quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Brotando lento, lento: Creeley

José Leonilson, Desire is a blue lake, 1989




Place

Your face
In mind, slow love

Slow growing, slow
To learn enough

Patience to learn
To be here, to savor

Whatever distance is
Out there, without you

Here, here
By myself


Robert Creeley



Lugar


Teu rosto
Em mente, lento amor

Brotando lento, lento
Para saber o bastante

Paciência de aprender
A estar aqui, a saborear

Qualquer distância
Lá fora, sem você

Aqui, aqui,
Por mim mesmo






Nota - mais uma vez, aqui, pode-se evocar a bela definição de 'local' que Creeley nos repassa em uma breve nota de seus Selected Essays [Ensaios Seletos]: "o local não é um lugar. Mas um lugar dentro da gente. A parte desse lugar da qual temos sido repelidos ou convocados pelo amor. Para dele dar testemunho".


* * *

Defeituoso Esporte Clube


Wols, Large Spot da série Nourritures, 1946



Limiar

Aos quarenta e cinco da etapa final do sonho, você ouve a torcida desvairar. Então abre os olhos. O mesmo silvo agudo ainda vibra no ar. Limpa o barro na manga da camisa. E vai apanhar a bola no fundo das redes.



* * *

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Dois rios. Desconfluem-se


Cena de uma montagem de Ohio Impromptu [Improviso de Ohio],
de Samuel Beckett




Idem.



'Está chovendo sobre o mundo'


Stay where we were so long alone together, my shade will comfort you”.

Fica onde tanto tempo estivemos sós a dois, minha sombra te confortará”.

[Beckett]


Está chovendo sobre o mundo. Cada passo empoça. E os gestos borram-se sob a cortina d'água. E já não se ouve mais fala, tão tardada a noite avança sob tempestade. Há tanta solidão quando se perde. E tanta agitada calma no coração. Essa dura rejeição dos falsos consolos, que se aprende no Livro de Jó. Para onde foram os passos daqueles dois rios? O riso, o silêncio, sua confluência, que conformava o ilhéu diante do qual divergiam só para rejuntarem-se com mais vazão e espuma a seu final. Um dia. Outro dia. Tudo passa quando se trata de rios. Por vezes prescindindo de palavras? Há cristais d'água sobre os cílios dela, atrás dos quais, além de chuva, o azul fluido dos olhos em fluxo se faz. Nada podem fazer. Quem sabe de si sob uma chuva assim? Cartas marcadas são as de um jogo que, uma vez mais, perdem. Pode-se ver como ele caminha com as mãos nos bolsos, para esconder-lhes o vazio. E tão-só se pressente que há, na carne delas, um conto triste, riscando-se em fado. Não mais. E resta à alma, encharcada na rua vazia, esperar cigarros, café, companhia. Sulco de água não mais aberto em nascente, transitivo, quando as palmas da mão se tomam para ler. E o nome - em mármore e obsidiana - não está mais lá, inscrito. Um rumo de rio.

Para onde?



Nota - para assistir na íntegra a micropeça Improviso de Ohio, legendada em português, clique aqui. [Uma produção inglesa, de 2001, com Jeremy Irons fazendo ambos os papéis: Leitor e Ouvinte. Duração: 10.08 min.]


* * *


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Trabalho diário: o só tempo em que tempo é tempo


Felix Gonzalez-Torrres, Perfect Lovers, 1991



O amor é simples


o amor é um cuidado
tudo mais passa ao largo
é viciado ou vicário
o amor é trabalho
diário

não há mas para o amor
nem poréns, nem todavias
com zelo de rio
se rega a si próprio
em desvio

o amor é simples
como um rio.



* * *

À luz do ilimitado num mundo de limites


Banett Newman, Vir Heroicus Sublimis, 1951


Poesia, piparotes, anjos & um midraxe


Uma dos mais prodigiosos encantos da poesia é sua capacidade de fazer figurar seu assunto. De quase zerar as distâncias entre conteúdo e forma. E, portanto, de trazer esse assunto o mais rente possível da experiência do próprio leitor. E até de seus sentidos ou afecções – especialmente daquele que não é um leitor especialista [ou mesmo lhe é refratário]. Quando falo em figurar, não me refiro exclusivamente à formação de imagens [ainda que esse seja um aspecto muito importante]. Afinal, o assunto tratado pode não ser um objeto palpável, acessível á vista – uma paisagem rural, um ornitorrinco, um cesto de frutas, uma mulher – mas uma emoção, uma afecção. A esse prodigioso condão da poesia, o de trazer uma intensidade de mundo, uma porção pulsante dele, para muito perto de nós, os autores dão nomes diversos. Peirce chama de 'primeiridade'. Eliot de 'objetivo-correlativo'. Benjamin de 'linguagem adâmica'. Auerbach de 'parataxe' ou 'figura'. [Nota: o mais interessante é que, escrevendo em alemão, o termo que ele pinça é literalmente este 'figura', a partir do latim (e que se mantém intacto no português)]. Jakobson de 'função poética'. O certo e que quanto mais intenso o texto, tanto mais ele imantará a atenção do leitor, convocando-a para uma zona de sensações que brotam com grande vigor. Mas também como se se tratasse de algo já experienciado antes, e que andava um tanto esquecido, amortecido ou inacessível já há tempos. A tal 'emotion recollected in tranquility', de Wordsworth e dos românticos.

