terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dentro da espessura: Roubaud


Marcel Duchamp, Fresh Window, 1920



Méditation du 8/5/85


Soir après soir

Le vecteur de lumière traverse

La même vitre

S’éloigne

Et la nuit

L’emporte

Où tu te ranges

Invisible

Dans l’épaisseur


Jacques Roubaud



Meditação de 8/5/85


Tarde após tarde

O vetor de luz atravessa

A mesma vidraça

Esmaece

E à noite

Transporta-a

Até onde estás

Invisível

Dentro da espessura



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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

letrinha de música


Yerkes Observatory, O Cometa de Halley, 1910



'como um cometa'


como um cometa

cometa alguns pecados

mande alguns recados

faça alguns exames

dê alguns vexames


como um cometa

sinta-se procurado

por alguns trocados

com a cabeça a prêmio

mesmo sem ser gênio


como um cometa

enfie todo o seu amor

pela secreta flor

que acresce sua sede

e, de pé, deite na rede


como um cometa

seja um suicida

atento e alerta

que aceita como meta

a sua própria vida


[refrões á escolha]:


mas só como um cometa

que é tão fugidio

como o sereno frio

e não quer ser planeta


mas só como um cometa

que passa chispando

de cem em cem anos

e não usa muleta


mas só como um cometa

que vaga pelo espaço

com fosse um caco

de amor sem laço



[Fortaleza, 09.10.09]





Nota – mando um abraço para o primeiro amigo(a) que musicar essa letrinha.



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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

como se portasse medalhas: Leminski

Gabriele Picco, Different kind of pain and happiness in the same bottle, 2003



Dor Elegante



um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegando atrasado

andasse mais adiante

carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa, um milhão de dólares

ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer vai ser minha última obra



Paulo Leminski




Nota – este poema foi musicado por Itamar Assumpção. [Leminski e Assumpção, esses dois alucinados, da mesma família de Torquato Neto. O que revela que essa alucinação desconhece fronteiras o primeiro era piauense; o segundo, paranaense; o terceiro paulistano até a raiz dos cabelos]. Notem ainda o quanto a ilustração, de Gabriele Picco, parece dialogar - provavelmente sem nenhum conhecimento prévio - com a do artista plástico cearense Leonilson [José Leonilson Bezerra Dias, 1957-1993]. 



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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Imersa, na água, como uma sereia branca


