sábado, 17 de outubro de 2009

Ei, meu senhor, eu quero!


[s/i/c]


Chiste


Aconteceu com uma das cearenses mais belas que já conheci. À época, morava em São Paulo e pós-graduava na Puc. O noivo ficara no Ceará, tomando conta de uma fazenda. Visitava-a muito em raro. Ela na flor da idade. Na quente flor da idade. 

Um dia, no apartamento em que dividia com outras duas pós-graduandas - por sinal, não muito menos belas - notaram que precisavam de um soquete. Resoluta, foi à casa de material elétrico mais próxima. E, junto ao balcão, com todo seu charme, encarando um vendedor impessoal, paulistano e perplexo, semi-enforcado em sua gravata, disse:

-Ei, meu senhor, o senhor pode me dar um boquete?

E o vendedor perplexo, puxando o colarinho, olhando para os lados, para os densos olhos negros,  a suavidade dos relevos da moça do lado de lá do balcão, do lado de lá de um fino vestido, para os cachos de lustres no teto da loja:

-Como?

E ela, com a ênfase dos incompreendidos:

-Um boquete, meu senhor, eu quero um boquete!


* * *

Dos 140 caracteres


[s/i/c]


Divagação sobre o Twitter

A minha amada me mandou um bilhetinho

Só para ver se eu conhecia a letra dela

A letra dela já era conhecida

Ela me amava e eu também amava ela

Mandei fazer um 'boquê' pra minha amada

De abonina 'fulô' mais disfarçada

O nome dela era estrela matutina

Adeus, menina, serenou na madrugada”

[Canção Tradicional]

Não resta dúvida que a nova febre da internet, o Twitter, na mesma linha das redes de sociabilidade, Facebooks, Orkuts, My Spaces e quejandos, ainda mais que o fenômeno dos blogues, conforma uma espécie de tentativa: pulverizar ao máximo algo como a suposta experiência em tempo real de programas televisivos como o Big Brother. Tentar esticá-la ao maior número possível de pessoas, sem os custos absurdos que uma rede de TV tem para manter alguns primatas numa jaula e emitir os sinais de imagem da jaula aos quatro cantos de um país-continente. 
Isso se acentua mais ainda num veículo que mistura no mesmo caldeirão anônimos e celebridades. Pessoas físicas e pessoas jurídicas. Fãs e “ídolos”. Admiradores e admirados. E em que a vida privada se destina ao público em espetáculo. Esticando e ampliando o reflexo de Narciso a um nível incomensurável. Desde que se pode ler que qualquer idiota se espreguiçou às sete da noite ou assoou o ranho do nariz às duas da tarde. 
O Twitter segue na vanguarda no sentido de levar ao paroxismo esse senso de espetacularização da vida de que nos falam Orwell e Guy Debord, entre outros autores.
No caso do Twitter, o diferencial vai por um limite: a pequena quantidade de texto a ser escrito. Isso, de início, fascina. Aparentemente parece algo bom. Parece. Porque nem sempre concisão tem a ver com parcas palavras. Um escritor barroco como Vieira, prolixo e derramado, é incrivelmente conciso. Porque ao volume de suas palavras corresponde um imenso volume de ideias, referências, sensações, relações, alusões, associações. Eis porque Fernando Pessoa o chamava de “imperador da língua portuguesa”. É diferente de se dizer: “tirei um cochilo de duas horas”. Ou “próxima semana vou pra Recife”. Ou “nada melhor que almoçar em casa”. Ou ainda “hoje comprei duas passagens na Azul e paguei uma”.
Sim. E daí?
Na verdade, a coisa tem mais a ver com velocidade, aceleração de ritmo, abreviação. Não com concisão. De fato, li num tweet recente: “se você imagina ou já tem a resposta para uma pergunta, por favor, não faça a pergunta. Não pra mim. Meu tempo é ouro”. Nada podeira sintetizar melhor o veículo que esse bilhetinho pouco compassivo. 
O Twitter parece ser o veículo dos que não podem perder tempo. Quer dizer, não podem perder dinheiro. E o dinheiro, Deus do homem moderno, decreta que tudo dever ser abreviado para que a gente se esqueça da morte, viva sempre “no presente” e evite pensamentos, trabalhos e/ou estudos que exigiam só até algum tempo atrás um pouco mais de paciência e artesanalidade. No tempo em que o Google ainda não havia exterminado um bocado de intuição. Benjamin já quase dizia isso com todas as letras oito décadas atrás:

Talvez ninguém tenha descrito melhor que Paul Valéry a imagem espiritual desse mundo de artífices, do qual provém o narrador. Falando das coisas perfeitas que se encontram na natureza, pérolas imaculadas, vinhos encorpados e maduros, criaturas realmente completas, ele as descreve como "o produto precioso de uma longa cadeia de causas semelhantes entre si". O acúmulo dessas causas só teria limites temporais quando fosse atingida a perfeição. "Antigamente o homem imitava essa paciência", prossegue Valéry. "Iluminuras, marfins profundamente entalhados; pedras duras, perfeitamente polidas e claramente gravadas; lacas e pinturas obtidas pela superposição de uma quantidade de camadas finas e translúcidas... - todas essas produções de uma indústria tenaz e virtuosística cessaram, e já passou o tempo em que o tempo não contava. O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado." Com efeito, o homem conseguiu abreviar até a narrativa. Assistimos em nossos dias ao nascimento da short story, que se emancipou da tradição oral e não mais permite essa lenta superposição de camadas finas e translúcidas, que representa a melhor imagem do processo pelo qual a narrativa perfeita vem à luz do dia, como coroamento das várias camadas constituídas pelas narrações sucessivas.
[“O Narrador” in Walter Benjamin: Magia, Técnica, Arte, Política. Vol. 1. Brasiliense: São Paulo, p. 206, trad. de Sérgio Paulo Rouanet]

