segunda-feira, 4 de maio de 2009

Literatura de lua, um convite


Virna Teixeira no Literatura de Lua, em fevereiro passado



CONVITE

Estarei amanhã, a convite de Fernanda Meireles, no Literatura de Lua. Lerei alguns textos e estarei à disposição dos presentes para uma conversa amena sobre literatura.

Será às 19hs, no charmoso Café da Livraria Lua Nova, nos altos da mesma. Para quem nunca foi, a Lua Nova fica ao final da 13 de Maio, em frente ao Shopping Benfica.

A todos os que tiverem interesse e dispuserem de tempo, nos vemos por lá, amanhã [05/05/09]!

Abraços,

Ruy


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Uma e a mesma coisa


Pieter Brueghel, o Velho, Paisagem com a queda de Ìcaro, sec. XVII




Será o Benedito?

Spinoza – a life, por Stephen Nadler, Cambridge University Press, 407 ps.

O enredo começa antes. Quatro gerações. Em 1547, D. João III de Portugal, um tanto na contramão do papado, oferece amplas condições para o estabelecimento da Inquisição. Os judeus portugueses aceleram a migração para os Países Baixos. A meta inicial é Antuérpia, onde controlam o comércio de especiarias do Oriente, do açúcar brasileiro e das resinas africanas. Posteriormente o eixo se desloca para Amsterdã.
Mais ricos, cultos, cosmopolitas que os judeus do leste europeu (ou asquenázi), os marranos portugueses também se destacam pelo alto valor que atribuem à educação, às profissões liberais – especialmente a medicina –, e às artes. É neste ambiente que nasce e se educa Bento Espinosa (1632-1677).
A língua falada em casa era o português. Espinosa jamais escreverá com plena fluência em holandês. Comporá suas principais obras – como a Ética e o Tratado Teológico-Político – em latim (o inglês de então). Já adulto, Espinosa dirá numa carta: “eu teria preferido escrever na língua em que fui criado; quem sabe poderia expressar melhor meus pensamentos”.
A biografia Spinoza – a life (Espinosa – uma vida), de Stephen Nadler, segue – especialmente no início – um plano arriscado. Sabe-se muito pouco da vida de Espinosa em geral. Mas sobre sua infância e anos de formação não se sabe virtualmente nada.
Como representar esse período? O método de Nadler segue pelo desvio e pela intuição. Uma aguda intuição histórica. Via de regra, a primeira metade da vida de Espinosa nos chega bastante obliquamente. A maturidade um pouco menos, uma vez que passível de ser rastreada, via cartas.
Ambas são cristalizadas por um vigoroso exercício de reconstrução de época. Ou seja, pelas vidas de outros ao redor de Espinosa: familiares, amigos, professores, colaboradores, correspondentes, editores, tradutores, divulgadores, desafetos, protetores, mecenas, etc.
Nadler monta seu livro a partir de uma diligente cartografia de suposições. Expressões como “é provável”, “não seria absurdo supor”, “não é difícil imaginar”, “há terreno bastante para crer”, estão por toda parte. Tantas ressalvas podem nocautear qualquer biografia.
Não é o que acontece. Com sobras e muita destreza no manejo das fontes históricas, Nadler nos inteira do percurso deste homem de invulgar independência de pensamento. Desde excomunhão (sherem) pelas autoridades rabínicas até sua morte aos 44 anos – já consagrado como um dos maiores filósofos do sec. XVII – muita água corre pelos canais de Amsterdã.
Há também uma acessível – mas não rala – introdução à sua filosofia. Espinosa identificava Deus à Natureza, é verdade. Mas não de uma forma vulgar. Empenhou-se para assegurar a primazia do secular sobre o teológico na política e foi um crítico contumaz do que havia de superstição nas religiões institucionais. Entendia que a sabedoria maior do ser humano passava pela moderação das paixões – algo que tomou como base para sua própria existência. Fez parte de uma república internacional das letras que buscou a todo custo divulgar a filosofia de Descartes e os resultados das novas pesquisas científicas. Correspondeu-se com intelectuais do porte de Leibniz – que o admirava. E chegou a recusar um posto de professor na prestigiosa Universidade de Heidelberg. Embora reservado e cauteloso, interferiu decisivamente no destino dos Países Baixos que conheciam, então, sua época áurea e uma grande efervescência política.
A frugalidade, o desapego material de sua vida doméstica é tocante. Ele sustentava-se recortando e polindo lentes para aparelhos de precisão (telescópios e microscópios). Algo menos simples do que parece. A tarefa exigia uma imensa destreza manual e paciência, além de sólidos conhecimentos das mais recentes pesquisas em ótica e mecânica. A excelência das lentes que confeccionava foi louvada pela nata dos cientistas europeus de então. Podia discorrer longas horas sobre questões científicas e chegou a escrever um estudo sobre o arco-íris.
Seus passatempos, em casa, eram de uma puerilidade de todo insólita. Ele “gostava de agrupar aranhas e, de um ou de outro modo, pô-las em luta, ou jogar moscas em suas teias, criando ‘batalhas’, que tanto o entretinham que ele caía no riso ao observá-las”.
O livro de Nadler sobre Espinosa também traz muitas referências ao Brasil. Basta lembrar que Espinosa foi contemporâneo da Ocupação Holandesa no Nordeste e que uma próspera comunidade judaica estabeleceu-se à época por cá – especialmente no Recife, onde se ergueu a primeira sinagoga das Américas. Rabinos de renome como Aboab da Fonseca, vindos da comunidade “portuguesa” de Amsterdã, fixaram-se no Recife à época.
Quatrocentos anos depois há no Brasil um crescente interesse pelo pensamento de Espinosa. Marilena Chauí lhe dedicou um voluminoso ensaio intitulado A Nervura do Real. E, por tabela, Espinosa é leitura obrigatória para todo deleuziano que se preza.
Mas quanto à biografia há uma clara contradição no discurso de Nadler. A certa altura ele reitera, ainda que indiretamente – como usa ser seu estilo – que não está escrevendo uma hagiografia. Difícil acreditar. Afinal, qualquer relato sobre um homem dotado de tanta integridade, virtude, desprendimento, altruísmo, sabedoria e independência de pensamento, acaba por recair no discurso sobre uma vida exemplar.
E, pensando bem, não há nada de errado nisso. Ao longo de sua vida, Espinosa modificou duas vezes seu prenome. Adotou o Baruch judaico em substituição ao Bento português quando entusiasmou-se com seus progressos no aprendizado do hebraico. Ao se afastar do judaísmo, optou pelo latinizado Benedictus – à exemplo de Erasmus, um nome que convinha para alguém disposto a dialogar com o cosmopolitismo filosófico do sec. XVII.
Todos três nomes, no entanto, querem dizer uma e a mesma coisa: abençoado.