Poster original de L'Atalante, 1934



O Barco Que Passa: Paixão e Fé
- L'Atalante, de Jean Vigo, 1934, 89 min., p&b

Num ambiente da província, recém-casados deixam uma igreja acompanhados de um pequeno séquito e dirigem-se à margem do rio. São antecipados por dois marujos em azáfama, que correm pelos campos até uma chata ancorada à beira-rio. As imagens, montadas numa descontinuidade que antecipa a nouvelle-vague em trinta anos, são de uma aterradora beleza.
Por alguma razão Boris Kaufman disse que os anos passados em colaboração com Jean Vigo foram um “paraíso cinemático”. Kaufman, irmão mais novo de ninguém menos que Dziga Vertov (cujo verdadeiro nome era Denis Kaufman), seguiria posteriormente para Hollywood, onde seu apurado senso de cinematografia responderia pelo lirismo de filmes como On the Waterfront (Sindicato de Ladrões, Elia Kazan, 1954).
Mas sob a direção de Vigo, ele nos legou também as imagens de L'Atalante (1934), o filme mais intenso daquele período em que o cinema sonoro ainda lutava para se estabelecer por contraposição ao mudo – que estava perfeitamente estabelecido e era bem mais sofisticado e efectivo.
Por tudo L'Atalante é um dos primeiros grandes filmes sonoros. Pela maravilhosa direção de atores – com destaque para o assombroso talento de Michel Simon; pelo sobredito lirismo da fotografia de Kaufman; pela trilha sonora, calcada na canção “Le chaland qui passe” [“A chata que passa”] – mas cujo tema mais belo é um instrumental, comandado por um realejo, com vaga atmosfera nostálgica e circense; pela simplicidade e engenhosidade da trama, que explora as tensões entre recém-casados com uma ternura incomportável; pela integridade com que paisagens urbanas ou rurais são exploradas em esplendoroso senso de realidade. É canino o faro de Vigo para achar a locação exata – o que denuncia nele o documentarista que já realizara o esplêndido A Propos de Nice (1930).
Até mesmo alguns, hoje, notáveis erros de continuidade são perdoáveis. Como por exemplo, o fato de Dita Parlo reaparecer no barco com sua bolsa – que fora furtada quando de sua voluntariosa fuga para Paris, no auge da crise conjugal. A contrapartida desse auge, do lado masculino, é quando Jean Dasté mergulha no rio e tem uma visão de sua amada, trajada de noiva, imersa na água, como uma sereia branca.
O momento em que o irrequieto Pére Jules [Michel Simon] sai à cata da jovem esposa do capitão, já temendo pela integridade mental do mesmo, é também uma das sequências mais notáveis do filme. Ele deambula em hesitação: atravessa pontes, caminha por uma avenida em que um automóvel dá uma ré. E, de repente, pequeno milagre, soa esse tema instrumental de uma ternura abissal. Pére Jules então, senta-se desolado num banco de praça. Uma prostituta passa. Ele ameaça segui-la. Mas então, não sem certo ar irritado, volta à sua missão de encontrar a jovem esposa em fuga. Por alguma razão há tanta modernidade antecipada neste momento, que o tema (aplicado à imagem) soa algo à la Beatles.
E, no entanto, chega ser uma heresia destacar qualquer momento em L'Atalante. Como em todo grande filme, cada mínimo plano assoma transfigurado por uma intransponível beleza. E é a forte integridade deles o que, no fim, importa. Apesar de tantas e tantas sequências memoráveis. E até mesmo – e sobretudo – aquelas em que apenas a paisagem se ressalta, sem a presença humana, revelam-se de uma indizível plasticidade, como quando um sobrado assoma em quadro, à margem, tomado ao fim do crepúsculo, com suas luzes acesas e certo ar de avulso desolamento, visto do ponto-de-vista do barco que passa. Toda a paisagem conspira para contar da atmosfera de paixão e tensão que envolve o jovem casal. Até mesmo a paisagem corporal de Pére Jules, com suas tatuagens espalhadas por todo o corpo, semelha ser uma extensão dessa paisagem. Isso, na cena em que ele introduz Dita Parlo à sua cabine e em que ele mais parece alguém saído do frenesi dos desenhos animados do que propriamente humano. Uma força. Um vetor dinâmico. Um dáimon, no sentido grego do termo.
Essa trama simples, a da recém-esposa provinciana do capitão de um pequeno barco mercante fluvial que se entedia com a rotina nos claustrofóbicos espaços do ambiente e sonha com a efervescência da metrópole, é primorosamente narrada em L'Atalante. Porém narrada com uma carga de paixão, sinestesia e intensidade limítrofes. Parece que se pode sentir esse filme de diversas maneiras. Quer dizer, não só com a visão ou com o ouvido. Parece que se pode senti-lo como se sente o mundo exterior durante uma caminhada: o vento passando nos galhos, o canto de um pássaro, o latido de um cão, os passos de alguém que caminha sobre folhas secas, o alarido de crianças durante um recreio escolar, os desenhos dos fios nos postes, o choro de um bebê, alguém passando com um pacote de pães...
Sim, pode-se sentir que L'Atalante foi realizado a partir dessa paixão, dessa mesma e imensa carga de amor e fé. Tanto no cinema quanto na realidade deste mundo.

[Fortaleza, 07.10.09]
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Uma vida inteira fiéis


[s/i/c]



Os homens são um mistério


Os homens são uma vida inteira fiéis, arrebatados e apaixonados por... um clube de futebol. Nunca ouvi nenhum dizer, amo o Benfica mas tenho um caso com o Porto. E aquilo com o Sporting foi só sexo.


Eugénia de Vasconcellos



Nota - Eugénia de Vasconcellos, autora portuguesa, mantém o blogue Mátria Minha e também contribui para o blogue-revista É tudo gente morta. Aqui, poder-se-ia contrargumentar: "e que mistério ainda maior são as mulheres!". Sobre a questão da fidelidade, lembrar que Machado de Assis confessou, uma única vez, ter "pulado a cerca". Se uma figura da grandeza e integridade espirituais de Machado andou pulando cerca - ainda que assumidamente só uma vez - o que se dirá dos comuns mortais. Aliás, Machado morreu justo quando o futebol dava seus primeiros passes no Brasil. Seria interessante ler textos de Machado sobre futebol. Um futebol já mais consolidado. Como os há em Lima Barreto, João do Rio, Graciliano, Lins do Rego ou Nélson Rodrigues.