Ao economizar tempo, ao evitar "perdê-lo" em longas discussões ou trabalhos longos e continuados, o que se deseja é cavar o máximo de tempo possível para coisas que se consome. Para mercado. Para mercadoria. Ora, informação é mercadoria. E é um tanto ingênuo deixar-se levar na onda dos relativismos e entender que se possa "usar" o Twitter de uma "boa" forma. No fundo, a "forma" do Twitter é quem usa a todos de modo indistinto e uniforme.
É óbvio que as novas mídias abriram enormes espaços para que muitas mais pessoas escrevam, ao invés de só lerem, ou de manterem nas gavetas o que produzem. Mas é ingênuo crer que todos possam, digamos, ser escritores. Assim como nem todos podem ser músicos ou luthiers ou relojoeiros ou vidraceiros. Há aptidões naturais, aqui, que sempre se ressaltarão em qualquer campo de atividade. Em parte porque a destreza que as pessoas tem para realizar determinadas tarefas é muito mais aguçada em algumas atividades que em outras. Ou ainda, é muito mais aguçada, dentro de certa atividade, que a de outras pessoas. E, por alguma razão, escrever com desenvoltura, graça e unicidade, se desenvolve mais rapidamente, com mais idiossincrasia e estilo, em alguns do que em outros. É algo para o qual se educa, muito óbvia e pacientemente. Mas educação só não basta, sem um  pouquinho de talento.
O Twitter é uma sorte de coroamento de todo esse processo de abreviação e afastamento do pensamento mais sereno e paciente sobre a eternidade e a morte. No sentido de ser a abreviação da abreviação [ou seja, da short-story; e depois dela, da postagem de blogue; e depois dela da mensagem no Orkut; e depois dela...]. Nisso ele se afasta sobretudo da prece. As preces tradicionais repetem verdades que seriam inacessíveis de atingir via Twitter. Ainda que algumas preces sejam curtas o suficiente para serem postas num tweet.
O provérbio era a narração condensada em uma sentença. No polo oposto, o tweet é a informação condensada em uma sentença.
O que pode ser posto em 140 caracteres e fazer algum sentido, quando não se é Bash ou os poetas chineses da dinastia T'ang?
O mais certo é o que disse uma jornalista que entrou recentemente no jogo da twittagem: “tem um mundo nesse Twitter, né?”
E é verdade. 
Mas muito mentira também.
E convenhamos um pouco também se vive de modismos. E o logo do Twitter foi extremamente bem desenhado.


* * *

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"Eu sou a minha história", diz Robert


Capa da edição em dvd de Im Lauf der Zeit, Wim Wenders, 1976





No transcurso do tempo
-Im Lauf der Zeit [No Decorrer do Tempo], Wim Wenders, 1976, 176 min, p&b.

