
William Kentridge, Seated Couple, 1998

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Robert Rauschenberg, Bed, 1955
Legend
As silent as a mirror is believed
Realities plunge in silence by . . .
I am not ready for repentance;
Nor to match regrets. For the moth
Bends no more than the still
Imploring flame. And tremorous
In the white falling flakes
Kisses are,—
The only worth all granting.
It is to be learned—
This cleaving and this burning,
But only by the one who
Spends out himself again.
Twice and twice
(Again the smoking souvenir,
Bleeding eidolon!) and yet again.
Until the bright logic is won
Unwhispering as a mirror
Is believed.
Then, drop by caustic drop, a perfect cry
Shall string some constant harmony,--
Relentless caper for all those who step
The legend of their youth into the noon.
Hart Crane
Lenda
Tão silencioso quanto num espelho se crê
Realidades mergulham no silêncio...
Não estou pronto para o pesar;
Nem para lidar com mágoas. Pois a vespa
Inclina-se não mais que quieta
A implorar a chama. E trêmulos
Em alvos flocos cadentes
Estão os beijos,—
O único vale toda recompensa.
É para ser aprendido—
Essa clivagem e queimadura,
Mas unicamente por aquele que
Esgota-se novamente.
O dobro e o dobro
(Novamente o fumegante suvenir,
ídolo em sangria!) e então novamente.
Até que a brilhante lógica se ganhe
Insussurrável como num espelho
Se crê.
Daí, gotejando por cáustica gota, um pranto perfeito
Deve distender uma constante harmonia,—
Acrobacia inflexível a todos os que lançam
A lenda de sua juventude dentro da lua.
Nota – agradeço a Anna Cavalcanti a sugestão de traduzir este poema. Para um outro poema de Crane em Afetivagem, aqui. A ilustração escolhida para este não é uma "instalação", como pode parecer à primeira vista, mas um óleo sobre tela de Rauschenberg.
* * *

[s/i/c]
Demais da Conta
“A vida moderna está entregue ao incomensurável. O incomensurável invade tudo: ação e pensamento, vida pública e privada. […] O espírito que verga sob o peso da quantidade já não possui outro critério a não ser o da eficácia.” [Simone Weil, A Gravidade e a Graça, ps.172-173, tradução nossa]
os perigos da quantidade
feito pensar que se tem
as coisas, coleciona pessoas
às mancheias. trezentas amizades
ao vivo, em cores. cinco mil
em virtualidade. É possível
dar conta de tantos amigos?
dá preguiça pensar em contá-los
para um milhão de amigos
só mesmo roberto carlos
* * *
Manuel, Hudson, Helm, Robertson e Danko, em foto de 1969
Nota em gabo à The Band
Descobri a The Band tardiamente, cinco ou seis anos atrás. E essas descobertas tardias sempre portam algo de compensador. Especialmente numa época em que pouca coisa, de fato, prende a atenção do ouvido. Quer dizer, prende não por algo avulso. Mas pelo conjunto geral da obra. Por um certo conceito de som. Um conceito de som que, para uma diversa circunstância, George Oppen, o grande poeta objetivista, chama de "o claro e quieto anjo de conhecimento e compreensão".
Compor canções pop não é algo árduo. Especialmente, se não se é um letrista como Dylan ou Cohen. Em geral, em termos estritamente musicais, as harmonias são simples e a possibilidade de variá-las não é assim tão ampla. E logo, essa unicidade do som, clara, singular em meio ao numeroso, como refere-se o poeta -- profética como também a entende -- não é prerrogativa de muitos. E escorre mais por outros aspectos musicais: a dinâmica; o personalismo no manejo dos instrumentos; a capacidade de, mesmo fazendo-os soar com acento único, torná-los simultaneamente contributivos para a soma geral da coisa; o senso de ritmo (aqui, não em termos meramente jazzísticos); e, em especial, o revelatório timbre da voz.
E vem a ser esse o caso da banda composta por quatro canadenses e um americano do Deep South no início dos 60. A mesma que levava o nome simples – mas simultaneamente pretensioso a despeito deles – de... A Banda.
