Robert Bresson, Lancelot du Lac, 1974
Sangrando no bosque
Suplemento Ótico
eu queria ter mais olhos
um que olhasse para dentro
sem tanto dedo em riste para
tudo que fiz de falho
a dor que causei aos outros
ao longo das novas folhas no galho
eu queria ter mais olhos
que me dissessem: “ei, você não é o centro
do mundo”. me dessem a rima rara
de ser sereno, quando venço ou falho
menos avoado, menos em outro
planeta, cortando a fala dos amigos em talho
que se põe na ratoeira, em vez de comer
mas, ah – interjeição maldita – que fazer?
vestir-se de amor, compaixão, nexo?
olhos a mais não somariam entender
se, com dois só, o mundo é tão complexo
[fortaleza, 25.07.09]
* * *
"Então passei a contemplar a sabedoria, e a loucura e a estultícia. Pois que fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram".

Dieci poesie scritte in un mese
non è molto anche se questa
sarebbe l’undicesima.
Neanche i temi poi sono diversi
anzi c’è un solo tema
e ha per tema il tema, come adesso.
Questo per dire quanto
resta di qua della pagina
e bussa e non può entrare,
e non deve. La scrittura
non è specchio, piuttosto
il vetro zigrinato delle docce,
dove il corpo si sgretola
e solo la sua ombra traspare
incerta ma reale.
E non si riconosce chi si lava
ma soltanto il suo gesto.
Perciò che importa
vedere dietro la filigrana,
se io sono il falsario
e solo la filigrana è il mio lavoro.
Valerio Magrelli
Dez Poemas Escritos em um Mês
Dez poemas escritos em um mês
não é muito embora este
seria o décimo primeiro.
Tampouco os temas são distintos
ao contrário há um só tema
e tem por tema o tema, como agora.
Isto para dizer quanto
resta a este lado da página
e busca e não pode entrar
e não deve. A escritura
não é espelho, senão
o vidro esmerilado das duchas
onde o corpo se estraçalha
e só vislumbra sua sombra
incerta mas real.
E não se reconhece quem se lava
mas somente seu gesto.
Por isso é importante
ver atrás da filigrana,
se eu sou o falsário
e só a filigrana é meu trabalho.
Tradução: Priscila Manhães Lerner [do blogue Dias de Voragem]

Asa Branca
“que eu te asseguro”
[Gonzaga/Teixeira]
De fole em fole um povo faz folia;
Da sua tristeza extrai crua alegria
De quartzo, litania de estios, lençol
Branco engomado após quarar ao sol.
Longe é sempre perto, essa imagem
Da terra perdida por decapagem.
Terra como nenhuma outra paisagem
paradoxo, do verde para zincagem.
Nos esguios quintais da cidade fria,
Sob ciranda há baldrame, aboio, elegia;
E a saudade, asa de dor do pensamento,
Faz-se branca quando é negra e o contrário,
Tomando à cruviana, à asa do vento,
Ao verbo assolado de memento seu salário.
[Fortaleza, 21.07.09]

An Arundel Tomb
Side by side, their faces blurred,
The earl and countess lie in stone,
Their proper habits vaguely shown
As jointed armour, stiffened pleat,
And that faint hint of the absurd —
The little dogs under their feet.
Such plainness of the pre-baroque
Hardly involves the eye, until
It meets his left-hand gauntlet, still
Clasped empty in the other; and
One sees, with a sharp tender shock,
His hand withdrawn, holding her hand.
They would not think to lie so long.
Such faithfulness in effigy
Was just a detail friends would see:
A sculptor’s sweet commissioned grace
Thrown off in helping to prolong
The Latin names around the base.
They would not guess how early in
Their supine stationary voyage
The air would change to soundless damage,
Turn the old tenantry away;
How soon succeeding eyes begin
To look, not read. Rigidly they
Persisted, linked, through lengths and breadths
Of time. Snow fell, undated. Light
Each summer thronged the glass. A bright
Litter of birdcalls strewed the same
Bone-riddled ground. And up the paths
The endless altered people came,
Washing at their identity.
Now, helpless in the hollow of
An unarmorial age, a trough
Of smoke in slow suspended skeins
Above their scrap of history,
Only an attitude remains:
Time has transfigured them into
Untruth. The stone fidelity
They hardly meant has come to be
Their final blazon, and to prove
Our almost-instinct almost true:
What will survive of us is love.
Philip Larkin
Uma Tumba em Arundel
Lado a lado, os rostos borrados,
Conde e condessa na pedra jazem,
Seus hábitos vagamente mantém-
Se presos à armadura, vinco em hiato,
E esse vestígio débil e disparatado–
Os pequenos cães sob os sapatos.
