu para dar existência à vida do Próximo. Ou então, seguir-se à morte de alguém - não se pode experienciá-la ou sequer relacionar-se com ela num âmbito verdadeiro, pois aqui tudo é mistério - com a inquietude e a responsabilidade do sobrevivente.
Ou posto em outras palavras: quanta solidão não é necessária para pôr-se rente, realmente na companhia de outrem?
Ninguém pode testemunhar pelo testemunho, já dizia alguém. E por um motivo simples: o testemunho é o momento em que o momento é.


P.S. --- é mais ou menos óbvio que esta noção de testemunho, que este "eis-me aqui" não se limita a autobiografia, embora nela seja mais convocado ou evidente. Pode-se dizer que Atget testemunhou a Paris do início do século com suas fotos. Que Robert Bresson testemunhou alguns dos aspectos mais nefastos da vida moderna nos seus filmes. Que Ernest Hemingway testemunhou a falta de perspectiva de toda uma geração retratada em The Sun Also Rises. Que Euclydes da Cunha testemunhou a brutalidade da Guerra de Canudos n'Os Sertões. E daí em diante. Muitos adiantes depois. E era uma vez.


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terça-feira, 11 de maio de 2010

Onde achar outra?


Paul Graham, Waiting Room, 1985



Mais que a canção

A morte é um ponto de onde o tempo retira toda sua paciência.
[Emmanuel Lévinas]


passam os dias
doido coração
sóbria mente
terríveis alegrias
mais que a canção
mostardamente
os galhos do tédio
apontam morte, uma condição
sem escape, sem remédio
onde achar outra semente?



* * *

Uma questão de compasso


Glenn Ligon, Untitled (Stranger in the Village/Hands #1), 2000



poucos avaliam
as toneladas de solidão
necessárias para perceber
um grama de novo
na multidão



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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Copiosas cópias


