segunda-feira, 8 de março de 2010

Como se todos: Creeley

Kara Walker, 1998




A Token


My lady
fair with
soft
arms, what

can I say to
you—words, words
as if all
worlds were there.


Robert Creeley



Um Empenho


Minha bela
dama de
macios
braços, que

posso dizer a
você—alfas, betas
como se todos
os planetas lá estivessem.


* * *
 

Macios mais sejam que suaves sonos: cummings











Juan Miró, The Hunter, 1923




'All in green went my love riding'

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the merry deer ran before.

Fleeter be they than dappled dreams
the swift sweet deer
the red rare deer.

Four red roebuck at a white water
the cruel bugle sang before.

Horn at hip went my love riding
riding the echo down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the level meadows ran before.

Softer be they than slippered sleep
the lean lithe deer
the fleet flown deer.

Four fleet does at a gold valley
the famished arrow sang before.

Bow at belt went my love riding
riding the mountain down
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
the sheer peaks ran before.

Paler be they than daunting death
the sleek slim deer
the tall tense deer.

Four tall stags at a green mountain
the lucky hunter sang before.

All in green went my love riding
on a great horse of gold
into the silver dawn.

four lean hounds crouched low and smiling
my heart fell dead before.


e.e. cummings


'Toda de verde meu amor seguia'

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os altos picos adiante seguiam.

Céleres sejam mais que nesgas de sonhos
o liso suave cervo
o rubro raro cervo.

Quatro cabritos baios na alva água
a cruenta corneta soava adiante.

Trompas em riste meu amor seguia
galopava ao fundo do eco
na salva da manhã.

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam.

Macios mais sejam que suaves sonos
o esguio esperto cervo
o célere soberbo cervo

Quatro corriam ao longo de um vale dourado
as esfaimadas flechas adiante silvavam.

Arcos retesos se meu amor galopava
descendo a vertente
no veio da manhã

quatro esguios galgos rastejavam-na abaixo e propícios
os planos prados adiante seguiam

Mais lívidos sejam que a pavorosa morte
o leve lustroso cervo
o alto ansioso cervo

Para quatro gamos numa colina verde
a rápida caçadora silvava adiante

Toda de verde meu amor seguia
em um grande cavalo de ouro
na salva da manhã

quatro galgos esguios rastejavam-na abaixo e propícios
antes meu coração caiu fulminado 


*   *   *


                               

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Atemporais, duráveis


John Cassavetes, Shadows, 1959





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5 algos sobre imagens

1.
As ideias pouco se revelam apenas pelo contato direto com os fenômenos vivos. […] Em resumo, o mundo se mostra àquele que se volta diretamente para ele na forma de uma “figura”. É necessário enxergar essa figura, como se vista pela primeira vez para se poder alcançar certas essências – as mesmas negadas hoje em dia por boa parte das teorias ditas pós-modernas. Renovando o resumo: é preciso revelar o invisível sem violar a visibilidade das coisas. O que equivale dizer: enxergar algo do único modo em que esse algo refrata uma chispa de verdade.

2.
Não se deve aproximar de imagens e fenômenos no instante de seu florescimento, é preferível buscá-las no passado. O caso é que, privadas de sua vida mais urgente, essas imagens se tornam transparentes. Como se vistas pela primeira vez. Como se vistas por olhos descalços. Como seixos são vistos no leito de um rio quando a água está transparente por conta do excesso de chuvas, água que cai do céu. Essa imagem transparente, para buscar um equivalente teológico, deve ser como um maná para os olhos. Há aqui um paradoxo a ruína revela o instante de florescimento com mais intensidade e imediaticidade que o instante mesmo do florescer.

3.
O conhecimento, em imagem, nasce da sensibilidade que se tem diante das ruínas. E do amor por aquilo que é frágil. Tudo isso vem da compreensão da efemeridade do tempo, da rápida degradação das coisas. Quem é capaz de sentir a vida pulsando na matéria morta das ruínas, redime fragmentos de passado. E, dessa forma, é capaz de mostrar aos outros imagens que retêm uma pertinácia, uma coerência, uma beleza que valem não só para o presente imediato, mas para qualquer tempo. Essas imagens de ruínas são atemporais, duráveis. Possuem força, substância. Não se rendem ao imediatismo do que é considerado “belo” num instante determinado. Porque o “belo” imediato e presente, tutelado pelo efêmero ciclo da moda, da publicidade ou da teoria acadêmica em voga esgota fácil. Ou seja, uma imagem só se torna verdadeiramente bela quando possui a força de ao amarelecer, ao chegar à sua própria condição de ruína, como a folha de um velho livro, permanecer bela. Isso acontece também no reino dos objetos: o velho gravador de fitas k-7 ou a pequena máquina de escrever portátil, deslocados de sua função imediata de utilidade, adquirem um novo e estável estatuto de beleza.

