sábado, 25 de julho de 2009

Não somariam entender


Royal Society for the Prevention of Accidents, c.1944



Suplemento Ótico



eu queria ter mais olhos


um que olhasse para dentro


sem tanto dedo em riste para


tudo que fiz de falho


a dor que causei aos outros


ao longo das novas folhas no galho


eu queria ter mais olhos


que me dissessem: “ei, você não é o centro


do mundo”. me dessem a rima rara


de ser sereno, quando venço ou falho


menos avoado, menos em outro


planeta, cortando a fala dos amigos em talho


que se põe na ratoeira, em vez de comer


mas, ah – interjeição maldita – que fazer?


vestir-se de amor, compaixão, nexo?


olhos a mais não somariam entender


se, com dois , o mundo é tão complexo



[fortaleza, 25.07.09]



* * *


quarta-feira, 22 de julho de 2009

E dizer ó ceu ó mar ó clã ó destino


George Stevens, Swing Time, 1936





Filósofos franceses & as Auto-Peças O Fialho


[com o pensar em David Foster Wallace, apesar da ausência de notas de rodapé]

"Então passei a contemplar a sabedoria, e a loucura e a estultícia. Pois que fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram".

[Eclesiastes, 2,12]


Parece que a diferença de perspectiva entre os 20 e os 40 hoje em dia não é assim tão grande. Vejamos, a distância entre essa perspectiva é, às vezes, menos de uma década. E as décadas encolheram, uma vez que a perspectiva de vida aumentou no mundo todo. E essa vida virtualizou-se. Verdade, que aos vinte, o mundo é mais novidade. Aquela luz que se vê no rosto da menina, também se reproduz, em ilusão, refletida nas dobras da cortina, quando você volta para o quarto, bêbado e feliz, cheio de sonhos e projetos, depois de gastar sua mesada comprando tratados de pensadores franceses ou exilados romenos, que posam para fotos com ares e bicos fatais, mas que você acha que são muito legais. A luz do sol – maior em dias de estio, menor nos de chuva – sempre guarda um matiz aprazível. Afinal, você não tem contas a pagar. Ex-mulheres para encher teu saco. Ainda não meteu o nariz para fora do casaco de papai. E conferiu um pouco do que este vasto mundo tem, de fato, a desoferecer ou oferecer, sem ser propriamente teu retrato. Não tem filhos para cuidar. Porque é você que ainda é cuidado. Não tem aquela menininha que quer porque quer ouvir pela décima primeira vez a mesma história. E se revolta, se você não contar a historinha do mesmo jeito, com o mesmo entusiasmo e ca-pri-cho-sa-men-te as mesmas pausas, entonações, onomatopeias. Até com aquele sopro bufado no meio, que ela tanto gosta. E aí você tem de ser leitor e sonoplasta. Senão ela chora. E, por uma misteriosa razão, você não quer que ela chore. Mas, indo adiante, você ainda não teve projetos profissionais, que você sabia bons ou ao menos normais, arrasados por imbecis que galgaram para a sub-chefia do teu departamento a custa de muito puxa-saquismo e falta de visão – mas entendem que você deve trabalhar dobrado para a glória da firma, dos cofres e, sobretudo, do patrão que está logo acima dele – e que é seu deus e senhor (que ele, anjo decaído e travesti de Silvério dos Reis nas horas vagas) está doido para depor na primeira ocasião. E para depois arrotar: eu sou o melhor. Tenho uma Hilux e namoro uma das dançarinas dos Aviões do Forró. Aos vinte, você tem a mamãe para passar a mão no cabelo quando você sente certas dores no cotovelo. E um cão sem pulgas a levar a passeio. Todos os teus amigos são solteiros, gastam suas mesadinhas, estágios e parcos salários de primeiros empregos, bolsinhas de pós-graduação, com cinema, cerveja, futebol, praia, putas e um brinquinho de aros para a eleita no Dia dos Namorados. Ou comem-se entre si feito loucos. Mas seu fetiche maior é simples. Não vai muito além de traçar aquela coroa recém-separada que nunca olha para você no elevador - enquanto outras coisas se elevam, involuntariamente. E você pondera: será tarde para ser surfista? Talvez ela goste de um tipo mais... esportista. Será preciso mudar de look? Mas outra coisa que você quer mesmo é ser amigo daquele escritor famoso, no Facebook. E quanta especiaria! Fumar uns baseados, cafungar umas carreiras e sentir-se um gênio deslocado, incompreendido e solitário, o ser humano mais desgraçado de todo Dionísio Torres. Aos vinte ainda se pode ser de garçom a alto-executivo. E com muito menos insônia do que se imagina. E muito menos castigo. Pode-se pôr uma mochila nas costas e pegar carona até a Patagônia. E achar que o mundo gira em torno do teu umbigo. Pode-se ser irônico. Ter seu ritmo. Deslizar. Fazer isso, dizer aquilo. Sorrir após a aprovação de tuas frases de efeito. Tentar cativar os mais velhos com suas piruetinhas para ganhar o pirulito do elogio. E sentir-se a revelação da vez. Você tem códigos próprios, gírias, gestos tribais e acha isso muito bacana. Ter convicções inarredáveis. Ídolos. Porta-vozes. Aquele guitarrista que exprime o que você sente. Aquela cantora que escande com tamanha veemência os versos que, com toda certeza, foram feitos sob medida para quando você está curtindo aquela deprê por causa da menina dos brinquinhos de aro, que ora lhe passou para trás e anda de namoro com um robusto ferrabrás, um personal trainer qualquer dessa vida mais saudável, a que todos aspiram. Ou, se do contrário, está contente, ao ouvir a cantora, dá pulos de alegria quase em estágio de epitalâmio como quando você foi na Disneylânia. Você pode sonhar com uma ampla geografia. E querer passar uns meses na Groenlândia. Mas resolve seus problemas sexuais mesmo é com aquela filha de um funcionário do fórum que mora na Gentilândia. Agora, numa noite de sorte, pode até deitar com uma hippie argentina e depois uma deusa de ébano soteropolitana. Por turnos ou simultaneamente. Pode assistir filmes de Bertolucci e achar que a vida não é assim tão diferente. Escolher uma menina para namorar que guarde nem que seja uma nesga de semelhança com Liv Tyler. E tentar roubar-lhe a beleza. Embora você seja tão purista que acaba por achar que a sua Liv, bem, tem algumas espinhas a mais no rosto e uns lábios não tão carnudos. Ainda que o rosto fosse da maciez da espuma-do-mar e os lábios duas polpas de pitanga antes de você gozar. E, fora da alcova, brigar muito com seus pais, com seus professores. Faz parte. Cavar polêmicas tão altissonantes quanto ocas. Contestar os “coroas”, os "caretas", as "patrulhas". E curtir a galera. Tudo isso para escapar da tua louca e vera vontade de comer a mamãe. Comprar uma guitarra e sequer aprender a tocar “Sunshine of Your Love”. Aos vinte você é uma promessa. É mercurial como o sol de abril desabando em finas aparas de luz sobre as ruas de Fortaleza às duas da tarde, quando, à sombra, sente-se a brisa roçar o rosto feito um afago. Há algo de semi-deus grego em você. E ainda não de Otelo e de Iago. Você está para terminar a faculdade com aquele vago sentimento de haver feito o curso errado. Mas para e pensa: ainda dá tempo. E, com as engrenagens a mil em tua cabeça, inventa logo três diferentes futuros: monge budista, proprietário das Auto Peças O Fialho – o sobrenome da família – ou comissário da ONU para assuntos estratégicos no Alto Volta. E isso não parece sanha, mas a coisa mais sã. De repente, você está comendo em Paris e cagando em Amsterdam. Mesmo sem sair da Aldeota. É um pouco o colateral de tanto pó. De tantos Ciórans e Benjamins da estante pra cachola. Do tanto que você deixa sua mesada com o traficante. Tudo semelha um feature. E, no filme, claro, você é sempre o mocinho, o centro do mundo, todos se curvam ante sua passagem mesmo sem saber. Ainda que você seja aquele anti-herói mal-barbeado com um cigarro ao canto do lábio, tipo Albert Camus ou Mickey Rourke, o jovem; aquele que todos desprezam e anda sempre olhando para o chão com cabisbaixos olhos fatais, chutando latas, o nada ou algo mais. VOCÊ tem elã, VOCÊ é demais. O cultivo dessa auto-adoração sob forma do solitário maldito é a sua tara. Os outros é que não notam. Mas VOCÊ sabe: VOCÊ é o cara! Agora, a câmera nota. Pois deixa os outros sempre em segundo plano e desfocados. Aos vinte, a câmera adora VOCÊ e VOCÊ se sente adorado por ela. Mesmo nos momentos mais violentos. Mesmo nos mais fatais.
O problema é que tudo isso esgota sem mais. O filme, súbito, acaba antes mesmo de ser editado. Sem aviso prévio. E quando se olha para trás, de volta para o espelho, já não se tem muito remédio. E então se solicita uma troca, um corte para a próxima cena, e - que acinte! - a câmera já não está mais lá, passou para a geração seguinte. De início, você se revolta, tenta voltar ao proscênio, volver a los vinte! Como pode, logo você, virando figurante!? Um extra que passa tão desapercebido quanto um asceta essênio. E era tudo do que você mais temia. Ser uma daquelas figuras deslustradas, desfocadas, em segundo plano, perto da coxia dos tempos em que VOCÊ era o galã. Então desanda a malhar feito louco, maromba pesado, corre quilômetros, toma suplementos alimentares e açaís, implanta reservas capilares sobre os pampas da calva, submete-se ao terrível exame de próstata, tinge o gris nas costeletas. Mas, nas Auto Peças O Fialho da vida, mesmo o botox que se enxerta no rosto não substitui a selvageria de ter vinte anos. Como o tempo pode ter passado assim tão sem você se sentir entrando pelos canos?
E agora, aos quarenta, é você quem vende canos de escape, bobinas e calotas, atrás do balcão. E o fato de voltar a ter mais cabelos na cabeça de novo parece não haver melhorado as ideias dentro dela. Mesmo passando rápido, os dias são quase o mesmo. A mesma esparrela. Ao fim de um deles, você coça o ventre, já proeminente, ou as partes menos eminentes. Fecha o caixa. E pede para o Anísio descer a porta corrediça, porque já são seis e meia da tarde e você tem que pegar a Emília na aula de francês e o Fialho Jr. na capoeira. E, então, ao chegar no condomínio, responder uns imeios desejando aos clientes, fornecedores e amigos: "Felicidades!", a época é de festas. E, por fim, sem erro, tomar seu uísque e falar da vida alheia no bar do Ideal Clube. Que ninguém é de ferro.



