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Um epigrama para fechar a semana
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Voltar a Patópolis
por Demitri Túlio [publicado na coluna Das Antigas, O Povo, em 25.08.07]
POR TEMPOS FREQUENTEI Patópolis. Ficava em qualquer esquina onde tivesse uma banca. Entrava por lá e me perdia, tardes e tardes, perambulando por suas praças coloridas e ruas de calçamento. Patópolis recendia a páginas novas de revistinha recém-chegada. Um aroma de pão quente com manteiga desfazendo-se no café preto ao mergulhar o pão no copo.
CHEIRAVA TAMBÉM A TORTA de maçã da vovó Donalda, esfriando na janela. Pensava eu, que janelas e parapeitos existiam pra esfriar tortas. Porém, maçãs não nasciam lá em casa. Goiabeiras. A não ser que padecêssemos da garganta e nos atacassem com Bezetacil pra desinflamar as amídalas de sorvete. As argentinas vinham como remédio e desejo canelau. Enroladas em seda roxa de encomenda e infância.
VOVÓ DONALDA NÃO ERA minha avó, mas desejava ir nas férias ao sítio dela e topar com algum urso na Aratuba. Acreditava que lá existiam macieiras, pés de amoras doces e morangos. Tudo verdinho, e no inverno nevava. Bom pra brincar de fazer boneco de neve quando chegasse o Natal e encontrar Huguinho, Zezinho e Luizinho com um gorro de Noel.
EM PATÓPOLIS, COMECEI a encafifar, só havia sobrinhos, tios, avós. Nem pai, nem mãe. Patos órfãos e psicologicamente perturbados. Um unha-de-fome, outro esquizofrênico, um que se achava sortudo. Cachorros patetas, rato metido a herói e dono de um Pluto, cavalos mal resolvidos, papagaios malandros e um periquito inventor.
AS FEMININAS, COITADAS, eram chatas e titias. Namorados que nunca se decidiam e o tempo passando em almanaque. Toda moça que virava coroa, pra mim, era Margarida. Minnie, Clarabela. E, engraçado, geralmente tinham uma bundona, eram gulosas e combinavam o laço vermelho do cabelo com a calçola de bolinha.
MINTO. OS IRMÃOS METRALHAS [gostava deles] tinham mãe. Malvada e boa. Mas o Mancha, o João Bafo-de-Onça, o Ranulfo, a Madame Mim, a Maga Patalógica e o Patacôncio, não. Nem o Morcego Vermelho, o Super-Pateta [e o super-amendoim], o Super-Pato ou o Lampadinha. Nem uns meninos da minha rua.
ANDEI COM ESSE PESSOAL por muito tempo. Brinquei. Foram eles que me ensinaram a ler. Depois fui apresentado a uma boneca de pano que falava, um sabugo de milho que decorava a tabuada e um vidro azul que pensava. Vez ou outra, volto a Patópolis. E nunca achei que o Pato Donald é gay (se fosse não teria problema) ou que o capitalismo é a melhor coisa da infância.
Demitri Túlio

The Trees
The trees are coming into leaf
Like something almost being said;
The recent buds relax and spread,
Their greenness is a kind of grief.
Is it that they are born again
And we grow old? No, they die too.
Their yearly trick of looking new
Is written down in rings of grain.
Yet still the unresting castles thresh
In fullgrown thickness every May.
Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh.
Philip Larkin
As Árvores
As árvores tratam de as folhas recobrar
Como algo que se ameaça dizer;
Os novos brotos relaxam-se ao crescer,
Seu viço é uma espécie de pesar.
Será que é por que nascem de novo
E ficamos mais velhos? Não, também morrerão.
Seu truque anual desse renovo
É anotado em anéis de grão.
Porém, o inquieto castelo se estendeu
Em espessuras, é maio, vem o esplendor.
Parecem dizer, o ano passado morreu,
É começar em flor, em flor, em flor.
As Árvores
As árvores tratam de as folhas renovar
Como algo que se está quase a dizer;
Os novos brotos relaxam-se ao crescer,
seu vigor é uma sorte de pesar.
Será que é por que nascem de novo
e ficamos mais velhos? Não, também irão para covas.
Seu truque anual de parecer novas
É anotado em anéis de covo.
Porém, se dispõem como um castelo
em maio sua densa espessura de apogeu,
Parecem dizer, se o ano passado morreu,
É começar em grelo, em grelo, em grelo.
Nota - segui traduzindo este poema, de que tanto gosto, de forma mais ou menos espontânea. Só depois percebi que o esquema de rimas [abba] fora modificado [para abab], nas duas estrofes finais da primeira versão. Então, fiz a segunda, mantendo o esquema. Vejam a que mais agrada a vocês.
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Modus Espelendi Parvulos e o Cu da Gia
João Nogueira é mesmo um cronista surpreendente. Basta se ler dele notícia sobre os antigos lampiões de rua, que se acendiam queimando azeite de peixe. O modo talhado como Nogueira os descreve vale mais que uma sequência de fotos. Ou então, sua crônica sobre os antigos e lúgubres enterros noturnos, para se dimensionar a profunda modificação da relação entre o homem e a morte numa capital provinciana do Brasil, durante o espaço de algumas décadas, a partir de meados do séc. XIX. Ou as metamorfoses do senso de religiosidade embutidas nessas descrições. Ou o quanto os costumes se modificam numa vertigem sem peias. A procissão de penitentes, cuja vanguarda, segundo a lenda, deitava-se ao limiar da Igreja do Rosário para ser pisoteada pelos que vinham atrás. Para indicar, quem sabe, que os últimos seriam os primeiros. Ou os salmos alegres que se cantavam quando morria uma criança, um "anjinho". E o padre oficiante do enterro enfiava pela Rua das Flores (atual Castro e Silva) com um largo sorriso no rosto como que conduzindo uma pequena festividade, à frente do esquife, escoltado por um bando de coroinhas, seguido do maior número de crianças que se poderia reunir à ocasião, ao modo de uma ciranda organizada. A esse antigo rito católico dava-se o nome – provavelmente num latim estropiado ou gralhado – de Modus Espelendi Parvulos. Ou o inventário dos nomes antigos de ruas, praças e logradouros de Fortaleza. O antigo descampado onde se situa, hoje, o Mercado São Sebastião, ao início da atual Av. Bezerra de Menezes, por exemplo, era conhecido por todos os fortalezenses, desde os com títulos de nobreza aos carregadores de tonéis onde se acumulavam as fezes de uma residência nos tempos em que não havia esgotos, de O Cu da Gia.