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domingo, 3 de maio de 2009

Sob obstante chuva


Joris Ivens, Regen, 1929



Encômio a Joris Ivens

Em 1929, quando o cinema migrava para o sonoro, um jovem documentarista holandês, Joris Ivens, realizou um pequeno milagre chamado Regen (Chuva). O filme, de 14 minutos, ainda mudo, foi o resultado de meses a fio de filmagem meticulosamente editada. E tem como trunfo um ritmo exuberante que busca acompanhar a importância da água dentro da paisagem e do quotidiano de uma cidade tão marcada pela presença dela como Amsterdã.
O dispositivo adotado por Ivens passa sobretudo pelo de aproximar a água da chuva de outras superfícies igualmente úmidas e, portanto, refratárias: canais, calhas, poças, cisternas, clarabóias, coxias, vitrines, vidraças, o asfalto molhado, etc. Num dos planos mais belos, capta-se o rastro de luz que água deixa sobre a cobertura preta dos guarda-chuvas. A chuva mercadejando com transparências: o vidro, a lisura líquida dos espelhos [será que dessa placidez líquida vem a expressão "espelho d'água"?].
Boa parte da poesia de Regen vem dessa refração. Uma notícia cifrada em água. Em água caindo sobre água. E, assim, o filme de Ivens recompõe com que uma sorte de poesia metereológica muito simples e sua: os ritmos dessa cidade profundamente afetada tanto pela água que cai, quanto pela que lhe meandra em margens e direções diversas. A cidade dos canais. [Amsterdã quer dizer "foz em delta do Rio Armst"]. Coordenadas cartesianas imaginadas sob a perspectiva do úmido. E, depois, desorientadas sob uma poesia curva, que implicaria numa desaprovação do austero Mondrian – para mencionar outro mestre holandês. Talvez. A chuva tem esse dom sumpremo de instalar talvezes no espírito.
O que mais encanta em Regen são os ritmos. Gente afetada pela chuva. Convivendo com ela de diferentes modos. E, como, diria Bresson, os ritmos são todo-poderosos, traduzem "o vento invisível através da água que ele esculpe passando". Como, em Regen, as três meninas que passam sob uma única capa de chuva distendida sobre suas cabeças. E cujos passos gentis são marcados por um ritmo indelevelmente quebrado, uma única vez, pela dissonância de um passo em falso – quase como se, de fato, entrasse, por meio desse passo avulso, a nota azul do jazz na harmonia da progressão.
Mas antes disso há um prefácio. Entrevemos as nuvens densas se entrelaçando acima da cidade, e um avião abrindo sua via por um vão estreito no meio delas. E, então, em terra, o vento sopra forte na copa das árores, em roupas num varal improvisado sobre um convés de barco ancorado, um lençol estendido estufa-se diante de velhas fachadas, bandeiras despregam-se, a lona de um toldo quase é arrancada de sua armação, um bando de passáros sobrevoa em formação os velhos prédios de onde os holandeses saíram para uma saga marítima que quase rivaliza com a dos portugueses. E há esse plano em que a balaustrada de uma ponte, com uma luminária, destaca-se, oscilando suavemente sobre a água de um canal por não mais de quatro segundos. Mas esses segundos estão entre os mais preciosos – e precisos – da história do cinema e desse filme adorável.
Regen é o filme de catorze minutos em que cada minuto concentra um século de lições de cinema. E não ao modo didático, frenético de um Vertov [que, de resto, não é menos instigante]; mas com a poesia, a gentileza e a humanidade dos dias em que o espírito se faz paz. E o mundo se reconcilia dentro da gente.
[Fortaleza, 3 de maio de 2009, uma manhã chuvosa]
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Usurpando Updike


Raymond Duchamps-Villon, Les Amants, 1913



Nove espasmos sobre a trilogia Rabbit, de John Updike


Assemelha-se com aqueles romances escritos em série, ao modo do sec. XIX.
Sexo parece ser a obsessão de Updike, meio como o eixo central de uma espécie de teodicéia, de procurar o eixo do mal num mundo supostamente criado pela bondade.
A dureza das palavras calcada na dureza das pessoas e que se verte de modo quase usual e corriqueiro. Como uma teia entre os personagens.
Um mundo de pessoas feias salvo pela beleza da própria paisagem á volta. É este o double-bind da mundividência de Updike.
Rabbit, o protagonista, é estreito enquanto alguém que pensa. Seu pensamento abstrato cai gotejando muito esparsamente ao longo de um cotidiano concreto, sem abstrações que incluam a idéia de um Deus.
A tendência dos narradores modernos é fazer os maus triunfarem ao final como um denúncia do mundo moderno. Mas Updike demonstra mais apreço pelos maus que pelos tolos.
O cultivado auto-distanciamento de Updike como máscara – o que o contrapõe a autores como Irving ou Roth.
A popularidade de Updike entre os americanos é assemlhada à de Larkin entre os ingleses. Eles se reconhecem como um deles, se vêem no meio de seus personagens, de sua sensibilidade. Updike é alguém que fala para o mundo americano à boca pequena. Mais ou menos como Aníbal Machado fala ao Rio antes de falar ao Brasil. Ou Alcântara Machado a São Paulo. Ou Simão Lopes Neto ao Rio Grande do Sul. Ou Gustavo Barroso ao Ceará - ao menos em seus livros de memória e etnologia (mas também no romance Mississipi).
O americano médio, se existisse, identificar-se-ia com Rabbit. Com algo do pequeno patife que há em Rabbit. Sua ausência de grandeza. Seu pragmatismo e desejo de conforto. O impulso de tomar o sexo como um valor religioso monadológico. Como conveniência, comodidade. É isso que inverte Orson Welles, em Updike. Que o deixa mais próximo do humor de Billy Wilder, desdobrando-se de uma situação corriqueira, como em Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960). Ou, de modo mais corrosivo em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950).

