
Felix González-Torres, Death by Gun, 1990
Experiência Lusófana: É tudo gente morta
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'A ciascun'alma presa e gentil core'
A ciascun'alma presa e gentil core
nel cui cospetto ven lo dir presente,
in ciò che mi rescrivan suo parvente,
salute in lor segnor, cioè Amore.
Già eran quasi che atterzate l'ore
del tempo che onne stella n'è lucente,
quando m'apparve Amor subitamente,
cui essenza membrar mi dà orrore.
Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in un drappo dormendo.
Poi la svegliava, e d'esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo.
Dante Alighieri
III.
'Em toda alma cativa de gentil favor'
Em toda alma cativa de gentil favor,
cuja presença revela, de fato, o agora
para que minha escritura soe em demora,
saúdo seu senhor supremo, o Amor.
Eram já quase três horas, e o fulgor
esplendia em cada estrela céu afora
quando o Amor surgiu fora de hora
e sua chegada me causou horror.
Mas parecia alegre, o Amor, retendo
meu coração, e embalando prosseguia
em seus braços, a que amar entendo.
Quando a despertou, sem remendo
Ela, em recato, pôs-se à mesa e comia
Enquanto Ele aos prantos foi desaparecendo.
* * *



Dois Vira-Latas e um final com o verbo em tempo português na madrugada
Depois de um dia, no meio de livros, dicionários, coisas bolorentas - só interrompido para uma pequena caminhada à tarde, no parque - faltou cigarro. O ponto é que já eram quase duas da madrugada. Sem problema. Vou sempre ao posto de gasolina mais próximo, dois quarteirões. A qualquer hora do dia. Ou da noite. Jamais tive problemas com isso.
Hoje, no entanto, ocorreu uma quase epifania. Após comprar os cigarros e ouvir os queixumes do frentista porque o Fortaleza ameaça derrapar para a terceira divisão, subia a pequena ladeira, um pouco sombria, do quarteirão, em cuja quina há o posto. De, repente, lá de cima, vinham dois vira-latas em disparada. Pareciam tão ímpios e livres na madrugada, que tive vontade de segui-los, na embalada. Ao se acercarem de mim, diminuíram o passo, passaram às minhas costas e rosnaram. Virei-me. Encarei-os. Fiz a clássica pose de apanhar a pedra imaginária no asfalto da rua. E eles retomaram o embalo madrugada afora com ainda maior ritmo e vivacidade. Livres, como só vira-latas podem ser.
Talvez tenham ido bater no Equador ou nas Filipinas. Gostava de ter ido com eles.
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Lullaby
Lay your sleeping head, my love,
Human on my faithless arm;
Time and fevers burn away
Individual beauty from
Thoughtful children, and the grave
Proves the child ephemeral:
But in my arms till break of day
Let the living creature lie,
Mortal, guilty, but to me
The entirely beautiful.
Soul and body have no bounds:
To lovers as they lie upon
Her tolerant enchanted slope
In their ordinary swoon,
Grave the vision Venus sends
Of supernatural sympathy,
Universal love and hope;
While an abstract insight wakes
Among the glaciers and the rocks
The hermit's carnal ecstasy.
Certainty, fidelity
On the stroke of midnight pass
Like vibrations of a bell
And fashionable madmen raise
Their pedantic boring cry:
Every farthing cost,
All the dreaded cards foretell,
Shall be paid, but from this night
Not a whisper, not a thought,
Not a kiss nor look be lost.
Beauty, midnight, vision dies:
Let the winds of dawn that blow
Softly round your dreaming head
Such a day of welcome show
Eye and knocking heart may bless,
Find our mortal world enough;
Noons of dryness find you fed
By the involuntary powers,
Nights of insult let you pass
Watched by every human love.
W. H. Auden
Acalanto
Deita tua cabeça adormecida, meu amor,
Humana em meus braços sem fé;
Tempo de febres a queimar então
A singular beleza de
Crianças pensativas, e a cova
Prova quão efêmera a criança:
Mas em meus braços até o raiar do dia,
Que a criatura viva aninhe-se,
Mortal, culpada, mas para mim
Integralmente bela.
Alma e corpo não têm fronteiras:
Para amantes que jazem sobre
Sua tolerante vertente encantada
Em ordinária calma,
Solene a visão que Vênus envia
De simpatia sobrenatural,
Amor universal e esperança;
Enquanto um lampejo abstrato desperta
Entre geleiras e rochedos
O êxtase carnal do eremita.
Decerto, fidelidade
Ao toque da meia-noite passa
Como o dobrar de um sino
E dândis loucos alteiam
Seu enfadonho alarido pedante:
Cada quarto de centavo custa,
Tudo que as temíveis cartas prevêem,
E deve ser pago, mas que nesta noite
Nem um sussurro, nem uma idéia,
Nem um beijo ou expressão se percam.
Beleza, meia-noite, a visão morre:
Deixa a cruviana que sopra
Suave sobre tua cabeça em sonhos
Mostrar um dia bem-vindo
Ao olho, abençoando o peito que pulsa,
Suficienciando este nosso mundo mortal;
Luas de aridez te encontrem nutrido
Por forças involuntárias,
E que passes noites de insulto
Assistidas por todo humano amor.
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