Impressiona, de início a versatilidade de seus integrantes. Eles se revezam pelos instrumentos com uma espontaneidade quase incredível. A banda têm três ótimos vocalistas que também alternam-se na função. Mesmo que um deles tenha uma voz absolutamente excepcional. Em verdade, dos timbres mais belos de todo o universo pop: Richard Manuel. Além de cantar num falsetto de etérea plangência, como na suave “Whispering Pines” ou na versão de “I Shall be Released”, canção de Dylan, Manuel usa seu encorpado timbre de barítono em temas de uma dilacerante melancolia, como “Tears of Rage”, dele em colaboração com Dylan, e que fala do ressentimento de um pai diante do comportamento da filha que sai de casa para educar-se numa universidade e, desde então, começa a tratá-los com evidente derrisão. As comparações da exuberante voz de Manuel com a de Ray Charles, um de seus ídolos, não são infrequentes. E procedem.
Na verdade, eles lançaram apenas dois discos imprescindíveis, Music From the Big Pink (1968) e The Band (1969) – este último, por analogia com o Álbum Branco dos Beatles, também conhecido como The Brown Album.
Music From The Big Pink possui uma atmosfera única. Em torno de 1967, quando colaboravam com Dylan, o grupo alugou um vasto sobrado repintado de rosa [pink], nas imediações de Woodstock, estado de Nova York, onde Dylan se recuperava, em seu sítio, de um sério acidente de moto. O álbum possui, assim, uma aura de colaboração doméstica e cotidiana que o transforma num dos grandes "discos-conceito" jamais produzidos. A ilustração presente no interior do lp, aliás, é do próprio Bob Dylan.
Mas todos os seus discos posteriores a estes dois primeiros têm uma ou outra, ou algumas faixas antológicas. E, em especial, The Last Waltz, o registro em filme de seu concerto de despedida, em 1976, é magnífico [a banda ainda voltaria a se reunir posteriormente mas nunca com essa mítica formação original]. A direção é de Martin Scorsese e a gig incorpora um elenco de convidados estelar: Muddy Waters, Bob Dylan, Eric Clapton, os também canadenses Joni Mitchell e Neil Young, Van Morrison, entre tantos outros, que incluem, na apoteose, Ringo Starr e Ronnie Wood.
O filme é um primor. Possivelmente o mais belo registro de um concerto de rock. E um grande documentário in its own right. Algumas raras canções são gravadas, no entanto, em estúdio, longe do palco do concerto. Mas é neste palco, da casa de espetáculos Winterland, em Los Angeles, se passam trechos antológicos. Como a energética performance de Muddy Waters. Neil Young comandando a farra canadense com sua canção-hino, “Helpless”. Uma versão de “The Weight” – quiçá o tema mais conhecido da banda – repartido com o grupo vocal negro The Staples. Ou ainda o momento em que a correia da guitarra de Clapton desprende durante um longo solo e pode-se ouvi-lo dizendo “Hold on!” (“Segura a onda!”). No mesmo instante, o guitarrista da The Band, Robbie Robertson, assume o solo, com desenvoltura, sem perder um único compasso. Tudo sob controle, pode-se surpreender a satisfação no rosto do baixista Ricky Danko, ao fundo, um pouco desfocado, ao perceber que o incidente havia sido superado. O momento é de uma beleza documental ímpar. Assim como alguns dos depoimentos de bastidores, que, de uma ou de outra forma, contribuem para desglamurizar um tanto o superestimado universo da música pop.
Como se não bastasse, Dylan assoma ao final de tudo, para comandar sua ex-banda de apoio. Seu carisma é quase desproporcional à sua juventude. Debaixo de um estilizado chapéu com penacho e longos cabelos encaracolados, o bardo ataca quase de improviso a segunda canção, "Baby Let Me Follow You Down", depois de uma rendição da belíssima "Forever Young" de se tirar o chapéu ou o fôlego. A passagem de uma para outra canção se dá de improviso bem se pode ler isso no semblante intrigado do baterista Levon Helm enquanto Dylan combina algo com Robertson.
The Last Waltz, o concerto em si, lançado em álbum triplo (1978), demonstra, entre outras coisas, a excelência musical da banda. Eles tocavam ao vivo coisas bastante elaboradas. Bem mais elaboradas, por exemplo, que os próprios Beatles costumavam fazer ao vivo. E com uma desenvoltura um tanto mais evidente, se se compara por exemplo o repertório e a instrumentação de The Last Waltz, que incluía um sessão de metais, com regência, à confusão e desarmonia que se pode ouvir em certos trechos de Let it Be. E é comovente a devoção que nutrem pela música rural da América do Norte. Em especial, a do Sul dos Estados Unidos e a da região de Ontário, no Canadá, de onde proveio a maior parte da banda.