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Tudo que se afasta demais da fala, falha


[s/i/c]



O concretismo que não valsa na boca

-pequeno desvio sobre tradução


Em literatura, tudo que se afasta demais da fala, falha. Sobre a tradução da Bíblia, Frank Kermode inicia certo questionamento dispondo até que ponto se pode contaminar a língua de chegada com a de partida sem torná-la uma lingua-franca, sem atacar seu prosaísmo de língua. Aqui no Brasil, os poetas concretistas (Haroldo bem mais que Augusto) – talvez esteados nas rutilantes teses de Benjamin (que, no fim, são mais teoréticas que aplicáveis na prática) – às vezes, criam uma lingua-franca, que tanto se distancia do português coloquial a ponto de parecer um idioma mais estrangeiro, para nós, que o espanhol, que o galego, que o catalão. Com a desvantagem de conter soluções tão artificiosas e rococós que jamais passarão pela boca de um falante do português. Em Portugal, no Brasil, em África, em Goa, em Macau. Seja em que Timor for. Em algum dialeto exequível (como exequível é o dialeto "criado" por Guimarães Rosa). Por sua vez, com todo seus enviesos e inversões, as traduções de Homero feitas pelo maranhense Odorico Mendes são engenhosas. Estão "no" português e dão de de dez a zero nas de Haroldo de Campos. E Haroldo bem devia saber disso. De outro modo, ao traduzir o Eclesiastes, Haroldo traduz por "névoa-nada" o que usualmente é traduzido por "vaidade". Por que "névoa-nada"? Para apontar para a raiz da palavra em hebraico? Mas 'vanitas', em latim, termo consolidado pela tradição já dispõe, na raiz etimológica, esse senso de 'vazio'. É a mesma raiz de onde brota o termo 'vão', que quer dizer 'oco', 'vazio', 'informe' - aquilo que, portanto, é preenchido só pelo vento. Aqui, inclusive em se tratando de espaço arquitetônico: 'um vão de 50 metros'. Por que, então recorrer ao composto 'névoa-nada', a não ser por um preciosismo vão?

Tss, tss - como dizem as revistas em quadrinho (ou as 'bandas desenhadas', como querem os portugueses), numa onomatopeia bem mais ao alcance da boca de todos que o redundante 'névoa-nada' de Haroldo.

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Let there be light, let there be more


[s/i/c]


Cântico Pós-Espiritual



Oh, Senhor, triplicai o saldo em meu extrato,
senão eu me mato.

Oh, Altíssimo, que eu compre aquela casa no condomínio,
senão entro em declínio.

Oh, meu Deus, fazei com que aquela modelo me dê bola,
senão cafungo dez carreiras pra cachola.

Oh, Senhor, facilitai a aquisição daquela coleção de vinil,
caso contrário cantarei amor febril.

Oh, Altíssimo, dilatai minhas aéreas milhas,
senão passarei as férias de rodilhas.

Oh, meu Deus, possibilitai o convite para aquele congresso,
senão entro em recesso.

Oh, Senhor, aumentai, na razão de mil, a frequência a meu blogue,
senão viro buldogue.

Oh, Altíssimo, franqueai aquela franquia,
senão, vos digo, serei pura misantropia.

Oh, meu Deus, estampai a minha foto na revista
para poder pagar a otorrinolaringologista.

Oh, Senhor, aviai aquela viagem à Europa,
porque todos já foram, menos eu, da minha tropa.

Oh, Altíssimo, providenciai aquele pós-doutorado em Nova York
antes que eu desta para a melhor emborque.

Oh, meu Deus, tornai rentável minha ONG,
do contrário, vou ficar de mal com você.

Oh, Senhor, tirai dos bolsos dos fiéis mais reais
para que eu não precise me acalmar com esses florais.

Oh, Altíssimo, apressai a herança daquela tia velha, a infeliz
para que eu possa gastar os tubos em Paris.

Oh, meu Deus, renovai meu guarda-roupa com as melhores grifes,
do contrário, com ninguém dividirei meus bifes.

Oh, Senhor, estimai a possibilidade daquela gerência no Sul,
senão acabo virando um pit-bull.

Oh, Altíssimo, fazei com que a campanha saia ao gosto do freguês
para que eu não tenha de refundi-la uma, duas, três...

Oh, meu Deus, que ao menos possa adquirir uma prateleira de Viagra,
senão a existência se estraga.

Oh, Senhor, dai-me meio centímetro a mais de músculo na panturrilha,
para que eu não caia no ciclo insolúvel da quadrilha.

Oh, Altíssimo, financiai em quarenta e oito vezes a compra daquela Hilux,
do contrário, não direi: "fiat lux!"

Oh, Todo-Poderoso, desculpai a modéstia dessas pretensões espirituais,
e, no entanto, lembrai, Senhor: amanhã tem mais!



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Uma carga de palavras


[s/i/c]




Quadra entregue no prazo


Percorro o idioma inteiro,
com quase nenhum limite;
mas não chegaria à rima
sem cartela de arrebite.



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Para um Primeiro de Maio


[s/i/c]



Ode ao Dia do Trabalho



Poucos pensamentos
comportam melhor redução:
o trabalho do empregado
dignifica o patrão.



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Faceless: meditação sobre o jogo no Dia do Trabalho


[s/i/c]



Jogo e direito



Vejamos essas duas passagens, em distintos pontos, de Homo Ludens, do medievalista holandês Johan Huizinga:


"O jogo autêntico possui, além de suas características formais e de seu ambiente de alegria, pelo menos um outro traço dos mais fundamentais, a saber: a consciência, mesmo que latente, de se estar "apenas fazendo de conta". [p.26 da tradução brasileira, feita por João Paulo Monteiro para a Ed. Perspectiva]

"A possibilidade de haver um parentesco entre o direito e o jogo aparece claramente logo que compreendemos em que medida a atual prática do direito, isto é, o processo; é extremamente semelhante a uma competição, e isto sejam quais forem os fundamentos ideais que o direito possa ter". [p.87]

