sábado, 11 de julho de 2009

Duas reminiscências de uma gravação à beira-via


Com uma Z-1, tentando roubar alma ao inanimado durante a gravação de Uma Encruzilhada Aprazível, 2006
[Foto: Gabriel Andrade]



Com a Bolex 16mm de Ivo também durante a gravação de Aparazível, 2006
[Foto: Gabriel Andrade]





Aqueles Momentos Olho e Olho

i. Z-1

Era como colher o espírito de uma natureza morta às expensas de um pensamento que tinha em Ozu sua referência. O estático das sucatas à beira da estrada atestando mais vida pela distinção da ruína. Pelo agregado do tempo na dinâmica do inerte. Pela vida que a ferrugem agrega como substância e testemunho. Como se ali o tempo fosse demarcado por um diário de óxido, que, no entanto, revela muito mais vida e movimento que o tráfego fluindo na estrada ou o burburinho da feira. Era como encontrar as rugas do lugar. E, sem marcas de expressão, nenhum semblante é propriamente singular. Nem mesmo o de um lugarejo perdido no meio do nada. Logo, o que mais me satisfez: concluir que o sertão prosseguia, para mim, mesmo depois da gravação, ainda o mistério insolúvel de antes do documentário. A outridade indevassável.

ii. Bolex

E há aquele momento em que se esquece que a câmera e você são duas instâncias distintas. O olho coincide com a objetiva, incide não sobre ela, mas com ela; e o movimento das pernas, como as de um tenista, conduz o giro do olhar. É algo parecido com aquele instante em que se grafa a palavra sem intencionar escrevê-la, porque ela simplesmente provem de algo que não passa pela consciência tal qual a concebemos. Mas por uma sorte de intuição. Gesto não determinável, ateleológico.

Excerto

Tanto apreciei a gravação do Aprazível, que passei mal no último dia, quando cheguei à conclusão de que nada mais havia a registrar. E que, tudo colhido, podíamos voltar à Fortaleza e passar à ilha de edição. A frustração de concluir um trabalho de ordenamento criativo é semelhante ao de não testemunhar uma filha crescendo permanentemente sob teu olhar-cotidiano.



* * *

Enviesos de luz: Jen Hadfield


[s/i/c]



Glid


I turn the camera on my dissolving self,

pale-tongued and rabbit-eyed -


I turn the camera on dazzled

Everything -


plain rain - the loch -

the incandescent horses


forged black against the broch -

me, my brimming head,


precarious as a dandelion clock -

and dimpling the loch,


black button on bright,

a dinghy row-rowed,


skewered with light


Jen Hadfield



Resvalo


Aponto a câmera para meu ser dissolvente,

meia-chama e olho-de-lebre-


aponto a câmera ao deslumbrante

Tudo-


chuva plena - o lago -

os cavalos incandescentes


forjados em preto contra lápides-

eu, minha cabeça repleta,


precária como um relógio de estanho-

e encrespando o lago


botão breu na contra-luz

um barco de arrema-remos,


enviesado de luz



* * *


Assepsia, prisão e vôo: Virna Teixeira


[s/i/c]



Departure


três horas presa, janelas de vidro
no aeroporto em las vegas
procuro cents
nos bolsos

letreiro do cassino
tokens, puxar a alavanca
os caça-níqueis
tilintam

as barras alinham
ganho
vinte dólares

lá fora, o sol
brilha nas turbinas
vermelho e prata

aeronaves
alçam vôo


Virna Teixeira





Nota - este poema figura em Trânsitos o recém-lançado volume de poemas de Virna Teixeira publicado pela Lumme Editor, com a usual acuidade gráfica de Francisco dos Santos.

* * *

Às palavras boas, pássaros gráficos


[s/i/c]



Muitas Graças



Só para registrar minha gratidão aos livros de boas palavras [e as boas palavras recebidas sem livros] recentemente. Esses livros, artigos, revistas e essas palavras boas vieram de Virna Teixeira, Jen Hadfield, Maria da Paz Ribeiro Dantas, Ana Carolina Marossi, Mariana Botelho, Mariana Fontenele, Érica Zingano, Fayga Bedê, Anna Cavalcanti, Fernanda Meireles, Diego Vinhas, Richard Price, Claudio Daniel, Aldir Brasil Jr., Rodrigo Garcia Lopes, Francisco dos Santos, Odorico Leal, Carlos Augusto Lima, Diatahy Bezerra de Menezes, Helmut Schmitz, José Kozer, Tarciso Gavros, Gabriel Andrade, Juca Santabaia, Daniel Lopes, Manoel Aires Jr. [Kant], Lira Neto, José Carlos Cordeiro Freire, Victor da Rosa, Renato Mazzini, Cândido Rolim & Kelsen Bravos, entre outros que hão de me perdoar o lapso de memória.

Toda essa tessitura de boas coisas em profusão me lembra, uma vez mais, aquele trecho de um poema de Creeley que diz:

"To the hands come many things / In time of trouble // A wild exultation"
["Para as mãos vêm muitas coisas/ Em tempos difíceis // Um regozijo selvagem"]


Um forte abraço a todos!


p.s. -- Érica, não esqueci a postagem de seu livro. Apenas errei o endereço. A remessa foi devolvida. Vou estar reenviando por esses dias. Favor, tenha paciência com este correspondente atrapalhado.


