quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O bem não feito, o amor não dado, o tempo gasto em nada: Larkin

Otto Dix, Dance of the Death, 1924



Aubade


I work all day, and get half drunk at night.

Waking at four to soundless dark, I stare.

In time the curtain edges will grow light.

Till then I see what's really always there:

Unresting death, a whole day nearer now,

Making all thought impossible but how

And where and when I shall myself die.

Arid interrogation: yet the dread

Of dying, and being dead,

Flashes afresh to hold and horrify.


The mind blanks at the glare. Not in remorse

- The good not used, the love not given, time

Torn off unused - nor wretchedly because

An only life can take so long to climb

Clear of its wrong beginnings, and may never:

But at the total emptiness forever,

The sure extinction that we travel to

And shall be lost in always. Not to be here,

Not to be anywhere,

And soon; nothing more terrible, nothing more true.


This is a special way of being afraid

No trick dispels. Religion used to try,

That vast moth-eaten musical brocade

Created to pretend we never die,

And specious stuff that says no rational being

Can fear a thing it cannot feel, not seeing

that this is what we fear - no sight, no sound,

No touch or taste or smell, nothing to think with,

Nothing to love or link with,

The anaesthetic from which none come round.


And so it stays just on the edge of vision,

A small unfocused blur, a standing chill

That slows each impulse down to indecision

Most things may never happen: this one will,

And realisation of it rages out

In furnace fear when we are caught without

People or drink. Courage is no good:

It means not scaring others. Being brave

Lets no-one off the grave.

Death is no different whined at than withstood.


Slowly light strengthens, and the room takes shape.

It stands plain as a wardrobe, what we know,

Have always known, know that we can't escape

Yet can't accept. One side will have to go.

Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring

In locked-up offices, and all the uncaring

Intricate rented world begins to rouse.

The sky is white as clay, with no sun.

Work has to be done.

Postmen like doctors go from house to house.


Philip Lakin



Aubade


Trabalho o dia todo, e à noite fico meio bêbado.

Acordo às quatro em silente breu, e observo.

Breve da cortina a luz vertendo-se pelo lado

E até então, vejo o que sempre esteve lá, em nervo:

Incansável morte, agora um dia mais rente

Tornando impossível pensar com que mente

E onde e quando eu mesmo devo morrer.

Árida questão: temor absorto

de morrer, de estar morto,

Lampeja vivo a me dominar e estremecer.


A mente lacuna-se à visão. Não em remorso

O bem não feito, o amor não dado, o gasto

Tempo em nada – nem lamentavelmente o esforço

Que uma vida toma ao escalar seu lento rasto

Certa de seus começos equívocos, e nada de acerto:

Mas do total vazio sempre perto,

A segura extinção que será nosso paradeiro

E quase sempre se esquece. Não estar mais aqui,

Não estar mais ali,

E em breve; nada mais terrível e mais verdadeiro.


Nenhum truque dissipa esse medo único. A religião escorre

Um vasto, comido por traças, brocado musical

Criado para fazer de conta que não se morre,

E teorias especiosas dizem que um ser racional

Não pode temer o que não sente – nem som, nem sinal

Nem toque ou gosto ou cheiro, nada com que pensar

Nada para amar ou se ligar,

O anestésico para o qual nada vem de encontro, afinal. 


Então ela fica bem à beira da visão

Uma mancha desfocada, persistente frieza

Que ralenta cada impulso em indecisão

Muita coisa jamais haverá: ela é certeza,

E sua realidade raiva acende

Na fornalha do medo quando a gente se pega sem

Companhia ou trago. Não adianta coragem:

Significa não assustar os outros. Ter postura

Não livra ninguém da sepultura.

A morte não muda, se vista com pranto ou vantagem.


Lentamente a vida encorpa, e o quarto se encontorna

E assoma plano como um armário, o que se sabe,

sempre soube, o saber que ela não se contorna

ainda que se não aceite. Há um lado que não cabe.

Enquanto telefones vergam-se, preparando o toque

Em escritórios fechados, e feito de intricado xaboque

De alugado descaso o mundo desperta sua vasa.

O céu é claro como barro, sem sol ao limiar

Alguém tem de trabalhar.

Carteiros como médicos vão de casa em casa.



* * *

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Atchim!


[s/i/c]


ilação


uma vitória de pirro 

sobre o resfriado

acaba em espirro.  


