sábado, 23 de maio de 2009

Eu colecionava tampinhas pelas coxias: Brasil Jr.


[s/i/c]



Nixon sob os oitizeiros


A Ruy Vasconcelos


Nixon nos encarava triste, sem rancor pela TV Colorado.

Entre pessoas de meia idade comentava-se: “só lhe restam as meias.

Os sapatos lustrosos foram confiscados pelos congressistas", disse a Maggy.

De alguma maneira comovia-me a despedida de Nixon, o anti-herói. Alguém que envergonhava John Wayne e os rapazes no Camboja.

Passei a sonhar com enormes borboletas que resgatariam Nixon para uma casa de verão em Cape Cod.

Em agosto, meu pai resolveu fazer uma rápida visita ao Cura D´Ars, saiu sem que ninguém percebesse. Nunca mais voltou.

Voltei a lembrar de Nixon. Os milicos incensavam Caxias na praça da Bandeira. O bispo afagava-me o cocuruto, eu colecionava tampinhas pelas coxias.

Volto a sonhar com enormes borboletas, atravessando poderosas a Costa Barros, enquanto Nixon e meu pai conversam animadamente sob os oitizeiros.

-O menino anda meio esquisito ultimamente, talvez seja melhor chamar o Padre Moreira.

O jesuíta obrigou-me ler em dias alternados a Carta de Paulo aos Coríntios.

Esqueço o amor paulino, volto a TV Colorado, agora com a certeza de que Leivinha e Marinho Peres derrotam a Laranja Mecânica. Em vão.

Depois do Cruiyff e do Watergate nunca mais fui o mesmo.


Aldir Brasil Jr.


* * *

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O preço de piladeiras de arroz


Joseph Albers, Homage to the Square, 1962



De algumas passagens curiosas aqui pelo blogue:



Alguém de Barcarena, Portugal, que anda investigando se São João da Cruz era homossexual.

Uma legião doida para saber a simbologia do ramo de visgo ao final de 2008 – e que quadruplicaram o número de visitas ao blogue em dezembro.

Um caipira de São Paulo que buscava fotos de... epigramas.

Um de Goiânia que andava atrás de saber como se escreve noventa em francês.

Um paulistano que peca na concordância: “o que é coágulos econômicos”?

Alguém do Mato Grosso querendo saber o “preço de piladeiras de arroz”.

Gente do mundo inteiro, do Caribe, do Leste Europeu, da África, do Sudeste Asiático, da Oceania...

Além daqueles que periodicamente passam atrás de conferir o que sobre eles está publicado em linha.

E assim, via Google, caminha a humanidade.

Afetivagem está há pouco mais de dois anos na rede. Traz publicado mais de 250 traduções de cerca de 110 poetas em cinco distintos idiomas, além de textos diversos sobre literatura, cinema, atualidades e aspectos que dizem mais diretamente respeito à cidade de Fortaleza. Somadas são quase 700 postagens entre crônicas, resenhas, traduções, poemas, artigos, notas, contos curtos, etc.



* * *

terça-feira, 19 de maio de 2009

Um renovado lance de dados


Édouard Manet, Stéphane Mallarmé, 1876



Curso de Criação Poética com Claudio Daniel



O poeta Claudio Daniel realiza um curso de criação poética no Ateliê do Centro, localizado na rua Epitácio Pessoa, 91, próximo à estação de metrô República, em São Paulo. O curso, que acontece aos sábados, das 15 às 17h, é dividido em vários módulos, com exposições teóricas sobre Mallarmé, Valéry, Ezra Pound, Haroldo de Campos, entre outros poetas, e exercícios práticos de criação.

Para aqueles que moram em outras cidades, o curso pode ser feito on line, via Skype.

Informações sobre o curso estão disponíveis no blog Laboratório de criação poética, na página http://labcripoe.blogspot.com.

Quem estiver interessado em participar pode enviar uma mensagem para o e-mail claudio.dan@gmail.com.



* * *

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sou tudo o que você não teve: Larkin


Jac Leiner, 2009


Money


Quarterly, is it, money reproaches me:

'Why do you let me lie here wastefully?

I am all you never had of goods and sex.

You could get them still by writing a few cheques.'


So I look at others, what they do with theirs:

They certainly don't keep it upstairs.

