sexta-feira, 8 de maio de 2009

Mais que quites


[s/i/c]



Um epigrama para fechar a semana



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TO John I owed great obligation;
But John unhappily thought fit
To publish it to all the nation,
Sure John and I are more than quit.
Mathew Prior (1664-1721)
AO João eu devia uma obrigação;
Mas, ah, João passou dos limites
Ao publicá-la pra toda a nação,
João e eu estamos quites.



* * *

Uma frase de Marx, reminiscências & mesas dobráveis


[s/i/c]



Contrariando o autor de O Capital


Marx diz que “a humanidade apenas se propõe os problemas que é capaz de resolver”. Mas é impossível aferrar-se a esta frase com certo grau de convicção. Ou, no mínimo, deve-se entrevê-la com mui severas reservas.

Redimensões de escala são sempre importantes. Especialmente depois que o corpo não cresce mais, porque são mais sutis. No presente, mantenho em meu quarto uma mesa dobrável, dessas que se usam em bares. Certo dia, ao olhar para ela mais detidamente, percebi que, embora meu quarto, que também faz as vezes de estúdio, embora relativamente amplo e arejado, é bem menor do que eu julgava que fosse. Ou seja, que os bares e botecos são, em geral, ambientes mais dilatados do que se pensa. Para comportar algumas dezenas de mesas dobráveis como a que eu tenho ora diante dos olhos.

Mas então, a mesa me lembrou de um tempo que não estava diante dos olhos: como pode? Um tempo em que eu almoçava em um restaurante por quilo, no bairro da Pompéia em São Paulo.

O quilo era instalado em um antiga casa assobradada. E, como eu não conhecia ninguém, buscava os ambientes menos frequentados. Invariavelmente, seguia para os altos, em que os quartos talvez tivessem a área do meu quarto atual; e em que havia, usualmente, mesas vazias; e de onde era possível descortinar a Igreja de São João Vianey e a praça adjacente, com o tráfego deslizando pela Rua Coriolano.

Era possível, assim, escapar de um problema para o qual nunca encontrei uma solução. Um problema de comensalidade. De comer juntos à volta de uma mesa sem se conhecer. É claro que acontecia de, por vezes, alguém sentar á minha mesa. Ou de o restaurante estar tão cheio, que não avulsava mesa vazia e era necessário sentar-se à mesa com outros. Então você ficava ali, mastigando o seu feijão com arroz, seu torresminho e bife ao molho madeira diante de um desconhecido , em silêncio, fingindo paulistanamente que os outros eram uma camada de invisível, uma borra, vultos indistintos ou desfocados, que, quando muito, se entrolhavam de rabo de olho, apesar de ouvir os nhoque-nhoques dos lábios e línguas, ou aquele fricativação de ar limpando os dentes por aspiração. Ou ainda o modo como se depunha três dedos da mão ao modo de toldo, durante a palitação dos dentes.

Até hoje acho impertinente dirigir a palavra a alguém que não conheço numa situação assim ou em quase qualquer outra. A não ser que tenha algo verdadeiramente imprescindível a dizer. Tal como: “Veja, a cortina está pegando fogo!” Ou então: “quase não consigo olhar mais para nada que não seja seus olhos!”

Talvez porque ache o fim essas conversas do tipo: “Tá chovendo, né?” ou “Puxa, que calor!” e que, invariavelmente terminam num “Essa semana tá fogo!”. Ou então, pura e simplesmente num “É!”. Ou ainda pior, aquela maneira de olharem para você como se você houvesse quebrado uma ética preciosa e indiscutível: solitários não se falam em restaurante por quilo.

Como na esmagadora maioria dos dias não há incêndios ou paixões, acho, então, esse problema, o da comensalidade nos quilos da Pompéia, quando se vai sozinho, durante um dia de grande movimento, e se toma lugar numa mesa—dobrável ou não—no andar de cima de um casarão convertido em restaurante, onde há uma janela em que se descortina a Igreja de São João Vianey e o tráfego da Rua Coriolano no limiar da tarde, constrangedor. E, embora esse problema me haja sido proposto pela raça humana, sei que vou morrer sem achar solução para ele.

Tudo isso talvez não dissesse a Marx, se ele por acaso sentasse do lado de lá de minha mesa desdobrável ou não, num quilo. Afinal, há certas incoerências entre a sobredeterminação da estrutura que talvez valessem mais a pena discutir, durante o almoço. Mas logo, logo eu ouviria o nhoque-noque dele mastigando. Ou a mais-valia da gastura de ouvir sua língua passando pelos incisivos, provocando aquela fricação aguda, de quando se limpa os dentes por aspiração de ar.

Quem vai aos quilos tem hora marcada para volver ao trabalho. Joga o pasto para o esôfago, pensando na produtividade, no patrão, na conta, nas crianças, na Praia Grande, no Guarujá, no trânsito, no Minhocão, na filha do vizinho, na greve dos metroviários, na final da Copa do Brasil, na gripe suína ou não. E em muitas outras minhocas, prestações, insumos.

Marx estava errado. A humanidade, desde de o ovo e da galinha, vive a se propor problemas insolúveis.




* * *

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Janelas existiam para esfriar tortas


Carl Barks, década de 80


Voltar a Patópolis

por Demitri Túlio [publicado na coluna Das Antigas, O Povo, em 25.08.07]


POR TEMPOS FREQUENTEI Patópolis. Ficava em qualquer esquina onde tivesse uma banca. Entrava por lá e me perdia, tardes e tardes, perambulando por suas praças coloridas e ruas de calçamento. Patópolis recendia a páginas novas de revistinha recém-chegada. Um aroma de pão quente com manteiga desfazendo-se no café preto ao mergulhar o pão no copo.