appendix: DOIS POEMAS DE LEMINSKI COMEÇANDO COM "UM DIA"


um dia quero ser
um grande poeta inglês
do século passado
dizer
ó céu ó mar ó clã ó destino
lutar na índia em 1866
e sumir num naufrágio clandestino


* * *

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


* * *

terça-feira, 21 de julho de 2009

Se só a filigrana é meu trabalho


Marcel Broothaers, On the Art of Writing and on the Writing of Art, 1968




Diece Poesie Scritte in un Mese



Dieci poesie scritte in un mese

non è molto anche se questa

sarebbe l’undicesima.

Neanche i temi poi sono diversi

anzi c’è un solo tema

e ha per tema il tema, come adesso.

Questo per dire quanto

resta di qua della pagina

e bussa e non può entrare,

e non deve. La scrittura

non è specchio, piuttosto

il vetro zigrinato delle docce,

dove il corpo si sgretola

e solo la sua ombra traspare

incerta ma reale.

E non si riconosce chi si lava

ma soltanto il suo gesto.

Perciò che importa

vedere dietro la filigrana,

se io sono il falsario

e solo la filigrana è il mio lavoro.



Valerio Magrelli



Dez Poemas Escritos em um Mês



Dez poemas escritos em um mês

não é muito embora este

seria o décimo primeiro.

Tampouco os temas são distintos

ao contrário há um só tema

e tem por tema o tema, como agora.

Isto para dizer quanto

resta a este lado da página

e busca e não pode entrar

e não deve. A escritura

não é espelho, senão

o vidro esmerilado das duchas

onde o corpo se estraçalha

e só vislumbra sua sombra

incerta mas real.

E não se reconhece quem se lava

mas somente seu gesto.

Por isso é importante

ver atrás da filigrana,

se eu sou o falsário

e só a filigrana é meu trabalho.




Tradução: Priscila Manhães Lerner [do blogue Dias de Voragem]



* * *

E veja se agora pode ir mais além


Edward Hopper, Night Shadows, 1921




Chame-se


...só, sai alguém de ti
vai atrás de ser alguém que sonhe
um pouco só por si
um pouco só por ser alguém

ande só
e veja o quanto pode andar um homem só

chame alguém
e veja se agora pode ir mais além

chame alguém de ti
que queira ir também

entre tantos eus queira escolher
aquele eu em ti que queira ser você

quando sair para ir
atrás de ser só em si

espere por alguém que te chame-se
espere por alguém que te chame só...