Essa última ideia, a de uma relembrança, é curiosamente tanto platônica quanto judaica. Vem de Platão porque nos remete para a lembrança das formas ideais. Das que são, de facto, e não meras imagens nas paredes da caverna. [embora para os mais aristotélicos, também dessas meras imagens se compõe o mundo]. É judaico-cristã, porque implica num tomar contato com um Ser Supremo que é perfeito e imutável e logo – na contingência imperfeita deste mundo – em colher algo que guarda um vestígio [ainda que mínimo] do que realmente "é". [A tremenda auto-definição da divindade em resposta a Moisés: “Eu sou o que sou!”; ou dependendo da tradução “Sou o que é” – e cujo senso naturalmente é o de que tudo o mais não “é”. Ou não “é” integralmente. “É” apenas parcialmente e na medida que se relaciona com “o que é” –“agora vejo em parte”, diz São Paulo na Epístola famosa. Dessa auto-definição duas coisas se pode inferir: 1) não existe poesia para Deus, porque Ele não precisa presentificar nada, ou reatar o nome ao nomeado, a palavra ao objeto, o significante ao significado; nada a rejuntar: nenhuma nostalgia de lugar ou mulher; 2) Toda poesia está em Deus, uma vez que ele é o único que "é". Ou seja, o único ente que, não precisando de suplemento algum [trazer as coisas para perto, relembrá-las, re-experienciá-las, re-nomeá-las, re-enganchá-las, re-compô-las], pode, à sua vez, emprestá-la aos homens]. Há aliás, um gracioso midraxe que pode ser evocado aqui.

Como se sabe os midraxes são em parte narrativas didáticas e edificantes da tradição judaica. Muitas vezes buscam “explicar” às crianças realidades que elas ainda não podem acessar ou dimensionar. Como, por exemplo, o fenômeno da loucura. No midraxe em questão, o fenômeno é explicado de um modo manhosamente bem-humorado. Antes de sermos concebidos, cada um de nós estudou em casas celestiais de ensino. E, logo, tivemos acesso a um conhecimento eterno e ilimitado. Quando nascemos, no entanto, o anjo-da-guarda de cada um, desce até bem próximo do rosto e desfere um piparote no nariz. Através desse toque, esquecemos aquele conhecimento ilimitado. Mas há o caso daqueles em que, por alguma circunstância – certa negligência ou imperícia do anjo – o piparote pega apenas de raspão. No caso desses, ainda sobeja, então, uma noção muito mais ampla do tal conhecimento ilimitado. Esses são os louco, que se põe, à luz dos vestígios desse conhecimento eterno, a sondar e avaliar um mundo não eterno, limitado e imperfeito em que vivemos. Naturalmente, quando isso ocorre, entram em parafuso. [O midraxe é aludido por Gershom Scholem, em seu clássico As Grandes Correntes da Mística Judaica].



* * *


domingo, 9 de agosto de 2009

Misteriosa transparência, misteriosa lucidez


Jan Vermeer, Vista de casas em Delft [também conhecido como A
pequena rua
], c. 1658



'Numa pequena rua'

Numa pequena rua, um prédio de tijolos vermelhos caiado irregularmente à base. E sob uma touca branca, rente à porta entreaberta, acomodada em uma cadeira baixa, uma mulher inclinada tricota. E diante dela, uma calçada com ladrilhos dispondo motivos geométricos em azul, ocre e cinza sobre a qual duas crianças brincam debaixo de bancos de tábua corrida. O prédio possui três andares. No térreo, as três janelas são amplas, e a central, estranhamente delgada e em arco, de uma feição eclesiástica. Menores as duas do primeiro. A da direita está aberta. Pode-se ver os frisos das dobradiças dos postigos de todas as outras. Fim do verão. Acima, um pequeno sótão de janela única. Não se vê o topo da cimalha. E, ao fundo, sob um golfo de nuvens, o céu. Abaixo à esquerda, vultos de casas vermelhas e mesma silhueta. Vão esguio. E dentro dele, a meio-caminho, uma segunda mulher debruçada sobre um tonel, onde duas vassouras. Fechando o campo visual, à sestra, pequena porta fechada, contígua ao vão, e pequena janela de venezianas azuis, com galhos descendo por sobre. Pequeno banco. Mesa pequena. Ambos de tábua corrida, junto à porta, sob a galhada que desce. Guarnecem a porta fechada, contígua ao vão onde a segunda mulher, na faina. O que pode ser mais tranquilo que essa pequena rua; que essas pequenas vivendas; que esses pequenos bancos; que essas crianças que brincam; que essas mulheres que trabalham; que esses céus volumosos de nuvens no fim do verão; que essa perspectiva de outras fachadas sucedendo-se, na profundidade, com seus ângulos em ritmo; que esses pequenos mundos: fechado e aberto; que esses galhos curvando sobre a janela envidraçada em cruz, guarnecida por venezianas de um azul-ultra-mar e um friso cor de ouro? Aqui o cinema já é. Esse tempo é um relâmpago congelado. Trabalho diário. A quieta felicidade desses lugar e tempo. Espaço convertido em luz e prece pela semente do olho. As mais difíceis de enxergar, fazer.

Porque versam sobre a felicidade presente.



appendix: UM POEMA DE MURILO MENDES:


Vermeer de Delft

É a manhã no copo:
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas - o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos -,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através dos seus cristais
Restitui a inocência.


Nota - para uma versão ampliada, em alta definição do quadro, clique sobre ele. Os estudiosos da obra de Vermeer apontam que ele usava instrumentos óticos semelhante às câmeras modernas. E fazia cálculos matemáticos para chegar às perspectivas. De anedótico, certa vez teve de pagar uma dívida na padaria com um de seus quadros - que hoje simplesmente sequer podem ser avaliados. Na Holanda são reverenciados como tesouros nacionais. 'Numa pequena rua' foi escrito em 1996, sob o feitiço de Francis Ponge, Gertrude Stein, William Carlos Williams. Williams, de resto, tem um livro - o seu último livro de poemas - chamado Pictures of Brueghel [Quadros de Brueghel] e que consiste tão-só em descrições de quadros desse outro mestre flamengo.


