
Capa do único disco do Blind Faith (auto-intitulado com o nome da banda), 1969
Cabra-cego à caminho de casa




Uma falsa questão
Falácia de escritores que buscam deliberadamente a “imprecisão” de escrever a partir de nenhures ou de um tempo a-histórico (“tempo sem-tempo”). Pretendem negar os esforços dos outros. Dos que insistem, por inclinação, sensibilidade, em falar dos tempos e lugares que os cercam de modo mais incisivo.
A questão, em si, é obtusa.
Não há algo de proprietário aqui. Tende-se a entrever uma divisão “teórica” onde há tão-só diferenças de sensibilidade. Até porque, no mínimo, por mais que um escritor situe seu discurso no plano do genérico, este discurso provém de um corpo que, de outro modo, é condicionado geograficamente: sente frio, calor, tremores; é jovem, de meia-idade, velho.
Vive, porque atravessa espaços e tempos: passa por diferentes locais, mora em alguns deles, visita outros, adoece, é moldado por uma determinada dieta de grãos, frutas, carnes, hortaliças, tabaco, vinho, cerveja.
Por mais que esses “escritores de nenhures” se dediquem a um esforço de fábula e imaginação; essa imaginação genérica e essa fábula portam a nódoa de um lugar, de um tempo. As diversidades, aqui, se dão muito mais por conta da consciência de um passado histórico e de uma vontade de jogar ou não com esse passado. Quer dizer, no caso do sim, de um apego ao passado no sentido de variá-lo, desdobrá-lo, descontinuá-lo, estudá-lo, perspectivá-lo, deformá-lo, tresvariá-lo. Para melhor consegui-lo com palavras. Ainda quando na forma da fábula.
Não devemos esquecer que algumas das fábulas mais cativantes, delirantes e aparentemente “livres” da literatura, como o Dom Quixote de Cervantes, o Gulliver de Swift, o País das Maravilhas de Carroll, a Metamorfose de Kafka ou a Fazenda dos Bichos de Orwell não podem ser entendidos plenamente sem se conhecer, em paralelo e respectivamente, a situação de uma obscura província de Castela ao fim do Medievo; a gana colonizadora dos britânicos no séc. XVIII; a Inglaterra Vitoriana e seu moralismo tacanho; a Praga das primeiras década do séc. XX, vivenciada em alteridade por sua pequena e afluente comunidade judaica; ou um mínimo da história da Revolução Russa. Não existe algo como escrever a partir de “nenhures”. Simplesmente porque não existem “nenhures” ou atemporalidades.
Desconfie do escritor que quer soar o mais cosmopolita possível. Ele não pode abstrair-se de falar a partir de uma cultura. Uma cultura é algo maior que o desejo romântico – no mau sentido – de se inaugurar uma escritura “imune” ao local e ao tempo. O ponto, aqui, é que dá muito mais trabalho conhecer com profundidade a própria cultura em que se está imerso. E, ao invés disso, busca-se traçar com vigor um esforço para exorcizá-la em diferentes níveis. Em especial, a partir da adoção e da lapidação de uma terminologia plana, sem compositividade ou esteio histórico. A maioria dos artistas quer esquivar-se dessa tarefa de reconhecimento. Essa tarefa histórica/etnográfica. Pois ela requer tempo, paciência. E, assim, preferem reivindicar uma espécie de escrita-exílio tomando como base uma suposta cultura mundializada. E daí vem as polifonias desmapeadas e ocas. O problema é que até mesmo essa escrita-exílio e essa cultura mundializada, descentrada, desgenetizada, sem mapa, está profundamente marcada por um tempo e um local especifíssimos e que definem justamente o porquê e o como de elas se reivindicarem desterradas.
A terra em relação a qual elas estabelecem-se como “exiladas” ou “desgeografizadas” é, no fim das contas e por uma fina ironia, justo o parâmetro, o eixo mesmo dessas elocuções supostamente não axiais. Pois o próprio idioma de que lançam mão está impregnado de concretudes que tornam até mesmo as vaguidades supostamente menos atadas à história e à geografia, completamente dependente destas.
Optar por escrever algo mais rente à realidade histórica ou, do contrário, fabulá-la através do fantástico, isso é de cada um. É apenas uma opção. Mas que não se caia na armadilha de achar que tão-só por se estar supostamente escrevendo sobre temas abstratos ou gerais– afetos, amor, sexo, dinheiro, ritos de passagem, morte, existencialismos proto-filosóficos – também se está escrevendo a partir de um limbo temporal e espacial. O tempo e o espaço irão cobrar essa dívida mais cedo ou mais tarde. Afinal, embora a percepção deles se tenha modificado em progressão avassaladora, num ritmo ditado pela cibernética, nas últimas décadas, ainda não se pode viver fora de um tempo e de um espaço. Mesmo que a percepção desse tempo e desse espaço hajam sido fundamente modificadas pelas extensões do que hoje conhecemos como mundo virtual.



Rua Raul Pompéia. Pompéia. Zona Oeste. São Paulo. Terceiro andar.
No Dia de Finados de 2001, fui dormir de madrugada. O sono foi intenso, mas curto. Acordei pouco antes da manhã. Sábado. Talvez com um fiapo do que andara lendo. Tratavam-se dos Comentários de São João da Cruz à Noite Obscura da Alma. Pela janela entreaberta, filtrava-se a frialdade. E uma perna de bairro mais desolado e belo fazia-se ao claro-escuro. Escrevi um poema e tomei um pouco de leite. Enviei o poema, por imeio, para alguns amigos.