By now they've a second house and car and wife:

Clearly money has something to do with life


- In fact, they've a lot in common, if you enquire:

You can't put off being young until you retire,

And however you bank your screw, the money you save

Won't in the end buy you more than a shave.


I listen to money singing. It's like looking down

From long French windows at a provincial town,

The slums, the canal, the churches ornate and mad

In the evening sun. It is intensely sad.


Philip Larkin



Dinheiro


Quinzenalmente, será, o dinheiro me reprova:

'Por que me deixar mofando aqui na cova?

Sou tudo que você não teve de sexo e pileques

E ainda pode tê-los preenchendo uns cheques'.


O que outros fazem dele, é questão curiosa:

Já têm uma segunda casa, carro e esposa.

Decerto, não o mantêm no sótão, feito jazida:

Líquido, dinheiro tem algo a ver com vida.


Ambos têm muito em comum quando se pesquisa:

Mas se você banca a sovinice, acumula divisas,

E, de jovem, desanda a poupá-lo até se aposentar,

Não te paga no fim muito além de um barbear.


Ouço o canto do dinheiro. É mirar do piso superior

Por amplas janelas, numa cidadezinha do interior,

Os casebres, o canal, os brocados da igreja em riste,

Doidos, ao entardecer. É intensamente triste.


* * *

domingo, 17 de maio de 2009

Mas se duas vezes malogro: Frost


Robert Artschwager, 1972




Fire And Ice

Some say the world will end in fire;
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To know that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

Robert Frost


Fogo e Gelo


Uns dizem que o mundo acaba em fogo;
Outros, em gelo.
Depois que com o desejo jogo
Fico com os que dizem fogo.
Mas se duas vezes malogro,
Acho que tenho ódio bastante
Para saber que gelo
Também é massacrante
E capaz de fazê-lo.



* * *

Retira das pedras de gamão


[s/i/c]



Mão


retira das pedras
de gamão a possibilidade
de uma mão dobrada

a coincidência
suave de uma chuva
em que cada gota
jorrada

caia exatamente
onde caiu

noite passada



* * *

Por que não divididas em parágrafos?: MacCaig


Louise Bourgeois, 1977




Bookworm


I open the second volume

of a rose

and find it says, word for word,

the same as the first one.


The waves of the sea

annoy me, they bore me;

why aren't they divided

in paragraphs?


I look at the night

and make nothing of it—

those black pages

with no print.


But I love the gothic script

of pinetrees and

on the pond the light's

fancy italics.


And the cherry tree's petals—

they make

a sweet lyric, I appreciate

their dying fall.


But it's strange, girl, how I come back

from the library of everything

to stare and stare

at the closed book of you.


When will you open to me

and show me the meaning of all

the hard words

in the lexicon of love?


Norman MacCaig



Rato de Biblioteca


Abro o segundo volume

de uma rosa

e constato que diz, palavra por palavra,

o mesmo que o primeiro.


As ondas do mar

me irritam, fico entediado:

por que não são divididas

em parágrafos?


Observo a noite

e dela nada faço—

Essas páginas negras

sem impressão.


Mas adoro o cursivo gótico

dos pinheiros e

no lago o falso itálico

das luzes.


E as pétalas da cerejeira—

elas compõem

uma lírica suave, aprecio-lhes

a agonia da queda.


Mas é estranho, menina, o modo como

retorno da biblioteca de tudo

para fixar e fixar

teu livro fechado.


Quando me vai abri-lo,

mostrar-me o significado de todos

os difíceis termos

no léxico do amor?



* * *

sábado, 16 de maio de 2009

Não, agora é só uma galinha


Luís Buñuel, Esse Obscuro Objeto do Desejo, 1977




Ilustração de Augusto Pontes


por Augusto César Costa


Anos 70, sábado, 10 horas, sessão do Cinema de Arte no Cine Diogo. O filme era de Luis Buñuel. Augusto Pontes sentado sozinho numa das fileiras de poltronas. Na fileira à sua frente um casal de namorados, ansiosos por entender as tramas surrealistas de Buñuel. Eis que numa cena aparece em primeiro plano uma galinha. Os namorados começam a cochichar, tentando entender o significado. Augusto se impacienta com o colóquio e diz: “Isto não é uma galinha, é um símbolo”. Os jovens silenciam assustados, mas gratos pelo esclarecimento. Cenas adiante aparece novamente a tal galinha. A jovem, toda excitada cutuca o namorado: “Olha aí, o símbolo!”. Augusto, irritado com a conversa, semeia a confusão epistemológica: “Não, agora é só uma galinha”.