* * *

Quem não chora


Capa do nº inicial de Para Mamíferos


Nova Revista à Vista


Próxima quinta, dezenove e trinta, dia vinte e dois, no espaço contíguo à Livraria Ao Livro Técnico do Centro Cultural Dragão do Mar, lançamento da revista de literatura e arte Para Mamíferos. Os editores são Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro, Raymundo Netto, Nerilson Moreira, Irajacy Costa e Glauco Sobreira.

Conto inédito de Dalton Trevisan; dossiê sobre a literatura cearense quase recente, pós-Grupo Clã (Caio Carneiro, José Maia, Mário Pontes, José Alcides Pinto et alli); traduções de Gertrude Stein e Ernest Hemingway, por Virna Teixeira e Xênio Ruysconcellos; poemas e prosas de Henrique Dídimo, Fayga Bedê, Carlos Nóbrega, Everardo Norões, Carmélia Aragão e Amílcar Bettega; texto de Sânzio de Azevedo; entrevista com Ana Miranda; além de tiras de quadrinhos do Glauco; artigo de Gil Brandão sobre o Teatro Radical Brasileiro, do qual não faço a menor ideia; inédito de Juarez Barroso; matéria sobre a Shoah, entre outros presentinhos.

O preço é só dez mangos. Revistas de papéis e tintas como a Para são cada vez mais difíceis de fazer e, sobretudo, manter nesses tempos virtuais. Seja solidário com os escritores de sua cidade e até d'além-mar. Eles também são mamíferos e têm, de algum modo, de pagar a rapadura e prover o leite dos meninos.

É engraçado a grita geral sobre o marasmo cultural em Fortaleza. E, quando um grupo de escritores, que traz em sua equipe nomes do talento de um Pedro Salgueiro e Tércia Montenegro, resolve lançar uma revista, já de cara neguinho não vai. Neguinho não compra. Neguinho não quer saber. E isso numa cidade com cursos de jornalismo, publicidade, audiovisual, moda, letras, arquitetura, música, artes plásticas (e não-de-todo-plásticas) escorrendo pelo ladrão.

Talvez porque neguinho desconheça que quem não chora não mama.

Para Mamíferos começa bem. Começa, aliás, com o bom-senso do número 1. Não houve número zero. Ainda bem. O zero, invenção dos sofisiticados árabes, à altura da Idade Média,  é para aquilo que não existe. Eis porque nada se pode dividir por zero. Mas a Para é para ser dividida entre muitos. E ainda mais a esse preço módico de dez mi-réis. 

Pare. Pense. Leia a Para. E olhe que seu dia, apesar de vir, virá com menos azedume e mais verniz.


P.S. -- Havia esquecido e o Renato Mazzini me lembrou: o contato para aquisição da revista, bem como para sugestões, comentários, críticas, etc. é:  paramamiferos@gmail.com  


*   *   *


sábado, 17 de outubro de 2009

Ei, meu senhor, eu quero!


[s/i/c]


Chiste


Aconteceu com uma das cearenses mais belas que já conheci. À época, morava em São Paulo e pós-graduava na Puc. O noivo ficara no Ceará, tomando conta de uma fazenda. Visitava-a muito em raro. Ela na flor da idade. Na quente flor da idade. 

Um dia, no apartamento em que dividia com outras duas pós-graduandas - por sinal, não muito menos belas - notaram que precisavam de um soquete. Resoluta, foi à casa de material elétrico mais próxima. E, junto ao balcão, com todo seu charme, encarando um vendedor impessoal, paulistano e perplexo, semi-enforcado em sua gravata, disse:

-Ei, meu senhor, o senhor pode me dar um boquete?

E o vendedor perplexo, puxando o colarinho, olhando para os lados, para os densos olhos negros,  a suavidade dos relevos da moça do lado de lá do balcão, do lado de lá de um fino vestido, para os cachos de lustres no teto da loja:

-Como?

E ela, com a ênfase dos incompreendidos:

-Um boquete, meu senhor, eu quero um boquete!


* * *

Dos 140 caracteres


[s/i/c]


Divagação sobre o Twitter

A minha amada me mandou um bilhetinho

Só para ver se eu conhecia a letra dela

A letra dela já era conhecida

Ela me amava e eu também amava ela

Mandei fazer um 'boquê' pra minha amada

De abonina 'fulô' mais disfarçada

O nome dela era estrela matutina

Adeus, menina, serenou na madrugada”

[Canção Tradicional]