4.
Todas essas concepções de imagem como resgate da ruína ou amor pela fragilidade têm muito a ver com gente como Benjamin, Bazin, Bresson, no Ocidente. Mas também não é à toa que um realizador como Ozu tanto privilegie a natureza morta (still life) em seus filmes. Um jarro de flores a um canto, por exemplo. E o belo modo como o faz: captando com fixidez, sem nenhum movimento de câmera ou aproximações óticas desnecessários, extravagantes: panorâmicas, zooms, travellings. Quanto mais antigo o objeto mais nele o senso de ruína e história estão fixados. Eis porque ao contrário do lustro e do brilho ocidentais, os orientais acham muito mais belo um jogo de chá, em aço, que já chegou a agregar à sua superfície uma pátina de pó. E provavelmente uma dona-de-casa japonesa ralharia com uma criada que o polisse, removendo a opacidade que tanto lhes agrada justo por indicar a passagem do tempo.

5.
Fortaleza é uma cidade que fez de tudo, especialmente no plano arquitetônico, para espanar e polir ao máximo essa pátina de pó. O paroxismo desse lustroso brilho são os shopping-centers. E há amigos que crêem que esse foi o caminho acertado. Amigos arquitetos, inclusive, como Juca Santabaia. Mas, até aqui nada de espantar, pois o modo como, de fato, enxergam a cidade, através de observações outras e analogias, acaba revelando que esse ponto de vista é um logro inconsciente. Quando mais jovem cria que o cinema devia sobretudo entreter. E recordo disso como uma das discussões mais acaloradas com Alexandre Veras. E que, em parte, essa ênfase que depunha no entretenimento se dava a partir de meu apreço pelo cinema norte-americano (e pelo western em particular). Mas Veras, que possui uma visão muito lúcida da questão, talvez obnubilada apenas por um excessivo fetiche pela “vanguarda”, me disse, à ocasião, algo interessante: “sim, um entretenimento. Mas um entretenimento para o espírito”.


* * *

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Uma devastadora influência


Lionel Feininger, Wahlkreis Essen, 1905




O mais confiável dos brasileiros

Recentemente um renomado instituto de pesquisa revelou que o brasileiro com maior grau de credibilidade junto à população não é Lula da Silva. Apesar do carisma, da popularidade e da habilidade de interlocução do presidente. A despeito de sua imensa capacidade de, como animal político, saber traduzir tão bem, numa linguagem acessível, atraente, simples – e simples nem sempre quer dizer fácil – muito do que um largo contingente de brasileiros “quer” ouvir, uma vez que uma das principais tarefas de um líder político é ser capaz de legar confiança à população e instigar auto-estima nos que vivem sob sua administração.

Há também, sem dúvida, analistas políticos que, não sem razão, tem apontado para o quanto o PT, partido de Lula, tem infiltrado-se, com tanta intensidade nos meandros da sociedade civil. O fenômeno gera preocupação. E, de outro modo, porque a preferida de Lula para a sucessão, Dilma Rousseff, possui não só um estilo mais autoritário, mas um passado um tanto mais truculento. Sem embargo, o Estado tem investido maciçamente em publicidade.

Poder-se-ia argumentar que há um processo, de resto, análogo ao que sucede com Chávez, na Venezuela. Tão-só deflagrado e urdido de um modo extremamente mais sutil. Essa “ubiquidade” petista segue dos sindicatos aos movimentos sociais supostamente não estatais [as ditas ONG’s], com um firme estribo no meio universitário e na classe artística.

Mas todas essas questões acima fogem um tanto quanto dos propósitos de nosso argumento presente. E demandariam muito mais tempo, nuanças e espaço do que dispomos de momento.

Voltando ao instituto e à pesquisa, constatou-se que o brasileiro com maior credibilidade junto à população trata-se de William Bonner.

Bonner, 46 anos, é o apresentador e âncora do principal telenoticioso brasileiro, o Jornal Nacional, veiculado desde 1969, pela Rede Globo de Televisão, às oito e quinze da noite.