* * *

Quantas vezes eu mudei de conversa


Augusto Pontes (1935-2009), em foto de fins dos anos 70



O morcego se foi

Ontem morreu Augusto Pontes. Tinha setenta e três anos. Difícil defini-lo. Sua inteligência e seu carisma eram tremendos. Contribuiu com muitas ideias para o Pessoal do Ceará. Foi um dos idealizadores da Massafeira Livre. Um inovador da linguagem publicitária à frente da agência Scala, nos anos 80. Era profundamente irreverente. De um sarcasmo que não poupava a si mesmo quanto mais aos amigos. E, no entanto, os amigos lhe tinham uma grande e estável estima. Não era de muito sistema. Um conversador por vocação. Provocador por hábito. Aglutinador por temperamento. Nutria um saudável desprezo pela pompa que vem a reboque da autoridade, algo que lhe deve ter atrapalhado a própria gestão como secretário da cultura do estado, por breve tempo, no início dos anos 90.

A última vez que o encontrei foi em janeiro passado, num bar. Gostava de bares. De conversar em mesas. Mas nessa noite, estava um pouco consigo, mais contido que de hábito, observando amigos a disputar uma partida de bilhar. Bebia uísque. Conversamos longamente. E ele, como sempre, discorreu com grande sabor sobre muita coisa: a efervescência que era a Faculdade de Arquitetura ao fim dos anos 60; a destreza lírica de letristas como Brandão e Fausto Nilo; a magia mitológica do Bar do Anísio; o grande instantâneo coletivo da música cearense que foi a Massafeira [como evento e como álbum duplo]; de como Belchior trazia Os Lusíadas quase de cor; ou como a letra de “Apenas um rapaz latino americano” surgira de uma sua carta, em que dizia também que não tinha dinheiro no bolso nem "patentes" importantes; da importância do cinema para sua geração como atesta, entre outras, certa letra de Evangelista Moreira [Dedé]. Ao nos despedirmos, à saída, na madrugada sonolenta e chuvosa, ele encaminhando-se para o táxi, com sua inseparável bolsa de napa à tiracolo, me largou um:
-É isso, amigo, a gente se vê por aí!

Parece que a vida de Augusto era cercada de um permanente, inefável senso de anedota literária. Uma espécie de dom de inspirar arte nas outras pessoas. Um Midas de frases curtas. Ele adorava tiradas, ditos espirituosos, improvisos, blagues, blefes, analogias burlescas. E, claro, trocadilhos. Era quase um epigrama ambulante. Uma imensa presença de espírito. Difícil imaginá-lo como professor da UnB nos anos 70. Ele definitivamente estava imune à proverbial chatice acadêmica. Perdia o amigo, nunca a piada. E, no caso de Augusto isso não é bem verdade. Pois nele era quase inverossímil a vocação de ser simultâneamente mordaz e cativante. Tinha algo de bruxo. Guardava um quê de morcego em seu semblante—e assim foi caricaturado mais de uma vez no jornal.
"O comunismo acabou antes de chegar aos pobres"; "estou do seu lado, mas não me olhe de banda", "a união se faz à força"; "vida, vento, vela, leva-me daqui" (que Belchior aproveitou para verso final de "Mucuripe") são de sua lavra. Era antes de mais nada um grande phrase-maker. Daqueles que não deixavam passar nada em vão. O mínimo que fosse. Conta-se, por exemplo, que quando o músico Eugênio Leandro foi apresentado a ele, que era então secretário da cultura, durante uma audiência, disse no aperto de mão:
—Prazer, Eugênio!
Ao que Augusto respondeu:
—Prazer, eu também!

Augusto escreveu também letras de música emblemáticas. Como esta, para um tema de Petrúcio Maia [gravado por Téti e Ednardo]:

Lupcínica
Vamos acabar com essa briga, amor,
Que eu estou cansado.
Fique aqui ao meu lado e não fale mais,
Que eu estou calado.
E não balance essa chave,
Vai acordar meu remorso,
A tua bolsa guarda segredos de mim.
E por mais que eu mexa e remexa,
É você que não deixa ver
Quantas vezes eu mudei de conversa
Pra não falar,
Tantas vezes eu dobrei a esquina para não ver.
E hoje, sinto ciúmes até da tua falta,
Mas não vou mais
Matar ninguém por tua causa:
Mate-me, que eu já te matei!
Inutilmente bêbado,
Triste como um peixe afogado
Na madrugada sonolenta
De bolero em bolero,
'Acuerdame daqui a poco',
Você está com a vida que pediu a Deus.