* * *

O Volume do Momento


Capa da edição Nº19 da Revista Coyote, lançada neste início de julho



Palavras ainda não ouvidas de Cabral & outras colheitas


Recém-lançado o novo número da revista Coyote, editada em Londrina. Destaques vão para uma preciosa entrevista inédita com João Cabral de Melo Neto; poemas da poeta espanhola, radicada no Paraguai, Monserrat Alvarez, traduzidos por Luís Roberto Guedes [com quem certa feita tive uma impagável conversa no terraço do primeiro andar da Casa das Rosas, em Sampa]; um conto de Donald Barthelme, em tradução de Caetano Waldrigues Galindo; poemas de Anita Costa Malufe; entre outras colheitas.

Nela participamos, mediante o convite de Rodrigo Garcia Lopes, um dos editores da revista, com a tradução de dez poemas de George Oppen, o importante poeta objetivista norte-americano ainda inédito em livro no Brasil. Assim como uma pequena nota biográfica de contexto sobre esse estranho poeta de poetas.

Enfim, esta edição da Coyote é para passar a vista com carinho. A revista pode ser encontrada, com distribuição da Editora Iluminuras, nas melhores livrarias do ramo pelo país afora.



Nota - aos primeiros cinco leitores de Afetivagem que enviarem seus endereços postais para o imeio deste blogue [afetivagem@gmail.com], garanto a remessa gratuita de um exemplar pelos correios. Aproveitem!




* * *

sexta-feira, 10 de julho de 2009

E Outras Variadas Canções de Amor


Gordon, Radle, Whitlock e Clapton, o time base de Derek and The Dominos [sem a presença de Duane Allman], em foto de 1970


A Mais Desgraçada Banda de Todos os Tempos

Em 1970, fugindo da adulação da fama e dos milionários contratos para lançar discos mais palatáveis ao mercado fonográfico, Eric Clapton largou o Blind Faith, onde produziu música de extrema qualidade ao lado de Steve Winwood, para sair em turnê com a banda americana que... abria os shows desse supegrupo: Delaney and Bonnie.
Ás vezes creditada como Delaney and Bonnie and Friends, essa banda, de início apenas um aperitivo quase anônimo, foi eventual e progressivamente agregando algumas mega-estrelas dispostas a se divertir nos palcos longe das atribuições de seus grupos de origem. George Harrison e Leon Russell faziam aparições em suas gigs.
Clapton sentia-se particularmente atraído pela informalidade e radicalidade desses músicos americanos sulistas—e, portanto, mais próximos do berço dos blues. Nesse ínterim, sua vida pessoal atingia um nível de desarmonia notável e grande conturbação. Seu dia-a-dia era mantido por um pesado coquetel de drogas e, para entortar de vez a coisa, ele apaixonara-se por Pattie Boyd, a bela modelo que era casada com George Harrison, então um de seus melhores amigos.
Desolado, Clapton reuniu parte dos músicos de Delaney and Bonnie e lançou-se, em Miami, à gravação de um álbum duplo. O álbum viria a se chamar Layla and Other Assorted Love Songs [Layla e Outras Sortidas Canções de Amor].
Além dos músicos de Delaney – o tecladista Bobby Whitlock, o baixista Carl Radle e o baterista Jim Gordon – Clapton arregimentou ninguém menos que o virtuoso da guitarra em slide, Duane Allman, por quem estava completamente fascinado em termos musicais. Ao grupo, numa tirada de galhofa, deram o nome de Derek and the Dominos.
O resultado dessa insólita reunião entre o mago britânico da guitarra e a verve desses músicos americanos, tendo à frente o talentosíssimo Duane Allman, foi um dos álbuns mais brilhantes do universo pop. O repertório de Layla and Other Assorted Love Songs traz pérolas como a própria faixa título, que é uma sonata pop em dois movimentos, “Bell Bottom Blues”, “Nobody Knows You When You're Down And Out”, “I Am Yours”, “Thorn Tree in the Garden", "I Looked Away", "It's Too Late"... Layla, o álbum duplo, foi, de resto, o único registro de estúdio de Derek and The Dominos. Mas também se pode ouvi-los soar com brio em uns poucos discos ao vivo. Especialmente em faixas como “Presence of The Lord”, “Blues Power” e “Let it Rain”, entre algumas outras que apontam, sobretudo, para o encontro de duas guitarras exponenciais: as de Allman e Clapton. E chega a ser comovente que hajam gravado um cover de "Little Wing" em tributo ao então recém-falecido Hendrix. Embora essa versão não esteja propriamente entre as melhores realizações do grupo.
Talvez o aspecto musical mais relevante é o modo expressamente sinfônico com que as guitarras de Allman e Clapton guiam essas baladas, canções folks e blues. Há uma altivez épica. Algo que faz com que soem com a solenidade de hinos. Além do que as guitarras bases seguem nunca só calcadas em acordes de ritmo batido, mas suplementadas por desenhos melódicos [um pouco ao estilo de Keith Richards, pero com mais sutileza]. E, então há os solos, que são capítulos a parte. O que Allman extrai de sua Les Paul em "Layla" é quase inacreditável. Há um momento em que a guitarra soa entre flauta e assovio. Clapton por sua vez colhe toda uma suave sequência calcada só nos harmônicos em uns poucos compassos do solo de "Bell Bottom Blues". E tudo amparado pelos outros três que eram experimentadíssimos músicos de estúdio, com largas horas de vôo e colaborações com os nomes mais diversos da música britânica e, sobretudo, americana.
Porém, não menos intrigante foi o pavoroso destino individual de cada um dos instrumentistas dessa banda efêmera, à exceção de Whitlock e do próprio Clapton. Quem ao escutar a beleza produzida à cada faixa, registrada em cada mínimo fonograma, por esses ases reunidos sob a rubrica - um tanto ridícula - de Derek and The Dominos poderia pressenti-la? Duane Allman morreu logo em seguida num desastre de motocicleta. Tinha 25 anos incompletos. Carl Radle faleceu de uma infecção provocado por excesso de álcool e narcóticos, em 1980. E Jim Gordon foi sentenciado ao manicômio judiciário depois de matar a própria mãe a marteladas em 1983, confirmando, assim, um diagnóstico de esquizofrenia que já vinha de há muito perturbando sua carreira como músico.
Viver é muito perigoso. Participar de certas bandas, não menos:

Up and down the City Road,
In and out the Eagle,
That's the way the money goes--
Pop goes the weasel!
[W. R. Mandale]

Bom, mas isso eram em tempos heróicos, que precederam o mordaz comentário de George Harrison sobre as Spice Girls [que bem pode ser estendido a tantos outros grupos, como o recente Jonas Brothers]: "The good thing about them is that you can listen to them with the sound turned down". ["A boa coisa sobre elas é que a gente pode ouvi-las com o volume de som no zero"]. Há, no entanto, o contrário disso. Pense em Radiohead, para ficar num exemplo. E sempre haverá espaço para boa música pop nos cansados labirintos de nossos ouvidos.

[Fortaleza, 10.07.09, depois de uma semana muito trilhasonada pela música de Derek and The Dominos]
* * *

Não se deixam prender no copião


Cartaz promocional do Blow-Up de Michelangelo Antonioni, 1967



Blow-Up

tanto queria amor
corpos no chão

estações da paixão
não se deixam

prender no copião
já vem editadas

em tufos de relva
ao léu, sem dreno

ou qualquer prévia
quadra de tênis

onde raquetes no ar
bolam gestos pelo parque

e os clowns algures
feitos de mudo cinema

são guiones ou clones
de julios, redgraves, antonionis




* * *

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Água de fundas jazidas


Antonio Frasconi, Oda a Lorca, 1962




Quatro quadras em segunda pessoa


[ao modo de Lorca]



Vejo teus olhos

como a investida

da lua cheia de hoje

suspensa sobre avenidas.



Carros carburam.

A cidade é uma cabala.

Um ciclista desvia-se

da insensatez de sua escala.



Em meu quarto, avulso,

o feixe da luminária acesa

sobre a página do livro

é magra talha de beleza;



da que trazes entre os cílios,

água de fundas jazidas,

da lua cheia de hoje

suspensa sobre avenidas.




* * *


terça-feira, 7 de julho de 2009

Toda felicidade, com notas de rodapé: Bei Dao


Isamo Noguchi, c. 1941



Tudo


Tudo é fado

tudo é nuvem

tudo é começo sem fim

tudo é busca que, ao nascer, exicia-se

toda alegria deve sorrisos

todo pesar, lágrimas

toda língua é repetir-se

todo contato, primeiro encontro

todo amor, no coração

todo passado, num sono

toda felicidade, com notas de rodapé

toda fé, com gemidos

todo rasgo tem uma súbita calma

todos os mortos, um eco demorado



Bei Dao



Nota - pseudônimo do poeta chinês contemporâneo Zhao Zhenkai, nascido em 1949. Dissidente do regime comunista, optou pelo exílio e ensinou em importantes universidades nos Estados Unidos e Europa. A versão deste "Tudo" foi feita em 1998 a partir da tradução para o inglês de Bonnie S. McDougall. Faz parte, aliás, de um livro que jamais publiquei apenas com textos do Oriente Extremo: China e Japão. Originalmente a expressão Bei Dao em mandarim significa "Ilha do Norte" [北島] e foi escolhida pelo escritor por seu grande apreço pela solidão e o isolamento.



* * *

Um hálito de água; os olhos do miúra


Lionel Feininger, Marine Scene, Twilight, 1950




Mediterrâneo



a cor do jaspe
cintila a cada passo

a orquídea secreta
apressa-se das folhas

paro para fitar
os olhos do miúra

e a frialdade da noite
sopra vagamente

um hálito de água




[Ceuta, 1992]


Nota - "Mediterrâneo" foi um dos poucos poemas escritos sem qualquer revisão. Talvez o único. Cheguei em Ceuta um dia antes de uma amiga. E um tal estado de morbidez e desânimo me atacou, que passei o dia zanzando pela cidade. Era incrível como a alcova, simples, do pequeno hotel, era perfeitamente limpa e despojada. Um vazio em que nada estava fora de lugar. Havia uma sensação de rematado exílio. Como se nenhuma geografia pudesse me regenerar. Ou qualquer sono vedar-me os olhos. Pensei em D. Sebastião, nos sucessos passados, na perda da glória, do império, nos exércitos mouros. E uma nostalgia out-of-the-blue enlutou-me o peito como um estandarte cruzado em farrapos. Havia uma acanhada plaza de toros. E durante algum tempo observei a impassível aspereza dos olhos deles. Uma irredutibilidade diamantina enquanto os picadores, em selvajaria, os ferreteavam e nutriam sob um forte odor de uréia e palha. Sentia-me sitiado no mundo, mediterrâneo. Dando passos por um chão que mais do que nunca meu não era. Foi a única vez que pisei em solo Africano. Até hoje áfrica, em português quer dizer uma faina árdua, proeza obtida com extremado empenho. Essa sensação durou exatamente 24 horas. E um poema.