Um homem jovem se barbeia à janela de uma enorme van estacionada diante de um rio, de manhã cedo. De repente, ele entrevê pelo retrovisor um fusca vindo à toda velocidade, erguendo um rastro de poeira pela estrada vicinal. O fusca é atirado ao rio e, de dentro,  sai um sujeito acabrunhado, com uma mala grande, de metal. É recebido pelo que se barbeava e juntos começam uma relação de amizade e descoberta durante uma jornada através de pequenas cidades.
Muito pouco acontece de notável em Im Lauf der Zeit [No decorrer do tempo], um road-movie de cerca de três horas, conhecido em inglês sob o título de Kings of the Road. Não há mais Alemanha Ocidental ou Oriental, cujo rio em que o fusca é jogado, demarcava a fronteira. As salas de cinema em cidades pequenas desapareceram em quase qualquer lugar do mundo. Talvez as pessoas sejam menos gentis umas com as outras. O filme foi feito trinta e três anos atrás. E, no entanto, no decorrer desse tempo, Im Lauf der Zeit prossegue sendo o mais completo [e talvez o mais amado] dos filmes de Wenders. Pelo menos pelo grupo de aficcionados por seu cinema, que, de resto, é um cinema irregular. Certamente menos complexo que o de seus pares de geração: Herzog e -- sobretudo -- Fassbinder. Mas, em seus melhores momentos, não menos instigante. Os livros e artigos de Wenders são também um bocado interessantes.
Como pode ser assim? Em Paris, Texas (1984), Asas do Desejo [Der Himmel über Berlin] (1987) e  Far way, so close (1993), por ilustração, e em tantos outros features, ele contou com o aparato técnico incomensurável, hollywoodiano. Im Lauf der Zeit, no entanto, seu sexto filme - e o derradeiro de uma trilogia de road movies - foi gravado por uma jovem equipe semi-amadora, durante poucas semanas, junto à fronteira da Alemanha Oriental, e ajudou a confirmar a reputação dos atores que encarnam os dois protagonistas da história.
Hans Zischler, por exemplo, que responde pelo atormentado marido que atira o fusca rio a meio, vem aparecendo em mais de uma centena de filmes ao longo de sua carreira, inciada em 1968. Zischler também escreveu, em 1996, um interessante livro sobre a relação entre Kafka e o cinema [Kafka vai ao cinema, trad. Vera Ribeiro, Jorge Zahar, Rio, 2005]. No capítulo dois, dedica, aliás, uma inteira seção aos antigos “comentaristas” ou “explicadores” de filmes: “os Ponrepos participavam da ação exibida na tela. Eram como se diz em iídiche, Versteller, termo que joga com os vocábulos alemães verstellen, simular ou disfarçar e vorstellen, imaginar ou apresentar”. [Aqui, o próprio termo Ponrepos, que provém do francês, tem a ver com ponto-de-repouso].
No filme, Zischler é Robert Lander, um pediatra assombrado pelo fim da relação com a esposa e, ao mesmo tempo, pela tensa relação com a figura paterna - seu pai é um gráfico da província. Num determinado momento, zanzando por meia fronteira inter-alemã, ele tenta contar sua história a Bruno Winter [Rüdiger Vogler], que leva a vida consertando projetores nas cada vez mais escassas e precárias salas de exibição das cidades pequenas. No instante em que Vogler lhe diz: “você não precisa contar sua história”, ele retruca: Ich bin meine Geschichte [“eu sou minha história”].
Tudo indica que a obsessão de Wenders pela questão da história, da narração, da origem, radica em sua leitura de Walter Benjamin, a quem faz referências expressas em filmes posteriores, tal como Die Himmel über Berlin [O Céu sobre Berlim (título em inglês: Wings of Desire), 1987, com roteiro do escritor e dramaturgo austríaco Peter Handke]. 
Mas a questão da origem e da história é também evocada no momento em que Winter encontra Pauline. Num pequeno parque de diversões ela achega-se a ele indagando por fogo. Ele acende um palito de fósforo, mas não há um cigarro a ser aceso nos lábios dela, senão uma vela na nuca de uma pequena estatueta de Hitler: "Luz do Führer", comenta Winter em ironia, segurando a estatueta - óbvia relíquia dos tempos do nazismo e das agruras da II Guerra, tempo traumaticamente evitado por muito tempo nas telas da Alemanha. Isso se dá ao mesmo tempo em que Lander visita o pai e lhe confessa, num ambiente de grande tensão, que, ao contrário dele, pai, que vivera um casamento regular até a viuvez, acabara de sparar-se da mulher. E, no entanto, tratando o tema de um passado recente coletivo e incômodo com distanciamento e ironia, Wenders, uma vez mais, aponta para suas obsessões: a paternidade (origem) e o desenvolver-se e modificar-se no transcurso do tempo (história). Inclusive e não menos pelo contato com o "outro". Daí o fascínio de Wenders pela cultura e os filmes americanos bem como com o universo pop. Tanto em seus ícones mais comezinhos, como o tênis, o macacão, os óculos escuros, os paperbacks, o t-shirt, a motocicleta - ou mais propriamente a moto com sidecar, que os amigos utilizam em uma sequência. Mas principalmente a música, os temas de rock que pontuam No Decorrer do Tempo do começo ao fim. E isso inclui baladas country, com guitarras em slide, que antecipam em alguns anos sua ulterior colaboração com Ry Cooder, que entre outras, nos irá legar a trilha sonora de Paris, Texas e o magnífico documentário sobre a música cubana Buena Vista Social Club [último filme que me levou três vezes ao cinema em uma semana].  
Em Im Lauf der Zeit, a primorosa cinematografia em preto e branco do holandês Robby Müller, contumaz colaborador de Wenders [mas também de outros cineastas de renome, como Jim Jarmusch, Lars von Trier e até mesmo o grande Antonioni]; a argúcia dos diálogos, em parte improvisados [ou da ausência deles: as grandes pausas, os litotes]; o fluxo aparentemente lento das tomadas fluindo em belos planos sequência, mas nem sempre; a exuberância da personagem encarnada por Rüdiger Vogler, ou por quase cada personagem secundário, que, de resto, não são tantos assim -- como a bilheteira Pauline ou um recém-viúvo, cuja mulher acabara de morrer num choque entre o automóvel que ela guiava e uma árvore; tudo ajuda a emprestar tinta para converter esse filme modesto num verdadeiro mosaico contemporâneo sobre exploração, limites, auto-conhecimento, comunicabilidade ou sua ausência. [Aqui, pode-se lembrar o que dizia Robert Bresson: "a incomunicabilidade está na base do que faço"].
Winter [Vogler] é o itinerante, cuja casa é a própria estrada. O filme começa com ele ouvindo o depoimento de um antigo músico de cinema. O cinema é a paixão de Winter, mas ele nunca declara isso. Apenas percebe-se. Como quando ao flertar com a bela bilheteira de uma salinha tacanha da província, ele se dá conta de que a projeção do filme, um pornô, está fora de foco. Sobe então até a cabina de projeção, e a encontra num tremendo estado de desmazelo, enquanto o próprio projecionista masturba-se ao assistir o filme.  Só depois de reparar o projetor e deixar tudo em ordem, o foco recobrado, é que ele se volta para o affair e para a bilheteira. 
Winter, ao contrário de Lander, não cria limo jamais. Ele dorme com a bela bilheteira Pauline, num sofá, nos acanhados bastidores do cinema. Não se vê a cena de amor, um único beijo. Ao acordarem juntos, ele diz a ela que partirá logo em seguida. E uma lágrima escorre silenciosa pela face dela. Winter toca a lágrima na face de Pauline com seu indicador  e a trás de volta com o dedo para seus próprios cílios e face. Essa “alba” – ou poema escrito durante a separação dos amantes ao romper da aurora – atualizada é talvez a única cena mais sentimental nesse filme um tanto austero, de fino humor e belo tratamento das personagens, à base de distanciamento, decoro e observação do outro. E é uma bela cena. Mas ao fim de tudo, Winter parte, porque para quem está sempre em viagem, a vida não é senão uma sucessão de partidas. O que também equivale a dizer: uma sucessão de perdas diante das quais se deve agir com ponderada resignação.
Não se entrevê propriamente um “progresso moral” em nenhum dos dois amigos durante sua pequena odisséia. Ao temperamento bonachão e bem-humorado de Winter se contrapõe a tensão e desassossego de Lander.
E, ainda assim, é Lander quem – a partir de sua experiência com crianças (afinal, ele é um pediatra) – desencadeia uma série de momices que ambos ficam a fazer, num jogo de sombras, atrás da tela de projeção de uma sala repleta de colegiais, e cujos problemas com áudio impediam a projeção de um filme. A brincadeira rende e acaba apaziguando e divertindo esse grupo de crianças impacientes. É também Lander quem descobre algo que vai para além do mapa e instiga isso em Winter. Como quando ambos ficam divagando sobre nomes de lugares. Alguns bem estranhos, como os povoados de  Machtlos [Impotência] e Friedlos [Desassossego], separados por uma colina chamada Toter Mann [Homem Morto].
Algumas das sequências mais belas são externas tomadas da imensa van movendo-se pelas estradas, com o pequeno boneco-logo da Michelin dependurado em uma dos lados da dianteira. Apagado durante o dia. Aceso em lâmpada, durante a noite. 
Muitas perguntas ficam sem resposta.
Lander é um tipo excessivamente livresco e cerebral. O jornal segue sempre em sua mão. Ao por exemplo entrever um grupo de crianças soltando barquinhos de papel debaixo de uma ponte, ele desce pelos degraus até lá. Pede licença para se apropriar de um dos "barcos", que eram feitos de folha de jornal, o desmancha e começa a lê-lo. Mais intuitivo e sereno, Winter repassa uma sensação de estoica resignação diante da vida, além de um extremado senso de humor.
É a contaminação entre ambos, a comunicação e, sobretudo, a incomunicação entre os dois – o não dito, o mal-entendido, o subentendido de forma equívoca ou subjetiva – o que faz Im Lauf der Zeit, no decorrer do tempo, ser esse filme, atemporalmente fascinante e pleno de poesia. 