CHEIRAVA TAMBÉM A TORTA de maçã da vovó Donalda, esfriando na janela. Pensava eu, que janelas e parapeitos existiam pra esfriar tortas. Porém, maçãs não nasciam lá em casa. Goiabeiras. A não ser que padecêssemos da garganta e nos atacassem com Bezetacil pra desinflamar as amídalas de sorvete. As argentinas vinham como remédio e desejo canelau. Enroladas em seda roxa de encomenda e infância.

VOVÓ DONALDA NÃO ERA minha avó, mas desejava ir nas férias ao sítio dela e topar com algum urso na Aratuba. Acreditava que lá existiam macieiras, pés de amoras doces e morangos. Tudo verdinho, e no inverno nevava. Bom pra brincar de fazer boneco de neve quando chegasse o Natal e encontrar Huguinho, Zezinho e Luizinho com um gorro de Noel.

EM PATÓPOLIS, COMECEI a encafifar, só havia sobrinhos, tios, avós. Nem pai, nem mãe. Patos órfãos e psicologicamente perturbados. Um unha-de-fome, outro esquizofrênico, um que se achava sortudo. Cachorros patetas, rato metido a herói e dono de um Pluto, cavalos mal resolvidos, papagaios malandros e um periquito inventor.

AS FEMININAS, COITADAS, eram chatas e titias. Namorados que nunca se decidiam e o tempo passando em almanaque. Toda moça que virava coroa, pra mim, era Margarida. Minnie, Clarabela. E, engraçado, geralmente tinham uma bundona, eram gulosas e combinavam o laço vermelho do cabelo com a calçola de bolinha.

MINTO. OS IRMÃOS METRALHAS [gostava deles] tinham mãe. Malvada e boa. Mas o Mancha, o João Bafo-de-Onça, o Ranulfo, a Madame Mim, a Maga Patalógica e o Patacôncio, não. Nem o Morcego Vermelho, o Super-Pateta [e o super-amendoim], o Super-Pato ou o Lampadinha. Nem uns meninos da minha rua.

ANDEI COM ESSE PESSOAL por muito tempo. Brinquei. Foram eles que me ensinaram a ler. Depois fui apresentado a uma boneca de pano que falava, um sabugo de milho que decorava a tabuada e um vidro azul que pensava. Vez ou outra, volto a Patópolis. E nunca achei que o Pato Donald é gay (se fosse não teria problema) ou que o capitalismo é a melhor coisa da infância.


Demitri Túlio



Nota- sou fã de carteirinha da coluna Das Antigas, de Demitri Túlio. Este texto, em particular, é um que invejo—no melhor sentido—não haver escrito. Acho que há uma sabedoria nessa arqueologia de expressões, palavras, gestos e até objetos que eram tão característicos de um determinado passado recente. Há em Das Antigas uma espécie de inventário do imaginário que povoava a mente dos fortalezenses nas últimas décadas. Em especial, a mente das crianças e dos adolescentes que cresceram ao longo dos 70 e 80. E tudo pinçado com uma argúcia muito própria. Em geral, entendo que tanto o Diário quanto [mais ainda] O Povo possuem um excesso de colunistas. Mas a Das Antigas é uma coluna imprescindível dentro da economia estética de nosso jornal mais antigo. Para saber mais sobre Carl Barks, o mago criador do Tio Patinhas, clique AQUI ["O Borges dos quadrinhos"].




* * *


Como tinta de jornais ainda em provas


[s/i/c]



Suicide of a Moderate Dictator


This is a day when truths will out, perhaps;
leak from the dangling telephone earphones
sapping the festooned switchboards' strength;
fall from the windows, blow from off the sills,
—the vague, slight unremarkable contents
of emptying ash-trays; rub off on our fingers
like ink from the un-proof-read newspapers,
crocking the way the unfocused photographs
of crooked faces do that soil our coats,
our tropical-wight coats, like slapped-at moths.

Today's a day when those who work
are idling. Those who played must work
and hurry, too, to get it downe,
with little dignity or none.
The newspapers are sold; the kiosk shutters
crash down. But anyway, in the night
the headlines wrote themselves, see, on the streets
and sidewalks everywhere; a sediment's splashed
even to the first floors of apartment houses.

This is a day that's beautiful as well,
warm and clear. At seven o'clock I saw
the dogs being walked along the famous beach
as usual, in a shiny gray-green dawn,
leaving their paw prints draining in the wet.
The line of breakers was steady and the pinkish,
segmented rainbow steadily hung above it.
At eight, two little boys were flying kites.

Elisabeth Bishop


Suicídio de um Ditador Moderado

Este é o dia em que as verdades virão, talvez;
vazando-se das pendentes alças dos telefones
exaurindo as grinaldas das mesas de controle;
caindo das janelas, despejando-se dos batentes,
—os vagos conteúdos, levemente desimportantes
de cinzeiros esvaziados, comichões em nossos dedos,
como tinta de jornais-ainda-em-provas
rebentando o modo como as fotos desfocadas
de rostos rotos soem manchar nossos casacos,
nossos casacos trópico-puídos, feito traças esmagadas.