Valdo Aderaldo






Nota - Valdo Aderaldo (1962) é músico e compositor. Integrou um das mais ressonantes bandas da cena musical de Fortaleza dos anos 80, o grupo Budega, ao lado de Rossé Sabadia, Cristiano Pinho e Edmundo Vitoriano. Morou bastante tempo na França, tendo retornado a Fortaleza em 2008. Nesse ínterim apresentou-se ao lado da cantora Paula Tesser, sua mulher, por vezes acompanhados por algumas bandas de apoio, como a Boa & Co. O casal lançou um CD chamado Retratos do Vento, gravado ao vivo, no Café Pagliuca, em 2005. "Chame-se" é a letra de uma canção sua. O fato de ela sustentar-se como poema autônomo dá a dimensão da excelência de sua produção.


* * *

Paisagem paradoxo: a terra perdida por decapagem


Um exemplar de asa branca [Columba picazuro] / [s/i/c]



Asa Branca



que eu te asseguro”

[Gonzaga/Teixeira]



De fole em fole um povo faz folia;

Da sua tristeza extrai crua alegria

De quartzo, litania de estios, lençol

Branco engomado após quarar ao sol.

Longe é sempre perto, essa imagem

Da terra perdida por decapagem.

Terra como nenhuma outra paisagem

paradoxo, do verde para zincagem.

Nos esguios quintais da cidade fria,

Sob ciranda há baldrame, aboio, elegia;

E a saudade, asa de dor do pensamento,

Faz-se branca quando é negra e o contrário,

Tomando à cruviana, à asa do vento,

Ao verbo assolado de memento seu salário.



[Fortaleza, 21.07.09]





Nota – nenhum povo do Brasil foi tão educado – quase sempre de modo duro, áspero, arbitrário – a reter a paisagem como instância moral. A trocar fichas com ela. A barganhar um senso de paisagem. A portá-la consigo onde quer que esteja. A remontá-la em ausência, como um quebra-cabeças, cuja edição convoca memória e nostalgia. Uma eloquência e uma retórica ao mesmo tempo. Forma/conteúdo. Alusão bíblica. Lamentação de Jeremias. Exílio. Babilônia. Convergência estética. Nomeação adâmica. Aquela frase de Benjamin: “só em nome dos que não têm esperança, a esperança nos é concedida”. E para ter esperança é preciso ter paisagem, descortinar um horizonte no qual há uma opção mais que um imperativo. Basta ver como da paisagem do Nordeste se fazem as símiles e metáforas em poetas como Cardozo ou Cabral. Em Cardozo, a mais litorânea [e mais metáfora]. Em Cabral, a mais agreste [e mais símile]. Basta lembrar de como Ricardo Ramos, do alto do Corcovado, descortinando toda as montanhas, o mar, a baía, ao louvar a compósita beleza do Rio, ouviu do pai: “É até bonito. Agora, bonito, bonito mesmo é o sertão das Alagoas”. Basta ver como o sertão está no título das obras maiores de Euclides e Rosa – os dois pilares base da prosa brasileira no sec. XX. [Será acaso que o primeiro jagunço nomeado, no Grande Sertão, por seu valor de lealdade e bravura, é 'Alaripe', um cearense, que, de resto, refere, em velada homenagem, Tristão de Araripe - um dos primeiros críticos mais sistemáticos da literatura no Brasil?]. Tudo isso para não falar em nomes como Odorico Mendes (que é um dos maiores tradutores da língua portuguesa), Kilquerry, José Albano, Augusto dos Anjos, Freyre, Cascudo, Bandeira, Jorge de Lima, Mário Faustino, Mello Mourão e até Clarice Lispector. Sem o Nordeste, a literatura brasileira do sec. XX seria um zero à esquerda. Não haveria, por exemplo concretismo – que deriva, como sabemos, em seu vetor mais lúcido [isto é, via Augusto Luís Browne de Campos], de Cabral. E toda essa aversão e pejorativismo em torno dos ditos regionalistas de 30 carece de ser revista, porque não passa de um mau clichê crítico que agarra-se ao pensamento do leitor mediano como cracas e ostras ao casco de um barco. [E ainda chega a ser nutrido por um espírito enfatuado, superficial, jogo-de-mídia, como Diogo Mainardi]. Talvez porque, para não falar de Graciliano, não se leia mais um romancista como Lins do Rego – que guarda sutilezas estilísticas à Faulkner ou à Flannery O'Connor. E, além, há os empréstimos do Nordeste á música erudita. Depois de chafurdar o país inteiro - o Sul, por exemplo, de onde quase nada recolheu - é do Nordeste que Villa-Lobos irá extratar temas diretos de canções folclóricas a explorar em suas experiências harmônicas, como "Sertão do Caicó" e tantas outras. Isso para não falar de onde emerge, de fato, o Cinema Novo. Hora de trazer tudo isso de volta para casa, sob novas lentes. E auferir dessas riquezas. Hora de um nóstos crítico-histórico. Hora de se contrapor ao mau-humor e fastio que esses pseudo-cosmopolitas sudestinos entediados, na academia e fora dela, tentam empanar com uma peneira contraposta ao sol [ou para usar uma palavra mais precisa, pinçada do soberbo Infância de Graciliano, uma urupema]. Num quadro para fotos e suvenires no alojamento que ocupei em Tocil Flats, na Universidade de Warwick, no início dos anos 90, os únicos versos afixados eram os desta estanza do Cardozo de “Imagens do Nordeste”:


A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.



Já esse aposto de saudade, “asa de dor do pensamento”, vem de um soneto do poeta simbolista piauiense [Antônio Francisco] da Costa e Silva, que, curiosamente, é também autor da letra do hino do Piauí.



* * *

sábado, 18 de julho de 2009

Chaveiro de gatinho e festival de culinária tapeba


[s/i/c]




Seis textos impossíveis de viver sem eles para o resto da vida n'O Povo e no DN de hoje tomados a partir de suas manchetes



1. Chaveiro de gatinho
“Hoje o Buchicho ensina você a fazer um chaveirinho de feltro em forma de gatinho”.
[Eu passo. Embora reconheça que haja coisas bem mais inúteis no jornal de hoje. E até aprecie essa linguagem malemolente, cheia de diminutivos. Mas reconheço que como artesão não conseguiria confeccionar um chaveiro de feltro no formato de um felino.]