Não resta dúvida que a nova febre da internet, o Twitter, na mesma linha das redes de sociabilidade, Facebooks, Orkuts, My Spaces e quejandos, ainda mais que o fenômeno dos blogues, conforma uma espécie de tentativa: pulverizar ao máximo algo como a suposta experiência em tempo real de programas televisivos como o Big Brother. Tentar esticá-la ao maior número possível de pessoas, sem os custos absurdos que uma rede de TV tem para manter alguns primatas numa jaula e emitir os sinais de imagem da jaula aos quatro cantos de um país-continente. 
Isso se acentua mais ainda num veículo que mistura no mesmo caldeirão anônimos e celebridades. Pessoas físicas e pessoas jurídicas. Fãs e “ídolos”. Admiradores e admirados. E em que a vida privada se destina ao público em espetáculo. Esticando e ampliando o reflexo de Narciso a um nível incomensurável. Desde que se pode ler que qualquer idiota se espreguiçou às sete da noite ou assoou o ranho do nariz às duas da tarde. 
O Twitter segue na vanguarda no sentido de levar ao paroxismo esse senso de espetacularização da vida de que nos falam Orwell e Guy Debord, entre outros autores.
No caso do Twitter, o diferencial vai por um limite: a pequena quantidade de texto a ser escrito. Isso, de início, fascina. Aparentemente parece algo bom. Parece. Porque nem sempre concisão tem a ver com parcas palavras. Um escritor barroco como Vieira, prolixo e derramado, é incrivelmente conciso. Porque ao volume de suas palavras corresponde um imenso volume de ideias, referências, sensações, relações, alusões, associações. Eis porque Fernando Pessoa o chamava de “imperador da língua portuguesa”. É diferente de se dizer: “tirei um cochilo de duas horas”. Ou “próxima semana vou pra Recife”. Ou “nada melhor que almoçar em casa”. Ou ainda “hoje comprei duas passagens na Azul e paguei uma”.
Sim. E daí?
Na verdade, a coisa tem mais a ver com velocidade, aceleração de ritmo, abreviação. Não com concisão. De fato, li num tweet recente: “se você imagina ou já tem a resposta para uma pergunta, por favor, não faça a pergunta. Não pra mim. Meu tempo é ouro”. Nada podeira sintetizar melhor o veículo que esse bilhetinho pouco compassivo. 
O Twitter parece ser o veículo dos que não podem perder tempo. Quer dizer, não podem perder dinheiro. E o dinheiro, Deus do homem moderno, decreta que tudo dever ser abreviado para que a gente se esqueça da morte, viva sempre “no presente” e evite pensamentos, trabalhos e/ou estudos que exigiam só até algum tempo atrás um pouco mais de paciência e artesanalidade. No tempo em que o Google ainda não havia exterminado um bocado de intuição. Benjamin já quase dizia isso com todas as letras oito décadas atrás:

Talvez ninguém tenha descrito melhor que Paul Valéry a imagem espiritual desse mundo de artífices, do qual provém o narrador. Falando das coisas perfeitas que se encontram na natureza, pérolas imaculadas, vinhos encorpados e maduros, criaturas realmente completas, ele as descreve como "o produto precioso de uma longa cadeia de causas semelhantes entre si". O acúmulo dessas causas só teria limites temporais quando fosse atingida a perfeição. "Antigamente o homem imitava essa paciência", prossegue Valéry. "Iluminuras, marfins profundamente entalhados; pedras duras, perfeitamente polidas e claramente gravadas; lacas e pinturas obtidas pela superposição de uma quantidade de camadas finas e translúcidas... - todas essas produções de uma indústria tenaz e virtuosística cessaram, e já passou o tempo em que o tempo não contava. O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado." Com efeito, o homem conseguiu abreviar até a narrativa. Assistimos em nossos dias ao nascimento da short story, que se emancipou da tradição oral e não mais permite essa lenta superposição de camadas finas e translúcidas, que representa a melhor imagem do processo pelo qual a narrativa perfeita vem à luz do dia, como coroamento das várias camadas constituídas pelas narrações sucessivas.
[“O Narrador” in Walter Benjamin: Magia, Técnica, Arte, Política. Vol. 1. Brasiliense: São Paulo, p. 206, trad. de Sérgio Paulo Rouanet]