Durante algum tempo eles emprestaram seu talento como banda de apoio a Dylan, em meados dos 60. Mas em seguida lançaram-se à carreira solo que detém um selo único. São cinco individualidades musicais intercambiando uma série considerável (e bem pouco usual) de instrumentos. Os três vocalistas são de uma qualidade excepcional. E tornam as canções cantadas por cada um algo bastante distinto, embora harmônico ou dentro de um certo conceito. E, claro, havia uma eminência parda na banda, como em toda grande banda que se preza, Garth Hudson, um organista, de sólida formação erudita, que também tocava sax, trombone de vara, acordeão, guitarra em slide, trumpete, piccolo, baixo e bateria – embora na The Band, a bateria alternasse entre o baterista principal, Levon Helm -- um virtuoso do instrumento -- que também cantava com desenvoltura [com um marcante sotaque sulista] e era fluente no violão, no bandolim; e Richard Manuel, o pianista dos intrincados ritmos, que, por seu turno, também tocava guitarra em slide, gaita de boca e percussão.
O terceiro vocalista, Rick Danko, baixista da banda, mas também rabequista (fiddler), bandolinista e trombonista, possuía, por igual, uma voz digna de um lead vocal. E, aqui, é bastante diferente o modo como eles revezam-se na voz principal das canções da concepção vocal de grupos como Beach Boys ou Beatles. A performance vocal de cada altera sensivelmente o espírito da canção da vez. E, embora eles também lancem mão de harmonias vocais, mais cruas e menos "preparadas" que as dos dois grupos citados, o personalismo da voz de cada um é bem mais ressaltado, ainda que não destoe da proposta musical da banda, uma resposta à invação britânica e ao psicodelismo. Reação que tem a ver com uma revalorização e releitura da música de raízes rurais e do primitivo rockabilly, do Sul dos Estados Unidos. Este último aspecto, uma reverência para com os valores sulistas, humilhantemente estilhaçados na Guerra de Secessão, está presente, por ilustração, em canções como "The Night They Drove Old Dixie Down". ["Dixie", como se sabe, era o modo como os próprios sulistas referiam-se à sua região - que, guardadas as devidas proporções, tem algo a ver com o Nordeste aqui no Brasil (lebre, de resto, já levantada por sociólogos como Gilberto Freyre)].
Em The Last Waltz, o filme, no entanto, se dá excessivo destaque a Danko e, sobretudo, a Robertson (de resto, produtor do filme) em detrimento dos outros três. E, aqui, em especial, de Garth Hudson e Richard Manuel. Manuel, a voz por excelência da banda, canta somente duas músicas e, ao dividir os vocais, com Bob Dylan, no encerramento do concerto quase não é visto, sentado ao piano, atrás da muralha de convidados.
É insólito também perceber, no filme, que há sempre um microfone aberto diante de Robertson, o guitarrista, quando se sabe que ele não cantava. E, pior, ele finge cantar e fazer vocais de apoio no show. Essa tentativa de protagonismo de Robertson, que depois de algum tempo levava os créditos, não sem certa controvérsia, por todo o material composto pela banda, gerou bastante ressentimento entre os outros integrantes. Especialmente no sanguíneo baterista Levon Helm, que faz acerbas reservas ao comportamento de Robertson em sua biografia da banda. E entre os fãs mais ardorosos de The Band, Robertson não é lá entrevisto com o melhor dos olhos.
Dois de seus integrantes já faleceram. Manuel, em 1986, após anos de cocaína e alcoolismo, consumia mais de cinco garrafas de uísque diárias, quando enforcou-se em seu próprio cinto, no quarto de hotel em que o grupo se hospedava, durante uma turnê na Flórida. E Danko, o baixista, morreu de um ataque cardíaco enquanto dormia um dia após seu aniversário de 56 anos, em 1999.
Mas o legado de The Band segue vivo e influenciou uma miríade de músicos que vão dos próprios Beatles, Blind Faith, Grateful Dead, Clapton, Harrison, Crosby, Stills and Nash, entre os de sua época, a grupos posteriores como Black Crowes, Widespread Panic e U2, ou artistas solo como Elliott Smith, Umphreys McGee e Bruce Hornsby.
