terça-feira, 8 de setembro de 2009

'Gostava' de ter ido..


Christian Rohlfs, Hunde [Cachorros], 1925


Dois Vira-Latas e um final com o verbo em tempo português na madrugada


Depois de um dia, no meio de livros, dicionários, coisas bolorentas - só interrompido para uma pequena caminhada à tarde, no parque - faltou cigarro. O ponto é que já eram quase duas da madrugada. Sem problema. Vou sempre ao posto de gasolina mais próximo, dois quarteirões. A qualquer hora do dia. Ou da noite. Jamais tive problemas com isso.

Hoje, no entanto, ocorreu uma quase epifania. Após comprar os cigarros e ouvir os queixumes do frentista porque o Fortaleza ameaça derrapar para a terceira divisão, subia a pequena ladeira, um pouco sombria, do quarteirão, em cuja quina há o posto. De, repente, lá de cima, vinham dois vira-latas em disparada. Pareciam tão ímpios e livres na madrugada, que tive vontade de segui-los, na embalada. Ao se acercarem de mim, diminuíram o passo, passaram às minhas costas e rosnaram. Virei-me. Encarei-os. Fiz a clássica pose de apanhar a pedra imaginária no asfalto da rua. E eles retomaram o embalo madrugada afora com ainda maior ritmo e vivacidade. Livres, como só vira-latas podem ser.

Talvez tenham ido bater no Equador ou nas Filipinas. Gostava de ter ido com eles.



* * *

domingo, 6 de setembro de 2009

Até tornar o espírito: Dante


André Masson, Myself Drawing Dante, 1940



XX
'Amore e 'l cor gentil sono una cosa'

Amore e 'l cor gentil sono una cosa,
sì come il saggio in suo dittare pone,
e così esser l'un sanza l'altro osa
com'alma razional sanza ragione.
Falli natura quand'è amorosa,
Amor per sire e 'l cor per sua magione,
dentro la qual dormendo si riposa
tal volta poca e tal lunga stagione.
Bieltate appare in saggia donna poi,
che piace a li occhi sì, che dentro al core
nasce un disio de la cosa piacente;
e tanto dura talora in costui,
che fa svegliar lo spirito d'Amore.
E simil face in donna omo valente.

Dante Alighieri


XX
'Amor e coração, uma só cousa'

Amor e coração, uma só cousa
Como propõe o sábio em seu ditado,
Logo, ser sem o outro, um só ousa
Feito alma racional sem racionado.
A natureza a cada faz apaixonado:
Amor por amo, e o coração repousa-
O na moradia em que o tem hospedado
Por estadia breve ou longa pousa.
Na mulher, então, surge a beleza
Que apraz aos olhos, e, dentro do peito,
Ateia a chama do desejo ardente
Que por tanto tempo o inflama, acesa,
Até tornar o espírito do Amor refeito
E da mulher extrair o homem valente.




* * *

sábado, 5 de setembro de 2009

Tudo que mundo a despeito do homem


Robert Adams, 1976



Bach



no mangue, mais perto do fluxo do rio
das estrias nas conchas, da pinga
de chuva sobre a areia das dunas
—translúcida água de restingas
com lodos, seixos tal qual ou o pavio
das estrelas na lua nova ou na tuna
as aquosas rubras flores em agosto—
assim a música de joão sebastião
luz não sobre vidro, mas sobre rosto
de água, espelho que olhar só convém,
a saber, porque nada pode ser mais irmão
de tudo que é mundo a despeito do homem




* * *

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Suficienciando este nosso mundo mortal: Auden


Nan Goldin, Nan and Brian in Bed, 1983



Lullaby


Lay your sleeping head, my love,

Human on my faithless arm;

Time and fevers burn away

Individual beauty from

Thoughtful children, and the grave

Proves the child ephemeral:

But in my arms till break of day

Let the living creature lie,

Mortal, guilty, but to me

The entirely beautiful.


Soul and body have no bounds:

To lovers as they lie upon

Her tolerant enchanted slope

In their ordinary swoon,

Grave the vision Venus sends

Of supernatural sympathy,

Universal love and hope;

While an abstract insight wakes

Among the glaciers and the rocks

The hermit's carnal ecstasy.


Certainty, fidelity

On the stroke of midnight pass

Like vibrations of a bell

And fashionable madmen raise

Their pedantic boring cry:

Every farthing cost,

All the dreaded cards foretell,

Shall be paid, but from this night

Not a whisper, not a thought,

Not a kiss nor look be lost.


Beauty, midnight, vision dies:

Let the winds of dawn that blow

Softly round your dreaming head

Such a day of welcome show

Eye and knocking heart may bless,

Find our mortal world enough;

Noons of dryness find you fed

By the involuntary powers,

Nights of insult let you pass

Watched by every human love.


W. H. Auden



Acalanto


Deita tua cabeça adormecida, meu amor,

Humana em meus braços sem fé;

Tempo de febres a queimar então

A singular beleza de

Crianças pensativas, e a cova

Prova quão efêmera a criança:

Mas em meus braços até o raiar do dia,

Que a criatura viva aninhe-se,

Mortal, culpada, mas para mim

Integralmente bela.


Alma e corpo não têm fronteiras:

Para amantes que jazem sobre

Sua tolerante vertente encantada

Em ordinária calma,

Solene a visão que Vênus envia

De simpatia sobrenatural,

Amor universal e esperança;

Enquanto um lampejo abstrato desperta

Entre geleiras e rochedos

O êxtase carnal do eremita.


Decerto, fidelidade

Ao toque da meia-noite passa

Como o dobrar de um sino

E dândis loucos alteiam

Seu enfadonho alarido pedante:

Cada quarto de centavo custa,

Tudo que as temíveis cartas prevêem,

E deve ser pago, mas que nesta noite

Nem um sussurro, nem uma idéia,

Nem um beijo ou expressão se percam.