Ao economizar tempo, ao evitar "perdê-lo" em longas discussões ou trabalhos longos e continuados, o que se deseja é cavar o máximo de tempo possível para coisas que se consome. Para mercado. Para mercadoria. Ora, informação é mercadoria. E é um tanto ingênuo deixar-se levar na onda dos relativismos e entender que se possa "usar" o Twitter de uma "boa" forma. No fundo, a "forma" do Twitter é quem usa a todos de modo indistinto e uniforme.
É óbvio que as novas mídias abriram enormes espaços para que muitas mais pessoas escrevam, ao invés de só lerem, ou de manterem nas gavetas o que produzem. Mas é ingênuo crer que todos possam, digamos, ser escritores. Assim como nem todos podem ser músicos ou luthiers ou relojoeiros ou vidraceiros. Há aptidões naturais, aqui, que sempre se ressaltarão em qualquer campo de atividade. Em parte porque a destreza que as pessoas tem para realizar determinadas tarefas é muito mais aguçada em algumas atividades que em outras. Ou ainda, é muito mais aguçada, dentro de certa atividade, que a de outras pessoas. E, por alguma razão, escrever com desenvoltura, graça e unicidade, se desenvolve mais rapidamente, com mais idiossincrasia e estilo, em alguns do que em outros. É algo para o qual se educa, muito óbvia e pacientemente. Mas educação só não basta, sem um  pouquinho de talento.
O Twitter é uma sorte de coroamento de todo esse processo de abreviação e afastamento do pensamento mais sereno e paciente sobre a eternidade e a morte. No sentido de ser a abreviação da abreviação [ou seja, da short-story; e depois dela, da postagem de blogue; e depois dela da mensagem no Orkut; e depois dela...]. Nisso ele se afasta sobretudo da prece. As preces tradicionais repetem verdades que seriam inacessíveis de atingir via Twitter. Ainda que algumas preces sejam curtas o suficiente para serem postas num tweet.
O provérbio era a narração condensada em uma sentença. No polo oposto, o tweet é a informação condensada em uma sentença.
O que pode ser posto em 140 caracteres e fazer algum sentido, quando não se é Bash ou os poetas chineses da dinastia T'ang?
O mais certo é o que disse uma jornalista que entrou recentemente no jogo da twittagem: “tem um mundo nesse Twitter, né?”
E é verdade. 
Mas muito mentira também.
E convenhamos um pouco também se vive de modismos. E o logo do Twitter foi extremamente bem desenhado.


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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"Eu sou a minha história", diz Robert


Capa da edição em dvd de Im Lauf der Zeit, Wim Wenders, 1976





No transcurso do tempo
-Im Lauf der Zeit [No Decorrer do Tempo], Wim Wenders, 1976, 176 min, p&b.