2. Índios tapeba realizam Festival de Culinária
“Bolo de carimã, aluá, patchã, mocororó e outras comidas indígenas podem ser degustadas no Festival de Culinária que termina hoje em Caucaia, no Centro de Produção Cultural Tapeba”.
[Ué? Bolo de carimã? Aluá? Que eu saiba isso é preparado e degustado em todo o Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e numa fronteira cultural que vai bater no Norte de Minas. E por negros, brancos, pardos, albinos, mulatos, ruivos, morenos e cafusos. Até no Canadá, hoje, onde já há uma expressiva colônia cearense, se prepara aluá e pé-de-moleque [o tal bolo de carimã] durante as festas juninas. Se duvidar, de melhor qualidade e mais próximo dos processos de fabrico originais que no Centro de Produção Cultural Tapeba (sic).]

3. Aprovação de lei não inibe fumo na AL
“A lei antifumo, aprovada na última quarta-feira, ainda não é praticada por funcionários nem deputados na Casa”.
[Bem, com ou sem essa observação à lei anti-fumo, quem leva fumo - no Ceará e em outros estados da federação - nunca está nas Assembleias Legislativas. E quem descumpre leis e não é penalizado por isso tampouco.]

4. Formas de amor
“Versejar exige preparo interior. Forma de dizer dentro dos limites da harmonia. Elegância estilística. Rimas. Encanto no canto da simetria. Cadência rítmica em frases longas ou breves. […] Elegância. Nenhuma quebra de princípios. Ousadia. Imaginário no real equilíbrio dos desejos vivos”.
[Vejamos: que se resenhem livros não há nenhum problema – mesmo que a vasta maioria das resenhas não diga lá muita coisa, como o trecho desta, em destaque. Agora, que um livro de poesia com o título de Formas de Amor - Luxúria seja resenhado na seção de Opinião de um jornal que conta com um caderno de variedades [Caderno 3], soa até engraçado, um pouco surreal. Ao menos, confirmando a regra, a resenha, a exemplo de suas congêneres nos cadernos b's, não parece revelar ou elucidar muito acerca da obra em questão, como se pode perceber pelo festival de generalidades entre uma e outra aspa. Mas ao menos traz este oximoro: “nenhuma quebra de princípios. Ousadia...”].


5. Madonna presta tributo a mortos em acidente
“Durante o show que fez na Itália na última quinta-feira, a cantora Madonna prestou uma homenagem aos dois operários mortos durante a montagem do palco para um show que ela faria em Marselha, na França. No show que fez em Udine, Madonna chorou e disse que estava 'arrasada por estar, de alguma forma, associada com o sofrimento de alguém' ".
[Tss, tss. Madonna está associada ao sofrimento de muito mais gente do que ela imagina. Ao meu, por exemplo. Toda vez que tive e tenho de ouvir suas horrendas músicas, sem querer, em halls de hotéis, malls de shopping, barracas de praia, sons ambientes de lojas e até bienais do livro. Já aconteceu, certa feita, de ouvir Madonna na feira de Cascavel. Se vivêssemos num mundo minimamente justo eu poderia processá-la por poluição auditiva. A ela, aos Aviões do Forró e a uma pá de gente por aí].

6. Senado doa livros para as bibliotecas cearenses
[Que pena! O Senado doa livros às bibliotecas da UFC e da Associação dos Cegos do Estado do Ceará [Aece]. No dia em que as bibliotecas cearenses doarem livros à Biblioteca do Senado, a boa ordem das coisas estará restituída.]




* * *

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O que nos sobreviverá é amor: Larkin


[s/i/c]



An Arundel Tomb



Side by side, their faces blurred,

The earl and countess lie in stone,

Their proper habits vaguely shown

As jointed armour, stiffened pleat,

And that faint hint of the absurd —

The little dogs under their feet.



Such plainness of the pre-baroque

Hardly involves the eye, until

It meets his left-hand gauntlet, still

Clasped empty in the other; and

One sees, with a sharp tender shock,

His hand withdrawn, holding her hand.



They would not think to lie so long.

Such faithfulness in effigy

Was just a detail friends would see:

A sculptor’s sweet commissioned grace

Thrown off in helping to prolong

The Latin names around the base.



They would not guess how early in

Their supine stationary voyage

The air would change to soundless damage,

Turn the old tenantry away;

How soon succeeding eyes begin

To look, not read. Rigidly they



Persisted, linked, through lengths and breadths

Of time. Snow fell, undated. Light

Each summer thronged the glass. A bright

Litter of birdcalls strewed the same

Bone-riddled ground. And up the paths

The endless altered people came,



Washing at their identity.

Now, helpless in the hollow of

An unarmorial age, a trough

Of smoke in slow suspended skeins

Above their scrap of history,

Only an attitude remains:



Time has transfigured them into

Untruth. The stone fidelity

They hardly meant has come to be

Their final blazon, and to prove

Our almost-instinct almost true:

What will survive of us is love.



Philip Larkin





Uma Tumba em Arundel



Lado a lado, os rostos borrados,

Conde e condessa na pedra jazem,

Seus hábitos vagamente mantém-

Se presos à armadura, vinco em hiato,

E esse vestígio débil e disparatado–

Os pequenos cães sob os sapatos.



Tal austeridade do pré-barroco

Quase não envolve o olho, e finda

Por ir à magra mão esquerda dele, ainda

Pousada oca na outra; e a gente ao vê-la,

Com agudo choque de terno floco,

Essa mão afastada, segurando a dela.



Eles não cogitariam tanto tempo deitar.

Essa fidelidade em efigiem

É só um detalhe que amigos veriam na origem:

A graça gentil de um escultor sem estase

Lançado-se à tarefa de prolongar

Os nomes em latim em torno da base.



Ambos não adivinhariam quão cedo

Em sua supina viagem estacionária

O ar mudar-se-ia em muda avaria,

Afastando para bem longe a criadagem;

Quão cedo espertos olhos optariam em degredo

De ler, ver. E rijos nessa hospedagem



persistem, atados, ao longo de lapsos e vãos

De tempo. Nevascas, sem data. A luz

A cada verão enchendo a taça. Chus

Nem bus de cantos de aves acesos juncaram

Aquele mesmo coalho de ossos no chão

E, acima, nas trilhas, a incessável gente então



Veio, banhar-se na identidade deles.

Agora desamparada no oco de uma era

Não armorial, uma gamela

de fumo ascende, lenta trajetória

lassamente por duas meadas, sobre eles,

e só um ato permanece em sua migalha de história:



O tempo desfigurou-os em inverdade,

A fidelidade da pedra a dizer

O que mal suspeitavam e veio a ser

Seu brasão final, a contrapropor

Nossa quase-instintiva quase verdade:

O que nos sobreviverá é amor.