Não é tão surpreendente que assim seja. Numa população que, em predominância ainda lê muito pouco, mesmo com o advento da internet, e da vertiginosa e sobressalente difusão da imprensa eletrônica no país, a televisão ainda é uma potência, cuja ascendência sobre a formação de opinião é devastadora, para dizer o de menos. E, em especial, porque no Brasil se passou do semi-analfabetismo para a difusão televisiva sem a consolidação de meios impressos que pudessem suavizar essa devastadora influência, que, no plano do entretenimento, vaza pelo folhetim eletrônico (a telenovela, como é aqui conhecida); e, na esfera jornalística, pelos telenoticiosos. Assim que os “telejornalistas” da rede hegemônica de TV, a Globo, são tão – ou em certos casos – mais populares que os “astros” das telenovelas.

É o caso de Bonner. Ele congrega dezenas de milhares de seguidores na rede Twitter de comunicação.

Bonner conjuga a aparência de um galã com a firmeza e a seriedade de um doutrinador. Sua aparente imparcialidade e ponderação, só fazem concessões a uma ou outra rara emotividade plasmada em certas notícias veiculadas a portar o selo da importância mesma da qual a realidade interna do próprio mundo televisivo revestiu-se no país. E principalmente após a fundação da TV Globo, com capitais provindos de grupos de comunicação norte-americanos em meados dos anos 60.

O que Bonner diz soa como a verdade. Porque sua dicção, postura, imagem e firmeza em tudo contribuem para que assim seja. Uma imagem de seriedade. De falta de resvalos, hesitações, equívocos. Em Bonner não há espaço para revisões ou palinódias.

Uma das raras ocasiões em que ele cedeu à emoção, a única em que chegou a verter lágrimas em público, foi quando seu próprio chefe, Roberto Marinho, fundador e proprietário da Globo, faleceu, em 2003. E, de um modo um tanto ridículo – ou no mínimo questionável – ele chorou durante a transmissão a lamentar o falecimento “de tão notável homem público”.

Além disso, Bonner faz par no telenoticioso, com a própria esposa: Fátima Bernardes. Uma bela mulher, que transmite uma impressão de maturidade, ponderação e responsabilidade. É mãe de trigêmeos e dialoga com o marido explorando um veio de concordância. Simultaneamente polida e aquiescente mas, por igual, transmitindo certo grau de independência.

Se Bonner é o Ulisses, cujo périplo cobre a odisséia brasileira, noite após noite, oportunisticamente aliada às teses do governo, como sempre foi da conveniência da TV Globo – ou seja, converter-se numa espécie de porta-voz oficial do poder instituído a despeito de seu matiz político –, Bernardes é a fiandeira, a Penélope que aguarda sua vez para legitimar a fala do marido alçado à condição de herói nos moldes gregos. O Olimpo, ambos frequentam com certa regularidade.

Com recorrência o casal é matéria de revistas que exploram a intimidade de personalidades, com mais fotos do que propriamente texto ou ideias. Diante do casal Bonner/Bernardes, atrizes como Maitê Proença, que tanta polêmica causou pela desastrada idiotia de seus comentários sobre Portugal são, como por aqui se diz: “café pequeno”.

Dia desses, aliás, não chegou a causar espanto o que me relatou um amigo escritor, Lira Neto, um conhecido autor de biografias que se vêm tornando best-sellers por cá – a última das quais, recém-lançada, versa sobre o fenômeno quiliasta do líder político-espiritual do Sertão na primeira metade do sec. XX, o Padre Cícero Romão Batista (ou o Padim Ciço, como chamam os sertanejos). Ao ministrar uma palestra numa faculdade de jornalismo, uma jovem estudante indagou-lhe:

–Mas, diga-me, como faço para me tornar Fátima Bernardes?

E ele:

–Como assim? Presumo que você se refere a como se tornar uma apresentadora ou âncora de telenoticioso.

E ela:

–Não, você não entendeu, eu quero “ser a Fátima Bernardes”. Não qualquer uma. Mas ela própria.

A anedota em si, com toda sua carga de ingenuidade, denota ainda o incomensurável poderio da televisão, enquanto veículo de comunicação de massas no Brasil.

É provável que se Bonner tivesse aspirações políticas chegaria longe, bastante longe. Porque vivemos, não só no Brasil, claro, num mundo em que a imagem vale tanto. E é mesmo quase tudo. A casca, a aparência. Algo explorado tão bem por autores que apenas recentemente vem ganhando a ressonância que merecem, como Siegfried Kracauer, por exemplo.