* * *

Mesmo acima, na senda, já não há só liberdade: Gunn


[s/i/c]


Tamer and Hawk


I thought I was so tough,

But gentled at your hands,

Cannot be quick enough

To fly for you and show

That when I go I go

At your commands.


Even in flight above

I am no longer free:

You seeled me with your love,

I am blind to other birds?

The habit of your words

Has hooded me.


As formerly, I wheel

I hover and I twist,

But only want the feel,

In my possessive thought,

Of catcher and of caught

Upon your wrist.


You but half civilize,

Taming me in this way.

Through having only eyes

For you I fear to lose,

I lose to keep, and choose

Tamer as prey.


Thom Gunn



Adestrador e Falcão


Pensei que tinha vigor

Mas sob teu toque brando

Não tenho veloz sobrevôo

Para ir longe, mostrando

Que quando eu vou eu vou

Sob teu comando.


Mesmo acima, na senda

Já não há só liberdade:

Teu amor é uma venda,

Fiquei cego a outras aves?

Tua conversa de encomenda

Me impôs grades.


Como antes, eu giro

Mergulho, parafuso,

Mas só quero o respiro

De meu zeloso impulso

De presa e predador

Sobre o teu pulso.


Assim quase me domaste,

Domesticando-me a rudeza.

Não tenho olhar que baste

Em ti, e receio a surpresa

De perder-te, ao tomar-te

De adestrador por presa.


* * *


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Baixo Gávea, Baixo Leblon, Baixa Cultura


[s/i/c]


Hoje no jornal: 84x14 e a iniciação sexual de Airton Monte

De momento, discute-se a reforma da Lei Rouanet de incentivo à cultura. E é bom que seja bem discutida. Dos recursos disponibilizados pela lei, até aqui—e espelhando o desequilíbrio econômico entre as regiões brasileiras—, o Sul e o Sudeste abocanharam 84%. Enquanto isso, as três outras regiões, Nordeste, Norte e Cento-Oeste ficaram com míseros 16%. E, no entanto, ao contrário do que prega o secretário de cultura do Ceará, Auto Filho, hoje, em matéria de O Povo, parece equívoco que se repassem verbas diretamente aos municípios sem a mediação de editais. Sabe-se muito bem o que ocorre se não há um controle, uma auditoria sobre esses recursos. Algum critério ou dispositivo que assegure que essas verbas sejam, de fato, empregadas em cultura. Ou seja, a exemplo de todas as políticas assistencialistas, apenas um volume muito escasso dessas verbas chegará, de fato, a contemplar os propósitos para as quais são destinadas, na ausência de uma estratégia forte de prestação de contas. O grosso volume delas, como historicamente tem sido no caso de flagelos e secas, é afanado pelas oligarquias locais para fins nada nobres. Também me chamou atenção que a discussão em torno de nossa principal lei de incentivo à cultura desperte tão baixo interesse por parte dos leitores de O Povo. A matéria que trata da questão sequer chega ser comentada, enquanto, por exemplo, a crônica em que Airton Monte discorre sobre sua iniciação sexual, despertou um pequeno furor.

Talvez porque às pessoas, a fruição da cultura vem antes dos mecanismos burocráticos que a possibilitam. E nisso nada há de muito errado.



Um dia de sol sobre a toalha: Ponge


[s/i/c]



PLAT DE POISSONS FRITS


Goût, vue, ouïe, odorat... c'est instantané, lorsque le poisson de mer cuit à l'huile s'entrouvre, un jour de soleil sur la nappe, et que les grandes épées qu'il comporte sont prêtes à joncher le sol, que la peau se détache comme la pellicule pressionnable parfois de la plaque exagérément révélée (mais tout ici est beaucoup plus savoureux), ou (comment pourrions-nous dire encore ?)... Non, c'est trop bon ! Ça fait comme une boulette élastique, un caramel de peau de poisson bien grillée au fond de la poêle...

