François Villon em gravura do sec. XVI
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Ballade (des dames de temps jadis)
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Decodificação depois de um atentado
Só recentemente divulgou-se na íntegra o conteúdo da caixa-preta do segundo dos Boeings, o que atingiu a Torre Sul do World Trade Center. Dizem que em meio a algazarra de toques de celulares, gritos e desesperadas interjeições em inglês e numa salada quase imprecisa de línguas, sobressaía uma voz num idioma distinto. A princípio, os peritos da CIA pensaram tratar-se de um grito de guerra da Al-Qaeda, em árabe. Mas um arabista da Universidade de Yale descartou a hipótese. Analisada por um linguista da Universidade de Colúmbia, este logo apontou que a expressão ouvida era uma interjeição numa língua neo-latina. E, após escutá-la vezes sem conta, disse tratar-se, com plena certeza, de português do Brasil, mesmo que num sotaque muito próprio. Na fita, sobressaindo-se em auto e bom som, ouve-se:
–"Pense numa barroada"!
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Alguns amigos,
com sílabas de açúcar,
dizem te trazer no seio.
Isso quando estás
na crista da onda.
Mas, quando a onda passa,
são mais amigos do alheio.
Amigos, amigos,
no engenho e na arte,
quando se encontram,
se beijam, tudo se reparte.
Mas, na maioria do tempo:
amigos, amigos,
negócios em toda parte.

Voltar a Patópolis
por Demitri Túlio [publicado na coluna Das Antigas, O Povo, em 25.08.07]
POR TEMPOS FREQUENTEI Patópolis. Ficava em qualquer esquina onde tivesse uma banca. Entrava por lá e me perdia, tardes e tardes, perambulando por suas praças coloridas e ruas de calçamento. Patópolis recendia a páginas novas de revistinha recém-chegada. Um aroma de pão quente com manteiga desfazendo-se no café preto ao mergulhar o pão no copo.
CHEIRAVA TAMBÉM A TORTA de maçã da vovó Donalda, esfriando na janela. Pensava eu, que janelas e parapeitos existiam pra esfriar tortas. Porém, maçãs não nasciam lá em casa. Goiabeiras. A não ser que padecêssemos da garganta e nos atacassem com Bezetacil pra desinflamar as amídalas de sorvete. As argentinas vinham como remédio e desejo canelau. Enroladas em seda roxa de encomenda e infância.
VOVÓ DONALDA NÃO ERA minha avó, mas desejava ir nas férias ao sítio dela e topar com algum urso na Aratuba. Acreditava que lá existiam macieiras, pés de amoras doces e morangos. Tudo verdinho, e no inverno nevava. Bom pra brincar de fazer boneco de neve quando chegasse o Natal e encontrar Huguinho, Zezinho e Luizinho com um gorro de Noel.
EM PATÓPOLIS, COMECEI a encafifar, só havia sobrinhos, tios, avós. Nem pai, nem mãe. Patos órfãos e psicologicamente perturbados. Um unha-de-fome, outro esquizofrênico, um que se achava sortudo. Cachorros patetas, rato metido a herói e dono de um Pluto, cavalos mal resolvidos, papagaios malandros e um periquito inventor.
AS FEMININAS, COITADAS, eram chatas e titias. Namorados que nunca se decidiam e o tempo passando em almanaque. Toda moça que virava coroa, pra mim, era Margarida. Minnie, Clarabela. E, engraçado, geralmente tinham uma bundona, eram gulosas e combinavam o laço vermelho do cabelo com a calçola de bolinha.
MINTO. OS IRMÃOS METRALHAS [gostava deles] tinham mãe. Malvada e boa. Mas o Mancha, o João Bafo-de-Onça, o Ranulfo, a Madame Mim, a Maga Patalógica e o Patacôncio, não. Nem o Morcego Vermelho, o Super-Pateta [e o super-amendoim], o Super-Pato ou o Lampadinha. Nem uns meninos da minha rua.
ANDEI COM ESSE PESSOAL por muito tempo. Brinquei. Foram eles que me ensinaram a ler. Depois fui apresentado a uma boneca de pano que falava, um sabugo de milho que decorava a tabuada e um vidro azul que pensava. Vez ou outra, volto a Patópolis. E nunca achei que o Pato Donald é gay (se fosse não teria problema) ou que o capitalismo é a melhor coisa da infância.
Demitri Túlio

The Trees
The trees are coming into leaf
Like something almost being said;
The recent buds relax and spread,
Their greenness is a kind of grief.
Is it that they are born again
And we grow old? No, they die too.
Their yearly trick of looking new
Is written down in rings of grain.
Yet still the unresting castles thresh
In fullgrown thickness every May.
Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh.
Philip Larkin
As Árvores
As árvores tratam de as folhas recobrar
Como algo que se ameaça dizer;
Os novos brotos relaxam-se ao crescer,
Seu viço é uma espécie de pesar.
Será que é por que nascem de novo
E ficamos mais velhos? Não, também morrerão.
Seu truque anual desse renovo
É anotado em anéis de grão.
Porém, o inquieto castelo se estendeu
Em espessuras, é maio, vem o esplendor.
Parecem dizer, o ano passado morreu,
É começar em flor, em flor, em flor.
As Árvores
As árvores tratam de as folhas renovar
Como algo que se está quase a dizer;
Os novos brotos relaxam-se ao crescer,
seu vigor é uma sorte de pesar.
Será que é por que nascem de novo
e ficamos mais velhos? Não, também irão para covas.
Seu truque anual de parecer novas
É anotado em anéis de covo.
Porém, se dispõem como um castelo
em maio sua densa espessura de apogeu,
Parecem dizer, se o ano passado morreu,
É começar em grelo, em grelo, em grelo.
Nota - segui traduzindo este poema, de que tanto gosto, de forma mais ou menos espontânea. Só depois percebi que o esquema de rimas [abba] fora modificado [para abab], nas duas estrofes finais da primeira versão. Então, fiz a segunda, mantendo o esquema. Vejam a que mais agrada a vocês.
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