* * *

Uma casa não é nunca só para ser contemplada: 2,5 poemas de amor e uma nota desaforada


[s/i/c]




Pensamento Longe


A leveza de teu vestido
E tuas mãos dizendo adeus.

Eu iria, mesmo com a certeza de não te encontrar,
E voltaria sem te ter visto,
Passeando com a tua lembrança.

Eu caminharia horas e horas pensando em ti,
Sem chegar nunca ao termo do caminho
Onde estivesse escrito: “Aqui se acaba o amor”.

Dante Milano


A Mulher e a Casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto


Nota – tão distintos e nobres estes poemas e o mesmo assunto. O único assunto. Um nomeia. É direto, vem de Platão? O outro é aristotélico, tem algo de uma limpidez viquiana. Mas não diz menos o seu nome, apesar de não explicitá-lo. No de Milano o contraponto entre a leveza do vestido e a das mãos. Objeto, corpo. Realçam. O obstinado passeio até onde está grafada a única chance de vencer o impossível. E, antes, a beleza desse verso em que o oblíquo se desloca tão de leve como a suavidade do vestido: “e voltaria sem te ter visto”, tão mais belo, tão mais propondo uma variação sedosa que o coloquial “e voltaria sem ter te visto”. Mas tudo isso também vem de um tradutor, bem se vê. E de um tradutor de Dante. Coisa de gente do ramo, de xarás.
O poema de Cabral é mais símile. É míssil. Despudor de repetir 9 vezes o adjetivo "dentro" e não soar chato, como lá fora descortina-se uma rua chamada tesoura. A beleza da segunda estrofe, que fecha no dístico magnífico “esse teu reboco claro,/ riso franco de varandas”. Há algo de Nordeste, profundamente, nesse reboco claro – que Gonzaga irá explorar num xote com letra de José Marcolino. Ou nesse “riso franco de varandas”, que parece proceder do Joaquim Cardozo de “Veraneio” [“Dentro da casca vermelha/ polpa de coco maduro:/ alvos dentes, riso franco/ carne de peixe”]. E depois Cabral diz que sua poesia nunca deriva da de Cardozo. Pois sim! Mas a seguir, há os dois versos mais belos: “uma casa não é nunca/ só para ser contemplada”. Há algo mais do que Bauhaus, aqui, é claro. Nas suas toantes contumazes “abra/fechada; nada/guarda; aconchegadas/cavas” quanto mais despida a casa – como desataviada é a casa do Nordeste – e, por isso mesmo, mais misteriosa e cheia de cavas. [1] Como a mulher é para um homem. Aqui dá até para lembrar de alguns versos de Creeley, em "The Name", pois Creeley de Cabral algo tem:


The Name [fragment]

Be natural,
wise
as you can be,
my daughter,

let my name
be in your flesh
I gave you
in the act of

loving your mother,
[...]

Be natural,
daughter, wise

as you can be,
all my daughters,
be women
for men

when that time comes.
Let the rhetoric
stay with me
your father.

Robert Creeley


O Nome [fragmento]

Sê natural,
sábia
como é de teu alcance,
minha filha,

deixa meu nome
estar na tua carne
que te dei
no ato de

amar tua mãe,
[…]

Sê natural,
filha, sábia

como sabes ser,
todas a minhas filhas
sendo mulheres
para homens

quando esse tempo chegar.
Deixa a retórica
ficar comigo
teu pai.

Muita gente hoje chiaria ante a crua beleza, talvez politicamente incorreta, destes magníficos –e não menos medonhos – versos escritos, talvez, num tempo mais sadio. Mas versos que em nada malbaratam o imenso mistério que sempre será uma mulher para um homem. Seja ela mulher, irmã filha. As que exercem sobre os homens “a vontade de corrê-la por dentro, de visitá-la”, como diz Cabral ao final de suas quadras.


sexta-feira, 3 de julho de 2009

De perdas, uma mais: Rodrigo de Souza Leão


Ben Hoffman, Jewish Boy, s/d



Todos os Espelhos Cegaram



Ontem, dois de julho, pela manhã, morreu o escritor Rodrigo de Souza Leão. Ele se foi num momento de plena produção e arrojo intelectual, em que, inclusive, sua novela Todos os cachorros são azuis [7Letras] concorria ao Prêmio Portugal Telecom. Era co-editor, junto com Claudio Daniel, da importante revista Zunái. Tive o prazer de receber, enviado pelo próprio Rodrigo, um exemplar desta sua única novela. Havia grande ternura em suas coisas. Aquela monomania, fina atenção aos detalhes, tão peculiar àqueles que vivem sitiados num pouco espaço. Rodrigo era esquizofrênico. Sua abertura para o mundo passava muito pelo telefone e os imeios. Quando muito, achava forças para o desafio de voltear o quarteirão do apartamento em que morava, no Rio. E, no entanto, se dizia feliz, embora esperasse morrer antes dos 50. Transcrevo abaixo um de seus poemas:



Toda a Vida num Segundo


Morrendo a cada
Dez minutos uma vez

O círculo se fecha
E cada vez

O que vai indo sai
Para nunca mais

O que fica é futuro
Uma criança na foto

Já que nenhuma
Mãe guardou

Com tanto afeto
Nossas fotos de adulto



Rodrigo de Souza Leão (1965-2009)


* * *

quinta-feira, 2 de julho de 2009

De novo e de novo e de novo: Creeley


James Ensor, Masks Confronting Death, 1888


Waiting


Were you counting the days

from now till then


to what end,

what to discover,


which wasn’t known

over and over?