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Trabalho aplicado = ou >


Marcel Duchamps, Three Standard Stoppages, 1914




Equação sem moto contínuo



às vezes, escrever causa tanto enfado

de fato, lembra a lei áurea da mecânica

trabalho aplicado = ou > trabalho realizado



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sábado, 3 de outubro de 2009

É tudo gente morta


Felix González-Torres, Death by Gun, 1990



Experiência Lusófana
: É tudo gente morta


Participo desde o dia 1º de outubro, a convite de seu editor, Manuel S. Fonseca, do blogue lusófono, com certo centro tonal em terras lusitanas, É tudo gente morta. O blogue reúne autores de interesses e formações diversas radicados em Portugal, Brasil, Macau, Estados Unidos e Itália, reunidos sob a vaga ideia de homenagear algumas personalidades ou autores caros, que já se foram. Mas acaba se estendendo para bem mais que isto. Aos interessados, cliquem Aqui. Há um linque permanente também ao final da barra 'linques & afins'.



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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ela era a própria água


Tokujin Yoshioka, Tear Drop Lamp, 2007



Ele me favoreceu


a gota que era o começo de mar

caiu numa fonte e começou a nadar

até perceber: ela era a própria água:

por que nadar em si tanta mágoa?




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Antes e durante, logo depois


Jo Baer, Juvenile Sex Symbol 1-5, 1963




'Sexo é bom antes e durante'


sexo é bom antes e durante
logo depois é um pouco frustrante
durante, mesmo cheio de dedos
eles se entretêm em bons enredos
antes, muito, muito se imagina
em termos de escala e de rapina
depois, bem, eis a questão
às vezes, dá em procriação
em um novo sexo posto no mundo
cujo estilo nada terá do oriundo.



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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Lição de minimalismo, aula nº1: pobreza


Lambe-lambe em Aracaju na década de 70 [Silas de Paula]




Nota - foto pescada do Facebook de Silas de Paula [clique na foto para vê-la em amplo].



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Tudo no mundo é uma questão..


Charles and Ray Eames, Elephant Chair, 1945



gertrudes chegou


primeiro, pense quantos alfinetes cabem na cabeça de um elefante. segundo, freie seu desejo de esmagar algumas cabeças com patas de elefante e torturar algumas amantes com dedos de alfinetes. depois conte quantos elefantes cabem na sua cabeça delirante, enquanto você segue alfinetando gregos e troianos. hoje, jante carne de elefante e palite os dentes com alfinetes. tudo no mundo é uma questão de cabeças, alfinetes e elefantes.



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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Maus hálitos, remelas, muco, vastos silêncios


John Cassavetes, Love Streams, 1984





Impossíveis bonitos possíveis

-Os amores impossíveis são os mais bonitos!
-Não sei se concordo.
-Como, não? Logo você que vive traduzindo Dante.
-O que acho bonito em Dante passa longe da impossibilidade do amor, mas o que ele escreveu, com a maestria com que escreveu - não só sobre amor. Apenas. Além disso, eram tempos outros... Tenho certeza de que os amores mais bonitos são possíveis. E, em especial, possíveis onde há rotinas, maus hálitos, remelas, muco escorrendo do nariz, vastos silêncios, o esquecer de comprar o gás, crianças chorando fora de hora, contas a pagar. E, ainda mais especialmente, aqueles sobre os quais nunca ninguém escreveu. Nem escreverá. Mas existem e existem, chama viva de encontro humano. Ao largo do clichê do jornal, longe de câmeras e sets de luzes, à distância de divãs em consultórios, não cantado por prosas, versos,  à parte de posts em redes de comunicação. Infinitamente mais ricos, diversos que nos roteiros dos filmes. Muito mais veementes que qualquer forma de exposição que soa tão mais coletiva e rala quanto a individualidade que cada um busca avidamente afirmar publicando-se despudoradamente e se tornando um só a mais dentro dessa massa informe que é comunicar-se à distância, em público.