Tal austeridade do pré-barroco
Quase não envolve o olho, e finda
Por ir à magra mão esquerda dele, ainda
Pousada oca na outra; e a gente ao vê-la,
Com agudo choque de terno floco,
Essa mão afastada, segurando a dela.
Eles não cogitariam tanto tempo deitar.
Essa fidelidade em efigiem
É só um detalhe que amigos veriam na origem:
A graça gentil de um escultor sem estase
Lançado-se à tarefa de prolongar
Os nomes em latim em torno da base.
Ambos não adivinhariam quão cedo
Em sua supina viagem estacionária
O ar mudar-se-ia em muda avaria,
Afastando para bem longe a criadagem;
Quão cedo espertos olhos optariam em degredo
De ler, ver. E rijos nessa hospedagem
persistem, atados, ao longo de lapsos e vãos
De tempo. Nevascas, sem data. A luz
A cada verão enchendo a taça. Chus
Nem bus de cantos de aves acesos juncaram
Aquele mesmo coalho de ossos no chão
E, acima, nas trilhas, a incessável gente então
Veio, banhar-se na identidade deles.
Agora desamparada no oco de uma era
Não armorial, uma gamela
de fumo ascende, lenta trajetória
lassamente por duas meadas, sobre eles,
e só um ato permanece em sua migalha de história:
O tempo desfigurou-os em inverdade,
A fidelidade da pedra a dizer
O que mal suspeitavam e veio a ser
Seu brasão final, a contrapropor
Nossa quase-instintiva quase verdade:
O que nos sobreviverá é amor.
* * *
Home is so Sad
Home is so sad. It stays as it was left,
Shaped to the comfort of the last to go
As if to win them back. Instead, bereft
Of anyone to please, it withers so,
Having no heart to put aside the theft
And turn again to what it started as,
A joyous shot at how things ought to be,
Long fallen wide. You can see how it was:
Look at the pictures and the cutlery.
The music in the piano stool. That vase.
Philip Larkin
A casa é tão triste
A casa é tão triste. Foi largada como existe,
Talhada para o conforto dos últimos a sair
Como se para reavê-los. Ao invés, um chiste
quanto a agradar a outros, segue a defluir,
sem coração a escantear além do que resiste
ao furto e então retorna a seu sarro,
cromo feliz do que coisas devem ser,
há muito espatifadas. Pode-se ver seu pigarro
de antes: na cutelaria, nas fotos a pender.
Na música ao banco do piano. Nesse jarro.
* * *

AMOR?
para J.C.M.,
que me ensinou o que há de mais essencial em outra língua: xingamentos, palavrões e gírias para as partes do corpo que recebem mais cifras que um dicionário de acordes.
E chegar à foz do rio que meandra a cidade. Na esplanada da areia, duas cadeiras, mesa de pau-a-pique. Chuva cessa. Sol rompe. Esplêndido. Mineral. Como só no Nordeste. Dunas a perder de vista e água entre elas. Relíquia de chuvas passadas. Lagoas tão translúcidas que quase se pode ignorar essa lente úmida até o fundo. Mar bate com força nos contrafortes negros. Pulsa nos corpos. Casas brancas, de telhados rubro-pálidos, lado de lá do rio. Paisagem absorvida por poros.
Ela não trouxera cigarros. Espalha protetor solar na pele de uma overdose dourada. Braços mais macios que fina pátina papel-de-arroz, confeitos de chegadinho. Olho mais belo que espelho d'água da Lagoa da Tiaia. Seu porte. Sexo mais talho que um meridiano dividindo globo. Entumescido sob o azul do biquíni. Tão indispensável. Belo arco, para se entrar por entre.
Fala muito de Salvador: Praia da Barra, Farol, planura da vida – selvageria de álcool, maconha, pó, e um apartamento – estadia de trezentos dólares incluindo usual suprimento de dope. Tudo se resume a cifras. Estatística. Valor. A necessidade de se tragar a vida em ritmos de hedonismo.
Fala um português quase correto, ora. Porém uma preposição ou outra ainda sai do lugar. Prosseguimos andando. Caminhar para o ermo, bom método de conversa quando se tem o que assuntar com uma mulher. Com uma que se quer doidamente.
Tomo sua mão de leve, velada porcelana. Mas não como posse. Se ela não fala, em silêncio seguimos, porque todas as palavras murcham diante do que realmente precisa ser dito. Melhor, revelado. E, então, ela não compõe apenas aquela fala que se diz para não ficar mudo. Porque há momentos em que palavras são palha. No percurso, um siri amarelo-cardo espalha um rastro sutilíssimo sobre a areia úmida. Move-se. Declara vida. A que seria de minha filha. De meu filho?