Edith Dekyndt, Ground Control, 2008



A cultura do carbono no paralelo 4


A questão é: porque o cearense e, mais propriamente o fortalezense, é incapaz de "achar" formas próprias de expressão? Desde os eventos de moda -- pólo forte de indústria local -- até as horrendas torcidas organizadas, tudo é decalcado do eixo Rio-São Paulo.
Pode-se pensar no enorme impacto da televisão e, sobretudo, da telenovela. É essa expressão quem dita "modos de comportamento". Há uma ética, aqui. De repente, algo de nossa fala corrente desaparecerá pela influência desse veículo.
É certo que, como ou sem telenovela, dificilmente há de se achar um povo mais descortês no trânsito que o cearense. Para a maioria ser ultrapassado é uma espécie de afronta a se vingar. Mesmo que se não esteja com pressa. Não há qualquer noção de velocidade média. Os cruzamentos são fechados com a maior desfaçatez. E o pedestre tornou-se um alvo. Muitas vezes na própria calçada. Não há ciclovias. Há pouco, uma ciclista que participava de um evento coletivo sobre duas rodas foi brutalmente atropelada. E o nível geral de gentileza com pedestres não parece poupar idosos ou mesmo deficientes físicos.
Outro caráter marcante do cearense é a incapacidade de silêncio. Não se gosta propriamente de música. Mas é necessário "criar" alguma fonte de ruído, de barulho. Como se esse barulho fosse o equivalente da presença humana valorizada. Pois há também o caso da gregariedade. O cearense simplesmente não consegue ficar sozinho. Ou mesmo ir para locais públicos sozinho. Ele se sente sempre diminuído nessa condição.
Quanto a essa incapacidade de ficar sozinho, isso apenas reforça um argumento de Sérgio Buarque sobre essa peculiaridade do brasileiro. Primeiro ao citar a observação de um viajante estrangeiro: "em meio do ruído e da mixórdia, da jovialidade e da ostentação que caracterizam todas essas celebrações, gloriosas, pomposas, esplendorosas, quem deseje encontrar já não digo estímulo, mas ao menos lugar para um culto mais espiritual, precisará ser singularmente fervoroso". Isso, no campo religioso, inclusive, responde pelo enorme sucesso do neo-pentecostalismo, protestante ou católico -- este, via Renovação Carismática. São cultos ruidosos que se aclimataram à luva numa terra ruidosa.
Mas também o cearense é o mais cordial dos brasileiros. No sentido buarqueano da cordialidade. No sentido de que "a vida em sociedade, é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência". Quer dizer essa sociabilidade tênue, que se mantém sempre no raso, que fica na superfície, que quase nunca desce à profundidade é a que é mais valorizada, porque, em verdade, consiste num disfarce que "permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas [verdadeiras] emoções".
E, daqui, a fama de hospitaleiro. A hospitalidade cearense é, por um lado, um complexo de inferioridade, se se dá entre iguais. E, por outro, uma marca de pobreza. Daí a questão da prostituição ou mesmo do casamento como forma de saída da promiscuidade e da pobreza, desde que, nesses casais, a esposa, a mulher é que é, via de regra, a cearense.
Outro aspecto notável é a necessidade de ostentação. Mas também isso é tão fácil de explicar pelo novoriquismo generalizado de nossa elite. Uma elite recente, de comerciantes. Sem os fumos aristocráticos dos grandes proprietários de terra de Pernambuco ou do Recôncavo.
Por vezes, os interiores das casas ostentam mais do que podem os cartões de crédito dos donos. E, pior, muitas dessas casas, por excesso de ostentação tornam-se visadas pelos assaltantes. E, ainda descendo na cacimba, para além dessa casca que se põe na sala de estar, nos armários da cozinha, na profusão de camisas e sapatos do closet, no deck da piscina, no ofurô do lavabo, não há muito mais o que se roubar.
E, claro, isso gera ainda mais violência por parte dos assaltantes que não estão propriamente interessados nessas trivialidades ostentatórias e sim em valores, em uma liquidez imediata, que só o hábito e o esforço do acúmulo de capital propiciam. E que não existem para além dessa casca de modernidade e consumo compradas na Tok & Stock ou em lojinhas de grife.
Como um povo assim pode escapar de criar uma cultura singular sadia? É sonhar com os Big Brothers e as Malhações da vida. Aliás, os poucos cearenses que participaram dessas trivialidades são entrevistos como motivos de orgulho para o estado. São reis numa terra de cegos. Quase semideuses. Dão autógrafos no meio da rua.
Entre numa casa de alta classe-média em Fortaleza e haverá um aposento que, quase sempre não existe: um estúdio com uma pequena biblioteca. Livros? Quando muito alguns de culinária nas lustrosas cozinhas. Ou de arte. Para "enfeitar a sala-de-estar".



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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Soberbas super memórias


Supermemórias, detalhe do site quando filme ainda in progress




Testemunho e Ternura

Supermemórias, de Danilo Carvalho, curta-metragem, Alumbramento Produções, Brasil, 2010