Goût, vue, ouïes, odaurades : cet instant safrané... C'est alors, au moment qu'on s'apprête à déguster les filets encore vierges, oui ! Sète alors que la haute fenêtre s'ouvre, que la voilure claque et que le pont du petit navire penche vertigineusement sur les flots, tandis qu'un petit phare de vin doré—qui se tient bien vertical sur la nappe—luit à notre portée.

Francis Ponge


PRATO DE PEIXES FRITOS


Gosto, ver, ouvir, aromático... é instantâneo, assim que um peixe do mar frito no óleo se entreabre, um dia de sol sobre a toalha, e que as grandes espinhas que comporta parecem prontas a juncar o solo, que a pele se destaca como a película às vezes pressionável da carcaça exageradamente relevada (mas tudo aqui é muito mais saboroso), ou (como ainda poderíamos dizer?)...Não, é bom demais! Seu jeito de pastilha elástica, um caramelo de pele de peixe bem grelhada ao fundo da estufa...

Gosto, ver, ouvir, odoaurífero: esse instante açafranado... É, então, a hora de se apressar a degustação dos filés ainda virgens, sim! Mantel assim que à alta janela se abre, que a fivela fecha e que a ponte do pequeno navio tomba vertiginosamente sobre os fluxos, enquanto um pequeno farol de vinho dourado—que se posta bem vertical sobre a toalha—luz a nosso alcance.


* * *

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Para acabar minha rima: Creeley


Erich von Stroheim, Blind Husbands [Maridos Cegos], 1919



Ballad of the Despairing Husband


My wife and I lived all alone,
contention was our only bone.
I fought with her, she fought with me,
and things went on right merrily.

But now I live here by myself
with hardly a damn thing on the shelf,
and pass my days with little cheer
since I have parted from my dear.

Oh come home soon, I write to her.
Go fuck yourself, is her answer.
Now what is that, for Christian word?
I hope she feeds on dried goose turd.

But still I love her, yes I do.
I love her and the children too.
I only think it fit that she
should quickly come right back to me.

Ah no, she says, and she is tough,
and smacks me down with her rebuff.
Ah no, she says, I will not come
after the bloody things you've done.

Oh wife, oh wife -- I tell you true,
I never loved no one but you.
I never will, it cannot be
another woman is for me.

That may be right, she will say then,
but as for me, there's other men.
And I will tell you I propose
to catch them firmly by the nose.

And I will wear what dresses I choose!
And I will dance, and what's to lose!
I'm free of you, you little prick,
and I'm the one to make it stick.

Was this the darling I did love?
Was this that mercy from above
did open violets in the spring --
and made my own worn self to sing?

She was. I know. And she is still,
and if I love her? then so I will.
And I will tell her, and tell her right . . .

Oh lovely lady, morning or evening or afternoon.
Oh lovely lady, eating with or without a spoon.
Oh most lovely lady, whether dressed or undressed or partly.
Oh most lovely lady, getting up or going to bed or sitting only.

Oh loveliest of ladies, than whom none is more fair, more gracious, more beautiful.
Oh loveliest of ladies, whether you are just or unjust, merciful, indifferent, or cruel.
Oh most loveliest of ladies, doing whatever, seeing whatever, being whatever.
Oh most loveliest of ladies, in rain, in shine, in any weather.

Oh lady, grant me time,
please, to finish my rhyme.


Robert Creeley




Balada do Marido Exasperado

Minha mulher e eu vivíamos sós,
Discórdias eram nossos górdios nós.
Eu brigava com ela. Ela, comigo,
e a vida seguia um alegre artigo.

Mas agora, levo uma vida solteira
com quase nada de mais na prateleira,
e passo meus dias cheio de desdém
desde que me separei de meu bem.

Ah, volta logo, escrevo-lhe em aposta.
Vai te foder, é a sua resposta.
Mas o que é isso, penso, cristão e manso:
Será que ela anda comendo merda de ganso?

Ainda gosto dela, e não é pouco.
Sinto a sua falta e a das crianças feito louco.
A única solução que vejo, enfim,
É a de ela voltar o quanto antes para mim.

Que nada, ela diz, com pronta escusa
E me deixa arrasado com sua recusa.
Que nada, ela diz, o novelo acabou,
Depois de tudo que você aprontou.

