segunda-feira, 26 de abril de 2010

Soberbas super memórias


Supermemórias, detalhe do site quando filme ainda in progress




Testemunho e Ternura

Supermemórias, de Danilo Carvalho, curta-metragem, Alumbramento Produções, Brasil, 2010

Em parte, o êxito de Supermemórias, ou mesmo o fato de ele constituir um dos filmes mais efetivos produzidos recentemente em/(e sobre) Fortaleza, provêm de uma instância técnica: a brevidade das tomadas feitas em precárias câmeras super-8, com sua característica imagem “pálida”, granulada e ausência de definição ou nitidez.
Elas, já por si, em analogia, semelham as fotos daqueles velhos álbuns de família, pesados, de folhas espessas, de papelão, guarnecidas por páginas de papel manteiga. Álbuns em que cada foto, já amarelecida, guarda mais um valor testemunhal que meramente plástico.
Essa escassez, essa pobreza e brevidade das imagens foi decisiva para a montagem do filme. O que equivale dizer: rompeu com uma série de dispositivos que eram tidos pertos de norma ou lei por quase todos quantos têm realizado filmes recentemente aqui em Fortaleza: os longuíssimos planos-sequências (que, por vezes ligam o nada ao lugar nenhum); o jogo entre foque/desfoque (sugerindo abstrações, tão plásticas quanto por vezes inócuas para a economia geral do filme); a profundidade de campo; o corte seco; as cores alteradas por plug-ins (ou pluguinadas); a quase ausência de trilha sonora, e um certo – inconsciente? – descuido com o ritmo geral da coisa.
Supermemórias é o contrário dessa soma, pretensiosa, de dispositivos. E cativa por sua pobreza.
E notem que essa pobreza – a da tensão breve, a do limite temporal dos planos, por exemplo – também contribuiu para que se buscasse uma banda sonora que procurasse suplementá-la a contento. E foi precisamente o que ocorreu.
Portanto, se a emoção que essas imagens de um passado recente tão obviamente despertam no espectador advêm do ritmo em que estão montadas, e do som que a elas se casam em rara harmonia, é porque há nelas um altíssimo grau de testemunho. E, suplementadas, não nos esqueçamos, por uma notável (e, contudo, bastante despretensiosa) preocupação narrativa, que se fecha em ciclo. E, aqui, sim, se pode divisar melhor as intenções do realizador, para além dos limites da brevidade das tomadas em super-8 ou de outras limitações técnicas da imagem em si.
De um conjunto de azulejos aleatórios e dispersos, soube-se ordenar um painel em que a Fortaleza dos anos 70 e 80 assoma com desenhada lucidez. Recolhendo material em super-8 de fontes e gentes diversas - em especial, sobre a temática dos ritos em família - o realizador e sua equipe tiveram de empreender essencialmente um trabalho de triagem e sintaxe das imagens. Pois o filme, apesar de seu frescor, é todo montado com imagens de arquivo. E imagens suplementadas por sons tão potentes, que dispensam qualquer off mais ortodoxamente narrativo. Lembremos que, em primeira instância, seu diretor é essencialmente um engenheiro de som.
De louvável, Danilo Carvalho, em Supermemórias, apenas lançou mão de um dispositivo simples – e simples quase nunca quer dizer fácil –, mas muito efetivo. Qual? O de inscrever a memória dos tempos recentes de Fortaleza –tomada sobretudo sob o ângulo dos ritos familiares – em seu próprio destino individual e intransferível. Daí que seja adorável o momento em que sem nenhuma nitidez de imagem se ouça a voz de seus pais congratulando-o pelo recém-nascimento da filha.
Quase sempre imagens de um passado recente, por serem tão expressamente o espelho ou contraste mais nítido do presente, despertam uma certa “vergonha”. Um constrangimento diante do desenho [design] das coisas e objetos, da decoração das casas, dos gestos e ritos familiares, do corte dos cabelos, do talhe das roupas, da atitude geral das pessoas, do modo como elas lançam mão de seus tempos de lazer e distensão.
Tudo isso está presente em Supermemórias: o surfista de cabelos longos, parafinados e franja à “menino do Rio”; a bela garota [a “cocota”?] que hesita em enfrentar as ondas na Praia do Meireles, envergando um biquíni estranhamente largo e sem apelo para o tempo presente; as comemorações no âmbito familiar em amplas salas profusamente decoradas com miniaturas e bibelôs; e, sobretudo, nas hilariantes cenas em que dois garotos brincam de bang-bang com revólveres de brinquedo – algo que entra em confronto direto com o tacanho politicamente-correto dos diascorrentes e, simultaneamente, desvela a inocência e o grau de “faz-de-conta” investido na brincadeira em si.
Há no entanto, planos-gerais de grande relevância simbólica para além do âmbito familiar. Como imagens tomadas on-board, do centro da cidade. Ou ainda um plano em que se pode ver a fachada de uma casa sendo posta ao chão. E, aqui, bem se pode imaginar o condomínio que sobre ela, em sequência, foi erguido. A sutileza com que temas feito a especulação imobiliária dizem presente na imagem do filme.
O êxito de Supermemórias reside, assim, nos desmentindo em parte, não nas limitações da imagem, determinantes para a decupagem ou o fluxo de duração dos planos. Porém no hábil modo com que Danilo Carvalho e sua equipe conseguiram lançar mão disso com impressiva eficácia. Uma espécie de fluidez que fala, à boca pequena, aos habitantes de um local – e, portanto, o torna tão universal a ponto de falar aos habitantes de qualquer outro local. Seu valor de testemunho é incomensuravelmente belo. E é esse o mérito capital de Supermemórias.
Ao assisti-lo experimenta-se um deleite análogo ao do adolescente, prestes a pular da velha Ponte Metálica sobre a impetuosidade das ondas. É um mergulho num passado e numa lembrança que nem sempre nos detemos ou nos propomos a fazer. Talvez pelo grau de consciência, dor ou atestado de tempo passado, que isso suscita.
Sem embargo, o único momento em que o filme cede um pouco ao maniqueísmo de uma tese excessivamente pré-concebida, seja no modo de apresentar as paradas militares. Não nas imagens em si. Mas na banda sonora. É tão óbvia as dilaceradoras e nefastas consequências de se viver sob uma ditadura, como nos anos 70, que qualquer tipo de acento maior sobre a coisa, acaba tornando-se um excesso, por espoliar a sutileza da imagem em si. Por exemplo, a inconsciente alegria dos desfiles colegiais, com a baliza adiante da fileira de alunos, brandindo alegremente o bambolê...
Porém, esses são pecadilhos menores dentro de um curta absolutamente encantador. Pois dele se pode dizer que se trata de um filme à altura da pulsão afetiva do colecionador. De nossos grandes colecionadores: de um Nirez, de um Christiano Câmara. Ainda que essa pulsão seja reapropriada sob uma nova perspectiva, um novo ângulo. Em suma, um filme enfeitiçante, acima de tudo, por não trair história e realidade de uma cidade tão pouco habituada a ser traduzida na tela com tamanho grau de testemunho e ternura.