[Fortaleza, 15.10.09]



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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dentro da espessura: Roubaud


Marcel Duchamp, Fresh Window, 1920



Méditation du 8/5/85


Soir après soir

Le vecteur de lumière traverse

La même vitre

S’éloigne

Et la nuit

L’emporte

Où tu te ranges

Invisible

Dans l’épaisseur


Jacques Roubaud



Meditação de 8/5/85


Tarde após tarde

O vetor de luz atravessa

A mesma vidraça

Esmaece

E à noite

Transporta-a

Até onde estás

Invisível

Dentro da espessura



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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

letrinha de música


Yerkes Observatory, O Cometa de Halley, 1910



'como um cometa'


como um cometa

cometa alguns pecados

mande alguns recados

faça alguns exames

dê alguns vexames


como um cometa

sinta-se procurado

por alguns trocados

com a cabeça a prêmio

mesmo sem ser gênio


como um cometa

enfie todo o seu amor

pela secreta flor

que acresce sua sede

e, de pé, deite na rede


como um cometa

seja um suicida

atento e alerta

que aceita como meta

a sua própria vida


[refrões á escolha]:


mas só como um cometa

que é tão fugidio

como o sereno frio

e não quer ser planeta


mas só como um cometa

que passa chispando

de cem em cem anos

e não usa muleta


mas só como um cometa

que vaga pelo espaço

com fosse um caco

de amor sem laço



[Fortaleza, 09.10.09]





Nota – mando um abraço para o primeiro amigo(a) que musicar essa letrinha.



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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

como se portasse medalhas: Leminski

Gabriele Picco, Different kind of pain and happiness in the same bottle, 2003



Dor Elegante



um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante

carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa, um milhão de dólares

ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer vai ser minha última obra



Paulo Leminski




Nota – este poema foi musicado por Itamar Assumpção. [Leminski e Assumpção, esses dois alucinados, da mesma família de Torquato Neto. O que revela que essa alucinação desconhece fronteiras o primeiro era piauense; o segundo, paranaense; o terceiro paulistano até a raiz dos cabelos]. Notem ainda o quanto a ilustração, de Gabriele Picco, parece dialogar - provavelmente sem nenhum conhecimento prévio - com a do artista plástico cearense Leonilson [José Leonilson Bezerra Dias, 1957-1993]. 