Beleza, meia-noite, a visão morre:

Deixa a cruviana que sopra

Suave sobre tua cabeça em sonhos

Mostrar um dia bem-vindo

Ao olho, abençoando o peito que pulsa,

Suficienciando este nosso mundo mortal;

Luas de aridez te encontrem nutrido

Por forças involuntárias,

E que passes noites de insulto

Assistidas por todo humano amor.




* * *

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O que mais temos: Lawrence


Robert Talbot, Wheat, c.1854




On the Balcony

In front of the somber mountains, a faint, lost ribbon of rainbow]
And between us and it, the thunder;
And down below, in the green wheat, the labourers
Stand like dark stumps, still in the green wheat.

You are near to me, and your naked feet in their sandals,
And through the scent of the balcony’s naked timber
I distinguish the scent of your hair; so now the limber
Lighting falls from heaven.

Adown the pale-green, glacier-river floats
A dark boat through the gloom – and whither?
The thunder roars. But still we have each other.
The naked lightnings in the heaven dither
And disappear. What have we but each other?
The boat has gone.


D.H. Lawrence



Na Varanda

Diante das serras sombrias, uma débil, escassa faixa de arco-íris
E entre nós e ele, o trovão;
E lá abaixo, no trigal verde, os lavradores
Firmam-se como cepos negros, quietos no trigal verde.

Você está rente a mim, seus pés nus nas sandálias,
E apesar do aroma de madeira crua da varanda
Distingo o aroma de seus cabelos; e então a ágil
Faísca cai do céu.

Abaixo no rio-enregelado em verde pálido flutua
Um barco escuro em meio à treva – e até onde?
O trovão ruge. Mas ainda temos um ao outro.
As faíscas nuas no céu sacodem
E somem. O que mais temos senão um ao outro?
O barco se foi.



* * *

Para além da baía de meus braços: Walcott


Georges-Pierre Seurat, Port-en-Bessin, 1888



Midsummer, Tobago


Broad sun-stoned beaches.


White heat.

A green river.


A bridge,

scorched yellow palms


from the summer-sleeping house

drowsing through August.


Days I have held,

days I have lost,


days that outgrow, like daughters,

my harbouring arms.


Derek Walcott



Verão a meio, Tobago


Amplas praias limadas de sol.


Calor branco.

Um verde rio.


Uma ponte,

coqueiros em ressequido amarelo


desde a casa de praia, sonolenta

dormitando agosto afora.


Dias que ganhei,

dias que perdi,


dias que cresceram, feito filhas,

para além da baía de meus braços.



* * *

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Pelo meio da cidade descontente: Dante


Dorothea Lang, The Road West, New Mexico, 1938


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XL
'Deh peregrini che pensosi andate'
Deh peregrini che pensosi andate,
forse di cosa che non v'è presente,
venite voi da sì lontana gente,
com'a la vista voi ne dimostrate,
che non piangete quando voi passate
per lo suo mezzo la città dolente,
come quelle persone che neente
par che 'ntendesser la sua gravitate?
Se voi restaste per volerlo audire,
certo lo cor de' sospiri mi dice
che lagrimando n'uscireste pui.
Ell'ha perduta la sua Beatrice;
e le parole ch'om di lei pò dire
hanno vertù di far piangere altrui.

Dante Alighieri


XL
'Ah, peregrinos que passais pensando'
Ah, peregrinos que passais pensando
Quiçá em coisa que não está presente,
Vós vindes da mais distante gente,
Como atesta a veste a vos cobrir o bando.
Que ao passar nada seguem pranteando,
Pelo meio da cidade descontente,
Como seres que inadvertidamente
Ignorassem o pesar que a está martirizando?
Mas se vos detivésseis um pouco a ouvi-lo,
O pesaroso coração me diz
Que partiríeis com os olhos a rasar:
O burgo perdeu sua Beatriz;
E contado o fato em mais diverso estilo
Tem a capacidade de fazer chorar.



Nota - para mais de Dante em Vita Nova: aqui. [E de lá há um linque para um terceiro soneto traduzido].