De fato, o julgamento, no tempo dos velhos rábulas em cidades do interior, assumia ares de circo. As pessoas iam assisti-los, como se ia ao teatro, antes do surgimento do cinematógrafo. Assim como na Idade Média ou pouco depois, ia-se assistir uma execução de morte como a um espetáculo público. Um "divertimento". Hoje assistimos tudo isso por meio de imagens. No cinema de ficção, nas reportagens adocicadas e breves. Não vemos a corda apertando o pescoço, o machado separando a cabeça do resto do corpo, a guilhotina decepando o colo, as balas varando o tórax. O sangue esguichando do corpo. A não ser por trucagens e efeitos especiais, que sabemos ser efeitos e especiais. A morte deixou de ser real. Seu rosto foi reduzido a pó. Em vez da intervenção direta do verdugo encapuçado, com o machado, com a corda, fazendo o outro morrer por seus músculos, temos algum anônimo que pressiona um botão para o corpo do condenado, sentado numa cadeira, contorcer-se com a passagem de uma carga voltaica. Tudo ficou mais limpo. Asséptico. Mais sem rosto ou jogo. Imagine-se as câmaras de gás nos campos de extermínio. De outro modo, essa arguta aproximação de jogo e direito, feita por Huizinga, talvez explique o porquê de gente ligada profissionalmente ao direito ser tão afeita a disputar por tudo. Como se vida, mais que um jogo, fosse um grande processo, onde é necessário nutrir-se de estratégias. Ao invés de alegrias, cautela e alguma boa-vontade.

Cronistas contam de Padre Mororó (Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo). Somente algumas semanas depois de saber da condenação à morte, trancafiado na Fortaleza de N. S. da Assunção, ele foi conduzido ao que é hoje o Passeio Público para ser executado. Foi no dia 30 de abril de 1825. Tratava-se de um homem de meia-idade. Mas ainda com a cor de seus cabelos. Ao sair à rua, todos os circunstantes se depararam com um ancião, cujos cabelos haviam ficado completamente grisalhos no espaço dessas poucas semanas.

Nossos sentidos diante de coisas assim, hoje só testemunháveis vicariamente, pelos meios de comunicação ou pela ficção do cinema, também se tornam mais e mais grisalhos numa velocidade muito maior e muito menos humana que no caso do malogrado líder da Confederação do Equador.



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Histeria em castelhano


[s/i/c]



Porcina e máscaras

Está certo, com certas coisas, melhor não brincar. Mas em meio a toda essa histeria coletiva em torno da gripe suína, bem que soa engraçada a designação dada em castelhano para a dita epidemia: gripe porcina.

Além do que, o uso de tantas máscaras irá reduzir significativamente o número de cigarros fumados diariamente nas regiões afetadas enquanto perdurar a endemia. Só o trabalho de ter de tirar a máscara... Mas também é líquido que certos jogadores de futebol, de acordo com o jargão dos comentaristas, sequer vão precisar mascarar-se. Já desfilam de máscaras, diuturnamente, diante de câmeras e microfones.



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"Valei-me, meu Padrinho Cícero e a Mãe de Deus das Candeias..."


Pe. Cícero, c. 1924



Fé, Política e Guerra Civil no Joaseiro



Um livro a aguardar: a biografia de Padre Cícero, que segue sendo escrita por Lira Neto.

Os estudos anteriores sobre o fenômeno do taumaturgo do Cariri, tais como Milagre em Joaseiro, do brazilianista Ralph Della Cava, além de assomarem excessivamente colados numa perspectiva sociologizante, já foram escritos de há muito. No caso, o livro de Della Cava data de 1977.

E o Padim bem que anda precisado de uma biografia bem redigida, que escorra o assunto para um público mais amplo, sem, no entanto, perder em profundidade e novas nuanças, detalhes; e numa abordagem ampla, que configure a contento a dimensão política - mas não menos religiosa e ritualística - de tão singular figura.

Há que ser uma biografia para os tempos da Juazeiro urbana, que conforma, com o Crato e Barbalha, um agolmerado de mais de meio milhão de habitantes. Algo que, como fenômeno de expansão urbana, já deixou na poeira sua predecessora mais antiga, Juazeiro da Bahia, a terra de um certo João Gilberto. Cidade também marcada pela proximidade de um quiliasma religioso. O maior deles, aliás: Canudos.

Em adendo, o belo documentário Sertão de Acrílico Azul Piscina, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, traz imagens noturnas surpreendentes dessa Juazeiro em franca urbanização, repleta de letreiros luminosos em tomadas difusas, ao modo de uma Las Vegas do Sertão.

As biografias também surgem da necessidade de traduzir para uma mentalidade hodierna fenômenos como os do Padre Cícero, que estão longe de se esgotar, em toda amplitude de suas ressonâncias.

A conferir.


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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sobre Freud, Lacan e Odair José


Le Corbusier, Chaise Lounge



Adivinha o que brilha mais



Le Corbusier é uma das celebridades do alto-modernismo que mais fascina o universo de língua inglesa. Há atualmente nada menos que 8 (oito!) biografias em catálogo sobre o arquiteto franco-suiço no idioma de Shakespeare. E na semana passada, uma ampla resenha sobre elas no New York Review of Books. Outras já haviam saído, à virada do ano, e em prestigiosos jornais e revistas norte-americanos, como The Nation, International Herald Tribune ou Washington Post.

Quase todas se assemelham. Os biógrafos mal disfarçam sua admiração diante do acúmulo de talento, poder e prestígio desse filho de um relojoeiro calvinista que desenhou para o próprio pai uma casa inabitável, apesar de caríssima. Todos ressaltam, de outro modo, que a obsessão de Le Corbusier era, de fato, a mãe. E fazem esquematicamente da vida do influente arquiteto uma espécie de ode ao complexo de Édipo. Ou uma via-crucis do menino mimado.

O que há nessas biografias de tão previsível? Algo análogo ao que David Foster Wallace apontou numa brilhante resenha sobre uma biografia de Borges: a redução da obra em prol de um psicologismo barato. Um psicologismo que reduz a obra do biografado da vez a uma sorte de linha reta provinda de certa eleição de comportamento em análise: no caso de Borges, sua falta de jeito no relacionamento com as mulheres, mas também - e a exemplo de Le Corbusier - um excessivo apego à figura materna. Pronto, basta que o leitor se sinta um pouco cativado pela própria argúcia...

Trata-se de biografias que fazem o leitor "sentir-se" inteligente.

Mas será que explicam alguma coisa mesmo? Ou são apenas, como sugere Foster Wallace, um engodo que visa, entre outras, simplificar as coisas, ao propor nexos causais que parecem afagar o ego do leitor no sentido de jogar para ele, feito isca, uma espécie de esquema monocausal, que, ao mesmo tempo que busca uma chave para todos os mistérios também faz esse leitor sentir-se mais... inteligente? [Algo análogo ocorre em filmes, como no medonho Meu Nome Não é Johnny].