Vez por outra ela abaixa para coletar conchas. E, nesse afã, dá com carcaça ocre de um minúsculo lagostim, estrias semelhando acabamento sunburst. Como tudo nela é voluta e curva. Perfeição fusa, que aponta para espiral. Que pode atingir diferentes pontos cardeais em geologia longa, a partir de onde é, como na Rotunda do Museu Ferroviário de São João d'El-Rei. A começar pelas maçãs do rosto. A prosseguir para ombros, seios, ancas. Perfeição das jarreteiras, onde a marca de sol se aplaca.
No que ela curva-se para apanhar uma concha radiada e quebradiça, nossos rostos tão rentes. Agacho-me também, no mesmo esforço: involuntária recorrência. Ou voluntária. Sei lá. Ao alcance de um beijo, fixo seus olhos densamente. Não são os que conheço. E são. Mas não passarão à minha filha. A meu filho? Embora permaneçam duplamente para mim. Em parataxe. E ainda hoje. O universo de areia, palha, madeira, espuma e água cercando-nos. Meio-dia lacerando pele como navalha. O corpo sobre o corpo tece elásticos e espasmo. Enfiar-se dentro da outra. Um universo repleto de esferas, bolas, bulbos, rodelas, círculos, fusas. Os pelos do púbis. A solvente umidade. Volutas.
O que a fisicalidade ensina quando tudo a ela se resume? Quem sabe? Depois de tudo, aquela sensação suave. De torpor. De marulho amplificado. O tom de voz, de confidência, levemente ampliado. E sentir-sem como um galo triste. Ou um cortesão farto. Faz parte.
Lá seguem conversas, vexações: decepção; projetos de estudos; depressão; antidistônicos prescritos por estúpidos terapeutas. E sobretudo o tal aborto. É de rasar os olhos. Passar a vau a imundície dos anos. O tanto que seguimos enxovalhados e sórdidos mesmo que juventude e beleza nos torneie os corpos.
Às nossas costas, esqueleto de uma pequena jangada, piso arrebentado, recheio de isopor à mostra. A propor mínimas sombras.
Voltar em maior silêncio que ir. Voltar de onde juntos sobre areia áspera, vento açoitava pele. Tudo sabe a fim sobre a mesa rústica. A descontrole sobre fado. Ela a todo instante soerguendo o sutiã azul do biquíni. Penélope e Circe a coincidir. Mas não o suficiente. E meu rancor.
Sentamos de novo à mesa. Copos de cerveja. Caranguejos, pirão com tempero verde. Insipidez. Flor invertida. Quem pode sentir o gosto daquela comida?
Mais tarde, na baixa-mar, mais passos, orla de mangues. Passos na areia fina que extrai assovio sob palmas de pés. Assovios que não estarão sob os pés de minha filha. De meu filho? Há silêncio agora. Quase de claustro. Mas não há sabedoria. Somos só o que sabemos. Ouro. É muito pouco. Nada. Sem estrela guia, revelação, estrada, estação de água nos olhos. Incenso. Entanto nossa missão é perdê-los? A correnteza dribla o recife. E uma coleção de suspiros. Mirra.
E nesse meio dia turbilhão há profusa luz sem luz. Há denso azul sem azul. Não mais constelações, ideias. Silêncio. Duro hiato. De sílex. De uma menina que sentiria tudo isso. De um garoto que talvez acendesse um sorriso diante dessa lavandeira que entrecorre a passos miúdos de cá para lá à beira da gamboa.
Não se deve censurar o mar a meio caminho de um beijo. Mas ninguém virá depois. Seus cabelos modulam ao sopro da viração. A frialdade da cruviana assentou-se na pele dela. Amor. Existe?
O gavião do mangue volteia majestoso uma presa entre raízes.
“Você já foi a Bahia?”, ela cantarola baixinho. Contínuo. Contínuo. E baralha os tons.
appendix: UMA ESTROFE DE SÃO JOÃO DA CRUZ
Ah, cristalina fonte,
se nesses teus semblantes prateados
formasses de repente
os olhos desejados
que trago nas entranhas esboçados.