Hoje é o dia em que os que trabalham
folgam, e os que fingem se ocupam
e apressam, também, em demonstrar assiduidade
com pouca ou nenhuma dignidade.
Vendem-se jornais, os postigos dos quiosques
desabam. Mas, sem embargo, à noite
as manchetes escrevem-se a si, siga, pelas ruas
calçadas, toda parte; um sedimento salpica-se
até o primeiro andar dos prédios de apartamento.

Este é um dia bonito por igual,
ardente e claro. Às sete horas, vi
os cães sendo passeados na praia famosa,
como sempre, na ofuscante alvorada verde-gris,
largando a marca das patas no dreno úmido.
A linha da rebentação seguia firme e as róseas
nuvens segmentadas pairavam firmes acima.
Às oito, dois garotos soltavam pipas.





Nota - o poema em que Bishop discorre sobre o suicídio de Vargas. Este poema entrega a dimensão de o quanto uma grande poeta, como Bishop, não se exime de comentar - ainda que de modo muito distinto do que sai na imprensa, porque impressivamente mais elaborado - os acontecimentos do dia.


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Como algo que se ameaça dizer: duas versões para um mesmo Larkin


[s/i/c]



The Trees


The trees are coming into leaf

Like something almost being said;

The recent buds relax and spread,

Their greenness is a kind of grief.


Is it that they are born again

And we grow old? No, they die too.

Their yearly trick of looking new

Is written down in rings of grain.


Yet still the unresting castles thresh

In fullgrown thickness every May.

Last year is dead, they seem to say,

Begin afresh, afresh, afresh.


Philip Larkin



As Árvores


As árvores tratam de as folhas recobrar

Como algo que se ameaça dizer;

Os novos brotos relaxam-se ao crescer,

Seu viço é uma espécie de pesar.


Será que é por que nascem de novo

E ficamos mais velhos? Não, também morrerão.

Seu truque anual desse renovo

É anotado em anéis de grão.


Porém, o inquieto castelo se estendeu

Em espessuras, é maio, vem o esplendor.

Parecem dizer, o ano passado morreu,

É começar em flor, em flor, em flor.


As Árvores


As árvores tratam de as folhas renovar

Como algo que se está quase a dizer;

Os novos brotos relaxam-se ao crescer,

seu vigor é uma sorte de pesar.


Será que é por que nascem de novo

e ficamos mais velhos? Não, também irão para covas.

Seu truque anual de parecer novas

É anotado em anéis de covo.


Porém, se dispõem como um castelo

em maio sua densa espessura de apogeu,

Parecem dizer, se o ano passado morreu,

É começar em grelo, em grelo, em grelo.





Nota - segui traduzindo este poema, de que tanto gosto, de forma mais ou menos espontânea. Só depois percebi que o esquema de rimas [abba] fora modificado [para abab], nas duas estrofes finais da primeira versão. Então, fiz a segunda, mantendo o esquema. Vejam a que mais agrada a vocês.



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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Valeu!


[s/i/c]



Teoria do Agradecimento



Em todas as línguas européias modernas, agradecer guarda uma origem religiosa. Quando se diz "Gracias" ou "Grazie", se pode pensar numa frase mais longa, que, no correr dos anos, dos séculos, foi reduzida a uma ou duas palavras - o mundo foi ficando mais frenético. Algo como "Deus lhe cumule de Graças", "Deus lhe dê muitas bênçãos e graças", etc. "Merci": "estou à sua mercê", "graças à sua piedade correu tudo bem". "Obrigado": "minha pessoa se sente obrigada a devolver tão dadivosa graça a você". "Dank", de onde vem "thank", originalmente quer dizer "gratidão" [e, portanto, tem a ver com uma graça alcançada]. Reparem no enlevo moral de todas essas fórmulas, surgidas ou reforçadas na Idade Média e, logo, vinculadas ao cristianismo. Fórmulas que forjam um vínculo, uma obrigação moral diante da generosidade, da prestatividade, do desprendimento do outro.

Mas hoje em dia muitos preferem dizer só: "valeu!" Aqui, também se pode imaginar que se estendêssemos o "valeu", numa lógica oposta às reduções das belas fórmulas antigas, seria algo como: "seu favor valeu 570 reais e uns quebrados, meu caro". Ou então: "seu obséquio valeu o preço de um i-pod, minha prezada". Ou ainda, para se agradecer um grande favor: "pode crer, amigão, o que você fez por mim tem quase o valor do preço de uma Ferrari!".



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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Literatura de lua, um convite


Virna Teixeira no Literatura de Lua, em fevereiro passado



CONVITE

Estarei amanhã, a convite de Fernanda Meireles, no Literatura de Lua. Lerei alguns textos e estarei à disposição dos presentes para uma conversa amena sobre literatura.

Será às 19hs, no charmoso Café da Livraria Lua Nova, nos altos da mesma. Para quem nunca foi, a Lua Nova fica ao final da 13 de Maio, em frente ao Shopping Benfica.

A todos os que tiverem interesse e dispuserem de tempo, nos vemos por lá, amanhã [05/05/09]!

Abraços,

Ruy


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Uma e a mesma coisa


Pieter Brueghel, o Velho, Paisagem com a queda de Ìcaro, sec. XVII




Será o Benedito?

Spinoza – a life, por Stephen Nadler, Cambridge University Press, 407 ps.