Kracauer em parte analisa o fenômeno, quase sempre por alusão, em seu excelente O Ornamento da Massa, além de em outras obras. Em especial, quando aponta para sagacidade da análise de Walter Benjamin, que, com sua intuição histórica sublinhável, jamais rendia-se apenas à crítica do momento presente, buscando nas ruínas do passado a refração de uma essência quase sempre negada por todo aquele que não percebeu a força de sua lucidez calcada na exegese, na monadologia e no que há de auspicioso e alegórico sob a forma do tratado em moldes quase medievais ou escolásticos.

Outrossim, chega a ser um tanto patético que o senso crítico de milhões de pessoas não ponham em escrutínio o que é declinado noite após noite por esse jornalista de ar circunspecto e pose de super-homem.

O fenômeno diz muito não só sobre o Brasil, mas sobre o mundo em que vivemos. E, óbvio, não se limita ao momento presente. Mas estende-se ao que este país ou este mundo tem vivido nas últimas décadas: o devastador impacto da televisão – que, quem sabe se vem atenuando com o aporte da internet. Porém que é ainda quase monopólico sobre a formação de opinião num país continental como é nosso caso.

E até mesmo entre aqueles que possuem um senso crítico um tantinho acima da média.

* * *

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Movimento, mar fechado: um lançamento hoje


Webflyer do lançamento de Trânsitos e Mediterrâneo, com design de Juca Santabaia, 2010



Trânsitos, Mediterrâneo

Convido os amigos e mais gente que se interessa por poesia para o lançamento de Trânsitos [Lumme Editor], o mais novo livro de Virna Teixeira e de Mediterrâneo[Arqueria Editorial], uma magra plaquette contendo meus primeiros poemas reunidos em um volume impresso.
Trânsitos é o terceiro volume de poemas de Virna Teixeira, também excelente tradutora; e foi lançado originalmente em São Paulo, há dois meses atrás.
A movimentação, amanhã à noite, começa em torno de 20hs30min, no Restaurante Mistura Cenários e não tem hora para acabar. Haverá leituras, autográfos. Além de uma participação especial da poeta curitibana Greta Benitez, lendo algumas de suas traduções e originais.
Todos são bem-vindos.



* * *


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Se você tem"


William Christenberry, Christmas Star, near Akron, Alabama, 2000




Boas Festas


entre teclas pretas

e brancas, música


se esconde


as milhares de palavras

no dicionário


algumas, jamais direi


na choperia, belas

mulheres e seus cabelos


castanhos


à aragem leve

quente noite, dezembro


há muitas luzes

pela cidade


nenhuma


me acende uma ideia

me converte em pardal


me assiste com lampadinha


penso em poucas

algumas pessoas


nuns versos de assis valente,

se você tem a felicidade


pra você me dar”


mas, não. ora me basta uma balada

uma palavra


uma ausência

esse nada



* * *


domingo, 13 de dezembro de 2009

Os dias de uma opção multiplicados na paisagem


Paul Signac, 1894




Epitalâmio

para Graziela e Diego


a aquarela está pintada
e nela vivem os dias
de uma opção

multiplicados
na paisagem
a coragem de dois

marinha, onde barcos
oscilam suavemente –
o vapor na

chaleira, a canção sussurrada
nunca hão de ser mais
suaves

que a coragem
desses dois partilhada
na voragem

insana deste mundo.
hoje, na matriz de pacoti
que a mulher

receba seu homem
e o homem, sua mulher
em aliança

para que a dança
na aquarela seja
uma celebração

de coragem

e de escolha

multiplicada
na paisagem


* * *

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Nem mesmo a chuva: cummings


Lyonel Feininger, Rain, 1952



'somewhere i have never traveled'


somewhere i have never traveled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near


your slightest look easily will unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully, mysteriously) her first rose


or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully, suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;


nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility: whose texture

compels me with the colour of its countries,

rendering death and forever with each breathing


(i do not know what it is about you that closes

and opens;only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands


e.e.cummings




'num espaço onde nunca estive'


num espaço onde nunca estive, vivamente além

de qualquer experiência, teus olhos retêm silêncio:

em teu mais frágil gesto há coisas que me cercam,

ou que não posso tocar de tão rentes


teu mais leve olhar logo irá romper-me

mesmo que eu me tenha fechado feito dedos,

sempre me abres pétala a pétala, como a primavera

abre (tocando destra, misteriosamente) a primeira rosa


ou se teu desejo é fechar-me, eu e

minha vida vedaremos muito bela, bruscamente,

como quando o coração dessa flor pressente

a neve descendo, cautelosa, por toda parte


nada que se possa revelar neste mundo vale

a força de tua intensa fragilidade: cuja textura

compele-me com a cor de seus campos,

vertendo morte e para sempre a cada sopro


(como nada, coisa alguma sei de ti quando dosas

fechar e abrir; apenas algo em mim engrena

a voz de teu olhar é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


* * *


Nos dias em que o céu não seja mais que muro


Agnes Martin, Harbor N 1, 1959



Ao modo de uma antiga balada


Sê para mim
um porto seguro
nos dias em que
o céu não seja
mais que muro

Sê para mim
a piscina calma
em que a fateixa
do corpo possa
ancorar a alma

Sê para mim
água de gamboa
sob pleno mangue
mergulhar-se inteiro
onde nada soa

Sê para mim
angra e cava
espaço de pouso
ainda que breve
para quem passava



* * *

Máscara mas cara


Henri Matisse, Masque blanc sur fond noir, 1950



Máscara mascara

Máscara alegre

Mas cara triste


* * *

Sem as palavras, a toada: Dickinson


Paul Klee, Comédia de Pássaros [Vogelkomödie], 1918



'Hope is the thing with feathers'


Hope is the thing with feathers

That perches in the soul,

And sings the tune without the words,

And never stops at all,


And sweetest in the gale is heard;

And sore must be the storm

That could abash the little bird

That kept so many warm.


I've heard it in the chillest land,

And on the strangest sea;

Yet, never, in extremity,

It asked a crumb of me.


Emily Dickinson



'Esperança, essa coisa emplumada'


Esperança, essa coisa emplumada

Que pousa na alma

E canta, sem as palavras, a toada,

E nunca se acalma,


Dulcíssima é ouvida na tormenta;

E severa a tempestade se torna,

A que o pequeno pássaro arrebenta,

A que a muitos torna a vida morna.


Ouvi-a na maré menos amena,

Na terra que menos agasalha;

E, mesmo sem sua força plena,

Ela me pediu uma migalha.



* * *

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Que se poderia rodar um western


William Kentridge, Seated Couple, 1998


O Par

a questão entre eles:
ela cria em personalidade
e também em coisas e gentes
que não se misturam
vivendo no país em que vive
católica como se assumia

ah, mas ele era muito mais cruel
depois do abrasivo calor
do beijo, criava com empoladas
palavras uma tão grande distância
que se poderia rodar um western
naquele monument valley

no fim de tudo, os bolinhos de bacalhau
e os módicos mililitros de cerveja na tulipa
ao largo da magnífica arquitetura 
em ferro do mercado dos pinhões
mais conversavam por eles, como se naturezas mortas
pudessem falar claramente de amor & seus subúrbios

em surda mudez; ou então, em algo 
que não conduziria nunca à nudez
ao código tácito que um par retém
nos corpos, livres das amarras lógicas 
do excesso de memória, de citações; livres dos livros
soltos, em suave desalinho, sobre os lençóis


* * *

A todos os que lançam a lenda: Crane


Robert Rauschenberg, Bed, 1955




Legend


As silent as a mirror is believed

Realities plunge in silence by . . .


I am not ready for repentance;

Nor to match regrets. For the moth

Bends no more than the still

Imploring flame. And tremorous

In the white falling flakes

Kisses are,—

The only worth all granting.


It is to be learned—

This cleaving and this burning,

But only by the one who

Spends out himself again.


Twice and twice

(Again the smoking souvenir,

Bleeding eidolon!) and yet again.

Until the bright logic is won

Unwhispering as a mirror

Is believed.


Then, drop by caustic drop, a perfect cry

Shall string some constant harmony,--

Relentless caper for all those who step

The legend of their youth into the noon.


Hart Crane



Lenda


Tão silencioso quanto num espelho se crê

Realidades mergulham no silêncio...


Não estou pronto para o pesar;

Nem para lidar com mágoas. Pois a vespa

Inclina-se não mais que quieta

A implorar a chama. E trêmulos

Em alvos flocos cadentes

Estão os beijos,—

O único vale toda recompensa.


É para ser aprendido—

Essa clivagem e queimadura,

Mas unicamente por aquele que

Esgota-se novamente.


O dobro e o dobro

(Novamente o fumegante suvenir,

ídolo em sangria!) e então novamente.  