Um homem jovem se barbeia à janela de uma enorme van estacionada diante de um rio, de manhã cedo. De repente, ele entrevê pelo retrovisor um fusca vindo à toda velocidade, erguendo um rastro de poeira pela estrada vicinal. O fusca é atirado ao rio e, de dentro,  sai um sujeito acabrunhado, com uma mala grande, de metal. É recebido pelo que se barbeava e juntos começam uma relação de amizade e descoberta durante uma jornada através de pequenas cidades.
Muito pouco acontece de notável em Im Lauf der Zeit [No decorrer do tempo], um road-movie de cerca de três horas, conhecido em inglês sob o título de Kings of the Road. Não há mais Alemanha Ocidental ou Oriental, cujo rio em que o fusca é jogado, demarcava a fronteira. As salas de cinema em cidades pequenas desapareceram em quase qualquer lugar do mundo. Talvez as pessoas sejam menos gentis umas com as outras. O filme foi feito trinta e três anos atrás. E, no entanto, no decorrer desse tempo, Im Lauf der Zeit prossegue sendo o mais completo [e talvez o mais amado] dos filmes de Wenders. Pelo menos pelo grupo de aficcionados por seu cinema, que, de resto, é um cinema irregular. Certamente menos complexo que o de seus pares de geração: Herzog e -- sobretudo -- Fassbinder. Mas, em seus melhores momentos, não menos instigante. Os livros e artigos de Wenders são também um bocado interessantes.
Como pode ser assim? Em Paris, Texas (1984), Asas do Desejo [Der Himmel über Berlin] (1987) e  Far way, so close (1993), por ilustração, e em tantos outros features, ele contou com o aparato técnico incomensurável, hollywoodiano. Im Lauf der Zeit, no entanto, seu sexto filme - e o derradeiro de uma trilogia de road movies - foi gravado por uma jovem equipe semi-amadora, durante poucas semanas, junto à fronteira da Alemanha Oriental, e ajudou a confirmar a reputação dos atores que encarnam os dois protagonistas da história.
Hans Zischler, por exemplo, que responde pelo atormentado marido que atira o fusca rio a meio, vem aparecendo em mais de uma centena de filmes ao longo de sua carreira, inciada em 1968. Zischler também escreveu, em 1996, um interessante livro sobre a relação entre Kafka e o cinema [Kafka vai ao cinema, trad. Vera Ribeiro, Jorge Zahar, Rio, 2005]. No capítulo dois, dedica, aliás, uma inteira seção aos antigos “comentaristas” ou “explicadores” de filmes: “os Ponrepos participavam da ação exibida na tela. Eram como se diz em iídiche, Versteller, termo que joga com os vocábulos alemães verstellen, simular ou disfarçar e vorstellen, imaginar ou apresentar”. [Aqui, o próprio termo Ponrepos, que provém do francês, tem a ver com ponto-de-repouso].
No filme, Zischler é Robert Lander, um pediatra assombrado pelo fim da relação com a esposa e, ao mesmo tempo, pela tensa relação com a figura paterna - seu pai é um gráfico da província. Num determinado momento, zanzando por meia fronteira inter-alemã, ele tenta contar sua história a Bruno Winter [Rüdiger Vogler], que leva a vida consertando projetores nas cada vez mais escassas e precárias salas de exibição das cidades pequenas. No instante em que Vogler lhe diz: “você não precisa contar sua história”, ele retruca: Ich bin meine Geschichte [“eu sou minha história”].
Tudo indica que a obsessão de Wenders pela questão da história, da narração, da origem, radica em sua leitura de Walter Benjamin, a quem faz referências expressas em filmes posteriores, tal como Die Himmel über Berlin [O Céu sobre Berlim (título em inglês: Wings of Desire), 1987, com roteiro do escritor e dramaturgo austríaco Peter Handke]. 
Mas a questão da origem e da história é também evocada no momento em que Winter encontra Pauline. Num pequeno parque de diversões ela achega-se a ele indagando por fogo. Ele acende um palito de fósforo, mas não há um cigarro a ser aceso nos lábios dela, senão uma vela na nuca de uma pequena estatueta de Hitler: "Luz do Führer", comenta Winter em ironia, segurando a estatueta - óbvia relíquia dos tempos do nazismo e das agruras da II Guerra, tempo traumaticamente evitado por muito tempo nas telas da Alemanha. Isso se dá ao mesmo tempo em que Lander visita o pai e lhe confessa, num ambiente de grande tensão, que, ao contrário dele, pai, que vivera um casamento regular até a viuvez, acabara de sparar-se da mulher. E, no entanto, tratando o tema de um passado recente coletivo e incômodo com distanciamento e ironia, Wenders, uma vez mais, aponta para suas obsessões: a paternidade (origem) e o desenvolver-se e modificar-se no transcurso do tempo (história). Inclusive e não menos pelo contato com o "outro". Daí o fascínio de Wenders pela cultura e os filmes americanos bem como com o universo pop. Tanto em seus ícones mais comezinhos, como o tênis, o macacão, os óculos escuros, os paperbacks, o t-shirt, a motocicleta - ou mais propriamente a moto com sidecar, que os amigos utilizam em uma sequência. Mas principalmente a música, os temas de rock que pontuam No Decorrer do Tempo do começo ao fim. E isso inclui baladas country, com guitarras em slide, que antecipam em alguns anos sua ulterior colaboração com Ry Cooder, que entre outras, nos irá legar a trilha sonora de Paris, Texas e o magnífico documentário sobre a música cubana Buena Vista Social Club [último filme que me levou três vezes ao cinema em uma semana].  
Em Im Lauf der Zeit, a primorosa cinematografia em preto e branco do holandês Robby Müller, contumaz colaborador de Wenders [mas também de outros cineastas de renome, como Jim Jarmusch, Lars von Trier e até mesmo o grande Antonioni]; a argúcia dos diálogos, em parte improvisados [ou da ausência deles: as grandes pausas, os litotes]; o fluxo aparentemente lento das tomadas fluindo em belos planos sequência, mas nem sempre; a exuberância da personagem encarnada por Rüdiger Vogler, ou por quase cada personagem secundário, que, de resto, não são tantos assim -- como a bilheteira Pauline ou um recém-viúvo, cuja mulher acabara de morrer num choque entre o automóvel que ela guiava e uma árvore; tudo ajuda a emprestar tinta para converter esse filme modesto num verdadeiro mosaico contemporâneo sobre exploração, limites, auto-conhecimento, comunicabilidade ou sua ausência. [Aqui, pode-se lembrar o que dizia Robert Bresson: "a incomunicabilidade está na base do que faço"].
Winter [Vogler] é o itinerante, cuja casa é a própria estrada. O filme começa com ele ouvindo o depoimento de um antigo músico de cinema. O cinema é a paixão de Winter, mas ele nunca declara isso. Apenas percebe-se. Como quando ao flertar com a bela bilheteira de uma salinha tacanha da província, ele se dá conta de que a projeção do filme, um pornô, está fora de foco. Sobe então até a cabina de projeção, e a encontra num tremendo estado de desmazelo, enquanto o próprio projecionista masturba-se ao assistir o filme.  Só depois de reparar o projetor e deixar tudo em ordem, o foco recobrado, é que ele se volta para o affair e para a bilheteira. 
Winter, ao contrário de Lander, não cria limo jamais. Ele dorme com a bela bilheteira Pauline, num sofá, nos acanhados bastidores do cinema. Não se vê a cena de amor, um único beijo. Ao acordarem juntos, ele diz a ela que partirá logo em seguida. E uma lágrima escorre silenciosa pela face dela. Winter toca a lágrima na face de Pauline com seu indicador  e a trás de volta com o dedo para seus próprios cílios e face. Essa “alba” – ou poema escrito durante a separação dos amantes ao romper da aurora – atualizada é talvez a única cena mais sentimental nesse filme um tanto austero, de fino humor e belo tratamento das personagens, à base de distanciamento, decoro e observação do outro. E é uma bela cena. Mas ao fim de tudo, Winter parte, porque para quem está sempre em viagem, a vida não é senão uma sucessão de partidas. O que também equivale a dizer: uma sucessão de perdas diante das quais se deve agir com ponderada resignação.
Não se entrevê propriamente um “progresso moral” em nenhum dos dois amigos durante sua pequena odisséia. Ao temperamento bonachão e bem-humorado de Winter se contrapõe a tensão e desassossego de Lander.
E, ainda assim, é Lander quem – a partir de sua experiência com crianças (afinal, ele é um pediatra) – desencadeia uma série de momices que ambos ficam a fazer, num jogo de sombras, atrás da tela de projeção de uma sala repleta de colegiais, e cujos problemas com áudio impediam a projeção de um filme. A brincadeira rende e acaba apaziguando e divertindo esse grupo de crianças impacientes. É também Lander quem descobre algo que vai para além do mapa e instiga isso em Winter. Como quando ambos ficam divagando sobre nomes de lugares. Alguns bem estranhos, como os povoados de  Machtlos [Impotência] e Friedlos [Desassossego], separados por uma colina chamada Toter Mann [Homem Morto].
Algumas das sequências mais belas são externas tomadas da imensa van movendo-se pelas estradas, com o pequeno boneco-logo da Michelin dependurado em uma dos lados da dianteira. Apagado durante o dia. Aceso em lâmpada, durante a noite. 
Muitas perguntas ficam sem resposta.
Lander é um tipo excessivamente livresco e cerebral. O jornal segue sempre em sua mão. Ao por exemplo entrever um grupo de crianças soltando barquinhos de papel debaixo de uma ponte, ele desce pelos degraus até lá. Pede licença para se apropriar de um dos "barcos", que eram feitos de folha de jornal, o desmancha e começa a lê-lo. Mais intuitivo e sereno, Winter repassa uma sensação de estoica resignação diante da vida, além de um extremado senso de humor.
É a contaminação entre ambos, a comunicação e, sobretudo, a incomunicação entre os dois – o não dito, o mal-entendido, o subentendido de forma equívoca ou subjetiva – o que faz Im Lauf der Zeit, no decorrer do tempo, ser esse filme, atemporalmente fascinante e pleno de poesia. 