O enredo começa antes. Quatro gerações. Em 1547, D. João III de Portugal, um tanto na contramão do papado, oferece amplas condições para o estabelecimento da Inquisição. Os judeus portugueses aceleram a migração para os Países Baixos. A meta inicial é Antuérpia, onde controlam o comércio de especiarias do Oriente, do açúcar brasileiro e das resinas africanas. Posteriormente o eixo se desloca para Amsterdã.
Mais ricos, cultos, cosmopolitas que os judeus do leste europeu (ou asquenázi), os marranos portugueses também se destacam pelo alto valor que atribuem à educação, às profissões liberais – especialmente a medicina –, e às artes. É neste ambiente que nasce e se educa Bento Espinosa (1632-1677).
A língua falada em casa era o português. Espinosa jamais escreverá com plena fluência em holandês. Comporá suas principais obras – como a Ética e o Tratado Teológico-Político – em latim (o inglês de então). Já adulto, Espinosa dirá numa carta: “eu teria preferido escrever na língua em que fui criado; quem sabe poderia expressar melhor meus pensamentos”.
A biografia Spinoza – a life (Espinosa – uma vida), de Stephen Nadler, segue – especialmente no início – um plano arriscado. Sabe-se muito pouco da vida de Espinosa em geral. Mas sobre sua infância e anos de formação não se sabe virtualmente nada.
Como representar esse período? O método de Nadler segue pelo desvio e pela intuição. Uma aguda intuição histórica. Via de regra, a primeira metade da vida de Espinosa nos chega bastante obliquamente. A maturidade um pouco menos, uma vez que passível de ser rastreada, via cartas.
Ambas são cristalizadas por um vigoroso exercício de reconstrução de época. Ou seja, pelas vidas de outros ao redor de Espinosa: familiares, amigos, professores, colaboradores, correspondentes, editores, tradutores, divulgadores, desafetos, protetores, mecenas, etc.
Nadler monta seu livro a partir de uma diligente cartografia de suposições. Expressões como “é provável”, “não seria absurdo supor”, “não é difícil imaginar”, “há terreno bastante para crer”, estão por toda parte. Tantas ressalvas podem nocautear qualquer biografia.
Não é o que acontece. Com sobras e muita destreza no manejo das fontes históricas, Nadler nos inteira do percurso deste homem de invulgar independência de pensamento. Desde excomunhão (sherem) pelas autoridades rabínicas até sua morte aos 44 anos – já consagrado como um dos maiores filósofos do sec. XVII – muita água corre pelos canais de Amsterdã.
Há também uma acessível – mas não rala – introdução à sua filosofia. Espinosa identificava Deus à Natureza, é verdade. Mas não de uma forma vulgar. Empenhou-se para assegurar a primazia do secular sobre o teológico na política e foi um crítico contumaz do que havia de superstição nas religiões institucionais. Entendia que a sabedoria maior do ser humano passava pela moderação das paixões – algo que tomou como base para sua própria existência. Fez parte de uma república internacional das letras que buscou a todo custo divulgar a filosofia de Descartes e os resultados das novas pesquisas científicas. Correspondeu-se com intelectuais do porte de Leibniz – que o admirava. E chegou a recusar um posto de professor na prestigiosa Universidade de Heidelberg. Embora reservado e cauteloso, interferiu decisivamente no destino dos Países Baixos que conheciam, então, sua época áurea e uma grande efervescência política.
A frugalidade, o desapego material de sua vida doméstica é tocante. Ele sustentava-se recortando e polindo lentes para aparelhos de precisão (telescópios e microscópios). Algo menos simples do que parece. A tarefa exigia uma imensa destreza manual e paciência, além de sólidos conhecimentos das mais recentes pesquisas em ótica e mecânica. A excelência das lentes que confeccionava foi louvada pela nata dos cientistas europeus de então. Podia discorrer longas horas sobre questões científicas e chegou a escrever um estudo sobre o arco-íris.
Seus passatempos, em casa, eram de uma puerilidade de todo insólita. Ele “gostava de agrupar aranhas e, de um ou de outro modo, pô-las em luta, ou jogar moscas em suas teias, criando ‘batalhas’, que tanto o entretinham que ele caía no riso ao observá-las”.
O livro de Nadler sobre Espinosa também traz muitas referências ao Brasil. Basta lembrar que Espinosa foi contemporâneo da Ocupação Holandesa no Nordeste e que uma próspera comunidade judaica estabeleceu-se à época por cá – especialmente no Recife, onde se ergueu a primeira sinagoga das Américas. Rabinos de renome como Aboab da Fonseca, vindos da comunidade “portuguesa” de Amsterdã, fixaram-se no Recife à época.
Quatrocentos anos depois há no Brasil um crescente interesse pelo pensamento de Espinosa. Marilena Chauí lhe dedicou um voluminoso ensaio intitulado A Nervura do Real. E, por tabela, Espinosa é leitura obrigatória para todo deleuziano que se preza.
Mas quanto à biografia há uma clara contradição no discurso de Nadler. A certa altura ele reitera, ainda que indiretamente – como usa ser seu estilo – que não está escrevendo uma hagiografia. Difícil acreditar. Afinal, qualquer relato sobre um homem dotado de tanta integridade, virtude, desprendimento, altruísmo, sabedoria e independência de pensamento, acaba por recair no discurso sobre uma vida exemplar.
E, pensando bem, não há nada de errado nisso. Ao longo de sua vida, Espinosa modificou duas vezes seu prenome. Adotou o Baruch judaico em substituição ao Bento português quando entusiasmou-se com seus progressos no aprendizado do hebraico. Ao se afastar do judaísmo, optou pelo latinizado Benedictus – à exemplo de Erasmus, um nome que convinha para alguém disposto a dialogar com o cosmopolitismo filosófico do sec. XVII.
Todos três nomes, no entanto, querem dizer uma e a mesma coisa: abençoado.