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Quase como sem que as sombras daqui antes lá estivessem


Otto Müller, Zwei Mädchen in den Dünen [Duas Garotas nas Dunas], 1924




Poema de Páscoa


Apesar da cópia das chuvas
o Siupé ainda rompe ao mar
por fios distintos --- sortidos
bancos de areia em seu leito
Poucos minutos antes, alaga
o curso em cisterna de pingos
recentes, e segue roendo duna
mais alta. Água morena e
menos salobre que a suspeita
ocorre macia, riscando à giz
de pequenas espumas muro
e areia. Pios de aves vários
coaxar de sapos em altercação
canina, vagos chocalhos e
cabras, nas encostas cerradas
da contramargem. Leste, à luz
oposta, distância, vermelhos de
telhado, arabesco de casuarinas
vão sinuoso mas plano, indistinção
vegetal de guindastes, no porto, lá
no enfim de tudo, coqueiros e alga
ao longo. Quase como sem que
as sombras daqui antes lá estivessem
e a ave dissesse as palavras
Taíba, Pecém, Siupé, e logo
por um acontecimento branco
onde nada tem a ver com palavras
o olho ressumasse o mar







Nota - embora a etapa do ano nada tenha de pascal, todo tempo é tempo de libertação. Após um fim-de-semana na Taíba, transcrevo, então, um poema escrito lá, durante a Páscoa de 2005. Originalmente o texto foi publicado em uma revista portuguesa chamada Cyberkiosk, que não mais existe. E posteriormente reproduzido no blogue de poesia Modus Vivendi, mantido pela portuguesa Ana Roque.


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sábado, 19 de setembro de 2009

Ninguém sem água: Auden


Gianfranco Frattini, 1983



First Things First


Woken, I lay in the arms of my own warmth and listened
To a storm enjoying its storminess in the winter dark
Till my ear, as it can when half-asleep or half-sober,
Set to work to unscramble that interjectory uproar,
Construing its airy vowels and watery consonants
Into a love-speech indicative of a Proper Name.

Scarcely the tongue I should have chosen, yet, as well
As harshness and clumsiness would allow, it spoke in your praise
Kenning you a godchild of the Moon and the West Wind
With power to tame both real and imaginary monsters,
Likening your poise of being to an upland county,
Here green on purpose, there pure blue for luck.

Loud though it was, alone as it certainly found me,
It reconstructed a day of peculiar silence
When a sneeze could be heard a mile off, and had me walking
On a headland of lava beside you, the occasion as ageless
As the stare of any rose, your presence exactly
So once, so valuable, so very now.

This, moreover, at an hour when only too often
A smirking devil annoys me in beautiful English,
Predicting a world where every sacred location
Is a sand-buried site all cultured Texans do,
Misinformed and thoroughly fleeced by their guides,
And gentle hearts are extinct like Hegelian Bishops.

Grateful, I slept till a morning that would not say
How much it believed of what I said the storm had said
But quietly drew my attention to what had been done
– So many cubic metres the more in my cistern
Against a leonine summer — putting first things first:
Thousands have lived without love, not one without water.

W. H. Auden



Primeiro as Prioridades


Acordado, nos braços de meu calor mesmo ouvia
a tempestade apreciando sua tempestuosidade no breu do inverno,
Até meu ouvido, semi-adormecido ou semi-sóbrio,
Pôr-se a rejuntar esse tumulto exclamativo
Erguendo suas arejadas vogais e úmidas consoantes
Em uma fala de amor que apontava para um Nome Próprio.

Dificilmente a língua que teria escolhido, ainda assim, tanto
Quanto a aspereza e a inépcia permitiam, falava em teu louvor
Reconhecendo-te afilhada da Lua e do Vento Oeste,
Com o poder de domar tanto monstros reais quanto imaginários,
Apreciando teu aprumo de estar num município serrano,
Aqui verde de propósito, ali azul por puro acaso.

Ruidosa como era, sozinho como, de certo, me encontrou
Reconstruiu um dia de peculiar silêncio
Em que um espirro se escutaria a uma milha, e então eu caminho
Numa península de lava a teu lado, a ocasião tão atemporal
Quanto a contemplação de qualquer rosa, tua presença exata
Tão única, tão valiosa, tão aqui e agora.

Isso, ademais, numa hora em que um tanto em recorrência
Um diabo afetado me perturbava em belo inglês,
Predizendo um mundo em que cada sítio sagrado
É  lugar sepulto sob areia como fazem os texanos cultos,
Desinformados e bastante extorquidos por seus guias,
E brandos corações são extintos como bispos hegelianos.