Em relação à primazia vocal de Manuel há um pungente depoimento de Clapton: "eu estava completamente siderado por Richard Manuel; á época [1975], compartíamos os mesmos problemas. Sentia-me inseguro, e ele era visivelmente inseguro, e, sem embargo, tão incrivelmente talentoso... A meu ver ele era a verdadeira luz da The Band. Os outros rapazes eram talentos fantásticos, sem dúvida, mas havia algo do louco sagrado em Richard. Ele era cru. Quando ele cantava naquele falsetto agudo, os pelos do dorso de meu pescoço arrepiavam. Poucas pessoas conseguem esse efeito".
Linques:
Para uma supersite, bastante completo, feito por fãs, para The Band [em inglês]:
http://theband.hiof.no/
Para uma primeira audição de canções no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=eAqYDdVNCDQ ["Tears of Rage", primeira faixa do primeiro álbum da banda, Music from the Big Pink, em que se pode escutar a prismática voz de Manuel]
Para trechos do filme concerto/documentário The Last Waltz [A Última Valsa, lançado em português sob o título de O Último Concerto de Rock], no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=LlSZiG-SKqg&feature=PlayList&p=DAD2FDA679B80BC5&index=0&playnext=1
* * *
John Neper, c. 1771
A Operação
agora, que o coração
pode voltar para casa
(sem dar com a fiandeira
da falsa mortalha)
depois de
mais uma balada
à tabuada do mundo
os termos da subtração
– coração, casa, mortalha
balada – anos depois
tão-só vaga memória
aritmética comum
restos de dois
que nunca um
* * *

Russell Crotty, 1996
Palhaço da Boca Verde
esqueci de perguntar
o que há entre você e o medo
entre o medo e eu
há duas décadas
entre o medo e eu
uma parábola
entre o medo e eu
duas almôndegas
entre o medo e eu
partículas sólidas
entre o medo e eu
dois nomes, a custo ditos
entre o medo e eu
tocar a própria carne
(não vê? duas personagens
– o palhaço, a puta – refratam-nos
que borra será de nós
mais tarde ou cedo?)
entre eu, o medo e o sol
o radioso cometa
de teu sorriso
descreve a elipse
* * *
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Francis Bacon, Study of a Dog, 1958
Carlos e eu
Não gosto de lembrar de Carlos. Não gosto da palavra trauma. Mas o que aconteceu entre nós, percebo hoje, foi quase isso.
Já tive namoradas. Reparti o mesmo espaço com uma mulher por anos, em duas ocasiões. E sei dos infernos e delícias disso. A todas prezo. Mesmo ao lembrar os momentos de maior azedume.
Mas o que ocorreu entre Carlos e eu foi um bocado forte.
Em 1999, precisava de um sítio isolado. Sair da bagunça de São Paulo, com suas permanentes tentações boêmias, para algo menos frenético. E para escrever um texto longo: a tal tese de doutoramento. Uma colega de turma, da PUC, me sugeriu um apartamento, em Florianópolis, que podia me alugar a um preço acessível.
Na verdade, o imóvel era em Canasvieiras, uma praia que vaza argentinos pelo ladrão e outras gentes de sortidas nacionalidades e distintas paixões futebolísticas. Isso no verão. No inverno, é uma ilha de isolamento dentro da Ilha de Santa Catarina.
O nome original de Florianópolis é Desterro. E chega ser uma ironia que a homenagem ao nosso segundo presidente, Floriano Peixoto, um caudilho no melhor estilo Latinoamérica, lhe tenha legado esse nome solar, floral, exuberante – não raro abreviado carinhosamente para Floripa. E, em especial, se contraposto à melancolia exílica de Desterro.
Mas era de um desterro do que eu precisava. E os preços dos aluguéis em Canasvieiras despencavam no inverno. E o espaço era bom. Um apartamento no térreo, com o mar quebrando a menos de cem metros adiante, uma pequena ilhota no horizonte, duchas aquecidas, boa mobília, servidor de internet 24hs, televisão a cabo…
Mudei-me.
