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[s/i/c]
ilação
uma vitória de pirro
sobre o resfriado
acaba em espirro.
* * *

Capa do nº inicial de Para Mamíferos
Nova Revista à Vista
Próxima quinta, dezenove e trinta, dia vinte e dois, no espaço contíguo à Livraria Ao Livro Técnico do Centro Cultural Dragão do Mar, lançamento da revista de literatura e arte Para Mamíferos. Os editores são Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro, Raymundo Netto, Nerilson Moreira, Irajacy Costa e Glauco Sobreira.
Conto inédito de Dalton Trevisan; dossiê sobre a literatura cearense quase recente, pós-Grupo Clã (Caio Carneiro, José Maia, Mário Pontes, José Alcides Pinto et alli); traduções de Gertrude Stein e Ernest Hemingway, por Virna Teixeira e Xênio Ruysconcellos; poemas e prosas de Henrique Dídimo, Fayga Bedê, Carlos Nóbrega, Everardo Norões, Carmélia Aragão e Amílcar Bettega; texto de Sânzio de Azevedo; entrevista com Ana Miranda; além de tiras de quadrinhos do Glauco; artigo de Gil Brandão sobre o Teatro Radical Brasileiro, do qual não faço a menor ideia; inédito de Juarez Barroso; matéria sobre a Shoah, entre outros presentinhos.
O preço é só dez mangos. Revistas de papéis e tintas como a Para são cada vez mais difíceis de fazer e, sobretudo, manter nesses tempos virtuais. Seja solidário com os escritores de sua cidade e até d'além-mar. Eles também são mamíferos e têm, de algum modo, de pagar a rapadura e prover o leite dos meninos.
É engraçado a grita geral sobre o marasmo cultural em Fortaleza. E, quando um grupo de escritores, que traz em sua equipe nomes do talento de um Pedro Salgueiro e Tércia Montenegro, resolve lançar uma revista, já de cara neguinho não vai. Neguinho não compra. Neguinho não quer saber. E isso numa cidade com cursos de jornalismo, publicidade, audiovisual, moda, letras, arquitetura, música, artes plásticas (e não-de-todo-plásticas) escorrendo pelo ladrão.
Talvez porque neguinho desconheça que quem não chora não mama.
Para Mamíferos começa bem. Começa, aliás, com o bom-senso do número 1. Não houve número zero. Ainda bem. O zero, invenção dos sofisiticados árabes, à altura da Idade Média, é para aquilo que não existe. Eis porque nada se pode dividir por zero. Mas a Para é para ser dividida entre muitos. E ainda mais a esse preço módico de dez mi-réis.
Pare. Pense. Leia a Para. E olhe que seu dia, apesar de vir, virá com menos azedume e mais verniz.
P.S. -- Havia esquecido e o Renato Mazzini me lembrou: o contato para aquisição da revista, bem como para sugestões, comentários, críticas, etc. é: paramamiferos@gmail.com
* * *

[s/i/c]
Chiste
Aconteceu com uma das cearenses mais belas que já conheci. À época, morava em São Paulo e pós-graduava na Puc. O noivo ficara no Ceará, tomando conta de uma fazenda. Visitava-a muito em raro. Ela na flor da idade. Na quente flor da idade.
Um dia, no apartamento em que dividia com outras duas pós-graduandas - por sinal, não muito menos belas - notaram que precisavam de um soquete. Resoluta, foi à casa de material elétrico mais próxima. E, junto ao balcão, com todo seu charme, encarando um vendedor impessoal, paulistano e perplexo, semi-enforcado em sua gravata, disse:
-Ei, meu senhor, o senhor pode me dar um boquete?
E o vendedor perplexo, puxando o colarinho, olhando para os lados, para os densos olhos negros, a suavidade dos relevos da moça do lado de lá do balcão, do lado de lá de um fino vestido, para os cachos de lustres no teto da loja:
-Como?
E ela, com a ênfase dos incompreendidos:
-Um boquete, meu senhor, eu quero um boquete!
* * *
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Marcel Duchamp, Fresh Window, 1920
Méditation du 8/5/85
Soir après soir
Le vecteur de lumière traverse
La même vitre
S’éloigne
Et la nuit
L’emporte
Où tu te ranges
Invisible
Dans l’épaisseur
Jacques Roubaud
Meditação de 8/5/85
Tarde após tarde
O vetor de luz atravessa
A mesma vidraça
Esmaece
E à noite
Transporta-a
Até onde estás
Invisível
Dentro da espessura
* * *

Yerkes Observatory, O Cometa de Halley, 1910
'como um cometa'
como um cometa
cometa alguns pecados
mande alguns recados
faça alguns exames
dê alguns vexames
como um cometa
sinta-se procurado
por alguns trocados
com a cabeça a prêmio
mesmo sem ser gênio
como um cometa
enfie todo o seu amor
pela secreta flor
que acresce sua sede
e, de pé, deite na rede
como um cometa
seja um suicida
atento e alerta
que aceita como meta
a sua própria vida
[refrões á escolha]:
mas só como um cometa
que é tão fugidio
como o sereno frio
e não quer ser planeta
mas só como um cometa
que passa chispando
de cem em cem anos
e não usa muleta
mas só como um cometa
que vaga pelo espaço
com fosse um caco
de amor sem laço
[Fortaleza, 09.10.09]
Nota – mando um abraço para o primeiro amigo(a) que musicar essa letrinha.
* * *
Gabriele Picco, Different kind of pain and happiness in the same bottle, 2003
Dor Elegante
um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios, édens, analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra
Paulo Leminski
Nota – este poema foi musicado por Itamar Assumpção. [Leminski e Assumpção, esses dois alucinados, da mesma família de Torquato Neto. O que revela que essa alucinação desconhece fronteiras o primeiro era piauense; o segundo, paranaense; o terceiro paulistano até a raiz dos cabelos]. Notem ainda o quanto a ilustração, de Gabriele Picco, parece dialogar - provavelmente sem nenhum conhecimento prévio - com a do artista plástico cearense Leonilson [José Leonilson Bezerra Dias, 1957-1993].
* * *


Os homens são um mistério
Os homens são uma vida inteira fiéis, arrebatados e apaixonados por... um clube de futebol. Nunca ouvi nenhum dizer, amo o Benfica mas tenho um caso com o Porto. E aquilo com o Sporting foi só sexo.
Eugénia de Vasconcellos
Nota - Eugénia de Vasconcellos, autora portuguesa, mantém o blogue Mátria Minha e também contribui para o blogue-revista É tudo gente morta. Aqui, poder-se-ia contrargumentar: "e que mistério ainda maior são as mulheres!". Sobre a questão da fidelidade, lembrar que Machado de Assis confessou, uma única vez, ter "pulado a cerca". Se uma figura da grandeza e integridade espirituais de Machado andou pulando cerca - ainda que assumidamente só uma vez - o que se dirá dos comuns mortais. Aliás, Machado morreu justo quando o futebol dava seus primeiros passes no Brasil. Seria interessante ler textos de Machado sobre futebol. Um futebol já mais consolidado. Como os há em Lima Barreto, João do Rio, Graciliano, Lins do Rego ou Nélson Rodrigues.