Até que a brilhante lógica se ganhe

Insussurrável como num espelho

Se crê.


Daí, gotejando por cáustica gota, um pranto perfeito

Deve distender uma constante harmonia,—

Acrobacia inflexível a todos os que lançam

A lenda de sua juventude dentro da lua.





Nota – agradeço a Anna Cavalcanti a sugestão de traduzir este poema. Para um outro poema de Crane em Afetivagem, aqui. A ilustração escolhida para este não é uma "instalação", como pode parecer à primeira vista, mas um óleo sobre tela de Rauschenberg.


*   *   * 


domingo, 6 de dezembro de 2009

num fluxo transparente


[s/i/c]


'Nada como ser'


nada como ser

sereno como

gota de chuva

em riocorrente


a gota, ao descer

com água no gomo

dentro da luva

úmida semente


de céu a entumescer 

rio, converte o cromo

da tona, à sombra da péuva

num fluxo transparente


* * *

Só mesmo


[s/i/c]



Demais da Conta 


A vida moderna está entregue ao incomensurável. O incomensurável invade tudo: ação e pensamento, vida pública e privada. […] O espírito que verga sob o peso da quantidade já não possui outro critério a não ser o da eficácia.” [Simone Weil, A Gravidade e a Graça, ps.172-173, tradução nossa]



os perigos da quantidade

feito pensar que se tem


as coisas, coleciona pessoas

às mancheias. trezentas amizades


ao vivo, em cores. cinco mil

em virtualidade. É possível


dar conta de tantos amigos?

dá preguiça pensar em contá-los


para um milhão de amigos

só mesmo roberto carlos 



* * *


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

And now you throw us all aside

Manuel, Hudson, Helm, Robertson e Danko, em foto de 1969


Nota em gabo à The Band


Descobri a The Band  tardiamente, cinco ou seis anos atrás. E essas descobertas tardias sempre portam algo de compensador. Especialmente numa época em que pouca coisa, de fato, prende a atenção do ouvido. Quer dizer, prende não por algo avulso. Mas pelo conjunto geral da obra. Por um certo conceito de som. Um conceito de som que, para uma diversa circunstância, George Oppen, o grande poeta objetivista, chama de "o claro e quieto anjo de conhecimento e compreensão".

Compor canções pop não é algo árduo. Especialmente, se não se é um letrista como Dylan ou Cohen. Em geral, em termos estritamente musicais, as harmonias são simples e a possibilidade de variá-las não é assim tão ampla. E logo, essa unicidade do som, clara, singular em meio ao numeroso, como refere-se o poeta -- profética como também a entende -- não é prerrogativa de muitos. E escorre mais por outros aspectos musicais: a dinâmica; o personalismo no manejo dos instrumentos; a capacidade de, mesmo fazendo-os soar com acento único, torná-los simultaneamente contributivos para a soma geral da coisa; o senso de ritmo (aqui, não em termos meramente jazzísticos); e, em especial, o revelatório timbre da voz. 

E vem a ser esse o caso da banda composta por quatro canadenses e um americano do Deep South no início dos 60. A mesma que levava o nome simples – mas simultaneamente pretensioso a despeito deles – de... A Banda.

Impressiona, de início a versatilidade de seus integrantes. Eles se revezam pelos instrumentos com uma espontaneidade quase incredível. A banda têm três ótimos vocalistas que também alternam-se na função. Mesmo que um deles tenha uma voz absolutamente excepcional. Em verdade, dos timbres mais belos de todo o universo pop: Richard Manuel. Além de cantar num falsetto de etérea plangência, como na suave “Whispering Pines” ou na versão de “I Shall be Released”, canção de Dylan, Manuel usa seu encorpado timbre de barítono em temas de uma dilacerante melancolia, como “Tears of Rage”, dele em colaboração com Dylan, e que fala do ressentimento de um pai diante do comportamento da filha que sai de casa para educar-se numa universidade e, desde então, começa a tratá-los com evidente derrisão. As comparações da exuberante voz de Manuel com a de  Ray Charles, um de seus ídolos, não são infrequentes. E procedem. 

Na verdade, eles lançaram apenas dois discos imprescindíveis, Music From the Big Pink (1968) e The Band (1969) – este último, por analogia com o Álbum Branco dos Beatles, também conhecido como The Brown Album.