* * *

quarta-feira, 24 de março de 2010

Sinais, orientações, lembretes


Ramon Cavalcante e Fernanda Meireles, subjetivando cidades objetivas



Desde as cidades que nos habitam àquelas que habitamos, e de volta


Poucos têm feito tanto para aglutinar e divulgar os veios diversos da literatura feita a partir de Fortaleza ou de passagem por ela quanto Fernanda Meireles. Nanda idealizou um evento, o Literatura de Lua, por onde já passaram gentes dos mais diversos estilos, posturas e relações com a palavra. E tudo ao sabor dos deliciosos cafés e confeitos do Café da Lua, nos altos da Livraria Lua Nova, no Benfica.

Fernanda Meireles e Ramon Cavalcante lançam amanhã, 25/03, no Parente Snooker Bar, Rua Dom Jerônimo, 554, (próximo à linha de trilhos que corta a Av. Treze de Maio em seus inícios, antes de se tornar Jovita Feitosa), Cidades Internas.

Cidades Internas consiste numa coleção de 15 placas coloridas em PVC, 12x20cm. "Nelas estão marcações, sinais, orientações e lembretes que conectam" a cidade que moramos ao reverso, à que mora dentro de nós. Cada uma dessas pequenas aventuras e riscos urbanos pode ser adquirido ao módico preço de R$ 15,00.


Os desenhos são de Ramon. As escrituras de Fernanda.


Feito o convite. É conferir.




* * *


Algo da chispa dos olhos do miúra





Sempre-chegada a Ceuta


O linho do vestido conformando
densos, cada movimento traços
de um croqui quando chegaste ali
quase à sombra do Monte Hacho
O panamá sobre o chanel a guardar
algo de leve androginia que era
rematado blefe no pôquer da tarde e luzia
em teu rosto uma liquidez de termas
como se por trás de tanta elegância
pulsasse um gavião, satisfeito de chegar
ao termo da volataria; e o lábio em transe
entreabrindo-se em fase, reinaugurasse
a quase invisível rasura que te risca
a face esquerda; e os olhos a guardar
algo da chispa dos olhos do miúra.