Em parte, o êxito de Supermemórias, ou mesmo o fato de ele constituir um dos filmes mais efetivos produzidos recentemente em/(e sobre) Fortaleza, provêm de uma instância técnica: a brevidade das tomadas feitas em precárias câmeras super-8, com sua característica imagem “pálida”, granulada e ausência de definição ou nitidez.
Elas, já por si, em analogia, semelham as fotos daqueles velhos álbuns de família, pesados, de folhas espessas, de papelão, guarnecidas por páginas de papel manteiga. Álbuns em que cada foto, já amarelecida, guarda mais um valor testemunhal que meramente plástico.
Essa escassez, essa pobreza e brevidade das imagens foi decisiva para a montagem do filme. O que equivale dizer: rompeu com uma série de dispositivos que eram tidos pertos de norma ou lei por quase todos quantos têm realizado filmes recentemente aqui em Fortaleza: os longuíssimos planos-sequências (que, por vezes ligam o nada ao lugar nenhum); o jogo entre foque/desfoque (sugerindo abstrações, tão plásticas quanto por vezes inócuas para a economia geral do filme); a profundidade de campo; o corte seco; as cores alteradas por plug-ins (ou pluguinadas); a quase ausência de trilha sonora, e um certo – inconsciente? – descuido com o ritmo geral da coisa.
Supermemórias é o contrário dessa soma, pretensiosa, de dispositivos. E cativa por sua pobreza.
E notem que essa pobreza – a da tensão breve, a do limite temporal dos planos, por exemplo – também contribuiu para que se buscasse uma banda sonora que procurasse suplementá-la a contento. E foi precisamente o que ocorreu.
Portanto, se a emoção que essas imagens de um passado recente tão obviamente despertam no espectador advêm do ritmo em que estão montadas, e do som que a elas se casam em rara harmonia, é porque há nelas um altíssimo grau de testemunho. E, suplementadas, não nos esqueçamos, por uma notável (e, contudo, bastante despretensiosa) preocupação narrativa, que se fecha em ciclo. E, aqui, sim, se pode divisar melhor as intenções do realizador, para além dos limites da brevidade das tomadas em super-8 ou de outras limitações técnicas da imagem em si.
De um conjunto de azulejos aleatórios e dispersos, soube-se ordenar um painel em que a Fortaleza dos anos 70 e 80 assoma com desenhada lucidez. Recolhendo material em super-8 de fontes e gentes diversas - em especial, sobre a temática dos ritos em família - o realizador e sua equipe tiveram de empreender essencialmente um trabalho de triagem e sintaxe das imagens. Pois o filme, apesar de seu frescor, é todo montado com imagens de arquivo. E imagens suplementadas por sons tão potentes, que dispensam qualquer off mais ortodoxamente narrativo. Lembremos que, em primeira instância, seu diretor é essencialmente um engenheiro de som.
De louvável, Danilo Carvalho, em Supermemórias, apenas lançou mão de um dispositivo simples – e simples quase nunca quer dizer fácil –, mas muito efetivo. Qual? O de inscrever a memória dos tempos recentes de Fortaleza –tomada sobretudo sob o ângulo dos ritos familiares – em seu próprio destino individual e intransferível. Daí que seja adorável o momento em que sem nenhuma nitidez de imagem se ouça a voz de seus pais congratulando-o pelo recém-nascimento da filha.
Quase sempre imagens de um passado recente, por serem tão expressamente o espelho ou contraste mais nítido do presente, despertam uma certa “vergonha”. Um constrangimento diante do desenho [design] das coisas e objetos, da decoração das casas, dos gestos e ritos familiares, do corte dos cabelos, do talhe das roupas, da atitude geral das pessoas, do modo como elas lançam mão de seus tempos de lazer e distensão.
Tudo isso está presente em Supermemórias: o surfista de cabelos longos, parafinados e franja à “menino do Rio”; a bela garota [a “cocota”?] que hesita em enfrentar as ondas na Praia do Meireles, envergando um biquíni estranhamente largo e sem apelo para o tempo presente; as comemorações no âmbito familiar em amplas salas profusamente decoradas com miniaturas e bibelôs; e, sobretudo, nas hilariantes cenas em que dois garotos brincam de bang-bang com revólveres de brinquedo – algo que entra em confronto direto com o tacanho politicamente-correto dos diascorrentes e, simultaneamente, desvela a inocência e o grau de “faz-de-conta” investido na brincadeira em si.
Há no entanto, planos-gerais de grande relevância simbólica para além do âmbito familiar. Como imagens tomadas on-board, do centro da cidade. Ou ainda um plano em que se pode ver a fachada de uma casa sendo posta ao chão. E, aqui, bem se pode imaginar o condomínio que sobre ela, em sequência, foi erguido. A sutileza com que temas feito a especulação imobiliária dizem presente na imagem do filme.
O êxito de Supermemórias reside, assim, nos desmentindo em parte, não nas limitações da imagem, determinantes para a decupagem ou o fluxo de duração dos planos. Porém no hábil modo com que Danilo Carvalho e sua equipe conseguiram lançar mão disso com impressiva eficácia. Uma espécie de fluidez que fala, à boca pequena, aos habitantes de um local – e, portanto, o torna tão universal a ponto de falar aos habitantes de qualquer outro local. Seu valor de testemunho é incomensuravelmente belo. E é esse o mérito capital de Supermemórias.
Ao assisti-lo experimenta-se um deleite análogo ao do adolescente, prestes a pular da velha Ponte Metálica sobre a impetuosidade das ondas. É um mergulho num passado e numa lembrança que nem sempre nos detemos ou nos propomos a fazer. Talvez pelo grau de consciência, dor ou atestado de tempo passado, que isso suscita.
Sem embargo, o único momento em que o filme cede um pouco ao maniqueísmo de uma tese excessivamente pré-concebida, seja no modo de apresentar as paradas militares. Não nas imagens em si. Mas na banda sonora. É tão óbvia as dilaceradoras e nefastas consequências de se viver sob uma ditadura, como nos anos 70, que qualquer tipo de acento maior sobre a coisa, acaba tornando-se um excesso, por espoliar a sutileza da imagem em si. Por exemplo, a inconsciente alegria dos desfiles colegiais, com a baliza adiante da fileira de alunos, brandindo alegremente o bambolê...
Porém, esses são pecadilhos menores dentro de um curta absolutamente encantador. Pois dele se pode dizer que se trata de um filme à altura da pulsão afetiva do colecionador. De nossos grandes colecionadores: de um Nirez, de um Christiano Câmara. Ainda que essa pulsão seja reapropriada sob uma nova perspectiva, um novo ângulo. Em suma, um filme enfeitiçante, acima de tudo, por não trair história e realidade de uma cidade tão pouco habituada a ser traduzida na tela com tamanho grau de testemunho e ternura.