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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Imersa, na água, como uma sereia branca


Poster original de L'Atalante, 1934



O Barco Que Passa: Paixão e Fé
- L'Atalante, de Jean Vigo, 1934, 89 min., p&b

Num ambiente da província, recém-casados deixam uma igreja acompanhados de um pequeno séquito e dirigem-se à margem do rio. São antecipados por dois marujos em azáfama, que correm pelos campos até uma chata ancorada à beira-rio. As imagens, montadas numa descontinuidade que antecipa a nouvelle-vague em trinta anos, são de uma aterradora beleza.
Por alguma razão Boris Kaufman disse que os anos passados em colaboração com Jean Vigo foram um “paraíso cinemático”. Kaufman, irmão mais novo de ninguém menos que Dziga Vertov (cujo verdadeiro nome era Denis Kaufman), seguiria posteriormente para Hollywood, onde seu apurado senso de cinematografia responderia pelo lirismo de filmes como On the Waterfront (Sindicato de Ladrões, Elia Kazan, 1954).
Mas sob a direção de Vigo, ele nos legou também as imagens de L'Atalante (1934), o filme mais intenso daquele período em que o cinema sonoro ainda lutava para se estabelecer por contraposição ao mudo – que estava perfeitamente estabelecido e era bem mais sofisticado e efectivo.
Por tudo L'Atalante é um dos primeiros grandes filmes sonoros. Pela maravilhosa direção de atores – com destaque para o assombroso talento de Michel Simon; pelo sobredito lirismo da fotografia de Kaufman; pela trilha sonora, calcada na canção “Le chaland qui passe” [“A chata que passa”] – mas cujo tema mais belo é um instrumental, comandado por um realejo, com vaga atmosfera nostálgica e circense; pela simplicidade e engenhosidade da trama, que explora as tensões entre recém-casados com uma ternura incomportável; pela integridade com que paisagens urbanas ou rurais são exploradas em esplendoroso senso de realidade. É canino o faro de Vigo para achar a locação exata – o que denuncia nele o documentarista que já realizara o esplêndido A Propos de Nice (1930).
Até mesmo alguns, hoje, notáveis erros de continuidade são perdoáveis. Como por exemplo, o fato de Dita Parlo reaparecer no barco com sua bolsa – que fora furtada quando de sua voluntariosa fuga para Paris, no auge da crise conjugal. A contrapartida desse auge, do lado masculino, é quando Jean Dasté mergulha no rio e tem uma visão de sua amada, trajada de noiva, imersa na água, como uma sereia branca.
O momento em que o irrequieto Pére Jules [Michel Simon] sai à cata da jovem esposa do capitão, já temendo pela integridade mental do mesmo, é também uma das sequências mais notáveis do filme. Ele deambula em hesitação: atravessa pontes, caminha por uma avenida em que um automóvel dá uma ré. E, de repente, pequeno milagre, soa esse tema instrumental de uma ternura abissal. Pére Jules então, senta-se desolado num banco de praça. Uma prostituta passa. Ele ameaça segui-la. Mas então, não sem certo ar irritado, volta à sua missão de encontrar a jovem esposa em fuga. Por alguma razão há tanta modernidade antecipada neste momento, que o tema (aplicado à imagem) soa algo à la Beatles.
E, no entanto, chega ser uma heresia destacar qualquer momento em L'Atalante. Como em todo grande filme, cada mínimo plano assoma transfigurado por uma intransponível beleza. E é a forte integridade deles o que, no fim, importa. Apesar de tantas e tantas sequências memoráveis. E até mesmo – e sobretudo – aquelas em que apenas a paisagem se ressalta, sem a presença humana, revelam-se de uma indizível plasticidade, como quando um sobrado assoma em quadro, à margem, tomado ao fim do crepúsculo, com suas luzes acesas e certo ar de avulso desolamento, visto do ponto-de-vista do barco que passa. Toda a paisagem conspira para contar da atmosfera de paixão e tensão que envolve o jovem casal. Até mesmo a paisagem corporal de Pére Jules, com suas tatuagens espalhadas por todo o corpo, semelha ser uma extensão dessa paisagem. Isso, na cena em que ele introduz Dita Parlo à sua cabine e em que ele mais parece alguém saído do frenesi dos desenhos animados do que propriamente humano. Uma força. Um vetor dinâmico. Um dáimon, no sentido grego do termo.
Essa trama simples, a da recém-esposa provinciana do capitão de um pequeno barco mercante fluvial que se entedia com a rotina nos claustrofóbicos espaços do ambiente e sonha com a efervescência da metrópole, é primorosamente narrada em L'Atalante. Porém narrada com uma carga de paixão, sinestesia e intensidade limítrofes. Parece que se pode sentir esse filme de diversas maneiras. Quer dizer, não só com a visão ou com o ouvido. Parece que se pode senti-lo como se sente o mundo exterior durante uma caminhada: o vento passando nos galhos, o canto de um pássaro, o latido de um cão, os passos de alguém que caminha sobre folhas secas, o alarido de crianças durante um recreio escolar, os desenhos dos fios nos postes, o choro de um bebê, alguém passando com um pacote de pães...
Sim, pode-se sentir que L'Atalante foi realizado a partir dessa paixão, dessa mesma e imensa carga de amor e fé. Tanto no cinema quanto na realidade deste mundo.

[Fortaleza, 07.10.09]
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Uma vida inteira fiéis


[s/i/c]



Os homens são um mistério


Os homens são uma vida inteira fiéis, arrebatados e apaixonados por... um clube de futebol. Nunca ouvi nenhum dizer, amo o Benfica mas tenho um caso com o Porto. E aquilo com o Sporting foi só sexo.