Acautelar-se diante dessas biografias que parecem insinuar, ao modo de um clássico vt publicitário dos anos 70: "adivinha o que brilha mais:/ o assoalho da mamãe/ ou sapato do papai?"

Assim como não se pode reduzir a obra de Kafka á tirania do pai, é fazer café pequeno de gente como Borges ou Corbusier restringir o vetor de criação deles ao fato de serem supostos "menininhos-da-mamãe". Os leitores, no entanto, adoram essas reduções psicologizantes. Elas parecem "explicar" muita coisa do processo criativo desses gênios. Tudo. Como se "tudo" fosse passível de explicação. Ainda que por Freud, Lacan ou Odair José ("felicidade não existe/ o que existe na vida são momentos felizes").



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O homem que colecionava cidade


[s/i/c]



Modus Espelendi Parvulos e o Cu da Gia


João Nogueira é mesmo um cronista surpreendente. Basta se ler dele notícia sobre os antigos lampiões de rua, que se acendiam queimando azeite de peixe. O modo talhado como Nogueira os descreve vale mais que uma sequência de fotos. Ou então, sua crônica sobre os antigos e lúgubres enterros noturnos, para se dimensionar a profunda modificação da relação entre o homem e a morte numa capital provinciana do Brasil, durante o espaço de algumas décadas, a partir de meados do séc. XIX. Ou as metamorfoses do senso de religiosidade embutidas nessas descrições. Ou o quanto os costumes se modificam numa vertigem sem peias. A procissão de penitentes, cuja vanguarda, segundo a lenda, deitava-se ao limiar da Igreja do Rosário para ser pisoteada pelos que vinham atrás. Para indicar, quem sabe, que os últimos seriam os primeiros. Ou os salmos alegres que se cantavam quando morria uma criança, um "anjinho". E o padre oficiante do enterro enfiava pela Rua das Flores (atual Castro e Silva) com um largo sorriso no rosto como que conduzindo uma pequena festividade, à frente do esquife, escoltado por um bando de coroinhas, seguido do maior número de crianças que se poderia reunir à ocasião, ao modo de uma ciranda organizada. A esse antigo rito católico dava-se o nome – provavelmente num latim estropiado ou gralhado – de Modus Espelendi Parvulos. Ou o inventário dos nomes antigos de ruas, praças e logradouros de Fortaleza. O antigo descampado onde se situa, hoje, o Mercado São Sebastião, ao início da atual Av. Bezerra de Menezes, por exemplo, era conhecido por todos os fortalezenses, desde os com títulos de nobreza aos carregadores de tonéis onde se acumulavam as fezes de uma residência nos tempos em que não havia esgotos, de O Cu da Gia.



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quinta-feira, 23 de abril de 2009

A estratégia mais gostosa


[s/i/c]



Teología de la Liberación



fazer filhos de maio a maio
é a estratégia mais gostosa
de arregimentar eleitores
neste mundão paraguaio



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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Time de respostas para uma indagação ociosa II


[s/i/c]




-O que você pretende com seu blogue?


-Mudar o mundo - diz o megalômano.

-Cantar os dias - diz o melômano.

-Contar os dias - diz o estatístico.

-Descobrir essa coisa MINHA, intransferível. Inefável. Algo, assim, que traduza EU mesma em interação com outro e que, sem deixar de ser MEU reflexo, passe até os demais tudo de melhor que EU tenho. Com ou sem nexo. Porque EU sei que a lua cheia não é cheia se EU mesma não a olhar. Porque, sabe, até mesmo o céu é a gente que inventa. E só EU sei - e como EU sei - que EU sou essa energia que é oito ou oitenta - diz a atriz.

-A expansão do impasse - diz o poeta de vanguarda.

-Celebrar o sublime - diz o poeta sem vanguarda.

-Dificultar a evasão dos elementos do local do crime - diz o senhor seu guarda.

-Coisificar a palavra - diz o poeta concreto.

-Dilatar o conhecimento sobre o ânus e o reto - diz o proctologista.

-Mandar-te um ramo de alecrim - diz o revolucionário português.

-Ser rebelde, porque a vida quis assim - diz Lílian, em tom de pranto.

-Entreter os outros enquanto parlo - diz o cronista.

-Saber quem eu sou - diz Roberto Carlos.


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Um time de respostas para uma indagação ociosa I


[s/i/c]



-Que cê acha do Brasil ser governado por uma mulher?


-Se já houver passado da menopausa, como aquela alemã, tanto melhor - diz o psicanalista.

-É bom que seja casada no religioso. Caso contrário, uma solteira resolve - diz o padre.

-Se não tiver participado da luta armada, melhor ter colhões - diz o "companheiro".

-Coração de mãe só se engana na presidência... - diz o cínico.

-O pior é que nem com uma flor a gente vai poder bater nela - diz o jornalista.

-Que respostas mais preconceituosas! - diz o fi'd'uma égua.

-Como ela é velha! - diz uma mulher ligeiramente mais nova.

-Como ela é nova! - diz uma mulher ligeiramente mais velha.

-Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz - diz o anarquista.

-Poderosa! - diz o esteticista.

-A condição de mulher é o período na vida de uma fêmea após sua infância, geralmente marcado fisicamente pela ocorrência da menarca - diz o redator da Wikipédia, após assegurar-nos de que "na infância, normalmente é denominada em português como menina e na adolescência como moça ou rapariga (este último termo, de conotação pejorativa no Brasil)".

-Nada de mais - diz o cidadão comum (caso ele existisse).

-Ela até que ficou melhorzinha depois do recheio de botox, mas que vestido horroroso! - diz uma outra mulher no dia da posse.

-Uma boa idéia! - diz Vinícius de Moraes no Paraíso.



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sábado, 18 de abril de 2009

Tudo que perpassa ou permeia


Roy Linovsky, Defesa de Tese, 1969



Breves



Monografias, dissertações, teses
Tudo que "perpassa" ou "permeia" por um "viés" tem uma maior possibilidade de ser conto do vigário.

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Estudos Culturais
O conceito de identidade, central para os professores brasileiros que copiam Stuart Hall e a senda dos estudos culturais (cultural studies), assoma um bocado suspeito, embora seja hoje uma espécie de panacéia. A chave que abre as sete portas. Para entender porque "identidade" é um conceito que pouco esclarece, clique AQUI.