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quarta-feira, 24 de março de 2010

Sinais, orientações, lembretes


Ramon Cavalcante e Fernanda Meireles, subjetivando cidades objetivas



Desde as cidades que nos habitam àquelas que habitamos, e de volta


Poucos têm feito tanto para aglutinar e divulgar os veios diversos da literatura feita a partir de Fortaleza ou de passagem por ela quanto Fernanda Meireles. Nanda idealizou um evento, o Literatura de Lua, por onde já passaram gentes dos mais diversos estilos, posturas e relações com a palavra. E tudo ao sabor dos deliciosos cafés e confeitos do Café da Lua, nos altos da Livraria Lua Nova, no Benfica.

Fernanda Meireles e Ramon Cavalcante lançam amanhã, 25/03, no Parente Snooker Bar, Rua Dom Jerônimo, 554, (próximo à linha de trilhos que corta a Av. Treze de Maio em seus inícios, antes de se tornar Jovita Feitosa), Cidades Internas.

Cidades Internas consiste numa coleção de 15 placas coloridas em PVC, 12x20cm. "Nelas estão marcações, sinais, orientações e lembretes que conectam" a cidade que moramos ao reverso, à que mora dentro de nós. Cada uma dessas pequenas aventuras e riscos urbanos pode ser adquirido ao módico preço de R$ 15,00.


Os desenhos são de Ramon. As escrituras de Fernanda.


Feito o convite. É conferir.




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Algo da chispa dos olhos do miúra





Sempre-chegada a Ceuta


O linho do vestido conformando
densos, cada movimento traços
de um croqui quando chegaste ali
quase à sombra do Monte Hacho
O panamá sobre o chanel a guardar
algo de leve androginia que era
rematado blefe no pôquer da tarde e luzia
em teu rosto uma liquidez de termas
como se por trás de tanta elegância
pulsasse um gavião, satisfeito de chegar
ao termo da volataria; e o lábio em transe
entreabrindo-se em fase, reinaugurasse
a quase invisível rasura que te risca
a face esquerda; e os olhos a guardar
algo da chispa dos olhos do miúra.


[poema de Mediterrâneo]


Lançamentos de poesia, por Annita Costa Malufe, Revista Cult, número 144, março 2010:

“Ruy Vasconcelos optou por não reunir seus poemas em um livro. Mesmo assim, seus textos espalham-se por aí, em diversas revistas literárias e antologias - para não citar suas inúmeras traduções. Nesta plaquete artesanal, [Mediterrâneo], temos, assim, uma rara oportunidade de mergulhar por um pouco mais de tempo numa poética exigente, rigorosa. E trata-se mesmo de um mergulho por cenários e atmosferas pouco familiares para nós, em poemas nascidos de uma viagem à cidade de Ceuta, norte da África. A rememoração de um amor fugaz, perdido no tempo e no espaço, é o material que dá “certo tom elegíaco” a esta poesia, como define o autor, para quem a poesia medieval é uma das referências”.