* * *

Uma menos remota distância


Antônio Bandeira, Capri, 1957




Vinte e Tantas Casas & uma Ilha Solteira



Dizem que amor é trabalho diário. Talvez. Mas se assim for, além de egoísta, tem muita gente preguiçosa neste mundo. Acho que a sugestão foi feita por um amigo alemão, Helmut Schmmitz, que por seu turno, a pescou do filme “Sur”, de Solanas. Helmut era um apreciador de tangos e um sujeito de refinados humores.
A etimologia, essa ciência deliciosamente imprecisa, nos diz que trabalho, a palavra neo-latina equivalente a work, Arbeit, vêm de ‘trepalium’, um instrumento de tortura, espécie de pau-de-arara da época do Império Romano.
Mas, também é fato que muita gente trabalha, e com prazer. E o fruto desse trabalho é algo de uma incomensurável responsabilidade.
Entre essa parcela, encontra-se a dos arquitetos. Estes têm de modelar o palco em que famílias inteiras vão medrar e se dissipar no espaço dos anos. Uma responsabilidade à toda prova.
Seguia pensando nisso no que caminhava de manhã bem cedo, pelas ruas da Aldeota, nas cercanias da casa de meus pais. Conheço de certas ruas, cada casa, um tanto como se elas e não seus donos, fossem os amigos íntimos. E me exaspera um bocado saber que estão construindo um segundo pavimento improvisado sobre aquela platibanda. Ou o que é pior, a fachada será maquilada com lambris para a instalação de um consultório, um escritório de engenharia, uma locadora de vídeos.
Porém, ao mesmo tempo, alguns dos sítios mais impressionantes são casas demolidas. Digo melhor, parcialmente demolidas, justo na etapa em que elas ainda resguardam o assoalho e um certo vestígio de divisão, do que um dia foram paredes. Espécie de maquetes vazadas, plantas baixas ao vivo e literalmente. Espectros do que foram nos muitos anos em que habitadas por duas ou três gerações. Fortaleza não suporta mais que esse lapso.
Ela era uma senhora baixa metida em um vestido inteiriço e amarelo-claro. Era um pouco obesa. E pisava com vagar e olhos comprimidos a calçada. Portava uma sacola de feira, dessas em plástico verde, e caminhava junto aos muros, com cílios longos, grisalha, absorta em seus pensamentos:
“Desculpe, a senhora não é a avó do Valdir?”, eu disse.
“Héin?”, ela exclamou, revoltando o corpo para trás.
Repeti a pergunta noutros termos e pausadamente.
Foi só quando ela me avalizou sem mais receio:
“Ah, você é o jornalista, o, o -- o que mora em São Paulo”, disse.
“É, bem -- na verdade, esse é meu irmão Flávio. Eu sou o Carlos, o mais velho, sou professor. E..”
“Sim, sim. Você falou Valdir. Eu chamo ele de Júnior, por causa do pai dele que também era Valdir. É um menino de valor. Inteligente. A mulher dele é que não presta, viu? Última vez que eles estiveram aqui, com meu marido doente, imagine que ela queria por que queria que eles ficassem com o quarto dele. E eu disse, ‘não enquanto eu viva for’. Meu marido morreu, ano passado.”
“Sinto.”
“O Júnior é que está morando no fim do mundo, meu filho, com a mulher e minha bisneta. É uma cidade, um interiorzinho desses de São Paulo: Ilha Redonda.”
Ao se despedir, ela disse:
“Meu nome é Maria José -- e acrescentou -- apareça. A minha casa é aquela do muro baixo, de azulejos. Minha família já teve vinte e tantas casas. E, agora, no fim da vida, moro de aluguel. Apareça, vocês são uns meninos ótimos. O Júnior sempre fala em vocês. Minha casa é a do muro baixo, todo mundo sabe.”
“Ilha Redonda”, ponderei. Velha mímica das palavras. Eu havia estado com o neto dela, certa noitada em julho passado, no apartamento de Flávio, em São Paulo. Na verdade, Valdir, professor de Física em início de carreira, morava em Ilha Solteira, próximo à fronteira do Mato Grosso do Sul. E pensei, no quanto para ela uma ilha redonda, simétrica, acessível, junção de duas metades, devia soar menos remota que uma ilha solteira.



* * *

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Por meio de uma luz oblíqua e cinza


L.S. Lowry, Ordsall Lane, Salford, 1927


Sedex ou Carta Registrada?


Há já uma distância entre esta sala de agência de publicidade e este cartão com a reprodução de um quadro de Lowry, que releio de novo. E de novo me vem a imagem de jangadas na Enseada do Mucuripe, as miúdas lavandeiras passeando em volta:

“É pra mandar por Sedex ou carta registrada?”, me pergunta o office-boy.

São quase três e meia da tarde. E Miles Davis despeja um assurdinado “I Fall in Love too Easily” na sala da agência.

Eis o meio-ambiente ideal para se pensar na morte da bezerra. Ou de uma manada delas. Ou então, se é ou não razoável responder a este cartão que a moça me mandou desde Manchester.


Revejo o frio dia de outono. E chegar a Piccadilly Station para uma estação de águas no olhar dela. E logo ambos seguindo até pequenas livrarias escondidas em porões. A loja de stationery, o bazar arranchado no velho prédio vitoriano de esquina. O pistácio escorrendo sobre o pudim; as cadeiras altas num balcão debruçado sobre a rua. O anoráqui púrpura e as gastas botas verdes que ela usava. Ela me presenteando com uma edição do Lucky Jim, de Amis, comprado num pequeno sebo. A meditação das vidraças. Os jornaleiros apregoando o Mirror, com vozes tão distorcidas. Como são adoráveis os pregões em qualquer cidade do mundo. As lojas de caridade – a Oxfam, onde chapéus do Equador custavam a bagatela de quinze libras. As de roupas usadas, e ela comprando um colete verde, de curdorói.

Ao centro da praça a estátua da Rainha Vitória sempre constipada, com seu véu na cabeça e as generosas bochechas, sob aquela chuva fina e o dia gris.

E então estamos na galeria de arte, sob um relógio austero, subindo as escadarias até dar no salão onde os homens-palito de Lowry passeiam sua solidão desconjuntada por uma cidade vermelha e sem remissão. Ela sentada, tão quieta, artesã de silêncios, contemplando por entre arcos três salões iluminados em diferentes intensidades. Bastante, bastante quieta. Uma ruminação de séculos.

Mais adiante, estamos no ônibus para Longsight. E logo fazendo compras num mercado indiano. Barganhado teatralmente. Voltando para casa com duas garrafas de vinho romeno. Cozinhando. Jantando, rindo, brincando com Dizzy, o bichano. Tramando acordes de bossa nova num pequeno violão de cravelhas rijas, impossível de afinar. E nos despindo sob uma profusão de cobertas no aconchego do quarto aquecido por inércia: a samambaia-cabelo-de-moça no peitoril da janela quando o dia amanhecia, tarde, por meio de uma luz oblíqua e cinza:


“Por Sedex, por favor”, respondo, enquanto afixo o cartão no painel de cortiça.



* * *


segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Com sinuosa renda


Richard Long, River Avon Mud Drawing, 1986





Canção


o amor é rio
isso, simples como seja

não é fácil de entender
um rio não se entrega
de bandeja

ao contrário de um canal
segue para a barra
nada cartesiano
regando as terras através
com sinuosa renda
de meandro

daí que, mesmo
de uma reta não tendo o rito
posto em paralelo a seu motivo
encontra-o a cada curva
no infinito




* * *

Não há senhas


Vasili Kandinsky, Eternidade de versos sem palavras, 1902




Palavra-passe



Madrugada,

o desassossego corta

finas fatias de silêncio

e passos pulsam

no coração suavíssimos.



Das ameias já quase

se divisa alvorada;

os olhos veem verdade

e tudo que busco

verte-se corpo afora

como uma palavra-passe

que antecede cidade.



Abraço madrugada.

Beijo os olhos lentos, espalmo

dedos por toda dobra, parte,

cada: ilhas, segredo.

E lhe digo:

me dê uma senha!