[poema de Mediterrâneo]


Lançamentos de poesia, por Annita Costa Malufe, Revista Cult, número 144, março 2010:

“Ruy Vasconcelos optou por não reunir seus poemas em um livro. Mesmo assim, seus textos espalham-se por aí, em diversas revistas literárias e antologias - para não citar suas inúmeras traduções. Nesta plaquete artesanal, [Mediterrâneo], temos, assim, uma rara oportunidade de mergulhar por um pouco mais de tempo numa poética exigente, rigorosa. E trata-se mesmo de um mergulho por cenários e atmosferas pouco familiares para nós, em poemas nascidos de uma viagem à cidade de Ceuta, norte da África. A rememoração de um amor fugaz, perdido no tempo e no espaço, é o material que dá “certo tom elegíaco” a esta poesia, como define o autor, para quem a poesia medieval é uma das referências”.


Mediterrâneo, Ruy Vasconcelos, Arqueria Editorial, São Paulo, SP, 2010, pode ser encomendado à: arqueriaeditorial@yahoo.com.br ao preço de R$ 15,00.


Nota - Segue minha gratidão à Virna Teixeira, minha editora. Assim como aos amigos Diego Vinhas e Eduardo Jorge que leram a plaquete ainda em seus originais. Gostaria também de agradecer, por tabela, a Francisco dos Santos, que, desde Bauru, interior de São Paulo, tem feito, através de sua Lumme Editorial, um belo e bem recortado trabalho de edição de poesia e me despertado para possibilidade de lançar-me a alguns projetos comuns na área de tradução -- que tanto me é cara.


* * *

quarta-feira, 10 de março de 2010

Nos afagam feito seda: Shakespeare

























Paul Klee, Old Man Figuring (Rechenender Greis), 1929



Sonnet CXXXVIII

When my love swears that she is made of truth,
I do believe her, though I know she lies,
That she might think me some untutored youth,
Unlearnèd in the world’s false subtleties.
Thus vainly thinking that she thinks me young,
Although she knows my days are past the best,
Simply I credit her false-speaking tongue:
On both sides thus is simple truth suppressed.
But wherefore says she not she is unjust?
And wherefore say not I that I am old?
Oh, love’s best habit is in seeming trust,
And age in love loves not to have years told.
Therefore I lie with her and she with me,
And in our faults by lies we flattered be.

William Shakespeare


Soneto CXXXVIII

Quando meu amor jura que é feita de verdade,
Devo crê-la, ainda que eu saiba: ela mente;
Tomando-me por um inculto adolescente,
Sem notar nas sutilezas deste mundo falsidade.
Assim pensando, ela acha em mim pouca idade,
Entanto saiba: o melhor de meus dias já não é presente,
E creio em sua falsa língua, simplesmente:
De ambos os lados impera a mesmíssima inverdade.
Mas então, por que ela não diz que é injusta?
E, no caso, por que não digo que estou velho?
Ah, esse melhor hábito do amor, fingir que nada custa,
E tempo no amor não põe o passar de anos no espelho,
Portanto minto para ela, ela replica na mesma moeda
E essas faltas e mentiras nos afagam feito seda.





* * *

terça-feira, 9 de março de 2010

Amanheceu, é dia claro: uma alba desde a Provença


Giovanni Anselmo, 2000




Alba

Quan lo rosinhols escria
ab sa part la nueg e.l dia,
yeu suy ab ma bell'amia
jos la flor,
tro la gaita de la tor
escria: "Drutz, al levar!
Qu'ieu vey l'alba e.l jorn clar".

Anônimo



Alba

Quando o rouxinol assovia
escavando da noite o dia,
sobre a bela guria
minha mão ainda escorre,
até troar na torre
o apito: “Amantes, vos declaro,
amanheceu, é dia claro!”




Nota – este poema, de um trovador anônimo, é um das mais conhecidas albas da poesia provençal. Esta tradução, nada literal, é bastante “solta”, em vários aspectos. Um trovador, por exemplo jamais chamaria sua amante de “guria”, mas de “senhora”, “dama”, ou no mínimo “amiga” [(“amia”, v.3) que significava  “namorada”, como no galego-português-arcaico – de onde, aliás, adveio esse gênero poético que se aclimatou, posteriormente, na Provença].


*   *   *

segunda-feira, 8 de março de 2010

O tempo nada te dirá: Auden

















Roger de La Fresnaye, 1913



If I could tell you

Time will say nothing but I told you so,
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reasons why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose the lions all get up and go,
And all the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.