Nota – uma variante deste conto, que é de 1993, saiu publicada originalmente na revista Afinidades Eletivas, editada por Alexandre Barbalho intermitentemente ao longo dos anos 90. Afinidades Eletivas era, de início, um panfleto quase artesanal, e que dava vazão à produção de escritores de Fortaleza no começo mesmo de suas carreiras: Carlos Augusto Lima, Lira Neto, Paulo Fraga, Alexandre Rocha, Manoel Ricardo de Lima, Willis Santiago Guerra, Alexandre Barbalho, Jorge Piero, Alexandre Veras, Valdo Aderaldo, entre outros. Além de contar, em sua composição gráfica, com amostras do trabalho de artistas plásticos como Aléxia Brasil, Barrinha, Eduardo Frota, Cardoso, Kazani, além de fotos de gente como Tiago Santana, Celso Oliveira e Solón Ribeiro. Curiosamente, Amor?, essa história de um amante ressentido por um aborto unilateral da parceira, saiu impresso em dois diferentes números da revista. O conto integra O Bumerangue e outras histórias, escrito entre 1993-96, um volume de relatos da juventude, apenas alusivamente auto-biográficos, que nunca parei para dar uma tratamento definitivo.
* * *

Uma Foto
[um pouco ao modo de Cardozo & Cabral]
teu vulto na foto
como uma bila de quinze cores
tem algo de alado
um filme de 16 milímetros
que entra na casa do olho
por um dia alugado
a parte mais feliz
de sua arquitetura
não é essa fugidia imagem
que amanhã recomeço
a ver, como um ex-voto
relíquia de viagem
(parece menos gesto
de amor que de comércio
essa modalidade de recordar-te)
pois a foto não tem pulgas
nem pelo, nela se vê
apenas uma praia em parte
dunas, em parte zelo
por um corpo jovem de mulher
meio-dia e mineral
de qualquer lado infinito
dessa foto, desejo
entrar nela, afinal,
ainda que o fora de quadro
–alto demais para os pássaros
sobrevoando a baía–
aguarde que a água ao fundo
água do mar volte a ser:
marulho, dislexia
[Fortaleza, 13.07.09]
* * *
Intimates
Don't you care for my love? she said bitterly.
I handed her the mirror, and said:
Please address these questions to the proper person!
Please make all requests to head-quarters!
In all matters of emotional importance
Please approach the supreme authority direct! ---
So I handed her the mirror.
And she would have broken it over my head,
but she caught sight of her own reflection
and that held her spell bound for two seconds
while I fled.
D.H. Lawrence
Íntimos
Você não liga pro meu amor? disse ela ressentida.
Levei o espelho até ela, e lhe disse:
Favor fazer a pergunta à pessoa certa!
Favor demandar diretamente ao estado-maior!
Em todas as questões de importância emocional,
favor dirigir-se diretamente à autoridade máxima! ---
E então lhe passei o espelho.
E ela o teria partido em minha cabeça,
mas colheu seu próprio reflexo
e isso a conteve um par de segundos
no que chispei.
* * *

Cigarettes And Whiskey And Wild, Wild Women
Perhaps I was born kneeling,
born coughing on the long winter,
born expecting the kiss of mercy,
born with a passion for quickness
and yet, as things progressed,
I learned early about the stockade
or taken out, the fume of the enema.
By two or three I learned not to kneel,
not to expect, to plant my fires underground
where none but the dolls, perfect and awful,
could be whispered to or laid down to die.
Now that I have written many words,
and let out so many loves, for so many,
and been altogether what I always was—
a woman of excess, of zeal and greed,
I find the effort useless.
Do I not look in the mirror,
these days,
and see a drunken rat avert her eyes?
Do I not feel the hunger so acutely
that I would rather die than look
into its face?
I kneel once more,
in case mercy should come
in the nick of time.
Anne Sexton
Cigarros e Uísque e Mulheres Loucas, Loucas
Talvez tenha nascido prosternando-me,
a tossir durante o longo inverno,
a esperar o beijo do perdão,
provinda com uma paixão pela vertigem,
e, no entanto, no correr do tempo,
cedo aprendi sobre o presídio
ou ser solta, a espuma do enema.
Aos dois ou três aprendi a não prosternar-me,
não esperar, a semear meu fogo subterrâneo,
onde ninguém, a não ser bonecas, perfeitas e horrendas,
pudessem ser alvos de boatos ou morrer à míngua.
Agora que já escrevi tantas palavras,
e liberei tantos amores, para tantos,
e passei por tanto do que já fui desde sempre—
uma mulher de excesso, de zelo e ganância,
acho debalde o esforço.
Não sou eu que miro o espelho,
esses dias,
e vejo um rato ébrio driblar-lhe os olhos?
Não sou a que sente a fome tão aguda
que prefere morrer a ter de olhar
o rosto dela?
Prosterno-me uma vez mais,
para o caso de o perdão chegar
no talho do tempo.
Nota - agradeço a Aldir Brasil Jr. por me haver chamado a atenção para este poema.
* * *