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domingo, 3 de maio de 2009

Sob obstante chuva


Joris Ivens, Regen, 1929



Encômio a Joris Ivens

Em 1929, quando o cinema migrava para o sonoro, um jovem documentarista holandês, Joris Ivens, realizou um pequeno milagre chamado Regen (Chuva). O filme, de 14 minutos, ainda mudo, foi o resultado de meses a fio de filmagem meticulosamente editada. E tem como trunfo um ritmo exuberante que busca acompanhar a importância da água dentro da paisagem e do quotidiano de uma cidade tão marcada pela presença dela como Amsterdã.
O dispositivo adotado por Ivens passa sobretudo pelo de aproximar a água da chuva de outras superfícies igualmente úmidas e, portanto, refratárias: canais, calhas, poças, cisternas, clarabóias, coxias, vitrines, vidraças, o asfalto molhado, etc. Num dos planos mais belos, capta-se o rastro de luz que água deixa sobre a cobertura preta dos guarda-chuvas. A chuva mercadejando com transparências: o vidro, a lisura líquida dos espelhos [será que dessa placidez líquida vem a expressão "espelho d'água"?].
Boa parte da poesia de Regen vem dessa refração. Uma notícia cifrada em água. Em água caindo sobre água. E, assim, o filme de Ivens recompõe com que uma sorte de poesia metereológica muito simples e sua: os ritmos dessa cidade profundamente afetada tanto pela água que cai, quanto pela que lhe meandra em margens e direções diversas. A cidade dos canais. [Amsterdã quer dizer "foz em delta do Rio Armst"]. Coordenadas cartesianas imaginadas sob a perspectiva do úmido. E, depois, desorientadas sob uma poesia curva, que implicaria numa desaprovação do austero Mondrian – para mencionar outro mestre holandês. Talvez. A chuva tem esse dom sumpremo de instalar talvezes no espírito.
O que mais encanta em Regen são os ritmos. Gente afetada pela chuva. Convivendo com ela de diferentes modos. E, como, diria Bresson, os ritmos são todo-poderosos, traduzem "o vento invisível através da água que ele esculpe passando". Como, em Regen, as três meninas que passam sob uma única capa de chuva distendida sobre suas cabeças. E cujos passos gentis são marcados por um ritmo indelevelmente quebrado, uma única vez, pela dissonância de um passo em falso – quase como se, de fato, entrasse, por meio desse passo avulso, a nota azul do jazz na harmonia da progressão.
Mas antes disso há um prefácio. Entrevemos as nuvens densas se entrelaçando acima da cidade, e um avião abrindo sua via por um vão estreito no meio delas. E, então, em terra, o vento sopra forte na copa das árores, em roupas num varal improvisado sobre um convés de barco ancorado, um lençol estendido estufa-se diante de velhas fachadas, bandeiras despregam-se, a lona de um toldo quase é arrancada de sua armação, um bando de passáros sobrevoa em formação os velhos prédios de onde os holandeses saíram para uma saga marítima que quase rivaliza com a dos portugueses. E há esse plano em que a balaustrada de uma ponte, com uma luminária, destaca-se, oscilando suavemente sobre a água de um canal por não mais de quatro segundos. Mas esses segundos estão entre os mais preciosos – e precisos – da história do cinema e desse filme adorável.
Regen é o filme de catorze minutos em que cada minuto concentra um século de lições de cinema. E não ao modo didático, frenético de um Vertov [que, de resto, não é menos instigante]; mas com a poesia, a gentileza e a humanidade dos dias em que o espírito se faz paz. E o mundo se reconcilia dentro da gente.
[Fortaleza, 3 de maio de 2009, uma manhã chuvosa]
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Usurpando Updike


Raymond Duchamps-Villon, Les Amants, 1913



Nove espasmos sobre a trilogia Rabbit, de John Updike


Assemelha-se com aqueles romances escritos em série, ao modo do sec. XIX.
Sexo parece ser a obsessão de Updike, meio como o eixo central de uma espécie de teodicéia, de procurar o eixo do mal num mundo supostamente criado pela bondade.
A dureza das palavras calcada na dureza das pessoas e que se verte de modo quase usual e corriqueiro. Como uma teia entre os personagens.
Um mundo de pessoas feias salvo pela beleza da própria paisagem á volta. É este o double-bind da mundividência de Updike.
Rabbit, o protagonista, é estreito enquanto alguém que pensa. Seu pensamento abstrato cai gotejando muito esparsamente ao longo de um cotidiano concreto, sem abstrações que incluam a idéia de um Deus.
A tendência dos narradores modernos é fazer os maus triunfarem ao final como um denúncia do mundo moderno. Mas Updike demonstra mais apreço pelos maus que pelos tolos.
O cultivado auto-distanciamento de Updike como máscara – o que o contrapõe a autores como Irving ou Roth.
A popularidade de Updike entre os americanos é assemlhada à de Larkin entre os ingleses. Eles se reconhecem como um deles, se vêem no meio de seus personagens, de sua sensibilidade. Updike é alguém que fala para o mundo americano à boca pequena. Mais ou menos como Aníbal Machado fala ao Rio antes de falar ao Brasil. Ou Alcântara Machado a São Paulo. Ou Simão Lopes Neto ao Rio Grande do Sul. Ou Gustavo Barroso ao Ceará - ao menos em seus livros de memória e etnologia (mas também no romance Mississipi).
O americano médio, se existisse, identificar-se-ia com Rabbit. Com algo do pequeno patife que há em Rabbit. Sua ausência de grandeza. Seu pragmatismo e desejo de conforto. O impulso de tomar o sexo como um valor religioso monadológico. Como conveniência, comodidade. É isso que inverte Orson Welles, em Updike. Que o deixa mais próximo do humor de Billy Wilder, desdobrando-se de uma situação corriqueira, como em Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960). Ou, de modo mais corrosivo em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950).