W. H. Auden



Se eu puder te dizer


O tempo nada te dirá mas eu te digo.
O tempo só sabe de nosso preço a pagar;
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.

Se o show dos clowns nos causar desabrigo,
Se tropeçarmos quando a orquestra tocar,
O tempo nada te dirá mas eu te digo.

Não há sortes a serem lidas, sem pascigo,
Porque te amo mais do que posso declarar,
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.

O vento sopra desde seu lugar de fustigo,
Deve haver razões para a folhagem tombar,
O tempo nada te dirá mas eu te digo.

Talvez o roseiral queira passar do espigo,
A visão circunspectamente teima em fixar,
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.

Digamos que leões acordem e saiam sem perigo,
E todos os riachos e soldados ponham-se a recuar;
O tempo nada te dirá mas eu te digo?
Se eu puder te dizer, separarás joio e trigo.



* * *


Como nada mais: Creeley














Robert Smithson, Corner Mirror With Coral, 1969


Oh Love

My love is a boat
floating
on the weather, the water.

She is a stone
at the bottom of the ocean.

I hold her
in my hand
and cannot lift her,

can do nothing
without her. Oh love,
like nothing else on earth!

Robert Creeley



Ah Amor

Meu amor é um barco
boiando
no clima, na água.

Ela é uma pedra
no fundo do oceano.

Tomo-a
em minhas mãos
e não posso erguê-la,

nada posso fazer
sem ela. Ah amor,
como nada mais na terra!


* * *

Devia parecer um prodígio: Creeley

Frederick Kiesler, 1951


 
Somewhere

The galloping collection of boards
are the house which I afforded
one evening to walk into
just as the night came down.

Dark inside, the candle
lit of its own free will, the attic
groaned then, the stairs
led me up into the air.

From outside, it must have seemed
a wonder that it was
the inside he as me saw
in the dark there.

Robert Creeley


Algures

A galopante coleção de tábuas
é a casa que adquiri
certa tarde para andar por dentro
enquanto a noite caía.

Escuro lá dentro, a vela
acesa por si, o sótão
gemia então, os degraus,
suspendiam-me no ar.

Do lado de fora, devia parecer
um prodígio que fosse
o interior o que ele feito eu visse
no escuro de lá.


 *   *   *

Como se todos: Creeley

Kara Walker, 1998




A Token


My lady
fair with
soft
arms, what

can I say to
you—words, words
as if all
worlds were there.


Robert Creeley



Um Empenho


Minha bela
dama de
macios
braços, que

posso dizer a
você—alfas, betas
como se todos
os planetas lá estivessem.


* * *
 

Macios mais sejam que suaves sonos: cummings











Juan Miró, The Hunter, 1923




'All in green went my love riding'

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the merry deer ran before.

Fleeter be they than dappled dreams
the swift sweet deer
the red rare deer.

Four red roebuck at a white water
the cruel bugle sang before.

Horn at hip went my love riding
riding the echo down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the level meadows ran before.

Softer be they than slippered sleep
the lean lithe deer
the fleet flown deer.

Four fleet does at a gold valley
the famished arrow sang before.

Bow at belt went my love riding
riding the mountain down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the sheer peaks ran before.

Paler be they than daunting death
the sleek slim deer
the tall tense deer.

Four tall stags at a green mountain
the lucky hunter sang before.

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
my heart fell dead before.


e.e. cummings


'Toda de verde meu amor seguia'

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os altos picos adiante seguiam.

Céleres sejam mais que nesgas de sonhos
o liso suave cervo
o rubro raro cervo.

Quatro cabritos baios na alva água
a cruenta corneta soava adiante.

Trompas em riste meu amor seguia
galopava ao fundo do eco
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam.

Macios mais sejam que suaves sonos
o esguio esperto cervo
o célere soberbo cervo

Quatro corriam ao longo de um vale dourado
as esfaimadas flechas adiante silvavam.

Arcos retesos se meu amor galopava
descendo a vertente
no veio da manhã

quatro esguios galgos rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam

Mais lívidos sejam que a pavorosa morte
o leve lustroso cervo
o alto ansioso cervo

Para quatro gamos numa colina verde
a rápida caçadora silvava adiante

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
antes meu coração caiu fulminado 


*   *   *


                               

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Atemporais, duráveis


John Cassavetes, Shadows, 1959





-->
5 algos sobre imagens

1.
As ideias pouco se revelam apenas pelo contato direto com os fenômenos vivos. […] Em resumo, o mundo se mostra àquele que se volta diretamente para ele na forma de uma “figura”. É necessário enxergar essa figura, como se vista pela primeira vez para se poder alcançar certas essências – as mesmas negadas hoje em dia por boa parte das teorias ditas pós-modernas. Renovando o resumo: é preciso revelar o invisível sem violar a visibilidade das coisas. O que equivale dizer: enxergar algo do único modo em que esse algo refrata uma chispa de verdade.