Mas ela comprime os olhos,

ameaça abrir dia,

sorri só lábios

e diz baixinho

brasa de breu

na última lenha,



o verniz sofreado:

não há senhas!





* * *


domingo, 30 de agosto de 2009

Porque se faz gentil o que ela mira: Dante


Dante e Beatrice, iluminura veneziana do sec. XIV




XXI

'Ne li occhi porta la mia donna Amore'


Ne li occhi porta la mia donna Amore,
per che si fa gentil ciò ch'ella mira;
ov'ella passa, ogn'om ver lei si gira,
e cui saluta fa tremar lo core,
sì che, bassando il viso, tutto smore,
e d'ogni suo difetto allor sospira:
fugge dinanzi a lei superbia ed ira.
Aiutatemi, donne, farle onore.
Ogne dolcezza, ogne pensero umile
nasce nel core a chi parlar la sente,
ond'è laudato chi prima la vide.
Quel ch'ella par quando un poco sorride,
non si pò dicer né tenere a mente,
sì è novo miracolo e gentile.

Dante Alighieri


XXI

'Nos olhos conduz minha amada Amor'


Nos olhos conduz minha amada Amor,
Por que se faz gentil o que ela mira;
Qualquer ao passar por ela, torna, vira
E em quem ela saúda vibra um tremor.
Assim que, quando baixa a vista, perde a cor
E seu máximo defeito então perspira:
Pois dela fogem a soberba e a ira.
Ah, damas, fazei-me coro em seu louvor.
Toda doçura, toda humilde cautela
Nasce no coração de quem fala com ela,
E ela abençoa a quem primeiro a vê.
E ao que parece quando sorri em mercê
Coisa alguma igual se paralela,
Se novo, gentil milagre se antevê.





Nota - para mais de Dante a Beatriz na Vita Nova, em Afetivagem, aqui.




* * *

Há tantos fictícios litorais: Dickinson


Henri Matisse, Port de Collioure, 1907



'I many times thought Peace had come'



I many times thought Peace had come

When Peace was far away --

As Wrecked Men -- deem they sight the Land --

At Centre of the Sea --



And struggle slacker -- but to prove

As hopelessly as I --

How many the fictitious Shores --

Before the Harbor be –



Emily Dickinson



'Tantas vezes pensei que a Paz tinha chegado'



Tantas vezes pensei que a Paz tinha chegado

Quando tão distante estava –

Como náufragos – em erro veem o litoral divisado

No meio do mar alto



E esforçam-se em vão – por sinais

Tão desolados quanto os meus,

Em provar: há tantos fictícios litorais

Antes do porto.



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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O social lança sobre o relativo a cor do absoluto: Weil


Wols, Camp de Milles, 1940



Três Citações de Weil



i.

“A arte não tem futuro imediato porque toda arte é coletiva e já não há vida coletiva (há apenas coletividades mortas), e também por causa da ruptura do pacto verdadeiro entre o corpo e a alma. A arte grega coincidiu com o começo da geometria e com o atletismo, a arte da Idade Média com o artesanato, a arte da renascença com o começo da mecânica, etc. Depois de 1914, há um corte completo. A própria comédia é mais ou menos impossível: só há lugar para a sátira (quando foi mais fácil compreender Juvenal?). A arte só poderá renascer do seio da grande anarquia – épica, certamente, porque a infelicidade terá simplificado muitas coisas... É inútil de sua parte, portanto, invejar Da Vinci ou Bach. A grandeza, em nossos dias, deve tomar outros caminhos. Aliás, ela só pode ser solitária, obscura e sem eco... (ora, não há arte sem eco).” [p. 169]

ii.

É o social que lança sobre o relativo a cor do absoluto. O remédio está na ideia de relação. A relação sai violentamente do social. É monopólio do indivíduo. A sociedade é a caverna, a saída é a solidão. A relação pertence ao espírito solitário. Multidão alguma concebe a relação.” [ p. 180]


iii.

Seria preciso que o futuro chegasse sem deixar de ser futuro. Absurdo que somente a eternidade cura”. [ p.22]




Nota - extraídas de A Gravidade e a Graça [Le Pesanteur et La Grâce], Ed. Martins Fontes, 1993, tradução de Paulo Neves.



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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Tamanho amor ao mi, si, sol, ré, lá, mi


Capa do álbum Baden, 1968



A Pessoal Impessoalidade do Mago das Seis Cordas

-Ou Baden Powell e a possessão pela música


Roberto Baden Powell de Aquino, o garoto de Varre-Sai, cidadezinha do norte fluminense, quase no Espírito Santo, parece ter sido tocado por esse Espírito e varrido com seus dedos de mago com tamanho amor as seis cordas de seus robustos violões Hopf, desenhados especialmente para ele, que quase é preferível nada dizer, senão ouvi-lo. Em 26 de setembro próximo, e nove anos que ele nos deixou. Mas também nos deixou a inconfundível beleza de sua música.

Não é fácil explicar Baden. Ele sempre caminhou entre muitas fronteiras. Entre popular e erudito. Entre choro e Bach – um pouco ao modo de Villa-Lobos. [Mas de um Bach abrasileirado até a raiz dos cabelos]. Entre a Europa e os Afro-Sambas. Entre o romantismo derramado de Chopin e a imobilidade contemplativa, minimalista, calcada nas progressões de escalas, contrapontos e fugas da música barroca. Entre a compaixão cristã e o animismo dos orixás. Tudo isso encruzilhava-se no violão de Baden. E não há outro violonista brasileiro que sequer possa chegar perto do que ele realizou. [Talvez Rafael Rabello, se não tivesse morrido tão jovem].

Baden é inexplicável. O som que arranca do pinho é ao mesmo tempo sujo, porque ele não tem nada dos maneirismo asuavizadores da técnica clássica, e, no entanto, transparente e cristalino como água de rio depois de um dilúvio de chuvas. E essa transparência só revela um formidável desejo de traduzir [e renovar] uma tradição musical que, nele, parecia inata.