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Tudo que se afasta demais da fala, falha


[s/i/c]



O concretismo que não valsa na boca

-pequeno desvio sobre tradução


Em literatura, tudo que se afasta demais da fala, falha. Sobre a tradução da Bíblia, Frank Kermode inicia certo questionamento dispondo até que ponto se pode contaminar a língua de chegada com a de partida sem torná-la uma lingua-franca, sem atacar seu prosaísmo de língua. Aqui no Brasil, os poetas concretistas (Haroldo bem mais que Augusto) – talvez esteados nas rutilantes teses de Benjamin (que, no fim, são mais teoréticas que aplicáveis na prática) – às vezes, criam uma lingua-franca, que tanto se distancia do português coloquial a ponto de parecer um idioma mais estrangeiro, para nós, que o espanhol, que o galego, que o catalão. Com a desvantagem de conter soluções tão artificiosas e rococós que jamais passarão pela boca de um falante do português. Em Portugal, no Brasil, em África, em Goa, em Macau. Seja em que Timor for. Em algum dialeto exequível (como exequível é o dialeto "criado" por Guimarães Rosa). Por sua vez, com todo seus enviesos e inversões, as traduções de Homero feitas pelo maranhense Odorico Mendes são engenhosas. Estão "no" português e dão de de dez a zero nas de Haroldo de Campos. E Haroldo bem devia saber disso. De outro modo, ao traduzir o Eclesiastes, Haroldo traduz por "névoa-nada" o que usualmente é traduzido por "vaidade". Por que "névoa-nada"? Para apontar para a raiz da palavra em hebraico? Mas 'vanitas', em latim, termo consolidado pela tradição já dispõe, na raiz etimológica, esse senso de 'vazio'. É a mesma raiz de onde brota o termo 'vão', que quer dizer 'oco', 'vazio', 'informe' - aquilo que, portanto, é preenchido só pelo vento. Aqui, inclusive em se tratando de espaço arquitetônico: 'um vão de 50 metros'. Por que, então recorrer ao composto 'névoa-nada', a não ser por um preciosismo vão?

Tss, tss - como dizem as revistas em quadrinho (ou as 'bandas desenhadas', como querem os portugueses), numa onomatopeia bem mais ao alcance da boca de todos que o redundante 'névoa-nada' de Haroldo.

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Let there be light, let there be more


[s/i/c]


Cântico Pós-Espiritual



Oh, Senhor, triplicai o saldo em meu extrato,
senão eu me mato.

Oh, Altíssimo, que eu compre aquela casa no condomínio,
senão entro em declínio.

Oh, meu Deus, fazei com que aquela modelo me dê bola,
senão cafungo dez carreiras pra cachola.

Oh, Senhor, facilitai a aquisição daquela coleção de vinil,
caso contrário cantarei amor febril.

Oh, Altíssimo, dilatai minhas aéreas milhas,
senão passarei as férias de rodilhas.

Oh, meu Deus, possibilitai o convite para aquele congresso,
senão entro em recesso.

Oh, Senhor, aumentai, na razão de mil, a frequência a meu blogue,
senão viro buldogue.

Oh, Altíssimo, franqueai aquela franquia,
senão, vos digo, serei pura misantropia.

Oh, meu Deus, estampai a minha foto na revista
para poder pagar a otorrinolaringologista.

Oh, Senhor, aviai aquela viagem à Europa,
porque todos já foram, menos eu, da minha tropa.

Oh, Altíssimo, providenciai aquele pós-doutorado em Nova York
antes que eu desta para a melhor emborque.

Oh, meu Deus, tornai rentável minha ONG,
do contrário, vou ficar de mal com você.

Oh, Senhor, tirai dos bolsos dos fiéis mais reais
para que eu não precise me acalmar com esses florais.

Oh, Altíssimo, apressai a herança daquela tia velha, a infeliz
para que eu possa gastar os tubos em Paris.

Oh, meu Deus, renovai meu guarda-roupa com as melhores grifes,
do contrário, com ninguém dividirei meus bifes.

Oh, Senhor, estimai a possibilidade daquela gerência no Sul,
senão acabo virando um pit-bull.

Oh, Altíssimo, fazei com que a campanha saia ao gosto do freguês
para que eu não tenha de refundi-la uma, duas, três...

Oh, meu Deus, que ao menos possa adquirir uma prateleira de Viagra,
senão a existência se estraga.

Oh, Senhor, dai-me meio centímetro a mais de músculo na panturrilha,
para que eu não caia no ciclo insolúvel da quadrilha.

Oh, Altíssimo, financiai em quarenta e oito vezes a compra daquela Hilux,
do contrário, não direi: "fiat lux!"

Oh, Todo-Poderoso, desculpai a modéstia dessas pretensões espirituais,
e, no entanto, lembrai, Senhor: amanhã tem mais!



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Uma carga de palavras


[s/i/c]




Quadra entregue no prazo


Percorro o idioma inteiro,
com quase nenhum limite;
mas não chegaria à rima
sem cartela de arrebite.