* * *

sábado, 8 de agosto de 2009

Quase salmos de sortillégio e sol


Adicionar imagemElliot Smith (1969-2003)




Para uma menção a Elliot Smith


Por sugestão de um amigo, ouvi algumas das baladas de Elliot Smith esta semana. E foi amor à primeira audição.
Como pode haver tanta simplicidade e perfeição em canções como “Say Yes” ou “Between the Bars”? Nada há de sofisticado harmonicamente falando. São quase só progressões de acordes naturais com um ou outro baixo invertido, se tanto. Tudo se resolvendo em sétimas ou algo próximo disso. Ou seja, musicalmente não existe qualquer inovação.
E, no entanto, tudo é viço e frescor. Pura novidade. A voz, sussurrada, explode em harmônicos. A extensão é pequena mas aproveitada até a última gota, o que lhe empresta um brilho inusual. Uma espécie de Chet Baker do pop. A batida leve porém segura [e um pouco desleixada] de seu violão base, às vezes um tanto sublinhando o baixo das tônicas, segue sempre em primeiríssimo plano. A instrumentação é sempre esparsa, à folk ou skiffle, mas preenche todo o campo sonoro. A coloquialidade das letras aponta para fala, conversa. Versos do tipo: “situations get fucked up” ou “feel like shit the morning after”, onde aparecem palavrões e xingamentos, como na fala mais comezinha. Mas também o que há de ternura nisso tudo.
E, ainda assim, em “Say Yes” há um trecho que é pura citação do Lennon de “I am the Walrus”. Mas, o melhor, a citação parece provir de uma misteriosa espontaneidade, sem qualquer forçação de barra ou sisuda intertextualidade ou apara de semiótica musical ou paranóia acadêmica ou vontade de vanguarda. Porque em Elliot não há teoria. Nem vanguarda. A teoria é a pulsante alegria desses epitalâmios e albas modernizados, talvez involuntariamente.
A densa verve e o lirismo dessas baladas pode alegrar a mais triste manhã de chuva. Elas parecem perfeitas em seu despojamento. Modelação e arquetipia. A magia que as cerca é só comparável ao que se encontra no melhor material dos Beatles, dos Beach Boys ou do Radiohead – e neste último caso, num registro mais sombrio. E nos três casos com uma muito maior elaboração vocal e instrumental.
Não obstante, há belas harmonias vocais - bastante simples, no entanto -, solos bem breves, nunca fora de lugar. Finais inusitados, um pouco largados. Pode-se, ao ouvir essas canções, deliciar-se com o grau tão espontâneo de talento – esse termo fora de moda, pois elas alegram o espírito.
De suas composições se pode falar nos termos que Adorno referendou a ensaística de Walter Benjamin: “o que Benjamin dizia e escrevia soava como se o pensamento assumisse as promessas dos contos de fadas e dos livros infantis, ao invés de recusá-los e repeli-los em nome de uma infame maturidade”.
Há nas baladas de Smith uma incrível capacidade de celebração da vida. Intensa solaridade. Ao som de não poucas delas, a vontade é, sem dúvida, a de dançar sozinho. Como David dançou em frente aos sisudos sacerdotes e profetas, em certa passagem bíblica. Talvez porque sentisse que na profecia e na litania deve haver algo de êxtase. De júbilo. De improviso. Talvez movido por esse mesmo grau de excitação e santa loucura, que só salmos assim provocam ao tocar simultaneamente espírito e carne, provocando o desejo de se acordar um ser humano melhor na manhã seguinte.

Mesmo de ressaca.




* * *

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Para tomar um cafezinho


[s/i/c]


Ouro de tolo ou ouro cor de ébano?


Por vezes certa forma razinza de ser dá prova de que nem tudo que vem de fora e reluz é ouro. Parece ser esse o caso da recente megastore - pode-se chamar aquilo de livraria? - da Saraiva:

O publicitário Gabriel Ramalho, que visitou a livraria Saraiva no último domingo, reclama da desorganização. Chegou a encontrar Patativa do Assaré na prateleira de autores internacionais.

[O Povo , 28.07.09]

Para compensar, Gumercinda Cascadura, uma das maiores baristas do Brasil, me assegurou que o café da megastore é o melhor da cidade.




* * *

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Preciso dos densos velhos tempos: Creeley


James Boswell, Street Scene, c.1946




Place

This is an empty landscape,
in spite of its light,
air, water -
the people walking the streets.

I feel faint here,
too far off, too
enclosed in myself,
can’t make love a way out.

I need the old time density,
the dirt, the cold,
the noise through the floor -
my love in company.

Robert Creeley


Lugar


Essa paisagem vazia,
apesar da luz,
ar, água -
gente andando ruas.

Me sinto fraco aqui.
Bem longe, bem
fechado em mim,
sem fazer do amor uma saída.

Preciso dos densos velhos tempos,
o sujo, o frio,
o ruído sobre o piso -
meu amor comigo.





Nota - poema e tradução originalmente publicados para ilustrar um artigo na revista Trópico, chamado "Seu mundo está pronto", alguns anos atrás. O artigo, um necrológio de Creeley, pode ser acessado aqui. Algumas supressões de verbos de ligação e artigos não são casuais.



* * *

As prendas do verão têm curta data: Shakespeare


Paul Klee, Der Verliebte [O Apaixonado], 1923




Sonnet 18



Shall I compare thee to a summer's day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer's lease hath all too short a date:

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimm'd;

And every fair from fair sometime declines,

By chance or nature's changing course untrimm'd;

But thy eternal summer shall not fade

Nor lose possession of that fair thou owest;

Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,

When in eternal lines to time thou growest:

So long as men can breathe or eyes can see,

So long lives this and this gives life to thee.