Agradecido, teria dormido até uma manhã que não diria
No quanto cria do que eu disse que a tempestade dissera
Mas aos poucos chamaria minha atenção para o que acontecera
—Uns tantos metros cúbicos a mais em minha cisterna
contra um verão leonino—propondo primeiro as prioridades:
Milhares viveram sem amor, ninguém sem água.







Nota – reza a anedota que o magnífico último verso deste poema foi ouvido, por Auden, dito por uma prostituta, num presídio de Nova York, quando em fila os prisioneiros eram levados para o banho. Na segunda estrofe, verso 3, o único trecho em que se dá a revelar, na tradução, o sexo da pessoa amada, transponho para o feminino por pura opção pessoal – quando se sabe da assumida e aberta homossexualidade de Auden. Talvez porque poemas de amor não tenham gênero, no fim de tudo. [Esta postagem foi feita em uma lan house, imaginem, na Taíba!]


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Eu não me rendo a isso: Roubaud


Joseph Beuys, Bathroom of Circe, 1958




Dans l'espace minime

Je m'éloigne peu souvent de cet endroit comme si l'enfermement dans un espace minime te restituait de la réalité, puisque tu y vivais avec moi.

A sa descente, et comme à sa montée, le soleil pénètre, s'il y a du soleil, et suit son chemin reconnaissable, sur les murs, les planchers, les chaises, courbant, couchant les portes.

Je suis là beaucoup, à le suivre des yeux, à interposer ma main, sans rien faire, penser, complément d'immobilité.

Tu n'habites pas ces pièces, je ne pourrais dire cela, je ne suis pas hanté de toi, je n'ai plus, maintenant, que rarement l'hallucination nocturne de ta voix, je ne te surprends pas en ouvrant la porte, ni les yeux.

Cela qui m'occupe, entièrement, et me détourne du dehors, de m'éloigner, de quitter les chambres, les mouvements de soleil, c'est l'espace, l'espace seul, tel que tu l'avais empli d'images, de tes étoffes, de ton odeur, de ta sombre chaleur, de ton corps.

Disparaissant, tu n'as pas été mise ailleurs, tu t'es diluée dans ce minime espace, tu t'es enfouie dans ce minime espace, il t'a absorbée.

La nuit sans doute, si je m'éveille dans la nuit, avec l'angoisse de poitrine, la fenêtre énorme, à me toucher les yeux, bruyante, la nuit sans doute, je pourrais te donner forme, parler, te refaire, un dos, un ventre, une nudité humide noire, je ne m'y abandonne pas.

Je m'abandonne à l'allongement des fenêtres, de l'église, au golfe des toits à gauche de l'église, où se lancent les nuages, soir après soir.

Je laisse le soleil s'approcher, me recouvrir, s'étreindre, laissant ta chaleur un moment, pensant, sans croire, ta chair remise au monde, ravivée.



Jacques Roubaud




No espaço mínimo

Quase não me distancio deste lugar como se o encerramento num espaço mínimo te restituísse à realidade, já que nele vivias comigo.

No declive, como no aclive, o sol penetra, se há sol, e segue seu usual caminho, sobre as paredes, o piso, as cadeiras, vergando, deitando as portas.

Lá permaneço bastante, seguindo-o com os olhos, interpondo a mão, sem nada fazer, pensar, complemento de imobilidade.

Não habitas estes compartimentos, não se pode assim dizer, não sou assombrado por ti, agora não possuo mais, a não ser raramente, a alucinação noturna de tua voz, já não te pego abrindo a porta ou os olhos.

Isso me ocupa, totalmente, e me desvia do ar livre, de me distanciar, de sair dos quartos, os movimentos do sol, é o espaço, o só espaço, no modo como o havias ocupado de imagens, de teus panos, de teu cheiro, de tua sombra quente, do teu corpo.

Ao sumir, não foste posta alhures, mas diluída neste mínimo espaço, afundada neste mínimo espaço, ele te sugou.

À noite sem dúvida, se acordo à noite, com angústia no peito, a janela enorme, a me tocar os olhos, ruidosa, à noite sem dúvida, posso te dar uma forma, falar, te recompor, dorso, ventre, uma nudez úmida negra, não me rendo a isso.