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Para um Primeiro de Maio


[s/i/c]



Ode ao Dia do Trabalho



Poucos pensamentos
comportam melhor redução:
o trabalho do empregado
dignifica o patrão.



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Faceless: meditação sobre o jogo no Dia do Trabalho


[s/i/c]



Jogo e direito



Vejamos essas duas passagens, em distintos pontos, de Homo Ludens, do medievalista holandês Johan Huizinga:


"O jogo autêntico possui, além de suas características formais e de seu ambiente de alegria, pelo menos um outro traço dos mais fundamentais, a saber: a consciência, mesmo que latente, de se estar "apenas fazendo de conta". [p.26 da tradução brasileira, feita por João Paulo Monteiro para a Ed. Perspectiva]

"A possibilidade de haver um parentesco entre o direito e o jogo aparece claramente logo que compreendemos em que medida a atual prática do direito, isto é, o processo; é extremamente semelhante a uma competição, e isto sejam quais forem os fundamentos ideais que o direito possa ter". [p.87]

De fato, o julgamento, no tempo dos velhos rábulas em cidades do interior, assumia ares de circo. As pessoas iam assisti-los, como se ia ao teatro, antes do surgimento do cinematógrafo. Assim como na Idade Média ou pouco depois, ia-se assistir uma execução de morte como a um espetáculo público. Um "divertimento". Hoje assistimos tudo isso por meio de imagens. No cinema de ficção, nas reportagens adocicadas e breves. Não vemos a corda apertando o pescoço, o machado separando a cabeça do resto do corpo, a guilhotina decepando o colo, as balas varando o tórax. O sangue esguichando do corpo. A não ser por trucagens e efeitos especiais, que sabemos ser efeitos e especiais. A morte deixou de ser real. Seu rosto foi reduzido a pó. Em vez da intervenção direta do verdugo encapuçado, com o machado, com a corda, fazendo o outro morrer por seus músculos, temos algum anônimo que pressiona um botão para o corpo do condenado, sentado numa cadeira, contorcer-se com a passagem de uma carga voltaica. Tudo ficou mais limpo. Asséptico. Mais sem rosto ou jogo. Imagine-se as câmaras de gás nos campos de extermínio. De outro modo, essa arguta aproximação de jogo e direito, feita por Huizinga, talvez explique o porquê de gente ligada profissionalmente ao direito ser tão afeita a disputar por tudo. Como se vida, mais que um jogo, fosse um grande processo, onde é necessário nutrir-se de estratégias. Ao invés de alegrias, cautela e alguma boa-vontade.

Cronistas contam de Padre Mororó (Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo). Somente algumas semanas depois de saber da condenação à morte, trancafiado na Fortaleza de N. S. da Assunção, ele foi conduzido ao que é hoje o Passeio Público para ser executado. Foi no dia 30 de abril de 1825. Tratava-se de um homem de meia-idade. Mas ainda com a cor de seus cabelos. Ao sair à rua, todos os circunstantes se depararam com um ancião, cujos cabelos haviam ficado completamente grisalhos no espaço dessas poucas semanas.

Nossos sentidos diante de coisas assim, hoje só testemunháveis vicariamente, pelos meios de comunicação ou pela ficção do cinema, também se tornam mais e mais grisalhos numa velocidade muito maior e muito menos humana que no caso do malogrado líder da Confederação do Equador.



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Histeria em castelhano


[s/i/c]



Porcina e máscaras

Está certo, com certas coisas, melhor não brincar. Mas em meio a toda essa histeria coletiva em torno da gripe suína, bem que soa engraçada a designação dada em castelhano para a dita epidemia: gripe porcina.

Além do que, o uso de tantas máscaras irá reduzir significativamente o número de cigarros fumados diariamente nas regiões afetadas enquanto perdurar a endemia. Só o trabalho de ter de tirar a máscara... Mas também é líquido que certos jogadores de futebol, de acordo com o jargão dos comentaristas, sequer vão precisar mascarar-se. Já desfilam de máscaras, diuturnamente, diante de câmeras e microfones.



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"Valei-me, meu Padrinho Cícero e a Mãe de Deus das Candeias..."


Pe. Cícero, c. 1924



Fé, Política e Guerra Civil no Joaseiro



Um livro a aguardar: a biografia de Padre Cícero, que segue sendo escrita por Lira Neto.

Os estudos anteriores sobre o fenômeno do taumaturgo do Cariri, tais como Milagre em Joaseiro, do brazilianista Ralph Della Cava, além de assomarem excessivamente colados numa perspectiva sociologizante, já foram escritos de há muito. No caso, o livro de Della Cava data de 1977.

E o Padim bem que anda precisado de uma biografia bem redigida, que escorra o assunto para um público mais amplo, sem, no entanto, perder em profundidade e novas nuanças, detalhes; e numa abordagem ampla, que configure a contento a dimensão política - mas não menos religiosa e ritualística - de tão singular figura.

Há que ser uma biografia para os tempos da Juazeiro urbana, que conforma, com o Crato e Barbalha, um agolmerado de mais de meio milhão de habitantes. Algo que, como fenômeno de expansão urbana, já deixou na poeira sua predecessora mais antiga, Juazeiro da Bahia, a terra de um certo João Gilberto. Cidade também marcada pela proximidade de um quiliasma religioso. O maior deles, aliás: Canudos.