2.
Não se deve aproximar de imagens e fenômenos no instante de seu florescimento, é preferível buscá-las no passado. O caso é que, privadas de sua vida mais urgente, essas imagens se tornam transparentes. Como se vistas pela primeira vez. Como se vistas por olhos descalços. Como seixos são vistos no leito de um rio quando a água está transparente por conta do excesso de chuvas, água que cai do céu. Essa imagem transparente, para buscar um equivalente teológico, deve ser como um maná para os olhos. Há aqui um paradoxo a ruína revela o instante de florescimento com mais intensidade e imediaticidade que o instante mesmo do florescer.

3.
O conhecimento, em imagem, nasce da sensibilidade que se tem diante das ruínas. E do amor por aquilo que é frágil. Tudo isso vem da compreensão da efemeridade do tempo, da rápida degradação das coisas. Quem é capaz de sentir a vida pulsando na matéria morta das ruínas, redime fragmentos de passado. E, dessa forma, é capaz de mostrar aos outros imagens que retêm uma pertinácia, uma coerência, uma beleza que valem não só para o presente imediato, mas para qualquer tempo. Essas imagens de ruínas são atemporais, duráveis. Possuem força, substância. Não se rendem ao imediatismo do que é considerado “belo” num instante determinado. Porque o “belo” imediato e presente, tutelado pelo efêmero ciclo da moda, da publicidade ou da teoria acadêmica em voga esgota fácil. Ou seja, uma imagem só se torna verdadeiramente bela quando possui a força de ao amarelecer, ao chegar à sua própria condição de ruína, como a folha de um velho livro, permanecer bela. Isso acontece também no reino dos objetos: o velho gravador de fitas k-7 ou a pequena máquina de escrever portátil, deslocados de sua função imediata de utilidade, adquirem um novo e estável estatuto de beleza.

4.
Todas essas concepções de imagem como resgate da ruína ou amor pela fragilidade têm muito a ver com gente como Benjamin, Bazin, Bresson, no Ocidente. Mas também não é à toa que um realizador como Ozu tanto privilegie a natureza morta (still life) em seus filmes. Um jarro de flores a um canto, por exemplo. E o belo modo como o faz: captando com fixidez, sem nenhum movimento de câmera ou aproximações óticas desnecessários, extravagantes: panorâmicas, zooms, travellings. Quanto mais antigo o objeto mais nele o senso de ruína e história estão fixados. Eis porque ao contrário do lustro e do brilho ocidentais, os orientais acham muito mais belo um jogo de chá, em aço, que já chegou a agregar à sua superfície uma pátina de pó. E provavelmente uma dona-de-casa japonesa ralharia com uma criada que o polisse, removendo a opacidade que tanto lhes agrada justo por indicar a passagem do tempo.

5.
Fortaleza é uma cidade que fez de tudo, especialmente no plano arquitetônico, para espanar e polir ao máximo essa pátina de pó. O paroxismo desse lustroso brilho são os shopping-centers. E há amigos que crêem que esse foi o caminho acertado. Amigos arquitetos, inclusive, como Juca Santabaia. Mas, até aqui nada de espantar, pois o modo como, de fato, enxergam a cidade, através de observações outras e analogias, acaba revelando que esse ponto de vista é um logro inconsciente. Quando mais jovem cria que o cinema devia sobretudo entreter. E recordo disso como uma das discussões mais acaloradas com Alexandre Veras. E que, em parte, essa ênfase que depunha no entretenimento se dava a partir de meu apreço pelo cinema norte-americano (e pelo western em particular). Mas Veras, que possui uma visão muito lúcida da questão, talvez obnubilada apenas por um excessivo fetiche pela “vanguarda”, me disse, à ocasião, algo interessante: “sim, um entretenimento. Mas um entretenimento para o espírito”.


* * *

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Uma devastadora influência


Lionel Feininger, Wahlkreis Essen, 1905




O mais confiável dos brasileiros

Recentemente um renomado instituto de pesquisa revelou que o brasileiro com maior grau de credibilidade junto à população não é Lula da Silva. Apesar do carisma, da popularidade e da habilidade de interlocução do presidente. A despeito de sua imensa capacidade de, como animal político, saber traduzir tão bem, numa linguagem acessível, atraente, simples – e simples nem sempre quer dizer fácil – muito do que um largo contingente de brasileiros “quer” ouvir, uma vez que uma das principais tarefas de um líder político é ser capaz de legar confiança à população e instigar auto-estima nos que vivem sob sua administração.