Mediterrâneo, Ruy Vasconcelos, Arqueria Editorial, São Paulo, SP, 2010, pode ser encomendado à: arqueriaeditorial@yahoo.com.br ao preço de R$ 15,00.


Nota - Segue minha gratidão à Virna Teixeira, minha editora. Assim como aos amigos Diego Vinhas e Eduardo Jorge que leram a plaquete ainda em seus originais. Gostaria também de agradecer, por tabela, a Francisco dos Santos, que, desde Bauru, interior de São Paulo, tem feito, através de sua Lumme Editorial, um belo e bem recortado trabalho de edição de poesia e me despertado para possibilidade de lançar-me a alguns projetos comuns na área de tradução -- que tanto me é cara.


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quarta-feira, 10 de março de 2010

Nos afagam feito seda: Shakespeare

























Paul Klee, Old Man Figuring (Rechenender Greis), 1929



Sonnet CXXXVIII

When my love swears that she is made of truth,
I do believe her, though I know she lies,
That she might think me some untutored youth,
Unlearnèd in the world’s false subtleties.
Thus vainly thinking that she thinks me young,
Although she knows my days are past the best,
Simply I credit her false-speaking tongue:
On both sides thus is simple truth suppressed.
But wherefore says she not she is unjust?
And wherefore say not I that I am old?
Oh, love’s best habit is in seeming trust,
And age in love loves not to have years told.
Therefore I lie with her and she with me,
And in our faults by lies we flattered be.

William Shakespeare


Soneto CXXXVIII

Quando meu amor jura que é feita de verdade,
Devo crê-la, ainda que eu saiba: ela mente;
Tomando-me por um inculto adolescente,
Sem notar nas sutilezas deste mundo falsidade.
Assim pensando, ela acha em mim pouca idade,
Entanto saiba: o melhor de meus dias já não é presente,
E creio em sua falsa língua, simplesmente:
De ambos os lados impera a mesmíssima inverdade.
Mas então, por que ela não diz que é injusta?
E, no caso, por que não digo que estou velho?
Ah, esse melhor hábito do amor, fingir que nada custa,
E tempo no amor não põe o passar de anos no espelho,
Portanto minto para ela, ela replica na mesma moeda
E essas faltas e mentiras nos afagam feito seda.





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terça-feira, 9 de março de 2010

Amanheceu, é dia claro: uma alba desde a Provença


Giovanni Anselmo, 2000




Alba

Quan lo rosinhols escria
ab sa part la nueg e.l dia,
yeu suy ab ma bell'amia
jos la flor,
tro la gaita de la tor
escria: "Drutz, al levar!
Qu'ieu vey l'alba e.l jorn clar".

Anônimo



Alba

Quando o rouxinol assovia
escavando da noite o dia,
sobre a bela guria
minha mão ainda escorre,
até troar na torre
o apito: “Amantes, vos declaro,
amanheceu, é dia claro!”




Nota – este poema, de um trovador anônimo, é um das mais conhecidas albas da poesia provençal. Esta tradução, nada literal, é bastante “solta”, em vários aspectos. Um trovador, por exemplo jamais chamaria sua amante de “guria”, mas de “senhora”, “dama”, ou no mínimo “amiga” [(“amia”, v.3) que significava  “namorada”, como no galego-português-arcaico – de onde, aliás, adveio esse gênero poético que se aclimatou, posteriormente, na Provença].


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segunda-feira, 8 de março de 2010

O tempo nada te dirá: Auden

















Roger de La Fresnaye, 1913



If I could tell you

Time will say nothing but I told you so,
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reasons why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose the lions all get up and go,
And all the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.