Robert Creeley



À Espera


Contavas os dias

da noite ao jornal


até o final,

para esclarecer


o quê? aquilo que já se está

careca de saber?



Esperando


Contavas então os dias

de lá para cá


até o final

para descobrir o que o povo


faz que não sabe

de novo e de novo?


Aguardando


Contavas então os dias

daqui até lá


até o final,

o não descoberto,


o não sabido

de perto e de perto?




Nota – este poema, no seu trio malogrado de versões em português, dá uma noção de porque Creeley é Creeley: engenhoso, lançando mão de palavras simples, banais, prosaísmos que ganham uma dimensão filosófica. De como é difícil traduzi-lo. De como, a seu modo ele intui sintaxes que põem em xeque esquemas de pensamento. E revitaliza rimas que remetem a Thomas Hardy e Robert Frost – um autor que, de resto, abominava. Ou de como sendo de vanguarda, ele “não era de vanguarda”. Ou seja, estava lixando-se para o rótulo. Seu herói era D.H. Lawrence. Há poucos autores tão da "fala americana", na linhagem de Williams, quanto Creeley. Pode-se resumi-lo, em seu anti-intelectualismo sofisticado, como um herói da cultura americana. Como neste pequeno poema, por exemplo.



* * *



Percepção e perda: pato ou lebre?


[s/i/c]




A versão de um fragmento de Emily Dickinson para Carol Marossi


Perception of an object costs

Precise the object’s loss.


A percepção de um objeto custa

A sua perda em conta justa.


* * *

Dois avisos avulsos para dizer que não desisto


William Fox Henry Talbot, The Open Door, 1844



* * *

adote o filme
edite os planos
do jeito mais linear
mas com engenho
porque a vida

bem, a vida
anda cheia demais
de falsa arte
de sobrecenho

ao estético, hipoteque
dê uma chance
à vida, à vida só
sem flashback


* * *

Em Memória de Bob Creeley

As leituras de livros específicos soam sempre mais luminosas que as teorias gerais sobre livros. E isso pode ser excelente num tempo em que estamos obcecados, ao paroxismo, com teorias gerais. E com teorias gerais que nos incitam a limar da face da terra a necessidade de ter teorias gerais longe dos livros. Ao modo de convicções. De abrir espaço no mundo. Quer dizer, há um paradoxo, aqui. Mas o crítico que merece o nome, prefere, então, o detalhe. E ao preferir o detalhe, seu olho de lince percebe em meio a cornucópia de objetos que existe, digamos, num estúdio, um deles, que, apesar de estar tão presente, não era notado como algo, em unicidade, longe de fúteis generalidades e teorias: um livro. Um qualquer livro. E, no caso específico, aquele único livro que possuía entre suas páginas, não as teorias gerais que se debatem para acabar com as da moda acadêmica anterior. Porém a luminosa chama da ficção, o condão de manter acesa a vida. O bombear do sangue nas veias. Chama que brota de um solo vulcânico sedimentado por depósitos geológicos que vão, na tradição do Ocidente, reivindicar sua gênese em Cervantes e antes. Ou então, naqueles versos que diziam "mas nos olhos mostrou quanto podia,/ e fez deles um sol, onde se apura/ a luz mais clara que a do claro dia". E, ainda assim, lembra: tudo isso, o mais belo e imprescindível, é ninharia se não endenta na tua fibra, circunstância, dia-a-dia.

Pensar incompletudes, faltas de jeito, desajustes em afetos. Domesticidades. Pingos de urina no vaso. Manchas de mênstruos no Modess. Sobre ficar velho e seguir perdendo um senso gregário. Foram assuntos do poeta. Dignidades de uma porta aberta. Recorrência de palavras sem nobreza. Próximas da fala. Eis algo de Bob Creeley.


* * *


P.S. -- aos leitores, ando apenas sem tempo. Mas a coisa prossegue, na medida. O impossível.


* * *

sábado, 30 de maio de 2009

A cineasta de Hitler


Leni Riefenstahl, Olympia, 1938




-->
Nenhum Anjo Azul para Leni Riefenstahl
-->
Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, por Steven Bach, Knopf, 386 ps.


Dramas alpinos—como A Luz Azul, A Montanha Sagrada—uma espécie de sub-gênero bastante característico do cinema proto-nazista, contam entre os êxitos iniciais de Leni Riefenstahl. E essa notável documentarista começou como atriz. Nesses melodramas, os valores morais "corretos," como lealdade e esforço por uma “regeneração” da humanidade, sob bases laicas e ultra-nacionalistas, eram exaltados, assim como a “germanidade”. O irônico é que boa fração dessa safra de filmes foi financiada justo por produtores judeus. Ou mesmo escrita por roteiristas judeus – caso do grande teórico do cinema húngaro Belá Balázs, que, de outro modo foi mais um, na legião de amantes de Riefenstahl. Dramas alpinos são da época do cinema mudo, prenúncios do sonoro. Riefenstahl atuava neles lançando mão de sua experiência como bailarina de cabaret: largos gestos de pantomima e intenso magnetismo físico. Ela era uma mulher de beleza e carisma ímpares.