Há também, sem dúvida, analistas políticos que, não sem razão, tem apontado para o quanto o PT, partido de Lula, tem infiltrado-se, com tanta intensidade nos meandros da sociedade civil. O fenômeno gera preocupação. E, de outro modo, porque a preferida de Lula para a sucessão, Dilma Rousseff, possui não só um estilo mais autoritário, mas um passado um tanto mais truculento. Sem embargo, o Estado tem investido maciçamente em publicidade.

Poder-se-ia argumentar que há um processo, de resto, análogo ao que sucede com Chávez, na Venezuela. Tão-só deflagrado e urdido de um modo extremamente mais sutil. Essa “ubiquidade” petista segue dos sindicatos aos movimentos sociais supostamente não estatais [as ditas ONG’s], com um firme estribo no meio universitário e na classe artística.

Mas todas essas questões acima fogem um tanto quanto dos propósitos de nosso argumento presente. E demandariam muito mais tempo, nuanças e espaço do que dispomos de momento.

Voltando ao instituto e à pesquisa, constatou-se que o brasileiro com maior credibilidade junto à população trata-se de William Bonner.

Bonner, 46 anos, é o apresentador e âncora do principal telenoticioso brasileiro, o Jornal Nacional, veiculado desde 1969, pela Rede Globo de Televisão, às oito e quinze da noite.

Não é tão surpreendente que assim seja. Numa população que, em predominância ainda lê muito pouco, mesmo com o advento da internet, e da vertiginosa e sobressalente difusão da imprensa eletrônica no país, a televisão ainda é uma potência, cuja ascendência sobre a formação de opinião é devastadora, para dizer o de menos. E, em especial, porque no Brasil se passou do semi-analfabetismo para a difusão televisiva sem a consolidação de meios impressos que pudessem suavizar essa devastadora influência, que, no plano do entretenimento, vaza pelo folhetim eletrônico (a telenovela, como é aqui conhecida); e, na esfera jornalística, pelos telenoticiosos. Assim que os “telejornalistas” da rede hegemônica de TV, a Globo, são tão – ou em certos casos – mais populares que os “astros” das telenovelas.

É o caso de Bonner. Ele congrega dezenas de milhares de seguidores na rede Twitter de comunicação.

Bonner conjuga a aparência de um galã com a firmeza e a seriedade de um doutrinador. Sua aparente imparcialidade e ponderação, só fazem concessões a uma ou outra rara emotividade plasmada em certas notícias veiculadas a portar o selo da importância mesma da qual a realidade interna do próprio mundo televisivo revestiu-se no país. E principalmente após a fundação da TV Globo, com capitais provindos de grupos de comunicação norte-americanos em meados dos anos 60.

O que Bonner diz soa como a verdade. Porque sua dicção, postura, imagem e firmeza em tudo contribuem para que assim seja. Uma imagem de seriedade. De falta de resvalos, hesitações, equívocos. Em Bonner não há espaço para revisões ou palinódias.

Uma das raras ocasiões em que ele cedeu à emoção, a única em que chegou a verter lágrimas em público, foi quando seu próprio chefe, Roberto Marinho, fundador e proprietário da Globo, faleceu, em 2003. E, de um modo um tanto ridículo – ou no mínimo questionável – ele chorou durante a transmissão a lamentar o falecimento “de tão notável homem público”.

Além disso, Bonner faz par no telenoticioso, com a própria esposa: Fátima Bernardes. Uma bela mulher, que transmite uma impressão de maturidade, ponderação e responsabilidade. É mãe de trigêmeos e dialoga com o marido explorando um veio de concordância. Simultaneamente polida e aquiescente mas, por igual, transmitindo certo grau de independência.

Se Bonner é o Ulisses, cujo périplo cobre a odisséia brasileira, noite após noite, oportunisticamente aliada às teses do governo, como sempre foi da conveniência da TV Globo – ou seja, converter-se numa espécie de porta-voz oficial do poder instituído a despeito de seu matiz político –, Bernardes é a fiandeira, a Penélope que aguarda sua vez para legitimar a fala do marido alçado à condição de herói nos moldes gregos. O Olimpo, ambos frequentam com certa regularidade.