[Fortaleza, 15.10.09]



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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dentro da espessura: Roubaud


Marcel Duchamp, Fresh Window, 1920



Méditation du 8/5/85


Soir après soir

Le vecteur de lumière traverse

La même vitre

S’éloigne

Et la nuit

L’emporte

Où tu te ranges

Invisible

Dans l’épaisseur


Jacques Roubaud



Meditação de 8/5/85


Tarde após tarde

O vetor de luz atravessa

A mesma vidraça

Esmaece

E à noite

Transporta-a

Até onde estás

Invisível

Dentro da espessura



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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

letrinha de música


Yerkes Observatory, O Cometa de Halley, 1910



'como um cometa'


como um cometa

cometa alguns pecados

mande alguns recados

faça alguns exames

dê alguns vexames


como um cometa

sinta-se procurado

por alguns trocados

com a cabeça a prêmio

mesmo sem ser gênio


como um cometa

enfie todo o seu amor

pela secreta flor

que acresce sua sede

e, de pé, deite na rede


como um cometa

seja um suicida

atento e alerta

que aceita como meta

a sua própria vida


[refrões á escolha]:


mas só como um cometa

que é tão fugidio

como o sereno frio

e não quer ser planeta


mas só como um cometa

que passa chispando

de cem em cem anos

e não usa muleta


mas só como um cometa

que vaga pelo espaço

com fosse um caco

de amor sem laço



[Fortaleza, 09.10.09]





Nota – mando um abraço para o primeiro amigo(a) que musicar essa letrinha.