Nota- no rigoroso inverno de 1991, quando visitei a Catedral de Arundel, uma pequena cidade medieval, em West Sussex, no sul da Inglaterra, não pude deixar de lembrar deste memorável poema de Larkin, que é o fecho de seu livro The Whitsun Weddings [As Bodas de Pentecostes, 1964]. O poema parece vir preparando tudo até a grandeza insuspeitada do dístico final. Há tanta completude nele! Em especial, boa retórica na descrição e senso de história e pertença. Uma espécie de ut pictura poesis levada ao último grau. Há inclusive poesia. Essa arte que se nega por anti-poesias e teorias outras nas pós-graduações de hoje em dia. E, claro, deu um suadeira extra para traduzir. A imagem do túmulo dos condes de Arundel é, de fato, impressionante. Em especial o modo – aliás, destacado no poema – como a mão do conde distende-se, em largo, para segurar a da condessa, que parece pousar sobre a dele.



* * *


quinta-feira, 16 de julho de 2009

Talhada para o conforto dos últimos a sair: Larkin


Damien Hirst, Home Sweet Home, 1996



Home is so Sad


Home is so sad. It stays as it was left,

Shaped to the comfort of the last to go

As if to win them back. Instead, bereft

Of anyone to please, it withers so,

Having no heart to put aside the theft


And turn again to what it started as,

A joyous shot at how things ought to be,

Long fallen wide. You can see how it was:

Look at the pictures and the cutlery.

The music in the piano stool. That vase.


Philip Larkin



A casa é tão triste


A casa é tão triste. Foi largada como existe,

Talhada para o conforto dos últimos a sair

Como se para reavê-los. Ao invés, um chiste

quanto a agradar a outros, segue a defluir,

sem coração a escantear além do que resiste


ao furto e então retorna a seu sarro,

cromo feliz do que coisas devem ser,

há muito espatifadas. Pode-se ver seu pigarro

de antes: na cutelaria, nas fotos a pender.

Na música ao banco do piano. Nesse jarro.



* * *


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Conversas, vexações: um conto


Eileen Gray, 1927


AMOR?



para J.C.M.,

que me ensinou o que há de mais essencial em outra língua: xingamentos, palavrões e gírias para as partes do corpo que recebem mais cifras que um dicionário de acordes.



E chegar à foz do rio que meandra a cidade. Na esplanada da areia, duas cadeiras, mesa de pau-a-pique. Chuva cessa. Sol rompe. Esplêndido. Mineral. Como só no Nordeste. Dunas a perder de vista e água entre elas. Relíquia de chuvas passadas. Lagoas tão translúcidas que quase se pode ignorar essa lente úmida até o fundo. Mar bate com força nos contrafortes negros. Pulsa nos corpos. Casas brancas, de telhados rubro-pálidos, lado de lá do rio. Paisagem absorvida por poros.

Ela não trouxera cigarros. Espalha protetor solar na pele de uma overdose dourada. Braços mais macios que fina pátina papel-de-arroz, confeitos de chegadinho. Olho mais belo que espelho d'água da Lagoa da Tiaia. Seu porte. Sexo mais talho que um meridiano dividindo globo. Entumescido sob o azul do biquíni. Tão indispensável. Belo arco, para se entrar por entre.

Fala muito de Salvador: Praia da Barra, Farol, planura da vida – selvageria de álcool, maconha, pó, e um apartamento – estadia de trezentos dólares incluindo usual suprimento de dope. Tudo se resume a cifras. Estatística. Valor. A necessidade de se tragar a vida em ritmos de hedonismo.

Fala um português quase correto, ora. Porém uma preposição ou outra ainda sai do lugar. Prosseguimos andando. Caminhar para o ermo, bom método de conversa quando se tem o que assuntar com uma mulher. Com uma que se quer doidamente.

Tomo sua mão de leve, velada porcelana. Mas não como posse. Se ela não fala, em silêncio seguimos, porque todas as palavras murcham diante do que realmente precisa ser dito. Melhor, revelado. E, então, ela não compõe apenas aquela fala que se diz para não ficar mudo. Porque há momentos em que palavras são palha. No percurso, um siri amarelo-cardo espalha um rastro sutilíssimo sobre a areia úmida. Move-se. Declara vida. A que seria de minha filha. De meu filho?

Vez por outra ela abaixa para coletar conchas. E, nesse afã, dá com carcaça ocre de um minúsculo lagostim, estrias semelhando acabamento sunburst. Como tudo nela é voluta e curva. Perfeição fusa, que aponta para espiral. Que pode atingir diferentes pontos cardeais em geologia longa, a partir de onde é, como na Rotunda do Museu Ferroviário de São João d'El-Rei. A começar pelas maçãs do rosto. A prosseguir para ombros, seios, ancas. Perfeição das jarreteiras, onde a marca de sol se aplaca.

No que ela curva-se para apanhar uma concha radiada e quebradiça, nossos rostos tão rentes. Agacho-me também, no mesmo esforço: involuntária recorrência. Ou voluntária. Sei lá. Ao alcance de um beijo, fixo seus olhos densamente. Não são os que conheço. E são. Mas não passarão à minha filha. A meu filho? Embora permaneçam duplamente para mim. Em parataxe. E ainda hoje. O universo de areia, palha, madeira, espuma e água cercando-nos. Meio-dia lacerando pele como navalha. O corpo sobre o corpo tece elásticos e espasmo. Enfiar-se dentro da outra. Um universo repleto de esferas, bolas, bulbos, rodelas, círculos, fusas. Os pelos do púbis. A solvente umidade. Volutas.

O que a fisicalidade ensina quando tudo a ela se resume? Quem sabe? Depois de tudo, aquela sensação suave. De torpor. De marulho amplificado. O tom de voz, de confidência, levemente ampliado. E sentir-sem como um galo triste. Ou um cortesão farto. Faz parte.

Lá seguem conversas, vexações: decepção; projetos de estudos; depressão; antidistônicos prescritos por estúpidos terapeutas. E sobretudo o tal aborto. É de rasar os olhos. Passar a vau a imundície dos anos. O tanto que seguimos enxovalhados e sórdidos mesmo que juventude e beleza nos torneie os corpos.

Às nossas costas, esqueleto de uma pequena jangada, piso arrebentado, recheio de isopor à mostra. A propor mínimas sombras.