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Poder e Cultura
Gestão cultural: algo hoje tão necessário quanto CHATO. Gestores, curadores, facilitadores, multiplicadores, ativistas, produtores, mediadores... E pensar que a vida, se você não se cuidar, pode se resumir a isso! A burocracia. Por que não há mais aqueles intelectuais da estirpe de um Rodrigo Melo Franco de Andrade? Aqueles que administravam bem e sem tanta algazarra: criavam órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico, conseguiam verbas, tombavam edifícios, fundavam museus, catalogavam obras de arte... E tudo sob uma discrição quase monástica.

Invejável, de fato.

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Lei de Incentivo à Cultura
Parágrafo Primeiro e Único: Não importa o modelo de legislação em vigor para a cultura, a iniciativa privada sempre será capaz de arrancar do governo o cêntuplo do que o governo esmola junto à iniciativa privada.

Mesmo que se revoguem as disposições, os contrários, a hipotenusa, a soma do quadrado dos catetos, os incentivos fiscais e a Lei de Talião.


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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Sim, uma música forte... mas sem as manguinhas de fora


[s/i/c]




Cadê o notebook?



Fortaleza é uma cidade de música forte. De música de porta a fora. Ouve-se música no supermercado, nos bares, no consultório do oftalmologista, na rua, nos apartamentos, por vezes (argh)! em volume ensurdecedor nos carros. E até na Bienal do Livro. Ouve-se música a valer nos ônibus. Nas barracas de uma praia loteada. Quase sempre, na praia, como em muitos outros locais "públicos", música de gosto duvidoso e altura sem futuro. Aqueles forrós medonhos que transformam em trapo tudo que tocam, num andamento frenético. E que lembram a vulgar carranca de maquiagem das bailarinas - que, em parte, parece ter sido absorvida por boa fração das garotas da cidade.

Se duvidar há música até nas enfermarias, maternidades e UTI's. Nos fóruns e tribunais. Nas igrejas Evangélicas e nos cultos da Renovação Carismática, elas são muito parecidas: têm três acordes, se tanto, um refrão grotesco de base onomatopaica e remetem a um filme de terror. Um filme, aliás, que bem pode ser dirigido por Padre Marcelo Rossi. Em resumo, esses "cânticos" parecem haver sido compostos nos quintos dos infernos. Ainda bem que há, para compensar, os vendedores de chegadinho. Cada um deles seguindo um padrão rítmico diverso ao triângulo, enquanto seguem vendendo seus confeitos numa flanagem sem fim, quarteirões adiante.

Também auspiciosos são os dias de chuva. Em que o silêncio se destaca um pouco mais, sob a música dos pingos.

Fortaleza é uma cidade de música forte. À sua vez, parece também um sacrilégio dizer isso. Especialmente quando se sabe que pouca gente, de fato, vive de música na cidade. E, no entanto, há tantos vivendo para a música. Vá a qualquer bar ou boteco da Aldeota: do Mistura Cenários ao Bar do Papai, do Arlindo ao Fafi, passando pelos Bebedouros e Cafés Pagliucas da vida, e todos têm sua dose de música ao vivo. Seu cardápio sonoro.

Ouve-se de tudo: jazz, bossa-nova, covers de rock, tecno, rap, samba, chorinho, velhas serestas... Temos até nossa própria e intransferível Lady Day: a imprevisível e temperamental Fátima Santos. Uma roda se reúne às quartas na Mercearia, ao lado do Mercado dos Pinhões, para escutar o programa de jazz de Maurício Matos, pré-gravado na Rádio Universitária. Bom programa. Há músicos para todos os gostos e estilos. Gente jovem tocando como gente grande, talentos escorrendo pelo ladrão. Desde covers de Raul Seixas no Cantinho Acadêmico á sofisticação de grupos como a Marimbanda ou instrumentistas da estirpe do violonista e bandolinista Carlinhos Patriolino ou do saxofonista Márcio Resende.

E, no entanto, quase nenhum desses músicos que vendem seu talento a preço de banana aos proprietários de bares e botecos se deram conta de quatro notas dissonantes: i. o conceito do cd, de "gravar e editar um cd", já foi pro espaço há muito tempo; ii. as imensas possibilidades do mundo digital e da internet ainda não são vistas nessas apresentações; iii. as gigs são quase sempre de standards, não funcionam como amostras de criações individuais ou coletivas; iv. praticamente inexiste, mesmo nas gravações de estúdio, uma concepção mais apurada de arranjo ou direção musical. Os instrumentistas, que são vários e excelentes, em sua maioria confundem velocidade com virtuosismo; excesso de acordes com sofisticação harmônica. Musicalmente, o resultado é uma espécie de "monocordia" praticamente desprovida de um aspecto fundamental: dinâmica.

Os sinais de que isso tudo iria cansar, num dia não tão distante, foram surgindo com lentidão geológica. O primeiro álbum praticamente a prenunciar o final do cd gravado em estúdio, cá por Fortaleza, por exemplo, já data de 2002: Kinobox, um disco produzido por um piauiense chamado Dustan Gallas para o grupo Realejo Jazz Quartet, do qual ele fazia parte. Escrevi sobre esse disco à época para O Povo. O álbum foi todo gravado em casa, à base de bricolagem real e digital e um notebook MaCintosh. Da bateria gravada no banheiro, de distorções de voz usadas como serialidades percussivas. Ele porta sonoridades surpreendentes. Uma grande dose de inquietude e invenção.

E assim se passaram sete anos. O Dustan apurou ainda mais sua perícia para produzir sons a partir da eletrônica e dos dispositivos digitalizados. Tornou-se um produtor refinado, que aponta para a bricolagem digital. Para calibrar sonoridades estranhas, à margem da assepsia e da limpeza insípida das mesas de controle de som multicanais dos grandes estúdios da cidade.

E, ainda assim, meu compadre, sete anos depois, ainda é raríssimo ver uma banda, um músico que também "toque" notebook em sua gig de barzinho. Parece que a maioria ainda sonha em entrar no estúdio com uma mesa de 64 canais, gravar um superdisco de doze faixas e ter seu talento sancionado pela Associação dos Críticos do Estado de São Paulo. Mas peraí. Num tá faltando uma dose de ousadia aí não, camarada?