As novidades dos primeiros dias. Comprei um caniço de pesca. E às vezes pescava na madrugada. Nunca havia vivido à beira-mar no Sul do Brasil. Ou seja, naquelas costas em que o resto mínimo de floresta atlântica, densa e viçosa, agarrada ao lombo das serras, literalmente mergulha no mar. E adiante se entrevê ilhotas pontuando o horizonte. Achava aquilo lindo. De uma beleza diferente das praias de dunas ou falésias barrentas do litoral do Nordeste. Quase peladas de vegetação – a não ser por coqueiros, bredos, cajueiros-da-praia ou manguezais de quando em vez.
E quinze dias depois morria de tédio.
Passava o dia lendo e escrevendo. Havia apenas um vizinho, que morava no terceiro e último andar do prédio, e cujas janelas davam para a rua oposta à praia. Às vezes, quando saía para comprar cigarros na birosca mais próxima, sua filha – e era uma bela adolescente – trocava carícias com o namorado na pequena, sombria, escadaria de entrada. E o casal se continha um pouco e me cumprimentava protocolarmente em meio à penumbra.
Gosto de solidão. Acho que todos tem direito a seu quinhão de estar sozinho por pelo menos quinze minutos ao dia. O mundo seria menos selvagem. Talvez. O que sei é que até hoje cultivo muito mais que esses quinze minutos, dia após dia. Mas nessa época eram quase as 24hs. Na íntegra. Sem direito a diálogos, nem que de plano e contraplano.
Por vezes, me revoltava contra esse desterro. Tomava o ônibus e cortava os 27 Km de belas paisagens até Florianópolis propriamente dita. A cidade, mesmo no inverno, possuía uma vida moderadamente pulsante, à noite. Especialmente nos fins-de-semana.
Mas logo numa dessas primeiras noites de revolta contra o tédio, dei com meu vizinho numa danceteria. Ele se chamava Rui, assim com “i”; e era um advogado bem sucedido. Tinha quase mais que a meia-idade. E se encontrava tão expansivo, que volta e meia era repreendido, debalde, pela esposa. Rui já se encontrava naquele estágio bebum de quem não ouve mais ninguém a não ser a si próprio. De quem fala e ouve pelos demais. Quem não conhecesse Rui, ou visse apenas seu vulto em meio a semi-obscuridade multicor da pista de dança, julgaria tratar-se de um adolescente. Um tanto corpulento. Mas ainda assim um adolescente.
Ao fim da noite, Rui insistiu – e não pouco – para que eu voltasse de carona com eles até Canasvieiras. Fui, um tanto a contragosto, para não ferir suscetibilidades entre vizinhos que mal se viam e não tinham outros vizinhos.
O problema é que logo à saída do clube, Rui jogou seu carro na traseira de outro. E, como todos sabemos, advogados não perdem causas no Brasil se a pendência se dá com eles. Ainda quando bêbados e sem razão. E, quando eu estava observando a cena, em desolamento, Rui, achegou-se aos trancos, abraçou-me, como a um velho amigo, e disse: “Xará, você vai ser meu testemunho. O caso tá ganho”.
Mas a coisa não era tão simples. Seria preciso aguardar a Perícia de Trânsito, sempre morosa. E, enquanto isso, a mulher de Rui lhe enfiava uma garrafa de café amargo goela abaixo na esperança de que ele se recompusesse um pouco. Ou ao menos cambaleasse menos. E, sabendo que a responsabilidade pelo incidente fora inteiramente de meu “xará”, dei um jeito de esquivar-me. E voltei de táxi para Canasvieiras.
O episódio, não só estremeceu um tanto a relação entre os vizinhos, como também me retirou o gosto pelas noitadas em Floripa. Quando muito ia ao cinema ou a um café. E voltava cedo, ainda no horário dos ônibus. Isto é, antes de onze.
Percebendo meu excesso de isolamento, uma conhecida, professora de antropologia na Federal de Santa Catarina, propôs-me adotar um cachorro. É que sua cadela, uma labrador, tivera ninhada.
Disse que não, quase automaticamente. Em criança, à exceção de alguns pássaros, que cedo se foram, e de um coelho que vivia escondendo-se atrás de uma caixa de madeira, no quintal, nunca tivemos animais de estimação.