Eugénia de Vasconcellos



Nota - Eugénia de Vasconcellos, autora portuguesa, mantém o blogue Mátria Minha e também contribui para o blogue-revista É tudo gente morta. Aqui, poder-se-ia contrargumentar: "e que mistério ainda maior são as mulheres!". Sobre a questão da fidelidade, lembrar que Machado de Assis confessou, uma única vez, ter "pulado a cerca". Se uma figura da grandeza e integridade espirituais de Machado andou pulando cerca - ainda que assumidamente só uma vez - o que se dirá dos comuns mortais. Aliás, Machado morreu justo quando o futebol dava seus primeiros passes no Brasil. Seria interessante ler textos de Machado sobre futebol. Um futebol já mais consolidado. Como os há em Lima Barreto, João do Rio, Graciliano, Lins do Rego ou Nélson Rodrigues.





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Trabalho aplicado = ou >


Marcel Duchamps, Three Standard Stoppages, 1914




Equação sem moto contínuo



às vezes, escrever causa tanto enfado

de fato, lembra a lei áurea da mecânica

trabalho aplicado = ou > trabalho realizado



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sábado, 3 de outubro de 2009

É tudo gente morta


Felix González-Torres, Death by Gun, 1990



Experiência Lusófana
: É tudo gente morta


Participo desde o dia 1º de outubro, a convite de seu editor, Manuel S. Fonseca, do blogue lusófono, com certo centro tonal em terras lusitanas, É tudo gente morta. O blogue reúne autores de interesses e formações diversas radicados em Portugal, Brasil, Macau, Estados Unidos e Itália, reunidos sob a vaga ideia de homenagear algumas personalidades ou autores caros, que já se foram. Mas acaba se estendendo para bem mais que isto. Aos interessados, cliquem Aqui. Há um linque permanente também ao final da barra 'linques & afins'.



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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ela era a própria água


Tokujin Yoshioka, Tear Drop Lamp, 2007



Ele me favoreceu


a gota que era o começo de mar

caiu numa fonte e começou a nadar

até perceber: ela era a própria água:

por que nadar em si tanta mágoa?




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Antes e durante, logo depois


Jo Baer, Juvenile Sex Symbol 1-5, 1963




'Sexo é bom antes e durante'


sexo é bom antes e durante
logo depois é um pouco frustrante
durante, mesmo cheio de dedos
eles se entretêm em bons enredos
antes, muito, muito se imagina
em termos de escala e de rapina
depois, bem, eis a questão
às vezes, dá em procriação
em um novo sexo posto no mundo
cujo estilo nada terá do oriundo.



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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Lição de minimalismo, aula nº1: pobreza


Lambe-lambe em Aracaju na década de 70 [Silas de Paula]




Nota - foto pescada do Facebook de Silas de Paula [clique na foto para vê-la em amplo].



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Tudo no mundo é uma questão..


Charles and Ray Eames, Elephant Chair, 1945



gertrudes chegou


primeiro, pense quantos alfinetes cabem na cabeça de um elefante. segundo, freie seu desejo de esmagar algumas cabeças com patas de elefante e torturar algumas amantes com dedos de alfinetes. depois conte quantos elefantes cabem na sua cabeça delirante, enquanto você segue alfinetando gregos e troianos. hoje, jante carne de elefante e palite os dentes com alfinetes. tudo no mundo é uma questão de cabeças, alfinetes e elefantes.



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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Maus hálitos, remelas, muco, vastos silêncios


John Cassavetes, Love Streams, 1984





Impossíveis bonitos possíveis

-Os amores impossíveis são os mais bonitos!
-Não sei se concordo.
-Como, não? Logo você que vive traduzindo Dante.
-O que acho bonito em Dante passa longe da impossibilidade do amor, mas o que ele escreveu, com a maestria com que escreveu - não só sobre amor. Apenas. Além disso, eram tempos outros... Tenho certeza de que os amores mais bonitos são possíveis. E, em especial, possíveis onde há rotinas, maus hálitos, remelas, muco escorrendo do nariz, vastos silêncios, o esquecer de comprar o gás, crianças chorando fora de hora, contas a pagar. E, ainda mais especialmente, aqueles sobre os quais nunca ninguém escreveu. Nem escreverá. Mas existem e existem, chama viva de encontro humano. Ao largo do clichê do jornal, longe de câmeras e sets de luzes, à distância de divãs em consultórios, não cantado por prosas, versos,  à parte de posts em redes de comunicação. Infinitamente mais ricos, diversos que nos roteiros dos filmes. Muito mais veementes que qualquer forma de exposição que soa tão mais coletiva e rala quanto a individualidade que cada um busca avidamente afirmar publicando-se despudoradamente e se tornando um só a mais dentro dessa massa informe que é comunicar-se à distância, em público.

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Quase como sem que as sombras daqui antes lá estivessem


Otto Müller, Zwei Mädchen in den Dünen [Duas Garotas nas Dunas], 1924




Poema de Páscoa


Apesar da cópia das chuvas
o Siupé ainda rompe ao mar
por fios distintos --- sortidos
bancos de areia em seu leito
Poucos minutos antes, alaga
o curso em cisterna de pingos
recentes, e segue roendo duna
mais alta. Água morena e
menos salobre que a suspeita
ocorre macia, riscando à giz
de pequenas espumas muro
e areia. Pios de aves vários
coaxar de sapos em altercação
canina, vagos chocalhos e
cabras, nas encostas cerradas
da contramargem. Leste, à luz
oposta, distância, vermelhos de
telhado, arabesco de casuarinas
vão sinuoso mas plano, indistinção
vegetal de guindastes, no porto, lá
no enfim de tudo, coqueiros e alga
ao longo. Quase como sem que
as sombras daqui antes lá estivessem
e a ave dissesse as palavras
Taíba, Pecém, Siupé, e logo
por um acontecimento branco
onde nada tem a ver com palavras
o olho ressumasse o mar







Nota - embora a etapa do ano nada tenha de pascal, todo tempo é tempo de libertação. Após um fim-de-semana na Taíba, transcrevo, então, um poema escrito lá, durante a Páscoa de 2005. Originalmente o texto foi publicado em uma revista portuguesa chamada Cyberkiosk, que não mais existe. E posteriormente reproduzido no blogue de poesia Modus Vivendi, mantido pela portuguesa Ana Roque.