William Shakespeare





Soneto 18



Devo comparar-te a um dia de verão?

És mais adorável e mais sensata:

Nos viçosos brotos de maio ventos oscilam,

E as prendas do verão têm curta data:

Por vezes tão quente o olho do céu fulmina,

E, é frequente, puir sua compleição de ouro;

E cada brilho de brilho às vezes declina,

Por acaso ou curso do natural decoro;

Mas teu verão eterno não cortina

Nem perde posse desse teu luzente poro;

Nem Morte pode jactar-se ter-te sob sina,

Quando em eternas linhas fores a teu foro:

Enquanto respirar gente e o olho deitar lida,

Enquanto isto durar, isto há de dar-te vida.



* * *



quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Como uma oração: Aznar


Max Ernst, La mer et la pluie, 1925




Dream of the return

Al mar eché un poema
que llevó con él mis preguntas y mi voz
Como un lento barco se perdió en la espuma
Le pedí que no diera la vuelta
sin haber visto el altamar
y en sueños hablar conmigo de lo que vio
Aún si no volviera
yo sabria si llegó

Viajar la vida entera
por la calma azul en tormentas zozobrar
poco importa el modo si algún puerto espera
Aguardé tanto tiempo el mensaje
que olvidé volver al mar
y asi yo perdí aquel poema
grité a los cielos todo mi rencor
lo hallé por fin pero escrito en la arena
como una oración

El mar golpeó en mis venas
y libro mi corazón.


Pedro Aznar


Dream of the return


Lancei ao mar um poema
que levou
consigo minhas perguntas, minha voz
Como um lento barco se perdeu na espuma
Pedi-lhe que não retornasse
sem ter visto o alto-mar
e em sonhos me contasse do que viu
Mesmo se não voltasse
eu saberia: ele conseguiu

Viajar a vida inteira
pela calma azul em tormentas soçobrar
pouco importa o modo se algum porto espera
Aguardei tanto tempo a mensagem
que evitei voltar ao mar
e assim perdi aquele poema
gritei aos céus todo meu rancor
e achei-o enfim mas escrito na areia
como uma oração

O mar golpeou em minhas veias
e livrou meu coração




* * *

sábado, 1 de agosto de 2009

Tecer enquanto e intervalos


Pablo Picasso, Jeune fille aux grands cheveux, 1945



'Capineiro, de meu pai, ah, não me corte'


Amanhã e ontem na verdade é hoje.

Toma o que está por perto e vê de longe.

Busca tua filha, para em torno armar

a casa: varandas de rede e oscilar;

brisa de agosto, lua e mangue. Tudo

areia, duna, restinga, oceano. Em nosso lote

nada tarda: nem o ano, nem o fado, nem a sorte.

Distintos silêncios arrastam um entrudo

a ressonar passados carnavais, e, se tanto,

a mão se move ágil sobre o papel de linho

para com dedos de bilro tecer enquanto

e intervalos. Só o cabelo de tua filha em torvelinho

não cessa de crescer, até florar num canto

em figos da figueira que o passarinho.



* * *


E sentir-se só, a pé, pelo meio


Tiago Santana, c. 2000



Frutas

para minorar a ressaca de uma manhã
de sábado não viajada, no aguardo de chegar tempo
o sublime verão que nunca cessa e dreno
de dois dias sem cópia de chuvas. sã
é a mente que pode pensar com vigor
nas frágeis flores da tamarineira, escassas
ainda, a prometer seu travo de amargo vivo
diferente da doçura excessiva das atas
e seriguelas, não de laranjas-da-terra – nessas
árvores pequenas, sem imponência de floresta
a esmeralda de leque aberto na carnaúba e os
cajueiros quase a esperar suas chuvas
depois do bom 'inverno', água entre dunas
e o condão de sentir-se só, a pé, pelo meio.



* * *

terça-feira, 28 de julho de 2009

De amor e cevada: Bashō


Willi Baumaister, Ideogram, 1947



Dez hai-kos de Bashō





diga-me de solidão
de ermas serras
velho cavando beterrabas

* * *

êxodo de primavera
pássaros clamam
a lágrima do peixe

* * *

pegadas de monos
no gelo escuro
drenando água fresca

* * *

redes para polvos
verão de sonhos lunares
logo findo

* * *

gata, tão
magra de amor
e cevada

* * *

velho lago
sombra-salto
um sapo

* * *

noite clara, som
de roupa batendo
na cisterna

* * *

limiar de outono
campo de arroz
verde oceano

* * *

primaverar
lua bordada
e odor de ameixa

* * *

corisco
pio de garça
estripa o breu



Nota – traduzidos a partir da comparação de diferentes versões para idiomas ocidentais e de uma notação fonética. No caso do inglês, sobretudo as versões de Lucyen Stryk, mas também as de Noboyuki Yuasa e Cid Corman. Todas as versões destes hai-kos foram feitas em 1999, num contexto mais amplo de estudo da literatura e da filosofia sino-japonesa.




* * *

Revelar o invisível a partir da crença no visível


Jean Vigo, L'Atalante, 1934




Minimalismo-barroco: uma sinopse



"Se um autor se deixa comover pela paisagem escolhida, se esta lhe evoca recordações e sugere associações, ainda que subjetivas, isso, por sua vez, provocará no público uma emoção específica".