Music From The Big Pink possui uma atmosfera única. Em torno de 1967, quando colaboravam com Dylan, o grupo alugou um vasto sobrado repintado de rosa [pink], nas imediações de Woodstock, estado de Nova York, onde Dylan se recuperava, em seu sítio, de um sério acidente de moto. O álbum possui, assim, uma aura de colaboração doméstica e cotidiana que o transforma num dos grandes "discos-conceito" jamais produzidos. A ilustração presente no interior do lp, aliás, é do próprio Bob Dylan. 

Mas todos os seus discos posteriores a estes dois primeiros têm uma ou outra, ou algumas faixas antológicas. E, em especial, The Last Waltz, o registro em filme de seu concerto de despedida, em 1976, é magnífico [a banda ainda voltaria a se reunir posteriormente mas nunca com essa mítica formação original]. A direção é de Martin Scorsese e a gig  incorpora um elenco de convidados estelar: Muddy Waters, Bob Dylan, Eric Clapton, os também canadenses Joni Mitchell e Neil Young, Van Morrison, entre tantos outros, que incluem, na apoteose, Ringo Starr e Ronnie Wood.

O filme é um primor. Possivelmente o mais belo registro de um concerto de rock. E um grande documentário in its own right. Algumas raras canções são gravadas, no entanto, em estúdio, longe do palco do concerto. Mas é neste palco, da casa de espetáculos Winterland, em Los Angeles, se passam trechos antológicos. Como a energética performance de Muddy Waters. Neil Young comandando a farra canadense com sua canção-hino, “Helpless”. Uma versão de “The Weight” – quiçá o tema mais conhecido da banda – repartido com o grupo vocal negro The Staples. Ou ainda o momento em que a correia da guitarra de Clapton desprende durante um longo solo e pode-se ouvi-lo dizendo “Hold on!” (“Segura a onda!”). No mesmo instante, o guitarrista da The Band, Robbie Robertson, assume o solo, com desenvoltura, sem perder um único compasso. Tudo sob controle, pode-se surpreender a satisfação no rosto do baixista Ricky Danko, ao fundo, um pouco desfocado, ao perceber que o incidente havia sido superado. O momento é de uma beleza documental ímpar. Assim como alguns dos depoimentos de bastidores, que, de uma ou de outra forma, contribuem para desglamurizar um tanto o superestimado universo da música pop.

Como se não bastasse, Dylan assoma ao final de tudo, para comandar sua ex-banda de apoio. Seu carisma é quase desproporcional à sua juventude. Debaixo de um estilizado chapéu com penacho e longos cabelos encaracolados, o bardo ataca quase de improviso a segunda canção, "Baby Let Me Follow You Down", depois de uma rendição da belíssima "Forever Young" de se tirar o chapéu ou o fôlego. A passagem de uma para outra canção se dá de improviso bem se pode ler isso no semblante intrigado do baterista Levon Helm enquanto Dylan combina algo com Robertson. 

The Last Waltz, o concerto em si, lançado em álbum triplo (1978), demonstra, entre outras coisas, a excelência musical da banda. Eles tocavam ao vivo coisas bastante elaboradas. Bem mais elaboradas, por exemplo, que os próprios Beatles costumavam fazer ao vivo. E com uma desenvoltura um tanto mais evidente, se se compara por exemplo o repertório e a instrumentação de The Last Waltz, que incluía um sessão de metais, com regência, à confusão e desarmonia que se pode ouvir em certos trechos de Let it Be. E é comovente a devoção que nutrem pela música rural da América do Norte. Em especial, a do Sul dos Estados Unidos e a da região de Ontário, no Canadá, de onde proveio a maior parte da banda.

Durante algum tempo eles emprestaram seu talento como banda de apoio a Dylan, em meados dos 60. Mas em seguida lançaram-se à carreira solo que detém um selo único. São cinco individualidades musicais intercambiando uma série considerável (e bem pouco usual) de instrumentos. Os três vocalistas são de uma qualidade excepcional. E tornam as canções cantadas por cada um algo bastante distinto, embora harmônico ou dentro de um certo conceito. E, claro, havia uma eminência parda na banda, como em toda grande banda que se preza, Garth Hudson, um organista, de sólida formação erudita, que também tocava sax, trombone de vara, acordeão, guitarra em slide, trumpete, piccolo, baixo e bateria – embora na The Band, a bateria alternasse entre o baterista principal, Levon Helm -- um virtuoso do instrumento -- que também cantava com desenvoltura [com um marcante sotaque sulista] e era fluente no violão, no bandolim; e Richard Manuel, o pianista dos intrincados ritmos, que, por seu turno, também tocava guitarra em slide, gaita de boca e percussão.