Com recorrência o casal é matéria de revistas que exploram a intimidade de personalidades, com mais fotos do que propriamente texto ou ideias. Diante do casal Bonner/Bernardes, atrizes como Maitê Proença, que tanta polêmica causou pela desastrada idiotia de seus comentários sobre Portugal são, como por aqui se diz: “café pequeno”.

Dia desses, aliás, não chegou a causar espanto o que me relatou um amigo escritor, Lira Neto, um conhecido autor de biografias que se vêm tornando best-sellers por cá – a última das quais, recém-lançada, versa sobre o fenômeno quiliasta do líder político-espiritual do Sertão na primeira metade do sec. XX, o Padre Cícero Romão Batista (ou o Padim Ciço, como chamam os sertanejos). Ao ministrar uma palestra numa faculdade de jornalismo, uma jovem estudante indagou-lhe:

–Mas, diga-me, como faço para me tornar Fátima Bernardes?

E ele:

–Como assim? Presumo que você se refere a como se tornar uma apresentadora ou âncora de telenoticioso.

E ela:

–Não, você não entendeu, eu quero “ser a Fátima Bernardes”. Não qualquer uma. Mas ela própria.

A anedota em si, com toda sua carga de ingenuidade, denota ainda o incomensurável poderio da televisão, enquanto veículo de comunicação de massas no Brasil.

É provável que se Bonner tivesse aspirações políticas chegaria longe, bastante longe. Porque vivemos, não só no Brasil, claro, num mundo em que a imagem vale tanto. E é mesmo quase tudo. A casca, a aparência. Algo explorado tão bem por autores que apenas recentemente vem ganhando a ressonância que merecem, como Siegfried Kracauer, por exemplo.

Kracauer em parte analisa o fenômeno, quase sempre por alusão, em seu excelente O Ornamento da Massa, além de em outras obras. Em especial, quando aponta para sagacidade da análise de Walter Benjamin, que, com sua intuição histórica sublinhável, jamais rendia-se apenas à crítica do momento presente, buscando nas ruínas do passado a refração de uma essência quase sempre negada por todo aquele que não percebeu a força de sua lucidez calcada na exegese, na monadologia e no que há de auspicioso e alegórico sob a forma do tratado em moldes quase medievais ou escolásticos.

Outrossim, chega a ser um tanto patético que o senso crítico de milhões de pessoas não ponham em escrutínio o que é declinado noite após noite por esse jornalista de ar circunspecto e pose de super-homem.

O fenômeno diz muito não só sobre o Brasil, mas sobre o mundo em que vivemos. E, óbvio, não se limita ao momento presente. Mas estende-se ao que este país ou este mundo tem vivido nas últimas décadas: o devastador impacto da televisão – que, quem sabe se vem atenuando com o aporte da internet. Porém que é ainda quase monopólico sobre a formação de opinião num país continental como é nosso caso.

E até mesmo entre aqueles que possuem um senso crítico um tantinho acima da média.

* * *

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Movimento, mar fechado: um lançamento hoje


Webflyer do lançamento de Trânsitos e Mediterrâneo, com design de Juca Santabaia, 2010



Trânsitos, Mediterrâneo

Convido os amigos e mais gente que se interessa por poesia para o lançamento de Trânsitos [Lumme Editor], o mais novo livro de Virna Teixeira e de Mediterrâneo[Arqueria Editorial], uma magra plaquette contendo meus primeiros poemas reunidos em um volume impresso.
Trânsitos é o terceiro volume de poemas de Virna Teixeira, também excelente tradutora; e foi lançado originalmente em São Paulo, há dois meses atrás.
A movimentação, amanhã à noite, começa em torno de 20hs30min, no Restaurante Mistura Cenários e não tem hora para acabar. Haverá leituras, autográfos. Além de uma participação especial da poeta curitibana Greta Benitez, lendo algumas de suas traduções e originais.
Todos são bem-vindos.



* * *


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Se você tem"


William Christenberry, Christmas Star, near Akron, Alabama, 2000




Boas Festas


entre teclas pretas

e brancas, música


se esconde


as milhares de palavras

no dicionário


algumas, jamais direi


na choperia, belas

mulheres e seus cabelos


castanhos


à aragem leve

quente noite, dezembro


há muitas luzes

pela cidade


nenhuma


me acende uma ideia

me converte em pardal


me assiste com lampadinha


penso em poucas

algumas pessoas


nuns versos de assis valente,

se você tem a felicidade


pra você me dar”