[Tarkovski]




Durante algum tempo, mantive com Alexandre Veras, ao longo da feição dos documentários que realizamos em parceria, uma conversa sobre cinema e revelação. Meu ponto de vista pode ser resumido a dois aspectos: i. um cinema apto a REVELAR; ii. um cinema que se contrapõe aos excessos barrocos da arte brasileira em geral. A este cinema [ou a este modo de encarar o desafio de ensaiar uma nova concepção estética de cinema] denominei, por contraste radical, de minimalismo-barroco. Ele se sustenta, basicamente, em duas assertivas. A primeira, está suficientemente bem expressa por André Bazin, da seguinte forma:

O realismo busca expressar simultaneamente o concreto [contingente, transitório] e o essencial do mundo. O falso realismo se contenta em nos fornecer uma ilusão das formas. A fotografia liberou a pintura barroca dessa obsessão pela semelhança.

A segunda pode ser expressa através desta frase de Benjamin:

O passado deve tornar-se citável em todos os seus momentos.

A primeira evita qualquer especulação mais rococó ou preciosista sobre a relação entre realidade exterior e imagem. Ou seja, ela insiste em que só porque existe uma realidade exterior existem imagens que a reflectem. [Aqui, sem vice-versa, a precedência é do mundo (concreto, exterior)]. A segunda aponta para o fato de que se o filme não possuir um esteio sócio-histórico calcado numa consciência do passado, das prévias condições históricas que cercam o assunto do filme, ele será uma mistificação. Eis a razão pela qual, para um cineasta como Rohmer, um cinema puramente visual é incapaz de dimensionar valores morais. Com isto Rohmer ataca aquele tipo de cinema que se fecha sobre si ao modo de uma vanguarda esotérica e supostamente atemporal.

A fórmula que melhor achei de traduzir tudo isso num modo compacto foi: “o cinema revela o invisível sem violar a visibilidade das coisas”.

Para um maior contexto sobre a produção de cinema documental contemporânea no Ceará, este artigo online na revista Cinética, de São Paulo, da autoria de Cleber Eduardo:


[http://www.revistacinetica.com.br/doctvesquinas.htm]


Para uma contextualização em livro, consultar Filmar o Real - Sobre o documentário brasileiro contemporâneo, de Consuelo Lins e Cláudia Mesquita, Ed. Zahar, 2008.




* * *

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O que não pode ser transposto: Weil


Jess, Narkissos, the last translation, c.1978




Entre as mais sábias palavras sobre tradução

“Os obstáculos materiais – falta de lazer, fadiga, falta de talento natural, doença, dor física – atrapalham na aquisição dos elementos inferiores ou médios da cultura, não na dos bens mais preciosos que ela encerra. O remédio para isso é um esforço de tradução. Não de vulgarização, mas de tradução, o que é bem diferente. [...] A arte de transpor as verdades é uma das mais essenciais e das menos conhecidas. O que a torna difícil, é que, para a praticar, é preciso ter-se colocado no centro de uma verdade, tê-la possuído em sua nudez, por trás da forma particular sob a qual ela se encontra por acaso exposta. [...] De resto a transposição é um critério para uma verdade. O que não pode ser transposto não é uma verdade; do mesmo modo o que não muda de aparência segundo o ponto de vista não é um objeto sólido, mas uma ilusão ótica. No pensamento há um espaço de três dimensões".

[Simone Weil, O Enraizamento [L'Enracinement, 1949], trad. de Maria da Paz Loureiro, Ed. Edusc, 2001, p. 64 --- grifos nossos]


* * *


O silêncio e a escuridão em sua pureza: Huizinga


[s/i/c]



O Violento Teor da Vida

Aqui de novo todos os aspectos da vida eram de uma vaidosa ou cruel publicidade. Os leprosos soavam suas matracas e seguiam em procissão, os mendigos exibiam suas deformidades e desgraças nas igrejas. Cada ordem e casa senhorial, cada categoria e profissão distinguia-se por suas vestes. Os grandes senhores nunca se deslocavam sem um ostentoso aparato de armas e uniformes, a incitar medo e inveja. Execuções e outros atos de justiça públicos, a falcoaria, casamentos e funerais, eram invariavelmente anunciados por pregões e procissões, canções e música. O amante envergava as cores da amada; colegas, o emblema de sua irmandade; partidários e criados, as divisas e brasões de seus senhores. Entre a cidade e o campo, por igual, o contraste era agudo. Uma cidade medieval não perdia-se em extensos subúrbios fabris e residenciais; cingida por suas muralhas, erguia-se como um todo compacto, eriçando-se com inumeráveis torreões. Por mais altas e ameaçadoras que fossem as casas dos nobres ou mercadores, no panorama da cidade, o grandioso aglomerado de igrejas sempre dominava tudo. O contraste entre silêncio e som, escuridão e luz, como aquele entre verão e inverno, era bem mais demarcado que em nossas vidas. A cidade moderna escassamente vivencia o silêncio e a escuridão em sua pureza, nem o efeito de uma luz solitária ou uma avulsa lamúria distante. Todas as coisas apresentavam-se à mente por violentos contrastes e impressivas formas, emprestavam um tom de excitamento e paixão à vida cotidiana e tendiam a produzir aquela perpétua oscilação entre desespero e feroz contentamento, entre crueldade e pia ternura que caracterizavam a vida na Idade Média.
[Johan Huizinga, O Outono da Idade Média [Herfsttij der Middeleeuwen], Edição de 1954, p.9, trad. nossa]





Nota – este livro de Huizinga em francês foi editado sob o título de O Fenecimento da Idade Média.
E já este trecho da introdução parece sugerir que verdadeiros contrastes só existem entre elementos bem demarcados por tradições consolidadas no tempo não por decretos de politicamente correto.


* * *

Arquetipias brasileiras


[s/i/c]


Uma ideia traduzida em dois estilos



[...]