Ah, mulher, mulher—vou te dizer
De nenhuma outra gostei como de você.
E não haverá outra mulher assim
Talhada na medida para mim.

Nada contra, ela diz, com algum cansaço,
Mas há outros homens no pedaço.
E vou lhe dizer, os caras estão na minha,
E vou manter todos eles na linha.

Hoje, visto o que na telha me der!
Saio pra dançar, dane-se quem quiser!
De você, estou livre, seu entojo,
Quero passar longe de seu nojo.

Era essa a amável namorada?
Essa graça quase imaculada
Que fazia violetas aflorar?
E esse velho coração cantar?

Era sim. Eu sei. E ainda será,
e se formos para cama? Vou provar.
E mostrar pra ela, com todos os ás...

Ah, meu bem, manhã ou noite ou entardecer.
Ah, meu bem, comendo com ou sem colher.
Ah, mais amado bem, vestida, desvestida ou em parte.
Ah, mais amado bem, ao acordar, deitar ou tão-só sentar-se.

Ah, mais adorada mulher, mais do que todas formosa, graciosa e bela
Ah, mais adorada mulher, quando justa ou injusta, impiedosa, indiferente e cruel
Ah, mais adorada mulher, fazendo o que seja, vendo o que seja, sendo o que seja.
Ah, mais adorada mulher, na chuva, no sol, em qualquer ambiente.

Ah, mulher concede-me um clima,
peço, para acabar minha rima.



* * *

Tenham cuidado com as portas mal cerradas: Huidobro


[s/i/c]



El Hombre Triste


Lloran voces sobre mi corazón...

No más pensar en nada.

Despierta el recuerdo y el dolor,

Tened cuidado con las puertas mal cerradas.


Las cosas se fatigan.


En la alcoba,

Detrás de la ventana donde el jardín se muere,

Las hojas lloran.


En la chaminea languidece el mundo.

Todo está obscuro,

Nada vive,

Tan sólo en el ocaso

Brillan los hojos del gato.


Sobre la ruta se alejaba un hombre.


El horizonte habla,

Detrás todo agonizaba.

La madre que murió sin decir nada

Trabaja en mi garganta.


Tu figura ilumina al fuego

Y algo quiere salir.

El chorro de água en el jardín.


Alguien tose en la otra pieza,

Una voz vieja.

Cuán lejos!


Un poco de muerte

Tiembla en los rincones.


Vicente Huidobro



O Homem Triste


Choram vozes sobre meu coração...

Não mais pensar em nada.

Despertam a lembrança e a dor,

Tenham cuidado com as portas mal cerradas.


As coisas se fatigam.


No quarto,

Atrás da janela onde o jardim morre,

As folhas choram.


Na chaminé o mundo enlanguesce.

Tudo segue obscuro,

Nada vive,

Tão-só no ocaso

Brilham os olhos do gato.


Sobre a estrada se afastava um homem.


O horizonte fala,

Detrás tudo agonizava.

A mãe que morreu sem dizer nada

Trabalha em minha garganta.


Tua figura ilumina ao fogo

E algo quer sair.

O jorro de água no jardim.


Alguém tosse noutro aposento,

Uma voz velha.

Quão distante!


Um pouco de morte

treme nos lugares.




* * *

Calçadas interrompidas de chinelos e angústia: Mazzini


[s/i/c]




Eu Arriscaria Chamar de Meu


este dia tendo

acidentada envergadura

de falanges, carpos, fêmures

e alguém

transitando calçadas interrompidas

de chinelos e angústia

pernas a postos

bicicleta indiscernível de como

se movimenta pelo meio

do vento

conjunto de assobios dentro

e o nome, mapeando-se entre

utilidades e belezas

para descartar


Renato Mazzini






Nota - um jovem poeta paulista [de Santa Fé do Sul, perto da fronteira do segundo Mato Grosso, região de r's caipiras] para o qual já me havia chamado a atenção o Diego Vinhas. É inédito em livro. Bom pensar que gente como ele e a Mariana Botelho, que devem ter mais ou menos a mesma idade, aí pelos vinte e poucos, ainda vão lançar seus livros. Ou não. Mas que escrevem poesia, disso não resta a menor dúvida. É interessante também pensar que ambos vêm de minúsculas cidades de um Brasil mais fundo. No caso de Mariana, Padre Paraíso. Cidadezinhas nunca quaisquer quando se quer.