Rendo-me ao alongamento das janelas, da igreja, ao golfo de telhados à esquerda da igreja, onde se lançam as nuvens, tarde após tarde.

Deixo vir o sol, me encobrir, apagar-se, largar um pouco de teu calor, pensando, sem crer, tua carne reposta no mundo, reanimada.






Nota – “No Espaço Mínimo” é um dos poemas que integram o livro Quelque chose noir [Algo de Negro (ou Qualquer coisa negra)], escrito por Jacques Roubaud em luto pela perda da esposa. A série de poemas do livro compõe uma das mais pungentes elegias contemporâneas.




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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cuja presença revela o agora: Dante


John Flaxman, Beatrice and Dante, 1807




III.

'A ciascun'alma presa e gentil core'



A ciascun'alma presa e gentil core

nel cui cospetto ven lo dir presente,

in ciò che mi rescrivan suo parvente,

salute in lor segnor, cioè Amore.

Già eran quasi che atterzate l'ore

del tempo che onne stella n'è lucente,

quando m'apparve Amor subitamente,

cui essenza membrar mi dà orrore.

Allegro mi sembrava Amor tenendo

meo core in mano, e ne le braccia avea

madonna involta in un drappo dormendo.

Poi la svegliava, e d'esto core ardendo

lei paventosa umilmente pascea:

appresso gir lo ne vedea piangendo.



Dante Alighieri




III.

'Em toda alma cativa de gentil favor'



Em toda alma cativa de gentil favor,

cuja presença revela, de fato, o agora

para que minha escritura soe em demora,

saúdo seu senhor supremo, o Amor.

Eram já quase três horas, e o fulgor

esplendia em cada estrela céu afora

quando o Amor surgiu fora de hora

e sua chegada me causou horror.

Mas parecia alegre, o Amor, retendo

meu coração, e embalando prosseguia

em seus braços, a que amar entendo.

Quando a despertou, sem remendo

Ela, em recato, pôs-se à mesa e comia

Enquanto Ele aos prantos foi desaparecendo.





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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Que não seja a loquaz


Hélio Oiticica, Metaesquema Nº237, 1958



Tese & Elegia


há uma diferença
porque vivemos
em tempos de descrença
e de que tudo são extremos

suplementos, diferenças
postiças ou arregladas
que cada um estrategia
com sua personalidade
no ritmo de uma doença
que se chama identidade

o conceito que a tudo panacearia

no entanto, tudo assoma mais sofisticado
tanto mais se complica
e viver, que já é complicado
de fato, se torna uma trica

em especial, na academia
quando se é incapaz
de se sair dela para outra via
que não seja a loquaz

fala sobre o mundo em pós-graduação
como se -ah, insídia falaz -
só isso fosse capaz
de dar conta de uma solução

e, então, a solução assome sempre relativa
porque o absoluto, a morte, o fim, a verdade
não mais entram na deriva
dessa descartável relatividade




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terça-feira, 15 de setembro de 2009

De um argumento, a perspicácia


Jamie Isenstein, Clap Magic [Aplauso Mágico], 2007



Bem Pobrezinha


Até um tempo atrás, quando ela menorzinha, costumava assistir os desenhos do Discovery Kids com minha filha Mariana - pois a mais nova, Isabela, não é muito de se deter em frente à TV. E o certo é que, nos intervalos, em todo anúncio de brinquedos, ela dizia: "Oh, Pai, compra pra mim". Lembrando de um episódio antigo, passado na família de uma amiga, resolvi reverter o argumento. E, então, ela já com cinco anos e menos insistente por todo brinquedo que a TV quer que as crianças consumam a qualquer custo ou número, disse para ela: "Oh, Nana, compra pro papai". Ao que ela respondeu: "Papai, você não sabe, mas eu sou bem pobrezinha".