Mas certa tarde ela apareceu com o pequeno cão. E era tão pequeno e tão belo. Tinha os olhos tão doces, e um modo de erguer a cabeça assim com a suavidade de quem pede entregando, que não pude resistir. O cãozinho dormiu na sala, a primeira noite, numa caixa com trapos, um pouco de água e comida. Ainda assim gemia. E não sei porque cargas d’água comecei a me preocupar com os gemidos daquela criatura. Ainda cogitei devolvê-lo na manhã seguinte. Mas a doçura de seus olhos nunca que deixariam. E, assim, armei um nicho para ele rente ao balcão da cozinha.
Pus-lhe o nome de Carlos. Em homenagem a Drummond e Williams. Talvez Drummond e Williams não tivessem a doçura dos olhos do meu Carlos. Mas o meu Carlos, a seu modo, podia ser tão poeta quanto os outros dois. Ao passearmos pela praia, por exemplo. Ele, sempre comedido, até na alegria. No perseguir o bando de gaivotas. Ou do contrário no rosnar piano para um bêbado que certa vez aproximou-se com um porrete na mão mascando ameaças desconexas.
Era também um cão de uma natural inclinação para disciplina. Perto de nosso horário de caminhada, pela manhã, se eu não ia até ele, postava-se ao lado de minha cadeira. Sentado, em circunspeção. E, por vezes, me entrolhava. Mas sem transparecer aborrecimento. Apenas com aquela insinuação tácita no negro dos olhos: “você não vê que está atrasado? Não vê que tem ficado demais com esses livros e a praia nos espera lá fora?”
Carlos era um lindo cão. Um labrador de porte. Pelo branco-gris. Patas traseiras bem constituídas. Havia uma nobreza em seu sentar. Ou no ganhar corrida pela areia úmida, sempre embalando, de pouco mas continuadamente, a velocidade. Havia em sua personalidade a inata qualidade do cuidar. Do cuidar sem reclamos. Sem ter de puxar algo de volta. Fosse o carinho do dono, fosse o biscoito canino mais raro que sua usual ração, fosse uma nova coleira, porque a anterior ficara pequena para sua compleição. Ele ainda crescia.
E assim, com essa mesma têmpera, vi-o ficar adolescente. E recém-adulto.
Não que ele fosse um santo. Uma ocasião, entendeu de ficar cercando e pulando em torno de um siri já na calçada do prédio. Eu tinha o que fazer. E quando o pus para dentro de casa, à força e com alguns tapinhas nas ilhargas. Amuou-se. Passou dias assim. Embora sempre cumprindo seus deveres de companheiro de caminhadas e seus horários habituais. Reservou-se. Correu mais lentamente para apanhar os gravetos. Passou ao largo das gaivotas.
Eram dias longos. Abreviados pelo cedo do entardecer sobre as ondas. O hotel, erguido em estilo balneário francês, sugeria que estávamos numa estação termal ou algo assim. Havia molhes e traineiras. Uma bela restinga, que, na baixa-mar mal fendia a praia até a angra. Era sobrelevada por uma ponte de madeira, que, às vezes, atravessávamos se a caminhada para mais longe se estendia. E tudo isso ele observava com a densidade alerta de seu olhar.
A última vez que vi Carlos, ele estava sentado sobre si, naquela postura que só ele tinha, no amplo bagageiro de uma vagonete Renault da família que o adotara. Eu tinha de tornar a São Paulo e ele não poderia seguir comigo.
Havia em seu olhar negro, úmido, uma chispa de acusação. De desdém, talvez. Que só não eram maiores que a inata bondade.
Tive outras namoradas. E duas mulheres. Amigos. Inimigos. Li uns tantos outros livros. Nunca plantei uma árvore. Me nasceram duas filhas. Morei outras cidades. Visitei outros países. Escrevi a tal tese.
Por causa de Carlos, jamais tive outro cão.
Não sei se ainda vive.
* * *

Claude Lévi-Strauss, um mestre (1908-2009)
Inflação, Urgência e Doutrina
Há um aspecto que venho insistindo com meus alunos já faz algum tempo quando o tema recai sobre teorias e exegeses contemporâneas: vivemos numa época de extrema inflação de discurso.
Quer dizer, há uma verdadeira febre por se produzir interpretações da realidade. E por se reproduzi-las com pequenas variações fazendo de conta que se está inaugurando uma nova linha de pensamento. Seja na filosofia, na sociologia, na história, na literatura.
O ponto é que a maioria dessas interpretações constituem tão-só modelos teóricos ocos, incongruentes ou perfeitamente datados.