* * *

terça-feira, 12 de maio de 2009

Não fazem greves: Mitchell


[s/i/c]


Solid Citizens


Let us praise the dead


Snug in their wooden homes

Under the aerials of Christ

Keeping themselves to themselves.


They do not strike or demonstrate;


Should they do so

They would lose the support

Of a sympathetic public.


Adrian Mitchell



Cidadãos Sólidos


Louvemos os mortos


Encaixados em suas casas de madeira

Sob as antenas de Cristo

Metidos só consigo mesmos.


Eles não fazem greve ou passeatas;


Se assim agissem

Perderiam o apoio

De um público favorável.



* * *

Sobre não importa qual roseira: Roubaud


[s/i/c]



description de cinq gravures

Première gravure
une pagode une rizière de des
fleurs et perfums un dragon,
prêt a devenir étoffe

Deuxième gravure
Héraklès, in loco le colosse de Rhodes
reçoit murailles, tours, crénaux
d'une multitude de nefs posées sur la mer
qui sera manteau à la laine bouclée violette

troisième gravure
sphère celeste : firmament
trés noir (encre de chine) étoile
dorées

quatrième gravure
n'importe quelle rose sur n'importe quel rosier

cinquiéme gravure
cercueil


Jacques Roubaud


descrição de cinco gravuras


Primeira gravura
um pagode um arrozal de onde
flores e perfumes um dragão,
prestes a estufar-se

Segunda gravura
Herácles, in loco o Colosso de Rodes
recebe muralhas, torres, ameias,
de uma profusão de naus ao largo de um mar
que será capa à lã crespa violeta

terceira gravura
esfera celeste : firmamento
bem negra (tinta da china) estrelas
douradas

quarta gravura
não importa qual rosa sobre não importa qual roseira

quinta gravura
ataúde




* * *

segunda-feira, 11 de maio de 2009

No oco de um corpo que se atreve a vir: Hughes


[s/i/c]



The Thought Fox

I imagine this midnight moment's forest:
Something else is alive
Besides the clock's loneliness
And this blank page where my fingers move.

Through the window I see no star:
Something more near
Though deeper within darkness
Is entering the loneliness:

Cold, delicately as the dark snow,
A fox's nose touches twig, leaf;
Two eyes serve a movement, that now
And again now, and now, and now

Sets neat prints into the snow
Between trees, and warily a lame
Shadow lags by stump and in hollow
Of a body that is bold to come

Across clearings, an eye,
A widening deepening greenness,
Brilliantly, concentratedly,
Coming about its own business

Till, with sudden sharp hot stink of fox
It enters the dark hole of the head.
The window is starless still; the clock ticks,
The page is printed.

Ted Hughes


A Raposa Pensada

Imagino esse instante florestal à meia-noite:
Algo se agita
Além da solidão do relógio
E desta página em branco onde meus dedos movem.

Pela janela não há estrela;
Algo mais próximo
Embora fundo na escuridão
Adentra a solidão:

Frio, delicado como a neve escura,
Um focinho de raposa toca galho, folha;
Dois olhos a serviço de um momento, que ora
E de novo ora, e ora, e ora

Deixa nítidas marcas sobre a neve,
Por entre árvores, cautelosamente uma sombra
Hesitante, retarda-se por impulso no oco
De um corpo que se atreve a vir

Pelas clareiras, um olho,
Dilatando-se em profundo verdume,
Brilhante, concentradamente,
Ocupado com suas coisas

Até que, com um súbito mau cheiro quente de raposa
Adentra a escura cava da mente.
A janela prossegue sem estrelas, o relógio pulsa,
A página está pronta.



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Mas onde as neves de antanho: a célebre balada de Villon


François Villon em gravura do sec. XVI


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Ballade (des dames de temps jadis)

Dictes moy ou, n'en quel pays,
Est Flora la belle Rommaine,
Archipiades ne Thaïs,
Qui fut sa cousine germaine,
Echo parlant quant bruyt on maine
Dessus riviere ou sus estan,
Qui beaulté ot trop plus q'humaine.
Mais ou sont les neiges d'antan?
Ou est la tres sage Helloïs,
Pour qui chastré fut et puis moyne
Pierre Esbaillart a Saint Denis?
Pour son amour ot ceste essoyne.
Semblablement, ou est la royne
Qui commanda que Buridan
Fust geté en ung sac en Saine?
Mais ou sont les neiges d'antan?
La royne Blanche comme lis
Qui chantoit a voix de seraine,
Berte au grand pié, Beatris, Alis,
Haremburgis qui tint le Maine,
Et Jehanne la bonne Lorraine
Qu'Englois brulerent a Rouan;
Ou sont ilz, ou, Vierge souvraine?
Mais ou sont les neiges d'antan?
Prince, n'enquerez de sepmaine
Ou elles sont, ne de cest an,
Qu'a ce reffrain ne vous remaine:
Mais ou sont les neiges d'antan?