O terceiro vocalista, Rick Danko, baixista da banda, mas também rabequista (fiddler), bandolinista e trombonista, possuía, por igual, uma voz digna de um lead vocal. E, aqui, é bastante diferente o modo como eles revezam-se na voz principal das canções da concepção vocal de grupos como Beach Boys ou Beatles. A performance vocal de cada altera sensivelmente o espírito da canção da vez. E, embora eles também lancem mão de harmonias vocais,  mais cruas e menos "preparadas" que as dos dois grupos citados, o personalismo da voz de cada um é bem mais ressaltado, ainda que não destoe da proposta musical da banda, uma resposta à invação britânica e ao psicodelismo. Reação que tem a ver com uma revalorização e releitura da música de raízes rurais e do primitivo rockabilly, do Sul dos Estados Unidos. Este último aspecto, uma reverência para com os valores sulistas, humilhantemente estilhaçados na Guerra de Secessão, está presente, por ilustração, em canções como "The Night They Drove Old Dixie Down". ["Dixie", como se sabe, era o modo como os próprios sulistas referiam-se à sua região - que, guardadas as devidas proporções, tem algo a ver com o Nordeste aqui no Brasil (lebre, de resto, já levantada por sociólogos como Gilberto Freyre)].

Em The Last Waltz, o filme, no entanto, se dá excessivo destaque a Danko e, sobretudo, a Robertson (de resto, produtor do filme) em detrimento dos outros três. E, aqui, em especial, de Garth Hudson e Richard Manuel. Manuel, a voz por excelência da banda, canta somente duas músicas e, ao dividir os vocais, com Bob Dylan, no encerramento do concerto quase não é visto, sentado ao piano, atrás da muralha de convidados.

É insólito também perceber, no filme, que há sempre um microfone aberto diante de Robertson, o guitarrista, quando se sabe que ele não cantava. E, pior, ele finge cantar e fazer vocais de apoio no show. Essa tentativa de protagonismo de Robertson, que depois de algum tempo levava os créditos, não sem certa controvérsia, por todo o material composto pela banda, gerou bastante ressentimento entre os outros integrantes. Especialmente no sanguíneo baterista Levon Helm, que faz acerbas reservas ao comportamento de Robertson em sua biografia da banda. E entre os fãs mais ardorosos de The Band, Robertson não é lá entrevisto com o melhor dos olhos.

Dois de seus integrantes já faleceram. Manuel, em 1986, após anos de cocaína e alcoolismo, consumia mais de cinco garrafas de uísque diárias, quando enforcou-se em seu próprio cinto, no quarto de hotel em que o grupo se hospedava, durante uma turnê  na Flórida. E Danko, o baixista, morreu de um ataque cardíaco enquanto dormia um dia após seu aniversário de 56 anos, em 1999.

Mas o legado de The Band segue vivo e influenciou uma miríade de músicos que vão dos próprios Beatles, Blind Faith, Grateful Dead, Clapton, Harrison, Crosby, Stills and Nash, entre os de sua época, a grupos posteriores como Black Crowes, Widespread Panic e U2, ou artistas solo como Elliott Smith, Umphreys McGee e Bruce Hornsby.

Em relação à primazia vocal de Manuel há um pungente depoimento de Clapton: "eu estava completamente siderado por Richard Manuel; á época [1975], compartíamos os mesmos problemas. Sentia-me inseguro, e ele era visivelmente inseguro, e, sem embargo, tão incrivelmente talentoso... A meu ver ele era a verdadeira luz da The Band. Os outros rapazes eram talentos fantásticos, sem dúvida, mas havia algo do louco sagrado em Richard. Ele era cru. Quando ele cantava naquele falsetto agudo, os pelos do dorso de meu pescoço arrepiavam. Poucas pessoas conseguem esse efeito".  

Linques:

Para uma supersite, bastante completo, feito por fãs, para The Band [em inglês]:

http://theband.hiof.no/

Para uma primeira audição de canções no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=eAqYDdVNCDQ ["Tears of Rage", primeira faixa do primeiro álbum da banda, Music from the Big Pink, em que se pode escutar a prismática voz de Manuel]

Para trechos do filme concerto/documentário The Last Waltz [A Última Valsa, lançado em português sob o título de O Último Concerto de Rock], no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=LlSZiG-SKqg&feature=PlayList&p=DAD2FDA679B80BC5&index=0&playnext=1



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