W. H. Auden



Se eu puder te dizer


O tempo nada te dirá mas eu te digo.
O tempo só sabe de nosso preço a pagar;
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.

Se o show dos clowns nos causar desabrigo,
Se tropeçarmos quando a orquestra tocar,
O tempo nada te dirá mas eu te digo.

Não há sortes a serem lidas, sem pascigo,
Porque te amo mais do que posso declarar,
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.

O vento sopra desde seu lugar de fustigo,
Deve haver razões para a folhagem tombar,
O tempo nada te dirá mas eu te digo.

Talvez o roseiral queira passar do espigo,
A visão circunspectamente teima em fixar,
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.

Digamos que leões acordem e saiam sem perigo,
E todos os riachos e soldados ponham-se a recuar;
O tempo nada te dirá mas eu te digo?
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.



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Como nada mais: Creeley














Robert Smithson, Corner Mirror With Coral, 1969


Oh Love

My love is a boat
floating
on the weather, the water.

She is a stone
at the bottom of the ocean.

I hold her
in my hand
and cannot lift her,

can do nothing
without her. Oh love,
like nothing else on earth!

Robert Creeley



Ah Amor

Meu amor é um barco
boiando
no clima, na água.

Ela é uma pedra
no fundo do oceano.

Tomo-a
em minhas mãos
e não posso erguê-la,

nada posso fazer
sem ela. Ah amor,
como nada mais na terra!


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Devia parecer um prodígio: Creeley

Frederick Kiesler, 1951


 
Somewhere

The galloping collection of boards
are the house which I afforded
one evening to walk into
just as the night came down.

Dark inside, the candle
lit of its own free will, the attic
groaned then, the stairs
led me up into the air.

From outside, it must have seemed
a wonder that it was
the inside he as me saw
in the dark there.

Robert Creeley


Algures

A galopante coleção de tábuas
é a casa que adquiri
certa tarde para andar por dentro
enquanto a noite caía.

Escuro lá dentro, a vela
acesa por si, o sótão
gemia então, os degraus,
suspendiam-me no ar.

Do lado de fora, devia parecer
um prodígio que fosse
o interior o que ele feito eu visse
no escuro de lá.


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Como se todos: Creeley

Kara Walker, 1998




A Token


My lady
fair with
soft
arms, what

can I say to
you—words, words
as if all
worlds were there.


Robert Creeley



Um Empenho


Minha bela
dama de
macios
braços, que

posso dizer a
você—alfas, betas
como se todos
os planetas lá estivessem.


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Macios mais sejam que suaves sonos: cummings











Juan Miró, The Hunter, 1923




'All in green went my love riding'

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the merry deer ran before.

Fleeter be they than dappled dreams
the swift sweet deer
the red rare deer.

Four red roebuck at a white water
the cruel bugle sang before.

Horn at hip went my love riding
riding the echo down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the level meadows ran before.

Softer be they than slippered sleep
the lean lithe deer
the fleet flown deer.

Four fleet does at a gold valley
the famished arrow sang before.

Bow at belt went my love riding
riding the mountain down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the sheer peaks ran before.

Paler be they than daunting death
the sleek slim deer
the tall tense deer.

Four tall stags at a green mountain
the lucky hunter sang before.

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
my heart fell dead before.


e.e. cummings


'Toda de verde meu amor seguia'

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os altos picos adiante seguiam.

Céleres sejam mais que nesgas de sonhos
o liso suave cervo
o rubro raro cervo.

Quatro cabritos baios na alva água
a cruenta corneta soava adiante.

Trompas em riste meu amor seguia
galopava ao fundo do eco
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam.

Macios mais sejam que suaves sonos
o esguio esperto cervo
o célere soberbo cervo

Quatro corriam ao longo de um vale dourado
as esfaimadas flechas adiante silvavam.

Arcos retesos se meu amor galopava
descendo a vertente
no veio da manhã

quatro esguios galgos rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam

Mais lívidos sejam que a pavorosa morte
o leve lustroso cervo
o alto ansioso cervo

Para quatro gamos numa colina verde
a rápida caçadora silvava adiante

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
antes meu coração caiu fulminado 


*   *   *