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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

como se portasse medalhas: Leminski

Gabriele Picco, Different kind of pain and happiness in the same bottle, 2003



Dor Elegante



um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante

carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa, um milhão de dólares

ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer vai ser minha última obra



Paulo Leminski




Nota – este poema foi musicado por Itamar Assumpção. [Leminski e Assumpção, esses dois alucinados, da mesma família de Torquato Neto. O que revela que essa alucinação desconhece fronteiras o primeiro era piauense; o segundo, paranaense; o terceiro paulistano até a raiz dos cabelos]. Notem ainda o quanto a ilustração, de Gabriele Picco, parece dialogar - provavelmente sem nenhum conhecimento prévio - com a do artista plástico cearense Leonilson [José Leonilson Bezerra Dias, 1957-1993]. 



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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Imersa, na água, como uma sereia branca


Poster original de L'Atalante, 1934



O Barco Que Passa: Paixão e Fé
- L'Atalante, de Jean Vigo, 1934, 89 min., p&b

Num ambiente da província, recém-casados deixam uma igreja acompanhados de um pequeno séquito e dirigem-se à margem do rio. São antecipados por dois marujos em azáfama, que correm pelos campos até uma chata ancorada à beira-rio. As imagens, montadas numa descontinuidade que antecipa a nouvelle-vague em trinta anos, são de uma aterradora beleza.
Por alguma razão Boris Kaufman disse que os anos passados em colaboração com Jean Vigo foram um “paraíso cinemático”. Kaufman, irmão mais novo de ninguém menos que Dziga Vertov (cujo verdadeiro nome era Denis Kaufman), seguiria posteriormente para Hollywood, onde seu apurado senso de cinematografia responderia pelo lirismo de filmes como On the Waterfront (Sindicato de Ladrões, Elia Kazan, 1954).
Mas sob a direção de Vigo, ele nos legou também as imagens de L'Atalante (1934), o filme mais intenso daquele período em que o cinema sonoro ainda lutava para se estabelecer por contraposição ao mudo – que estava perfeitamente estabelecido e era bem mais sofisticado e efectivo.
Por tudo L'Atalante é um dos primeiros grandes filmes sonoros. Pela maravilhosa direção de atores – com destaque para o assombroso talento de Michel Simon; pelo sobredito lirismo da fotografia de Kaufman; pela trilha sonora, calcada na canção “Le chaland qui passe” [“A chata que passa”] – mas cujo tema mais belo é um instrumental, comandado por um realejo, com vaga atmosfera nostálgica e circense; pela simplicidade e engenhosidade da trama, que explora as tensões entre recém-casados com uma ternura incomportável; pela integridade com que paisagens urbanas ou rurais são exploradas em esplendoroso senso de realidade. É canino o faro de Vigo para achar a locação exata – o que denuncia nele o documentarista que já realizara o esplêndido A Propos de Nice (1930).
Até mesmo alguns, hoje, notáveis erros de continuidade são perdoáveis. Como por exemplo, o fato de Dita Parlo reaparecer no barco com sua bolsa – que fora furtada quando de sua voluntariosa fuga para Paris, no auge da crise conjugal. A contrapartida desse auge, do lado masculino, é quando Jean Dasté mergulha no rio e tem uma visão de sua amada, trajada de noiva, imersa na água, como uma sereia branca.
O momento em que o irrequieto Pére Jules [Michel Simon] sai à cata da jovem esposa do capitão, já temendo pela integridade mental do mesmo, é também uma das sequências mais notáveis do filme. Ele deambula em hesitação: atravessa pontes, caminha por uma avenida em que um automóvel dá uma ré. E, de repente, pequeno milagre, soa esse tema instrumental de uma ternura abissal. Pére Jules então, senta-se desolado num banco de praça. Uma prostituta passa. Ele ameaça segui-la. Mas então, não sem certo ar irritado, volta à sua missão de encontrar a jovem esposa em fuga. Por alguma razão há tanta modernidade antecipada neste momento, que o tema (aplicado à imagem) soa algo à la Beatles.
E, no entanto, chega ser uma heresia destacar qualquer momento em L'Atalante. Como em todo grande filme, cada mínimo plano assoma transfigurado por uma intransponível beleza. E é a forte integridade deles o que, no fim, importa. Apesar de tantas e tantas sequências memoráveis. E até mesmo – e sobretudo – aquelas em que apenas a paisagem se ressalta, sem a presença humana, revelam-se de uma indizível plasticidade, como quando um sobrado assoma em quadro, à margem, tomado ao fim do crepúsculo, com suas luzes acesas e certo ar de avulso desolamento, visto do ponto-de-vista do barco que passa. Toda a paisagem conspira para contar da atmosfera de paixão e tensão que envolve o jovem casal. Até mesmo a paisagem corporal de Pére Jules, com suas tatuagens espalhadas por todo o corpo, semelha ser uma extensão dessa paisagem. Isso, na cena em que ele introduz Dita Parlo à sua cabine e em que ele mais parece alguém saído do frenesi dos desenhos animados do que propriamente humano. Uma força. Um vetor dinâmico. Um dáimon, no sentido grego do termo.
Essa trama simples, a da recém-esposa provinciana do capitão de um pequeno barco mercante fluvial que se entedia com a rotina nos claustrofóbicos espaços do ambiente e sonha com a efervescência da metrópole, é primorosamente narrada em L'Atalante. Porém narrada com uma carga de paixão, sinestesia e intensidade limítrofes. Parece que se pode sentir esse filme de diversas maneiras. Quer dizer, não só com a visão ou com o ouvido. Parece que se pode senti-lo como se sente o mundo exterior durante uma caminhada: o vento passando nos galhos, o canto de um pássaro, o latido de um cão, os passos de alguém que caminha sobre folhas secas, o alarido de crianças durante um recreio escolar, os desenhos dos fios nos postes, o choro de um bebê, alguém passando com um pacote de pães...
Sim, pode-se sentir que L'Atalante foi realizado a partir dessa paixão, dessa mesma e imensa carga de amor e fé. Tanto no cinema quanto na realidade deste mundo.