Harry Sokal, um banqueiro judeu, foi o protetor de Riefenstahl durante os anos 20 e início dos 30. Cobriu-lhe de jóias e casacos de peles. Pediu-a em casamento. Debalde. Mas a colaboração entre ambos foi conturbada e frutífera, até que Sokal, a exemplo de Balázs, acabasse banido da Alemanha e seu crédito de produtor retirado de êxitos de bilheteria como A Luz Azul, que tornaram a atriz Leni Riefenstahl uma celebridade, antes mesmo de passar para o outro lado das câmeras, ainda antes de completar trinta anos.

Riefenstahl queria ser atriz de Hollywood no início da carreira. E mesmo fez tudo para ser indicada para o papel principal de certo filme, O Anjo Azul. A mesma película que chamaria a atenção dos produtores de Hollywood para o potencial explosivo da atriz que acabou sendo indicada para protagonista. Uma tal Marlene Dietrich. Tivesse o talento de Dietrich e talvez o nazismo houvesse sido privado de sua cineasta.

A despeito de sua mediocridade geral, esses filmes siroposos e datados ensinaram muito à futura diretora de Triunfo da Vontade [1934] e Olympia [1938], seus dois documentários clássicos, até hoje vistos e analisados nas escolas de cinema, planeta afora. Especialmente quando, nos dramas alpinos, trabalhava tendo Arnold Franck como diretor e Hans Schneeberger como cinegrafista. Ambos possuíam legítimo interesse por experimentações visuais. Algo a ser derivado pela Riefenstahl diretora.

Mas no momento em que assume a direção, a personalidade vibrante de Riefenstahl já se encontra enfeitiçada por Hitler. E ela assim descreve a primeira impressão inicial que teve do ditador alemão, durante um comício no Palácio dos Esportes, de Berlim:

-->
Eu tive quase uma visão apocalíptica que nunca esquecerei. Parecia que a superfície da terra se partia em duas diante de mim, e um hemisfério talhava-se fora, lançando um enorme jato d'água; tão poderoso que tocava o céu e estremecia a terra.

É esse interesse apaixonado, aliás, que se faz presente em Triunfo da Vontade. A magnitude do filme chegou a despertar a atenção do próprio Hitler. E Riefenstahl converteu-se na única cineasta subordinada diretamente ao Führer e não a Göbblels, o ministro da propaganda. A cineasta oficial de Hitler. O filme centra-se nos comícios nazistas em Nuremberg, e foi gravado nos moldes de uma megaprodução hollywoodiana: 36 operadores de câmera, 17 iluminadores, dois fotógrafos de still – um dos quais, conta-se, designado pela diretora para fotografar unicamente a ela própria em ação.

Triunfo da Vontade começa com Hitler. Nos céus, a bordo de um avião sobrevoando Nuremberg. Ao modo de um semideus que baixa à terra dos mortais. É de uma epicidade absurdamente bem orquestrada. Pois Riefenstahl consegue traduzir para película toda pompa e grandiosidade das paradas nazistas movendo-se pela arquitetura austera de Albert Speer. E também com Hitler o filme se despede, como se numa profissão de fé que, aparentemente, jamais foi abjurada por Riefenstahl, mesmo após a derrota nazista. E o espantoso de ela ser julgada inocente [quando se pensa que gente como Ezra Pound apodreceu anos na prisão!]. Conta-se, de resto, que o próprio Göebbels enfrentou problemas ao decidir banir todos os filmes estrangeiros, uma vez que Hitler era, sem embargo, um ardoroso fã de Mickey Mouse.

Já em Olympia, Rifenstahl abre o filme com alusões à Grécia e Roma. O paralelo com o Império Romano sempre foi algo ardentemente buscado pelos ideólogos nazistas – assim como ardentemente detectado e deplorado por uma intelectual do calibre de Simone Weil, que identificava o Ocidente livre à Grécia, os nazistas à Roma.

Nos primeiros planos de Olympia surge a clássica estátua do Discóbulo – o lançador de discos – uma cópia que Hitler havia mandado comprar em Roma, ás pressas, em 1938. Rapidamente a imagem passa para um atleta moderno. Um saudável representante da raça ariana, também lançando o disco. A ironia é que o modelo usado por Riefenstahl era, na verdade, um jovem russo, Anatol Dobriansky – que, não por acaso ela agregou a sua legião de amantes após pagar um cachê aos pais do rapaz. De resto, rapidamente ela se cansou do adolescente russo. E então teve um caso com um atleta de verdade, o americano Glenn Morris, vencedor do decatlo.

Quarenta e cinco câmeras e sete meses de edição tornaram Olympia um filme esplendoroso, quase irresistível. Nunca se prendera antes as proezas do esporte em fotograma como ela, então, o fez. Em Olympia, Riefenstahl experimenta bastante: suspende câmeras em balões e teco-tecos, amarra-as ao pescoço de corredores da maratona e fixa-as nas selas dos cavalos em provas de adestramento e salto. Seus problemas com Göebbels quanto a financiamento de filmes tornaram-se ainda mais agudos. Ela, no entanto, credita a animosidade que o ministro da propaganda lhe devotava a razões que passavam mais pela cama do que pelo orçamento do Ministério: Göebbels presumivelmente teria visto frustrado o desejo de tê-la como amante.