Em adendo, o belo documentário Sertão de Acrílico Azul Piscina, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, traz imagens noturnas surpreendentes dessa Juazeiro em franca urbanização, repleta de letreiros luminosos em tomadas difusas, ao modo de uma Las Vegas do Sertão.

As biografias também surgem da necessidade de traduzir para uma mentalidade hodierna fenômenos como os do Padre Cícero, que estão longe de se esgotar, em toda amplitude de suas ressonâncias.

A conferir.


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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sobre Freud, Lacan e Odair José


Le Corbusier, Chaise Lounge



Adivinha o que brilha mais



Le Corbusier é uma das celebridades do alto-modernismo que mais fascina o universo de língua inglesa. Há atualmente nada menos que 8 (oito!) biografias em catálogo sobre o arquiteto franco-suiço no idioma de Shakespeare. E na semana passada, uma ampla resenha sobre elas no New York Review of Books. Outras já haviam saído, à virada do ano, e em prestigiosos jornais e revistas norte-americanos, como The Nation, International Herald Tribune ou Washington Post.

Quase todas se assemelham. Os biógrafos mal disfarçam sua admiração diante do acúmulo de talento, poder e prestígio desse filho de um relojoeiro calvinista que desenhou para o próprio pai uma casa inabitável, apesar de caríssima. Todos ressaltam, de outro modo, que a obsessão de Le Corbusier era, de fato, a mãe. E fazem esquematicamente da vida do influente arquiteto uma espécie de ode ao complexo de Édipo. Ou uma via-crucis do menino mimado.

O que há nessas biografias de tão previsível? Algo análogo ao que David Foster Wallace apontou numa brilhante resenha sobre uma biografia de Borges: a redução da obra em prol de um psicologismo barato. Um psicologismo que reduz a obra do biografado da vez a uma sorte de linha reta provinda de certa eleição de comportamento em análise: no caso de Borges, sua falta de jeito no relacionamento com as mulheres, mas também - e a exemplo de Le Corbusier - um excessivo apego à figura materna. Pronto, basta que o leitor se sinta um pouco cativado pela própria argúcia...

Trata-se de biografias que fazem o leitor "sentir-se" inteligente.

Mas será que explicam alguma coisa mesmo? Ou são apenas, como sugere Foster Wallace, um engodo que visa, entre outras, simplificar as coisas, ao propor nexos causais que parecem afagar o ego do leitor no sentido de jogar para ele, feito isca, uma espécie de esquema monocausal, que, ao mesmo tempo que busca uma chave para todos os mistérios também faz esse leitor sentir-se mais... inteligente? [Algo análogo ocorre em filmes, como no medonho Meu Nome Não é Johnny].

Acautelar-se diante dessas biografias que parecem insinuar, ao modo de um clássico vt publicitário dos anos 70: "adivinha o que brilha mais:/ o assoalho da mamãe/ ou sapato do papai?"

Assim como não se pode reduzir a obra de Kafka á tirania do pai, é fazer café pequeno de gente como Borges ou Corbusier restringir o vetor de criação deles ao fato de serem supostos "menininhos-da-mamãe". Os leitores, no entanto, adoram essas reduções psicologizantes. Elas parecem "explicar" muita coisa do processo criativo desses gênios. Tudo. Como se "tudo" fosse passível de explicação. Ainda que por Freud, Lacan ou Odair José ("felicidade não existe/ o que existe na vida são momentos felizes").



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O homem que colecionava cidade


[s/i/c]



Modus Espelendi Parvulos e o Cu da Gia


João Nogueira é mesmo um cronista surpreendente. Basta se ler dele notícia sobre os antigos lampiões de rua, que se acendiam queimando azeite de peixe. O modo talhado como Nogueira os descreve vale mais que uma sequência de fotos. Ou então, sua crônica sobre os antigos e lúgubres enterros noturnos, para se dimensionar a profunda modificação da relação entre o homem e a morte numa capital provinciana do Brasil, durante o espaço de algumas décadas, a partir de meados do séc. XIX. Ou as metamorfoses do senso de religiosidade embutidas nessas descrições. Ou o quanto os costumes se modificam numa vertigem sem peias. A procissão de penitentes, cuja vanguarda, segundo a lenda, deitava-se ao limiar da Igreja do Rosário para ser pisoteada pelos que vinham atrás. Para indicar, quem sabe, que os últimos seriam os primeiros. Ou os salmos alegres que se cantavam quando morria uma criança, um "anjinho". E o padre oficiante do enterro enfiava pela Rua das Flores (atual Castro e Silva) com um largo sorriso no rosto como que conduzindo uma pequena festividade, à frente do esquife, escoltado por um bando de coroinhas, seguido do maior número de crianças que se poderia reunir à ocasião, ao modo de uma ciranda organizada. A esse antigo rito católico dava-se o nome – provavelmente num latim estropiado ou gralhado – de Modus Espelendi Parvulos. Ou o inventário dos nomes antigos de ruas, praças e logradouros de Fortaleza. O antigo descampado onde se situa, hoje, o Mercado São Sebastião, ao início da atual Av. Bezerra de Menezes, por exemplo, era conhecido por todos os fortalezenses, desde os com títulos de nobreza aos carregadores de tonéis onde se acumulavam as fezes de uma residência nos tempos em que não havia esgotos, de O Cu da Gia.



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quinta-feira, 23 de abril de 2009

A estratégia mais gostosa


[s/i/c]



Teología de la Liberación



fazer filhos de maio a maio
é a estratégia mais gostosa
de arregimentar eleitores
neste mundão paraguaio



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