Única fortuna, os seus dentes de ouro

não servirão de lastro financeiro

e cobertos de terra perderão o brilho

enquanto as amadas dançarão um samba

bravo, violento, sobre a tumba deles.

[Drummond, “Necrológio dos Desiludidos do Amor”]



Se existe alma,

Se há outra encarnação,

Eu queria que a mulata

Sapateasse em meu caixão.

[Noel Rosa, “Fita Amarela”]



Nota - será que essa analogia pode em parte ser uma ilustração do que segue declarado duas postagens acima sobre a transposição de uma verdade?


* * *


O jornal como arquivo mais reluzente que o jornal como jornal


[s/i/c]


A Morte do Gráfico


Morre o gráfico Antônio de Sousa Louro

Faleceu um dos gráficos mais antigos do Ceará, Antônio de Sousa Louro, que ao lado de Demócrito Rocha e Paulo Sarasate, assistiu o nascimento do O POVO. Desaparece o velho e querido companheiro com 75 anos, completados a 15 de junho passado, e depois de prestar os melhores serviços a este jornal, ao longo de 39 anos. Choramos a morte do velho companheiro que foi, também, um bom professor. Desejamos que se encontre com os bravos, ao lado dos quais lutou. [O Povo, 25.07.09]



Esta foi a notícia que me chamou mais atenção em edições recentes de O Povo. Foi publicada originalmente em 25 de julho de 1969. E republicada na seção Um dia como hoje - em que se reproduzem matérias publicadas há várias décadas, pois o jornal já é um dos mais antigos do Brasil. Por várias razões a matéria chama os olhos. Havia artes gráficas manuais, nos jornais de então. Pode-se imaginar a incessante faina. Os tipos. Um mundo mecânico de graxa e músculos. Um em que a mão humana moldava formas [muito mais do que clicava mouses]. Paciente composição. Intenso trabalho braçal. O produto final de todo esse trabalho, o jornal, se torcido , ao final de sua composição, pingava suor. Um suor cor nanquim. Suor e tinta. Trabalho daquele tipo que Simone Weil nos adverte: “é fácil perceber o lugar que o trabalho físico deve ocupar numa vida social ordenada. Ele deve ser seu centro espiritual.” De resto, o velho gráfico morreu em tempo adequado. O Povo, que ele viu ser fundado, em 1928, incorporou o primeiro parque gráfico em off-set do Ceará, dois anos depois de sua morte. Em que diário hoje ao redor do mundo encontrar-se-á a morte de um colega expressa em frases como: "desaparece o velho e querido companheiro" ou “choramos a morte do velho companheiro que foi, também, um bom professor”?



* * *


domingo, 26 de julho de 2009

Movimento de fora para dentro


Robert Bresson, Lancelot du Lac, 1974



Sangrando no bosque

-->

Por várias razões, Lancelote do Lago [Lancelot du Lac, 1974] é um dos filmes mais idiossincráticos da já idiossincratíssma filmografia de Robert Bresson. E por diversas razões. Um projeto nutrido por Bresson desde o início dos anos 60, ele só pôde realizá-lo uma década depois.
Além disso, para o Lancelot, Bresson pensou em, pela primeira vez, lançar mão de atores profissionais depois de muitos anos, contrariando sua prática de só formar seus casts com o que ele chamava de 'modelos'. [Para os papéis de Guinevere e Lancelot ele havia cogitado, respectivamente, Natalie Wood e Burt Lancaster – ambos no auge de suas carreiras].
O projeto, no entanto, desandou. E, muitos anos após, ele acabou empregando 'modelos' e não atores na feição do filme. 'Modelos' é sua denominação para amadores, gente comum, que nunca esteve antes diante de uma câmera de filmagem sob um set de luzes. E o que Bresson almejava com esses modelos era justamente, através deles, captar uma dose a mais de espontaneidade e humanidade – complexa, hesitada, exilada dos clichês das performances dos atores escolados: os galãs ou primas-donas, que o star system de Holywood consagrou. [Ou, por aqui, o telemelodrama da Globo].
Uma espontaneidade que, a seu modo de ver, perde-se para sempre quando se estuda para/ou se torna um ator profissional. Os tiques e vícios que são incorporados nesse processo. Vícios que, de acordo com ele, deixam em corolário o fato de uma pessoa sequer erguer a sobrancelha com certa espontaneidade ou automatismo. Toda essa questão é, aliás, calcada na contraposição radical que Bresson propõe entre o teatro, de um lado, e o cinema de outro. Sendo o cinema, para ele, uma espécie de anti-teatro.
Aliás, não propriamente o cinema. O termo que Bresson lançava mão era 'cinematógrafo'. E era 'cinematógrafo' o que ele dizia realizar para contrapor sua arte à quase totalidade do que fora e vinha sendo feito para ser veiculado em salas de exibição ao seu tempo. 'Cinema', para ele, na radicalidade de seu parti-pris, era apenas teatro fotografado. Tudo isso segue exposto em suas raras entrevistas e no seu precioso e único livro, Notas sobre o cinematógrafo. O livro é, na verdade, um magro analecto de uma devastadora lucidez e organicidade. Um maximário como não se encontra igual entre qualquer outro grande cineasta que escreveu sobre o ofício. Há uma proverbialidade espontânea exalando-se ao longo de todo o livro. Vejamos algumas dessas pequenas notas. Em especial, as que tratam dessa relação teatro/cinema, mediada pela diferença entre atores/modelos – e que ele entendia como tão conflituosa e, mesmo, antitética. [Até certo ponto o grande número de citações visa contextualizar um melhor entendimento da questão]:

Um ator extrai de si o que não está verdadeiramente dentro dele.
[Notas sobre o cinematógrafo, trad. Evaldo Moscarzel, Iluminuras, 2005, p.56]
Modelos. Capazes de se abstrair da própria vigilância, capazes de ser divinamente 'eles mesmos'.
[p.63]
A seus modelos: “falem como se estivessem falando para vocês mesmos”. MONÓLOGO EM VEZ DE DIÁLOGO.
[69]
Modelos. Mecanizados exteriormente. Intactos, virgens interiormente.
[70]
O ator que estuda o seu papel supõe um “eu” conhecido antecipadamente (que não existe).
[74]
O real não é dramático. O drama nascerá de uma evolução de elementos não dramáticos.
[75]
À segurança dos atores contraponha o encanto dos modelos que não sabem o que são.
[77]
Modelos: movimento de fora para dentro [nota do blogueiro: isto é do visível, do mundo, para a personalidade; ou se quiserem, do mundo para o espírito, o temperamento, a psicologia individuada de cada um]
Atores: movimento de dentro para fora.
[18]
Não há relações possíveis entre um ator [de teatro] e uma árvore. Eles permanecem dois universos diferentes. [Afinal] uma árvore de teatro simula uma árvore verdadeira.
[21]
Opor ao relevo do teatro a superfície lisa do cinematógrafo.
[27]
No palco, um cavalo, um cachorro que não é de gesso causa um mal-estar. Ao contrário do cinematógafo, buscar uma verdade no real é funesto para o teatro.
[As seguintes citações foram retiradas de entrevistas com o cineasta, em diferentes revistas e até documentários, mas vão no mesmo rumo]:
O cinema é o teatro fotografado. O termo cinematógrafo é, para mim, sinônimo de arte cinematográfica.”
Dizer um texto, ler um texto, nunca recitá-lo.”
Uma dificuldade substancial em parte de meu trabalho é fazer meus não-atores falar normalmente. Não pretendo eliminar o diálogo (como no cinema mudo), mas meus diálogos têm de ser muito especiais – não como os discursos do teatro.”
Um ator adquiriu de tal modo o hábito de ser ator que, na própria vida, ele é ator. Não pode evitar sê-lo. Viver de outra maneira. Não pode existir de outro modo que não seja exteriorizando-se.
[Não buscar] catalogar uma emoção como fazem os virtuosos. É isso: os atores são virtuosos.
A propósito da originalidade, falaria dela em qualquer pessoa exceto em mim. Mas há, a este propósito, uma definição de originalidade que é magnífica e que talvez nos possa servir - quem sabe transformando-a, reescrevendo a coisa. É a seguinte: "a originalidade é querer fazer como os outros sem nunca conseguir". É uma definição maravilhosa e que é de uma verdade extraordinária.
[Robert Bresson]
Bem, aqui, o leitor – especialmente o leigo – já pode ao menos ter uma idéia de como Bresson concebia a diferença entre ator e modelo. Ou entre teatro e cinematógrafo. Para ele, o cinematógrafo, arte mais realista que o teatro, capta e revela – obviamente lançando mão de técnicas e meios próprios – o real de modo muito mais efetivo que o teatro. E aqui não se trata de mero ou ingênuo “naturalismo”. [E como soa saudável essa sua crença em um mundo real, exterior e vivo, a ser REVELADO].
É, de resto, uma opinião controversa, bastante discutível. Fôssemos entrar por essa senda e ela demandaria muito mais espaço. Por ora, dizer ao menos que, concordemos ou não com ela, em parte ou radicalmente, Bresson a desenvolveu com fôlego e, inclusive, a ilustrou com raro brilhantismo, através de seus treze filmes, que assomam, de fato, tão únicos diante de quase todos os demais filmes que se vê por aí. E, por vezes mesmo, um tanto desajeitados ou deslocados.
Essa falta de jeito, então – especialmente no que diz respeito à performance dos atores, mas não só – está presente de modo marcante no Lancelot. Assim como os enquadramentos estranhos, que decepam cabeças e mãos. O valor dado ao ato de atravessar portas. O modo como seus raros closes privilegiam as mãos e os pés de seus modelos, muito mais do que seus rostos. ou ainda observam de muito perto objetos banais: uma concheira de sopa, dois figos verdes à palma de uma mão. Assim como no Lancelot salta aos ouvidos outra das obsessões do autor de L'Argent: o emprego do som.
Lancelot du lac, começa com um tropel de cavaleiros andantes, metidos em suas armaduras, por um bosque. O filme trata da legenda do Santo Graal já em seus estertores. O centro das tramas em torno do Rei Arthur e dos cavaleiros da távola redonda vai por recobrar essa relíquia. Ou seja, o cálice que Cristo usou na Última Ceia. Acreditava-se que a descoberta desse cálice e sua veneração poderia atrair anos de paz e prosperidade para o reino. Instalar um espécie de milenarismo. O mais jovem e virtuoso dos cavaleiros da Távola, Perceval se lança, então, a essa tarefa. Reza a lenda que chegou a encontrá-lo. Mas Perceval jamais retornou de sua jornada. E sua figura restou envolta em brumas de mistério. Ele sequer aparece no filme, já que os sucessos postos em campo se dão muito após a passagem de Perceval pela intriga.
À sua vez, após o sumiço de Perceval, instala-se uma verdadeira competição entre os outros cavaleiros, incluindo Lancelot, para ver quem teria o privilégio de recobrar o Graal. E a própria busca a que se lançam é marcada por uma truculência extrema: povoados incendiados, igrejas profanadas, assassinatos, traições, conspirações, motins, acusações, desconfianças. Todo um mundo de maquinações e jogos de poder onde o que menos entra, de fato, em consideração é reaver a relíquia por mérito da virtude.