Não se pode acusar Olympia de ser fascista por ser racista, uma vez que tão obviamente o centro do filme é Jesse Owens, o atleta americano negro. Mas se pode acusar Olympia de ser fascista pelo culto ao corpo perfeito. E apenas a ele. Em descarte de toda mal-formação física como uma espécie de mal-formação moral. O atleta, tomado por analogia ao grande líder, como encarnação do super-homem nietzscheano. Por essa pretensão de pureza. De não mistura. De água e azeite. De eliminar a presença do corpo mal-formado, anômalo ou deformado. Pela incapacidade, enfim, de achar beleza na fragilidade, na vulnerabilidade, no anonimato dos trabalhos pequenos, braçais, desimportantes ou obscuros.

Havia ainda sua incapacidade para dirigir a contento filmes de ficção. Seu feature Tiefland, que demandou-lhe uma década até ser lançado, em 1954, é um pequeno prodígio kitsch que não chamaria a atenção do crítico de cinema do bairro. Em uma das cenas, a própria Riefehnstahl surge como bailarina de flamenco num ridículo a toda prova. Alega-se também que os extras usados em muitas cenas, ciganos recrutados em um campo de refugiados em Salzburgo, não sobreviveram aos campos de concentração nazistas. E, mesmo que ela alegue o contrário, o caso é controverso. E resta provado que muitos não escaparam à carnificina.

Ao que tudo indica, foi seu vasto domínio da técnica cinematográfica – emprestada em parte por Arnold Fank – e o talento de seu diretor de fotografia, Hans Schneeberger, somados, claro, ao seu intenso magnetismo pessoal, que a tornaram apta a ser a técnica que Hitler desejava para traduzir na tela o espetacularismo da estética de massas fascista. Algo análogo ao que Benjamin entreviu ao dizer que o fascismo estetizou a política. Embora, ao que tudo indique, o deslumbre de Riefenhstahl com o nazismo ia mais pela casca: os grandes movimentos de massas, comícios, rituais coletivos, e o culto pessoal de um líder onipotente. O mecanicismo bizarro desses movimentos.

Riefenstahl, no entanto, não tinha competência artística para entender a catástrofe vivida na Alemanha. Ou mesmo para se reinventar a partir de uma auto-crítica. Seus esforços ao largo da grandiosidade épica das paradas nazistas ou do uso do aparato técnico do Estado para o registro das Olimpíada foram rematados fracassos. A consciência da Alemanha pós-guerra, no cinema, viria somente um tanto depois dela, na década de 60, com cineastas como Herzog, Fassbinder e Wenders.
Mais importante para Riefenstahl: o registo da tribo. A narrativa de seu rito. Sempre a partir do ângulo de um vetor laico. Aparentemente o que ela via nos Nuba, a tribo africana a quem dedicou um minucioso ensaio fotográfico, na maturidade, era o mesmo que via nos comícios nazistas: ordem, disciplina, força coletiva, beleza, certa calistenia sob algum comando: uma espécie de culto da tribo. À sua imaculada beleza e juventude. Se a tribo é um bando de ciganos, guerreiros sudaneses ou tropas da SS, isso lhe era indiferente, em sua frieza. Em seu desejo de poder e glória. Em seu empenho pelo "triunfo da vontade".

Nos seus últimos anos, ela dedicou-se a uma série de documentários sob a vida nas profundezas dos oceanos. Belas imagens, mas nada comparado ao impacto de seus dois prismáticos documentários dos anos 1930, que atravessam o tempo como mais estáveis e medonhos atestados da histeria de todo um povo. Já com idade avançada, ela mergulhava em águas profundas, talvez um ambiente tão rarefeito e “harmônico” quanto as alturas dos Alpes, que o nazismo explorou como símbolo de pureza e harmonia. Susan Sontag dedicou-lhe um ensaio exaltado [Fascinating Facism, 1974], que é até hoje referencial.

Leni Riefenstahl morreu aos 101 anos, em 2003.

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A Guerra de W. Bush


[s/i/c]



Um Oriente Médio de Pesadelos Peso-Pesados



Alguns analistas, como Ian Buruma, comparam a declaração de guerra ao terrorismomo de Bush ao discurso de Churchill ao declarar guerra à Alemanha. Mas apenas em sua casca. Em certa postiça grandiloquência. Espécie de história se repetindo como farsa. Afinal, quando Churchill manifestou-se, a Inglaterra estava sendo ameaçada, de fato, pelo maior poderio bélico da Europa. Ao contrário de Bush, como reforça Buruma, que se viu diante de um bando de fanáticos predominantemente sauditas.

Mas logo os Estados Unidos perceberam que o problema não era tanto de pobreza quanto de opressão. O raciocínio era o de que regimes ditatoriais provocavam a escalada do terrorismo. O ponto então seria redemocratizar o Oriente Médio para livrar-se do terrorismo. Mas o problema não se afigura tão simples uma vez que os maiores aliados dos Estados Unidos, o Egito e a Arábia Saudita, são regimes fechados – e, logo, não há qualquer interesse americano em se atritar com eles.

Por seu turno, o ataque ao Iraque – um ex-aliado – fortaleceu outro regime que subsidia terroristas islâmicos: o Irã. E este talvez com mais vigor ideológico que o Iraque. Uma vez que o ex-ditador iraquiano era uma espécie de déspota desesclarecido avulso, mais efêmero, que não tinha tanto interesse na propagação da fé islâmica quanto têm os aiatolás que manobram os fios do poder da política iraniana. E, mais, Saddam Husseim governava um país marcado por divisões. Como a dos separatistas curdos, que também são maioria no sudeste da Turquia.