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Diante de um tabuleiro de xadrez: três citações


Ingmar Bergman, Det sjunde inseglet [O sétimo selo], 1957



O cinema tratado em 3 mini-tratados



Sem tempo/saco para este blogue, largo três citações: Bresson, Tarkovski e Cassavetes. A de Bresson remete em linha reta para certo filme de Bergman [O Sétimo Selo]. A de Tarkovski é um mini-tratado de semiótica e tradução. A de Cassavetes lembra o "descaso" pela ténica em si de Buñuel [embora Buñuel trabalhasse como um dos mais refinados diretores de fotografia da história do cinema, Gabriel Figueroa - ou por isso mesmo] :

i.
Escrever um bom poema é meio como diante de um tabuleiro de xadrez ganhar um lance da morte.”
[Robert Bresson]


ii.
No cinema, o elemento literário deve ser ‘filtrado’; ele deixa de ser literatura assim que o filme for concluído. Uma vez terminado o trabalho, tudo que resta é a transcrição escrita do filme. A decupagem técnica, que não pode, por qualquer definição ser chamado literatura: assemelha-se mais à descrição de algo que se viu feita a um cego.”
[Andrei Tarkovski]


iii.
"Prefiro um pouco fora de foco. Não quero que se admire a imagem. Não se cessa de olhar – e é aí que a gente sente".
[John Cassavetes]



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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Segunda no Parque


Gamboa, no Parque do Cocó, em Fortaleza



Ei!


Ontem, no feriado, caminhei por uma hora no Parque do Cocó. O parque parece com qualquer parque urbano de qualquer metrópole brasileira. Estão sempre construindo algo. O Ibirapuera em São Paulo, por exemplo, já está coalhado de pequenos edifícios - o que inclui uma pavorosa "oca" desenhada por quem? Por Niemeyer, claro. No Parque das Pedreiras, em Curitiba, ao menos a Ópera de Arame é mais bela, e se ajusta melhor, pela trânsparência e leveza, ao entorno da vegetação e dos rochedos.
No Cocó - a exemplo dos demais - há uma mancha excessiva de gente. Uma mácula rondando-o. Pairando acima. Em certos trechos, um mau-cheiro de ureia. Noutros o de capim pisado e repisado pelos acolchoados tênis que calçam o desenvernizado novo-riquismo de nossa burguesia. A sinalização é de gosto duvidável. E enormes condomínios foram erguidos – sabe-se lá driblando que legislação urbana – na franja oeste do parque.
Com imensas varandas, dando as costas à avenida e virando-se para ele. Quantos vereadores imbecis foram subornados para permitir tanta desfaçatez, como sempre, nunca se vai saber...
Ainda assim o parque é um belo local: é mangue! E a vegetação dos manguezais é sempre bonita. Em certa trilha quase se fecha inteira, com as copas das árvores, de ambos os lados da alameda, tocando-se e formando um formidável túnel de invulgar beleza para se passar por baixo.
De tipos humanos havia de tudo. Desde um pai com uma criança – já não tão de braço – sempre no braço, assoviando, como se tentando atrair os passarinhos, que deviam assustar-se com seus trilos, até aqueles seres um pouco rechonchudos metidos em malhas colantes e falando sobre o quanto a aposentadoria de fulana está se depauperando, passando por um sujeito com uma pequena filmadora, aparentemente gravando um galho com um pequeno animal esmagado e mosquitos em torno.
Em geral, achei o parque mais ressequido do que esperava, depois de um ano de tão copiosas chuvas. Ao menos, uma clareira em que se costumava jogar futebol ainda permanece vasta lagoa, já um tanto rasa nesses começos de setembro.
Mas o detalhe mais precioso ocorreu no final. Quando já saía da seção das trilhas para a praça, um grupo de escolares chegava do subúrbio ao parque, tutelados por duas ou três “tias”. À minha frente caminhava um senhor de meia-idade, um tanto gordo e de gestos incisivos à cada passada. Um garoto, de seus onze anos, que antecipara-se ao grupo, ao se deparar com esse senhor e seu modo mecânico de andar disse-lhe:
–Ei, bicho fei'!
Em que outro local do mundo, um garoto de onze anos, vindo em uma excursão escolar, poderia ser mais maliciosamente sincero [e politicamente incorreto]? E há também que se notar essa rima entre o 'ei' inicial e o dialetal [e charmoso] 'fei' que fecha a frase, por a língua portuguesa falada no Ceará buscar essas assonâncias como um cassaco busca o olho das árvores para nidificar.

O senhor de meia-idade? Seguiu: mecânico, impassível.

De emblemático, naquele momento mesmo, encontraram-se a rua e o shopping-center. O interior e a capital. As cadeiras na calçada à noite e as guaritas dos condomínios. O ônibus e as vastas camionetes refrigeradas. A feira e as lojas de grife. A bodega e a lojinha de conveniência. A fala e a escrita.



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