Voltar em maior silêncio que ir. Voltar de onde juntos sobre areia áspera, vento açoitava pele. Tudo sabe a fim sobre a mesa rústica. A descontrole sobre fado. Ela a todo instante soerguendo o sutiã azul do biquíni. Penélope e Circe a coincidir. Mas não o suficiente. E meu rancor.

Sentamos de novo à mesa. Copos de cerveja. Caranguejos, pirão com tempero verde. Insipidez. Flor invertida. Quem pode sentir o gosto daquela comida?

Mais tarde, na baixa-mar, mais passos, orla de mangues. Passos na areia fina que extrai assovio sob palmas de pés. Assovios que não estarão sob os pés de minha filha. De meu filho? Há silêncio agora. Quase de claustro. Mas não há sabedoria. Somos só o que sabemos. Ouro. É muito pouco. Nada. Sem estrela guia, revelação, estrada, estação de água nos olhos. Incenso. Entanto nossa missão é perdê-los? A correnteza dribla o recife. E uma coleção de suspiros. Mirra.

E nesse meio dia turbilhão há profusa luz sem luz. Há denso azul sem azul. Não mais constelações, ideias. Silêncio. Duro hiato. De sílex. De uma menina que sentiria tudo isso. De um garoto que talvez acendesse um sorriso diante dessa lavandeira que entrecorre a passos miúdos de cá para lá à beira da gamboa.

Não se deve censurar o mar a meio caminho de um beijo. Mas ninguém virá depois. Seus cabelos modulam ao sopro da viração. A frialdade da cruviana assentou-se na pele dela. Amor. Existe?

O gavião do mangue volteia majestoso uma presa entre raízes.

Você já foi a Bahia?”, ela cantarola baixinho. Contínuo. Contínuo. E baralha os tons.




appendix: UMA ESTROFE DE SÃO JOÃO DA CRUZ



Ah, cristalina fonte,

se nesses teus semblantes prateados

formasses de repente

os olhos desejados

que trago nas entranhas esboçados.







Nota – uma variante deste conto, que é de 1993, saiu publicada originalmente na revista Afinidades Eletivas, editada por Alexandre Barbalho intermitentemente ao longo dos anos 90. Afinidades Eletivas era, de início, um panfleto quase artesanal, e que dava vazão à produção de escritores de Fortaleza no começo mesmo de suas carreiras: Carlos Augusto Lima, Lira Neto, Paulo Fraga, Alexandre Rocha, Manoel Ricardo de Lima, Willis Santiago Guerra, Alexandre Barbalho, Jorge Piero, Alexandre Veras, Valdo Aderaldo, entre outros. Além de contar, em sua composição gráfica, com amostras do trabalho de artistas plásticos como Aléxia Brasil, Barrinha, Eduardo Frota, Cardoso, Kazani, além de fotos de gente como Tiago Santana, Celso Oliveira e Solón Ribeiro. Curiosamente, Amor?, essa história de um amante ressentido por um aborto unilateral da parceira, saiu impresso em dois diferentes números da revista. O conto integra O Bumerangue e outras histórias, escrito entre 1993-96, um volume de relatos da juventude, apenas alusivamente auto-biográficos, que nunca parei para dar uma tratamento definitivo.



* * *

Que faço deste dia, que me adora: Faustino


[s/i/c]




Carpe Diem

Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)


Mário Faustino




Nota - alguma conversa em carga-ligeiríssima. Ando relendo artesanias de Mário Faustino. Tanto como crítico quanto como poeta e tradutor. Nas três incumbências revela larga competência. Vou ser polêmico, atrevido até não mais poder, e dizer que, com toda a sapiência heideggeriana de Benedito Nunes - uma das chaves-mestras de leitura do autor de O Homem e Sua Hora - muito ainda resta a ser dito e descoberto em Faustino. Tarefa para novos leitores que reponham a complexidade e o vigor do crítico taquigráfico de Poesia-Experiência - curiosamente ainda tão devotado aos modelos franceses, com se usava ser então, mas já abrindo-se para as diversidades da poesia norte-americana. Hoje se faz necessária uma leitura mais perspectivada que a candente proximidade de Nunes. A perda de Faustino, em tão tenra idade, foi um desastre irreparável dentro do panorama de nossa literatura, pois que ele é o suplemento mais rematado dos dois poetas por onde passa a lufada de renovação da poesia brasileira em meados do século: Cardozo e Cabral. E isso num tempo em que Drummond já não era o mesmo e alguns xaropes da Geração de 45, tipo Ledo Ivo, ameaçavam açambarcar a coisa toda. Além disso, a verdadeira compreensão de um projeto consentâneo de vanguarda, um que melhor derivasse e descontinuasse 22 e Cabral acabou diluindo-se. E ironicamente diluindo-se justamente por quem tanto deplorou a diluição: Haroldo e Décio - quando, do contrário, se encontra em Augusto uma visão mais lúcida de todo o processo. Faustino seria, então, aquele contraponto místico, o da poesia espiritualizada, metafísica, órfica. Soa curiosa sua oscilação entre autores tão díspares quanto Mallarmé e Pound de um lado, e, do outro, alguém como Dylan Thomas. E não deixa de ser estranha a analogia que ele vislumbra entre Hopkins e Thomas. Mas Faustino, em temperamento estava mais próximo de Dylan Thomas que de Hopkins. Apesar de sua poesia buscar cumprir um programa semelhante ao que ele atribui a Hopkins: "um poeta da 'natureza': mas não no sentido Wordsworth; a natureza abordada, a natureza assaltada pelos instrumentos humanos do conhecimento; a natureza vista de dentro da palavra; a natureza finalmente transformada, em ação, em poemas-objetos verdadeiramente recriadores". Nesse sentido de Hopkins, o programa da poesia de Faustino malogrou miseravelmente. Mas mesmo esse malogro não deixa de ser um expoente lúcido muito adiante de seu tempo. Algo que faz dele uma espécie de Hart Crane brasileiro. E, no entanto, menos equivocado que o norte-americano. Quem sabe a maturidade lhe teria confirmado um aporte formal amplo e distanciado do tom, algo, dylanesco de sua poesia. Que a confunde com oração, e onde recorrem os signos cristãos e pagãos reincorporados em densa voltagem, as alusões clássicas e, claro, o homoerotismo. Um desejo de oratória, profecia, síntese cultural ampla e radicada nas fontes clássicas do Ocidente.
Ainda que provavelmente desgostem do paralelo, atualmente dois poetas, por suas posturas, estranhezas, escolhas e opções aproximam-se mais do temperamento de Faustino do que suspeitam. Especialmente das potencialidades futuras que o projeto de Faustino apontava. Por várias razões. Um é Age de Carvalho, que guarda em comum com o piauiense a densa ambiência crítica que atravessou Belém em determinado momento: Max Martins, Paulo Plínio Abreu, Francisco Paulo Mendes, o próprio Benedito Nunes... Ambiência da qual Carvalho, ainda muito jovem, irá tirar dividendos. Age vem muito mais de um verso como "Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?" do que suspeita. É já a geologia de Celan que aqui se faz presente, ainda que sob outra anamorfose.
O outro é Jorge Lúcio de Campos.