Houve também um erro de avaliação ao se julgar que os terroristas ligados ao ataque de 11 de Setembro estavam predominantemente baseados no Iraque, como se supunha inicialmente. Na verdade, Bin-Laden tem sua base de operações no Afeganistão e seu grupo encontra-se disseminado por vários países. E, em predominância, na Europa e nos próprios Estados Unidos. Sem esquecer da suspeita que a tríplice fronteira na América do Sul, em torno da cidade de Foz do Iguaçu, parece ser também um dos focos de interseção dessa rede terrorista mundializada.

Ao contrário de estudiosos como Norman Podhoretz, Buruma argumenta que é um equívoco comparar o poderio fascista clássico na Europa como os diversos, fragmentados poderios dos estados islâmicos – muitas vezes guerreando entre si – ou com os grupos terroristas, como a Al-Qaeda, que se encontram disseminados pelo globo, usam a internet como fonte de comunicação, compõe-se de poucos elementos, e, portanto, não dispõem de grandes exércitos estruturados ou de voz de comando sobre estados nacionais.

Que real ameaça alguém como Saddam Husseim representava, então, para os Estados Unidos? Saddam se arriscaria a usar armas químicas contra os americanos? Ou pior, nucleares? Ele ao menos as teria? Podhoretz, ainda aqui, afirma que sim. [Afinal, sua prioridade parte do pressuposto da defesa intransigente de Israel]. Mas, então, porque Saddam não empregou as tais armas químicas e/ou nucleares quando os Estados Unidos invadiram seu próprio território?


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sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Primeiro Alguma-Coisa


[s/i/c]



Uma questão de gênero

Que designação seria dada ao marido de Dilma Rousseff, no caso de ela, eleita, ter um: primeiro-senhor, primeiro-cavalheiro, primeiro-par, primeiro-consorte, primeiro-marido, primeiro-cônjuge, primeiro-respectivo, primeiro-esposo? Ou numa versão PT: primeiro-companheiro? [Não vale brincar: primeiro-gigolô, primeiro-amante... Uma só certeza: seria o primeiro "primeiro-alguma-coisa" de nossa história política].

Mas talvez isso nem seja necessário, uma vez que ela divorciou-se duas vezes e se encontra solteira. E sabe-se lá se faz planos de casar. Provavelmente não. Há muitos outros assuntos em pauta. A primeira prefeita eleita numa capital brasileira, em 1985, chamava-se Maria Luiza Fontenele, e fez uma desastrada administração em Fortaleza. Era também do PT. E também divorciada duas vezes. Talvez por isso, à época, não surgiu a atroz dúvida acima. Alguns anos depois, São Paulo elegeu Erundina, mas, bem, ela era, para variar, solteira também. Embora não divorciada. A atual prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, também é solteira. Parece que casamento e executivo feminino não se dão muito bem. Os gaúchos, no entanto, são governados por Yeda Crusius, que tem um marido. Mas o chamam, com notável falta de imaginação, apenas de "o marido da governadora".

Uma pergunta: será que ele seria admitido num encontro de primeiras-damas? Se não for, é DISCRIMINAÇÃO!




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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Homage to Catalonia






Homenagem à Catalunha



Para lembrar do título de um dos livros mais lindos - sob o prisma da honestidade política - lidos na juventude. Para lembrar de um clube que teve um de seus dirigentes mortos nos horrores do franquismo.

Mas é também, como sempre, a clássica vitória do Sul contra o Norte, na Europa. O Sul de onde somos mais na Europa. E, acima de tudo, a vitória, semelhante à da Espanha na Euro-2008, do futebol que ataca: toca, arrisca, não se intimida. Quem sabe essa moda de atacar acabe sendo redevolvida aos gramados brasileiros, repletos de volantes brucutus e treinadores retranqueiros, que jogam no ferrolho, à europeia, à Paul Scholes, à italiana [alguém ainda lembra 82'?]. Já que nossa sina, no último quarto de século - e à reboque das facilidades de comunicação -tem sido a de levar na mímica tudo que vem da Europa, dos E.E. U.U. Muita coisa de péssimo, inclusive: políticas étnicas equivocadas, práticas consumistas, exacerbação dos direitos de minorias sobrepujando-se aos das maiorias, modelos teóricos podres, inaplicáveis, etc. e etc. e etc. Mas, por ora...

Visca, Barça!



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À Pessoa Anta


A Av. Pessoa Anta, em Fortaleza, no início do sec. XX



Pedro Quem?

O nome desse meia do Coritiba, Pedro Ken, que hoje pode substituir Marcelinho Paraíba na semifinal da Copa do Brasil, contra o Inter, é mesmo espantoso. Guarda um sabor tão despretensioso quando se ouve pela primeira vez e não se sabe que é grafado de outra forma. Soa como coisas do tipo "Zé Ninguém" ou "Fulano de Tal dos Anzóis". Esses tipos que somos todos nós. Pedro? Quem?

Parece ilustrar algo que segue bem delineado no comentário de um leitor deste blogue sobre a verve crítica de Augusto Pontes.

Numa dessas noites sem-fim do Estoril, a turma de Augusto se divertia ao som de boa música e no ritmo da conversa bem fiada. Até que um ego mais exaltado, recém-chegado ao grupo, começou a declinar todo seu espetacular acervo de prêmios literários. Augusto ouviu ao imprescindível inventário em silêncio. E, depois, virando-se para o amigo mais próximo, tascou:
—Quando for secretário de cultura vou instituir o “Prêmio À Pessoa Anta”!



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