A magia de seus dedos sobre as cordas eram a confirmação de que “a inspiração é uma tensão das faculdades da alma que torna possível o grau de atenção indispensável à composição em planos múltiplos”, como quer Simone Weil. E, em algumas de suas performances é quase impossível juntar no ouvido o modo como ele consegue colar os baixos típicos do choro aos elaborados dedilhados derramando-se sobre as primas, tão característicos da música erudita ao violão.

Em quase qualquer outro país, um músico dessa envergadura seria cultuado como um patrimônio nacional, esculpido em praças, nomeado em avenidas e/ou escolas e edifícios públicos, tema de incontáveis teses em universidades.

O único documentário sério sobre Baden, no entanto, foi produzido pela TV Alemã, chama-se Canto on Guitar [e pode, aliás, ser visto em três partes, na íntegra no Youtube]. O filme documenta a feição do disco homônimo e traz interessantes cenas de bastidores, de um jovem Baden exultante com o resultado dos takes gravados. Ou brincando com seus músicos de apoio.

Mas é também no Youtube que se pode achar um de seus momentos mais sublimes: a execução de seu Prelúdio em Lá Menor para uma plateia polonesa em meados dos anos 80. A longa peça, de nove minutos, se assemelha a alguns dos Estudos de Villa-Lobos. A peça é de desafiar qualquer mão direita ao violão. É sólida, extremamente bem construída. Mas muito mais comovente é a interpretação de Baden. O modo como ele explora a dinâmica da coisa verte todo o amor que ele nutria pelo violão. E uma concentração absoluta parece atravessar seu corpo franzino como uma entidade. E, então, ao final, o cansaço, a expressão de humildade em seu semblante, ao tirar os vastos óculos de hipermétrope e debruçar-se sobre o tampo do instrumento, em contido agradecimento: pura poesia. [Para assistir essa performance, clique aqui].

Este ano o Cine Ceará homenageou Che Guevara. Para quem não sabe, Guevara executou a sangue-frio dezenas de simpatizantes de Fulgencio Baptista contra os muros de Havana durante as escaramuças da revolução em Cuba. Mas é homenageado, no Brasil, em Fortaleza, num festival de cinema. É de se sonhar um dia em que alguém da grandeza de Baden Powell, que ao mundo só legou beleza e poesia, possa ser um nome homenageado em eventos assim. Quem sabe quando gravarem um único filme de respeito sobre ele produzido em seu próprio país.

E é ainda Simone Weil quem nos diz que “o poeta é uma pessoa; no entanto, nos momentos em que atinge a perfeição poética, é percorrido por uma inspiração impessoal. É só nos momentos medíocres que sua inspiração é pessoal; e então não é verdadeiramente inspiração.” Na vasta maioria de suas performances, o autor de “Berimbau” parecia percorrido por essa pulsão impessoal.

Saravá, Baden!


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Encontraste algum dia


Katerina Lanfranco, Dolphin in Wave, 2003



A Joaquim Cardozo


Com teus sapatos de borracha

Seguramente

É que o seres pisam

No fundo das águas.



Encontraste algum dia

Sobre a terra

O fundo do mar

O tempo marinho e calmo?



Tuas refeições de peixe;

Teus nomes

Femininos: Mariana; teu verso

Medido pelas ondas;



A cidade que não consegues

Esquecer

Aflorada no mar; Recife,

Arrecifes, marés, maresias.;



E marinha ainda a arquitetura

Que calculaste;

Tantos sinais de marítima nostalgia

Que te fez lento e longo



João Cabral de Melo Neto




Este é, talvez, o mais belo poema escrito de poeta a poeta da poesia brasileira. Não soa nada retórico ou derramado. É expresso no tom contido, sóbrio de Cabral. E nele a essência da poesia de Cardozo se faz presente, assim como sua própria personalidade: a discrição, até no pisar silencioso e leve [“sapatos de borracha”]; a inclinação à, com palavras, "pintar" marinhas, às vezes num levíssimo e translúcido guache de aguarela ["o tempo marinho e calmo?"; "teu verso medido pelas ondas"]; a estranha cifra que se esconde por trás de certos nomes de mulheres ["Teus nomes femininos:/ Mariana"]; a presença do Recife, que, aqui, se alça quase como um tropo de memória, história inscrita na individualidade ["A cidade que não consegues/ esquecer/ aflorada do mar;/ Recife”]; o padrão de cálculos para a sinuosidade, repleta de uma sensualidade ondeada e voluptuosa da arquitetura de Niemeyer, de quem Cardozo foi engenheiro calculista ["E marinha ainda a arquitetura/ que calculaste"]; a ausência de pressa no verso e na vida e - em geral, no verso, a predileção pela linha longa - ainda quando fatiada em versos menores por intermeio de um segmento do sentido, de encadeamento [“lento e longo”]: Cardozo publicou seu primeiro volume de poesia, Poemas [1947], aos cinquenta anos e por iniciativa de alguns amigos que praticamente cuidaram da edição quase à sua revelia. O livro conta com um instigante prefácio de Drummond. O poema-encômio de Cabral, acima, no entanto, é de uma rara perfeição. Ele não declara de fora, como num discurso o que o amigo é, mas o faz de dentro de sua própria singularidade. Diferente do tom laudatório ou excessivamente retórico de alguns poemas escritos - inclusive por gente da altura de Drummond ou Bandeira - para seus pares de ofício. É, portanto, mais que um poema de circunstância, a ponto de ser incluído em antologias, entre os melhores poemas de Cabral. Aliás, há mais de meia-dúzia de poemas escritos de Cabral para Cardozo, o que dá testemunho da enorme ascendência do autor de Signo Estrelado sobre o poeta de O Cão Sem Plumas. Em termos de paisagem, no entanto, os dois são quase antípodas: Cardozo é o mar, o mangue, as restingas, o litoral; Cabral, o agreste, o solo gretado e os engenhos de cana. O melhor site sobre Joaquim Cardozo em disponibilidade na rede foi organizado por Maria da Paz Ribeiro Dantas e pode ser encontrado aqui. O site disponibiliza praticamente toda a obra poética do autor de "Recordações de Tramataia". Maria da Paz Ribeiro Dantas é também autora de três instigantes livros sobre o poeta, além de tradutora e poetisa in her own right. Recentemente se publicou, pela Nova Aguilar, um volume de Obras Completas de Joaquim Cardozo - um projeto há muito em trâmite - e que, aliás, me foi enviado de presente, desde o Rosarinho, no Recife, por Maria da Paz Ribeiro Dantas, a quem publicamente agradeço a generosa prenda.