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Expressar com mais sutileza: nota pessoal sobre documentários & mais além


Gabriel Andrade. Still de Uma Encruzilhada Aprazível, 2006


Ruy Vasconcelos. Still de As Vilas Volantes, 2005





O que é feito com dinheiro público há que ter uma dimensão pública
-mesmo e principalmente sem perder arrojo na linguagem


i. Migrando para o computador
O público médio de um filme documentário no Brasil é de 20.000 espectadores. Ou seja, a audiência de um documentário que, de fato, chega a ser distribuído nas salas de exibição de cinema. E, ainda aqui, em ponta de estoque: sessões de arte, salas de cinematecas, museus, centros culturais, etc. Partamos deste dado para pensar nas possibilidades democratizantes das chamadas novas mídias. Este blogue, por exemplo, desde setembro passado, quando instalamos um contador, já foi visto por mais de 18.000 pessoas. Estamos quase lá. E em apenas oito meses. Ora, é claro que isso aponta para o quanto as salas de cinema concentram um público extremamente exíguo entre os que vêem imagens hoje em dia no país do samba. Que esse público, que busca imagens, [digamos, aqui, mais propriamente as imagens de filmes], depois de haver passado pela experiência da televisão, conveniada ao breve interregno do vídeo-cassete, do dvd (como dispositivo autônomo, alâmbrico), e dos canais por assinatura, migra mais e mais para o computador.

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ii. Absolutamente necessário, esse toró
As câmeras digitais [pequenas, portáteis, baratas] e a edição não-linear [feita em sofwares como o Final Cut ou o Adobe Premier, num computador só um pouco mais robusto que o seu] facultaram o documentário a sabinos e cabanos. Embutida nessa vantagem do número também se implicita a desvantagem de confecção de uma vasta maioria um tanto "desajeitada" de realizações. Uma chuva torrencial e vertiginosa de novas imagens. E, no entanto, absolutamente necessário, esse toró. Pois ao menos de dentro do número podem emergir maiores possibilidades de algum esmero. Além desse número alavancar a indústria do audiovisual em Roraima, no Amapá ou em outros estados ainda mais distantes do tradicional "eixão" - que se tem roído de ciúmes por conta disso. Pois, claro, quem está acostumado ao filé-mignon e à exclusividade de um bom bordeaux, em termos de editais e verbas, se encontra muito pouco disposto a repartir, ainda que seja o pão de centeio, com os demais.

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iii. Uma divisão depropositada
É obtusa a pendenga, a propósito do montante de verbas para financiamento, via editais, que se quer criar entre as outras linguagens artísticas e as que envolvem o audiovisual. Está claro que, digamos, editar um livro é substancialmente mais barato do que pesquisar, roteirizar, orçar, produzir, gravar, editar (imagem e som) e finalizar um filme. Mesmo em vídeo e lançando mão de edição não-linear. No caso do filme, só para criá-lo, há que se pagar uma equipe. Profissionais que vivem disso: roteiristas, produtores, produtores de campo, diretores, assistentes de direção, diretores de fotografia, engenheiros de som, assistentes de câmera, diretores de arte, fotógrafos de still, pesquisadores, editores de imagem e de som, continuístas, atores, maquinistas, compositores de trilhas, músicos, figurantes... Além disso, há que se pensar na logística, no transporte, na acomodação, na alimentação desses profissionais, que, não raro, se deslocam até regiões distantes, por vezes exóticas - enfrentando desconfortos, isolamentos, precariedades, limitações de comunicação, diversão, contato, outros costumes e usanças, etc. - para a gravação de um filme. Para não falar no gasto com equipamentos: fitas de vídeo, aluguel de sets de iluminação, rebatedores, lentes, gravadores, microfones, gruas, steady-cams, direitos de imagem de arquivos, direitos autorais de fonogramas, latas de negativos... E, de resto, quantos e quantos livros estúpidos, mal redigidos, sem compromissos de pesquisa ou empenho histórico são lançados via editais públicos? Pior: até livros individuais de poesia [antologias de poesia, (em especial estrangeiras), traduções de qualquer gênero, ensaios (sobretudo históricos e do patrimônio coletivo) e romances a parte - pois estes, por razões distintas e estratégicas deveriam constituir prioridades] são lançados via editais públicos! O fato de haver maus filmes feitos com dinheiro público é apenas a contrapartida ou o "acidente" disso tudo. Mas nem sempre um mal. Um projeto é uma aposta, afinal. Um risco. Mas ao menos, no caso do audiovisual, um risco em que entra o trabalho coletivo de uma equipe, de um grupo. E, portanto, o risco é muito mais filtrado, mediado, avaliado por várias cabeças. Além disso, não se deve esquecer que o potencial de alcance e audiência, como no caso do bem desenhado programa Doctv, do Ministério da Cultura, é de milhões de pessoas no país inteiro. E assistindo documentários gravados em todos os estados brasileiros (aspecto dos mais relevantes). Aqui, de outro modo se pode, digamos, contrastar esse alcance com o dos 1.500 privilegiados (se tanto) que dispõem de dinheiro e educação formal elevada para comprar um livro de poemas. É um bom parâmetro de contraste. Note que, em termos de alcance, a razão vai de umas poucas centenas de leitores, geralmente concentrados nas capitais e nos grandes centros, detentores de altíssimos níveis de escolaridade formal, a milhões de espectadores, das extrações sociais as mais diversas, espalhados pelos quatro cantos & mais os cafundós dos cafundós do país. E melhor, que gente desses quatro cantos e desses cafundós esteja, pela primeira vez, tendo a possibilidade de "fazer" cinema e ver esse cinema feito por eles veiculado nos demais estados - inclusive no "eixão" - via televisão. A tarefa não é pequena. É uma espécie de anti-telenovela. E o país será melhor com essas anti-telenovelas sendo produzidas no Acre e no Piauí. E por gente do Acre, do Piauí. E quanto mais, melhor. A auto-estima é coletiva.