mas, não. ora me basta uma balada

uma palavra


uma ausência

esse nada



* * *


domingo, 13 de dezembro de 2009

Os dias de uma opção multiplicados na paisagem


Paul Signac, 1894




Epitalâmio

para Graziela e Diego


a aquarela está pintada
e nela vivem os dias
de uma opção

multiplicados
na paisagem
a coragem de dois

marinha, onde barcos
oscilam suavemente –
o vapor na

chaleira, a canção sussurrada
nunca hão de ser mais
suaves

que a coragem
desses dois partilhada
na voragem

insana deste mundo.
hoje, na matriz de pacoti
que a mulher

receba seu homem
e o homem, sua mulher
em aliança

para que a dança
na aquarela seja
uma celebração

de coragem

e de escolha

multiplicada
na paisagem


* * *

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nem mesmo a chuva: cummings


Lyonel Feininger, Rain, 1952



'somewhere i have never traveled'


somewhere i have never traveled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near


your slightest look easily will unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully, mysteriously) her first rose


or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully, suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;


nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility: whose texture

compels me with the colour of its countries,

rendering death and forever with each breathing


(i do not know what it is about you that closes

and opens;only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands


e.e.cummings




'num espaço onde nunca estive'


num espaço onde nunca estive, vivamente além

de qualquer experiência, teus olhos retêm silêncio:

em teu mais frágil gesto há coisas que me cercam,

ou que não posso tocar de tão rentes


teu mais leve olhar logo irá romper-me

mesmo que eu me tenha fechado feito dedos,

sempre me abres pétala a pétala, como a primavera

abre (tocando destra, misteriosamente) a primeira rosa


ou se teu desejo é fechar-me, eu e

minha vida vedaremos muito bela, bruscamente,

como quando o coração dessa flor pressente

a neve descendo, cautelosa, por toda parte


nada que se possa revelar neste mundo vale

a força de tua intensa fragilidade: cuja textura

compele-me com a cor de seus campos,

vertendo morte e para sempre a cada sopro


(como nada, coisa alguma sei de ti quando dosas

fechar e abrir; apenas algo em mim engrena

a voz de teu olhar é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


* * *


Nos dias em que o céu não seja mais que muro


Agnes Martin, Harbor N 1, 1959



Ao modo de uma antiga balada


Sê para mim
um porto seguro
nos dias em que
o céu não seja
mais que muro

Sê para mim
a piscina calma
em que a fateixa
do corpo possa
ancorar a alma

Sê para mim
água de gamboa
sob pleno mangue
mergulhar-se inteiro
onde nada soa

Sê para mim
angra e cava
espaço de pouso
ainda que breve
para quem passava



* * *

Máscara mas cara


Henri Matisse, Masque blanc sur fond noir, 1950



Máscara mascara

Máscara alegre

Mas cara triste


* * *

Sem as palavras, a toada: Dickinson


Paul Klee, Comédia de Pássaros [Vogelkomödie], 1918



'Hope is the thing with feathers'


Hope is the thing with feathers

That perches in the soul,

And sings the tune without the words,

And never stops at all,


And sweetest in the gale is heard;

And sore must be the storm

That could abash the little bird

That kept so many warm.


I've heard it in the chillest land,

And on the strangest sea;

Yet, never, in extremity,

It asked a crumb of me.


Emily Dickinson



'Esperança, essa coisa emplumada'


Esperança, essa coisa emplumada

Que pousa na alma

E canta, sem as palavras, a toada,

E nunca se acalma,


Dulcíssima é ouvida na tormenta;

E severa a tempestade se torna,

A que o pequeno pássaro arrebenta,

A que a muitos torna a vida morna.


Ouvi-a na maré menos amena,

Na terra que menos agasalha;

E, mesmo sem sua força plena,

Ela me pediu uma migalha.



* * *

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Que se poderia rodar um western


William Kentridge, Seated Couple, 1998


O Par

a questão entre eles:
ela cria em personalidade
e também em coisas e gentes
que não se misturam
vivendo no país em que vive
católica como se assumia

ah, mas ele era muito mais cruel
depois do abrasivo calor
do beijo, criava com empoladas
palavras uma tão grande distância
que se poderia rodar um western
naquele monument valley

no fim de tudo, os bolinhos de bacalhau
e os módicos mililitros de cerveja na tulipa
ao largo da magnífica arquitetura 
em ferro do mercado dos pinhões
mais conversavam por eles, como se naturezas mortas
pudessem falar claramente de amor & seus subúrbios

em surda mudez; ou então, em algo 
que não conduziria nunca à nudez
ao código tácito que um par retém
nos corpos, livres das amarras lógicas 
do excesso de memória, de citações; livres dos livros
soltos, em suave desalinho, sobre os lençóis


* * *