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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dezenove andares, dezessete anos


Anselm Kiefer, Auszug aus Aegypten [Partida do Egito], 1984



As Lágrimas no Aquário

O outono em São Paulo é uma região de brumas quando sai a noite. E a noite saía, no que eu descia a ladeira da Eugênio de Lima em direção à Paulista. A umidade do ar colava na testa. As bordas dos guarda-chuvas se entre-roçavam. Eu passava em revista a inércia no rosto dos passantes. Dos postes as lâmpadas largavam um tom amarelo-obscuro. Pingos. As pessoas não eram bem corpos. Eram só vultos – manchas numa tela tachista. E o lusco-fusco do tráfego escorrendo com o vagar de um sorriso de mártir.
A pele dela era da cor do alvaiade. Seus lábios emolduravam os dentes entre o veludo e o vime. Contraste. O castanho-claro do cabelo escorria quase até a cintura, demarcada por um suéter cinza e o braço esquerdo da jaqueta cáqui balançando, desleixadamente, na oca frialdade do fim-de-tarde. Do outono. Seus olhos eram um meio termo entre os de Margarete e Sulamita, fugas da morte, como em Celan: algo lentos, viçosos, de um verde-guache discreto. As pernas desciam bem conformadas por um jeans surrado que ia bater em fios sobre um par de botas de camurça.
Eu esquecera de chorar em casa. Deixara as lágrimas no aquário. E pensava na seca, nos saques. Na família, nos amigos distantes. Quando a ideia de São Paulo me vinha à mente, presto confundia-se com Lilith, a tela de Kiefer. E, ainda assim, como numa ínfera passagem de Dante, ambas, cidade e tela, já não eram mais um, e não chegavam a ser dois. Eu era um homem com o meu tempo, e pretendia o esclarecimento. E morava num condomínio em que, três horas atrás, um garoto de dezessete anos saltara dezenove andares abaixo. No que é possível pensar numa queda livre de dezenove andares. Como a grama do jardim aproximaria a partir de um décimo nono andar sem elevador? O que se veria do lado exterior, no úmido ar de outono, das janelas envidraçadas: os condôminos lendo jornal, vendo TV, brincando, namorando, vestindo-se para o turno da tarde de trabalho?
Ela às vezes escorava-se no namorado. Trocavam beijos. A garoa amainara. Havia uma infiltração no teto da parada do ônibus. Ambos envergavam calças com os fundos decaídos quase aos joelhos. O rapaz trazia a cabeça raspada, à skinhead. E a moça, de róseos dedos, volta e meia lhe acariciava a calva. Eles estavam vivos. Postavam-se para além do abrigo, ao relento. Suas carícias atraíam olhos. Um rapaz de cavanhaque e boné movia-se em torno deles, a estar com um olho na garota. O mesmo, imóvel, fazia um senhor de seus cinquenta e muitos.
Nesse meio tempo úmido, no alto da Serra do Mar, onde os jesuítas resolveram assentar um colégio, eu pensava no Nordeste. Nas praias de deserto e coqueiros. De coqueiros que vieram dos confins da Ásia. De desertos que vieram dos confins dos tempos. Na água doce e salobra dos cocos. Pensava nos saques e distritos repletos de pó, gretas, desolamento, mercearias de ladrilhos irregulares, cumeeiras altas, pés-direitos não forrados, e as telhas acima das garrafas de cachaça e pilhas de rapadura, ao lado de surrões de farinha e feijão mesclados a batatas fritas embaladas a vácuo e latas de conserva. Teias. Muitas teias.
O senhor de seus cinquenta e muitos parecia trazer o rosto esculpido à canivete. Era um rosto sem piedade. Nele pousava a estupidez dos políticos, que, de algum modo, o terno negro sublinhava. Podia passar por um coronel e sua truculência. Mas o que aquele homem que visivelmente não esperava o ônibus fazia, senão invejar a posição do skinhead, que enlaçava a garota? E, logo, nove pessoas, numa parada de ônibus, invejavam. Invejavam a juventude, o desleixo. A intensidade dos toques em público. E não ter que pagar contas.
O rosto sem piedade do senhor de cinquenta e muitos tomou um táxi. O rapaz de boné e cavanhaque embarcou no “Avenidas”. A senhora gorda, que trazia a bolsa sob o braço, como se a qualquer momento fosse abrir um zíper no próprio flanco para guardá-la, tomou o “Morro Grande”. E toda a efêmera comunidade da parada de ônibus como que se desfez substituída por outra. O jovem casal galgou os batentes do “Pinheiros”. E a noite cresceu como um magistrado de martelo em riste proclamando uma sentença inapelável: tempus edax rerum!
Os carros prosseguiram na sua lentidão agônica. Os ônibus se sucederam. Talvez, naquele crepúsculo atingiram subúrbios tão remotos quanto certos distritos do Sertão. Talvez se destinaram a distâncias tão imponderáveis quanto a que se transpõe na rapidez de uma queda dezenove andares abaixo. Outros talvez nem chegaram: desistiram a meio-caminho. Por causa de uma pedra, de um agouro, da necessidade de manter as aparências de um casamento, de uma lágrima, de um milagre de São Francisco.
Tomei o ônibus. Há dias em que cicatrizes mais íntimas supuram com frutas podres. E o lusco-fusco do tráfego escorrendo com o vagar do sorriso de um mártir. Eram só vultos, como manchas numa tela tachista. As pessoas não eram bem corpos. Pingos. Dos postes as lâmpadas largavam um tom amarelo-obscuro. Eu passava em revista a inércia no rosto dos passantes. As bordas dos guarda-chuvas se entre-roçavam. A umidade do ar colava na testa. E a manhã saía no que eu subia a ladeira da Eugênio de Lima vindo da Paulista. O outono em São Paulo é uma região de muitas brumas quando sai o dia.