O certo é que, após muitos anos de busca, os cavaleiros retornam a Camelot, à corte de Arthur, de mãos vazias. E é neste ponto que o filme, de fato, começa. Lancelot, um dos últimos a retornar, logo reata seu idílio adúltero com a Rainha Guinevere, a mulher de Arthur. Nesse ínterim, Mordred, um antigo desafeto, acusa-o de traição e Lancelot, a despeito de receber o apoio de seu fiel amigo Gawain – que, após a partida de Perceval, parece assumir o posto do cavaleiro mais tocado pela graça e pela santidade – exila-se da corte e vaga pelos bosques. No entanto Mordred não contente em pôr o mais valoroso dos cavaleiros no exílio, tenta, à certa altura, usurpar o trono pondo-se em combate contra o próprio rei. Por fim, Lancelot retorna triunfalmente, para, ao lado de Gawain, defender Arthur contra a tentativa de usurpação de Mordred. [Note-se ao redor dessas lendas todo o movimento de exílio e retorno. Um retorno para a restauração da honra perdida. Mas também um retorno para casa. Para o auto-conhecer-se. É o mesmo que há na Odisseia, no Poema do Cid, etc. Cá, entre nós, no Grande Sertão, p. ex.]
Mas também a legenda arturiana, como tratada por Bresson, revela uma Idade Média sem nenhum glamour. Há intriga e violência vazando por todos os lados. Os interiores dos castelos são despojados, quase sem móveis ou adereços. Câmaras ocas, sórdidas, que ressoam o passo metálico de quem as atravessa. A távola redonda mais se assemelha a uma tosca mesa de madeira crua. Corpos prosseguem em combate e o sangue esguincha para fora de armaduras. Está por todo lado. Numa gesta, falta de qualquer charme, o destaque segue para a mecânica violência do combate e da dificuldade de se combater guarnecido de elmos, couraças e gibões de couro. Em suster e manejar as pesadas lanças. As montarias são cavalinhos pequenos e sem garbo. O 'modelo' que faz Lancelot, é já um homem de meia-idade, que pouco retém no rosto,- com marcas de expressão dignas de quem foi açoitado pela vida - a olímpica marca dos vencedores, característica dos galãs. O bosque, sombrio, é entrevisto tanto como metáfora de vida neste mundo quanto do próprio demônio. Ele está coalhado de marcas dessa violência. Esqueletos de cavaleiros a pender das árvores, ainda revestidos de suas armaduras. Altares de capelas profanados. Pilhas de reluzente metal recobrindo os corpos dos cavaleiros trucidados em combate acumulam-se pelas trilhas. É um mundo sombrio, aparentemente sem remissão. Mas, ainda assim, estranhamente mais atraente que o nosso. Ou mais obcecado pela busca da verdade.
Uma das cenas mais belas do filme é quando Lancelot, ferido após um combate, refugia-se no bosque. Sangrando. Ele e seu cavalo. A cena, aliás, é aludida em um poema de Robert Creeley, que pode ser visto aqui [com a respectiva tradução].
No filme, a mais severa crítica a todo esse estado de coisas – a insana violência desencadeada pela busca do Graal – provem de Guinevere. Ela dimensiona muito bem o tanto que essa relíquia sagrada, tornada objeto de disputa, está no centro de tamanhas violência, morte e desgraça. Guinevere assoma também como a única dama no centro de uma malta de guerreiros que nela entrevêem não só uma mulher, mas uma espécie de ideal.
O filme é também, entre todos os de Bresson, onde um elemento-chave mais é posto em evidência: o som. É um filme também para ser ouvido por músicos. Não que nele haja música ou sequer trilha sonora – a não ser um pequeno tema na abertura, executado por flautas e tambores. Mas, de outro modo, porque ressoa, ao longo de toda sua duração o clangor metálico das armaduras, o tropel dos cavalos, o reverberar oco das amplas salas vazias dos castelos, onde se trama a desgraça alheia. Ou seja, tudo que compõe o índice maior da violência de que ele trata é amplificado pelo som.
Como já foi dito, não há qualquer altivez galante – talvez à exceção do jovem Gawain [que é o semblante que aparece na foto de ilustração, acima, em primeiro plano, tendo Guinevere ao fundo] - entre os cavaleiros da Távola. Eles assomam tão sórdidos quanto jagunços. E, em certo sentido, a estes se assemelham. Na cena do duelo, as peças de metais e a dificuldade de se mover sob elas parecem ganhar destaque diante da agilidade ou da bravura dos contendores. E as armaduras reforçam ainda mais os movimentos mecânicos dos protagonistas – tão característico de outros filmes de Bresson. Elas parecem conformar uma espécie de máscara que se estende ao corpo inteiro e não só ao rosto.
O Lancelot de Bresson talvez não possa constar entre seus melhores filmes. Apesar de despojado, não revela o minimalismo de Um Condenado à Morte Escapou. Ou o balé de movimentos e mãos de Pickpocket. Ou certo idílio da província captado ainda que por contraposição á desgraça dos protagonistas em Diário de um Pároco ou Mouchette. Ou o charme de Au Hasard Balthazar, que tem como protagonista um burrico. Ou, por fim, as sofisticações do mundo nas grandes metrópoles e a ausência de graça como em L'Argent, seu canto de cisne.
E, ainda assim, é um grande filme. É Bresson em estado puro. Provem do menos barroco dos cineastas. Do que, por sua contenção e radical ênfase no emprego mínimo de recursos e de sua criatividade em desencavar sucedâneos extremamente criativos para velhas práticas narrativas e técnicas, mais possui lições a ensinar à estética e ao cinema de um país histórica e endemicamente tão barroco quanto o Brasil.

* * *