* * *

sábado, 19 de setembro de 2009

Ninguém sem água: Auden


Gianfranco Frattini, 1983



First Things First


Woken, I lay in the arms of my own warmth and listened
To a storm enjoying its storminess in the winter dark
Till my ear, as it can when half-asleep or half-sober,
Set to work to unscramble that interjectory uproar,
Construing its airy vowels and watery consonants
Into a love-speech indicative of a Proper Name.

Scarcely the tongue I should have chosen, yet, as well
As harshness and clumsiness would allow, it spoke in your praise
Kenning you a godchild of the Moon and the West Wind
With power to tame both real and imaginary monsters,
Likening your poise of being to an upland county,
Here green on purpose, there pure blue for luck.

Loud though it was, alone as it certainly found me,
It reconstructed a day of peculiar silence
When a sneeze could be heard a mile off, and had me walking
On a headland of lava beside you, the occasion as ageless
As the stare of any rose, your presence exactly
So once, so valuable, so very now.

This, moreover, at an hour when only too often
A smirking devil annoys me in beautiful English,
Predicting a world where every sacred location
Is a sand-buried site all cultured Texans do,
Misinformed and thoroughly fleeced by their guides,
And gentle hearts are extinct like Hegelian Bishops.

Grateful, I slept till a morning that would not say
How much it believed of what I said the storm had said
But quietly drew my attention to what had been done
– So many cubic metres the more in my cistern
Against a leonine summer — putting first things first:
Thousands have lived without love, not one without water.

W. H. Auden



Primeiro as Prioridades


Acordado, nos braços de meu calor mesmo ouvia
a tempestade apreciando sua tempestuosidade no breu do inverno,
Até meu ouvido, semi-adormecido ou semi-sóbrio,
Pôr-se a rejuntar esse tumulto exclamativo
Erguendo suas arejadas vogais e úmidas consoantes
Em uma fala de amor que apontava para um Nome Próprio.

Dificilmente a língua que teria escolhido, ainda assim, tanto
Quanto a aspereza e a inépcia permitiam, falava em teu louvor
Reconhecendo-te afilhada da Lua e do Vento Oeste,
Com o poder de domar tanto monstros reais quanto imaginários,
Apreciando teu aprumo de estar num município serrano,
Aqui verde de propósito, ali azul por puro acaso.

Ruidosa como era, sozinho como, de certo, me encontrou
Reconstruiu um dia de peculiar silêncio
Em que um espirro se escutaria a uma milha, e então eu caminho
Numa península de lava a teu lado, a ocasião tão atemporal
Quanto a contemplação de qualquer rosa, tua presença exata
Tão única, tão valiosa, tão aqui e agora.

Isso, ademais, numa hora em que um tanto em recorrência
Um diabo afetado me perturbava em belo inglês,
Predizendo um mundo em que cada sítio sagrado
É  lugar sepulto sob areia como fazem os texanos cultos,
Desinformados e bastante extorquidos por seus guias,
E brandos corações são extintos como bispos hegelianos.

Agradecido, teria dormido até uma manhã que não diria
No quanto cria do que eu disse que a tempestade dissera
Mas aos poucos chamaria minha atenção para o que acontecera
—Uns tantos metros cúbicos a mais em minha cisterna
contra um verão leonino—propondo primeiro as prioridades:
Milhares viveram sem amor, ninguém sem água.







Nota – reza a anedota que o magnífico último verso deste poema foi ouvido, por Auden, dito por uma prostituta, num presídio de Nova York, quando em fila os prisioneiros eram levados para o banho. Na segunda estrofe, verso 3, o único trecho em que se dá a revelar, na tradução, o sexo da pessoa amada, transponho para o feminino por pura opção pessoal – quando se sabe da assumida e aberta homossexualidade de Auden. Talvez porque poemas de amor não tenham gênero, no fim de tudo. [Esta postagem foi feita em uma lan house, imaginem, na Taíba!]


* * *

Eu não me rendo a isso: Roubaud


Joseph Beuys, Bathroom of Circe, 1958




Dans l'espace minime

Je m'éloigne peu souvent de cet endroit comme si l'enfermement dans un espace minime te restituait de la réalité, puisque tu y vivais avec moi.

A sa descente, et comme à sa montée, le soleil pénètre, s'il y a du soleil, et suit son chemin reconnaissable, sur les murs, les planchers, les chaises, courbant, couchant les portes.

Je suis là beaucoup, à le suivre des yeux, à interposer ma main, sans rien faire, penser, complément d'immobilité.

Tu n'habites pas ces pièces, je ne pourrais dire cela, je ne suis pas hanté de toi, je n'ai plus, maintenant, que rarement l'hallucination nocturne de ta voix, je ne te surprends pas en ouvrant la porte, ni les yeux.