Nota – crônica originalmente publicada em O Povo [10.05.98]


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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Flurp!


Juan Miró, Dog barking at the moon, 1952



Uma pressão de almofadas

Certos animais domésticos, antes de muita gente por aí, começam a se tornar importantes. E importar alguma coisa nos dias de hoje é estar apto a consumo, ser um ser para o mercado. Ser consumidor. Há cada vez mais produtos destinados a animais: rações para cada faixa de idade, adereços e conveniências próprias a cada bicho. Coleiras anti-alérgicas, coletes e até hotéis. O número de anúncios de TV usando bichos cresceu bastante nos últimos tempos.

Mas também, sair para passear com os cachorros está se tornando um hábito em certos bairros fortalezenses. A prática não era muito comum só uns poucos anos atrás. E ainda parece um tanto exótica. Vagamente europeia. Ou, quando muito, paulistana. E especialmente paulistana do bairro de Perdizes – onde hoje em dia só é possível caminhar com olhos bem abertos no chão, protegendo-se da absoluta merda.

Animais domésticos podem contribuir positivamente para a economia afetiva de uma família. Cachorros são afeiçoados, atenciosos, um tanto disponíveis. Gatos estão mais para a auto-suficiência e uma certa malandragem arisca. Pássaros são regulares e colorem o ambiente. No caso de papagaios, refletem um tanto o nível de educação de seus donos.

O certo é que já há veterinário agindo como psicólogo. Isso pode soar risível mas deve ter seu lado de verdade. Pelo menos de tanta verdade quanto aquelas psicólogas infantis que, no Jornal Nacional, aconselham os pais a não dizer nomes feios na frente dos pequenos. Ou de que o que eles precisam: “é amor”.

De longe, o episódio mais insólito com animais de que tive notícia foi vivido por um conhecido há cerca de dois anos atrás. Digo insólito porque me falta outro adjetivo.

Ele fora convidado para uma festa. Aquelas reuniões mornas em que professores de pós-graduação reúnem seus orientandos para confraternizar e, veladamente, distribuir futuros encargos ou recrutar outros tantos incautos. Meu conhecido não era orientando. Tão-só amigo de uma. E, logo, sem nenhuma intimidade com os donos da casa. Os anfitriões eram um casal simpático e polido. Meia-idade. Sem filhos. Doutores e pós-doutores. Tão paulistanos quanto a pronúncia italianada de certos gerúndios.

Era inverno. A casa era ampla, nos subúrbios ao Sul de São Paulo e confinava com um riacho que talvez brotasse nas imediações da represa de Guarapiranga, que não distava muito dali. Esse conhecido, um sujeito bastante corpulento, gordo mesmo, chegou relativamente tarde, rebocando um vasto sobretudo – espécie de marca registrada. Descobrindo uma vaga na ponta de um sofá, fincou-se regiamente e com ênfase no macio assento, daqueles que fazem flurp. E, de resto, foi magnificamente servido de uísque e canapés. As conversas eram protocolares, mas havia uma bela uspiana sentada ao lado de meu conhecido, este se comprazia com olhos castanhos claros da menina, e ela desandava a teorizar sobre a função do coro na tragédia grega clássica.

À certa altura, porém, o casal anfitrião começou a dar com a falta do poodle miniatura que tratavam como a um filho. E entenderam dar uma busca coletiva em todos os compartimentos da casa. E quanto mais procuravam mais o bicho desaparecia.

Um tanto alheio à grita geral, sozinho na sala em meio a vozes distantes, meu conhecido ergueu-se para ir ao banheiro. Foi aí que deu com o pobre cão esmagado no sofá. Seu peso fora deamasiado para o miúdo vivente. E aquele flurp longe de ser das almofadas constituíra um suspiro último.

Vexado, seu primeiro impulso, depois de consultar os lados, foi enfiar o miúdo cadáver no bolso do sobretudo. Depois, quando todos já de novo no ritmo da festa, ele seguiu discretamente pelo amplo jardim até a beira do riacho.

E eliminou a prova de tão estranho crime.




Nota - crônica originalmente publicada na extinta revista virtual Nariz de Cera.