E fiquei meio lendo, meio cochilando até depois do meio-dia.
Então desci ao pequeno café do supermercado 24 horas. O dia estava encoberto e ameno. Pedi um café com leite e um pão com manteiga. A balconista era certamente novata. Havia algo de estranhamente desajustado em seus gestos. Em menos de meia-hora, tomei meu café e li um pouco mais de São João da Cruz. E notei que o pão viera sem o miolo. Um desses garotos descabelados e rotos me pediu algo em voz baixa. Minha resposta, em voz baixa, o dissuadiu de insistir por algo.
Quando paguei o café, disse à balconista novata:
–Achei interessante que o pão tenha vindo sem o miolo. Às vezes, eu até gosto assim. Mas, talvez, nem todos os clientes vão achar simpático.
Ela me interrompeu com um sorriso constrangido, onde havia um mau dente bem incisivo:
–É que o pão tava quentinho, eu pensei que...
Ao sair do supermercado, com o feriado estendido desacelerando as horas, me ocorreu ir até um café, e passar o resto da tarde lendo por lá. E tomar alguma cerveja para abrir o apetite. O Dia Santo, da véspera, despovoara um tanto as ruas. Estava agradável caminhar. Notei cordões bem finos enroscados, como delicados cipós, ao longo dos fios de telefone, e que isso me agradava. Passei por um homem, com sacolas de supermercado. E ele lambia uma espécie de selo. E sobressaltou-se quando notou que era notado. Uma jovem moça, bela como um anjo, passeava seu advento. Sem timidez. Nem expansão. Mas um certo, espontâneo, aloofness. Uma mulher loura, madura e branca, excessivamente contida, em formas densas, sob um jeans, prendeu meu olhar por um lapso, próximo a um ponto de ônibus. E lembrei de um poema. De Pessoa: “Dá a surpresa de ser/ É alta, de um louro escuro/ Faz bem só pensar em ver/ Seu corpo meio maduro”. Chegando ao outro café, dei com todas as mesas à calçada, vazias. Dispostas de certo jeito que gosto. Mas um impulso me disse para não sentar ali.
Segui até o fim do quarteirão. E desatei um passeio pelas ruas em volta. E de novo me veio a visão e o sabor daquele casca de pão, a manteiga liqüefeita, por cima, como se da terra. E de novo me veio o sorriso da balconista. Seu mau dente. E minha fria formalidade.
Pensei em direitos do consumidor. Está na moda. Como o feminismo. O politicamente correto. Uma certa compulsiva ênfase para se falar em discriminação. Meio à americana. A bobagem de todos se mostrarem infinitamente complacentes com os aidéticos ou os homossexuais à frente das câmeras e de microfones abertos. E em meio a toda essa massa sem fermento, os tais direitos do consumidor. Mas que argumentos de pão mais sem miolo! O que, no fim de tudo são os direitos do consumidor?
Por exemplo, o que são os direitos do consumidor diante do que se deve a ao próximo? Não são nada. Quando muito, a ratificação mais extrema da insanidade. E ainda mais diante daquele constrangimento da balconista. De seu mau dente. De seu primeiro dia de trabalho. De seu acanhado, belo sotaque nordestino. De sua perene divindade. De ela apontar que, de fato, Deus é brasileiro – porque falta tanto para tantos. Do fato de estar ali desde manhã, e de ter tomado um ônibus para estar ali, desde antes de manhã, enquanto se pode escrever poemas, passar imeios para amigos em cidades distintas, perambular pela cidade, lembra-se de um poema de Pessoa, ler São João da Cruz – e entender tão pouco. Do fato de ela mal saber ler, enquanto se pode fazer pós-graduações insípidas, tão sem sentido, tão inúteis diante do essencial, do fato matinal que é um café com leite com pão e manteiga.
Mesmo sem miolo. E pus os óculos escuros, para disfarçar que uma certa tristeza corresponde a água salgada nos olhos.
E voltei para casa. Feliz, por lesado em meus direitos de consumidor. Talvez com um pouco mais de miolo.
* * *
As aves do céu que não
semeiam nem colhem
cantam e cantam numa
rua paulistana ao
araxá do dia.
E à dobra da manhã
girando nos gonzos um
suave azul-sem-sol
sobre a fachada dos
pequenos sobrados,
às primeiras árvores
que são verdes, ao
primeiro homem que
assustado, desce a
ladeira em mangas de
camisa, ao primeiro fur-
gão onde se pode ler
‘reportagem’ em letras
verdes sobre um fundo
branco, às últimas luzes
das garagens alter-
nando amarelos e vermelhos,
ainda vivas, às luzes ao
longe, devoradas pelo serrar-
se do dia, à única lâmpada
acesa por trás de um
basculante à frente de
diferentes frascos à distância
de uma quadra, no terceiro e
último andar de um prédio
de uma noite, de um dobre
de finados, e à distância de
muitos e no último andar
da distância, a Serra da
Cantareira, impassível
no mais encantado
suave, sereno, suspenso
como o canto das aves
do céu que não semeiam
nem colhem, mas
colam as franjas do dia.
Nota: "Um Pouco Mais de Miolo" foi originalmente publicada na revista de crônicas Nariz de Cera. "Rua Guiará" saiu originalmente na revista de poesia Inimigo Rumor.
* * *