[Fortaleza, 07.10.09]
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Uma vida inteira fiéis


[s/i/c]



Os homens são um mistério


Os homens são uma vida inteira fiéis, arrebatados e apaixonados por... um clube de futebol. Nunca ouvi nenhum dizer, amo o Benfica mas tenho um caso com o Porto. E aquilo com o Sporting foi só sexo.


Eugénia de Vasconcellos



Nota - Eugénia de Vasconcellos, autora portuguesa, mantém o blogue Mátria Minha e também contribui para o blogue-revista É tudo gente morta. Aqui, poder-se-ia contrargumentar: "e que mistério ainda maior são as mulheres!". Sobre a questão da fidelidade, lembrar que Machado de Assis confessou, uma única vez, ter "pulado a cerca". Se uma figura da grandeza e integridade espirituais de Machado andou pulando cerca - ainda que assumidamente só uma vez - o que se dirá dos comuns mortais. Aliás, Machado morreu justo quando o futebol dava seus primeiros passes no Brasil. Seria interessante ler textos de Machado sobre futebol. Um futebol já mais consolidado. Como os há em Lima Barreto, João do Rio, Graciliano, Lins do Rego ou Nélson Rodrigues.





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Trabalho aplicado = ou >


Marcel Duchamps, Three Standard Stoppages, 1914




Equação sem moto contínuo



às vezes, escrever causa tanto enfado

de fato, lembra a lei áurea da mecânica

trabalho aplicado = ou > trabalho realizado



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sábado, 3 de outubro de 2009

É tudo gente morta


Felix González-Torres, Death by Gun, 1990



Experiência Lusófana
: É tudo gente morta


Participo desde o dia 1º de outubro, a convite de seu editor, Manuel S. Fonseca, do blogue lusófono, com certo centro tonal em terras lusitanas, É tudo gente morta. O blogue reúne autores de interesses e formações diversas radicados em Portugal, Brasil, Macau, Estados Unidos e Itália, reunidos sob a vaga ideia de homenagear algumas personalidades ou autores caros, que já se foram. Mas acaba se estendendo para bem mais que isto. Aos interessados, cliquem Aqui. Há um linque permanente também ao final da barra 'linques & afins'.



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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ela era a própria água


Tokujin Yoshioka, Tear Drop Lamp, 2007



Ele me favoreceu


a gota que era o começo de mar

caiu numa fonte e começou a nadar

até perceber: ela era a própria água:

por que nadar em si tanta mágoa?




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