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Não fosse por igual trágica


Detalhe da Praça dos Leões, no Centro de Fortaleza


À prova de memória



Fortaleza é uma cidade à prova de civilização. Há cerca de duas décadas, desmataram uma perna de mangue, a leste. Em vez da delicada flora sub-aquática que lá estava há séculos, medrou um shopping tão horrendo que se pode encontrar uma réplica dele, sem tirar nem pôr, em Leamington-Spa, no coração da Inglaterra. E isso apenas contribuiu para que seus habitantes se afastassem de sua história. De qualquer vestígio dela. E o shopping sugou para Leste todo o investimento que deveria ter sido posto no Centro, em democracia. Em benefício de todos. Em fortalecimento de um senso realmente cívico de história. E o Centro de Fortaleza, mais ainda do que os de outras grandes metrópoles brasileiras, virou um fantasma de si. E que, talvez, na calada da noite siga a assombrar o sono asséptico dos que vivem no conforto novo-rico – sem qualquer vestígio de passado – dos que moram nos novos bairros do Leste.
É engraçada – não fosse por igual trágica – essa compulsiva necessidade das elites brasileiras de se mover para longe dos mortos. Alguns deles [poucos em sinceridade, verdade seja dita] sonharam muito alto os sonhos que incomodam.
Não à toa que, em uma cidade como Camocim, por exemplo, exatamente sobre o cemitério mais antigo, se plantou a nova estação rodoviária...
Essa necessidade inconsciente e coletiva, bem brasileira, de se desapegar – em fuga – de todos aqueles que apostaram que a prosperidade do, então, porto mais importante do Ceará, viria do eixo cais/ferrovia. Os dois projetos fracassaram miseravelmente em Camocim. E, então, que tal lascar por cima dos que sonharam esses projetos exatamente o que, em boa parte os esgotou: as estradas de rodagem e o transporte em lombo de caminhão e ônibus? Ergueu-se então a rodoviária sobre as ossadas daqueles vetustos e incorrigíveis visionários. Mas a perspectiva de seu sonho, de sua utopia, não menos foi reposta sob o os alicerces do novo terminal. Como fosse necessário esquecer um sonho incômodo em favor da mediocridade dos diascorrentes.
Assim também Fortaleza. Nela o shopping está para o Centro assim como em Camocim a rodoviária para o Cemitério. A incômoda vizinhança de um passado subversivo pela própria força de sua eloquência.
E é preciso estar atento às metáforas de Fortaleza: a Praia do Futuro [essa dispensa comentários]; o Castelo Encantado; a Parangaba ou Porongaba [beleza, em língua-geral]; o Parque Araxá [que combina o europeu 'parque' à agilidade do termo indígena 'araxá'= chapada; ou luminosidade que existe antes do nascer do sol]; a Água Fria; e o que há de expressamente português em nomes como Aldeota, Varjota, Torreão, Outeiro, etc.
Sei que tudo isso é sonhar alto e acordado. É querer demais. Devaneio apenas. Mas de sonhar baixo é feita a mediocridade dos dias e dos que se trancam na academia ou em seus quartos com livrinhos de filósofos em traduções de quinta categoria. E se há grandes trabalhos a serem feitos – e os há – é bom que comecem logo. E a todo instante. E já. E em subversividade.
Sem lapso de demora. A contrapelo. A cada gesto. A cada dia. Incomodando a mediocridade de boa parte dessa gestão municipal, que de resto catou na academia seus atuais quadros administrativos. Em teoria, estaria tudo no melhor dos mundos. Porém, com as exceções de praxe, os acadêmicos pensam o mundo exilados dele. Desterrados do próprio solo que pisam. Das ruas mesmas pelas quais circulam, no refrigerado conforto de seus carrinhos pagados à prestação.
E, no entanto, gente como Nirez ou Christiano Câmara bem sabe que não é assim. Eis porque num esforço avulso, sem quase ou nenhum amparo oficial, vem colecionando a cidade com um amoroso zelo.
Cada imagem. Cada palavra. Cada hábito. Cada gesto possível de ser salvo.
Pela promessa de sua sanidade.



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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sem receio do rótulo realista


Yasujiro Ozu, Tokyo Story, 1953


Filmar alicerça em verdade..


E por uma acomodação da fórmula da verdade que se encontra em Santo Tomás. Ele nos diz que “a verdade segue a existência das coisas” ["Veritas sequitur esse rerum"].

Então, a arte refrata a verdade dessa existência. Quanto menos essa existência for refratada, menos haverá arte. É um ponto de partida realista - porém não de um realismo naturalista ou naïf. Mas de um que nos redime de criar somente a partir das criações artísticas pré-existentes. Do acervo ou iventário do criado. Especialmente daquele acervo sancionado pelo prêt-a-porter da onda acadêmica em voga. Da teoriazinha e do elenco de autores da vez.

De momento, há muita voracidade por uma arte vicária, que vive de citações. Ora, só se pode citar algo que está próximo da própria experiência do realizador e se imbrica em seu cotidiano. Ainda que em estranhamento. Qualquer citação que é feita com propósitos apenas eruditos ou “livrescos” recai em desautorização. Não se faz cinema acadêmico, de pós-graduação. Isso não existe. Se faz cinema. Ponto. O mesmo vale para música ou literatura ou pintura ou qualquer modalidade de arte.

Além desse aporte realista, há também o decorum em relação à figura humana. O corpo humano pode ser entrevisto como a obra-prima da criação. Seu ponto culminante. Logo, o tratamento dado a ele deve ser, no caso do cinema, o de tocá-lo com a objetiva somente aquele mínimo suficiente para nele encontrar a emenda necessária à sequencia das ações. Isso equivale a abrir uma enorme cesura para o espaço off, bem como para os objetos, paisagens e outros seres que o cercam. É assim que se implicita, sem fazer força, uma pá de coisas. E este último ponto também indica, entre outras, uma segura direção de arte. Eis porque o still life [a natureza morta], o luzir dos objetos surge tão central nos filmes de Ozu.

Ambos os dispositivos descritos acima – realismo e decorum – apontam para local. O local é o lugar em que seres humanos e coisas se encontram presentificados no cotidiano. Também é o lugar em que seres humanos encontram - veem-se, na dimensão da presença - os corpos uns dos outros. E o corpo humano é algo tão sublime que o austero Pascal dele disse: 'no momento da morte a alma chora porque deve separar-se dessa maravilha que é o corpo'.

O corpo é um local que torna o local local. Não pode ser "vendido" separadamente.

O local é um corpo. Espetacularmente. Especularmente. Esplendidamente. As rugas no rosto da lavadeira, a crosta de sol nas costas do pescador são relevos. Prolongam dunas, lagos, rios. A inércia deles após dias sem conta de trabalho diário sob um sol indiferente. O corpo resulta disso. Da tua conversa com o mundo.


O corpo e a paisagem. O corpo é a paisagem. Nele refratada.

Quando com uma câmera nunca se surfa inteiramente em transparência. Embora a transparência seja o alicerce do melhor cinema. O de Bresson. Ou de Ozu. É a mesma sutileza que se trai na analogia que Joaquim Cardozo traça entre cinema e rio, no poema "Cinematógrafo":


"E molhada nessas águas-imagens, impercebida e rastejante
Uma insinuação de presenças invencíveis se propaga"

As imagens da verdade não adernam ou naufragam. Emergem à flor d'água da tela, mesmo quando estão no fundo. Como pequenos seixos sob límpida água de rio. As imagens da verdade.

Invencíveis.



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