François Villon (1431-c.1463)


Balada (das Damas dos Tempos Idos)

Digam-me em que país
vive Flora, a bela romana,
Alcebíada ou Taís,
suas primas de estirpe louçana,
Eco, que nos replicava a gana,
Pelos ribeiros e banhos,
Com sua beleza sobre-humana?
Mas onde estão as neves de antanho?
Onde a mui sábia Heloísa,
Por quem Abelardo foi capado
Para ganhar de frei a divisa
Por amor a ela destinado?
E onde, rogo-vos, o fim levado
Pela rainha que ordenou o último apanho
De Buridan num saco ao Sena despejado?
Mas onde estão as neves de antanho?
E Branca, a rainha, de pele flor-de-lis,
Que cantava com voz de sereia,
Berta de finos pés, Alice, Beatriz,
Ermengarda, do Maine a herdeira,
E Joana, que os ingleses na fogueira
Em Ruão, findaram-lhe o assanho;
Mãe de Deus, onde delas a soleira?
Mas onde estão as neves de antanho?
Alteza, na semana, não demandeis onde vaga
cada uma, nem num ano, que não ganho,
Pois só esse refrão vos servirá de paga:
Mas onde estão as neves de antanho?

Nota – François Villon é o maior poeta francês do final da Idade Média. Na tradição dos goliardos, foi também, como se poderia definir hoje, um sujeito “barra pesada”. Comandava uma gangue de ladrões que apavorava os subúrbios de Paris. Sua poesia, no entanto, é marcada por uma humanidade e um lirismo tão puros e espontâneos, que ele era um dos poetas preferidos de ninguém menos que Simone Weil. À sua vez, poetas malditos, como Baudelaire e Rimbaud, o entreviam como uma sorte de precursor. Aos 32 anos ele deixou Paris para trás. Sem deixar rastos, fugindo de uma condenação á forca. E nunca mais se soube dele. Em inglês foi vertido por poetas importantes, tais como Dante Gabriel Rossetti, Swinburne, Ezra Pound e Robert Lowell. Este poema é um de seus mais conhecidos, e foi traduzido amplamente em português. Entre as versões, há uma de Augusto de Campos, que li muitos anos atrás [“nas neves d'antanho”]. Quem também traduziu Villon foi o poeta pernambucano Sebastião Uchoa Leite, num livro editado para a Edusp, que cheguei a participar, como revisor. Não senti muito dificuldade em achar soluções para a 'Balada', quando a estava traduzindo, agora à noite. Também não compilei com a tradução de Augusto ou de Uchoa Leite. Por isso mesmo, desconfio que minha versão possa conter uma ou outra solução menos feliz. Ah, e preferi “de antanho” por “d'antanho”.



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domingo, 10 de maio de 2009

Pense!


[s/i/c]



Decodificação depois de um atentado

Só recentemente divulgou-se na íntegra o conteúdo da caixa-preta do segundo dos Boeings, o que atingiu a Torre Sul do World Trade Center. Dizem que em meio a algazarra de toques de celulares, gritos e desesperadas interjeições em inglês e numa salada quase imprecisa de línguas, sobressaía uma voz num idioma distinto. A princípio, os peritos da CIA pensaram tratar-se de um grito de guerra da Al-Qaeda, em árabe. Mas um arabista da Universidade de Yale descartou a hipótese. Analisada por um linguista da Universidade de Colúmbia, este logo apontou que a expressão ouvida era uma interjeição numa língua neo-latina. E, após escutá-la vezes sem conta, disse tratar-se, com plena certeza, de português do Brasil, mesmo que num sotaque muito próprio. Na fita, sobressaindo-se em auto e bom som, ouve-se:

–"Pense numa barroada"!


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