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iv. Sem suporte do circuito dos festivais mas com o empenho de uma grande equipe
De minha parte, fico feliz de os dois documentários mais autorais em que estive envolvido até aqui [As Vilas Volantes e Uma Encuzilhada Aprazível], ambos financiados mediante o programa Doctv, tenham sido vistos por milhões de pessoas em todos os estados da federação. E, mais, seguirem sendo reprisados em canais como a TV Sesc, a TV Cultura de São Paulo, e a TVE do Rio e as TV's educativas dos respectivos estados. E isso tudo, sem nem um nem outro haver entrado sistematicamente no circuito dos festivais, por pura e confessa negligência do Alexandre Veras e minha. [Ainda assim, recentemente, o Aprazível foi escolhido, por curadoria e espontaneamente, para uma mostra via Itaú Cultural, e apresentado em salas do Rio e Belo Horizonte; e As Vilas Volantes exibido no Festival de Cinema Brasileiro em Nova York, ao fim de 2008, por iniciativa dos coordenadores do Programa Doctv]. Mas, claro, boa parte do mérito de ambos os documentários, como peças de cinema em si, recai sobre uma equipe em que se encontra gente do conhecimento de causa de um Alexandre Veras, de um Ivo Lopes Araújo, de um Danilo Carvalho, de um Luiz Carlos Bizerril, de um Eudes Freitas, de um Gabriel Andrade, entre outros.

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v. Modelos e Filmar o Real
Também me move e toca - e toca forte - o fato de ambos os projetos terem sido tomados como modelos e exibidos nas oficinas do Doctv, para novos realizadores, em Brasília, nos respectivos anos consecutivos. E também que críticas idôneas, da envergadura de Consuelo Lins e de Claudia Mesquita [que passam ao largo de "tchurmas", "bairrismos", "picuinhas locais" e "guetos"], hajam destacado tanto As Vilas Volantes quanto Uma Encruzilhada Aprazível em seu instigante livro Filmar o Real (Jorge Zahar, Rio, 2008), que traça um propedêutico panorama do documentário brasileiro contemporâneo. Um dos mais importantes livros editados sobre o assunto recentemente neste país.

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vi. "Para expressar com mais sutileza o que penso"
Por fim, mas não menos importante, uma boa-nova: a Profª Agnés Clerc-Renaud, do Departamento de Etnologia da Universidade de Estrasburgo, me confessou recentemente que escreveu sua tese de doutorado em parte motivada pela leitura de um dos capítulos de minha dissertação de mestrado, As Vilas Volantes [1991]. O capítulo intitula-se "Louvores a Santa Adelaide" e trata, em largos rasgos, da religiosidade popular no distrito praieiro de Bitupitá [extremo oeste da costa cearense]. A Profª Clerc-Renaud empreendeu também uma bela tradução do capítulo para o francês, à qual intitulou "Louanges à Sainte Adélaïde". E, sobre o documentário homônimo [dirigido por Alexandre Veras em 2005], resultante desse primeiro esforço de pós-graduação, recebi da Profª Clerc-Renaud, anteontem, este generoso comentário:

"lamento que me falte o vocabulário na língua portuguesa para expressar com mais sutileza o que penso. Amei o filme pela "alma" desta região a qual me sinto profundamente ligada, que vocês conseguiram captar sem trair, pelo olhar terno sobre os personagens, pela restituição dum mundo poético a partir do verbo e da areia, pela radicalidade e singularidade do "parti pris" da filmagem que atinge ambas metas da arte e da sociologia. Agradeço por este presente e pelo curto encontro e espero ter outra oportunidade de conversar com mais tempo".

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vii. Exportar cultura
Isso está um tanto dentro do previsto. E gosto que seja assim. Me regozijo. É importante pensarmos em exportar cultura e não só mimetizar teorias e, em contrapartida, vender soja, carne, banana, minério-de-ferro, etanol ou acriticidade travestida de recepção... [aqui tanto quando se pensa em arte como quando se pensa em idéia - ou seja, naquilo que era para achar justo na academia o seu locus por excelência].

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viii. Revelar o invisível sem violar a visibilidade das coisas
Pego carona no ensejo para dizer: é superimportante estar a par de novas teorias sobre novas mídias e o uso que delas se pode fazer. Mas também para relembrar que há idéias tão boas que parecem soar quase insuperáveis. E, de resto, arte não é tecnologia - embora possa (e mesmo deva buscar) nutrir-se dela. Então, quando penso em imagem e combinada a som meu lema vem de uma tessitura das teorias de Bazin, Kracauer, Bresson, Ozu, Dreyer, Vigo, Cassavetes, Rohmer e Kiarostami. Parece muito. Mas não é. Pode ser expressa numa fórmula simples, que resumi assim: "o cinema revela o invisível sem violar a visibilidade das coisas".

Cinco sóis em uma hora


Anthony Davidson, Take Five, 1962




Quatro estilhaços e meio começando com 'um escritor'



um escritor que começa obcecado com o fato de seu texto ser ou não "decodificado" pelos leitores está mais interessado no impacto que o texto terá sobre os leitores do que no texto em si [ou seja, do que em revelar uma realidade, um desvio, um segredo, contar uma história, glosar um acontecido...]


um escritor quando escreve, não escreve para leitores [quem pensa em público, pensa em grupo; pensa em massa; pensa em múltiplo; pensa em bando; pensa em Maria, e em vai, e em com as outras. E quem pensa em número, pensa em numerário. Quem pensa em público já está censurado antes mesmo de digitar a primeira letra. Para pensar nos leitores há os políticos, os corretos, os marqueteiros, os assessores de imprensa, os publicitários, os maus jornalistas, os que nunca gaguejam, os que escrevem e apresentam telejornais, os psicanalistas, os líderes sindicais, os ditadores]


um escritor não pensa em códigos, decifrações, seu reino passa longe de semiologias, seu exílio faz parte de intuição, de verdade

um escritor não pode escrever pensando em fazer amigos, inimigos [ainda que o que ele escreva fatalmente resulte nisso]

um escritor não escolhe sobre o que escreve [como num sonho, é ele "o escolhido". Relendo depois, poderá sempre se justificar. Urdir causalidades. Traçar paralelos. Recolher cacos de passadas leituras. Rever-se. Acrescentar-se. Mas se essas justificações, causas, revisões, acréscimos acabam ganhando maior dimensão que seu próprio escrito, é porque este foi sempre menor. Quer dizer, foi sempre mais para bois e sonos. Não foi grafado com a força de sua intuição e de suas tripas, com o semi-automatismo da mão que segue, a mercê de um pensamento longe, em errância, divagação, desvio, viagem, vagabundagem, transumância, flanagem, exílio, migração. O automatismo da mão. A mão que segue quase sempre para onde nós não a mandamos]

um escritor escreve [e às vezes bem que sonha em, nas férias, seguir de moto até São Luís do Maranhão]



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