* * *

terça-feira, 14 de julho de 2009

Essa fugidia imagem, que amanhã recomeço


Fotógrafo anônimo, c. 1930



Uma Foto

[um pouco ao modo de Cardozo & Cabral]



teu vulto na foto

como uma bila de quinze cores

tem algo de alado


um filme de 16 milímetros

que entra na casa do olho

por um dia alugado


a parte mais feliz

de sua arquitetura

não é essa fugidia imagem


que amanhã recomeço

a ver, como um ex-voto

relíquia de viagem


(parece menos gesto

de amor que de comércio

essa modalidade de recordar-te)


pois a foto não tem pulgas

nem pelo, nela se vê

apenas uma praia em parte


dunas, em parte zelo

por um corpo jovem de mulher

meio-dia e mineral


de qualquer lado infinito

dessa foto, desejo

entrar nela, afinal,


ainda que o fora de quadro

alto demais para os pássaros

sobrevoando a baía–


aguarde que a água ao fundo

água do mar volte a ser:

marulho, dislexia



[Fortaleza, 13.07.09]

* * *


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Demandar diretamente ao estado-maior: Lawrence


Olivier, c. 1900


Intimates



Don't you care for my love? she said bitterly.


I handed her the mirror, and said:

Please address these questions to the proper person!

Please make all requests to head-quarters!

In all matters of emotional importance

Please approach the supreme authority direct! ---

So I handed her the mirror.



And she would have broken it over my head,

but she caught sight of her own reflection

and that held her spell bound for two seconds

while I fled.



D.H. Lawrence




Íntimos


Você não liga pro meu amor? disse ela ressentida.


Levei o espelho até ela, e lhe disse:

Favor fazer a pergunta à pessoa certa!

Favor demandar diretamente ao estado-maior!

Em todas as questões de importância emocional,

favor dirigir-se diretamente à autoridade máxima! ---

E então lhe passei o espelho.



E ela o teria partido em minha cabeça,

mas colheu seu próprio reflexo

e isso a conteve um par de segundos

no que chispei.





* * *


Morrer a ter de olhar: Sexton


[s/i/c]



Cigarettes And Whiskey And Wild, Wild Women



Perhaps I was born kneeling,

born coughing on the long winter,

born expecting the kiss of mercy,

born with a passion for quickness

and yet, as things progressed,

I learned early about the stockade

or taken out, the fume of the enema.

By two or three I learned not to kneel,

not to expect, to plant my fires underground

where none but the dolls, perfect and awful,

could be whispered to or laid down to die.



Now that I have written many words,

and let out so many loves, for so many,

and been altogether what I always was—

a woman of excess, of zeal and greed,

I find the effort useless.

Do I not look in the mirror,

these days,

and see a drunken rat avert her eyes?

Do I not feel the hunger so acutely

that I would rather die than look

into its face?

I kneel once more,

in case mercy should come

in the nick of time.



Anne Sexton



Cigarros e Uísque e Mulheres Loucas, Loucas



Talvez tenha nascido prosternando-me,

a tossir durante o longo inverno,

a esperar o beijo do perdão,

provinda com uma paixão pela vertigem,

e, no entanto, no correr do tempo,

cedo aprendi sobre o presídio

ou ser solta, a espuma do enema.

Aos dois ou três aprendi a não prosternar-me,

não esperar, a semear meu fogo subterrâneo,

onde ninguém, a não ser bonecas, perfeitas e horrendas,

pudessem ser alvos de boatos ou morrer à míngua.



Agora que já escrevi tantas palavras,

e liberei tantos amores, para tantos,

e passei por tanto do que já fui desde sempre—

uma mulher de excesso, de zelo e ganância,

acho debalde o esforço.

Não sou eu que miro o espelho,

esses dias,

e vejo um rato ébrio driblar-lhe os olhos?

Não sou a que sente a fome tão aguda

que prefere morrer a ter de olhar

o rosto dela?

Prosterno-me uma vez mais,

para o caso de o perdão chegar

no talho do tempo.




Nota - agradeço a Aldir Brasil Jr. por me haver chamado a atenção para este poema.

* * *

domingo, 12 de julho de 2009

O signo da flor a emprestar o tema: Creeley


John Chamberlain, Automobile parts and other metal, 1960




The Rhyme


There is the sign of

the flower

to borrow the theme.

But what or where to recover

what is not love

too simply.

I saw her

and behind her there were

flowers, and behind them

nothing.


Robert Creeley



A Rima


Há o signo da

flor

a emprestar o tema.

Mas o quê e onde recobrar

o que não é tão simplesmente

amor.

Eu a vi

e atrás dela havia

flores, e atrás delas

nada.