Cela qui m'occupe, entièrement, et me détourne du dehors, de m'éloigner, de quitter les chambres, les mouvements de soleil, c'est l'espace, l'espace seul, tel que tu l'avais empli d'images, de tes étoffes, de ton odeur, de ta sombre chaleur, de ton corps.

Disparaissant, tu n'as pas été mise ailleurs, tu t'es diluée dans ce minime espace, tu t'es enfouie dans ce minime espace, il t'a absorbée.

La nuit sans doute, si je m'éveille dans la nuit, avec l'angoisse de poitrine, la fenêtre énorme, à me toucher les yeux, bruyante, la nuit sans doute, je pourrais te donner forme, parler, te refaire, un dos, un ventre, une nudité humide noire, je ne m'y abandonne pas.

Je m'abandonne à l'allongement des fenêtres, de l'église, au golfe des toits à gauche de l'église, où se lancent les nuages, soir après soir.

Je laisse le soleil s'approcher, me recouvrir, s'étreindre, laissant ta chaleur un moment, pensant, sans croire, ta chair remise au monde, ravivée.



Jacques Roubaud




No espaço mínimo

Quase não me distancio deste lugar como se o encerramento num espaço mínimo te restituísse à realidade, já que nele vivias comigo.

No declive, como no aclive, o sol penetra, se há sol, e segue seu usual caminho, sobre as paredes, o piso, as cadeiras, vergando, deitando as portas.

Lá permaneço bastante, seguindo-o com os olhos, interpondo a mão, sem nada fazer, pensar, complemento de imobilidade.

Não habitas estes compartimentos, não se pode assim dizer, não sou assombrado por ti, agora não possuo mais, a não ser raramente, a alucinação noturna de tua voz, já não te pego abrindo a porta ou os olhos.

Isso me ocupa, totalmente, e me desvia do ar livre, de me distanciar, de sair dos quartos, os movimentos do sol, é o espaço, o só espaço, no modo como o havias ocupado de imagens, de teus panos, de teu cheiro, de tua sombra quente, do teu corpo.

Ao sumir, não foste posta alhures, mas diluída neste mínimo espaço, afundada neste mínimo espaço, ele te sugou.

À noite sem dúvida, se acordo à noite, com angústia no peito, a janela enorme, a me tocar os olhos, ruidosa, à noite sem dúvida, posso te dar uma forma, falar, te recompor, dorso, ventre, uma nudez úmida negra, não me rendo a isso.

Rendo-me ao alongamento das janelas, da igreja, ao golfo de telhados à esquerda da igreja, onde se lançam as nuvens, tarde após tarde.

Deixo vir o sol, me encobrir, apagar-se, largar um pouco de teu calor, pensando, sem crer, tua carne reposta no mundo, reanimada.






Nota – “No Espaço Mínimo” é um dos poemas que integram o livro Quelque chose noir [Algo de Negro (ou Qualquer coisa negra)], escrito por Jacques Roubaud em luto pela perda da esposa. A série de poemas do livro compõe uma das mais pungentes elegias contemporâneas.




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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cuja presença revela o agora: Dante


John Flaxman, Beatrice and Dante, 1807




III.

'A ciascun'alma presa e gentil core'



A ciascun'alma presa e gentil core

nel cui cospetto ven lo dir presente,

in ciò che mi rescrivan suo parvente,

salute in lor segnor, cioè Amore.

Già eran quasi che atterzate l'ore

del tempo che onne stella n'è lucente,

quando m'apparve Amor subitamente,

cui essenza membrar mi dà orrore.

Allegro mi sembrava Amor tenendo

meo core in mano, e ne le braccia avea

madonna involta in un drappo dormendo.

Poi la svegliava, e d'esto core ardendo

lei paventosa umilmente pascea:

appresso gir lo ne vedea piangendo.



Dante Alighieri




III.

'Em toda alma cativa de gentil favor'



Em toda alma cativa de gentil favor,

cuja presença revela, de fato, o agora

para que minha escritura soe em demora,

saúdo seu senhor supremo, o Amor.

Eram já quase três horas, e o fulgor

esplendia em cada estrela céu afora

quando o Amor surgiu fora de hora

e sua chegada me causou horror.

Mas parecia alegre, o Amor, retendo

meu coração, e embalando prosseguia

em seus braços, a que amar entendo.

Quando a despertou, sem remendo

Ela, em recato, pôs-se à mesa e comia

Enquanto Ele aos prantos foi desaparecendo.





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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Que não seja a loquaz


Hélio Oiticica, Metaesquema Nº237, 1958



Tese & Elegia


há uma diferença
porque vivemos
em tempos de descrença
e de que tudo são extremos

suplementos, diferenças
postiças ou arregladas
que cada um estrategia
com sua personalidade
no ritmo de uma doença
que se chama identidade

o conceito que a tudo panacearia

no entanto, tudo assoma mais sofisticado
tanto mais se complica
e viver, que já é complicado
de fato, se torna uma trica

em especial, na academia
quando se é incapaz
de se sair dela para outra via
que não seja a loquaz

fala sobre o mundo em pós-graduação
como se -ah, insídia falaz -
só isso fosse capaz
de dar conta de uma solução

e, então, a solução assome sempre relativa
porque o absoluto, a morte, o fim, a verdade
não mais entram na deriva
dessa descartável relatividade




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