São elaboradas para suprir uma demanda constante da academia. Uma espécie de sistema de moda do tipo que se retroalimenta cada vez mais em doses cavalares, já que as universidades mais e mais se assemelham a grandes empresas que se regem pela lógica do lucro – da usura, se diria no Medievo. O certo é que não retêm nenhum compromisso mais cerrado com a realidade e com a história. Com a verdade. Com sua busca.
Aqui no Brasil isso é ainda mais caricato, porque, claro, vivemos de macaquear os modelos teóricos europeus. Lévi-Strauss, discorrendo sobre o esquema mental dos alunos da USP de seu tempo, em certas páginas lapidares de Tristes Trópicos, nos dá testemunho disso já àquela altura, quando nos assegura que eles se compraziam em ostentar novas teorias como roupas novas. Ou declinar o nome de um novo teórico, desconhecido pelos demais colegas, com um gozo todo próprio. Como se possuíssem a receita de um novo prato. Uma guloseima que os outros ainda desconheciam, não haviam degustado.
E, no entanto, o conhecimento que tinham dos clássicos, da tradição e de uma formulação menos empacotilhada de pensar era sofrível. Ou seja, esse zelo cosmopolita pela teoria nova os tornava ainda mais provincianos. Coisa que, aliás, num certo sentido, São Paulo prossegue sendo. O próprio Lévi-Strauss aponta para o fato de seus estudantes paulistas estarem pelo menos seis meses mais “adiantados” que ele próprio na recepção de novas teorias. Mas serem inteiramente incapazes de se dedicar a um assunto com um mínimo de zelo monográfico ou por meio de um recorte mais profundo, menos refém desse sistema de modas acadêmicas e dessa erudição de pacotilha.
[trecho da postagem Erudição e Pacotilhas, publicada neste blogue em 16.11.08]
* * *

Naoto Fukasawa, Plus Minus Zero Humidifier, 2006
Zero
for Mark Peters
Not just nothing,
Not there's no answer,
Not it's nowhere or
Nothing to show for it -
It's like there's no past like
the present. It's
all over with us.
There are no doors...
Oh my god! Like
I wish I had a dog.
Oh my god!
I had a dog but he's gone.
His name was Zero,
something for nothing!
You like dog biscuits?
Fill in the blank.
Robert Creeley
Zero
a Mark Peters
Não apenas nada,
Não não há respostas
Não que esteja algures
Nada a mostrar em troca—
É como se não houvesse passado feito
o presente. Tudo
acabado entre nós.
Não há portas...
Ah, meu deus! Como
gostaria de ter um cão
Ah meu deus!
Eu tinha um mas ele se foi.
Seu nome era Zero,
algo em vez de nada!
Te agradam biscoitos caninos?
Preencher a lacuna.
* * *
Pieter Brueghel, o Velho, Paisagem com a queda de Ícaro, c.1558
Musée des Beaux Arts
About suffering they were never wrong,
The Old Masters: how well, they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
In Brueghel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
had somewhere to get to and sailed calmly on.
W.H. Auden
Musée des Beaux Arts
Sobre sofrimento nunca se equivocavam,
Os Velhos Mestres: como entendiam bem
O ponto-de-vista humano, de como ele ocorria
Enquanto alguém comia ou abria uma janela ou tão-só caminhava monotonamente;
O modo como os idosos seguiam reverentes, em ardente aguardo,
Pelo nascimento miraculoso, devia haver sempre
Crianças que não o desejavam tanto, patinando
Num charco à orla da floresta:
Eles nunca esqueciam
Que mesmo o mais medonho martírio tinha de seguir seu curso
Algures a um canto, num sítio desalinhado
Onde os cães prosseguem com sua canina vida e o cavalo do torturador
Esfola o inocente atrás de uma árvore.
No Ícaro de Brueghel, por exemplo: de como quase tudo dá as costas
Um tanto placidamente ao desastre; o lavrador
Pode ter ouvido o espasmo, o clamor desamparado,
Mas para ele nada havia de muito erro; o sol brilhava
Como sobre as pernas brancas a desaparecer no verde
mar; e o caro e sofisticado navio que deve ter visto
Algo fantástico, um moço caindo do céu,
Tinha um destino a encontrar e navegava suavemente.
* * *