Nota - Este é um dos mais conhecidos poemas de Creeley. Amplamente traduzido para várias línguas [e, em particular, para o alemão, onde sua poesia conheceu especial destaque antes de chegar a outros falares]- e nem sempre bem. A peça é bastante simples, à primeira e até à segunda e à terceira vista. Mas a cada vez que releio Creeley, mais me convenço de que ele é o mais importante poeta em língua inglesa da segunda metade do sec. XX. Desde que também se entenda que os norte-americanos produziram muito melhor e mais diversa poesia do que os europeus. Os britânicos, os alemães, os italianos, os ibéricos. Dos franceses, nem falar. A cultura francesa é a mais engessada, acadêmica e burocrática que se pode perceber no Ocidente no segundo quadrante do sec. XX - talvez com a exceção do cinema e de Asterix. E, inclusive, tomou uma direção pavorosa após a II Guerra. Especialmente esteada num laicismo, num reforço ao republicanismo, à idéia do intelectual como sacerdote e em certo senso de sacralização da arte que são medonhos, para dizer o de menos. Mais sobre esse nefastismo da cultura francesa é discutido aqui. Mas voltemos à Creeley e ao frescor de um poema como este, que é de For Love [Para Amor ou Por Amor], seu primeiro livro em edição comercial, que reúne toda sua produção da década de 50. "A Rima" é o tipo de poema que jamais poderia ser escrito por um inglês, por exemplo. E por quê? Porque a concepção de poesia para uma autor britânico é excessivamente "poética", quase divorciada da fala, ao contrário da norte-americana. Está muito centrada em esquemas métricos e rímicos. Um hieratismo quase teatral ou shakespeariano. E a fala é a melhor tradução, a mais concreta e vívida da vida coletiva de um povo. Portanto, é seu alto grau de informalidade que diferencia Creeley e os norte-americanos de seus pares do lado de lá do Atlântico. Neste, "A Rima" toda essa diferença começa na comezinha despretensão, casualidade, gratuidade dessas primeiras linhas: "há o signo da/ flor/ a emprestar o tema". O signo da flor, ao qual ele se refere, é, naturalmente, o signo mais universal da poesia. Esse signo designa ao mesmo tempo o verso [daí que, antigamente, em português as antologias eram chamadas de "florilégios", coleções de flores - ou seja, de versos] como também, claro, a flor é a metáfora mais recorrente para a mulher em qualquer tradição de poesia. Até mesmo na Oriental. Num segundo momento, de modo um tanto irônico, é como se ele dissesse: "tudo bem, há esse clichê da flor, que é bonitinho, etc.; mas onde, de fato achar falar de amor que não se resuma a esse signo, que não lance mão exclusivamente dele, da simbologia da flor?" Creeley, então, matreiramente, diz ver a mulher de sua eleição num primeiro plano: "eu a vi". Essa instância de ver é também concreta e americana - não por acaso, cinema é sinônimo de Estados Unidos. E se pode dizer isso apesar de Creeley não ser um poeta-fotógrafo ou pintor como Williams. A despeito disso, esse "ver" ["eu a vi"] destaca essa mulher, lhe empresta uma dignidade, uma importância impressentidas. Mas também diz que havia mais flores -- ou seja mais versos, e, no entanto (muito ironicamente também) mais mulheres -- atrás dela. O ponto é que num segundo "atrás" desse pano de fundo de "versos e outras mulheres" há um outro, um cenário mais definitivo: o "nada". O nada, que, de outro modo, agrega ao poema uma dimensão absolutamente inusitada e devolve a importância à figura da mulher que se encontra, avulsa, adiante, em primeiro plano, "ela", que foi vista distinta e singularmente, à frente das demais. Mas a poesia de Creeley é também marcada pelas ambiguidades. Pode-se, por exemplo, indagar se "ela", a primeira a ser vista, a eleita, a destacada, também não compõe o grupo com "elas" no segundo plano diante do "nada" ao fundo da cena toda. Se ela também não faz parte desse "them" ["delas"]. É uma possibilidade de leitura. Porque há essa possibilidade, que, ainda uma vez, remete para ambiguidade da fala. Não para uma ambiguidade conceitualmente teórica, elaborada filosoficamente ao modo de uma logopéia, decalcada de uma tradição poética clássica e anterior, como tanto agrada aos europeus.
Digo tudo isso apenas para não entrar nos aspectos mais formais da poesia de Creeley, que já são tão mais conhecidos no Brasil: o encadeamento, o uso de prosaísmos, o deslocamento de preposições, as suspensões, sínquises, a tendência ao minimalismo, o privilégio das partículas expletivas, a estranheza sintática, etc. E que, de resto, foram, no atacado, tão mal pastichados ou absorvidos por aqui.



* * *

Com mais fotos suas


Nick Mauss, Everything Comes and Goes Marked by Lovers and
Styles of Clothes
, 2004



Resolução Sentimental


De agora em

diante, quero

viver com mais

fotos suas, amor—

disse à beldade

sem bravata—

com flores à mão,

o cheque em boa data

e atirando ao cesto

o porta-retrato

das bodas de prata.



* * *


É verão no haikai


Pablo Picasso, Corps Perdus, 1950



Momento num Casal



Dentro do sonho
a vida parou.
Cada página é um posto
à beira do nada.

Sair correndo
por dentro do sonho,
isso ainda não
garante estrada.

-De onde você veio?
-Para onde você vai?
-Com quem você está?
-O que você perdeu no meio?

A sombra da ave
voa sobre a calçada.
De manhã, a rua abre-se
sem giro de chave.

É verão no haikai.
Por que tanta tensão?
Estou aqui para agradá-la.
O que mais lhe atrai?



* * *

sábado, 11 de julho de 2009

Duas reminiscências de uma gravação à beira-via


Com uma Z-1, tentando roubar alma ao inanimado durante a gravação de Uma Encruzilhada Aprazível, 2006
[Foto: Gabriel Andrade]



Com a Bolex 16mm de Ivo também durante a gravação de Aparazível, 2006
[Foto: Gabriel Andrade]





Aqueles Momentos Olho e Olho

i. Z-1

Era como colher o espírito de uma natureza morta às expensas de um pensamento que tinha em Ozu sua referência. O estático das sucatas à beira da estrada atestando mais vida pela distinção da ruína. Pelo agregado do tempo na dinâmica do inerte. Pela vida que a ferrugem agrega como substância e testemunho. Como se ali o tempo fosse demarcado por um diário de óxido, que, no entanto, revela muito mais vida e movimento que o tráfego fluindo na estrada ou o burburinho da feira. Era como encontrar as rugas do lugar. E, sem marcas de expressão, nenhum semblante é propriamente singular. Nem mesmo o de um lugarejo perdido no meio do nada. Logo, o que mais me satisfez: concluir que o sertão prosseguia, para mim, mesmo depois da gravação, ainda o mistério insolúvel de antes do documentário. A outridade indevassável.

ii. Bolex

E há aquele momento em que se esquece que a câmera e você são duas instâncias distintas. O olho coincide com a objetiva, incide não sobre ela, mas com ela; e o movimento das pernas, como as de um tenista, conduz o giro do olhar. É algo parecido com aquele instante em que se grafa a palavra sem intencionar escrevê-la, porque ela simplesmente provem de algo que não passa pela consciência tal qual a concebemos. Mas por uma sorte de intuição. Gesto não determinável, ateleológico.

Excerto

Tanto apreciei a gravação do Aprazível, que passei mal no último dia, quando cheguei à conclusão de que nada mais havia a registrar. E que, tudo colhido, podíamos voltar à Fortaleza e passar à ilha de edição. A frustração de concluir um trabalho de ordenamento criativo é semelhante ao de não testemunhar uma filha crescendo permanentemente sob teu olhar-cotidiano.



* * *